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aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC02884

Sebenta · Efetuar desenho de fabrico (UC02884)

Toleranciamento geométrico, ajustamentos, sistema de furo normal, estados de acabamento e informação auxiliar do desenho de fabrico
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Desenho e Projeto de Mo, T. Programação e Maquinaçã, T. Produção e Gestão de Mo, T. Produção de Cunhos e Co ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Um desenho de fabrico correto responde sempre à mesma pergunta: o que é que muda se esta peça sair um pouco diferente do valor nominal, e quanto pode mudar sem deixar de funcionar? Cotar a geometria não chega. É preciso dizer que folga ou aperto se pretende num encaixe, que desvio de forma ou de posição uma superfície pode ter, e com que acabamento cada face fica pronta a montar. Esta sebenta ensina exatamente isso: o desenho de fabrico completo de peças mecânicas, com toleranciamento dimensional e geométrico, ajustamentos ISO, estados de acabamento de superfície e toda a informação auxiliar que o operador precisa.

O percurso segue a ordem natural de quem cota uma peça a sério: primeiro recorda-se cotagem nominal e de fabrico, depois entra-se no toleranciamento dimensional (geral e individual), no sistema de furo normal e no cálculo de ajustamentos, relaciona-se a tolerância com a qualidade de fabrico exigida ao processo, avança-se para o toleranciamento geométrico (a parte mais exigente da UC, com as suas regras de forma, orientação, localização e batimento), fecham-se os conceitos mais avançados (princípio de independência, exigência de envolvente, máxima e mínima matéria, tolerância projetada, acumulação de tolerâncias), trata-se a simbologia de acabamento de superfícies e termina-se com legendas, lista de peças, balões, anotações e segurança no trabalho.

Objetivos de aprendizagem (referencial): representar graficamente as projeções, aplicar a cotagem e as normas referentes ao processo de fabrico, aplicar o toleranciamento e o acabamento, e anotar as informações necessárias para o processo de fabrico, adequando sempre as escolhas ao processo e à aplicação funcional do componente.

Ao longo da sebenta usamos dois componentes de um sistema de extração de molde de injeção como fio condutor: a placa de fixação (que liga o molde à prensa, com um padrão de furos de fixação) e o veio de comando de uma corrediça (uma peça que roda e desliza dentro de um casquilho).

1. Desenho técnico mecânico: projeções, vistas, cortes e secções

Um desenho de fabrico começa sempre por uma escolha correta de projeções e vistas, adequada ao processo que vai produzir a peça. Recapitulando o essencial:

A escolha de vistas, cortes e secções não é decorativa: depende do processo de fabrico. Um furo de fixação passante desenha-se em corte total se for isso que evita linhas escondidas confusas; uma face plana de encosto pode não precisar de corte nenhum. É o critério de desempenho "adequando as projeções em função do processo de fabrico" a funcionar na prática, desde o primeiro traço.

A placa de fixação do nosso exemplo (uma chapa retangular com um furo central e quatro furos de fixação nos cantos) representa-se com duas vistas: a vista de frente, em corte total pelo eixo do furo central (para mostrar o furo e a espessura sem linhas escondidas), e a vista de topo, que mostra a disposição em planta dos quatro furos de fixação.

2. Normas aplicáveis ao desenho de fabrico

Um desenho de fabrico só é lido da mesma forma por qualquer técnico, em qualquer oficina, se seguir normas comuns. As normas que atravessam esta UC:

Norma O que regula
ISO 129-1 regras de cotagem: linhas de cota, linhas de chamada, setas, valores
ISO 286 sistema de tolerâncias e ajustamentos (qualidades IT, furo e veio normal)
ISO 1101 toleranciamento geométrico (forma, orientação, localização, batimento)
ISO 8015 princípios gerais de toleranciamento, incluindo o princípio de independência
ISO 1302 / ISO 21920 indicação do estado de acabamento de superfícies (rugosidade)
ISO 2768 tolerâncias gerais (dimensionais e geométricas) para cotas sem tolerância indicada

Não é preciso decorar os números das normas: é preciso saber qual delas resolve cada problema quando se está a cotar uma peça. Ao longo da sebenta, cada símbolo e cada regra remete para a norma que a define.

3. Cotagem nominal e cotagem de fabrico

A cota nominal é o valor teórico da medida, sem tolerância explícita: Ø13, 120, R3. Descreve a geometria da peça acabada, mas sozinha não diz quanto pode variar na prática.

A cotagem de fabrico parte da cota nominal e acrescenta tudo o que o operador precisa para produzir e verificar a peça:

Duas regras não negociáveis, válidas em qualquer escala de desenho:

O furo central da placa de fixação tem Ø26 mm na peça real. Desenhado a escala 1:2, o círculo no papel mede metade disso, mas a cota escrita continua a ser Ø26. Escala é uma propriedade do desenho; a cota é sempre uma propriedade da peça.

Cotagem funcional é o princípio que orienta toda a cotagem de fabrico: prioriza-se cotar a partir das superfícies que desempenham a função (a face de encosto que centra a peça, o eixo de um furo de guiamento), não de superfícies escolhidas por conveniência de desenho.

4. Toleranciamento dimensional geral e individual

Nenhuma máquina produz uma cota exata: toda a cota real varia dentro de uma gama. O toleranciamento define essa gama de valores aceitáveis.

4.1 Tolerância geral

A tolerância geral aplica-se a todas as cotas sem tolerância individual indicada, através de uma única nota no cartouche, por exemplo: "Cotas sem tolerância indicada: ISO 2768-mK". Esta norma define classes:

Classe Rigor Uso típico
f (fina) mais apertada mecânica de precisão
m (média) corrente a maioria das peças mecânicas
c (grosseira) larga peças pouco críticas
v (muito grosseira) mais larga fundição em bruto, chapa dobrada

A letra K (ou H, L) que acompanha a classe refere-se à parte geométrica da ISO 2768 (tolerâncias gerais de forma e posição), aplicável às cotas sem tolerância geométrica individual.

4.2 Tolerância individual

A tolerância individual aplica-se cota a cota, sempre que a função da peça exige um controlo mais apertado (ou mais largo) do que a tolerância geral oferece: um ajustamento com um casquilho, um furo de guiamento, uma cota crítica de montagem.

Regra prática de projeto: usa-se a tolerância geral sempre que a função o permite, e só se recorre à tolerância individual onde ela é mesmo necessária. Cotar tudo com tolerâncias individuais apertadas encarece a peça sem benefício algum; deixar uma cota crítica à tolerância geral arrisca uma peça que não funciona.

5. Sistema de furo normal e cotagem funcional

Um ajustamento (o encaixe entre um furo e um veio da mesma dimensão nominal) pode obter-se de duas formas:

Na indústria usa-se sobretudo o sistema furo normal. A razão é prática: é mais fácil tornear ou retificar um veio a uma medida exata do que produzir furos de medidas diferentes, porque cada furo novo pede uma ferramenta (broca, alargador) de diâmetro próprio, enquanto o mesmo veio se torneia a qualquer diâmetro na mesma máquina. Mantendo o furo sempre H (a mesma ferramenta de alargamento), varia-se só o veio para obter folga, transição ou aperto.

O sistema veio normal só compensa quando se parte de varão calibrado de catálogo (já retificado a uma medida h fixa) e se maquinam vários furos à sua volta, por exemplo em vários componentes que recebem o mesmo veio comprado.

Cotagem funcional aplicada ao furo normal: a cota de referência de um ajustamento é sempre a que corresponde à função de montagem (o eixo do furo de guiamento, a face que encosta), nunca uma face arbitrária escolhida só porque é mais fácil de desenhar.

6. Ajustamentos: cálculo de folgas, apertos e transições

Cada tolerância ISO combina uma letra (posição do campo de tolerância) e um número (qualidade IT, a amplitude). Recordando os valores tabelados (ISO 286-1) para a gama de diâmetros 18 a 30 mm:

Amplitude (µm) IT6 IT7
18 a 30 mm 13 21

E os afastamentos fundamentais tabelados para esta gama: f → es = −20 µm; g → es = −7 µm; k → ei = +2 µm.

6.1 Ajustamento com folga larga: Ø22 H7/f7

Um pino de centragem desmontável (retirado com frequência para manutenção) monta com folga larga num furo guia.

Folga máxima = cota máxima do furo − cota mínima do veio = 22,021 − 21,959 = 0,062 mm. Folga mínima = cota mínima do furo − cota máxima do veio = 22,000 − 21,980 = 0,020 mm.

Ajustamento com folga garantida (o valor mínimo é positivo): o pino entra e sai à mão, sem forçar.

Além das cotas máxima e mínima, é útil calcular a cota média de cada peça (o valor central da sua tolerância, usado por exemplo para regular um instrumento de medição ou para escolher o valor mais provável numa simulação):

Cota média do furo = (cota máxima + cota mínima) / 2 = (22,021 + 22,000) / 2 = 22,0105 mm. Cota média do veio = (21,980 + 21,959) / 2 = 21,9695 mm.

A diferença entre as duas cotas médias, 22,0105 − 21,9695 = 0,041 mm, é a folga média deste ajustamento: um valor central, entre a folga mínima (0,020 mm) e a máxima (0,062 mm), útil para comparar ajustamentos diferentes sem ter de olhar sempre para os dois extremos.

6.2 Ajustamento de transição: Ø20 H7/k6

O veio de comando da corrediça monta num casquilho guia com um ajustamento que deve ficar quase sem jogo, mas continuar desmontável.

Situação máxima de folga = cota máxima do furo − cota mínima do veio = 20,021 − 20,002 = 0,019 mm (folga). Situação máxima de aperto = cota mínima do furo − cota máxima do veio = 20,000 − 20,015 = −0,015 mm (aperto de 0,015 mm).

É por isto que se chama ajustamento de transição: consoante os valores reais de cada peça dentro da sua tolerância, o mesmo par furo/veio tanto pode sair com uma folga muito pequena como com um aperto ligeiro. Usa-se quando se quer centrar uma peça sem jogo percetível, mas sem a tornar permanente.

6.3 Escolher o ajustamento pela função

Ajustamento Tipo Uso típico
H7/f7, H7/g6 folga peças que rodam ou deslizam livremente, fáceis de montar e desmontar
H7/h6 folga mínima (teoricamente nula) centragem sem jogo percetível, ainda desmontável à mão
H7/k6, H7/n6 transição localização precisa, sem jogo, montagem e desmontagem com ferramenta
H7/p6, H7/s6 aperto fixação permanente por interferência, sem elementos de fixação adicionais

7. Qualidades de fabrico e tolerância

A qualidade (grau de tolerância IT, de IT01 a IT18) mede o quanto uma cota pode variar: quanto menor o número, mais apertada a tolerância. Cada processo de fabrico só consegue, na prática, produzir dentro de certas qualidades:

Qualidade IT Processos típicos Aplicação
IT5 a IT6 retificação, brunimento, lapidação ajustamentos de precisão apertados
IT6 a IT8 torneamento e fresagem de acabamento, mandrilagem fina ajustamentos correntes (H7/g6, H7/k6)
IT8 a IT11 torneamento e fresagem normal, furação corrente cotas gerais, sem função de ajustamento
IT11 a IT14 processos correntes de oficina cotas cobertas pela tolerância geral
IT14 a IT18 fundição, forjamento, laminagem dimensões brutas, antes de maquinar

Pedir um ajustamento H7/g6 (qualidades 6 e 7) a uma peça fundida em bruto é pedir o impossível ao processo; pedir tolerância geral (IT12 ou mais larga) numa cota de ajustamento é garantir que a peça não encaixa. Relacionar a qualidade com o processo, antes de tolerar, evita as duas armadilhas.

8. Toleranciamento geométrico: fundamentos e quadro de tolerância

O toleranciamento dimensional (Ø25 H7) controla o tamanho. Mas duas peças com o diâmetro certo podem ainda assim não encaixar ou não funcionar, se a superfície estiver torta, ovalizada ou fora de posição. O toleranciamento geométrico (ISO 1101) controla precisamente isso: forma, orientação, localização e batimento de linhas, superfícies e eixos.

8.1 O quadro de tolerância

Uma tolerância geométrica indica-se num quadro retangular dividido em compartimentos, ligado ao elemento tolerado por uma linha de chamada terminada em seta:

┌───┬─────────┬───┬───┐
│ ⊕ │ Ø0,3 Ⓜ  │ A │ B │
└───┴─────────┴───┴───┘

Da esquerda para a direita: símbolo da característica (aqui, posição), valor da tolerância (com Ø se a zona for cilíndrica, seguido de modificadores como Ⓜ), e as letras de referência, por ordem de prioridade (A = referência primária, B = referência secundária).

8.2 Referências (datums)

Uma referência é uma superfície, eixo ou plano real da peça, escolhido porque desempenha a função de localizar ou orientar as restantes. Identifica-se com uma letra maiúscula dentro de um quadrado, ligada ao elemento de referência. As referências indicam-se por ordem de importância funcional: a primária (A) restringe mais graus de liberdade, a secundária (B) e a terciária (C) restringem o que sobra.

Na placa de fixação, a referência A é a face de encosto (a que assenta na prensa): fixa a orientação. A referência B é o eixo do furo central: fixa a posição. Os quatro furos de fixação toleram-se em posição a partir de A e B, exatamente como se a peça estivesse montada.

9. Categorias do toleranciamento geométrico: forma, orientação, localização e batimento

As catorze características do toleranciamento geométrico organizam-se em quatro categorias. As de forma nunca precisam de referência (comparam a superfície consigo mesma); todas as restantes precisam.

9.1 Tolerâncias de forma (sem referência)

Característica Símbolo (descrição) Controla
Retitude uma linha reta o desvio de uma linha em relação a uma reta ideal
Planeza um paralelogramo o desvio de uma superfície em relação a um plano ideal
Circularidade um círculo o desvio de uma secção transversal em relação a um círculo ideal
Cilindricidade um círculo com duas linhas inclinadas circularidade + retitude das geratrizes + paralelismo, em simultâneo, em toda a superfície cilíndrica

9.2 Tolerâncias de perfil (com ou sem referência)

Característica Símbolo (descrição) Controla
Perfil de uma linha um arco aberto o contorno de um perfil bidimensional
Perfil de uma superfície um arco fechado na base o contorno de uma superfície tridimensional (ex.: uma superfície de forma livre)

9.3 Tolerâncias de orientação (com referência)

Característica Símbolo (descrição) Controla
Paralelismo duas linhas paralelas um elemento paralelo a uma referência
Perpendicularidade um ângulo reto um elemento a 90° de uma referência
Inclinação um ângulo aberto um elemento a um ângulo especificado, diferente de 90°, de uma referência

A face de topo do casquilho que recebe o veio de comando tem uma tolerância de perpendicularidade de 0,02 mm em relação ao eixo do furo (referência A): garante que o veio, ao encostar, fica com o eixo realmente perpendicular à face, e não ligeiramente inclinado.

9.4 Tolerâncias de localização (com referência)

Característica Símbolo (descrição) Controla
Posição um círculo com uma cruz dentro a localização de um ponto, linha, eixo ou plano em relação a referências e a cotas teóricas exatas
Coaxialidade (concentricidade) dois círculos concêntricos um eixo coincidente com o eixo de uma referência
Simetria três traços horizontais um elemento centrado num plano de referência

A tolerância de posição é a mais usada na indústria: substitui, com uma única zona de tolerância (normalmente cilíndrica), o toleranciamento tradicional em coordenadas X/Y de cada furo, e permite ainda os bónus de máxima e mínima matéria (secção seguinte).

9.5 Tolerâncias de batimento (com referência, envolvem rotação)

Característica Símbolo (descrição) Controla
Batimento circular uma seta simples o desvio, medido num único plano de medição perpendicular ao eixo, durante uma rotação completa em torno da referência
Batimento total duas setas o mesmo desvio, mas medido ao longo de toda a superfície durante a rotação, controlando em simultâneo forma, orientação e posição relativas ao eixo de referência

O veio de comando roda dentro do casquilho apoiado na secção Ø20 k6 (referência A, o eixo de rotação). A face de encosto do colar do veio tem uma tolerância de batimento circular de 0,03 mm em relação a A: rodando o veio uma volta completa apoiado em A, a face de encosto não pode "abanar" mais do que 0,03 mm nesse plano de medição.

10. Princípio de independência e exigência de envolvente

10.1 Princípio de independência

Por defeito (ISO 8015), cada requisito do desenho, dimensional ou geométrico, verifica-se de forma independente dos restantes, salvo indicação em contrário. Isto significa que uma tolerância dimensional (Ø25 ±0,01) não limita, por si só, o erro de forma da peça (por exemplo, a sua cilindricidade): uma peça pode estar dentro da tolerância de diâmetro e, ainda assim, ser oval ou tronco-cónica, porque a forma tem a sua tolerância geométrica própria, verificada à parte.

Este princípio simplifica a leitura do desenho (cada cota diz exatamente o que controla, nada mais), mas obriga o projetista a pensar explicitamente na forma sempre que ela for funcionalmente importante, e não confiar que a tolerância dimensional "trata disso sozinha".

10.2 Exigência de envolvente

Quando o encaixe entre duas peças tem mesmo de ser garantido, o princípio de independência sozinho não chega: é preciso limitar também o erro de forma, ligando-o à tolerância dimensional. É para isso que existe a exigência de envolvente, indicada pelo símbolo a seguir à cota (ex.: Ø25 g6 Ⓔ).

A exigência de envolvente obriga a que a peça, além de respeitar a tolerância dimensional em cada ponto medido, caiba dentro de um envelope de forma perfeita, no tamanho correspondente à condição de máxima matéria: para um veio, o envelope tem o diâmetro máximo admissível (a cota de máxima matéria); para um furo, tem o diâmetro mínimo admissível. É a regra que garante que um veio "dentro da tolerância" mas oval não trava, à força, dentro de um furo igualmente "dentro da tolerância".

No veio de comando, a secção Ø20 k6 que monta no casquilho leva a nota Ø20 k6 Ⓔ: além de cada diâmetro medido estar entre 20,002 e 20,015, a peça inteira tem de caber num cilindro perfeito de Ø20,015 (o seu máximo de matéria), garantindo a montagem mesmo que haja um pequeno erro de forma.

11. Máxima e mínima matéria, e tolerância projetada

11.1 Condição de máxima matéria (MMC) e de mínima matéria (LMC)

11.2 O símbolo Ⓜ e a tolerância bónus

Quando o símbolo acompanha uma tolerância geométrica (tipicamente de posição), essa tolerância só é obrigatória exatamente no valor indicado quando a peça está na condição de máxima matéria. À medida que o tamanho real se afasta do MMC (menos material), a peça "ganha" folga extra no ajustamento, e essa folga extra pode ser trocada por tolerância geométrica adicional, sem pôr em causa a montagem.

Um furo de fixação da placa tem cota Ø13 +0,2/0 (mínimo 13,0 = MMC; máximo 13,2 = LMC) e tolerância de posição Ø0,3 Ⓜ, referida a A e B.

Quanto mais um furo se afasta do seu mínimo (mais folga tem para o parafuso), mais desvio de posição pode tolerar sem deixar de montar. O símbolo Ⓜ formaliza esta troca e aprova mais peças, sem nunca comprometer a montagem.

O símbolo equivalente para a mínima matéria é , usado quando o crítico não é a folga de montagem mas, por exemplo, a espessura mínima de parede entre um furo e o bordo da peça.

11.3 Tolerância projetada

Um furo roscado que recebe um perno prisioneiro (stud) fixo, saliente para encaixar noutra peça, tem um problema particular: um pequeno desvio de posição do furo, dentro da própria espessura da placa, pode traduzir-se num desvio muito maior na ponta do perno, onde ele realmente tem de encaixar. A tolerância projetada resolve isto: a zona de tolerância de posição do furo "projeta-se" para fora da peça, ao longo do comprimento útil do perno, em vez de se limitar à espessura da própria placa.

Indica-se com o símbolo , seguido do comprimento da projeção: ⊕ Ø0,1 Ⓟ 20 A, significando uma zona de tolerância cilíndrica de Ø0,1 mm, projetada 20 mm para fora da face, medida a partir da referência A.

12. Acumulação de tolerâncias

Quando várias cotas se encadeiam (cotagem em cadeia, uma medida a seguir à outra ao longo do mesmo eixo), a tolerância entre os dois extremos da cadeia soma as tolerâncias de cada elo, mesmo que cada cota individual esteja dentro da sua própria tolerância.

Três troços cotados em cadeia ao longo do comprimento de uma peça: A = 15 ±0,05, B = 25 ±0,05, C = 10 ±0,05.

Cota nominal total = 15 + 25 + 10 = 50 mm. Tolerância acumulada (pior caso) = soma das tolerâncias de cada elo = 0,05 + 0,05 + 0,05 = ±0,15 mm.

Mesmo com A, B e C individualmente dentro da tolerância, o comprimento total pode variar entre 49,85 e 50,15 mm: três vezes mais do que a tolerância de qualquer troço isolado.

Alternativa, cotagem em paralelo (todas as cotas medidas diretamente a partir da mesma referência, no início da peça): fim de A a 15 ±0,05; fim de B a 40 ±0,05; fim de C (extremo da peça) a 50 ±0,05. A cota final continua ±0,05, porque não é a soma de três tolerâncias, é uma medição direta e independente. O que se perde é a garantia apertada do comprimento isolado do troço B, que deixa de ser cotado diretamente.

Regra prática: cotar em cadeia só onde a acumulação não interessa; cotar em paralelo (ou por coordenadas, a partir de uma referência única) sempre que uma cota final crítica não pode herdar o erro de várias cotas intermédias.

13. Simbologia de estado de acabamento de superfícies: Ra e Rz

O estado de acabamento de superfície (rugosidade) indica-se com um símbolo em forma de "visto" aberto (duas linhas de comprimento desigual, como um V assimétrico), colocado junto à superfície, com o valor do parâmetro a seguir:

13.1 Ra e Rz: dois parâmetros, dois defeitos diferentes

Como regra prática, e apenas como ordem de grandeza (nunca como igualdade exata a usar em cálculos): Rz é tipicamente várias vezes maior do que Ra, para a mesma superfície e o mesmo processo, porque mede picos e vales isolados em vez de uma média.

13.2 Onde especificar cada parâmetro

Operação Ra típico (µm)
Torneamento ou fresagem de desbaste 6,3 a 12,5
Torneamento ou fresagem de acabamento 1,6 a 3,2
Retificação 0,2 a 0,8

Na placa de fixação: a face de encosto na prensa (referência A) leva Ra 3,2 (torneamento ou fresagem de acabamento normal, superfície de contacto simples). Já a face de vedação de um casquilho de refrigeração da mesma placa, onde um único risco causaria fuga de líquido, leva um valor de Rz especificado, em vez de (ou além de) Ra, precisamente porque é o pico isolado, e não a média, que compromete a vedação.

14. Legendas, lista de peças, balões e anotações

14.1 O cartouche

O cartouche (caixa de legenda) reúne o que identifica o desenho: título da peça ou conjunto, número de desenho e revisão, escala, sistema de projeção, material, tratamento, tolerância geral aplicável (ex.: "ISO 2768-mK") e nota geral de rugosidade para as superfícies não especificadas individualmente, autor e data. É a informação que permite a qualquer pessoa, em qualquer oficina, identificar o desenho sem dúvidas.

14.2 Balões e lista de peças

No desenho de conjunto, cada peça recebe um balão (um círculo com um número), ligado por uma linha fina, correspondente a um item na lista de peças (designação, quantidade, material, observações). Regras práticas: um balão por peça (mesmo repetida), balões alinhados sempre que possível, numeração sequencial coerente com a lista.

No conjunto de acionamento da corrediça: balão 1 = placa de fixação; balão 2 = veio de comando; balão 3 = casquilho guia. A lista de peças lista os três itens, com a quantidade, o material e a nota de tratamento térmico de cada um.

14.3 Anotações

As anotações completam o que a geometria e a cotagem não dizem por si: notas de tratamento térmico ("cementar e temperar HRC 58-62"), sentido de montagem, referência à sequência operatória quando o desenho também serve de instrução de fabrico, e a remissão às normas gerais aplicadas (tolerância geral, rugosidade geral). Uma anotação mal colocada, ou em falta, obriga o operador a adivinhar, exatamente o que um bom desenho de fabrico nunca permite.

15. Normas de segurança e saúde no trabalho

O desenho de fabrico não produz sozinho a peça; é lido e executado por alguém junto de uma máquina. Regras que atravessam qualquer oficina de maquinação:

Estas regras não são um extra: fazem parte do referencial da UC, tal como o rigor no toleranciamento. Uma peça perfeitamente cotada, produzida com um acidente pelo caminho, não é um trabalho bem feito.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Um desenho de fabrico completo cota a peça pela sua função, nunca pela conveniência do desenho. A cotagem de fabrico parte de referências de maquinação reais; o toleranciamento dimensional, geral ou individual, define a gama aceitável de cada cota, apoiado no sistema de furo normal para calcular ajustamentos coerentes com a qualidade que o processo consegue produzir. O toleranciamento geométrico acrescenta o que o tamanho sozinho nunca garante: forma, orientação, localização e batimento, apoiadas em referências e relacionadas com o tamanho através do princípio de independência, da exigência de envolvente e dos bónus de máxima e mínima matéria, com a tolerância projetada a resolver o caso particular dos elementos acoplados. A acumulação de tolerâncias lembra que cotar em cadeia tem um preço. Por fim, a simbologia de acabamento de superfícies (Ra, Rz), o cartouche, os balões, a lista de peças e as anotações entregam ao operador tudo o resto de que precisa, sob as normas de segurança que protegem quem executa o desenho.

Exercícios resolvidos

1. Um veio Ø22 f7 monta com folga larga num furo Ø22 H7. Calcula a folga máxima e mínima.

Resolução: furo H7 (gama 18-30 mm, IT7 = 21 µm): Ø22 ⁺⁰·⁰²¹₀. Veio f7 (es = −20 µm, IT7 = 21 µm, logo ei = −20 − 21 = −41 µm): Ø22 ⁻⁰·⁰²⁰₋₀,₀₄₁. Folga máxima = 22,021 − 21,959 = 0,062 mm. Folga mínima = 22,000 − 21,980 = 0,020 mm.

2. Explica porque é que uma peça pode respeitar Ø25 ±0,01 e, ainda assim, não passar no controlo de qualidade por causa da sua forma.

Resolução: pelo princípio de independência, a tolerância dimensional (Ø25 ±0,01) controla apenas o tamanho, não a forma. Uma peça oval ou tronco-cónica pode ter todos os pontos medidos dentro dessa gama e, mesmo assim, falhar uma tolerância geométrica de circularidade ou cilindricidade especificada à parte, ou não caber no envelope exigido, se houver exigência de envolvente (Ⓔ).

3. Um furo Ø13 +0,2/0 tem tolerância de posição Ø0,3 Ⓜ. Se o furo sair a Ø13,1, qual a tolerância de posição disponível nesse furo?

Resolução: MMC do furo = cota mínima = Ø13,0. Bónus = 13,1 − 13,0 = 0,1 mm. Tolerância de posição disponível = 0,3 + 0,1 = Ø0,4 mm.

4. Três cotas em cadeia, A = 12 ±0,04, B = 18 ±0,04, C = 20 ±0,04, definem o comprimento total de uma peça. Qual a tolerância acumulada nesse comprimento total, no pior caso?

Resolução: cota nominal total = 12 + 18 + 20 = 50 mm. Tolerância acumulada = soma das tolerâncias = 0,04 + 0,04 + 0,04 = ±0,12 mm. O comprimento total pode variar entre 49,88 e 50,12 mm.

5. Uma superfície de vedação de um casquilho de refrigeração não pode ter nenhum risco isolado, mesmo que a rugosidade média seja baixa. Ra ou Rz? Justifica.

Resolução: Rz, porque é sensível a um defeito pontual (um único risco profundo), que uma média (Ra) pode disfarçar mesmo com o resto da superfície bem acabado. Num furo roscado que serve de referência funcional, um valor de Ra baixo não garante, por si só, a ausência desse risco.

6. Um furo roscado M8 recebe um perno prisioneiro saliente 25 mm, que tem de encaixar noutra peça com posição rigorosa. Que ferramenta de toleranciamento se aplica, e o que significa na prática?

Resolução: aplica-se a tolerância projetada (Ⓟ), indicada como ⊕ valor Ⓟ 25, projetando a zona de tolerância de posição do furo 25 mm para fora da placa, ao longo do comprimento do perno. Significa que o desvio de posição relevante é o que se mede na ponta do perno, onde ele realmente encaixa, e não dentro da própria espessura da placa.