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UC · Unidade de Competência · UC02922

Dimensionamento de elementos e órgãos de máquinas

Forças, tensões, fadiga, parafusos, chavetas, veios, rolamentos
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Mecatrónica ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta UC ensina os princípios de cálculo para dimensionar elementos mecânicos simples — saber se um parafuso aguenta a carga, se um veio resiste ao torque, se um rolamento dura o suficiente. Não substitui engenharia mecânica formal mas dá ao técnico de manutenção a capacidade de verificar selecções e dialogar com projectistas.

Pré-requisitos: UC02855, UC02848, UC02877.

1. Forças e cargas

1.1 Tipos de carga

Estática — aplicada lentamente e mantida constante. Ex.: peso de carga apoiada numa bancada.

Dinâmica (cíclica) — varia repetidamente no tempo. Ex.: força em biela de motor a 3000 rpm; vibração; cargas reversíveis.

De impacto — aplicada em milissegundos. Ex.: martelo, choque, queda. Equivalente a 2-4× a força estática.

Tipo de carga determina: - Factor de segurança (FS). - Material (impacto requer aços tenazes). - Necessidade de calcular fadiga (cíclica).

1.2 Forças vs momentos

Em órgãos de máquinas, momentos são tão importantes quanto forças — uma chave dá a alguém um pequeno torque que se torna grande no parafuso.

1.3 Unidades práticas

1 kgf = 9,8 N  10 N
1 N = 0,102 kgf
1 N·m = 0,102 kgf·m

1 MPa = 1 N/mm² = 10 kgf/cm²  10 bar

2. Materiais

2.1 Propriedades-chave

Propriedade Símbolo Unidade O que mede
Limite elástico σy MPa Tensão acima da qual deformação é permanente
Resistência à rotura σr MPa Tensão que quebra a peça
Módulo de elasticidade E GPa Rigidez (resistência à deformação elástica)
Dureza Brinell HB adimensional Resistência à indentação
Dureza Rockwell HRC adimensional Idem, escala C
Alongamento δ % Quanto estica antes de partir
Resiliência K J/cm² Energia que absorve antes de partir

2.2 Tabela de aços comuns

Aço σy (MPa) σr (MPa) E (GPa) δ (%) Uso
S185 185 290-510 210 18+ Estrutural básico
S235 235 360-510 210 26 Estrutural geral (80% casos)
S275 275 410-560 210 22 Estrutural
S355 355 470-630 210 22 Estrutural exigente
C22 (1.0402) 240 430-550 210 25 Peças maquinadas leves
C45 (1.0503) 340 580-700 210 16 Veios, peças torneadas (padrão)
C45 temperado 540 850 210 8 Veios endurecidos
42CrMo4 650-900 900-1100 210 12-14 Engrenagens, eixos críticos
AISI 304 215 520 200 45 Inox geral
AISI 316 220 520 200 40 Inox marítimo/químico

2.3 Outros materiais comuns

3. Tensões

3.1 Tracção e compressão

σ = F / A

σ = tensão (MPa)
F = força axial (N)
A = área da secção (mm²)

Para a peça não plastificar:

σ ≤ σadm = σy / FS

FS = factor de segurança

Exemplo: cabo em aço S275 com Ø 8 mm a sustentar 5 kN. - A = π × 8²/4 = 50,3 mm² - σ = 5000 / 50,3 = 99,4 MPa - σadm = 275 / 2 = 137,5 MPa - ✓ OK (FS real = 275/99,4 = 2,8)

3.2 Corte (cisalhamento)

τ = F / A

Aplicação: parafusos a cortar, pinos, cordões de soldadura submetidos a carga lateral.

Tensão admissível ao corte:

τadm ≈ 0,57 × σadm  (critério de von Mises)

Exemplo: parafuso M8 classe 8.8 a cortar. A_núcleo = 36,6 mm². - τadm = 0,57 × (640/3) ≈ 121 MPa. - Fmax = 121 × 36,6 ≈ 4 430 N ≈ 450 kgf.

3.3 Flexão

Para uma viga sujeita a momento flector M:

σ = M × c / I = M / W

M = momento flector (N·mm)
c = distância do eixo neutro à fibra extrema (mm)
I = momento de inércia da secção (mm)
W = I/c = módulo de flexão (mm³)

Módulos comuns: - Secção circular Ø D: W = π·D³/32. - Secção rectangular b×h: W = b·h²/6. - Catálogos de perfis (UPN, IPE, HEB) dão W directamente.

Exemplo: viga UPN 100 (W = 41,2 cm³ = 41 200 mm³) submetida a M = 5 kN·m = 5 000 000 N·mm. - σ = 5 000 000 / 41 200 = 121 MPa. OK para S235 com FS ~ 2.

3.4 Torção

τ = T × r / J = T / Wt

T = momento torsor (N·mm)
J = momento polar de inércia (mm⁴)
r = raio exterior
Wt = J/r = módulo de torção

Para veio cilíndrico maciço Ø D: Wt = π·D³/16.

Exemplo: veio Ø 30 em C45 transmite 100 N·m = 100 000 N·mm. - Wt = π·30³/16 = 5 301 mm³. - τ = 100 000 / 5 301 = 18,9 MPa. - τadm = 0,57 × (340/3) = 64,6 MPa. ✓ Largamente OK.

3.5 Combinação flexão + torção

Caso geral em veios (flexão por carga radial + torção por transmissão):

σ_eq = √(σ_flexão² + 3·τ_torção²)  ≤ σadm  (von Mises)

Ou pelo critério de Tresca (mais conservador):

σ_eq = √(σ_flexão² + 4·τ_torção²)

Em pré-projecto: calcular só pela torção para fazer estimativa rápida; verificar flexão depois.

4. Factor de segurança

4.1 O que compensa

FS = σy / σ_actual cobre incertezas: - Variação de propriedades do material. - Cargas reais > previstas. - Cargas dinâmicas/imprevistas. - Erros de cálculo ou de montagem. - Corrosão / desgaste com tempo. - Concentração de tensões (entalhes). - Imperícia operador.

4.2 FS típicos

Aplicação FS
Estática, materiais conhecidos 1,5-2
Mecânica geral 2-3
Cargas variáveis / cíclicas 3-5
Impacto, segurança humana 5-10
Aeronáutica 1,5-2 (compensado por inspecção rigorosa + materiais premium)
Estruturas civis 1,5-2,5 (normas EN 1993)

Em manutenção industrial padrão: FS = 3 é uma escolha segura por defeito.

4.3 Tensão admissível

σadm = σy / FS

Limita o projecto. Toda a geometria/material é escolhido para que σ_real ≤ σadm em todos os pontos.

5. Fadiga

5.1 O fenómeno

Uma peça pode partir muito abaixo do limite elástico se for sujeita a cargas cíclicas. Pequenas fissuras propagam-se a cada ciclo até rotura súbita.

Comprovado em 1850 por Wöhler (engenheiro de caminhos de ferro).

5.2 Curva S-N (Wöhler)

log σ
   |
σr |─.
   |  \.
   |    \.
   |      \____  σe (limite de fadiga)
   |
   +─────────────── log N
   10³  10⁶  10⁹    ciclos

Para aços: σe ≈ 0,5 × σr. Abaixo de σe, peça aguenta "infinitamente" (10⁹+ ciclos).

Para alumínio: não há limite de fadiga real; vida calculada para N especificado.

5.3 Factores que reduzem σe

5.4 Como evitar fadiga

6. Concentração de tensões

Mudanças bruscas de geometria amplificam tensão local: - Furo numa chapa em tracção: tensão na borda é 3× a tensão nominal. - Mudança brusca de Ø num veio: factor 2-4 conforme raio. - Cantos rectos em soldadura: factores grandes.

Factor de concentração Kt encontrado em tabelas (Peterson). Para fadiga: factor Kf (ligeiramente menor que Kt).

Mitigação: - Raios de concordância grandes (1-5 mm). - Furos arredondados. - Soldaduras com geometria suave + esmerilamento.

7. Parafusos

7.1 Classes (DIN 898)

Notação A.B onde: - A = σr / 100 (MPa) - B = relação σy/σr × 10

Classe σr (MPa) σy (MPa) Uso
4.6 400 240 Geral, barato
5.6 500 300 Geral
8.8 800 640 Estrutural padrão
10.9 1000 900 Alta resistência
12.9 1200 1080 Máxima

Em estruturas mecânicas, 8.8 é o padrão por defeito.

7.2 Áreas de secção

Rosca Ø nominal (mm) A_núcleo (mm²)
M5 5 14,2
M6 6 20,1
M8 8 36,6
M10 10 58,0
M12 12 84,3
M16 16 157
M20 20 245
M24 24 353

A_núcleo é menor que área nominal (rosca remove material).

7.3 Cálculo de carga axial

F_admissível = σy × A_núcleo / FS

Exemplo: parafuso M10 classe 8.8. - F_adm = 640 × 58,0 / 3 = 12 400 N ≈ 1 270 kgf.

7.4 Cálculo de torque de aperto

T = K × F × d

T = torque (N·m)
K = factor (0,15-0,20 conforme lubrificação)
F = força axial pretendida (N)
d = diâmetro nominal (m)

Tabelas de fabricantes dão torques recomendados para cada classe e Ø.

8. Chavetas

8.1 Função

Transmitir torque entre veio e cubo (engrenagem, polia, volante).

8.2 Chaveta paralela DIN 6885

Secção rectangular b × h. Dimensões padrão pelo Ø do veio:

Ø veio (mm) Chaveta b × h (mm)
10-12 4 × 4
12-17 5 × 5
17-22 6 × 6
22-30 8 × 7
30-38 10 × 8
38-44 12 × 8
44-50 14 × 9

8.3 Cálculo

Verificar contra esmagamento (carga de compressão na face lateral):

σ_esm = (2 × T) / (D × L × h_efectivo) ≤ σ_esm_adm

h_efectivo ≈ h/2 (metade está no veio, metade no cubo)
L = comprimento da chaveta
D = Ø do veio

Exemplo: veio Ø 25 transmite T = 50 N·m. Chaveta padrão 8×7×30 mm. - σ_esm = 2 × 50 000 / (25 × 30 × 3,5) = 38 MPa. OK em qualquer aço estrutural.

9. Veios

9.1 Procedimento

  1. Identificar cargas: torque (T) + forças radiais (F_r) + cargas axiais (F_a).
  2. Calcular momentos flectores ao longo do veio (devido a F_r aplicadas em pontos diferentes).
  3. Verificar tensão equivalente no ponto crítico (geralmente onde M flector é máximo):
σ_eq = √(σ_flexão² + 3·τ_torção²)
  1. Confirmar σ_eq ≤ σy / FS (FS = 2-3 para veio padrão; 4-5 se carga muito cíclica e impacto).
  2. Verificar fadiga se carga cíclica significativa.
  3. Verificar deflexão (não exceder L/300 a L/1000 entre apoios).
  4. Atribuir tolerâncias (H7/g6 em apoios de rolamentos).

9.2 Estimativa rápida (só torção)

D_min = ∛((16 × T) / (π × τadm))

Exemplo: T = 100 N·m, C45 com τadm = 60 MPa. - D_min = ∛((16 × 100 000) / (π × 60)) = ∛(8 488) = 20,4 mm. - Escolher Ø comercial mais próximo acima: 22 ou 25 mm.

10. Molas

Helicoidais de compressão (mais comum):

k = (G × d⁴) / (8 ×  × n)

k = constante elástica (N/mm)
G = módulo de corte  80 GPa para aço-mola
d = Ø do arame (mm)
D = Ø médio da mola (mm)
n =  de espiras activas

Força máxima admissível:

F_max = (π × d³ × τ_adm) / (8 × D × K)

K = factor de Wahl (1,1-1,3 conforme C = D/d)
τ_adm = 600-1000 MPa para aço-mola

Em manutenção, selecciona-se de catálogo (Lesjöfors, Vanel, RS). Cálculo serve para verificar.

11. Rolamentos

11.1 Selecção por carga + vida

L₁₀ = (C / P)^p × 10 rotações

L₁₀ = vida com 90% fiabilidade (10% falham antes)
C = carga dinâmica básica do catálogo
P = carga real equivalente
p = 3 (rolamentos de esferas) ou 10/3 (rolos)

11.2 Conversão para horas

L_h = L₁₀ × 10⁶ / (n × 60)

n = rpm
L_h = horas

11.3 Vidas requeridas típicas

Aplicação L₁₀ (horas)
Máquinas com uso intermitente 4 000-8 000
Máquinas 8h/dia 20 000-30 000
Máquinas 24h/dia 40 000-60 000
Indústria pesada contínua 100 000+

11.4 Selecção típica

  1. Conhecer Ø do veio.
  2. Catálogo SKF/Schaeffler/NSK → série apropriada (6000 para esferas radiais leves, 6200 médias, 6300 pesadas).
  3. Verificar carga dinâmica C disponível.
  4. Calcular L₁₀ para a aplicação.
  5. Se insuficiente, subir uma série (mais carga, ligeiramente maior).

Exemplo: rolamento 6204 (Ø int 20, Ø ext 47, espessura 14). - C = 9 400 N (catálogo). - Carga real radial = 1 500 N. - L₁₀ = (9400/1500)³ × 10⁶ = 246 milhões rot. - A 1500 rpm: L_h = 246×10⁶ / (1500×60) = 2 740 horas. OK para muitas aplicações.

12. Catálogos vs cálculo

Em manutenção real, raramente se calcula do zero:

Cálculo serve para escolher o componente do catálogo ou verificar que o que está montado é adequado.

13. Liga a outras UCs

14. Conclusão

Dimensionar bem é escolher conscientemente componentes que duram. O técnico de manutenção que sabe ler catálogos e fazer estimativas rápidas é o que substitui peças com confiança em vez de "experimentar".

90% das selecções de componentes em manutenção fazem-se em 5 minutos com catálogo + cálculo de verificação simples. Os outros 10% (cargas dinâmicas críticas, geometrias incomuns) exigem engenheiro.

Apêndice A · Fórmulas-resumo

σ = F / A             tracção/compressão
τ = F / A             corte
σ = M / W             flexão (W = π·D³/32 cilíndrico, b·h²/6 rectangular)
τ = T / Wt            torção (Wt = π·D³/16 cilíndrico)
σ_eq = √(σ² + 3τ²)    combinada (von Mises)

σadm = σy / FS        FS 2-3 estático, 5+ dinâmico/segurança
σe ≈ 0,5 σr           limite de fadiga em aços
L₁₀ = (C/P)³ × 10⁶    vida rolamento esferas (rot)

Apêndice B · Recursos