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UC · Unidade de Competência · UC02907

Sebenta · Efetuar desenho de fabrico de peças e conjuntos mecânicos por processos de arranque de apara (UC02907)

Do croquis ao conjunto tensor de uma correia trapezoidal, cotagem de fabrico, tolerâncias ISO 286 e segurança na oficina
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Desenho e Projeto/Desig ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

O desenho de fabrico é a única coisa que sobra entre quem projeta e quem opera o torno ou a fresadora. Se o desenho não disser exatamente que cotas respeitar, que tolerância aceitar, que acabamento dar a cada superfície e por que ordem maquinar, a peça sai errada, ou sai boa por sorte. Esta sebenta ensina a produzir esse desenho para peças e conjuntos fabricados por arranque de apara, ou seja, por remoção de material com uma ferramenta de corte: torneamento, fresagem, furação e trabalhos de bancada.

O percurso segue o de um técnico de desenho e projeto numa oficina metalomecânica: primeiro esboça-se à mão livre o que se quer obter, depois desenha-se com rigor as vistas, cortes e secções, cota-se para fabrico, tolera-se o que é crítico, especifica-se o estado de superfície e das arestas, anota-se a simbologia do processo, e por fim organiza-se o desenho de conjunto com balões e lista de peças. Ao longo do documento usamos como fio condutor um conjunto tensor e transmissão por correia trapezoidal de uma bomba centrífuga industrial: um veio de transmissão torneado, uma polia em V fresada, uma bucha de bronze prensada e um suporte de tensor fresado.

Objetivos de aprendizagem (referencial): realizar o desenho à mão livre; executar a representação gráfica das vistas, cortes e secções dos componentes a obter; e aplicar no desenho as informações auxiliares referentes ao processo de arranque de apara, relacionando os processos com os componentes a maquinar e respeitando as regras e normas em vigor.

1. Processos de fabrico por arranque de apara

Arranque de apara é a família de processos que obtém a forma final de uma peça removendo material de um bloco ou barra em bruto, sob a forma de apara (limalha). Contrapõe-se aos processos de conformação (forjar, dobrar, moldar), que não removem material.

Os processos principais desta UC:

Processo Máquina Movimento de corte Peças típicas
Torneamento torno mecânico peça roda, ferramenta avança veios, polias, buchas, roscas
Fresagem fresadora ferramenta roda, peça avança suportes, braços, rasgos, faces planas
Furação berbequim, torno, fresadora ferramenta roda e avança furos passantes e cegos
Trabalhos de bancada manuais manual acabamentos, roscas à mão, ajuste

1.1 Associar o componente ao processo

A primeira decisão de projeto é: que processo produz esta geometria? Regra prática:

O veio de transmissão do conjunto tensor é essencialmente cilíndrico (torneado: diâmetros escalonados Ø28 e Ø25, chanfros, rosca M10 numa ponta), mas o rasgo de chaveta que trava a polia é fresado depois de torneado, com o veio preso num prisma em V. O desenho de fabrico tem de indicar as duas fases e a ordem entre elas.

1.2 Sequência operatória de maquinação

Antes de desenhar uma cota, o técnico decide a sequência operatória: por que ordem se fazem as operações, o que se maquina de cada vez que a peça é fixada. Isto tem impacto direto na cotagem, porque cada mudança de fixação introduz um novo erro possível.

  1. Identificar a matéria-prima (barra, chapa, bloco) e as suas dimensões brutas.
  2. Definir as superfícies de referência (datums) a partir das quais tudo se mede.
  3. Ordenar as operações: desbaste antes de acabamento, faces de referência antes das dependentes.
  4. Escolher o processo (torno, fresa, bancada) e o dispositivo de fixação para cada operação.
  5. Isolar as operações críticas (tolerância apertada, acabamento fino) no fim da sequência, quando a peça já não vai sofrer mais esforços de maquinação grosseira.

2. Croquis e desenho à mão livre

O croqui é um desenho técnico feito à mão livre, sem instrumentos de precisão nem escala rigorosa, mas que respeita as regras da representação técnica: proporções aproximadas, tipos de linha corretos, vistas normalizadas. É a primeira ferramenta de um técnico, usada para registar uma ideia no posto de trabalho, propor uma solução numa reunião ou levantar as cotas de uma peça existente.

2.1 Técnicas de desenho à mão livre

2.2 Croqui de levantamento vs croqui de proposta

Em ambos os casos, o croqui respeita as vistas normalizadas (não é uma perspetiva artística) e inclui, mesmo que a lápis, as cotas essenciais e uma indicação do material.

Um croqui bem feito tem sempre: vista de frente, vista de topo (ou de lado, conforme o que for mais informativo), pelo menos as cotas gerais e as cotas funcionais, e uma nota de material. Sem isto, o croqui é um desenho artístico, não um documento técnico.

3. Vistas, cortes e secções de peças maquinadas

3.1 Escolher as vistas certas

A regra de ouro é: o mínimo de vistas que definem a peça sem ambiguidade. Para peças de revolução (torneadas), normalmente basta uma vista com a cotagem de diâmetros (prefixo Ø), porque a simetria em torno do eixo já está implícita. Para peças prismáticas (fresadas), são precisas tipicamente duas ou três vistas (frente, topo, e uma lateral se houver detalhe que as outras duas não mostrem).

3.2 Cortes para mostrar o interior

Um corte substitui as linhas escondidas (interpoladas) por linhas visíveis, "serrando" imaginariamente a peça e desenhando o que ficaria à vista.

Tipo de corte Uso típico em peças maquinadas
Corte total bucha de bronze com furo passante, para mostrar o furo todo
Meio corte peças de revolução simétricas: metade em corte, metade em vista exterior
Corte local (parcial) mostrar só um furo ou rasgo, sem cortar a peça toda
Secção rebatida mostrar o perfil de uma ranhura ou chaveta, rodada 90° sobre a própria vista

A hachura (traços finos inclinados a 45°) identifica o material cortado; em peças de conjunto, cada componente tem a hachura em ângulo ou espaçamento diferente para se distinguir.

A bucha de bronze desenha-se quase sempre em corte total: sem o corte, o furo interior Ø20 H7 ficaria representado só por linhas interrompidas, e a cotagem do furo ficaria confusa. Com o corte, o diâmetro exterior, o furo e o chanfro de entrada aparecem todos em linhas visíveis, na mesma vista.

3.3 Secções

Uma secção mostra só o corte em si, sem o resto da peça atrás. Usa-se para perfis que se repetem (um rasgo de chaveta, uma nervura) sem ter de repetir a peça inteira. As secções desenham-se junto da vista, ligadas por uma linha de eixo, ou "rebatidas" sobre a própria vista quando o perfil é simples.

O rasgo de chaveta do veio de transmissão desenha-se com uma secção rebatida, junto da vista principal: mostra a largura, a profundidade e os cantos do rasgo sem precisar de mais uma vista completa da peça.

4. Cotagem nominal e cotagem de fabrico

4.1 Cotagem nominal

A cota nominal é o valor teórico da medida, sem tolerância explícita: Ø28, 120, R2. Descreve a geometria da peça acabada. É o ponto de partida, mas sozinha não diz ao operador quanto pode variar na prática.

4.2 Cotagem de fabrico

A cotagem de fabrico acrescenta à cota nominal tudo o que o operador precisa para produzir e verificar a peça na sequência correta:

Princípios que não mudam em relação ao desenho técnico geral, mas que aqui ganham peso porque há várias fixações em jogo:

No veio de transmissão, o comprimento da secção de assento do rolamento Ø25 mede-se a partir do encosto que trava o rolamento axialmente (a face que vai receber a carga de encosto), não a partir da ponta roscada M10 do outro lado. É esse encosto que define a posição funcional do rolamento quando montado; cotar a partir da ponta roscada obrigaria a somar a cota da zona da polia e do rasgo de chaveta a essa medida, introduzindo erro adicional numa cota que devia ser direta.

5. Toleranciamento dimensional e ajustamentos (ISO 286)

Nenhuma máquina produz uma cota exata. O toleranciamento define a gama de valores aceitáveis para cada cota, de forma a que a peça funcione mesmo com a variação inevitável do fabrico.

5.1 Notação

5.2 O sistema ISO 286

Cada tolerância ISO combina uma letra (posição do campo de tolerância) e um número (grau de tolerância, ou qualidade):

Valores normalizados de amplitude de tolerância (em micrómetros, µm), pela tabela ISO 286-1:

Gama de diâmetros IT6 IT7
18 a 30 mm 13 21
30 a 50 mm 16 25
50 a 80 mm 19 30

5.3 Calcular um ajustamento de transição: Ø28 H7/k6

A polia em V monta no veio pelo diâmetro Ø28. Para a gama 18 a 30 mm, IT7 = 21 µm e IT6 = 13 µm; o afastamento inferior tabelado do veio k6 é ei = +2 µm.

Folga máxima = cota máxima do furo − cota mínima do veio = 28,021 − 28,002 = 0,019 mm. Aperto máximo = cota máxima do veio − cota mínima do furo = 28,015 − 28,000 = 0,015 mm.

É um ajustamento de transição: consoante os exemplares reais produzidos, pode sair com uma folga pequena (até 0,019 mm) ou com um aperto pequeno (até 0,015 mm). Serve para centrar a polia sem jogo relevante, mas ainda permitir desmontagem com extrator.

5.4 Calcular um ajustamento com aperto: Ø60 H7/p6

A bucha de bronze é prensada no furo do suporte do tensor, para não rodar nem sair durante o funcionamento. Para 60 mm (gama 50 a 80 mm):

Aperto máximo = cota máxima do veio − cota mínima do furo = 60,051 − 60,000 = 0,051 mm. Aperto mínimo = cota mínima do veio − cota máxima do furo = 60,032 − 60,030 = 0,002 mm.

Como o valor mínimo já é positivo, é um ajustamento com aperto garantido (nunca há folga): a bucha fica fixa por interferência, sem precisar de mais nenhum elemento de fixação.

5.5 Calcular um ajustamento com folga larga: Ø20 H7/f7

O pino do braço tensor roda continuamente, lubrificado, dentro do furo interior da bucha de bronze. Para 20 mm (gama 18 a 30 mm), IT7 = 21 µm; o afastamento superior tabelado do veio f7 é es = −20 µm.

Folga máxima = cota máxima do furo − cota mínima do veio = 20,021 − 19,959 = 0,062 mm. Folga mínima = cota mínima do furo − cota máxima do veio = 20,000 − 19,980 = 0,020 mm.

A folga é bem maior do que a possível no ajustamento de transição (0,019 mm): um pino que roda de forma contínua e lubrificada precisa de espaço para o filme de óleo, não de um ajuste apertado.

5.6 Ajustamentos de referência

Ajustamento Tipo Uso típico no conjunto tensor
H7/f7 folga larga, lubrificada pino do braço tensor dentro da bucha
H7/h6 folga teoricamente nula centragem sem jogo, sem aperto
H7/k6 transição polia e assento do rolamento no veio
H7/p6, H7/s6 aperto bucha de bronze fixa por interferência

Tolerância geral (ISO 2768-m): todas as cotas sem tolerância específica seguem a nota no cartouche, por exemplo "Cotas sem tolerância indicada: ISO 2768-m", evitando ter de tolerar individualmente cada cota não crítica.

Repara que o assento do rolamento (Ø25) e o furo da polia (Ø28) usam a mesma letra k6 e dão exatamente as mesmas folgas e apertos máximos (0,019 mm e 0,015 mm). Não é coincidência nem erro: os dois diâmetros caem na mesma gama da norma (18 a 30 mm), por isso os afastamentos IT6/IT7 tabelados são idênticos. Muda só o valor de base a que se somam.

6. Estado das arestas e acabamento superficial

6.1 Estado das arestas

Toda a aresta resultante de arranque de apara sai com rebarba (uma lâmina fina de material deslocado). Uma aresta viva (não tratada) corta a pele de quem manuseia a peça e pode lascar ou danificar componentes ao montar. O desenho de fabrico tem de dizer o que fazer a cada aresta:

Quando não vale a pena cotar cada aresta individualmente, usa-se uma nota geral, por exemplo: "Arestas não cotadas: quebrar 0,3 × 45°". É a norma ISO 13715 que trata especificamente da indicação de arestas sem cota definida; na prática do dia a dia da oficina, a nota geral do cartouche resolve a maioria dos casos.

Uma rebarba esquecida à entrada do furo da bucha de bronze é o erro mais caro desta UC: o pino do braço tensor entra à força, risca o furo f7, e o ajustamento calculado com todo o rigor deixa de valer. Chanfrar sempre a entrada de furos de ajustamento.

6.2 Acabamento superficial (rugosidade, ISO 1302)

O acabamento superficial mede-se pelo parâmetro Ra (rugosidade média, em micrómetros), e indica-se no desenho com o símbolo normalizado da ISO 1302: um ângulo aberto (semelhante a uma raiz quadrada) junto da superfície, com o valor de Ra a seguir.

Operação Ra típico (µm)
Torneamento de desbaste 6,3 a 12,5
Torneamento de acabamento 1,6 a 3,2
Fresagem de desbaste 6,3 a 12,5
Fresagem de acabamento 1,6 a 3,2
Retificação 0,2 a 0,8

Onde especificar Ra: só nas superfícies funcionais, aquelas que deslizam, vedam ou encostam a outra peça. Uma superfície sem função de contacto fica com a rugosidade que resulta naturalmente da operação, sem necessidade de valor imposto (Ra mais apertado encarece a peça).

No conjunto tensor: o assento do rolamento Ø25 e o pino do braço tensor Ø20 (dentro da bucha) levam Ra 0,8 (acabamento fino, quase de retificação), porque ambos rodam de forma contínua sob carga. O encosto que trava o rolamento axialmente, que só aperta sem deslizar, fica em Ra 3,2 (torneamento de acabamento normal). Não há razão para gastar tempo de máquina a apurar uma superfície que não desliza nem veda.

7. Simbologia, anotações e informações auxiliares do arranque de apara

Chama-se informações auxiliares a tudo o que, no desenho de fabrico, não é geometria nem cota, mas que o operador precisa para produzir e verificar a peça: simbologia de rosca, de furos e de chavetas, notas de tratamento e revestimento, indicação de operações, e a tolerância geral.

7.1 Roscas, furos e chavetas

7.2 Cotar o rasgo de chaveta

As profundidades normalizadas do rasgo, para a chaveta 8 × 7, são t1 = 4,0 mm no veio e t2 = 3,3 mm no cubo (polia). Na prática do desenho:

Essa folga não é um erro, é intencional: a chaveta paralela transmite o binário pelas faces laterais, não pelo topo, por isso não há necessidade de contacto na face superior.

7.3 Notas de tratamento e do processo

8. Legendas, balões de identificação e lista de peças

8.1 Desenho de definição vs desenho de conjunto

8.2 Balões de identificação

No desenho de conjunto, cada peça recebe um balão (um círculo com um número), ligado à peça por uma linha fina. O número do balão corresponde ao item na lista de peças. Regras práticas:

8.3 Lista de peças

A lista de peças (ou lista de materiais) acompanha o desenho de conjunto, normalmente no canto superior direito ou em folha própria:

Item Designação Quantidade Material Observações
1 Veio de transmissão 1 C45 têmpera por indução no assento do rolamento, Ra 0,8
2 Polia em V 1 GG25 furo Ø28 H7, rasgo de chaveta 8×7
3 Bucha de bronze 1 CuSn8 Ø60 p6 exterior, Ø20 H7 interior, mandrilado após prensagem
4 Suporte do tensor 1 S275 furo Ø60 H7, 4 furos Ø9 de fixação
5 Braço tensor 1 S275 pino integrado Ø20 f7

Cada linha liga-se a um balão do desenho de conjunto e, quando aplicável, a um desenho de definição próprio.

8.4 Cartouche

O cartouche (caixa de legenda, geralmente no canto inferior direito) reúne o que identifica o desenho: título da peça ou conjunto, número de desenho e revisão, escala, formato, sistema de projeção (1º ou 3º diedro), material, quantidade, tolerância geral, autor e datas. É a "carta de identidade" do desenho, indispensável tanto no desenho de definição como no de conjunto.

9. Torneamento: operações, sequência e ferramentas

9.1 Operações principais

Operação O que faz
Facejamento corta a face perpendicular ao eixo, define o comprimento
Cilindragem exterior reduz o diâmetro exterior ao longo do eixo
Mandrilagem interior aumenta ou acaba um furo já existente, com precisão
Furação (no torno) abre um furo centrado no eixo, com broca no cabeçote móvel
Roscamento corta uma rosca exterior ou interior, com buril de perfil ou macho
Sangramento (corte) separa a peça da barra, ou abre uma ranhura estreita
Chanfragem corta um plano inclinado numa aresta

9.2 Ferramentas de torneamento

As ferramentas de torno (buris) têm uma pastilha de metal duro (ou aço rápido, em produção pequena) fixada num porta-ferramentas. Cada operação tem geometria própria: buril de desbaste (ângulo robusto, avanço grosso), buril de acabamento (ponta fina, avanço reduzido), buril de roscar (perfil igual ao passo da rosca), buril de sangrar (lâmina estreita).

9.3 Exemplo resolvido: sequência operatória do veio de transmissão

Peça: veio de transmissão, Ø28 na zona da polia, Ø25 no assento do rolamento, comprimento útil 220 mm, rosca M10 numa das pontas, material C45.

  1. Serrar a barra bruta de Ø35 com sobremedida (cerca de 225 mm).
  2. Fixar na bucha de três grampos pelo lado do assento do rolamento.
  3. Facejar o topo livre, à cota final de comprimento.
  4. Cilindrar o Ø28 de desbaste (com sobremedida de acabamento, ex.: Ø28,3) na zona da polia.
  5. Cilindrar o Ø25 de desbaste no assento do rolamento, até ao encosto.
  6. Roscar M10 na ponta livre e chanfrar essa extremidade, 1×45°.
  7. Inverter a peça (mudar de fixação), facejar ao comprimento total e chanfrar a segunda extremidade.
  8. Cilindrar de acabamento os Ø28 e Ø25 até às cotas finais k6, com passagem fina.
  9. Retificar o Ø25 depois da têmpera por indução, para garantir a tolerância e o Ra 0,8 finais.

Cada mudança de fixação (passo 7) é um ponto de atenção: a face de referência tem de estar já feita antes de se cotar a partir dela.

10. Fresagem: operações, sequência e ferramentas

10.1 Operações principais

Operação O que faz
Fresagem frontal aplaina uma face larga, com fresa de topo de faces múltiplas
Fresagem tangencial corta com a periferia da fresa, faces laterais e ranhuras
Fresagem de ranhuras abre rasgos (chavetas, guias) com fresa de disco ou de topo
Furação e mandrilagem fura e acaba furos fora do eixo de simetria, com precisão de posição

10.2 Ferramentas de fresagem e dispositivos de aperto

Fresas de topo (desbaste e acabamento), fresas de disco (ranhuras), brocas e mandris (furos precisos). A peça fixa-se em morsa de máquina, sobre calços paralelos, ou aparafusada diretamente à mesa com grampos em T; peças cilíndricas, como o veio para abrir o rasgo de chaveta, usam-se num prisma em V.

10.3 Exemplo resolvido: sequência operatória do suporte do tensor

Peça: suporte 90 × 70 × 20 mm, aço S275, com furo Ø60 H7 para a bucha de bronze e 4 furos Ø9 de fixação.

  1. Serrar o bloco em bruto com sobremedida em todas as faces.
  2. Fixar em morsa, sobre calços paralelos, com a face de referência (a mais plana) para baixo.
  3. Fresar a face superior (fresagem frontal), à cota de espessura de desbaste.
  4. Inverter, fresar a face inferior de encosto até à espessura final de 20 mm.
  5. Traçar o centro do furo Ø60 e os quatro furos Ø9, a partir das duas faces de referência laterais.
  6. Furar o furo central com broca de menor diâmetro, depois mandrilar a Ø60 H7.
  7. Furar os quatro Ø9 de fixação.
  8. Chanfrar todas as arestas vivas e verificar as cotas com paquímetro e calibre-tampão.

11. Traçagem e trabalhos de bancada

11.1 Traçagem

Traçar é marcar na peça em bruto, com riscos e pontos de granete, as linhas que orientam a maquinação: eixos, contornos, centros de furos. Ferramentas: mármore (mesa de referência plana), riscador, esquadro de traçagem, compasso de bicos, calibre de altura, granete (para marcar o centro dos furos antes de furar, evitando que a broca fuja).

A traçagem aplica-se sobretudo em peças únicas ou pequenas séries, quando não compensa programar uma máquina CNC: o técnico traça diretamente sobre o bruto as linhas correspondentes às vistas do desenho, para guiar o corte manual ou em máquina convencional.

11.2 Trabalhos de bancada

Operações manuais de acabamento e ajuste, feitas fora da máquina: limar (acertar uma face ou aresta), furar com berbequim de bancada, roscar à mão (macho para roscas interiores, cossinete para roscas exteriores), rebarbar (remover arestas vivas com lima ou escova), raspar e ajustar superfícies de encosto de precisão. São operações lentas mas indispensáveis quando a tolerância exige um acerto fino que a máquina, sozinha, não garante.

12. Máquina-ferramenta, dispositivos de aperto e manutenção preventiva

12.1 A máquina-ferramenta

12.2 Dispositivos de aperto

Dispositivo Usa-se em Fixa
Bucha de 3 ou 4 grampos torno peças de revolução (veio, polia)
Pinça torno, fresadora peças cilíndricas de precisão, pequeno diâmetro
Contraponto torno extremidade livre de veios compridos
Morsa de máquina fresadora blocos e chapas (suporte, braço tensor)
Prisma em V fresadora peças cilíndricas a fresar (rasgo de chaveta)
Grampos em T fresadora peças de forma irregular, diretamente na mesa

A escolha do dispositivo certo evita vibração (que degrada o acabamento) e deformação da peça por aperto excessivo, sobretudo em paredes finas.

12.3 Manutenção preventiva

Um plano de manutenção preventiva típico de uma máquina-ferramenta inclui:

A manutenção preventiva não substitui a corretiva quando há avaria, mas reduz drasticamente a sua frequência e evita que um desgaste pequeno arruíne uma série inteira de peças.

13. Controlo dimensional e segurança no trabalho

13.1 Controlo dimensional e de acabamento

Verificar a peça contra o desenho de fabrico, não contra a intuição:

A verificação faz-se sempre com a máquina parada, nunca com a peça em rotação.

13.2 Normas de segurança e saúde no trabalho

O acidente mais comum em torno e fresadora não é o corte pela ferramenta, é o arrastamento: mangas soltas, luvas ou cabelo apanhados pela peça ou pelo mandril em rotação. A regra "nada solto perto do que roda" vale mais do que qualquer EPI isolado.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Um desenho de fabrico por arranque de apara nasce de um croqui que já respeita as regras técnicas, resolve-se em vistas, cortes e secções que mostram a peça sem ambiguidade, cota-se com cotagem de fabrico a partir das referências reais de maquinação, aplica tolerâncias ISO 286 apenas onde a função o exige (transição em H7/k6, aperto em H7/p6, folga larga em H7/f7), especifica o estado das arestas e o acabamento superficial (ISO 1302) por superfície, e reúne toda a simbologia e informação auxiliar do processo (roscas, chavetas, tratamentos). Quando a peça faz parte de um conjunto, como o veio, a polia, a bucha e o suporte do tensor, o desenho de conjunto organiza-se com balões e lista de peças. Por trás de cada cota está uma operação real de torneamento, fresagem, traçagem ou bancada, feita numa máquina-ferramenta mantida em condições, verificada com os instrumentos certos, e sempre sob as normas de segurança.

Exercícios resolvidos

1. A polia (Ø28 H7) monta no veio (Ø28 k6). Calcula a folga máxima e o aperto máximo possíveis.

Resolução: furo H7 (gama 18-30 mm, IT7 = 21 µm): Ø28 ⁺⁰·⁰²¹₀. Veio k6 (IT6 = 13 µm, ei = +2 µm): Ø28 ⁺⁰·⁰¹⁵₊₀,₀₀₂. Folga máxima = 28,021 − 28,002 = 0,019 mm. Aperto máximo = 28,015 − 28,000 = 0,015 mm. É um ajustamento de transição.

2. Porque é que o comprimento do assento do rolamento se cota a partir do encosto, e não a partir da ponta roscada M10?

Resolução: o encosto é a face que define a posição funcional do rolamento quando montado no veio; é uma face de referência direta e estável. Cotar a partir da ponta roscada obrigaria a somar as cotas da zona da polia e do rasgo de chaveta a essa medida, introduzindo erro adicional numa cota que devia ser direta e funcional.

3. Que estado de superfície (Ra) atribuis ao pino Ø20 do braço tensor, que roda continuamente dentro da bucha? E ao encosto do rolamento, que só aperta sem deslizar?

Resolução: o pino, com movimento contínuo lubrificado, leva Ra 0,8 (acabamento fino, reduz o desgaste por atrito repetido). O encosto, sem função de deslizamento, fica em Ra 3,2 (torneamento de acabamento normal). Especificar Ra 0,8 no encosto seria desperdício de tempo de máquina.

4. Um desenho mostra 5 peças montadas, com balões de 1 a 5 e uma tabela ao lado. Que tipo de desenho é este e o que deve (e não deve) conter?

Resolução: é um desenho de conjunto. Deve conter a posição relativa das peças montadas, os balões numerados ligados à lista de peças, e cotas gerais de encómbrio ou de montagem. Não deve conter a cotagem de fabrico detalhada de cada peça (tolerâncias, acabamentos): essa informação pertence ao desenho de definição de cada peça.

5. A bucha de bronze (Ø60 p6) é prensada no furo do suporte (Ø60 H7). Confirma que o ajustamento garante sempre aperto e calcula os valores extremos.

Resolução: furo H7 (gama 50-80 mm, IT7 = 30 µm): Ø60 ⁺⁰·⁰³⁰₀. Veio p6 (IT6 = 19 µm, ei = +32 µm): Ø60 ⁺⁰·⁰⁵¹₊₀,₀₃₂. Aperto máximo = 60,051 − 60,000 = 0,051 mm. Aperto mínimo = 60,032 − 60,030 = 0,002 mm. Como o valor mínimo já é positivo, há sempre interferência: o ajustamento é de aperto garantido, adequado a uma peça que não pode rodar nem sair.

6. O rasgo de chaveta 8×7 do veio Ø28 tem t1 = 4,0 mm (no veio) e t2 = 3,3 mm (no cubo). A chaveta tem altura h = 7 mm. Existe folga no topo da chaveta montada? Calcula.

Resolução: a soma das profundidades é t1 + t2 = 4,0 + 3,3 = 7,3 mm. Como a chaveta mede 7 mm de altura, a folga no topo é 7,3 − 7 = 0,3 mm. É uma folga intencional: a chaveta paralela transmite o binário pelas faces laterais, não pelo topo, por isso não precisa de contacto na face superior.