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UC · Unidade de Competência · UC02888

Sebenta · Tratamentos e estados de acabamento de superfície em desenho técnico (UC02888)

Da simbologia normalizada à dureza, à corrosão e aos tratamentos térmicos, termoquímicos e de revestimento
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Desenho e Projeto de Mo, T. Desenho e Projeto/Desig ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

No projeto de um molde ou de qualquer componente mecânico, desenhar a forma geométrica é só metade do trabalho. A outra metade é dizer, peça a peça e superfície a superfície, que estado de acabamento, que dureza e que tratamento cada zona precisa para cumprir a sua função: uma cavidade que vai receber milhares de ciclos de injeção pede dureza superficial elevada; uma cavilha guia exposta à humidade de uma fábrica pede proteção contra corrosão; uma peça visível ao cliente final pede um acabamento estético controlado. Esta sebenta ensina a definir as especificações técnicas e os requisitos dos componentes a projetar e a representar em desenho técnico os tratamentos térmicos, os tratamentos de superfície e os estados de acabamento de superfície, que são as três realizações centrais desta unidade curricular.

O percurso vai da simbologia normalizada do estado de acabamento superficial, à medição de rugosidade e de dureza, à análise dos processos de corrosão e de desgaste que justificam cada escolha, até aos quatro grandes grupos de tratamento que esta UC cobre: os tratamentos térmicos (têmpera, revenido, homogeneização), os tratamentos termoquímicos (cementação, nitruração), outros tratamentos de endurecimento e proteção superficial (cromagem dura, níquel químico) e os revestimentos de acabamento e proteção (pintura, metalização, lacagem, oxidação, anodização, titânio/alumínio), terminando na limpeza de superfícies e na segurança no trabalho.

Objetivos de aprendizagem (referencial): definir as especificações técnicas e os requisitos dos componentes a projetar; representar em desenho técnico os tratamentos térmicos e os tratamentos de superfície; representar em desenho técnico os estados de acabamento de superfície; medir rugosidades; calcular e converter durezas; adequar os processos de corrosão e de desgaste; e aplicar as normas de segurança e saúde no trabalho.

1. Especificações técnicas e requisitos dos componentes a projetar

Antes de escolher um símbolo ou um tratamento, o desenhador tem de definir as especificações técnicas e os requisitos de cada componente: para que serve a peça, que esforços recebe, em que ambiente trabalha e que aspeto tem de ter. É esta análise que decide todo o resto do desenho de acabamento.

Uma tabela de decisão simples ajuda a não avançar às cegas:

Requisito funcional Resposta típica em acabamento/tratamento
Resistência mecânica elevada em todo o volume Tratamento térmico (têmpera + revenido)
Resistência ao desgaste só na superfície, núcleo dúctil Tratamento termoquímico (cementação ou nitruração)
Resistência ao desgaste ou à corrosão com espessura acrescentada Revestimento funcional (cromagem dura, níquel químico)
Proteção contra corrosão em ambiente húmido ou químico Revestimento de proteção (metalização, oxidação, anodização)
Aspeto estético do produto final Revestimento decorativo (pintura, lacagem, anodização colorida)
Ajuste dimensional apertado com outra peça Rugosidade e tolerância controladas por acabamento fino

Caso de partida. Um macho de molde (a parte convexa da cavidade) vai injetar 500.000 peças em PA6+30%FV, um plástico muito abrasivo. O requisito é resistência ao desgaste superficial sem perder a tenacidade do núcleo, e o aço escolhido é um aço-ferramenta para moldes. A resposta certa, como se vê ao longo desta sebenta, é um tratamento termoquímico (nitruração), não um simples revestimento nem só um tratamento térmico ao volume todo.

Os componentes de um projeto de molde combinam normalmente vários aços com finalidades diferentes: aços pré-temperados (fornecidos já com uma dureza de base, tipicamente 28 a 34 HRC, como os das famílias 1.2311/1.2738), que não levam têmpera adicional e só recebem tratamentos de superfície quando necessário; e aços para têmpera (famílias 1.2343/1.2344, de trabalho a quente), usados em cavidades e machos que exigem dureza elevada depois de temperados e revenidos. Esta escolha de material é ela própria parte da especificação técnica.

2. Simbologia do estado de acabamento de superfície

A indicação do estado de acabamento superficial num desenho técnico segue hoje a norma ISO 21920 (particularmente a ISO 21920-1), que substituiu a antiga ISO 1302 mantendo os mesmos símbolos gráficos base. Um desenho usa sempre uma única norma de referência, indicada na legenda, e nunca mistura as duas.

O símbolo base é um visto (dois traços de comprimento desigual), com três variantes que nunca se trocam entre si:

Símbolo Significado Quando se usa
Visto simples, sem adição Textura exigida, processo de obtenção não especificado Indicação genérica de acabamento
Visto com um círculo na junção dos traços Remoção de material não permitida: a superfície mantém-se tal como foi obtida por um processo anterior Superfície em bruto, já revestida, ou já levada à cota final por tratamento termoquímico ou revestimento
Visto com uma barra no topo do traço mais comprido Remoção de material obrigatória: a superfície tem de ser obtida por um processo com arranque de material Superfícies retificadas, torneadas, fresadas

À volta do símbolo, em posições fixas, indica-se a informação completa:

Superfície de um macho já nitrurado e levado à cota final por retificação fina: símbolo com barra (a última operação, a retificação, remove material), posição a: Ra 0,2, posição b: Retificado após nitruração.

Superfície de uma cavidade texturizada, sem mais maquinação depois: símbolo com círculo (não pode voltar a ser maquinada), posição b: referência à norma de textura, sem valor de Ra, porque a rugosidade deixa de ser o critério relevante depois da textura aplicada.

⚠️ Verificar sempre símbolo a símbolo no desenho final. Trocar um visto com barra por um com círculo, ou vice-versa, muda o significado técnico da chamada e pode levar a maquinar uma superfície que devia ficar intocada, ou a deixar por maquinar uma que precisa mesmo de acabamento.

3. Rugosidade: medição, atribuição e qualidades de fabrico

A rugosidade mede as irregularidades microscópicas da superfície. Os dois parâmetros usados nesta unidade são distintos entre si e não convertíveis um no outro por um fator fixo:

⚠️ Não existe um fator universal de conversão entre Ra e Rz. A relação depende da forma do perfil e do processo de fabrico. Cada superfície é medida e especificada com o parâmetro que o critério funcional exige, nunca por conversão de um no outro.

A medição faz-se com o rugosímetro, um apalpador que percorre a superfície e devolve o valor de Ra (ou Rz) medido, comparável diretamente com o valor indicado no símbolo do desenho.

Qualidades de fabrico: as classes N

Antes de o valor de Ra passar a escrever-se diretamente no símbolo, a norma agrupava a rugosidade em classes de qualidade N1 a N12, cada uma associada a um valor de Ra de referência. As classes ainda se usam como linguagem corrente de oficina para falar de "qualidade de acabamento" sem citar o número exato:

Classe Ra de referência Exemplo de processo típico
N1 0,025 µm Superpolimento, lapidação fina
N3 0,1 µm Polimento fino
N5 0,4 µm Retificação fina
N6 0,8 µm Retificação
N7 1,6 µm Retificação de desbaste, torneamento de acabamento
N8 3,2 µm Fresagem de acabamento
N9 6,3 µm Fresagem/torneamento de desbaste
N10 12,5 µm Maquinação grosseira

Cada classe corresponde ao dobro (aproximadamente) da anterior: é uma progressão geométrica, não linear, e serve para atribuir rapidamente uma qualidade de fabrico a uma superfície em função da sua função (uma superfície de ajuste apertado pede N5 ou melhor; uma face de fixação sem contacto funcional pode ficar em N9 ou N10).

Rugosidade teórica e geometria da ferramenta

A rugosidade obtida por torneamento depende também da geometria da ferramenta, em particular do raio de ponta e do avanço. A altura teórica de crista deixada pelas marcas de avanço é dada por:

$$R_{max} = \frac{f^2}{8 \times r}$$

onde f é o avanço em mm/rotação e r é o raio de ponta da ferramenta em mm.

Exemplo, torneamento de acabamento. Avanço f = 0,2 mm/rot, raio de ponta r = 0,8 mm.

R_max = f² / (8 × r) = 0,2² / (8 × 0,8) = 0,04 / 6,4 = 0,00625 mm = 6,25 µm.

Este valor é a altura teórica ideal deixada pela geometria da ferramenta, não o Ra medido: na prática o Ra real é normalmente inferior a este máximo teórico, mas sobe se houver vibração, desgaste da ferramenta ou um material que rasgue em vez de cortar limpo. Reduzir o avanço ou aumentar o raio de ponta melhora sempre o acabamento teórico, e é essa relação que liga a geometria da ferramenta ao estado de acabamento final.

4. Medição e conversão de durezas: HRC, HV e HB

A dureza mede a resistência de um material à penetração de um indentador. Esta unidade usa três escalas, cada uma com o seu método, o seu indentador e o seu campo de aplicação:

Escala Norma Indentador Aplicação típica
HRC (Rockwell C) ISO 6508 Cone de diamante, 120°, carga 150 kgf Aços temperados e revenidos, materiais duros
HB (Brinell) ISO 6506 Esfera de aço ou carboneto de tungsténio Materiais mais moles, peças fundidas, chapas grossas
HV (Vickers) ISO 6507 Pirâmide de diamante de base quadrada Toda a gama de durezas, camadas finas, microdureza

O HV é o único que cobre toda a gama de durezas com a mesma escala, por isso é o preferido para medir a dureza superficial de camadas finas obtidas por tratamento termoquímico (a marca deixada é pequena e não atravessa a camada endurecida). O HB não se recomenda para durezas muito elevadas nem perto de bordas ou peças finas, porque a esfera não penetra de forma fiável ou deforma a peça.

Conversão aproximada entre escalas

⚠️ As três escalas não convertem entre si por uma fórmula exata, porque medem a resistência à penetração com indentadores e geometrias diferentes. Existem apenas tabelas de correspondência aproximada, válidas só dentro da gama testada e para famílias de materiais semelhantes (tipicamente aços). Quando a precisão importa, testa-se diretamente na escala pedida, nunca se calcula uma escala a partir da outra.

Tabela de referência aproximada para aços, a consultar sempre que for preciso converter:

HRC HB (aprox.) HV (aprox.)
20 226 238
25 253 266
30 286 302
35 327 345
40 371 392
45 421 446
50 481 513
55 550 595
60 fora da gama Brinell habitual 697

Leitura da tabela. Uma cavidade de molde foi temperada e revenida e o durómetro mede HRC 45. Pela tabela, isto corresponde a aproximadamente HB 421 e HV 446. Não se calcula: lê-se a linha da tabela, porque não há fórmula fiável entre as três escalas.

Nota-se também que o HB deixa de ser uma escala prática acima de cerca de HRC 55 a 60: a esfera do ensaio Brinell deforma-se ou a marca fica pequena e difícil de medir com rigor em materiais tão duros, por isso a tabela marca essa gama como "fora da gama Brinell habitual".

5. Processos de corrosão e de desgaste

Escolher o tratamento certo obriga a reconhecer primeiro que processo de degradação a peça vai sofrer.

Corrosão

Tipo de corrosão Mecanismo Exemplo em componentes de molde
Uniforme (generalizada) Ataque químico distribuído por toda a superfície exposta Ferrugem de uma placa de aço ao carbono exposta à humidade
Galvânica Par de metais diferentes em contacto, com um eletrólito, gera corrente e corrói o metal menos nobre Parafuso de aço inoxidável num bloco de alumínio, em ambiente húmido
Por picada (pitting) Ataque localizado e profundo num ponto de fragilidade do filme protetor Aço inoxidável exposto a cloretos (ambientes marítimos ou de limpeza)
Em fenda (crevice) Ataque numa zona de água ou humidade retida entre duas superfícies em contacto Junta aparafusada mal vedada, com água retida na fenda
Sob tensão (fissuração) Combinação de tensão mecânica residual com um meio corrosivo específico Peça temperada com tensões residuais elevadas, num ambiente agressivo

Princípios de proteção: escolher materiais compatíveis (evitar pares galvânicos desfavoráveis em contacto direto), aplicar um revestimento de proteção adequado ao ambiente, desenhar sem frestas onde a água se acumule, e usar inibidores de corrosão em circuitos fechados de refrigeração.

Desgaste

Tipo de desgaste Mecanismo Resposta típica
Adesivo Micro-soldadura e arrancamento entre superfícies em contacto e movimento relativo Aumentar dureza superficial, lubrificar
Abrasivo Partículas duras (carga de um plástico reforçado, contaminantes) riscam a superfície Tratamento termoquímico ou revestimento duro
Por fadiga superficial (pitting mecânico) Ciclos repetidos de contacto criam fendas superficiais que se propagam Aumentar dureza superficial e reduzir rugosidade
Erosivo Impacto repetido de partículas ou fluido em movimento Revestimento duro resistente ao impacto

Adequar os processos de corrosão e de desgaste é decidir, para cada superfície, qual destes mecanismos é o mais provável e escolher a resposta que o combate, sem sobre-especificar (um tratamento caro numa superfície sem risco real é desperdício) nem sub-especificar (uma superfície crítica sem proteção falha em serviço).

6. Tratamentos térmicos: têmpera, revenido e homogeneização

Os tratamentos térmicos atuam em todo o volume (ou pelo menos em toda a secção) da peça, alterando a estrutura interna do material e, com ela, a sua dureza e resistência mecânica. Não acrescentam material nem espessura mensurável: a peça mantém a mesma forma exterior, salvo um ligeiro empeno de origem térmica que se compensa deixando uma sobre-espessura de retificação antes do tratamento, exatamente como se viu para a retificação na unidade anterior.

Anota-se no desenho por nota de texto junto à peça ou na legenda, nunca pelo símbolo de rugosidade (que é para o estado de acabamento superficial, não para o volume do material):

Têmpera e revenido: 48-52 HRC
Retificar após tratamento térmico

Uma cavidade em aço 1.2344 exige resistência mecânica elevada em todo o volume para suportar a pressão de injeção sem deformar. Nota de tratamento: "Temperar e revenir a 48-52 HRC antes da retificação final". A cota de fabrico antes do tratamento térmico inclui uma pequena sobre-espessura (por exemplo 0,2 mm no diâmetro) para corrigir o empeno que a têmpera pode introduzir, removida na retificação final que já vai à cota funcional.

7. Tratamentos termoquímicos: cementação e nitruração

Ao contrário do tratamento térmico ao volume todo, os tratamentos termoquímicos alteram a composição química só numa camada superficial (o "case"), deixando o núcleo mais dúctil. São a resposta certa quando o requisito é resistência ao desgaste na superfície com tenacidade no núcleo.

Anota-se por chamada junto à superfície ou nota geral, com o processo, a profundidade de camada e a dureza superficial esperada:

Nitrurar
Profundidade de camada: 0,3 mm
Dureza superficial: 700 HV

Efeito nas cotas

A nitruração acrescenta uma ligeira espessura à superfície, porque parte da camada de nitretos cresce para fora da superfície original, seguindo a mesma lógica dos revestimentos vista no capítulo seguinte: em superfícies exteriores, a cota de pré-tratamento é a cota final menos o crescimento esperado, por cada lado do diâmetro.

Cavilha guia nitrurada. Cota funcional final (depois de nitrurar): Ø20,000 mm. Crescimento dimensional esperado da nitruração: 0,008 mm por lado (8 µm radiais).

Cota de pré-nitruração = cota final − 2 × crescimento = 20,000 − 2 × 0,008 = 20,000 − 0,016 = 19,984 mm.

É a esta cota, e não à cota final, que a peça é maquinada antes de entrar no forno de nitruração.

8. Outros tratamentos: cromagem dura e níquel químico

Estes dois tratamentos acrescentam material sobre a superfície original, por eletrodeposição:

Regra geral de cotagem para revestimentos

A cota indicada no desenho de definição é sempre a cota funcional final, ou seja, depois de o revestimento estar aplicado: é essa que garante o ajustamento com a peça companheira. A peça tem de ser maquinada antes do revestimento, numa cota de pré-revestimento calculada a partir da cota final:

Exemplo A, veio com cromagem dura. Cota funcional final: Ø25,00 h6. Espessura de crómio especificada: 0,03 mm por lado.

Cota de pré-cromagem = 25,00 − 2 × 0,03 = 25,00 − 0,06 = Ø24,94 mm.

É a esta cota que a haste é retificada antes de ir para o banho de crómio; depois de cromada, mede a cota funcional de 25,00 mm.

Exemplo B, furo com níquel químico. Cota funcional final: Ø40,00 H7. Espessura de níquel químico especificada: 0,015 mm por lado.

Cota de pré-niquelagem = 40,00 + 2 × 0,015 = 40,00 + 0,03 = Ø40,03 mm.

É a esta cota que o furo é mandrilado antes do banho de níquel químico; depois de niquelado, o furo fecha para os 40,00 mm funcionais.

9. Revestimentos: pintura, metalização, lacagem, oxidação, anodização e titânio/alumínio

Os revestimentos cobrem uma gama larga de propósitos, do puramente estético ao funcional de alta dureza:

Anodização de um componente de alumínio. Camada total de óxido pretendida: 20 µm. Como aproximadamente metade cresce para fora e metade consome o metal base, o crescimento dimensional líquido por face é de cerca de 10 µm.

Num veio de alumínio anodizado, o diâmetro final cresce aproximadamente 2 × 10 µm = 20 µm (0,02 mm) face à cota antes de anodizar. Esta proporção é uma referência típica de processo, a confirmar sempre com o anodizador para o alumínio e o processo concretos, e não uma lei fixa como a fórmula de um revestimento eletrolítico.

Ao contrário da cromagem dura e do níquel químico, os revestimentos PVD (titânio/alumínio) têm espessura tão reduzida que, na maioria das aplicações, não obrigam a recalcular a cota de pré-revestimento: aplicam-se já sobre a peça na sua cota final acabada, exceto em ajustes extremamente apertados onde mesmo poucos micrómetros contam.

10. Limpeza de superfícies: a decapagem

Nenhum tratamento de superfície ou revestimento adere bem a uma superfície suja, oxidada ou com carepa. A limpeza de superfícies é sempre o passo que antecede um tratamento ou um revestimento, nunca um fim em si mesma.

A decapagem é a remoção química de óxidos, carepa de forjamento ou de tratamento térmico, e outros contaminantes, por imersão em banhos ácidos ou alcalinos. A sequência típica de preparação é:

Desengorduramento → Decapagem (banho ácido/alcalino) → Lavagem e neutralização → Tratamento ou revestimento

Complementarmente, a projeção de abrasivo (jato de areia ou de granalha) também prepara mecanicamente a superfície, removendo carepa e criando uma rugosidade controlada que melhora a aderência de uma pintura ou de uma metalização.

⚠️ Uma peça mal decapada ou mal desengordurada compromete todo o tratamento seguinte: um revestimento sobre uma superfície suja descola, e um tratamento termoquímico sobre óxidos não penetra de forma uniforme. A limpeza não é um detalhe, é uma condição do resultado final.

11. Segurança e saúde no trabalho nos tratamentos e acabamentos

Os banhos químicos de decapagem, cromagem e niquelagem, a projeção de abrasivo e o polimento envolvem riscos que têm de ser geridos com o equipamento de proteção individual (EPI) correto e com regras claras de trabalho:

O rigor com estas regras é uma atitude avaliada nesta unidade, tal como a responsabilidade, a autodisciplina e o respeito pelas normas definidas.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Especificar o acabamento de um componente parte da definição das especificações técnicas e dos requisitos da peça, que decidem o tipo de resposta necessária. A simbologia normalizada (ISO 21920, com os três vistos: sem adição, com círculo, com barra) representa o estado de acabamento no desenho, apoiada na rugosidade (Ra e Rz, nunca convertíveis entre si, mais as classes de qualidade N) e na dureza (HRC, HB e HV, também sem conversão exata, só tabelas aproximadas). Os processos de corrosão e de desgaste identificam o risco que cada superfície enfrenta, e essa análise leva à escolha entre tratamento térmico (todo o volume, sem espessura acrescentada), tratamento termoquímico (camada superficial, com ligeiro crescimento dimensional) e revestimento (espessura mensurável, que obriga a calcular a cota de pré-revestimento, menor em veios e maior em furos). A limpeza de superfícies prepara sempre o terreno para qualquer tratamento ou revestimento, e a segurança no trabalho com banhos químicos, jato e polimento fecha o processo completo, da especificação à peça acabada.

Exercícios resolvidos

1. Uma cavilha guia vai receber cromagem dura de 0,04 mm por lado e a cota funcional final é Ø18,00 mm. A que cota se maquina a cavilha antes de cromar?

Resolução: é uma superfície exterior (veio), logo cota de pré-revestimento = cota final − 2 × espessura = 18,00 − 2 × 0,04 = 18,00 − 0,08 = Ø17,92 mm.

2. Um furo de casquilho vai receber níquel químico de 0,01 mm por lado e a cota funcional final é Ø35,00 mm. A que cota se mandrila o furo antes de niquelar?

Resolução: é um furo, logo cota de pré-revestimento = cota final + 2 × espessura = 35,00 + 2 × 0,01 = 35,00 + 0,02 = Ø35,02 mm.

3. Uma peça foi medida no durómetro com HRC 50. Indica os valores aproximados de HB e HV, e explica porque não se calcula um a partir do outro.

Resolução: pela tabela de conversão aproximada, HRC 50 corresponde a cerca de HB 481 e HV 513. Não se calcula, porque HRC, HB e HV usam indentadores e geometrias diferentes; não há uma fórmula exata entre eles, só tabelas de correspondência aproximada, válidas dentro da gama testada.

4. Uma superfície torneada com avanço de 0,3 mm/rot e uma ferramenta com raio de ponta 0,4 mm. Calcula a altura teórica de crista (Rmax) em µm.

Resolução: R_max = f² / (8 × r) = 0,3² / (8 × 0,4) = 0,09 / 3,2 = 0,028125 mm ≈ 28,1 µm. É um valor teórico elevado para um acabamento fino; para melhorar, reduz-se o avanço ou aumenta-se o raio de ponta.

5. Um parafuso de aço inoxidável vai fixar uma peça de alumínio num ambiente com humidade frequente. Que risco existe e que cuidado se deve ter no desenho?

Resolução: existe risco de corrosão galvânica, porque o aço inoxidável é mais nobre do que o alumínio; na presença de humidade (o eletrólito), o alumínio corrói-se preferencialmente junto ao contacto. Deve isolar-se eletricamente o contacto (anilha ou revestimento isolante) ou escolher um par de materiais mais próximo eletroquimicamente.

6. Um macho de molde precisa de resistência ao desgaste na superfície, mantendo o núcleo tenaz para resistir a impacto. Que tipo de tratamento se escolhe, e porque não um tratamento térmico simples?

Resolução: escolhe-se um tratamento termoquímico (nitruração ou cementação), porque endurece só a camada superficial mantendo o núcleo dúctil. Um tratamento térmico ao volume todo (têmpera e revenido) endureceria também o núcleo, tornando a peça mais frágil ao impacto, sem dar o ganho de resistência ao desgaste concentrado na superfície que a aplicação exige.