Sebenta · Efetuar desenhos esquemáticos de eletricidade (UC02892)
- Introdução
- 1. Eletricidade: conceitos básicos e grandezas elétricas
- 2. Lei de Ohm e Lei de Joule
- 3. Trabalho, energia e potência elétrica
- 4. Corrente contínua e corrente alternada; monofásica e trifásica
- 5. Motores elétricos
- 6. Cabos e condutores
- 7. Circuitos elétricos e simbologia (IEC 60617)
- 8. Circuitos de comando, de potência, e sistemas de proteção
- 9. Esquemas unifilares e multifilares
- 10. Quadros elétricos e painéis de comando
- 11. Paragem de emergência e segurança elétrica
- 12. Normas, software CAD e o processo de desenho
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Um técnico de desenho e projeto de moldes trabalha frequentemente com máquinas que precisam de ser eletrificadas: prensas de injeção, sistemas de refrigeração de molde, tapetes de extração de peças. Não é preciso ser eletricista para desenhar bem estes esquemas, mas é obrigatório perceber a linguagem: as grandezas elétricas, a simbologia normalizada e a segurança envolvida.
Esta sebenta segue as duas realizações do referencial da UC: analisar as especificações e requisitos do desenho esquemático e preparar e desenhar esquemas elétricos. Para isso, percorre-se todo o caminho, desde os conceitos básicos de eletricidade até ao esquema completo de uma máquina real, com os seus dois circuitos: potência e comando.
O exemplo que atravessa toda a sebenta é uma prensa de injeção de moldes, com dois motores trifásicos: M1, a bomba hidráulica que gera a pressão de fecho do molde, e M2, o tapete que extrai as peças moldadas. Os cálculos, os esquemas e os exercícios desta UC constroem-se sempre em torno destes dois motores, para que as referências e os valores sejam sempre os mesmos, do primeiro ao último capítulo.
1. Eletricidade: conceitos básicos e grandezas elétricas
A eletricidade é o movimento ordenado de cargas elétricas (eletrões) num condutor. Um circuito elétrico é o percurso fechado por onde essas cargas circulam, e precisa sempre de três elementos: uma fonte de energia, condutores e uma carga (o recetor que consome energia). Se o percurso se interromper, o circuito fica aberto e a corrente para.
As quatro grandezas elétricas fundamentais, que se usam ao longo de toda a UC:
| Grandeza | Símbolo | Unidade | Instrumento de medida |
|---|---|---|---|
| Tensão elétrica | U | volt (V) | voltímetro |
| Corrente elétrica | I | ampere (A) | amperímetro |
| Resistência elétrica | R | ohm (Ω) | ohmímetro |
| Potência elétrica | P | watt (W) | wattímetro |
Analogia útil. Uma canalização de água ajuda a fixar as três primeiras grandezas: a tensão é como a pressão da água, a corrente é como o caudal que passa, e a resistência é como o estreitamento do tubo que dificulta a passagem. É apenas uma analogia, mas ajuda a memorizar a relação entre as três.
O circuito elétrico elementar reduz-se sempre a: fonte, condutor, aparelho de comando ou de proteção, carga, e o condutor de retorno até à fonte. Todo o esquema desta UC, por mais complexo, decompõe-se neste circuito elementar repetido e combinado.
2. Lei de Ohm e Lei de Joule
A Lei de Ohm
Relaciona tensão, resistência e corrente num circuito resistivo:
U = R × I
Exemplo resolvido. A bobina do contactor K1 (que comanda o motor M1) tem uma resistência de 480 Ω e é alimentada a 24 V DC. Qual a corrente que a atravessa?
I = U / R = 24 / 480 = 0,05 A = 50 mA
Este é o valor de corrente que o contacto de saída de um relé ou de um autómato programável tem de conseguir comutar para poder comandar esta bobina.
A Lei de Joule
Calcula a energia dissipada em calor quando a corrente atravessa uma resistência:
P = R × I² e E = P × t
Exemplo resolvido. Um troço de cabo com 0,015 Ω de resistência é percorrido por uma sobrecorrente de 15 A durante 10 segundos, por falha de uma proteção.
P = R × I² = 0,015 × 15² = 0,015 × 225 = 3,375 W
E = P × t = 3,375 × 10 = 33,75 J
A Lei de Joule é a razão física por trás de todas as proteções elétricas: uma sobrecorrente sustentada aquece o condutor, e se não for interrompida a tempo, danifica o isolamento e pode provocar um incêndio. Um fusível ou um relé térmico existem precisamente para cortar antes de esse calor se tornar perigoso.
Repara que a corrente entra ao quadrado na fórmula de Joule: duplicar a corrente quadruplica o calor dissipado, não duplica. É por isso que uma pequena sobrecarga sustentada pode ser tão perigosa como um curto-circuito, só que mais lenta.
3. Trabalho, energia e potência elétrica
Trabalho é a transferência de energia quando uma força desloca algo; energia é a capacidade de realizar esse trabalho; potência é a rapidez a que essa energia é transferida:
P = E / t, ou de forma equivalente, E = P × t
Em corrente contínua e em corrente alternada puramente resistiva: P = U × I. Em corrente alternada com cargas indutivas (motores, bobinas, transformadores), entra o fator de potência (cos φ), que traduz o desfasamento entre tensão e corrente:
P = U × I × cos φ (monofásico)
Para cargas trifásicas equilibradas, como os motores desta UC, a fórmula ganha o fator √3:
P = √3 × U × I × cos φ, ou, isolando a corrente: I = P / (√3 × U × cos φ)
Onde U é a tensão composta (entre fases) e I a corrente de linha. Esta última fórmula é usada constantemente no Capítulo 5, para calcular a corrente nominal dos motores M1 e M2.
Não confundir kW (potência, instantânea) com kWh (energia, acumulada ao longo do tempo, o que aparece na fatura da eletricidade). Um motor de 1 kW ligado durante 1 hora consome 1 kWh; ligado 30 minutos, consome apenas 0,5 kWh.
4. Corrente contínua e corrente alternada; monofásica e trifásica
A rede elétrica pública portuguesa é alternada (CA), a 50 Hz: a corrente inverte o sentido de forma sinusoidal, 100 vezes por segundo. Muitos circuitos de comando de máquinas usam, em contraste, corrente contínua (CC) a 24 V, obtida de um transformador ou de uma fonte de alimentação, precisamente por ser mais segura para o operador.
| Corrente contínua (CC) | Corrente alternada (CA) | |
|---|---|---|
| Sentido | constante | inverte periodicamente |
| Forma de onda | reta | sinusoidal |
| Fontes típicas | baterias, fontes DC | rede elétrica pública |
| Uso nesta UC | circuitos de comando a 24 V | alimentação dos motores |
Dentro da corrente alternada, distingue-se ainda monofásica (uma fase e um neutro, 230 V em Portugal, para iluminação e pequenos equipamentos) de trifásica (três fases desfasadas 120° entre si, 400 V, para motores industriais). A relação entre as duas tensões, num sistema ligado em estrela, é:
U_linha = √3 × U_fase
Verificação numérica. 230 × √3 = 230 × 1,7321 ≈ 398,4 V, valor que se arredonda à tensão nominal normalizada de 400 V. Não é coincidência: as duas tensões (230 V e 400 V) são normalizadas precisamente para esta relação.
Uma máquina industrial como uma prensa de injeção usa motores trifásicos porque, para a mesma potência, a corrente é menor (cabos mais finos), os motores são mais simples e mais robustos (arrancam sozinhos), e a potência entregue por um sistema equilibrado é constante no tempo, ao contrário da pulsação típica da monofásica.
5. Motores elétricos
Tipos e onde aparecem numa máquina
Existem motores de corrente contínua, assíncronos trifásicos (os mais comuns na indústria) e monofásicos (pequenos equipamentos). A prensa de injeção usada como exemplo nesta UC tem dois:
- M1: motor trifásico da bomba hidráulica, que gera a pressão de fecho do molde.
- M2: motor trifásico do tapete transportador que extrai as peças moldadas.
A chapa de características
Toda a informação para calcular um motor está na sua chapa de características:
| Grandeza | M1 (bomba hidráulica) | M2 (tapete extração) |
|---|---|---|
| Potência útil (P_útil) | 5,5 kW | 1,1 kW |
| Tensão nominal (U) | 400 V (Δ) | 400 V (Δ) |
| Fator de potência (cos φ) | 0,86 | 0,80 |
| Rendimento (η) | 0,87 | 0,82 |
| Velocidade nominal (n) | 1450 rpm | 1400 rpm |
O rendimento (η) traduz as perdas do motor: a potência elétrica absorvida da rede é sempre superior à potência mecânica útil, disponível no veio.
Exemplo resolvido: corrente nominal de M1
Passo 1. Potência absorvida:
P_abs = P_útil / η = 5500 / 0,87 = 6321,84 W
Passo 2. Corrente nominal, pela fórmula trifásica do Capítulo 3:
I_n = P_abs / (√3 × U × cos φ) = 6321,84 / (1,7321 × 400 × 0,86) = 6321,84 / 595,83 = 10,61 A
Este valor (10,61 A) é o que vai dimensionar o cabo, o relé térmico e o disjuntor de M1, nos capítulos seguintes.
Exercício idêntico para M2. P_abs = 1100 / 0,82 = 1341,46 W. I_n = 1341,46 / (1,7321 × 400 × 0,80) = 1341,46 / 554,27 = 2,42 A.
Potência elétrica vs binário (torque)
A potência mecânica de um motor relaciona-se com o binário (T) e a velocidade angular (ω):
P = ω × T, com ω = 2 × π × n / 60
Exemplo resolvido, motor M1 (n = 1450 rpm, P_útil = 5500 W):
ω = 2 × π × 1450 / 60 = 9111,06 / 60 = 151,84 rad/s
T = P / ω = 5500 / 151,84 = 36,22 N·m
Para a mesma potência, um motor mais lento entrega mais binário, e um motor mais rápido entrega menos: é uma troca (trade-off), nunca um ganho gratuito.
6. Cabos e condutores
Constituição e cores normalizadas
Um cabo é composto por condutor (tipicamente cobre) e isolamento. As cores dos condutores são normalizadas e têm de se respeitar sempre:
| Condutor | Cor |
|---|---|
| Fases (L1, L2, L3) | castanho, preto, cinzento |
| Neutro (N) | azul |
| Condutor de proteção (PE) | verde-amarelo |
O condutor verde-amarelo nunca transporta corrente de trabalho. Está reservado exclusivamente à proteção de pessoas, ligando as partes metálicas acessíveis à terra.
Dimensionar a secção do condutor
A secção final de um cabo tem de satisfazer dois critérios em simultâneo, e escolhe-se sempre o maior dos dois:
- Ampacidade: o cabo tem de suportar a corrente nominal sem aquecer acima do limite do isolamento.
- Queda de tensão: a tensão na carga não pode cair mais do que o limite admissível (tipicamente 4%).
Fórmula da secção mínima por queda de tensão, em trifásico:
S = (√3 × L × I × cos φ) / (56 × ΔU)
onde L é o comprimento em metros, I a corrente em ampere, e 56 a condutibilidade do cobre em m/Ω·mm².
Exemplo resolvido: secção do cabo de M1. Dados: I_n = 10,61 A, L = 25 m, cos φ = 0,86, ΔU máximo = 4% de 400 V = 16 V.
S = (√3 × 25 × 10,61 × 0,86) / (56 × 16) = 395,12 / 896 = 0,44 mm²
Este resultado é inferior à secção mínima normalizada para instalações fixas (1,5 mm²): a queda de tensão não é aqui o fator limitante. A ampacidade de um condutor de 1,5 mm² (tipicamente entre 13 e 18 A, conforme o método de instalação) já cobre com folga os 10,61 A de M1. Secção final adotada: 1,5 mm².
Nunca se entrega o valor matemático bruto (0,44 mm²) como resposta final. Arredonda-se sempre para cima, para a secção normalizada seguinte, e nunca abaixo do mínimo de 1,5 mm² usado em instalações fixas.
7. Circuitos elétricos e simbologia (IEC 60617)
A IEC 60617 é a norma internacional que define os símbolos gráficos para esquemas elétricos e eletrónicos. Garante que qualquer técnico, em qualquer país, lê o esquema da mesma forma. Regra da casa nesta UC: um esquema, uma norma, sem misturar IEC com a norma americana ANSI.
Os símbolos essenciais usados de forma consistente em toda esta UC:
| Componente | Descrição do símbolo | Referência |
|---|---|---|
| Fusível | retângulo estreito | F |
| Relé térmico | retângulo com seta interior | F |
| Contactor (bobina) | retângulo com o número da bobina | K |
| Contactor (contacto principal NA) | duas linhas com traço inclinado | K |
| Botão de comando NA | círculo com traço afastado do contacto | S |
| Botão de comando NF | círculo com traço sobre o contacto | S |
| Motor trifásico | círculo com "M" e três traços | M |
| Terra de proteção (PE) | três traços decrescentes | PE |
Letras de referência por classe de componente
Cada componente tem uma referência única: a letra da sua classe seguida de um número sequencial. É a tabela que todos os esquemas desta UC seguem sem exceção:
| Letra | Classe | Exemplos usados nesta UC |
|---|---|---|
| F | Aparelhos de proteção | F1 (fusíveis gerais), F2 (relé térmico de M1), F3 (relé térmico de M2) |
| K | Contactores e relés | K1 (contactor de M1), K2 (contactor de M2) |
| M | Máquinas elétricas | M1, M2 (motores) |
| Q | Aparelhagem de potência | Q1 (disjuntor geral do quadro) |
| S | Comando manual | S0 (paragem de emergência), S1 (marcha), S2 (paragem) |
| T | Transformadores | T1 (transformador de comando 400/24 V) |
| X | Ligadores | X1 (régua de bornes) |
A mesma referência designa sempre o mesmo componente físico em todos os esquemas de uma máquina, do esquema de potência ao de comando. Renomear um componente de esquema para esquema (chamar-lhe "K1" num sítio e "KM1" noutro) é um erro grave: torna o projeto ilegível para quem tem de o montar ou reparar.
Massa vs terra de proteção
Esta distinção é de segurança, não de nomenclatura:
- Massa (referência de sinal, 0 V): o ponto de referência elétrica de um circuito, a partir do qual se medem outras tensões. Não tem função de segurança certificada.
- Terra de proteção (PE): o condutor verde-amarelo que liga as partes metálicas acessíveis da máquina à terra física, permitindo que uma proteção diferencial atue em caso de defeito de isolamento.
Confundir massa com terra de proteção pode deixar uma carcaça metálica sob tensão sem qualquer proteção a atuar, expondo o operador a um choque elétrico. Numa fonte de 24 V DC do quadro, o 0 V é massa do circuito de comando; a carcaça do quadro liga-se à terra por um circuito de PE completamente distinto, mesmo que, por vezes, os dois se liguem à mesma barra de terra num único ponto do quadro.
8. Circuitos de comando, de potência, e sistemas de proteção
Todo o projeto elétrico de uma máquina divide-se em dois esquemas distintos, que nunca se misturam na mesma folha de desenho:
| Esquema de potência | Esquema de comando | |
|---|---|---|
| O que transporta | a energia que faz o motor rodar | os sinais que decidem quando ligar/desligar |
| Tensão típica | 400 V trifásica | 24 V DC |
| Componentes | Q, F (relé térmico), contactos principais de K, M | S, contactos auxiliares de K, bobinas de K |
| Corrente | dezenas de ampere | miliampere a poucos ampere |
O contactor K faz a ponte entre os dois esquemas: a sua bobina vive no esquema de comando, os seus contactos principais vivem no esquema de potência.
Exemplo resolvido: esquema de potência de M1
L1,L2,L3 → [Q1 disjuntor geral] → [F2 relé térmico, 10,6 A] → [K1 contactos principais] → M1
└─ PE
Q1 corta manualmente e por curto-circuito toda a alimentação do quadro; F2, ajustado à corrente nominal calculada de M1 (10,61 A, ver Capítulo 5), protege contra sobrecarga sustentada; K1 liga e desliga a alimentação do motor por comando elétrico.
Exemplo resolvido: esquema de comando de M1
+24V → [S0 emergência NF] → [S2 paragem NF] → [S1 marcha NA] → [K1 bobina] → 0V
│
[K1 contacto auxiliar NA em paralelo com S1]
S0, se premido, corta a alimentação da bobina de imediato, antes de qualquer outra lógica. S1 (marcha, NA) e S2 (paragem, NF) fazem o comando normal. O contacto auxiliar de K1, em paralelo com S1, é a selagem: mantém a bobina alimentada depois de largar o botão de marcha, dando "memória" ao circuito.
S0 e S2 são normalmente fechados (NF) e S1 é normalmente aberto (NA) por uma razão de segurança: assim, uma falta de energia ou um fio partido resultam sempre em paragem, nunca em arranque inesperado.
Aparelhos de manobra e de proteção
| Aparelho | Função | Letra |
|---|---|---|
| Disjuntor / seccionador geral | corta manualmente e por curto-circuito | Q |
| Fusível | corta por curto-circuito, rápido em correntes elevadas | F |
| Relé térmico | corta por sobrecarga sustentada, protege o motor | F |
| Contactor | liga/desliga a potência por comando elétrico, à distância | K |
| Relé auxiliar | replica ou temporiza um sinal de comando | K |
O relé térmico e o fusível são complementares, não substitutos um do outro: o fusível atua depressa em curtos-circuitos, o relé térmico atua devagar em sobrecargas prolongadas, exatamente o efeito descrito pela Lei de Joule no Capítulo 2.
9. Esquemas unifilares e multifilares
O esquema unifilar representa um grupo de condutores por uma única linha, dando uma visão de conjunto simplificada. Usa-se sobretudo na distribuição geral do quadro:
[Rede] ──[Q0 geral]──┬──[Q1 + F2]── M1 (bomba hidráulica)
└──[Q2 + F3]── M2 (tapete extração)
O esquema multifilar desenha cada condutor e cada ligação de forma individual: é o esquema de detalhe, usado nos esquemas de potência e de comando do Capítulo 8. Permite seguir o percurso exato de cada sinal, essencial para montar e diagnosticar avarias.
| Objetivo | Esquema a usar |
|---|---|
| Visão geral da distribuição de energia do quadro | Unifilar |
| Documentação legal e dossiê de manutenção resumido | Unifilar |
| Montagem física do quadro | Multifilar |
| Diagnóstico de avaria num circuito específico | Multifilar |
| Circuito de comando (botoneiras, contactores, sensores) | Multifilar |
Um dossiê técnico completo de uma máquina inclui os dois, cada um com a sua função: não é uma escolha de "um ou outro".
10. Quadros elétricos e painéis de comando
Constituição de um quadro elétrico
Um quadro elétrico industrial organiza-se em elementos normalizados: calha DIN (fixa disjuntores, contactores, relés e bornes), canaletas (conduzem e protegem os condutores), régua de bornes X1 (liga cabos internos a externos) e placa de montagem.
O painel de comando
O painel de comando é a interface entre o operador e a máquina: botoneiras, seletores, lâmpadas piloto. Inclui sempre o botão de paragem de emergência (S0), bem visível e acessível, e a sua disposição segue critérios ergonómicos.
Posicionar quadro, painel e cabos na máquina
Corresponde diretamente ao critério de desempenho "adequando o posicionamento de painéis de comando, cabos elétricos, quadros elétricos e seus periféricos sobre a estrutura da máquina":
- Acessibilidade: alcançável para operação e manutenção, sem desmontar partes da máquina.
- Afastamento de calor e vibração: proteger a aparelhagem de zonas quentes (junto ao molde) ou muito vibradas (junto à bomba hidráulica).
- Grau de proteção (IP) adequado: poeira, óleo hidráulico e humidade exigem um IP mais elevado.
- Percurso dos cabos: fixo, protegido mecanicamente, sem cruzar zonas móveis.
11. Paragem de emergência e segurança elétrica
Paragem de emergência vs paragem simples
| Paragem simples (S2) | Paragem de emergência (S0) | |
|---|---|---|
| Objetivo | interromper o ciclo normal de trabalho | eliminar um perigo imediato |
| Alcance | corta o comando daquele circuito | corta a alimentação da bobina, independentemente do resto da lógica |
| Reposição | qualquer momento | exige desbloqueio manual do botão (cogumelo) antes de rearmar |
| Categoria (EN 60204-1) | não aplicável como função de segurança | categoria 0 (corte imediato) ou 1 (paragem controlada e depois corte) |
S0 é uma função de segurança, S2 é apenas um comando de operação normal. Não têm o mesmo estatuto no esquema nem o mesmo tratamento no desenho: S0 deve estar sempre o mais a montante possível no circuito de comando, cortando primeiro que tudo.
As cinco regras de ouro do trabalho sem tensão
Antes de qualquer intervenção num quadro ou numa máquina, seguem-se sempre, por esta ordem:
- Separar: desligar a fonte de alimentação (abrir Q1 ou o seccionador geral).
- Bloquear e sinalizar: cadeado no aparelho de corte e cartão de aviso.
- Verificar a ausência de tensão: com verificador adequado, em todos os condutores, incluindo entre fases e entre fase e terra.
- Ligar à terra e em curto-circuito: sobretudo em instalações de média/alta tensão, elimina tensões induzidas residuais.
- Delimitar a zona de trabalho: sinalizar fisicamente a área de intervenção.
A regra da segunda vítima e o 112
Nunca tocar diretamente numa pessoa em contacto com um condutor sob tensão. Primeiro corta-se a energia (disjuntor ou seccionador geral); só depois se aproxima da vítima. Se não for possível cortar de imediato, afasta-se a vítima com um material isolante e seco, nunca com as mãos nuas nem com um objeto metálico. Chama-se de imediato o 112.
O equipamento de proteção individual (EPI), luvas isolantes, calçado de segurança e óculos de proteção, é obrigatório em qualquer intervenção em quadros elétricos, e a consignação (as cinco regras de ouro) tem de anteceder qualquer trabalho de manutenção, mesmo tarefas aparentemente simples como substituir um relé térmico.
12. Normas, software CAD e o processo de desenho
- IEC 60617: simbologia gráfica dos esquemas elétricos.
- EN 60204-1: segurança de máquinas, equipamento elétrico, categorias de paragem e identificação de condutores.
- Diretiva Máquinas (2006/42/CE), transposta para direito português, exige que a documentação elétrica cumpra requisitos essenciais de segurança.
- Normas de segurança e saúde no trabalho, incluindo as regras de trabalho sem tensão do Capítulo 11.
Os esquemas desenham-se em software CAD elétrico, com bibliotecas de símbolos IEC já prontas, numeração automática de folhas, referências e bornes, e por vezes simuladores lógicos que testam a sequência de comando sem energizar a máquina real. O software é uma ferramenta: quem desenha continua a precisar de saber o que cada símbolo significa e onde colocar cada referência.
O processo completo, que sintetiza as duas realizações do referencial:
- Analisar as especificações e requisitos: que máquina é, que motores tem, que ambiente, que normas se aplicam.
- Calcular as grandezas elétricas de cada motor (corrente nominal, secção de cabo, calibre de proteção).
- Escolher a simbologia e as referências e mantê-las consistentes do início ao fim.
- Preparar e desenhar o esquema de potência e o esquema de comando, separados.
- Verificar segurança, normas aplicáveis e posicionamento físico no quadro e na máquina.
Erros comuns
- Usar a fórmula monofásica P = U × I × cos φ para um motor trifásico, esquecendo o √3.
- Esquecer o rendimento (η) e usar a potência útil em vez da potência absorvida no cálculo da corrente nominal.
- Entregar a secção de cabo calculada em bruto (ex.: 0,44 mm²), sem arredondar para a série normalizada nem verificar a ampacidade.
- Trocar a letra de referência de um componente entre o esquema de potência e o de comando (ex.: "K1" num sítio e "KM1" noutro).
- Confundir massa (0 V, referência de sinal) com terra de proteção (PE), um erro de segurança e não só de nomenclatura.
- Tratar a paragem de emergência (S0) como se fosse igual a uma paragem simples (S2), sem lhe dar prioridade no circuito nem bloqueio mecânico.
- Saltar as regras de ouro do trabalho sem tensão "porque é só um minuto de intervenção".
- Socorrer uma vítima de choque elétrico sem primeiro cortar a energia.
Glossário
- Ampacidade · capacidade máxima de corrente que um condutor suporta sem aquecer acima do limite do isolamento.
- Binário (torque) · a força de rotação de um motor, medida em N·m.
- Cos φ (fator de potência) · o desfasamento entre tensão e corrente numa carga indutiva.
- Diretiva Máquinas · legislação europeia que define os requisitos essenciais de segurança das máquinas.
- EN 60204-1 · norma de segurança de máquinas para o equipamento elétrico.
- ERC · verificação elétrica de regras num esquema, feita pelo software CAD.
- IEC 60617 · norma internacional de simbologia gráfica para esquemas elétricos.
- Massa · ponto de referência elétrica de um circuito (0 V), sem função de segurança certificada.
- Multifilar · esquema que representa cada condutor e ligação individualmente.
- NA / NF · contacto normalmente aberto / normalmente fechado.
- PE (terra de proteção) · condutor verde-amarelo que liga as massas metálicas à terra, por segurança.
- Régua de bornes (X1) · elemento do quadro que liga cabos internos a cabos externos.
- Rendimento (η) · a razão entre a potência útil e a potência absorvida de um motor.
- Selagem · contacto auxiliar de um contactor que mantém o próprio contactor ligado (memória).
- Unifilar · esquema que representa um grupo de condutores por uma única linha.
Síntese
O desenho esquemático de eletricidade parte sempre das mesmas grandezas (tensão, corrente, resistência, potência) e das mesmas leis (Ohm, Joule), aplicadas com a fórmula trifásica P = √3 × U × I × cos φ para dimensionar motores, cabos e proteções. A simbologia IEC 60617 e as referências por classe (F, K, M, Q, S, T, X) mantêm-se sempre consistentes, do esquema de potência ao de comando, dois desenhos distintos que nunca se misturam. Duas distinções de segurança atravessam toda a UC: massa não é terra de proteção, e paragem de emergência não é paragem simples. As cinco regras de ouro do trabalho sem tensão e a regra da segunda vítima fecham o percurso, porque um esquema tecnicamente perfeito só serve se quem o usar trabalhar em segurança.
Exercícios resolvidos
1. Um motor trifásico tem P_útil = 3 kW, U = 400 V, cos φ = 0,84 e η = 0,85. Calcula a corrente nominal.
Resolução: P_abs = 3000 / 0,85 = 3529,41 W. I_n = 3529,41 / (1,7321 × 400 × 0,84) = 3529,41 / 582,0 = 6,06 A.
2. A bobina de um contactor de 24 V DC absorve 40 mA em regime nominal. Qual é a resistência da bobina?
Resolução: pela Lei de Ohm, R = U / I = 24 / 0,04 = 600 Ω.
3. Um cabo com 0,02 Ω de resistência é percorrido por 12 A durante 8 segundos numa falha de proteção. Calcula a potência e a energia dissipadas.
Resolução: P = R × I² = 0,02 × 144 = 2,88 W. E = P × t = 2,88 × 8 = 23,04 J.
4. Porque é que, no esquema de comando de M1, S0 e S2 são contactos NF e S1 é NA?
Resolução: para que a falta de energia ou um fio partido resultem sempre em paragem, nunca em arranque inesperado. Um contacto NF interrompe o circuito se falhar; um contacto NA (como S1) não o fecha sozinho.
5. Um técnico vai substituir o relé térmico F2 do quadro de M1. Enumera, pela ordem correta, as regras de ouro que deve seguir antes de tocar no quadro.
Resolução: 1) Separar (abrir Q1); 2) Bloquear e sinalizar (cadeado e cartão); 3) Verificar a ausência de tensão; 4) Ligar à terra e em curto-circuito (quando aplicável); 5) Delimitar a zona de trabalho.