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UC · Unidade de Competência · UC02879

Sebenta · Efetuar desenhos de fabrico de peças e conjuntos mecânicos por processos de arranque de apara (UC02879)

Do croquis à peça maquinada, cotagem de fabrico, toleranciamento e conjunto de guiamento de um molde
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Desenho e Projeto de Mo ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Um desenho de fabrico é a única coisa que sobra entre o projetista e o operador de torno ou de fresadora. Se o desenho não disser exatamente que cotas respeitar, que tolerância aceitar, que acabamento dar a cada superfície e por que ordem maquinar, a peça sai errada, ou sai boa por sorte. Esta sebenta ensina a produzir esse desenho para peças e conjuntos que se fabricam por arranque de apara, ou seja, por remoção de material com uma ferramenta de corte: torneamento, fresagem, furação e trabalhos de bancada.

O percurso segue o de um técnico de desenho e projeto de moldes na indústria metalomecânica: primeiro esboça-se à mão livre o que se quer obter, depois desenha-se com rigor as vistas, cortes e secções, cota-se para fabrico (não só para descrever a geometria), tolera-se o que é crítico, especifica-se o estado de superfície e das arestas, anota-se a simbologia do processo, e por fim organiza-se o desenho de conjunto com balões de identificação e lista de peças. Ao longo do documento usamos como fio condutor um conjunto de guiamento de molde: um veio guia torneado e um casquilho guia torneado e fresado, uma peça que existe em praticamente todos os moldes de injeção.

Objetivos de aprendizagem (referencial): realizar o desenho à mão livre; executar a representação gráfica das vistas, cortes e secções dos componentes a obter; e aplicar no desenho as informações auxiliares referentes ao processo de arranque de apara, relacionando os processos com os componentes a maquinar e respeitando as regras e normas em vigor.

1. Processos de fabrico por arranque de apara

Arranque de apara é a família de processos que obtém a forma final de uma peça removendo material de um bloco ou barra em bruto, sob a forma de apara (limalha). Contrapõe-se aos processos de conformação (forjar, dobrar, moldar), que não removem material.

Os processos principais desta UC:

Processo Máquina Movimento de corte Peças típicas
Torneamento torno mecânico peça roda, ferramenta avança veios, casquilhos, buchas, roscas
Fresagem fresadora ferramenta roda, peça avança chapas, blocos, ranhuras, faces planas
Furação berbequim, torno, fresadora ferramenta roda e avança furos passantes e cegos
Trabalhos de bancada manuais manual acabamentos, roscas à mão, ajuste

1.1 Associar o componente ao processo

A primeira decisão de projeto é: que processo produz esta geometria? Regra prática:

O casquilho guia de um molde de injeção é essencialmente um cilindro (torneado: diâmetro exterior, furo interior, chanfros, flange de retenção), mas se a flange tiver de encaixar sem rodar numa cavidade retangular da placa, essa face plana lateral é fresada depois de torneado. O desenho de fabrico tem de indicar as duas fases.

1.2 Sequência operatória de maquinação

Antes de desenhar uma cota, o técnico decide a sequência operatória: por que ordem se fazem as operações, o que se maquina de cada vez que a peça é fixada. Isto tem impacto direto na cotagem, porque cada mudança de fixação introduz um novo erro possível.

  1. Identificar a matéria-prima (barra, chapa, bloco) e as suas dimensões brutas.
  2. Definir as superfícies de referência (datums) a partir das quais tudo se mede.
  3. Ordenar as operações: desbaste antes de acabamento, faces de referência antes das dependentes.
  4. Escolher o processo (torno, fresa, bancada) e o dispositivo de fixação para cada operação.
  5. Identificar as operações críticas (tolerância apertada, acabamento fino) e isolá-las no fim da sequência, quando a peça já não vai sofrer mais esforços de maquinação grosseira.

2. Croquis e desenho à mão livre

O croqui é um desenho técnico feito à mão livre, sem instrumentos de precisão nem escala rigorosa, mas que respeita as regras da representação técnica: proporções aproximadas, tipos de linha corretos, vistas normalizadas. É a primeira ferramenta de um técnico, usada para registar uma ideia no posto de trabalho, propor uma solução numa reunião ou levantar as cotas de uma peça existente.

2.1 Técnicas de desenho à mão livre

2.2 Croqui de levantamento vs croqui de proposta

Em ambos os casos, o croqui respeita as vistas normalizadas (não é uma perspetiva artística) e inclui, mesmo que a lápis, as cotas essenciais e uma indicação do material.

Um croqui bem feito tem sempre: vista de frente, vista de topo (ou de lado, conforme o que for mais informativo), pelo menos as cotas gerais e as cotas funcionais, e uma nota de material. Sem isto, o croqui é um desenho artístico, não um documento técnico.

3. Vistas, cortes e secções de peças maquinadas

3.1 Escolher as vistas certas

A regra de ouro é: o mínimo de vistas que definem a peça sem ambiguidade. Para peças de revolução (torneadas), normalmente basta uma vista com a cotagem de diâmetros (prefixo Ø), porque a simetria em torno do eixo já está implícita. Para peças prismáticas (fresadas), são precisas tipicamente duas ou três vistas (frente, topo, e uma lateral se houver detalhe que as outras duas não mostrem).

3.2 Cortes para mostrar o interior

Um corte substitui as linhas escondidas (interpoladas) por linhas visíveis, "serrando" imaginariamente a peça e desenhando o que ficaria à vista.

Tipo de corte Uso típico em peças maquinadas
Corte total casquilhos e buchas com furo passante, para mostrar o furo todo
Meio corte peças de revolução simétricas: metade em corte, metade em vista exterior
Corte local (parcial) mostrar só um furo ou rasgo, sem cortar a peça toda
Secção rebatida mostrar o perfil de uma ranhura ou chaveta, rodada 90° sobre a própria vista

A hachura (traços finos inclinados a 45°) identifica o material cortado; em peças de conjunto, cada componente tem a hachura em ângulo ou espaçamento diferente para se distinguir.

O casquilho guia desenha-se quase sempre em corte total: sem o corte, o furo interior Ø25 H7 ficaria representado só por linhas interrompidas, e a cotagem do furo ficaria confusa. Com o corte, o diâmetro exterior, o furo, os chanfros de entrada e a flange aparecem todos em linhas visíveis, na mesma vista.

3.3 Secções

Uma secção mostra só o corte em si, sem o resto da peça atrás. Usa-se para perfis que se repetem (uma nervura, um rasgo de chaveta) sem ter de repetir a peça inteira. As secções desenham-se junto da vista, ligadas por uma linha de eixo, ou "rebatidas" sobre a própria vista quando o perfil é simples.

4. Cotagem nominal e cotagem de fabrico

4.1 Cotagem nominal

A cota nominal é o valor teórico da medida, sem tolerância explícita: Ø25, 120, R3. Descreve a geometria da peça acabada. É o ponto de partida, mas sozinha não diz ao operador quanto pode variar na prática.

4.2 Cotagem de fabrico

A cotagem de fabrico acrescenta à cota nominal tudo o que o operador precisa para produzir e verificar a peça na sequência correta:

Princípios que não mudam em relação ao desenho técnico geral, mas que aqui ganham peso porque há várias fixações em jogo:

No veio guia, a cota crítica é o comprimento da secção de guiamento Ø25, medida a partir do encosto da flange (a face que vai assentar na placa do molde), não a partir da ponta chanfrada do outro lado. É essa face de encosto que define a posição funcional do veio quando montado; cotar a partir da ponta introduziria erro adicional (a cota do chanfro) numa medida que devia ser direta.

5. Toleranciamento dimensional e ajustamentos (ISO 286)

Nenhuma máquina produz uma cota exata. O toleranciamento define a gama de valores aceitáveis para cada cota, de forma a que a peça funcione mesmo com a variação inevitável do fabrico.

5.1 Notação

5.2 O sistema ISO 286

Cada tolerância ISO combina uma letra (posição do campo de tolerância) e um número (grau de tolerância, ou qualidade):

Valores normalizados de amplitude de tolerância (em micrómetros, µm), pela tabela ISO 286-1:

Gama de diâmetros IT6 IT7
18 a 30 mm 13 21
30 a 50 mm 16 25
80 a 120 mm 22 35

5.3 Calcular um ajustamento com folga: Ø25 H7/g6

O veio guia (Ø25 g6) monta dentro do furo do casquilho (Ø25 H7). Para o diâmetro 25 mm (gama 18 a 30 mm), a norma dá:

Folga máxima = cota máxima do furo − cota mínima do veio = 25,021 − 24,980 = 0,041 mm. Folga mínima = cota mínima do furo − cota máxima do veio = 25,000 − 24,993 = 0,007 mm.

É um ajustamento com folga garantida: o veio desliza sempre dentro do casquilho, entre 7 e 41 micrómetros de jogo, suficiente para o guiamento do molde sem travar.

5.4 Calcular um ajustamento com aperto: Ø40 H7/p6

O casquilho (Ø40 exterior, em p6) é prensado no furo da placa do molde (Ø40 H7), para não rodar nem sair durante o funcionamento. Para 40 mm (gama 30 a 50 mm):

Aperto máximo = cota máxima do veio − cota mínima do furo = 40,042 − 40,000 = 0,042 mm. Aperto mínimo = cota mínima do veio − cota máxima do furo = 40,026 − 40,025 = 0,001 mm.

Como o valor mínimo já é positivo, é um ajustamento com aperto garantido (nunca há folga): o casquilho fica fixo por interferência, sem precisar de mais nenhum elemento de fixação.

5.5 Ajustamentos de referência

Ajustamento Tipo Uso típico em conjuntos guiados
H7/g6 folga pequena veio guia dentro do casquilho, movimento livre
H7/h6 folga teoricamente nula centragem sem jogo, sem aperto
H7/k6, H7/m6 transição localização com jogo mínimo ou aperto mínimo
H7/p6, H7/s6 aperto casquilhos e buchas fixos por interferência

Tolerância geral (ISO 2768-m): todas as cotas sem tolerância específica seguem a nota no cartouche, por exemplo "Cotas sem tolerância indicada: ISO 2768-m", evitando ter de tolerar individualmente cada cota não crítica.

6. Estado das arestas e acabamento superficial

6.1 Estado das arestas

Toda a aresta resultante de arranque de apara sai com rebarba (uma lâmina fina de material deslocado). Uma aresta viva (não tratada) corta a pele de quem manuseia a peça e pode lascar ou danificar componentes ao montar. O desenho de fabrico tem de dizer o que fazer a cada aresta:

Quando não vale a pena cotar cada aresta individualmente, usa-se uma nota geral, por exemplo: "Arestas não cotadas: quebrar 0,3 × 45°". É a norma ISO 13715 que trata especificamente da indicação de arestas sem cota definida; na prática do dia a dia da oficina, a nota geral do cartouche resolve a maioria dos casos.

Uma rebarba esquecida num furo de guiamento é o erro mais caro desta UC: o veio guia entra à força, risca o furo H7 do casquilho, e o ajustamento calculado com todo o rigor deixa de valer. Chanfrar sempre a entrada de furos de precisão.

6.2 Acabamento superficial (rugosidade, ISO 1302)

O acabamento superficial mede-se pelo parâmetro Ra (rugosidade média, em micrómetros), e indica-se no desenho com o símbolo normalizado da ISO 1302: um ângulo aberto (semelhante a uma raiz quadrada) junto da superfície, com o valor de Ra a seguir.

Operação Ra típico (µm)
Torneamento de desbaste 6,3 a 12,5
Torneamento de acabamento 1,6 a 3,2
Fresagem de desbaste 6,3 a 12,5
Fresagem de acabamento 1,6 a 3,2
Retificação 0,2 a 0,8

Onde especificar Ra: só nas superfícies funcionais, aquelas que deslizam, vedam ou encostam a outra peça. Uma superfície sem função de contacto fica com a rugosidade que resulta naturalmente da operação, sem necessidade de valor imposto (Ra mais apertado encarece a peça).

No conjunto de guiamento: o diâmetro de deslize Ø25 do veio guia e o furo Ø25 do casquilho levam Ra 0,8 (acabamento fino, quase de retificação), porque deslizam um no outro milhares de vezes por vida útil do molde. A face de encosto da flange, que só aperta contra a placa, fica em Ra 3,2 (torneamento de acabamento normal). Não há razão para gastar tempo de máquina a apurar uma superfície que não desliza nem veda.

7. Simbologia, anotações e informações auxiliares do arranque de apara

Chama-se informações auxiliares a tudo o que, no desenho de fabrico, não é geometria nem cota, mas que o operador precisa para produzir e verificar a peça: simbologia de rosca e de furos, notas de tratamento e revestimento, indicação de operações, e a tolerância geral.

7.1 Roscas e furos

7.2 Notas de tratamento

7.3 Anotações do processo de arranque de apara

O desenho de fabrico regista ainda, quando relevante, indicações diretamente ligadas ao processo:

8. Legendas, balões de identificação e lista de peças

8.1 Desenho de definição vs desenho de conjunto

8.2 Balões de identificação

No desenho de conjunto, cada peça recebe um balão (um círculo com um número), ligado à peça por uma linha fina. O número do balão corresponde ao item na lista de peças. Regras práticas:

8.3 Lista de peças

A lista de peças (ou lista de materiais) acompanha o desenho de conjunto, normalmente no canto superior direito ou em folha própria:

Item Designação Quantidade Material Observações
1 Veio guia 2 C45 cementar e temperar HRC 58-62
2 Casquilho guia 2 C45 temperar HRC 55-60, furo retificado
3 Placa de fixação 1 S235 furos H7 para os casquilhos

Cada linha liga-se a um balão do desenho de conjunto e, quando aplicável, a um desenho de definição próprio.

8.4 Cartouche

O cartouche (caixa de legenda, geralmente no canto inferior direito) reúne o que identifica o desenho: título da peça ou conjunto, número de desenho e revisão, escala, formato, sistema de projeção (1º ou 3º diedro), material, quantidade, tolerância geral, autor e datas. É a "carta de identidade" do desenho, indispensável tanto no desenho de definição como no de conjunto.

9. Torneamento: operações, sequência e ferramentas

9.1 Operações principais

Operação O que faz
Facejamento corta a face perpendicular ao eixo, define o comprimento
Cilindragem exterior reduz o diâmetro exterior ao longo do eixo
Mandrilagem interior aumenta ou acaba um furo já existente, com precisão
Furação (no torno) abre um furo centrado no eixo, com broca no cabeçote móvel
Roscamento corta uma rosca exterior ou interior, com buril de perfil ou macho
Sangramento (corte) separa a peça da barra, ou abre uma ranhura estreita
Chanfragem corta um plano inclinado numa aresta
Moletagem imprime um relevo na superfície, para aderência ao toque

9.2 Ferramentas de torneamento

As ferramentas de torno (buris) têm uma pastilha de metal duro (ou aço rápido, em produção pequena) fixada num porta-ferramentas. Cada operação tem geometria própria: buril de desbaste (ângulo robusto, avanço grosso), buril de acabamento (ponta fina, avanço reduzido), buril de roscar (perfil igual ao passo da rosca), buril de sangrar (lâmina estreita).

9.3 Exemplo resolvido: sequência operatória do veio guia

Peça: veio guia Ø25 g6 × 120 mm de comprimento útil, com flange Ø35 × 8 mm num dos extremos, chanfros 1×45° nas duas pontas, material C45.

  1. Serrar a barra bruta de Ø40 com sobremedida (cerca de 125 mm).
  2. Fixar na bucha de três grampos pelo lado da flange.
  3. Facejar o topo livre, à cota final de comprimento.
  4. Cilindrar o diâmetro Ø25 de desbaste (com sobremedida de acabamento, ex.: Ø25,3) ao longo do comprimento útil.
  5. Cilindrar a flange Ø35 até ao encosto.
  6. Chanfrar a extremidade livre, 1×45°.
  7. Inverter a peça (mudar de fixação), facejar ao comprimento total e chanfrar a segunda extremidade.
  8. Cilindrar de acabamento o Ø25 até à cota final g6, com passagem fina.
  9. Retificar (se o tratamento térmico assim exigir) para garantir a tolerância e o Ra 0,8 finais.

Cada mudança de fixação (passo 7) é um ponto de atenção: a face de referência tem de estar já feita antes de se cotar a partir dela.

10. Fresagem: operações, sequência e ferramentas

10.1 Operações principais

Operação O que faz
Fresagem frontal aplaina uma face larga, com fresa de topo de faces múltiplas
Fresagem tangencial corta com a periferia da fresa, faces laterais e ranhuras
Fresagem de ranhuras abre rasgos (chavetas, guias) com fresa de disco ou de topo
Furação e mandrilagem fura e acaba furos fora do eixo de simetria, com precisão de posição

10.2 Ferramentas de fresagem e dispositivos de aperto

Fresas de topo (desbaste e acabamento), fresas de disco (ranhuras largas), brocas e mandris (furos precisos). A peça fixa-se em morsa de máquina, sobre calços paralelos, ou aparafusada diretamente à mesa com grampos em T; peças cilíndricas usam-se em prisma em V ou num mandril divisor quando é preciso posicionar furos angularmente.

10.3 Exemplo resolvido: sequência operatória da placa de fixação

Peça: placa 100 × 60 × 15 mm, aço S235, com furo Ø40 H7 para o casquilho e 4 furos M6 de fixação.

  1. Serrar o bloco em bruto com sobremedida em todas as faces.
  2. Fixar em morsa, sobre calços paralelos, com a face de referência (a mais plana) para baixo.
  3. Fresar a face superior (fresagem frontal), à cota de espessura de desbaste.
  4. Inverter, fresar a face inferior de encosto até à espessura final de 15 mm.
  5. Traçar (ou programar em CNC) o centro do furo Ø40 e os quatro furos M6, a partir das duas faces de referência laterais.
  6. Furar o furo central com broca de menor diâmetro, depois mandrilar a Ø40 H7.
  7. Furar e roscar os quatro M6, com macho de bancada ou na própria fresadora.
  8. Chanfrar todas as arestas vivas e verificar as cotas com paquímetro e calibre-tampão.

11. Traçagem e trabalhos de bancada

11.1 Traçagem

Traçar é marcar na peça em bruto, com riscos e pontos de granete, as linhas que orientam a maquinação: eixos, contornos, centros de furos. Ferramentas: mármore (mesa de referência plana), riscador, esquadro de traçagem, compasso de bicos, calibre de altura (goniómetro de traçagem), granete (para marcar o centro dos furos antes de furar, evitando que a broca fuja).

A traçagem de vistas, cortes e secções aplica-se sobretudo em peças únicas ou pequenas séries, quando não compensa programar uma máquina CNC: o técnico traça diretamente sobre o bruto as linhas correspondentes às vistas do desenho, para guiar o corte manual ou em máquina convencional.

11.2 Trabalhos de bancada

Operações manuais de acabamento e ajuste, feitas fora da máquina: limar (acertar uma face ou aresta), furar com berbequim de bancada, roscar à mão (macho para roscas interiores, cossinete para roscas exteriores), rebarbar (remover arestas vivas com lima ou escova), raspar e ajustar superfícies de encosto de precisão. São operações lentas mas indispensáveis quando a tolerância exige um acerto fino que a máquina, sozinha, não garante.

12. Máquina-ferramenta, dispositivos de aperto e manutenção preventiva

12.1 A máquina-ferramenta

12.2 Dispositivos de aperto

Dispositivo Usa-se em Fixa
Bucha de 3 ou 4 grampos torno peças de revolução
Pinça torno, fresadora peças cilíndricas de precisão, pequeno diâmetro
Contraponto torno extremidade livre de veios compridos
Morsa de máquina fresadora blocos e chapas
Placa magnética fresadora, retificadora peças ferrosas, faces planas
Grampos em T fresadora peças de forma irregular, diretamente na mesa

A escolha do dispositivo certo evita vibração (que degrada o acabamento) e deformação da peça por aperto excessivo, sobretudo em paredes finas.

12.3 Manutenção preventiva

Um plano de manutenção preventiva típico de uma máquina-ferramenta inclui:

A manutenção preventiva não substitui a corretiva quando há avaria, mas reduz drasticamente a sua frequência e evita que um desgaste pequeno arruíne uma série inteira de peças.

13. Controlo dimensional e segurança no trabalho

13.1 Controlo dimensional e de acabamento

Verificar a peça contra o desenho de fabrico, não contra a intuição:

A verificação faz-se sempre com a máquina parada, nunca com a peça em rotação.

13.2 Normas de segurança e saúde no trabalho

O acidente mais comum em torno e fresadora não é o corte pela ferramenta, é o arrastamento: mangas soltas, luvas ou cabelo apanhados pela peça ou pelo mandril em rotação. A regra "nada solto perto do que roda" vale mais do que qualquer EPI.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Um desenho de fabrico por arranque de apara nasce de um croqui que já respeita as regras técnicas, resolve-se em vistas, cortes e secções que mostram a peça sem ambiguidade, cota-se com cotagem de fabrico a partir das referências reais de maquinação, aplica tolerâncias ISO 286 apenas onde a função o exige, especifica o estado das arestas e o acabamento superficial (ISO 1302) por superfície, e reúne toda a simbologia e informação auxiliar do processo. Quando a peça faz parte de um conjunto, o desenho de conjunto organiza-se com balões e lista de peças. Por trás de cada cota está uma operação real de torneamento, fresagem, traçagem ou bancada, feita numa máquina-ferramenta mantida em condições, verificada com os instrumentos certos, e sempre sob as normas de segurança.

Exercícios resolvidos

1. Um veio Ø25 g6 vai montar num furo Ø25 H7. Calcula a folga máxima e mínima do ajustamento.

Resolução: furo H7 (gama 18-30 mm, IT7 = 21 µm): Ø25 ⁺⁰·⁰²¹₀. Veio g6 (IT6 = 13 µm, es = −7 µm): Ø25 ⁻⁰·⁰⁰⁷₋₀,₀₂₀. Folga máxima = 25,021 − 24,980 = 0,041 mm. Folga mínima = 25,000 − 24,993 = 0,007 mm. É um ajustamento com folga garantida.

2. Porque é que a face de encosto da flange, e não a ponta chanfrada, é a referência para cotar o comprimento útil do veio guia?

Resolução: a face de encosto é a que define a posição funcional do veio quando montado na placa do molde; é uma face estável, obtida cedo na sequência operatória. Cotar a partir da ponta chanfrada obrigaria a somar a cota do chanfro à medida, introduzindo um erro adicional numa cota que devia ser direta e funcional.

3. Que estado de superfície (Ra) atribuis à face de encosto de uma flange que só aperta contra uma placa, sem deslizar? E ao diâmetro que desliza dentro de um casquilho?

Resolução: a face de encosto, sem função de deslizamento, fica em Ra 3,2 (torneamento de acabamento normal). O diâmetro de deslize leva Ra 0,8 (acabamento fino), porque a rugosidade grosseira acelera o desgaste por atrito repetido. Especificar Ra 0,8 na face de encosto seria desperdício de tempo de máquina.

4. Um desenho mostra 6 peças montadas, com balões de 1 a 6 e uma tabela ao lado. Que tipo de desenho é este e o que deve (e não deve) conter?

Resolução: é um desenho de conjunto. Deve conter a posição relativa das peças montadas, os balões numerados ligados à lista de peças, e cotas gerais de encómbrio ou de montagem. Não deve conter a cotagem de fabrico detalhada de cada peça (tolerâncias, acabamentos): essa informação pertence ao desenho de definição de cada peça.

5. Um furo Ø40 H7 vai receber um casquilho Ø40 p6, para ficar fixo por interferência. Confirma que o ajustamento garante sempre aperto e calcula os valores extremos.

Resolução: furo H7 (gama 30-50 mm, IT7 = 25 µm): Ø40 ⁺⁰·⁰²⁵₀. Veio p6 (IT6 = 16 µm, ei = +26 µm): Ø40 ⁺⁰·⁰⁴²₊₀,₀₂₆. Aperto máximo = 40,042 − 40,000 = 0,042 mm. Aperto mínimo = 40,026 − 40,025 = 0,001 mm. Como o valor mínimo já é positivo, há sempre interferência: o ajustamento é de aperto garantido, adequado a uma peça que não pode rodar nem sair.

6. Um operador vai furar um bloco em bruto sem referência marcada. Que operações de traçagem e de bancada preparam o furo antes de ligar o berbequim?

Resolução: primeiro traça-se o centro do furo a partir das faces de referência, com riscador, esquadro de traçagem e compasso de bicos, marcando o cruzamento dos eixos. Depois marca-se um ponto de granete exatamente nesse cruzamento, para a broca "pegar" logo no sítio certo e não fugir com o primeiro contacto. Só então se fura.