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UC · Unidade de Competência · UC02919

Peças mecânicas em fresadora e torno convencional

Torno paralelo, fresadora, ferramentas, parâmetros de corte
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Mecatrónica ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta UC ensina a operar as duas máquinas-ferramenta convencionais mais usadas em manutenção industrial: torno paralelo e fresadora. Em mecatrónica moderna a maior parte da maquinagem é feita em CNC, mas dominar o convencional ensina:

Pré-requisitos pedagógicos: UC02855 (SST), UC02848 (Medição), UC02849 (Serralharia), UC02877 (Desenho), UC02918 (Conjuntos CAD).

1. Princípios de maquinagem

1.1 O que é maquinar

Maquinar = remover material de uma peça em bruto por arranque de apara, com ferramenta cortante, até obter a forma e dimensões pretendidas.

Compare com outros processos de fabrico: - Fundição — vazar metal líquido num molde. - Forjamento — deformar plasticamente com pancada. - Soldadura — unir por fusão localizada. - Fabrico aditivo (3D) — adicionar material camada a camada.

Maquinagem é subtractiva — começamos com uma peça maior e removemos.

1.2 As duas máquinas-rei

Torno paralelo: - A peça roda no mandril. - A ferramenta avança linearmente. - Produz superfícies de revolução (cilindros, cones, esferas). - Veios, casquilhos, manípulos, parafusos especiais, polias.

Fresadora: - A ferramenta roda no spindle. - A peça avança nos 3 eixos. - Produz superfícies planas, ranhuras, cavidades, formas livres. - Blocos, suportes, engrenagens, moldes.

1.3 Apara e calor

Cada passagem de corte gera: 1. Apara (cavaco) — material removido. A forma e cor indicam saúde do corte. 2. Calor — fricção concentrada na ponta da ferramenta (pode atingir 800-1000°C em aço). 3. Força — empurra peça e ferramenta; testa rigidez do conjunto.

Apara saudável: contínua, helicoidal, dourada (aço com pouco óleo). Apara doente: azul/violeta (calor excessivo), em pó (ferramenta gasta), longa/emaranhada (perigosa, prender corpo).

2. Torno paralelo

2.1 Anatomia

              [Painel de comandos]
                        
   [Cabeçote fixo]══[Mandril]════[Peça]════[Ponto/Contraponto]
                                                  
   motor + caixa                          ajuste com manivela
                                                  
        └──────────[Barramento (guias)]───────────┘
                              
                       [Carro principal]
                        Carro transversal (X)
                        Carro longitudinal (Z)
                              
                       [Porta-ferramentas]
                              
                       [Avental + parafuso patrão para roscagem]

2.2 Operações típicas

Operação Descrição Ferramenta
Faceamento Face plana perpendicular ao eixo Ferramenta de facear
Cilindragem Superfície cilíndrica exterior Ferramenta de cilindrar
Mandrilamento Cilindragem interior (alargar furo) Mandril/barra de mandrilar
Roscagem Rosca exterior ou interior Ferramenta de rosca
Sangramento Ranhura ou corte Sangrador
Furação Furo axial Broca no contraponto
Recartilhado Relevo decorativo/agarrar Recartilha
Cones Superfície cónica Inclinar carro superior ou usar suporte cónico

Aproximadamente 90% das peças cilíndricas de uma oficina saem do torno.

2.3 Fixação da peça

Sistema Quando
Mandril universal 3 castanhas Peças cilíndricas (auto-centra) — padrão
Mandril 4 castanhas independentes Peças irregulares, excêntricas, alinhamento fino
Entre-pontos Peças longas (L/D > 5)
Lunetas (fixa ou móvel) Peças muito longas que flectem
Mandril de pinça Barras curtas, alta precisão centragem
Placa lisa Peças fundidas ou forjadas pesadas (com grampos)

Verificação de excentricidade: com relógio comparador, rodar peça à mão; máx-mín deve ser < 0,05 mm em geral; < 0,01 mm para precisão.

2.4 Sequência típica de torneamento

  1. Apertar peça + verificar excentricidade.
  2. Aproximar ferramenta ao Ø externo; tocar para "zerar" coordenadas.
  3. Faceamento — referência axial limpa.
  4. Cilindragem desbaste — passes de 1-3 mm (HSS) ou 2-5 mm (carboneto), avanço médio.
  5. Cilindragem acabamento — passe leve (0,2-0,5 mm), avanço lento, com refrigeração.
  6. Medir com paquímetro; ajustar até cota nominal.
  7. Chanfrar arestas (1×45° ou 0,5×45°).
  8. Cortar com sangrador (se aplicável).

Tempo típico para peça simples: 15-30 min.

3. Fresadora

3.1 Anatomia

              [Cabeçote vertical]
                    
              [Spindle]──[Fresa]
                    
              ════════════════
                    
              [Mesa de trabalho]
                  Eixo X (longitudinal)
                  Eixo Y (transversal)
                  Eixo Z (vertical, sobe/desce)
                    
              [Coluna + corpo]
                    
              [Base com lubrificação]

3.2 Vertical vs horizontal

3.3 Operações típicas

Operação Descrição Fresa
Aplainamento (faceamento) Face plana superior Fresa de facear (várias pastilhas)
Ranhura Rasgo recto Fresa cilíndrica/topo
Furação Furo perpendicular Broca no spindle
Mandrilamento Furos grandes precisos Mandril ajustável
Escalão Degrau Fresa de topo
Cantos curvos Arredondamentos Fresa de raio
Cavidade (bolsa) Furo interior aberto Fresa de topo entrando
Rasgo em T Para parafusos T Fresa especial em T
Engrenagens Dentes Fresa modular + cabeçote divisor

A fresadora é a máquina mais versátil da oficina convencional.

3.4 Fixação da peça

Sempre verificar com martelo de plástico que a peça não se move ao bater suavemente.

3.5 Sentido de rotação e direcção de avanço

Em máquinas convencionais sem folga corrigida, usa-se discordante. Em CNC moderno: concordante.

4. Ferramentas

4.1 Materiais

Material Dureza Aplicação
HSS (aço rápido) 62-65 HRC Geral, alumínio, aço macio. Económico, afiável.
HSS-Co (5-8% cobalto) 65-67 HRC Aço inox, ligas duras.
Carboneto (widia) 85+ HRC equiv. Quase tudo industrial. Frágil mas duro.
Cermet Similar Acabamento de aço inox e nodulares.
CBN (nitreto boro cúbico) Próximo do diamante Aço temperado HRC > 55.
Diamante PCD Máx Não-ferrosos (alumínio, plásticos, compósitos).

Diamante não corta aço — reage quimicamente. Para aço: HSS, carboneto ou CBN.

4.2 Geometria

Cada ferramenta tem 3 ângulos críticos: - Ângulo de saída (γ, rake) — controla escape da apara. Maior = corte leve, ferramenta frágil. - Ângulo de incidência (α, clearance) — folga contra a peça. Sem isto, ferramenta "esfrega". - Ângulo de gume (β, wedge) — afiação propriamente dita.

Soma α + β + γ = 90°.

4.3 Pastilhas (inserts)

Em vez de afiar HSS, hoje usam-se pastilhas de carboneto descartáveis com 2-8 gumes. Quando um gume gasta, roda-se a pastilha. Padrão ISO (CNMG, DCMT, etc.) — letras codificam forma, ângulos, raio de ponta.

5. Velocidades e avanços

5.1 Velocidade de corte (Vc)

N (rpm) = (1000 × Vc) / (π × D)

Onde: - Vc em m/min (depende de material+ferramenta) - D em mm (Ø da peça no torno, Ø da fresa na fresadora)

Valores típicos Vc (m/min):

Material HSS Carboneto
Aço C45 25-40 100-200
Aço inox 304 12-20 60-120
Ferro fundido 18-25 70-150
Alumínio 80-200 300-1000
Latão 60-100 200-400
Bronze 30-50 120-200

5.2 Avanço (f)

Valores típicos: - Desbaste: 0,2-0,4 mm/rot (torno); 0,1-0,2 mm/dente (fresa). - Acabamento: 0,05-0,15 mm/rot (torno); 0,05-0,1 mm/dente (fresa).

5.3 Profundidade de corte (ap)

5.4 Sinais a interpretar

Observação Diagnóstico Acção
Apara dourada/contínua Saudável Continuar
Apara azul/violeta Vc alto demais ou sem refrigeração Baixar Vc + ligar taladrina
Apara em pó Ferramenta gasta Substituir/afiar
Apara longa, emaranhada Sem quebra-aparas, perigoso Mudar pastilha ou f
Vibração / chatter Peça/ferramenta longas, rigidez baixa Encurtar saliências; baixar f
Som "metálico-agudo" Ferramenta a cortar parcialmente Baixar f
Acabamento brilhante Ideal em acabamento OK
Acabamento mate/rugoso Vc baixo ou f alto Subir Vc, baixar f

6. Refrigeração

6.1 Taladrina (óleo solúvel)

Mistura água + óleo emulsionável (3-8%). Padrão em torno e fresadora.

Funções: - Refrigerar ferramenta e peça. - Lubrificar zona de corte. - Evacuar apara com fluxo. - Proteger da corrosão peças e máquina.

Vantagens: barata, eficaz. Desvantagens: bactérias se ficar parada, alergias na pele, gera nebulização.

6.2 Quando refrigerar

6.3 MQL (Minimum Quantity Lubrication)

Spray fino de óleo + ar comprimido em vez de banho. Mais ecológico, menos resíduo. Comum em CNC moderno.

7. Tolerâncias atingíveis

Operação Tolerância IT típica Equivale a (Ø 30)
Torno cilindragem (HSS, geral) IT9-IT10 ±0,05-0,08 mm
Torno cilindragem (carboneto, fino) IT7-IT8 ±0,02-0,03 mm
Fresagem normal IT9-IT10 ±0,05-0,08 mm
Fresagem acabamento IT7-IT8 ±0,02-0,03 mm
Rectificação IT5-IT6 ±0,005-0,01 mm
Lapidagem IT4 ±0,003 mm

Para ajustamentos H7/g6 em ajuste de rolamento, torno fino chega. Para H6 em mecânica de precisão, é preciso rectificadora.

8. Acabamento de superfície (Ra)

Operação Ra (µm)
Torno desbaste 3,2-6,3
Torno acabamento 0,8-1,6
Fresagem desbaste 6,3-12,5
Fresagem acabamento 1,6-3,2
Rectificação 0,1-0,4
Polimento < 0,1

Pode atingir-se Ra 0,8 µm num torno com ferramenta de raio grande, avanço muito baixo e refrigeração.

9. Programa simples — exemplo de peça

Peça: Veio escalonado em aço C45. - Comprimento total: 100 mm. - Ø 25 mm × 60 mm. - Ø 20 mm × 40 mm (ajustamento h6 para rolamento). - Chanfres 1×45° em todas as transições. - Tolerância geral ±0,1 mm; Ø 20 com h6.

Sequência: 1. Apertar varão Ø 28 × 110 mm no mandril, 70 mm fora. 2. Facear ponta livre → referência Z=0. 3. Cilindragem desbaste Ø 25 × 60 mm em 2 passes (ap=1,5 mm). 4. Cilindragem desbaste Ø 20 × 40 mm em 2 passes (ap=1,25 mm). 5. Acabamento Ø 25 (1 passe, ap=0,2, f=0,1, com taladrina). 6. Inverter peça; refacear → comprimento 100 mm exacto. 7. Acabamento Ø 20 h6 (vários passes, medindo entre cada um) até atingir 19,985-20,000 mm. 8. Chanfres 1×45° com ferramenta inclinada. 9. Medir e validar.

10. Segurança específica

(Reforço de UC02855 para máquinas-ferramenta.)

10.1 Antes de ligar

[ ] Peça apertada (testar com martelo plástico)
[ ] Ferramenta apertada (no porta-ferramentas / spindle)
[ ] Contraponto (torno) fechado e lubrificado
[ ] Caixa de velocidades engatada e correcta
[ ] Refrigeração preparada (nível, fluxo, agulheta)
[ ] Resguardos fechados
[ ] Mãos longe da zona de corte
[ ] Botão de paragem de emergência localizado
[ ] Limalha da bancada limpa
[ ] EPI (óculos, calçado, fato apertado, cabelo preso)

10.2 Durante operação

10.3 Emergência

11. Manutenção da máquina

Diária: - Limpar limalha. - Verificar nível de óleo de barramento. - Verificar nível e PH da taladrina.

Semanal: - Lubrificar guias. - Inspeccionar correias, mangueiras.

Mensal: - Verificar folgas dos parafusos sem-fim/porcas dos carros. - Refrescar/trocar taladrina.

Anual: - Verificação geométrica (paralelismo, perpendicularidade) — afecta precisão.

12. Liga a outras UCs

13. Conclusão

Maquinagem convencional dói a aprender — várias peças do lixo até apanhar o jeito. Vale o investimento: 90% das peças mecânicas que tocas no dia-a-dia industrial passaram por um torno e/ou fresadora.

Quem domina o convencional consegue depois passar para CNC com decisões fundamentadas: sabe porque escolheu aquela ferramenta, aquele Vc, aquele avanço.

Apêndice A · Tabela de Vc (m/min)

Material HSS torno HSS fresa Carboneto torno Carboneto fresa
Aço S235 30-45 25-40 150-250 120-200
Aço C45 25-40 20-35 100-200 100-180
Aço inox 304 12-20 10-18 60-120 50-100
Aço temperado HRC 45 60-100 (CBN) 50-80 (CBN)
Ferro fundido 18-25 15-25 70-150 60-130
Alumínio 80-200 100-300 300-1000 500-1500
Latão 60-100 50-80 200-400 200-400

Apêndice B · Glossário