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aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC02894

Sebenta · Efetuar a validação do projeto de um molde de injeção (UC02894)

Especificações, máquina, elementos finitos, simulação, checklist verificável e ensaio na máquina
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Desenho e Projeto de Mo ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a validar o projeto de um molde de injeção: confirmar, com critérios objetivos e mensuráveis, que um molde já dimensionado cumpre as especificações da peça, da produção e da máquina, antes de avançar para o fabrico.

A UC anterior, Efetuar o estudo da constituição de um molde de injeção, ensinou a conceber: escolher tipologia, calcular contração, dimensionar alimentação, extração e refrigeração. Esta UC parte de um projeto já feito e ensina a verificar: rever desenhos e normas, interpretar simulações e análises por elementos finitos, confirmar geometria (ângulos de saída, linha de junta, força de fecho, equilíbrio de enchimento), montar uma checklist verificável e, por fim, ensaiar o molde na máquina real, com amostras iniciais e um relatório de decisão.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar as especificações técnicas e funcionais do molde de injeção; executar simulações e análises estruturais; elaborar a documentação técnica; garantindo o molde a obter em função da máquina de injeção, o dimensionamento dos elementos moldantes, a lista de materiais e a adaptação de materiais e tratamentos térmicos às suas características físicas e mecânicas.

Ao longo desta sebenta seguimos, sempre que possível, o mesmo tipo de caso: um projeto de molde já dimensionado (peça, material, número de cavidades, máquina proposta) que é submetido, passo a passo, ao processo de validação.

1. Da constituição à validação do projeto de um molde

Conceber e validar são fases diferentes do mesmo processo:

Constituição (UC anterior) Validação (esta UC)
Ponto de partida especificações da peça projeto já dimensionado
Pergunta central "como dimensiono isto?" "isto cumpre o que foi pedido?"
Resultado um projeto de molde um projeto aprovado, aprovado com reservas, ou reprovado

A validação organiza-se em três fases sequenciais:

  1. Revisão documental: desenhos técnicos, normas, especificações da peça e da máquina.
  2. Simulação e análise: elementos finitos (FEM), simulação de enchimento, verificações geométricas (ângulos, linha de junta, força de fecho, equilíbrio).
  3. Ensaio físico: montagem na máquina, amostras iniciais, relatório e decisão.

Não se salta uma fase para a seguinte: um molde só é ensaiado na máquina depois de a sua geometria e os seus cálculos terem sido revistos em papel. Cada fase produz evidência escrita, porque só o que fica documentado conta como validado.

2. Especificações técnicas e funcionais: os dados de entrada da validação

Antes de validar qualquer cálculo, reúnem-se os dados de entrada em quatro blocos:

Exemplo resolvido · organizar os dados de entrada

Um projeto chega para validação com esta informação dispersa: "peça em ABS, tampa de caixa elétrica, cota crítica 60,00 mm de comprimento com tolerância ±0,10 mm, encomenda de 50 000 peças/mês, molde de 4 cavidades já desenhado com canal frio, máquina proposta de 800 kN."

Organizado nos quatro blocos:

Bloco Dados
Peça ABS; cota crítica 60,00 ± 0,10 mm; função elétrica (não estrutural)
Produção 50 000 peças/mês
Molde 4 cavidades, canal frio
Máquina proposta: 800 kN (a confirmar)

Só depois desta organização é que a validação avança para as fases seguintes: este projeto, aliás, é o que se revê nos exemplos dos capítulos 9 e 12.

3. A máquina de injeção: características técnicas e atravancamento

Atravancamento é o espaço físico que o molde ocupa e que tem de caber fisicamente na máquina. Confirma-se sempre um conjunto fixo de características:

Característica O que se confirma
Afastamento entre colunas a largura e a altura do molde têm de passar entre as colunas
Altura mínima e máxima de molde a altura fechada do molde tem de estar dentro deste intervalo
Curso de abertura máximo tem de chegar para extrair a peça e retirar o sistema de alimentação
Distância máxima entre pratos (daylight) altura do molde fechado + curso de abertura necessário
Força de fecho nominal tem de ser suficiente para a área projetada total do molde (capítulo 9)

Exemplo resolvido · confirmar o atravancamento

Molde com 380 mm × 320 mm de planta e 300 mm de altura fechada. Máquina com afastamento entre colunas de 420 × 420 mm, altura de molde admissível entre 250 e 500 mm, curso de abertura máximo de 500 mm e distância máxima entre pratos de 700 mm. A peça tem 120 mm de altura; considera-se uma folga de extração de 25 mm e 15 mm para retirar o sistema de alimentação.

L, A, Hm = 380, 320, 300
tie = 420
Hmin, Hmax = 250, 500
curso_max, daylight_max = 500, 700
curso_necessario = 120 + 25 + 15                 # 160 mm
daylight_necessario = Hm + curso_necessario      # 460 mm
Verificação Resultado
L, A ≤ afastamento entre colunas 380 e 320 ≤ 420 → cabe
Hmin ≤ Hm ≤ Hmax 250 ≤ 300 ≤ 500 → cabe
Curso necessário ≤ curso máximo 160 ≤ 500 → cabe
Daylight necessário ≤ daylight máximo 460 ≤ 700 → cabe

Todas as verificações passam: o molde cabe fisicamente nesta máquina. Note-se que caber fisicamente não dispensa a verificação da força de fecho (capítulo 9), que é uma condição independente.

4. Revisão dos desenhos técnicos e cumprimento das normas

Os desenhos de definição do molde e da peça revêem-se em quatro frentes:

Um desenho ambíguo propaga-se em erro de fabrico: a revisão apanha estas falhas antes de o aço ser cortado, quando corrigir ainda é barato.

Identificar os pontos críticos do projeto

Nem todos os elementos do molde têm o mesmo risco. Os pontos críticos mais comuns:

Identificar estes pontos antes da simulação orienta onde concentrar a análise por elementos finitos, em vez de tratar o molde inteiro com a mesma atenção.

5. Análise por elementos finitos (FEM): enchimento e resistência mecânica

A análise por elementos finitos divide uma peça ou estrutura numa malha de elementos pequenos, e calcula, em cada um, tensões, deformações ou temperaturas, resolvendo numericamente as equações físicas do problema. Aplica-se a dois objetos distintos:

O resultado apresenta-se como um mapa de cores: zonas de maior tensão, deformação, ou atraso no preenchimento.

Interpretar o resultado

Ler um resultado de FEM é comparar o valor calculado com um valor admissível, sempre com margem:

Um resultado no limite exige margem, nunca se aceita "está mesmo no limite da rotura".

6. Simulação das condições de moldação

A simulação das condições de moldação reproduz o comportamento do material dentro do molde, variável a variável:

Condição O que revela
Ponto de injeção onde entra o material e o seu efeito no enchimento
Tempo de enchimento rapidez com que a cavidade fica cheia
Temperaturas no fim do enchimento risco de solidificação prematura em zonas finas
Pressões de injeção esforço necessário para encher, refletido na força de fecho
Temperatura do molde influência no acabamento e no tempo de arrefecimento
Tempo de arrefecimento fase mais longa do ciclo, decisiva na produtividade
Bolsas de ar ar retido que impede o enchimento total (marca de queimado)
Linhas de união zonas onde duas frentes de material se encontram, mais fracas mecânica e visualmente

Exemplo resolvido · equilíbrio de enchimento entre cavidades

Um molde de 4 cavidades foi simulado, com estes tempos de enchimento por cavidade: 1,8 s, 1,9 s, 2,0 s e 2,3 s.

tempos = [1.8, 1.9, 2.0, 2.3]
media = sum(tempos) / len(tempos)               # 8,0 / 4 = 2,0 s
desequilibrio = (max(tempos) - min(tempos)) / media
# (2,3 - 1,8) / 2,0 = 0,5 / 2,0 = 0,25 → 25%

Regra desta UC: um enchimento considera-se equilibrado quando o desequilíbrio entre a cavidade mais rápida e a mais lenta, relativo à média, é ≤ 10%.

Aqui, 25% > 10%: o enchimento é reprovado. Corrige-se reequilibrando o canal de distribuição (comprimento e secção iguais a todas as cavidades), e simula-se de novo até o desequilíbrio descer abaixo do limite.

7. Ângulos de saída, linha e plano de junta

O ângulo de saída (draft) é a inclinação dada às paredes moldantes para permitir a desmoldagem sem riscar nem prender a peça. Verifica-se pela folga que gera no fim do curso de extração:

$$\text{folga} = \text{profundidade} \times \tan(\text{ângulo})$$

Regra desta UC: exige-se uma folga mínima de referência de 0,3 mm, salvo indicação mais exigente do desenho técnico.

Exemplo resolvido · verificar dois ângulos

Duas paredes moldantes, ambas com 0,5° de ângulo de saída, mas profundidades diferentes:

import math
casos = [(80, 0.5), (15, 0.5)]     # (profundidade mm, ângulo graus)
for depth, angulo in casos:
    folga = depth * math.tan(math.radians(angulo))
    print(depth, angulo, round(folga, 3))
# 80 mm → 0,698 mm  (≥ 0,3 → aprovado)
# 15 mm → 0,131 mm  (< 0,3 → reprovado)

O mesmo ângulo passa numa parede funda e falha numa parede rasa: a folga cresce com a profundidade, não é um valor fixo por ângulo. Para a parede de 15 mm, o ângulo mínimo necessário para atingir 0,3 mm é:

$$\text{ângulo} = \arctan\left(\frac{0{,}3}{15}\right) \approx 1{,}15°$$

Arredonda-se para o valor normalizado seguinte disponível, 1,5°.

Linha e plano de junta

A linha de junta é o contorno onde as duas metades do molde se separam; o plano de junta, quando plano, é a superfície que a contém.

8. Estrutura, layout e guiamentos do molde

Layout do molde e número de cavidades

O layout organiza a disposição das cavidades e do sistema de alimentação na placa. Validá-lo confirma:

Estrutura

Elemento Função
Número de placas separa alimentação, moldantes, extração e fixação
Zonas de aperto fixam o molde aos pratos da máquina
Anel de centragem alinha o molde com o eixo do bico injetor
Diâmetro do anel de centragem tem de corresponder ao alojamento do prato fixo da máquina
Caixas de alojamento recebem as zonas moldantes (macho e cavidade)

Confirmam-se ainda os guiamentos das metades do molde (colunas e buchas de guia), que garantem alinhamento a cada ciclo, e os travamentos, que impedem desvios sob a pressão de injeção. Os equilíbrios de molde (distribuição de massa e de esforços entre as duas metades) também se revêem aqui, para que o fecho não force mais um lado do que o outro.

Elementos moldantes: o que se verifica em cada um

Elemento O que se valida
Bucha de injeção alinhamento com o bico da máquina e com o anel de centragem
Cavidade acabamento superficial e cotas já com a contração aplicada
Postiços (insertos amovíveis) ajuste de fixação e alinhamento com a cavidade envolvente
Pinos calibrados posição e folga funcional nos furos de guiamento
Elementos móveis (corrediças, machos basculantes) curso livre, sem interferência em toda a amplitude
Elétrodos (ferramenta de maquinação por eletroerosão) acabamento final da cavidade obtido corresponde ao previsto no desenho

Cada elemento moldante foi criado para uma função específica: validar é confirmar que cumpre essa função, não apenas que consta do desenho.

9. Sistema de injeção e verificação da força de fecho

Canal frio e canal quente

Exemplo resolvido · verificar a força de fecho

Retomando o caso do capítulo 2: peça em ABS (pressão específica de fecho, da tabela de referência desta UC: 30 MPa), 4 cavidades, área projetada por cavidade 100 mm × 60 mm, canal de distribuição estimado em 5% da área das cavidades (convenção desta UC, igual à usada no dimensionamento original).

area_cavidades = 100 * 60 * 4                 # 24 000 mm²
area_canais = 0.05 * area_cavidades           # 1 200 mm²
area_total = area_cavidades + area_canais     # 25 200 mm²
forca_kN = area_total * 30 / 1000             # 756 kN

Regra desta UC: aceita-se uma máquina se a força de fecho necessária usar até 85% da sua capacidade nominal: a mesma margem prática usada no dimensionamento inicial do molde.

Máquina Utilização Validação
800 kN (proposta no projeto) 756 / 800 = 94,5% reprovado, excede 85%
1000 kN 756 / 1000 = 75,6% aprovado
1250 kN 756 / 1250 = 60,5% aprovado, com mais margem

O projeto original propunha a máquina de 800 kN: a validação apanha o erro antes de o molde seguir para o fabrico, e recomenda a máquina de 1000 kN como escolha mínima que cumpre a margem de 85%.

10. Sistemas de refrigeração e de extração

Refrigeração e aquecimento

Construir circuitos de controlo de temperatura e de refrigeração da peça injetada é uma das aptidões centrais desta UC. Validar a refrigeração confirma que esses circuitos retiram calor de forma uniforme do macho e da cavidade:

Regra desta UC: aceita-se uma variação de temperatura, entre pontos de medição da mesma metade do molde, até 5 °C; acima disso, o circuito precisa de ser reequilibrado.

Extração

O sistema de extração retira a peça solidificada sem a danificar:

Um curso de extração insuficiente obriga a forçar a peça na abertura, com risco de dano na peça e no molde.

11. Materiais, tratamentos térmicos e componentes normalizados

Materiais e tratamentos

Validar a escolha de materiais do molde confirma a adequação ao desgaste esperado: aços mais duros ou com maior teor de liga para produções longas ou materiais abrasivos (como plásticos reforçados com fibra de vidro). Os tratamentos térmicos (têmpera, cementação) adotam-se para aumentar a dureza superficial sem fragilizar o núcleo. Os revestimentos superficiais (nitruração, cromagem) analisam-se quanto à resistência à corrosão, ao desgaste, e à compatibilidade com o polimento pedido.

Componentes normalizados

12. Documentação técnica e rastreabilidade

Elaborar a documentação técnica é uma das três realizações desta UC, e reúne:

Referenciação e rastreabilidade

Exemplo resolvido · retomar o caso e fechar a documentação

Voltando ao projeto do capítulo 2 (tampa de caixa elétrica em ABS): depois de o layout, a geometria e a força de fecho terem sido validados (com a máquina corrigida para 1000 kN), a ficha de dados técnicos do molde regista: material do molde (aço tratado termicamente), 4 cavidades, canal frio, máquina mínima recomendada 1000 kN, condições de moldação sugeridas (temperatura do molde, pressão de compactação) resultantes da simulação do capítulo 6. Sem este registo, a informação da validação perder-se-ia entre quem projetou e quem produz.

13. Checklist de validação do projeto: o que é verificável

Uma checklist de validação não pode dizer "verificar se está bem". Cada item precisa de três partes: o que se mede, com que meio, e contra que valor, com que critério de aceitação.

"Verificar o ângulo de saída" não é verificável. "Medir a folga de saída, por goniómetro ou no modelo CAD; aceitar se ≥ 0,3 mm ou o valor calculado para a profundidade em causa" é.

Checklist de validação do projeto do molde

Item Meio Valor de referência Critério
Cota crítica da cavidade Paquímetro / micrómetro Cota nominal ± tolerância do desenho Dentro do intervalo
Planicidade da face de aperto Comparador sobre placa de referência Desvio máximo admissível ≤ 0,02 mm
Alinhamento colunas / buchas de guia Paquímetro ou máquina de medição por coordenadas (MMC) Classe de ajustamento do desenho Dentro da classe (ex. H7/g6)
Ângulo de saída Goniómetro ou modelo CAD Ângulo mínimo calculado (capítulo 7) ≥ mínimo, sem inversão
Estanquidade da refrigeração Ensaio de pressão com manómetro Pressão de ensaio mantida 5 min Sem queda de pressão
Interferências de elementos móveis Simulação do curso completo em CAD Percurso total de abertura, extração e fecho Sem colisão em nenhum ponto
Saída de gases (respiros) Calibre de lâminas (apalpa-folgas) Profundidade de referência do respiro Dentro do intervalo, sem rebarba
Equilíbrio de enchimento entre cavidades Simulação de enchimento Desequilíbrio calculado (capítulo 6) ≤ 10%
Força de fecho vs máquina Cálculo pela área projetada (capítulo 9) Utilização da capacidade nominal ≤ 85%

Esta checklist cobre a revisão de desenhos, as interferências, os cursos, a refrigeração, a extração e a saída de gases: todos os pontos que a validação do projeto tem de cobrir antes de o molde avançar para o ensaio na máquina.

14. Ensaio do molde na máquina: amostras iniciais e capacidade do processo

Preparação e amostras iniciais

Antes de qualquer intervenção manual no molde ou na máquina, consigna-se o equipamento: desligar, bloquear e sinalizar. Só depois:

  1. Montagem do molde na máquina, elevado pelos olhais de manutenção e levantamento, com cintas certificadas para o peso do molde.
  2. Purga do bico: remove-se material residual ou degradado antes de injetar no molde novo.
  3. Arranque com os parâmetros da ficha de dados técnicos; ajuste fino até o ciclo estabilizar.
  4. Amostras iniciais: recolhem-se peças já com o processo estabilizado, nunca as primeiras da máquina ainda a aquecer.

Relatório de ensaio

O relatório de ensaio regista: identificação do molde e da máquina, condições de moldação usadas, resultados dimensionais das amostras, defeitos observados, e a decisão final: aprovado, aprovado com reservas (com lista de correções) ou reprovado.

Exemplo resolvido · capacidade do processo (Cp/Cpk)

5 amostras iniciais de uma cota crítica, nominal 25,00 ± 0,05 mm (logo LSL = 24,95 mm e USL = 25,05 mm): 25,02 / 25,01 / 24,99 / 25,03 / 25,00 mm.

valores = [25.02, 25.01, 24.99, 25.03, 25.00]
media = sum(valores) / len(valores)              # 25,01
R = max(valores) - min(valores)                  # 0,04
sigma = R / 2.326                                # d2(n=5) = 2,326 → σ ≈ 0,0172
Cp  = (25.05 - 24.95) / (6 * sigma)              # ≈ 0,97
Cpk = min((25.05 - media) / (3 * sigma),
          (media - 24.95) / (3 * sigma))         # ≈ 0,78

Regra desta UC: Cpk ≥ 1,33 → processo capaz; entre 1,00 e 1,33 → aceitável, vigiar; < 1,00 → não capaz.

Todas as 5 amostras estão dentro do intervalo [24,95; 25,05]. Ainda assim, Cp ≈ 0,97 e Cpk ≈ 0,78: o processo não é capaz. Nenhuma peça saiu fora de tolerância nesta amostra, mas a dispersão face à tolerância é grande demais para garantir isso de forma sustentada em produção: é exatamente por isto que uma peça (ou um punhado de peças) dentro do intervalo não prova capacidade do processo. A correção passa por reduzir a dispersão do processo (parâmetros de injeção, desgaste do molde) ou rever a tolerância pedida, nunca por "aprovar porque desta vez saiu bem".

Conformidade de um lote

Além da capacidade, verifica-se a percentagem de conformidade do lote de amostras iniciais:

n_amostra, conformes = 20, 17
pct = conformes / n_amostra * 100    # 85%

Regra desta UC: aceita-se um lote de amostras iniciais com ≥ 95% de conformidade.

Com 85% de conformidade, este lote reprova: ajustam-se os parâmetros de moldação (ou, se o defeito for de origem no molde, corrige-se o molde) e recolhe-se uma nova amostra antes de aprovar.

15. Segurança na validação e no ensaio

As normas de segurança e saúde no trabalho aplicam-se a toda a validação, não apenas ao momento do ensaio: nenhuma pressa de produção justifica saltar a consignação ou a elevação segura do molde.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Validar o projeto de um molde de injeção segue sempre a mesma ordem lógica: reunir as especificações técnicas e funcionais da peça, da produção e da máquina → confirmar o atravancamento na máquina → rever desenhos e normas, identificando os pontos críticos → interpretar as análises por elementos finitos e a simulação das condições de moldação → verificar ângulos de saída, linha de junta e força de fecho → validar estrutura, layout, guiamentos e elementos moldantes → confirmar sistema de injeção, refrigeração e extração → rever materiais, tratamentos térmicos e componentes normalizados → fechar a documentação técnica e a rastreabilidade → organizar tudo numa checklist verificável (item, meio, valor, critério) → ensaiar o molde na máquina, com amostras iniciais, capacidade do processo e relatório de decisão → com segurança em primeiro lugar em toda a intervenção física. Domina este fluxo e sabes justificar qualquer aprovação, ou reprovação, de um molde com números, não com intuição.

Exercícios resolvidos

1. Uma peça em PA66 tem área projetada por cavidade de 70 mm × 45 mm, num molde de 10 cavidades (canal de distribuição = 5% da área das cavidades). A pressão específica de fecho do PA66 é 45 MPa. Qual a força de fecho necessária, e cumpre uma máquina de 2500 kN, com o limite prático de 85%?

Resolução: área das cavidades = 70 × 45 × 10 = 31 500 mm²; área dos canais = 5% × 31 500 = 1 575 mm²; área total = 33 075 mm². Força = 33 075 × 45 / 1000 = 1 488,4 kN. Utilização na máquina de 2500 kN: 1 488,4 / 2500 ≈ 59,5%, bem abaixo dos 85% → aprovado, com folga considerável.

2. Uma parede moldante tem 45 mm de profundidade. Qual o ângulo de saída mínimo para garantir uma folga de 0,3 mm? Um ângulo de 0,6° chega?

Resolução: ângulo mínimo = arctan(0,3 / 45) ≈ 0,38°. Com 0,6°, a folga obtida é 45 × tan(0,6°) ≈ 0,471 mm, acima de 0,3 mm → aprovado, com margem.

3. Um molde de 3 cavidades tem tempos de enchimento simulados de 1,5 s, 1,6 s e 1,55 s. O enchimento está equilibrado, segundo o critério de 10% desta UC?

Resolução: média = (1,5 + 1,6 + 1,55) / 3 = 1,55 s; desequilíbrio = (1,6 − 1,5) / 1,55 ≈ 6,5%. Como 6,5% ≤ 10%, o enchimento está equilibrado, aprovado.

4. 5 amostras de uma cota nominal 15,00 ± 0,06 mm: 15,01 / 15,00 / 15,02 / 14,99 / 15,01 mm. Calcula Cp e Cpk (d2 para n=5 é 2,326) e classifica o processo.

Resolução: média = 15,006 mm; R = 15,02 − 14,99 = 0,03 mm; σ = 0,03 / 2,326 ≈ 0,0129. Cp = (15,06 − 14,94) / (6 × 0,0129) ≈ 1,55. Cpk = min[(15,06 − 15,006) / (3 × 0,0129); (15,006 − 14,94) / (3 × 0,0129)] = min[1,40; 1,71] ≈ 1,40. Como Cpk ≥ 1,33, o processo está capaz.

5. Um lote de amostras iniciais tem 25 peças, das quais 24 conformes. O lote cumpre o critério de aceitação desta UC (≥ 95% de conformidade)?

Resolução: conformidade = 24 / 25 × 100 = 96%. Como 96% ≥ 95%, o lote cumpre o critério e é aceite.