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UC · Unidade de Competência · UC02923

Montagem e ensaio de conjuntos mecânicos

Sequência, alinhamento, apertos, ensaios, documentação
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Mecatrónica ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

Esta UC fecha o ciclo de fabrico: depois de produzir/comprar os componentes, é preciso montá-los num conjunto funcional. A qualidade da montagem define a vida útil do equipamento — uma máquina mal montada falha em meses; bem montada dura décadas.

Cobre: leitura do desenho de conjunto, sequência de montagem, alinhamento, apertos controlados, ferramentas específicas, ensaios funcionais, documentação de comissionamento.

Pré-requisitos: UC02855, UC02849, UC02877, UC02918, UC02919, UC02922.

1. O ofício da montagem

1.1 Porquê é difícil

Componentes individuais podem estar perfeitos dentro de tolerância, mas ao montá-los:

1.2 Princípios universais

  1. Limpeza absoluta — antes, durante, depois.
  2. Sequência lógica — base primeiro, rotativos depois, vedantes no fim.
  3. Alinhamento controlado com método apropriado.
  4. Apertos mensurados com torquímetro.
  5. Lubrificação adequada (tipo + quantidade).
  6. Ensaios funcionais antes de pôr em serviço.
  7. Documentação completa de cada conjunto.

1.3 Erros comuns

2. Leitura do desenho

2.1 Antes de tocar em peças

Tempo investido a ler: 10-30 min consoante complexidade do conjunto. Poupa horas de erro.

Lista de verificação:

  1. Vista geral do conjunto.
  2. BOM (lista de peças) — todas as peças estão presentes? Confirmar quantidades.
  3. Vista explodida ou sequência sugerida.
  4. Notas técnicas — torques, lubrificação, tolerâncias críticas.
  5. Símbolos ISO de tolerâncias, ajustamentos, soldaduras.
  6. Cortes que mostram interior.
  7. Detalhes ampliados em zonas críticas.

2.2 Identificar elementos-chave

3. Sequência de montagem

3.1 Ordem típica

1. Carcaça / base               (peça mais rígida e pesada)
2. Apoios fixos (rolamentos, casquilhos)
3. Veios principais             (com elementos rotativos já parcialmente montados)
4. Engrenagens / polias / rotores
5. Mecanismos secundários       (chavetas, tirantes, alavancas)
6. Casquilhos, retentores
7. Carter ou tampa
8. Vedantes finais
9. Lubrificação inicial
10. Ensaios funcionais
11. Ajustes finais
12. Documentação

Cada passo deve ser uma verificação antes de avançar para o próximo.

3.2 Preparação prévia

Antes de começar, preparar todos os componentes:

Evita ir buscar peças a meio da montagem — perde tempo + contamina com sujidade.

3.3 Banco de trabalho

4. Alinhamento

4.1 Importância

Desalinhamento entre veios de máquinas acopladas é a causa principal de:

Investimento em alinhar bem amortiza-se em tempo de vida de equipamentos.

4.2 Tipos de desalinhamento

1. Axial
   ─────●●●●●●─────  ¦  ─────●●●●●●─────
   Veios separados longitudinalmente (gap)

2. Paralelo (offset)
   ─────●●●●●●─────
                  ¦
   ─────●●●●●●─────
   Eixos paralelos mas deslocados

3. Angular
   ─────●●●●●●─\
                \ ¦
                ─────●●●●●●─────
   Eixos com ângulo entre si

Realidade: geralmente uma combinação dos 3.

4.3 Tolerâncias

Acoplamento Desalinhamento radial Angular
Rígido 0,02-0,05 mm < 0,01°
Flexível (jaw, spider, beam) 0,1-0,5 mm 0,5-2°
Universal (Cardan) — 5-30° (depende do tipo)
Acoplamento de membranas (disc) 0,1-0,3 mm 0,5-1°
Direct drive motor + bomba < 0,05 mm < 0,03°/100 mm

Tolerâncias diminuem com a velocidade rotacional (alta rpm exige alinhamento mais apertado).

4.4 Métodos

Régua + apalpa-folgas (low-cost):

Comparador em base magnética (médio):

Sistema Rim & Face com 2 comparadores:

Laser de alinhamento (profissional):

4.5 Procedimento prático (comparador)

  1. Apertar temporariamente os 4 chumbadores do motor.
  2. Medir desalinhamento (paralelo + angular).
  3. Calcular calços (shims) necessários.
  4. Soltar chumbadores traseiros, inserir/retirar calços, apertar.
  5. Re-medir.
  6. Iterar até atingir tolerância.
  7. Apertar definitivamente todos os chumbadores em cruz.
  8. Re-medir após aperto final (aperto pode desalinhar ligeiramente).

Tempo típico: 30 min a 2 horas consoante experiência.

5. Apertos controlados

5.1 Porquê torque controlado

Parafuso apertado correctamente está sob pré-carga axial (tracção elástica). Esta pré-carga:

Aperto incorrecto:

5.2 Pré-carga vs torque

A relação não é trivial:

T = K × F × d

T = torque aplicado (N·m)
K = factor (0,15-0,20 conforme lubrificação)
F = pré-carga axial pretendida (N)
d = Ø nominal (m)

Pré-carga típica:

5.3 Tabela orientativa (classe 8.8 seco)

Rosca A_núcleo (mm²) Torque (N·m) Pré-carga (kN)
M5 14,2 6 6,3
M6 20,1 10 8,9
M8 36,6 25 16,3
M10 58 50 25,8
M12 84,3 85 37,5
M16 157 210 70
M20 245 415 109

Lubrificação reduz K → mesmo torque dá mais pré-carga:

Classe maior → torque maior:

5.4 Sequência

Para juntas com múltiplos parafusos:

Padrão para 6 parafusos em flange:

      1
   5     3
   4     6
      2

Para 12+ parafusos, dividir em quadrantes.

5.5 Ferramentas

Torque alvo Ferramenta
< 1 N·m Torquímetro pequeno (motorizado, electrónico)
1-25 N·m Torquímetro click-style 1/4" ou 3/8"
25-200 N·m Torquímetro click-style 1/2"
200-1000 N·m Torquímetro 3/4" ou de deflexão
> 1000 N·m Torquímetro hidráulico, multiplicador

Calibração anual obrigatória em torquímetros profissionais. Pequenas variações comprometem precisão.

5.6 Anti-desaperto

Para parafusos em vibração:

6. Ferramentas específicas

6.1 Para rolamentos

Regra absoluta: ao montar com prensa, força axial deve passar pela pista de aperto (interna se vai num veio; externa se vai num furo). Forçar pela pista oposta destrói as esferas.

6.2 Para engrenagens / polias

6.3 Para mecanismos finos

7. Ensaios funcionais

7.1 Sem carga (no-load)

Antes de aplicar carga:

  1. Rodar à mão — sentir arrastamento, ruído, prisão.
  2. Ligar à velocidade mínima (jog) — observar 30 segundos.
  3. Aumentar gradualmente até velocidade nominal.
  4. Monitorizar:
  5. Ruído (familiar vs metálico estranho).
  6. Vibração (mão na carcaça; idealmente acelerómetro).
  7. Temperatura (mão livre; idealmente termómetro infravermelho).
  8. Consumo do motor (amperímetro).
  9. Durante 15-30 min, observar evolução.

Sinais de problema → parar, diagnosticar, corrigir.

7.2 Com carga (load test)

Após no-load OK:

  1. Carga progressiva: 10%, 25%, 50%, 75%, 100% nominal.
  2. A cada nível: 10-15 min de estabilização.
  3. Medir:
  4. Corrente eléctrica (vs nominal do motor).
  5. Vibração (m/s² ou mm/s rms).
  6. Temperatura dos rolamentos (idealmente < 70°C).
  7. Pressão / caudal (em bombas, compressores).
  8. Ruído com sonómetro.
  9. Comparar com valores de projecto/catálogo.
  10. Registar tudo em ficha de comissionamento.

7.3 Sinais comuns de problema

Sintoma Causas prováveis Acção
Vibração elevada Desalinhamento, desequilíbrio, folga em rolamentos Re-alinhar, equilibrar, substituir rolamento
Ruído metálico Rolamento mal montado, falta de massa, folga axial Inspeccionar, re-montar
Temperatura > 80°C Atrito excessivo, lubrificação inadequada Verificar massa, sentido de rotação
Fuga de óleo Vedante mal colocado/danificado Substituir vedante
Consumo eléctrico alto Sobrecarga mecânica, alinhamento Investigar carga real
Falta de potência Acoplamento solto, eixo torcido Verificar acoplamento

8. Documentação de comissionamento

8.1 Ficha de comissionamento

Para cada conjunto montado, documento com:

IDENTIFICAÇÃO
- Projecto / nº de série
- Localização (linha, posto)
- Data de montagem
- Montador(es)

COMPONENTES (BOM com lotes/séries)
- 1× Carcaça nº ABC-001 lote 2026/05
- 2× Rolamentos 6308 SKF, lote XYZ
- 1× Veio principal nº DEF-005
- ...

APERTOS
- Parafusos flange (8× M12): 85 N·m
- Chumbadores motor (4× M16): 210 N·m
- ...

ALINHAMENTO
- Método: laser
- Desalinhamento paralelo: 0,03 mm
- Desalinhamento angular: 0,02°/100 mm
- Calços usados: 0,5 mm + 0,2 mm no rear

LUBRIFICAÇÃO
- Massa: SKF LGEP 2 (extreme pressure)
- Quantidade: 30g por rolamento
- Próxima manutenção: 2 000 h

ENSAIOS
- No-load 30 min: OK, temp 45°C, vib 1,2 mm/s
- Load 100%: OK, temp 62°C, vib 2,1 mm/s
- Corrente: 14,2 A (nominal 15 A)

NOTAS
- Detectado pequeno arranhão na carcaça (cosmético)
- Substituído vedante labial 25x42x7 por desgaste no transporte

ASSINATURA
- Montador: João Silva
- Aprovador: Maria Santos
- Data: 2026-05-21

8.2 Suporte adicional

8.3 Rastreabilidade

Saber 5 anos depois:

Em conjuntos críticos (aviação, médico, nuclear), rastreabilidade é obrigatória por norma.

9. Liga a outras UCs

10. Conclusão

Montagem bem feita é invisível — a máquina funciona silenciosamente durante anos. Montagem mal feita é visível em semanas: vibração, ruído, falhas precoces.

A diferença está em disciplina: ler o desenho, preparar componentes, alinhar com instrumento, apertar com torquímetro, ensaiar com método, documentar com rigor. Cada passo é simples; fazer todos consistentemente é o ofício.

Apêndice A · Checklist diária de montador

ANTES DA MONTAGEM
[ ] Desenho de conjunto lido (BOM, vista explodida, notas)
[ ] Todos os componentes inventariados
[ ] Componentes limpos e inspeccionados
[ ] Banco limpo + ferramentas organizadas
[ ] Torquímetro calibrado
[ ] EPI completo

DURANTE
[ ] Sequência respeitada (base → veios → rotativos → vedantes)
[ ] Sem forçar peças
[ ] Lubrificação aplicada conforme indicado
[ ] Apertos em cruz e em fases

APÓS
[ ] Ensaio sem carga 15-30 min
[ ] Ensaio com carga progressiva
[ ] Valores medidos vs catálogo
[ ] Ficha de comissionamento preenchida
[ ] Fotografias + vídeo
[ ] Posto limpo

Apêndice B · Recursos