Partilhar: WhatsApp
aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC02892

Sebenta · Efetuar desenhos esquemáticos de eletricidade (UC02892)

Grandezas elétricas, simbologia IEC 60617, esquemas de potência e de comando, e segurança na eletrificação de máquinas
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Desenho e Projeto de Mo, T. Desenho e Projeto/Desig ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Um técnico de desenho e projeto de moldes trabalha frequentemente com máquinas que precisam de ser eletrificadas: prensas de injeção, sistemas de refrigeração de molde, tapetes de extração de peças. Não é preciso ser eletricista para desenhar bem estes esquemas, mas é obrigatório perceber a linguagem: as grandezas elétricas, a simbologia normalizada e a segurança envolvida.

Esta sebenta segue as duas realizações do referencial da UC: analisar as especificações e requisitos do desenho esquemático e preparar e desenhar esquemas elétricos. Para isso, percorre-se todo o caminho, desde os conceitos básicos de eletricidade até ao esquema completo de uma máquina real, com os seus dois circuitos: potência e comando.

O exemplo que atravessa toda a sebenta é uma prensa de injeção de moldes, com dois motores trifásicos: M1, a bomba hidráulica que gera a pressão de fecho do molde, e M2, o tapete que extrai as peças moldadas. Os cálculos, os esquemas e os exercícios desta UC constroem-se sempre em torno destes dois motores, para que as referências e os valores sejam sempre os mesmos, do primeiro ao último capítulo.

1. Eletricidade: conceitos básicos e grandezas elétricas

A eletricidade é o movimento ordenado de cargas elétricas (eletrões) num condutor. Um circuito elétrico é o percurso fechado por onde essas cargas circulam, e precisa sempre de três elementos: uma fonte de energia, condutores e uma carga (o recetor que consome energia). Se o percurso se interromper, o circuito fica aberto e a corrente para.

As quatro grandezas elétricas fundamentais, que se usam ao longo de toda a UC:

Grandeza Símbolo Unidade Instrumento de medida
Tensão elétrica U volt (V) voltímetro
Corrente elétrica I ampere (A) amperímetro
Resistência elétrica R ohm (Ω) ohmímetro
Potência elétrica P watt (W) wattímetro

Analogia útil. Uma canalização de água ajuda a fixar as três primeiras grandezas: a tensão é como a pressão da água, a corrente é como o caudal que passa, e a resistência é como o estreitamento do tubo que dificulta a passagem. É apenas uma analogia, mas ajuda a memorizar a relação entre as três.

O circuito elétrico elementar reduz-se sempre a: fonte, condutor, aparelho de comando ou de proteção, carga, e o condutor de retorno até à fonte. Todo o esquema desta UC, por mais complexo, decompõe-se neste circuito elementar repetido e combinado.

2. Lei de Ohm e Lei de Joule

A Lei de Ohm

Relaciona tensão, resistência e corrente num circuito resistivo:

U = R × I

Exemplo resolvido. A bobina do contactor K1 (que comanda o motor M1) tem uma resistência de 480 Ω e é alimentada a 24 V DC. Qual a corrente que a atravessa?

I = U / R = 24 / 480 = 0,05 A = 50 mA

Este é o valor de corrente que o contacto de saída de um relé ou de um autómato programável tem de conseguir comutar para poder comandar esta bobina.

A Lei de Joule

Calcula a energia dissipada em calor quando a corrente atravessa uma resistência:

P = R × I² e E = P × t

Exemplo resolvido. Um troço de cabo com 0,015 Ω de resistência é percorrido por uma sobrecorrente de 15 A durante 10 segundos, por falha de uma proteção.

P = R × I² = 0,015 × 15² = 0,015 × 225 = 3,375 W

E = P × t = 3,375 × 10 = 33,75 J

A Lei de Joule é a razão física por trás de todas as proteções elétricas: uma sobrecorrente sustentada aquece o condutor, e se não for interrompida a tempo, danifica o isolamento e pode provocar um incêndio. Um fusível ou um relé térmico existem precisamente para cortar antes de esse calor se tornar perigoso.

Repara que a corrente entra ao quadrado na fórmula de Joule: duplicar a corrente quadruplica o calor dissipado, não duplica. É por isso que uma pequena sobrecarga sustentada pode ser tão perigosa como um curto-circuito, só que mais lenta.

3. Trabalho, energia e potência elétrica

Trabalho é a transferência de energia quando uma força desloca algo; energia é a capacidade de realizar esse trabalho; potência é a rapidez a que essa energia é transferida:

P = E / t, ou de forma equivalente, E = P × t

Em corrente contínua e em corrente alternada puramente resistiva: P = U × I. Em corrente alternada com cargas indutivas (motores, bobinas, transformadores), entra o fator de potência (cos φ), que traduz o desfasamento entre tensão e corrente:

P = U × I × cos φ (monofásico)

Para cargas trifásicas equilibradas, como os motores desta UC, a fórmula ganha o fator √3:

P = √3 × U × I × cos φ, ou, isolando a corrente: I = P / (√3 × U × cos φ)

Onde U é a tensão composta (entre fases) e I a corrente de linha. Esta última fórmula é usada constantemente no Capítulo 5, para calcular a corrente nominal dos motores M1 e M2.

Não confundir kW (potência, instantânea) com kWh (energia, acumulada ao longo do tempo, o que aparece na fatura da eletricidade). Um motor de 1 kW ligado durante 1 hora consome 1 kWh; ligado 30 minutos, consome apenas 0,5 kWh.

4. Corrente contínua e corrente alternada; monofásica e trifásica

A rede elétrica pública portuguesa é alternada (CA), a 50 Hz: a corrente inverte o sentido de forma sinusoidal, 100 vezes por segundo. Muitos circuitos de comando de máquinas usam, em contraste, corrente contínua (CC) a 24 V, obtida de um transformador ou de uma fonte de alimentação, precisamente por ser mais segura para o operador.

Corrente contínua (CC) Corrente alternada (CA)
Sentido constante inverte periodicamente
Forma de onda reta sinusoidal
Fontes típicas baterias, fontes DC rede elétrica pública
Uso nesta UC circuitos de comando a 24 V alimentação dos motores

Dentro da corrente alternada, distingue-se ainda monofásica (uma fase e um neutro, 230 V em Portugal, para iluminação e pequenos equipamentos) de trifásica (três fases desfasadas 120° entre si, 400 V, para motores industriais). A relação entre as duas tensões, num sistema ligado em estrela, é:

U_linha = √3 × U_fase

Verificação numérica. 230 × √3 = 230 × 1,7321 ≈ 398,4 V, valor que se arredonda à tensão nominal normalizada de 400 V. Não é coincidência: as duas tensões (230 V e 400 V) são normalizadas precisamente para esta relação.

Uma máquina industrial como uma prensa de injeção usa motores trifásicos porque, para a mesma potência, a corrente é menor (cabos mais finos), os motores são mais simples e mais robustos (arrancam sozinhos), e a potência entregue por um sistema equilibrado é constante no tempo, ao contrário da pulsação típica da monofásica.

5. Motores elétricos

Tipos e onde aparecem numa máquina

Existem motores de corrente contínua, assíncronos trifásicos (os mais comuns na indústria) e monofásicos (pequenos equipamentos). A prensa de injeção usada como exemplo nesta UC tem dois:

A chapa de características

Toda a informação para calcular um motor está na sua chapa de características:

Grandeza M1 (bomba hidráulica) M2 (tapete extração)
Potência útil (P_útil) 5,5 kW 1,1 kW
Tensão nominal (U) 400 V (Δ) 400 V (Δ)
Fator de potência (cos φ) 0,86 0,80
Rendimento (η) 0,87 0,82
Velocidade nominal (n) 1450 rpm 1400 rpm

O rendimento (η) traduz as perdas do motor: a potência elétrica absorvida da rede é sempre superior à potência mecânica útil, disponível no veio.

Exemplo resolvido: corrente nominal de M1

Passo 1. Potência absorvida:

P_abs = P_útil / η = 5500 / 0,87 = 6321,84 W

Passo 2. Corrente nominal, pela fórmula trifásica do Capítulo 3:

I_n = P_abs / (√3 × U × cos φ) = 6321,84 / (1,7321 × 400 × 0,86) = 6321,84 / 595,83 = 10,61 A

Este valor (10,61 A) é o que vai dimensionar o cabo, o relé térmico e o disjuntor de M1, nos capítulos seguintes.

Exercício idêntico para M2. P_abs = 1100 / 0,82 = 1341,46 W. I_n = 1341,46 / (1,7321 × 400 × 0,80) = 1341,46 / 554,27 = 2,42 A.

Potência elétrica vs binário (torque)

A potência mecânica de um motor relaciona-se com o binário (T) e a velocidade angular (ω):

P = ω × T, com ω = 2 × π × n / 60

Exemplo resolvido, motor M1 (n = 1450 rpm, P_útil = 5500 W):

ω = 2 × π × 1450 / 60 = 9111,06 / 60 = 151,84 rad/s

T = P / ω = 5500 / 151,84 = 36,22 N·m

Para a mesma potência, um motor mais lento entrega mais binário, e um motor mais rápido entrega menos: é uma troca (trade-off), nunca um ganho gratuito.

6. Cabos e condutores

Constituição e cores normalizadas

Um cabo é composto por condutor (tipicamente cobre) e isolamento. As cores dos condutores são normalizadas e têm de se respeitar sempre:

Condutor Cor
Fases (L1, L2, L3) castanho, preto, cinzento
Neutro (N) azul
Condutor de proteção (PE) verde-amarelo

O condutor verde-amarelo nunca transporta corrente de trabalho. Está reservado exclusivamente à proteção de pessoas, ligando as partes metálicas acessíveis à terra.

Dimensionar a secção do condutor

A secção final de um cabo tem de satisfazer dois critérios em simultâneo, e escolhe-se sempre o maior dos dois:

  1. Ampacidade: o cabo tem de suportar a corrente nominal sem aquecer acima do limite do isolamento.
  2. Queda de tensão: a tensão na carga não pode cair mais do que o limite admissível (tipicamente 4%).

Fórmula da secção mínima por queda de tensão, em trifásico:

S = (√3 × L × I × cos φ) / (56 × ΔU)

onde L é o comprimento em metros, I a corrente em ampere, e 56 a condutibilidade do cobre em m/Ω·mm².

Exemplo resolvido: secção do cabo de M1. Dados: I_n = 10,61 A, L = 25 m, cos φ = 0,86, ΔU máximo = 4% de 400 V = 16 V.

S = (√3 × 25 × 10,61 × 0,86) / (56 × 16) = 395,12 / 896 = 0,44 mm²

Este resultado é inferior à secção mínima normalizada para instalações fixas (1,5 mm²): a queda de tensão não é aqui o fator limitante. A ampacidade de um condutor de 1,5 mm² (tipicamente entre 13 e 18 A, conforme o método de instalação) já cobre com folga os 10,61 A de M1. Secção final adotada: 1,5 mm².

Nunca se entrega o valor matemático bruto (0,44 mm²) como resposta final. Arredonda-se sempre para cima, para a secção normalizada seguinte, e nunca abaixo do mínimo de 1,5 mm² usado em instalações fixas.

7. Circuitos elétricos e simbologia (IEC 60617)

A IEC 60617 é a norma internacional que define os símbolos gráficos para esquemas elétricos e eletrónicos. Garante que qualquer técnico, em qualquer país, lê o esquema da mesma forma. Regra da casa nesta UC: um esquema, uma norma, sem misturar IEC com a norma americana ANSI.

Os símbolos essenciais usados de forma consistente em toda esta UC:

Componente Descrição do símbolo Referência
Fusível retângulo estreito F
Relé térmico retângulo com seta interior F
Contactor (bobina) retângulo com o número da bobina K
Contactor (contacto principal NA) duas linhas com traço inclinado K
Botão de comando NA círculo com traço afastado do contacto S
Botão de comando NF círculo com traço sobre o contacto S
Motor trifásico círculo com "M" e três traços M
Terra de proteção (PE) três traços decrescentes PE

Letras de referência por classe de componente

Cada componente tem uma referência única: a letra da sua classe seguida de um número sequencial. É a tabela que todos os esquemas desta UC seguem sem exceção:

Letra Classe Exemplos usados nesta UC
F Aparelhos de proteção F1 (fusíveis gerais), F2 (relé térmico de M1), F3 (relé térmico de M2)
K Contactores e relés K1 (contactor de M1), K2 (contactor de M2)
M Máquinas elétricas M1, M2 (motores)
Q Aparelhagem de potência Q1 (disjuntor geral do quadro)
S Comando manual S0 (paragem de emergência), S1 (marcha), S2 (paragem)
T Transformadores T1 (transformador de comando 400/24 V)
X Ligadores X1 (régua de bornes)

A mesma referência designa sempre o mesmo componente físico em todos os esquemas de uma máquina, do esquema de potência ao de comando. Renomear um componente de esquema para esquema (chamar-lhe "K1" num sítio e "KM1" noutro) é um erro grave: torna o projeto ilegível para quem tem de o montar ou reparar.

Massa vs terra de proteção

Esta distinção é de segurança, não de nomenclatura:

Confundir massa com terra de proteção pode deixar uma carcaça metálica sob tensão sem qualquer proteção a atuar, expondo o operador a um choque elétrico. Numa fonte de 24 V DC do quadro, o 0 V é massa do circuito de comando; a carcaça do quadro liga-se à terra por um circuito de PE completamente distinto, mesmo que, por vezes, os dois se liguem à mesma barra de terra num único ponto do quadro.

8. Circuitos de comando, de potência, e sistemas de proteção

Todo o projeto elétrico de uma máquina divide-se em dois esquemas distintos, que nunca se misturam na mesma folha de desenho:

Esquema de potência Esquema de comando
O que transporta a energia que faz o motor rodar os sinais que decidem quando ligar/desligar
Tensão típica 400 V trifásica 24 V DC
Componentes Q, F (relé térmico), contactos principais de K, M S, contactos auxiliares de K, bobinas de K
Corrente dezenas de ampere miliampere a poucos ampere

O contactor K faz a ponte entre os dois esquemas: a sua bobina vive no esquema de comando, os seus contactos principais vivem no esquema de potência.

Exemplo resolvido: esquema de potência de M1

L1,L2,L3 → [Q1 disjuntor geral] → [F2 relé térmico, 10,6 A] → [K1 contactos principais] → M1
                                                                                              └─ PE

Q1 corta manualmente e por curto-circuito toda a alimentação do quadro; F2, ajustado à corrente nominal calculada de M1 (10,61 A, ver Capítulo 5), protege contra sobrecarga sustentada; K1 liga e desliga a alimentação do motor por comando elétrico.

Exemplo resolvido: esquema de comando de M1

+24V  [S0 emergência NF]  [S2 paragem NF]  [S1 marcha NA]  [K1 bobina]  0V
                                                     
                                        [K1 contacto auxiliar NA em paralelo com S1]

S0, se premido, corta a alimentação da bobina de imediato, antes de qualquer outra lógica. S1 (marcha, NA) e S2 (paragem, NF) fazem o comando normal. O contacto auxiliar de K1, em paralelo com S1, é a selagem: mantém a bobina alimentada depois de largar o botão de marcha, dando "memória" ao circuito.

S0 e S2 são normalmente fechados (NF) e S1 é normalmente aberto (NA) por uma razão de segurança: assim, uma falta de energia ou um fio partido resultam sempre em paragem, nunca em arranque inesperado.

Aparelhos de manobra e de proteção

Aparelho Função Letra
Disjuntor / seccionador geral corta manualmente e por curto-circuito Q
Fusível corta por curto-circuito, rápido em correntes elevadas F
Relé térmico corta por sobrecarga sustentada, protege o motor F
Contactor liga/desliga a potência por comando elétrico, à distância K
Relé auxiliar replica ou temporiza um sinal de comando K

O relé térmico e o fusível são complementares, não substitutos um do outro: o fusível atua depressa em curtos-circuitos, o relé térmico atua devagar em sobrecargas prolongadas, exatamente o efeito descrito pela Lei de Joule no Capítulo 2.

9. Esquemas unifilares e multifilares

O esquema unifilar representa um grupo de condutores por uma única linha, dando uma visão de conjunto simplificada. Usa-se sobretudo na distribuição geral do quadro:

[Rede] ──[Q0 geral]──┬──[Q1 + F2]── M1 (bomba hidráulica)
                      └──[Q2 + F3]── M2 (tapete extração)

O esquema multifilar desenha cada condutor e cada ligação de forma individual: é o esquema de detalhe, usado nos esquemas de potência e de comando do Capítulo 8. Permite seguir o percurso exato de cada sinal, essencial para montar e diagnosticar avarias.

Objetivo Esquema a usar
Visão geral da distribuição de energia do quadro Unifilar
Documentação legal e dossiê de manutenção resumido Unifilar
Montagem física do quadro Multifilar
Diagnóstico de avaria num circuito específico Multifilar
Circuito de comando (botoneiras, contactores, sensores) Multifilar

Um dossiê técnico completo de uma máquina inclui os dois, cada um com a sua função: não é uma escolha de "um ou outro".

10. Quadros elétricos e painéis de comando

Constituição de um quadro elétrico

Um quadro elétrico industrial organiza-se em elementos normalizados: calha DIN (fixa disjuntores, contactores, relés e bornes), canaletas (conduzem e protegem os condutores), régua de bornes X1 (liga cabos internos a externos) e placa de montagem.

O painel de comando

O painel de comando é a interface entre o operador e a máquina: botoneiras, seletores, lâmpadas piloto. Inclui sempre o botão de paragem de emergência (S0), bem visível e acessível, e a sua disposição segue critérios ergonómicos.

Posicionar quadro, painel e cabos na máquina

Corresponde diretamente ao critério de desempenho "adequando o posicionamento de painéis de comando, cabos elétricos, quadros elétricos e seus periféricos sobre a estrutura da máquina":

11. Paragem de emergência e segurança elétrica

Paragem de emergência vs paragem simples

Paragem simples (S2) Paragem de emergência (S0)
Objetivo interromper o ciclo normal de trabalho eliminar um perigo imediato
Alcance corta o comando daquele circuito corta a alimentação da bobina, independentemente do resto da lógica
Reposição qualquer momento exige desbloqueio manual do botão (cogumelo) antes de rearmar
Categoria (EN 60204-1) não aplicável como função de segurança categoria 0 (corte imediato) ou 1 (paragem controlada e depois corte)

S0 é uma função de segurança, S2 é apenas um comando de operação normal. Não têm o mesmo estatuto no esquema nem o mesmo tratamento no desenho: S0 deve estar sempre o mais a montante possível no circuito de comando, cortando primeiro que tudo.

As cinco regras de ouro do trabalho sem tensão

Antes de qualquer intervenção num quadro ou numa máquina, seguem-se sempre, por esta ordem:

  1. Separar: desligar a fonte de alimentação (abrir Q1 ou o seccionador geral).
  2. Bloquear e sinalizar: cadeado no aparelho de corte e cartão de aviso.
  3. Verificar a ausência de tensão: com verificador adequado, em todos os condutores, incluindo entre fases e entre fase e terra.
  4. Ligar à terra e em curto-circuito: sobretudo em instalações de média/alta tensão, elimina tensões induzidas residuais.
  5. Delimitar a zona de trabalho: sinalizar fisicamente a área de intervenção.

A regra da segunda vítima e o 112

Nunca tocar diretamente numa pessoa em contacto com um condutor sob tensão. Primeiro corta-se a energia (disjuntor ou seccionador geral); só depois se aproxima da vítima. Se não for possível cortar de imediato, afasta-se a vítima com um material isolante e seco, nunca com as mãos nuas nem com um objeto metálico. Chama-se de imediato o 112.

O equipamento de proteção individual (EPI), luvas isolantes, calçado de segurança e óculos de proteção, é obrigatório em qualquer intervenção em quadros elétricos, e a consignação (as cinco regras de ouro) tem de anteceder qualquer trabalho de manutenção, mesmo tarefas aparentemente simples como substituir um relé térmico.

12. Normas, software CAD e o processo de desenho

Os esquemas desenham-se em software CAD elétrico, com bibliotecas de símbolos IEC já prontas, numeração automática de folhas, referências e bornes, e por vezes simuladores lógicos que testam a sequência de comando sem energizar a máquina real. O software é uma ferramenta: quem desenha continua a precisar de saber o que cada símbolo significa e onde colocar cada referência.

O processo completo, que sintetiza as duas realizações do referencial:

  1. Analisar as especificações e requisitos: que máquina é, que motores tem, que ambiente, que normas se aplicam.
  2. Calcular as grandezas elétricas de cada motor (corrente nominal, secção de cabo, calibre de proteção).
  3. Escolher a simbologia e as referências e mantê-las consistentes do início ao fim.
  4. Preparar e desenhar o esquema de potência e o esquema de comando, separados.
  5. Verificar segurança, normas aplicáveis e posicionamento físico no quadro e na máquina.

Erros comuns

Glossário

Síntese

O desenho esquemático de eletricidade parte sempre das mesmas grandezas (tensão, corrente, resistência, potência) e das mesmas leis (Ohm, Joule), aplicadas com a fórmula trifásica P = √3 × U × I × cos φ para dimensionar motores, cabos e proteções. A simbologia IEC 60617 e as referências por classe (F, K, M, Q, S, T, X) mantêm-se sempre consistentes, do esquema de potência ao de comando, dois desenhos distintos que nunca se misturam. Duas distinções de segurança atravessam toda a UC: massa não é terra de proteção, e paragem de emergência não é paragem simples. As cinco regras de ouro do trabalho sem tensão e a regra da segunda vítima fecham o percurso, porque um esquema tecnicamente perfeito só serve se quem o usar trabalhar em segurança.

Exercícios resolvidos

1. Um motor trifásico tem P_útil = 3 kW, U = 400 V, cos φ = 0,84 e η = 0,85. Calcula a corrente nominal.

Resolução: P_abs = 3000 / 0,85 = 3529,41 W. I_n = 3529,41 / (1,7321 × 400 × 0,84) = 3529,41 / 582,0 = 6,06 A.

2. A bobina de um contactor de 24 V DC absorve 40 mA em regime nominal. Qual é a resistência da bobina?

Resolução: pela Lei de Ohm, R = U / I = 24 / 0,04 = 600 Ω.

3. Um cabo com 0,02 Ω de resistência é percorrido por 12 A durante 8 segundos numa falha de proteção. Calcula a potência e a energia dissipadas.

Resolução: P = R × I² = 0,02 × 144 = 2,88 W. E = P × t = 2,88 × 8 = 23,04 J.

4. Porque é que, no esquema de comando de M1, S0 e S2 são contactos NF e S1 é NA?

Resolução: para que a falta de energia ou um fio partido resultem sempre em paragem, nunca em arranque inesperado. Um contacto NF interrompe o circuito se falhar; um contacto NA (como S1) não o fecha sozinho.

5. Um técnico vai substituir o relé térmico F2 do quadro de M1. Enumera, pela ordem correta, as regras de ouro que deve seguir antes de tocar no quadro.

Resolução: 1) Separar (abrir Q1); 2) Bloquear e sinalizar (cadeado e cartão); 3) Verificar a ausência de tensão; 4) Ligar à terra e em curto-circuito (quando aplicável); 5) Delimitar a zona de trabalho.