Construção de estruturas metálicas
Introdução
Esta UC abrange a construção de estruturas metálicas — desde a leitura do desenho até à protecção anti-corrosiva da estrutura acabada. Cobre os processos centrais de soldadura (MMA, MIG/MAG, TIG), corte (disco, plasma, oxi-corte), e montagem com controlo de geometria.
Aplicações típicas em manutenção industrial: bancadas, plataformas, suportes, escadas, vedações, estruturas auxiliares.
Pré-requisitos: UC02855 (SST), UC02849 (Serralharia), UC02877 (Desenho).
1. Materiais
1.1 Aços estruturais (norma EN 10025)
| Designação | σy (MPa) | σr (MPa) | Aplicação típica |
|---|---|---|---|
| S185 | 185 | 290-510 | Geral baixo custo |
| S235 | 235 | 360-510 | Padrão para 80% das estruturas |
| S275 | 275 | 410-560 | Estrutural |
| S355 | 355 | 470-630 | Estruturas exigentes, pontes |
| S460 | 460 | 540-720 | Alta resistência |
σy = limite elástico; σr = tensão de rotura.
Para estruturas de oficina e edifícios industriais leves, S235 é a escolha padrão. Para cargas grandes ou pontes, S355 ou S460.
1.2 Aços inoxidáveis
| Designação | Composição | Aplicação |
|---|---|---|
| AISI 304 (1.4301) | 18% Cr + 8% Ni | Alimentar, mobiliário, ambiente normal |
| AISI 316 (1.4404) | 17% Cr + 11% Ni + 2% Mo | Marítimo, químico, médico |
| AISI 430 | 17% Cr (ferrítico) | Decorativo, menos resistente |
Inox custa 3-5× mais que aço carbono — usar só onde a corrosão justifica.
1.3 Alumínio estrutural
Ligas comuns para estruturas leves: - 6060 / 6063 — perfis extrudidos arquitectónicos. - 6082 — estrutural geral, navegação. - 5083 — naval, alta resistência corrosão.
Soldável (TIG ou MIG com Ar puro + arame específico).
1.4 Perfis comerciais
Comprar pré-fabricado em vez de cortar de chapa = mais económico e mais rápido.
Perfis padrão: - Cantoneira L — 20×20 a 200×200 mm; várias espessuras 3-15 mm. - T — junções, suportes. - U / UPN — vigas, sapatas, montantes. - I / IPN / IPE — vigas estruturais. - H / HEB / HEA / HEM — colunas, vigas pesadas. - Tubo redondo — Ø 12-500 mm; estrutural ou hidráulico. - Tubo quadrado/rectangular — leve, fácil de fixar. - Vergalhão liso/nervurado — armaduras, vergões. - Chapa — espessuras 0,5-30 mm; lisa, gofrada, perfurada, antiderrapante.
Tabelas técnicas dão peso/metro, momento de inércia, módulo elástico, raio de giração.
2. Soldadura
2.1 Princípio
Soldar = unir dois metais por fusão localizada (geralmente com material de adição), formando uma junta cuja resistência se aproxima da do material base.
2.2 MMA (eléctrodo revestido, SMAW)
O eléctrodo é a vareta consumível com revestimento que produz gás protector ao queimar.
- Vantagens: portátil, qualquer posição, ferro/aço estrutural, obra exterior. Sem cilindros de gás.
- Desvantagens: produtividade baixa, escória a bater, salpicos.
- Quando: obra, reparações, estruturas pesadas, posições difíceis.
Eléctrodos padrão: - E6013 (rutílico) — geral, fácil de manejar. - E7018 (básico) — alta resistência, baixo hidrogénio, estrutural sério.
2.3 MIG/MAG (arame contínuo, GMAW)
Fio contínuo alimentado por uma tocha; gás protector externo (CO₂ para MAG, Ar/CO₂ mistura, Ar puro para alumínio).
- MIG = Metal Inert Gas (Ar puro) — alumínio, inox.
-
MAG = Metal Active Gas (CO₂ ou misturas) — aço carbono.
-
Vantagens: alta produtividade, baixa escória, semi-automático.
- Desvantagens: exige cilindro de gás, sensível a corrente de ar (não para obra exterior ventoso), equipamento mais caro.
- Quando: oficina, chapa fina-média, séries.
Parâmetros: tensão (V), velocidade do fio (m/min), caudal de gás (10-20 L/min).
2.4 TIG (eléctrodo tungsténio, GTAW)
Eléctrodo de tungsténio não consumível + vareta de material de adição manual (opcional) + gás Ar puro.
- Vantagens: cordão limpíssimo, alta qualidade, inox e alumínio premium, espessuras finas.
- Desvantagens: muito lento, exige técnica (uma mão na tocha, outra na vareta).
- Quando: inox decorativo, alumínio, tubagens sanitárias, soldadura crítica.
2.5 Outros processos
- Soldadura por pontos (spot welding) — chaparia automóvel.
- Soldadura por arco submerso (SAW) — vigas pesadas, naval.
- Soldadura plasma — variação do TIG.
- Soldadura por fricção (FSW) — alumínio sem fusão.
- Brasagem (brazing) — solda dura com material de adição que funde abaixo do material base; útil em cobre.
2.6 Posições
Designação EN ISO 6947:
| Código | Posição | Dificuldade |
|---|---|---|
| PA | Plana (peça horizontal) | Fácil |
| PB | Horizontal-vertical (canto) | Fácil |
| PC | Horizontal | Médio |
| PD | Vertical descendente | Médio |
| PE | Vertical ascendente | Difícil |
| PF | Vertical-overhead | Difícil |
| PG | Overhead (tecto) | Muito difícil |
Aprende PA → PB → PC → PF. Posições difíceis requerem técnica e prática.
2.7 Tipos de juntas
- De topo (butt joint) — duas peças encostadas. Chanfre em V (espessura 4-12 mm) ou X (>12 mm) para penetração total.
- Em T — perpendiculares; cordão de canto (fillet).
- De canto (corner joint) — em L.
- Sobreposta (lap) — uma chapa sobre a outra.
- Junta em aresta (edge) — bordas alinhadas, raro.
2.8 Símbolos de soldadura (ISO 2553)
No desenho técnico, símbolos indicam: - Tipo de junta (triângulo = fillet, V invertido = chanfre V, ...) - Lado onde soldar (acima da linha = lado oposto, abaixo = lado seta). - Dimensões (espessura cordão, comprimento, passo se intermitente). - Acabamento (rebarbar, esmerilar).
Saber ler é essencial em obra industrial.
3. Corte
3.1 Tecnologias
| Método | Espessura | Velocidade | Acabamento | Zona afectada termicamente (HAZ) |
|---|---|---|---|---|
| Disco / rebarbadora | Até 10 mm | Manual, baixa | Rugoso | Pequena |
| Serra de fita | Até 200 mm | Lenta, precisa | Bom | Mínima |
| Tesoura guilhotina | Até 6 mm (chapa) | Alta | Razoável | Nenhuma |
| Oxi-corte | 5-300 mm | Alta | Médio | Grande |
| Plasma | 1-50 mm | Muito alta | Bom | Média |
| Laser | 0,5-25 mm | Altíssima | Excelente | Pequena |
| Jato d'água | Qualquer | Baixa | Excelente | Nenhuma |
Em oficina convencional: disco + serra de fita + plasma. Laser e jato em empresas dedicadas (subcontratar).
3.2 Oxi-corte
Pré-aquecimento com chama oxi-acetileno até temperatura crítica do aço (~870°C); depois jato de O₂ puro oxida (queima) o metal e expele a escória.
- Funciona em: aço carbono apenas.
- Não funciona em: alumínio, inox, cobre (não oxidam adequadamente).
Equipamento: 2 cilindros (acetileno + O₂), maçarico, mangueiras, manómetros.
Segurança crítica: cilindros verticais, válvulas anti-retorno, mangueiras inspeccionadas, sem fontes de fogo próximas.
3.3 Plasma
Arco eléctrico entre eléctrodo e peça ioniza um gás (ar comprimido, N₂, Ar/H₂) a 20 000-30 000°C, derretendo e expelindo o metal.
- Funciona em: qualquer metal condutor (aço, inox, alumínio, cobre, latão).
- Mais rápido que oxi-corte em espessuras médias.
- Custo: máquina 1500-10 000 € para uso de oficina.
Plasma CNC para corte automatizado de chapa é hoje muito comum.
4. Construção — sequência típica
4.1 Plano
- Desenho técnico com:
- Vistas (planta, alçados, cortes).
- Cotas globais e parciais.
- Tabela de material (BOM): perfil, comprimento, quantidade.
- Símbolos de soldadura nas juntas.
- Lista de corte (cutting list): para cada perfil, comprimentos a cortar.
- Plano de fabricação: sequência de operações + tempos.
4.2 Marcação
- Riscador ou marcador permanente.
- Esquadro + fita para esquadrias.
- Granitas em pontos de furação.
- Azul de marcar se precisa traços muito finos.
4.3 Corte
- Cortar com margem (1-2 mm para limagem final, 5-10 mm para soldadura de topo com chanfre).
- Bisel (chanfre) preparado em chapa > 4 mm para garantir penetração.
- Limpar arestas com lima ou rebarbadora — sem rebarbas que prejudicam a soldadura.
4.4 Pré-montagem (ponteio)
- Posicionar peças no jig ou banco com fixadores rápidos (clamps).
- Verificar geometria (esquadros, comprimentos, paralelismo) antes de qualquer soldadura.
- Ponteios = 2-3 cordões curtos (5-10 mm) em vários pontos para fixar.
- Re-verificar geometria após ponteios.
4.5 Soldadura definitiva
- Cordões em passes pequenos alternando lados opostos para evitar distorção.
- Em juntas longas: começar do centro para os extremos ou alternar.
- Em juntas chanfradas grossas: vários passes (raiz, enchimento, acabamento).
4.6 Controlo de distorção
Aço encolhe ~1,5% ao arrefecer após fusão → estrutura deforma se não controlada.
Estratégias: - Ponteios generosos antes do definitivo. - Sequência simétrica (alternar lados opostos). - Pré-deformação intencional em sentido contrário (compensação). - Fixação rígida num jig durante toda a soldadura. - Soldadura em passes curtos (50-100 mm), deixando arrefecer. - Soldadura intermitente quando possível.
4.7 Inspecção da soldadura
Métodos não destrutivos: - Visual — porosidades, falta de fusão, irregularidades. - Penetrante (PT) — defeitos superficiais. - Partículas magnéticas (MT) — defeitos superficiais e subsuperficiais (só ferromagnéticos). - Ultra-sons (UT) — defeitos internos. - Radiografia (RT) — defeitos internos (caro, sensível).
Em obra civil/industrial pesada, certificação obrigatória dos soldadores e ensaios da soldadura.
5. Acabamento
5.1 Limpeza pós-soldadura
- Bater escória (MMA) com martelo de bater.
- Rebarbar excessos com lima/rebarbadora.
- Escovar com escova de aço para remover óxidos.
- Esmerilar cordões se aspecto liso necessário (cuidado: enfraquece a soldadura se excessivo).
- Limpar com desengordurante.
5.2 Protecção contra corrosão
| Método | Onde | Duração |
|---|---|---|
| Tinta primária + acabamento | Interior, decorativo | 5-15 anos |
| Galvanização por imersão a quente | Exterior, alta corrosão | 30-50 anos |
| Zincagem electrolítica | Pequenos componentes | 10-20 anos |
| Pintura epoxi industrial | Industrial agressivo, marítimo | 15-30 anos |
| Metalização (zinco arc-spray) | Pontes, estruturas grandes | 20+ anos |
| Inox | Quando há água/químicos | "Para sempre" |
5.3 Sequência de pintura
- Decapagem (jacto de areia, granalha) ou escovagem mecânica.
- Desengorduramento (solvente).
- Primário anti-corrosivo (zinco, epoxi).
- Massa de retoque se necessário.
- Tinta de acabamento (esmalte, poliuretano).
- 2-3 mãos com secagem entre cada.
5.4 Galvanização por imersão a quente
Peça mergulhada num banho de zinco a 450°C. Forma camada de zinco metálica + ligas Zn/Fe que aderem ao aço base.
Duração: 30-50 anos em ambiente normal, 50+ em rural seco.
Restrições: peças têm de caber no banho (max ~10×2×2 m em galvanizadoras grandes); não dá para galvanizar peça parcialmente.
6. Segurança
6.1 Soldadura
Riscos específicos:
- Radiação UV/IR — queima da retina ("arco eléctrico"), queimadura da pele exposta. → Máscara automática EN 379 (DIN 9-13 conforme processo) + roupa coberta (mangas, calças).
- Fumos metálicos — manganês, cromo (inox), níquel, ozono, NOx, fluoretos. → Aspiração local na tocha + FFP3 + ventilação geral.
- Salpicos quentes — projecção até 5 m. → Avental cabedal + calçado S3 + polainas + zona limpa de combustíveis.
- Choque eléctrico — eléctrodos em tensão (40-100 V). → Não soldar em ambiente molhado, terminais isolados, luvas dieléctricas opcionais.
- Incêndio — faíscas a 5+ m. → Zona isolada, extintor próximo (pó ABC ou CO₂; não água em quadro eléctrico).
6.2 Corte
- Projecção de fragmentos — óculos panorâmicos + viseira obrigatórios.
- Gases tóxicos (oxi-corte com revestimentos) — ventilação.
- Fogo — extintor próximo, zona isolada.
- Pressão (cilindros oxi-acetileno) — verticais, válvulas inspeccionadas, anti-retornos.
6.3 EPI de soldador completo
□ Máscara automática DIN 9-13 EN 379
□ Touca/lenço resistente fogo sob máscara
□ Avental cabedal EN ISO 11611
□ Mangas longas cabedal
□ Luvas cabedal soldador EN 12477
□ Calçado de segurança S3 alto cano
□ Polainas cabedal
□ Aspiração local na tocha (idealmente) ou FFP3 mínimo
□ Auriculares (esmerilação)
□ Sem isqueiros / fósforos no bolso
□ Cabelo preso, barba curta (vedação máscara FFP3)
Custo total: 200-500 €. Investimento que dura anos.
7. Cálculo estrutural básico
Não pretende substituir engenharia civil/mecânica, mas:
7.1 Carga permissível
Tensão máxima admissível = σy / factor de segurança (1,5-3,0)
Para S235 com FS=2: σadm = 235/2 = 117 MPa.
7.2 Flexão simples
Para uma viga apoiada em 2 pontos com carga distribuída P:
Tensão máxima = (P × L² × c) / (8 × I)
L = comprimento entre apoios
c = distância do eixo neutro à fibra extrema
I = momento de inércia da secção
Catálogos de perfis dão I e W = I/c (módulo de flexão) para cada perfil.
7.3 Verificação rápida
Para bancada de oficina típica (carga 200 kg, vão 2 m), perfil UPN 100 ou tubo quadrado 60×60×3 geralmente chega.
Para algo crítico: consultar engenheiro estrutural com cálculo formal + certificação.
8. Liga a outras UCs
- UC02855 — segurança específica de soldadura/corte.
- UC02849 — preparação manual (limar, marcar, furar).
- UC02877 / UC02918 / UC02878 — desenho e plano antes de cortar/soldar.
- UC02923 — montagem de conjuntos mecânicos completos.
- UC02867 / UC02937 — manutenção de estruturas existentes.
9. Conclusão
Construir estrutura metálica é trabalho paciente: cortar bem, ponteiar primeiro, verificar antes de fixar, soldar alternadamente. A pressa gera distorções caras de corrigir.
Em manutenção industrial, o técnico que sabe soldar bem e planear sequência é o que produz estruturas duradouras, sem ter de cortar e refazer.
Apêndice A · Tabela de perfis comuns
| Perfil | Peso/m | Área | I (cm⁴) | W (cm³) |
|---|---|---|---|---|
| UPN 100 | 10,6 kg | 13,5 cm² | 206 | 41,2 |
| UPN 140 | 16,0 kg | 20,4 cm² | 605 | 86,4 |
| HEB 100 | 20,4 kg | 26,0 cm² | 450 | 89,9 |
| IPE 100 | 8,1 kg | 10,3 cm² | 171 | 34,2 |
| Tubo Ø 50×3 | 3,5 kg | 4,4 cm² | 13,3 | 5,3 |
| Tubo 60×60×3 | 5,2 kg | 6,7 cm² | 36,2 | 12,1 |
| Cantoneira 50×50×5 | 3,77 kg | 4,8 cm² | 11 | 3,05 |
Apêndice B · Recursos
- Catálogo Arcelor / Tata Steel / Megasteel — perfis disponíveis em PT.
- EN ISO 6947 — posições de soldadura.
- EN ISO 2553 — símbolos de soldadura no desenho.
- EN 10025 — aços estruturais.
- EN 1090 — execução de estruturas metálicas (CE marking obrigatório).
- Lincoln Electric Welding Handbook — referência clássica.