Partilhar: WhatsApp
aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC02877

Desenho de peças e componentes mecânicos

Vistas ortogonais, cotagem, tolerâncias, ler e produzir desenho técnico
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Mecatrónica ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

O desenho técnico é a língua franca da engenharia mecânica. Sem ele, ninguém saberia que peça fazer, com que tolerâncias, em que material. Esta UC ensina a ler (saber o que outros desenharam) e a produzir (comunicar o que tu desenhas) com rigor.

Normas em PT/UE: ISO 128 (linhas), ISO 129 (cotagem), ISO 1101 (GD&T), ISO 286 (tolerâncias), ISO 1302 (rugosidade), ISO 5455-5456 (escalas e formatos).

1. Para que serve

1.1 A factura técnica

Toda a cadeia de produção depende do desenho: - Quem desenha (designer/engenheiro) — define função e forma. - Quem encomenda (compras) — usa o desenho para pedir orçamento. - Quem produz (operador, programador CNC) — segue o desenho. - Quem mede (qualidade) — verifica contra o desenho. - Quem monta (técnico) — interpreta dimensões e tolerâncias. - Quem mantém (manutenção) — encontra peça de substituição.

Sem desenho normalizado: ambiguidade → peça errada → custos.

1.2 Conteúdo mínimo de um desenho

  1. Vistas suficientes para definir a peça.
  2. Cotagem completa, sem repetições.
  3. Tolerâncias dimensionais e geométricas (onde importa).
  4. Estado de superfície (Ra).
  5. Material e tratamentos (térmicos, revestimentos).
  6. Escala.
  7. Quantidade.
  8. Caixa de legenda (cartouche) com nº peça, autor, data, revisão.
  9. Notas específicas.

Falta um? Quem produz adivinha. Adivinhação custa dinheiro.

2. Formatos, escalas, linhas

2.1 Formatos ISO 216

Formato mm Uso
A0 841 × 1189 Conjuntos grandes
A1 594 × 841 Conjuntos médios
A2 420 × 594 Peças grandes
A3 297 × 420 Peças médias
A4 210 × 297 Peças pequenas, detalhe

Cada formato tem margem + cartouche padrão.

2.2 Escalas (ISO 5455)

Anotar uma escala principal; detalhes com escala diferente são marcados (DETALHE A, esc. 5:1).

2.3 Linhas (ISO 128)

Tipo Espessura Significado
Contínua grossa 0,5-0,7 mm Arestas visíveis
Contínua fina 0,25-0,35 mm Cotas, linhas auxiliares
Tracejada 0,25-0,35 mm Arestas escondidas
Mista fina (traço-ponto) 0,25-0,35 mm Eixos, simetria, trajectórias
Mista grossa 0,5-0,7 mm Limite de cortes, superfícies tratamento
Ziguezague / livre 0,25 mm Limites de rompimento

2.4 Letras e números

Altura mínima: - Cotas, notas: 2,5 mm em A3/A4; 3,5 mm em A2/A1. - Títulos: 5-7 mm.

Fonte sem serifa, regular, vertical (não inclinada).

3. Projecções ortogonais

3.1 1º diedro (Europa)

A peça entre observador e plano de projecção. Vistas dispostas:

                  VISTA SUPERIOR
                       ↓
      VISTA LATERAL ← FRONTAL → VISTA LATERAL
        ESQUERDA                 DIREITA
                       ↓
                  VISTA INFERIOR (raro)

                  VISTA POSTERIOR (raro)

A vista lateral esquerda fica à direita da frontal (porque está vista "do outro lado").

3.2 3º diedro (EUA)

Plano entre observador e peça. Vistas trocadas em posição.

Símbolo do cartouche indica qual: - 1º diedro: símbolo de cone com base à esquerda. - 3º diedro: símbolo de cone com base à direita.

3.3 Quantas vistas

Princípio: mínimo que define a peça sem ambiguidade. Vistas redundantes confundem.

3.4 Vistas auxiliares

Para faces inclinadas, a vista normal pode distorcer. Vista auxiliar = projecção perpendicular à face inclinada, mostrando-a no seu verdadeiro tamanho.

4. Cortes e secções

4.1 Necessidade

Quando a peça tem interior (furos, cavidades, encaixes), o tracejado torna-se confuso. Solução: cortar virtualmente a peça e mostrar a "fatia".

4.2 Tipos

4.3 Hachura (ISO 128-50)

4.4 Convenções importantes

5. Cotagem (ISO 129)

5.1 Princípios

5.2 Anatomia

texto
     |
─────|─────  ← linha de cota (fina contínua)
     |     |
     |     |  ← linhas auxiliares (finas contínuas, ~2 mm além)
     |     |  ← setas a 30°

5.3 Tipos de cota

5.4 Cotagem funcional vs construtiva

Funcional — a partir de superfícies importantes (apoios, eixos). Define como a peça se relaciona com outras.

Construtiva — a partir de superfícies usadas como referência durante fabrico (face fixada na máquina).

Auxiliar — todas as outras.

Boa prática: priorizar cotagem funcional.

5.5 Cotagem em cadeia vs em paralelo

CADEIA: |--20--|--30--|--15--|--25--|--10--|
        cumulação de tolerâncias

PARALELO: |--20----|
          |--50----------|
          |--65----------------|
          |--90----------------------|
          melhor — tolerância controlada

6. Tolerâncias dimensionais (ISO 286)

6.1 Notação

6.2 Sistema ISO 286

Letra = posição do campo de tolerância em relação à cota nominal. - Maiúscula → furo (A, B, ... H, ... ZC). - Minúscula → veio (a, b, ... h, ... zc). - H e h = sem afastamento (campo começa na cota nominal).

Número = grau de tolerância (qualidade): IT01 a IT16. Quanto menor, mais apertado. - IT5 — muito apertado (joalharia, instrumentos). - IT6-IT7 — mecânica de precisão. - IT8-IT9 — mecânica geral. - IT10-IT12 — mecânica grosseira.

6.3 Tabelas ISO

Para Ø 20, IT7 dá tolerância de 21 µm (0,021 mm).

Para Ø 100, IT7 dá tolerância de 35 µm.

Tolerância aumenta com o diâmetro porque é mais difícil maquinar a precisão constante em peças grandes.

6.4 Ajustamentos comuns

Furo H7 é a referência mais usada — a maior parte dos ajustamentos parte daqui.

6.5 Cota crítica vs cota geral

Indicar tolerância geral no cartouche evita cotar tudo individualmente:

"Todas as cotas sem tolerância indicada: ISO 2768-m"

7. Estado de superfície (rugosidade)

7.1 Símbolo

ISO 1302:

   /‾‾‾\
  /    /
 /____/
        Ra X    (X em µm)

7.2 Tipos de superfície

ISO 1302 simplificou para símbolo único + valor de Ra numérico (e Rz se necessário).

7.3 Valores típicos por operação

Operação Ra (µm)
Fundição em areia 12-25
Maquinado grosso (desbaste) 6,3-12,5
Maquinado normal 1,6-6,3
Maquinado fino (acabamento) 0,4-1,6
Rectificado 0,1-0,4
Polido / lapidado < 0,1

7.4 Onde aplicar

Cada Ra mais fino encarece a peça exponencialmente. Só especificar onde importa.

8. Tolerâncias geométricas (GD&T, ISO 1101)

8.1 Categorias

8.2 Anatomia do quadro

 ┌────┬──────┬───┬───┬───┐
 │ ⊥  │ 0.05 │ A │   │   │
 └────┴──────┴───┴───┴───┘
  símbolo  tolerância  datums

⊥ 0.05 A → Perpendicular ao datum A com tolerância 0.05 mm

8.3 Datums

Datum = referência. Indicado por triângulo preenchido + letra (A, B, C...) na face/aresta/eixo.

Hierarquia: datum primário (A), secundário (B), terciário (C). Ordem importa.

8.4 Exemplo prático

Veio com diâmetro Ø 20 h6 e batimento radial 0,01 mm em relação ao eixo do datum A:

            ↓ Ø20 h6
   ───────────────────
   ┌────┬──────┬───┐
   │ ⌖  │ 0.01 │ A │
   └────┴──────┴───┘

Significado: ao rodar o veio sobre A, a leitura do comparador na superfície Ø 20 não pode variar mais que 0,01 mm.

9. Símbolos e indicações especiais

9.1 Roscas

Símbolos: - Rosca exterior (parafuso): 2 linhas, externa grossa, interna fina. - Rosca interior (furo): 2 círculos no topo, externo fino, interno grosso.

9.2 Furos

9.3 Tratamentos

Indicado em nota com hachura especial na zona afectada.

9.4 Revestimentos

10. Cartouche (caixa de legenda)

Geralmente no canto inferior direito. Contém:

Cartouche é a identidade do desenho.

11. Como ler um desenho

Sequência sugerida:

  1. Cartouche — peça, escala, formato, material, sistema de projecção, tolerâncias gerais.
  2. Vista principal — quantas + qual é a frontal.
  3. Imaginar a peça em 3D mentalmente.
  4. Cortes e secções — interior?
  5. Cotagem — funcional primeiro (eixos, apoios, furos críticos).
  6. Tolerâncias críticas — onde estão os H7/g6, onde a tolerância é apertada?
  7. Estado de superfície — onde Ra é fino?
  8. GD&T — quais os datums, que tolerâncias geométricas?
  9. Tratamentos e revestimentos — temperar? Pintar? Zincar?
  10. Notas — alertas, restrições.

Tempo médio para ler peça média: 5-10 min.

12. Como produzir um desenho

12.1 Em CAD (recomendado para esta UC)

Software comum: - AutoCAD — clássico 2D. - SolidWorks, Inventor, CATIA — 3D paramétrico com desenho 2D associado. - Fusion 360 — gratuito para estudantes/uso pessoal. - FreeCAD — open source.

Workflow: 1. Modelar peça em 3D. 2. Gerar desenho 2D a partir do modelo. 3. Adicionar vistas necessárias (frontal, superior, lateral, isométrica). 4. Cortes onde precisar. 5. Cotagem com ferramentas de CAD (auto + manual). 6. Tolerâncias ISO + GD&T. 7. Rugosidade. 8. Cartouche + notas. 9. Exportar PDF (impressão + arquivo).

12.2 À mão (saber faz parte)

Útil para esboços rápidos, em obra, formação. Princípios iguais; ferramentas: esquadros, compasso, régua T (em estirador), réguas paralelas.

12.3 Iteração

Bom desenho é iterado: - Versão 1: vistas + cotas básicas. - Versão 2: tolerâncias. - Versão 3: GD&T + Ra. - Versão 4: revisão por colega ou cliente.

Cada revisão ganha letra (R0, R1, R2) e mantém-se arquivo.

13. Erros frequentes a evitar

14. Liga a outras UCs

15. Conclusão

O desenho técnico disciplina o pensamento mecânico. Quem desenha bem produz bem; quem lê bem mede bem. As normas ISO existem para que a peça desenhada em Portugal possa ser produzida em Itália, medida na Alemanha e montada em Espanha — sem ambiguidade.

A maior parte do tempo desta UC vai para prática: ler 20-30 desenhos diferentes e produzir 10-15 próprios, com complexidade crescente.

Apêndice A · Cheatsheet rápida

LINHAS
─── grossa: aresta visível
- - tracejada: aresta escondida
─·─ mista fina: eixo, simetria

PROJECÇÃO 1º DIEDRO (Europa)
              SUPERIOR
   LATERAL←FRONTAL→LATERAL
              INFERIOR

COTAS
Ø 20 H7    furo, H7, +0.021/0
20 h6      veio, h6, 0/-0.013
Ø 8        diâmetro 8 mm
R 5        raio 5 mm
1×45°      chanfre

RUGOSIDADE
Ra 1.6     superfície maquinada normal
Ra 0.4     superfície rectificada

GD&T
⊥ 0.05 A   perpendicular a A com 0.05 mm
⫽ 0.02 A   paralelo a A com 0.02 mm
⌖ 0.01 A   batimento radial 0.01 mm

Apêndice B · Recursos