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UC · Unidade de Competência · UC02921

Construção de estruturas metálicas

Soldadura, perfis, corte, montagem, protecção
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Mecatrónica ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta UC abrange a construção de estruturas metálicas — desde a leitura do desenho até à protecção anti-corrosiva da estrutura acabada. Cobre os processos centrais de soldadura (MMA, MIG/MAG, TIG), corte (disco, plasma, oxi-corte), e montagem com controlo de geometria.

Aplicações típicas em manutenção industrial: bancadas, plataformas, suportes, escadas, vedações, estruturas auxiliares.

Pré-requisitos: UC02855 (SST), UC02849 (Serralharia), UC02877 (Desenho).

1. Materiais

1.1 Aços estruturais (norma EN 10025)

Designação σy (MPa) σr (MPa) Aplicação típica
S185 185 290-510 Geral baixo custo
S235 235 360-510 Padrão para 80% das estruturas
S275 275 410-560 Estrutural
S355 355 470-630 Estruturas exigentes, pontes
S460 460 540-720 Alta resistência

σy = limite elástico; σr = tensão de rotura.

Para estruturas de oficina e edifícios industriais leves, S235 é a escolha padrão. Para cargas grandes ou pontes, S355 ou S460.

1.2 Aços inoxidáveis

Designação Composição Aplicação
AISI 304 (1.4301) 18% Cr + 8% Ni Alimentar, mobiliário, ambiente normal
AISI 316 (1.4404) 17% Cr + 11% Ni + 2% Mo Marítimo, químico, médico
AISI 430 17% Cr (ferrítico) Decorativo, menos resistente

Inox custa 3-5× mais que aço carbono — usar só onde a corrosão justifica.

1.3 Alumínio estrutural

Ligas comuns para estruturas leves: - 6060 / 6063 — perfis extrudidos arquitectónicos. - 6082 — estrutural geral, navegação. - 5083 — naval, alta resistência corrosão.

Soldável (TIG ou MIG com Ar puro + arame específico).

1.4 Perfis comerciais

Comprar pré-fabricado em vez de cortar de chapa = mais económico e mais rápido.

Perfis padrão: - Cantoneira L — 20×20 a 200×200 mm; várias espessuras 3-15 mm. - T — junções, suportes. - U / UPN — vigas, sapatas, montantes. - I / IPN / IPE — vigas estruturais. - H / HEB / HEA / HEM — colunas, vigas pesadas. - Tubo redondo — Ø 12-500 mm; estrutural ou hidráulico. - Tubo quadrado/rectangular — leve, fácil de fixar. - Vergalhão liso/nervurado — armaduras, vergões. - Chapa — espessuras 0,5-30 mm; lisa, gofrada, perfurada, antiderrapante.

Tabelas técnicas dão peso/metro, momento de inércia, módulo elástico, raio de giração.

2. Soldadura

2.1 Princípio

Soldar = unir dois metais por fusão localizada (geralmente com material de adição), formando uma junta cuja resistência se aproxima da do material base.

2.2 MMA (eléctrodo revestido, SMAW)

O eléctrodo é a vareta consumível com revestimento que produz gás protector ao queimar.

Eléctrodos padrão: - E6013 (rutílico) — geral, fácil de manejar. - E7018 (básico) — alta resistência, baixo hidrogénio, estrutural sério.

2.3 MIG/MAG (arame contínuo, GMAW)

Fio contínuo alimentado por uma tocha; gás protector externo (CO₂ para MAG, Ar/CO₂ mistura, Ar puro para alumínio).

Parâmetros: tensão (V), velocidade do fio (m/min), caudal de gás (10-20 L/min).

2.4 TIG (eléctrodo tungsténio, GTAW)

Eléctrodo de tungsténio não consumível + vareta de material de adição manual (opcional) + gás Ar puro.

2.5 Outros processos

2.6 Posições

Designação EN ISO 6947:

Código Posição Dificuldade
PA Plana (peça horizontal) Fácil
PB Horizontal-vertical (canto) Fácil
PC Horizontal Médio
PD Vertical descendente Médio
PE Vertical ascendente Difícil
PF Vertical-overhead Difícil
PG Overhead (tecto) Muito difícil

Aprende PA → PB → PC → PF. Posições difíceis requerem técnica e prática.

2.7 Tipos de juntas

2.8 Símbolos de soldadura (ISO 2553)

No desenho técnico, símbolos indicam: - Tipo de junta (triângulo = fillet, V invertido = chanfre V, ...) - Lado onde soldar (acima da linha = lado oposto, abaixo = lado seta). - Dimensões (espessura cordão, comprimento, passo se intermitente). - Acabamento (rebarbar, esmerilar).

Saber ler é essencial em obra industrial.

3. Corte

3.1 Tecnologias

Método Espessura Velocidade Acabamento Zona afectada termicamente (HAZ)
Disco / rebarbadora Até 10 mm Manual, baixa Rugoso Pequena
Serra de fita Até 200 mm Lenta, precisa Bom Mínima
Tesoura guilhotina Até 6 mm (chapa) Alta Razoável Nenhuma
Oxi-corte 5-300 mm Alta Médio Grande
Plasma 1-50 mm Muito alta Bom Média
Laser 0,5-25 mm Altíssima Excelente Pequena
Jato d'água Qualquer Baixa Excelente Nenhuma

Em oficina convencional: disco + serra de fita + plasma. Laser e jato em empresas dedicadas (subcontratar).

3.2 Oxi-corte

Pré-aquecimento com chama oxi-acetileno até temperatura crítica do aço (~870°C); depois jato de O₂ puro oxida (queima) o metal e expele a escória.

Equipamento: 2 cilindros (acetileno + O₂), maçarico, mangueiras, manómetros.

Segurança crítica: cilindros verticais, válvulas anti-retorno, mangueiras inspeccionadas, sem fontes de fogo próximas.

3.3 Plasma

Arco eléctrico entre eléctrodo e peça ioniza um gás (ar comprimido, N₂, Ar/H₂) a 20 000-30 000°C, derretendo e expelindo o metal.

Plasma CNC para corte automatizado de chapa é hoje muito comum.

4. Construção — sequência típica

4.1 Plano

  1. Desenho técnico com:
  2. Vistas (planta, alçados, cortes).
  3. Cotas globais e parciais.
  4. Tabela de material (BOM): perfil, comprimento, quantidade.
  5. Símbolos de soldadura nas juntas.
  6. Lista de corte (cutting list): para cada perfil, comprimentos a cortar.
  7. Plano de fabricação: sequência de operações + tempos.

4.2 Marcação

4.3 Corte

4.4 Pré-montagem (ponteio)

4.5 Soldadura definitiva

4.6 Controlo de distorção

Aço encolhe ~1,5% ao arrefecer após fusão → estrutura deforma se não controlada.

Estratégias: - Ponteios generosos antes do definitivo. - Sequência simétrica (alternar lados opostos). - Pré-deformação intencional em sentido contrário (compensação). - Fixação rígida num jig durante toda a soldadura. - Soldadura em passes curtos (50-100 mm), deixando arrefecer. - Soldadura intermitente quando possível.

4.7 Inspecção da soldadura

Métodos não destrutivos: - Visual — porosidades, falta de fusão, irregularidades. - Penetrante (PT) — defeitos superficiais. - Partículas magnéticas (MT) — defeitos superficiais e subsuperficiais (só ferromagnéticos). - Ultra-sons (UT) — defeitos internos. - Radiografia (RT) — defeitos internos (caro, sensível).

Em obra civil/industrial pesada, certificação obrigatória dos soldadores e ensaios da soldadura.

5. Acabamento

5.1 Limpeza pós-soldadura

  1. Bater escória (MMA) com martelo de bater.
  2. Rebarbar excessos com lima/rebarbadora.
  3. Escovar com escova de aço para remover óxidos.
  4. Esmerilar cordões se aspecto liso necessário (cuidado: enfraquece a soldadura se excessivo).
  5. Limpar com desengordurante.

5.2 Protecção contra corrosão

Método Onde Duração
Tinta primária + acabamento Interior, decorativo 5-15 anos
Galvanização por imersão a quente Exterior, alta corrosão 30-50 anos
Zincagem electrolítica Pequenos componentes 10-20 anos
Pintura epoxi industrial Industrial agressivo, marítimo 15-30 anos
Metalização (zinco arc-spray) Pontes, estruturas grandes 20+ anos
Inox Quando há água/químicos "Para sempre"

5.3 Sequência de pintura

  1. Decapagem (jacto de areia, granalha) ou escovagem mecânica.
  2. Desengorduramento (solvente).
  3. Primário anti-corrosivo (zinco, epoxi).
  4. Massa de retoque se necessário.
  5. Tinta de acabamento (esmalte, poliuretano).
  6. 2-3 mãos com secagem entre cada.

5.4 Galvanização por imersão a quente

Peça mergulhada num banho de zinco a 450°C. Forma camada de zinco metálica + ligas Zn/Fe que aderem ao aço base.

Duração: 30-50 anos em ambiente normal, 50+ em rural seco.

Restrições: peças têm de caber no banho (max ~10×2×2 m em galvanizadoras grandes); não dá para galvanizar peça parcialmente.

6. Segurança

6.1 Soldadura

Riscos específicos:

6.2 Corte

6.3 EPI de soldador completo

□ Máscara automática DIN 9-13 EN 379
□ Touca/lenço resistente fogo sob máscara
□ Avental cabedal EN ISO 11611
□ Mangas longas cabedal
□ Luvas cabedal soldador EN 12477
□ Calçado de segurança S3 alto cano
□ Polainas cabedal
□ Aspiração local na tocha (idealmente) ou FFP3 mínimo
□ Auriculares (esmerilação)
□ Sem isqueiros / fósforos no bolso
□ Cabelo preso, barba curta (vedação máscara FFP3)

Custo total: 200-500 €. Investimento que dura anos.

7. Cálculo estrutural básico

Não pretende substituir engenharia civil/mecânica, mas:

7.1 Carga permissível

Tensão máxima admissível = σy / factor de segurança (1,5-3,0)

Para S235 com FS=2: σadm = 235/2 = 117 MPa.

7.2 Flexão simples

Para uma viga apoiada em 2 pontos com carga distribuída P:

Tensão máxima = (P × L² × c) / (8 × I)

L = comprimento entre apoios
c = distância do eixo neutro à fibra extrema
I = momento de inércia da secção

Catálogos de perfis dão I e W = I/c (módulo de flexão) para cada perfil.

7.3 Verificação rápida

Para bancada de oficina típica (carga 200 kg, vão 2 m), perfil UPN 100 ou tubo quadrado 60×60×3 geralmente chega.

Para algo crítico: consultar engenheiro estrutural com cálculo formal + certificação.

8. Liga a outras UCs

9. Conclusão

Construir estrutura metálica é trabalho paciente: cortar bem, ponteiar primeiro, verificar antes de fixar, soldar alternadamente. A pressa gera distorções caras de corrigir.

Em manutenção industrial, o técnico que sabe soldar bem e planear sequência é o que produz estruturas duradouras, sem ter de cortar e refazer.

Apêndice A · Tabela de perfis comuns

Perfil Peso/m Área I (cm⁴) W (cm³)
UPN 100 10,6 kg 13,5 cm² 206 41,2
UPN 140 16,0 kg 20,4 cm² 605 86,4
HEB 100 20,4 kg 26,0 cm² 450 89,9
IPE 100 8,1 kg 10,3 cm² 171 34,2
Tubo Ø 50×3 3,5 kg 4,4 cm² 13,3 5,3
Tubo 60×60×3 5,2 kg 6,7 cm² 36,2 12,1
Cantoneira 50×50×5 3,77 kg 4,8 cm² 11 3,05

Apêndice B · Recursos