Dimensionamento de elementos e órgãos de máquinas
Introdução
Esta UC ensina os princípios de cálculo para dimensionar elementos mecânicos simples — saber se um parafuso aguenta a carga, se um veio resiste ao torque, se um rolamento dura o suficiente. Não substitui engenharia mecânica formal mas dá ao técnico de manutenção a capacidade de verificar selecções e dialogar com projectistas.
Pré-requisitos: UC02855, UC02848, UC02877.
1. Forças e cargas
1.1 Tipos de carga
Estática — aplicada lentamente e mantida constante. Ex.: peso de carga apoiada numa bancada.
Dinâmica (cíclica) — varia repetidamente no tempo. Ex.: força em biela de motor a 3000 rpm; vibração; cargas reversíveis.
De impacto — aplicada em milissegundos. Ex.: martelo, choque, queda. Equivalente a 2-4× a força estática.
Tipo de carga determina: - Factor de segurança (FS). - Material (impacto requer aços tenazes). - Necessidade de calcular fadiga (cíclica).
1.2 Forças vs momentos
- Força (F): empurra ou puxa numa direcção. Unidade N.
- Momento (M): tende a rodar. M = F × d (N·m).
Em órgãos de máquinas, momentos são tão importantes quanto forças — uma chave dá a alguém um pequeno torque que se torna grande no parafuso.
1.3 Unidades práticas
1 kgf = 9,8 N ≈ 10 N
1 N = 0,102 kgf
1 N·m = 0,102 kgf·m
1 MPa = 1 N/mm² = 10 kgf/cm² ≈ 10 bar
2. Materiais
2.1 Propriedades-chave
| Propriedade | Símbolo | Unidade | O que mede |
|---|---|---|---|
| Limite elástico | σy | MPa | Tensão acima da qual deformação é permanente |
| Resistência à rotura | σr | MPa | Tensão que quebra a peça |
| Módulo de elasticidade | E | GPa | Rigidez (resistência à deformação elástica) |
| Dureza Brinell | HB | adimensional | Resistência à indentação |
| Dureza Rockwell | HRC | adimensional | Idem, escala C |
| Alongamento | δ | % | Quanto estica antes de partir |
| Resiliência | K | J/cm² | Energia que absorve antes de partir |
2.2 Tabela de aços comuns
| Aço | σy (MPa) | σr (MPa) | E (GPa) | δ (%) | Uso |
|---|---|---|---|---|---|
| S185 | 185 | 290-510 | 210 | 18+ | Estrutural básico |
| S235 | 235 | 360-510 | 210 | 26 | Estrutural geral (80% casos) |
| S275 | 275 | 410-560 | 210 | 22 | Estrutural |
| S355 | 355 | 470-630 | 210 | 22 | Estrutural exigente |
| C22 (1.0402) | 240 | 430-550 | 210 | 25 | Peças maquinadas leves |
| C45 (1.0503) | 340 | 580-700 | 210 | 16 | Veios, peças torneadas (padrão) |
| C45 temperado | 540 | 850 | 210 | 8 | Veios endurecidos |
| 42CrMo4 | 650-900 | 900-1100 | 210 | 12-14 | Engrenagens, eixos críticos |
| AISI 304 | 215 | 520 | 200 | 45 | Inox geral |
| AISI 316 | 220 | 520 | 200 | 40 | Inox marítimo/químico |
2.3 Outros materiais comuns
- Alumínio 6061-T6: σy ≈ 275 MPa, E = 69 GPa.
- Bronze fosforoso: σy ≈ 200 MPa, baixo atrito.
- Ferro fundido cinzento: σr ≈ 200 MPa (frágil), bom para amortecimento.
- Plásticos engenharia: σy varia muito (PA66 ~ 80 MPa, POM ~ 70 MPa).
3. Tensões
3.1 Tracção e compressão
σ = F / A
σ = tensão (MPa)
F = força axial (N)
A = área da secção (mm²)
Para a peça não plastificar:
σ ≤ σadm = σy / FS
FS = factor de segurança
Exemplo: cabo em aço S275 com Ø 8 mm a sustentar 5 kN. - A = π × 8²/4 = 50,3 mm² - σ = 5000 / 50,3 = 99,4 MPa - σadm = 275 / 2 = 137,5 MPa - ✓ OK (FS real = 275/99,4 = 2,8)
3.2 Corte (cisalhamento)
τ = F / A
Aplicação: parafusos a cortar, pinos, cordões de soldadura submetidos a carga lateral.
Tensão admissível ao corte:
τadm ≈ 0,57 × σadm (critério de von Mises)
Exemplo: parafuso M8 classe 8.8 a cortar. A_núcleo = 36,6 mm². - τadm = 0,57 × (640/3) ≈ 121 MPa. - Fmax = 121 × 36,6 ≈ 4 430 N ≈ 450 kgf.
3.3 Flexão
Para uma viga sujeita a momento flector M:
σ = M × c / I = M / W
M = momento flector (N·mm)
c = distância do eixo neutro à fibra extrema (mm)
I = momento de inércia da secção (mm⁴)
W = I/c = módulo de flexão (mm³)
Módulos comuns: - Secção circular Ø D: W = π·D³/32. - Secção rectangular b×h: W = b·h²/6. - Catálogos de perfis (UPN, IPE, HEB) dão W directamente.
Exemplo: viga UPN 100 (W = 41,2 cm³ = 41 200 mm³) submetida a M = 5 kN·m = 5 000 000 N·mm. - σ = 5 000 000 / 41 200 = 121 MPa. OK para S235 com FS ~ 2.
3.4 Torção
τ = T × r / J = T / Wt
T = momento torsor (N·mm)
J = momento polar de inércia (mm⁴)
r = raio exterior
Wt = J/r = módulo de torção
Para veio cilíndrico maciço Ø D: Wt = π·D³/16.
Exemplo: veio Ø 30 em C45 transmite 100 N·m = 100 000 N·mm. - Wt = π·30³/16 = 5 301 mm³. - τ = 100 000 / 5 301 = 18,9 MPa. - τadm = 0,57 × (340/3) = 64,6 MPa. ✓ Largamente OK.
3.5 Combinação flexão + torção
Caso geral em veios (flexão por carga radial + torção por transmissão):
σ_eq = √(σ_flexão² + 3·τ_torção²) ≤ σadm (von Mises)
Ou pelo critério de Tresca (mais conservador):
σ_eq = √(σ_flexão² + 4·τ_torção²)
Em pré-projecto: calcular só pela torção para fazer estimativa rápida; verificar flexão depois.
4. Factor de segurança
4.1 O que compensa
FS = σy / σ_actual cobre incertezas: - Variação de propriedades do material. - Cargas reais > previstas. - Cargas dinâmicas/imprevistas. - Erros de cálculo ou de montagem. - Corrosão / desgaste com tempo. - Concentração de tensões (entalhes). - Imperícia operador.
4.2 FS típicos
| Aplicação | FS |
|---|---|
| Estática, materiais conhecidos | 1,5-2 |
| Mecânica geral | 2-3 |
| Cargas variáveis / cíclicas | 3-5 |
| Impacto, segurança humana | 5-10 |
| Aeronáutica | 1,5-2 (compensado por inspecção rigorosa + materiais premium) |
| Estruturas civis | 1,5-2,5 (normas EN 1993) |
Em manutenção industrial padrão: FS = 3 é uma escolha segura por defeito.
4.3 Tensão admissível
σadm = σy / FS
Limita o projecto. Toda a geometria/material é escolhido para que σ_real ≤ σadm em todos os pontos.
5. Fadiga
5.1 O fenómeno
Uma peça pode partir muito abaixo do limite elástico se for sujeita a cargas cíclicas. Pequenas fissuras propagam-se a cada ciclo até rotura súbita.
Comprovado em 1850 por Wöhler (engenheiro de caminhos de ferro).
5.2 Curva S-N (Wöhler)
log σ
|
σr |─.
| \.
| \.
| \____ σe (limite de fadiga)
|
+─────────────── log N
10³ 10⁶ 10⁹ ciclos
Para aços: σe ≈ 0,5 × σr. Abaixo de σe, peça aguenta "infinitamente" (10⁹+ ciclos).
Para alumínio: não há limite de fadiga real; vida calculada para N especificado.
5.3 Factores que reduzem σe
- Concentração de tensões — cantos vivos, furos, mudanças bruscas de secção (factor Kf 2-4 reduz σe).
- Estado de superfície — rugosidade alta, riscos de maquinagem amplificam fadiga.
- Temperatura elevada.
- Ambiente corrosivo — fadiga + corrosão = corrosion-fatigue, muito pior.
- Tamanho — peças grandes têm σe ligeiramente inferior.
5.4 Como evitar fadiga
- Geometria suave — raios de concordância em mudanças de secção.
- Sem cantos vivos internos.
- Acabamento fino (Ra baixo na zona crítica).
- Tratamentos compressivos (shot peening, nitruração).
- Materiais com σe alto (aços de liga 42CrMo4, etc.).
- Reduzir amplitude das cargas cíclicas.
6. Concentração de tensões
Mudanças bruscas de geometria amplificam tensão local: - Furo numa chapa em tracção: tensão na borda é 3× a tensão nominal. - Mudança brusca de Ø num veio: factor 2-4 conforme raio. - Cantos rectos em soldadura: factores grandes.
Factor de concentração Kt encontrado em tabelas (Peterson). Para fadiga: factor Kf (ligeiramente menor que Kt).
Mitigação: - Raios de concordância grandes (1-5 mm). - Furos arredondados. - Soldaduras com geometria suave + esmerilamento.
7. Parafusos
7.1 Classes (DIN 898)
Notação A.B onde: - A = σr / 100 (MPa) - B = relação σy/σr × 10
| Classe | σr (MPa) | σy (MPa) | Uso |
|---|---|---|---|
| 4.6 | 400 | 240 | Geral, barato |
| 5.6 | 500 | 300 | Geral |
| 8.8 | 800 | 640 | Estrutural padrão |
| 10.9 | 1000 | 900 | Alta resistência |
| 12.9 | 1200 | 1080 | Máxima |
Em estruturas mecânicas, 8.8 é o padrão por defeito.
7.2 Áreas de secção
| Rosca | Ø nominal (mm) | A_núcleo (mm²) |
|---|---|---|
| M5 | 5 | 14,2 |
| M6 | 6 | 20,1 |
| M8 | 8 | 36,6 |
| M10 | 10 | 58,0 |
| M12 | 12 | 84,3 |
| M16 | 16 | 157 |
| M20 | 20 | 245 |
| M24 | 24 | 353 |
A_núcleo é menor que área nominal (rosca remove material).
7.3 Cálculo de carga axial
F_admissível = σy × A_núcleo / FS
Exemplo: parafuso M10 classe 8.8. - F_adm = 640 × 58,0 / 3 = 12 400 N ≈ 1 270 kgf.
7.4 Cálculo de torque de aperto
T = K × F × d
T = torque (N·m)
K = factor (0,15-0,20 conforme lubrificação)
F = força axial pretendida (N)
d = diâmetro nominal (m)
Tabelas de fabricantes dão torques recomendados para cada classe e Ø.
8. Chavetas
8.1 Função
Transmitir torque entre veio e cubo (engrenagem, polia, volante).
8.2 Chaveta paralela DIN 6885
Secção rectangular b × h. Dimensões padrão pelo Ø do veio:
| Ø veio (mm) | Chaveta b × h (mm) |
|---|---|
| 10-12 | 4 × 4 |
| 12-17 | 5 × 5 |
| 17-22 | 6 × 6 |
| 22-30 | 8 × 7 |
| 30-38 | 10 × 8 |
| 38-44 | 12 × 8 |
| 44-50 | 14 × 9 |
8.3 Cálculo
Verificar contra esmagamento (carga de compressão na face lateral):
σ_esm = (2 × T) / (D × L × h_efectivo) ≤ σ_esm_adm
h_efectivo ≈ h/2 (metade está no veio, metade no cubo)
L = comprimento da chaveta
D = Ø do veio
Exemplo: veio Ø 25 transmite T = 50 N·m. Chaveta padrão 8×7×30 mm. - σ_esm = 2 × 50 000 / (25 × 30 × 3,5) = 38 MPa. OK em qualquer aço estrutural.
9. Veios
9.1 Procedimento
- Identificar cargas: torque (T) + forças radiais (F_r) + cargas axiais (F_a).
- Calcular momentos flectores ao longo do veio (devido a F_r aplicadas em pontos diferentes).
- Verificar tensão equivalente no ponto crítico (geralmente onde M flector é máximo):
σ_eq = √(σ_flexão² + 3·τ_torção²)
- Confirmar σ_eq ≤ σy / FS (FS = 2-3 para veio padrão; 4-5 se carga muito cíclica e impacto).
- Verificar fadiga se carga cíclica significativa.
- Verificar deflexão (não exceder L/300 a L/1000 entre apoios).
- Atribuir tolerâncias (H7/g6 em apoios de rolamentos).
9.2 Estimativa rápida (só torção)
D_min = ∛((16 × T) / (π × τadm))
Exemplo: T = 100 N·m, C45 com τadm = 60 MPa. - D_min = ∛((16 × 100 000) / (π × 60)) = ∛(8 488) = 20,4 mm. - Escolher Ø comercial mais próximo acima: 22 ou 25 mm.
10. Molas
Helicoidais de compressão (mais comum):
k = (G × d⁴) / (8 × D³ × n)
k = constante elástica (N/mm)
G = módulo de corte ≈ 80 GPa para aço-mola
d = Ø do arame (mm)
D = Ø médio da mola (mm)
n = nº de espiras activas
Força máxima admissível:
F_max = (π × d³ × τ_adm) / (8 × D × K)
K = factor de Wahl (1,1-1,3 conforme C = D/d)
τ_adm = 600-1000 MPa para aço-mola
Em manutenção, selecciona-se de catálogo (Lesjöfors, Vanel, RS). Cálculo serve para verificar.
11. Rolamentos
11.1 Selecção por carga + vida
L₁₀ = (C / P)^p × 10⁶ rotações
L₁₀ = vida com 90% fiabilidade (10% falham antes)
C = carga dinâmica básica do catálogo
P = carga real equivalente
p = 3 (rolamentos de esferas) ou 10/3 (rolos)
11.2 Conversão para horas
L_h = L₁₀ × 10⁶ / (n × 60)
n = rpm
L_h = horas
11.3 Vidas requeridas típicas
| Aplicação | L₁₀ (horas) |
|---|---|
| Máquinas com uso intermitente | 4 000-8 000 |
| Máquinas 8h/dia | 20 000-30 000 |
| Máquinas 24h/dia | 40 000-60 000 |
| Indústria pesada contínua | 100 000+ |
11.4 Selecção típica
- Conhecer Ø do veio.
- Catálogo SKF/Schaeffler/NSK → série apropriada (6000 para esferas radiais leves, 6200 médias, 6300 pesadas).
- Verificar carga dinâmica C disponível.
- Calcular L₁₀ para a aplicação.
- Se insuficiente, subir uma série (mais carga, ligeiramente maior).
Exemplo: rolamento 6204 (Ø int 20, Ø ext 47, espessura 14). - C = 9 400 N (catálogo). - Carga real radial = 1 500 N. - L₁₀ = (9400/1500)³ × 10⁶ = 246 milhões rot. - A 1500 rpm: L_h = 246×10⁶ / (1500×60) = 2 740 horas. OK para muitas aplicações.
12. Catálogos vs cálculo
Em manutenção real, raramente se calcula do zero:
- Parafusos: DIN/ISO + classe + Ø.
- Rolamentos: catálogos SKF, Schaeffler, NSK, NTN, FAG.
- Vedantes, retentores: DIN 3760.
- Molas: catálogos online.
- Correias, correntes: catálogo Gates, Tsubaki.
- Acoplamentos: Lovejoy, KTR.
Cálculo serve para escolher o componente do catálogo ou verificar que o que está montado é adequado.
13. Liga a outras UCs
- UC02877 — desenho indica forças, geometrias, tolerâncias.
- UC02918 — CAD pode incluir BOM com componentes calculados.
- UC02923 — montagem dos componentes dimensionados.
- UC02867 — manutenção implica diagnóstico de elementos sobrecarregados.
- UC02938 — verificação de máquinas pode requerer recálculo.
14. Conclusão
Dimensionar bem é escolher conscientemente componentes que duram. O técnico de manutenção que sabe ler catálogos e fazer estimativas rápidas é o que substitui peças com confiança em vez de "experimentar".
90% das selecções de componentes em manutenção fazem-se em 5 minutos com catálogo + cálculo de verificação simples. Os outros 10% (cargas dinâmicas críticas, geometrias incomuns) exigem engenheiro.
Apêndice A · Fórmulas-resumo
σ = F / A tracção/compressão
τ = F / A corte
σ = M / W flexão (W = π·D³/32 cilíndrico, b·h²/6 rectangular)
τ = T / Wt torção (Wt = π·D³/16 cilíndrico)
σ_eq = √(σ² + 3τ²) combinada (von Mises)
σadm = σy / FS FS 2-3 estático, 5+ dinâmico/segurança
σe ≈ 0,5 σr limite de fadiga em aços
L₁₀ = (C/P)³ × 10⁶ vida rolamento esferas (rot)
Apêndice B · Recursos
- Shigley's Mechanical Engineering Design — bíblia do dimensionamento.
- Roloff/Matek Maschinenelemente — referência alemã.
- Catálogo SKF General — gratuito online, riquíssimo.
- EN ISO 898 — parafusos (classes).
- EN ISO 4014, 4017 — geometrias parafusos.
- DIN 6885 — chavetas paralelas.