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UC · Unidade de Competência · UC02867

UC02867 · Manutenção mecânica

Rolamentos, transmissões, lubrificação, alinhamento
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Mecatrónica ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

A manutenção mecânica é a actividade que mantém os componentes mecânicos das máquinas industriais a funcionar de forma fiável: rolamentos, acoplamentos, correias, engrenagens, redutores, lubrificação, alinhamento.

É a alma do técnico de manutenção industrial — em muitas fábricas, 60-70% das paragens não programadas têm origem mecânica (rolamento partido, correia rebentada, desalinhamento, falta de lubrificação). Saber prevenir e diagnosticar estes problemas é o que distingue um bom técnico.

Esta unidade (50h, a mais longa do Bloco 4) cobre:


1. Filosofias de manutenção

1.1 Os 4 tipos

Manutenção correctiva (run-to-failure):

Manutenção preventiva (programada):

Manutenção preditiva (condicionada):

Manutenção proactiva:

1.2 Estratégia óptima

Indústria moderna combina todas:

Decisão caso a caso: criticidade, custo, disponibilidade de instrumentos, formação da equipa.

1.3 OEE e KPIs

OEE (Overall Equipment Effectiveness):

OEE = Disponibilidade × Desempenho × Qualidade

Exemplo:

Benchmarks:

Outros KPIs:


2. Rolamentos

2.1 Princípio e tipos

Rolamento = elemento mecânico que reduz atrito entre componentes em rotação. Substitui escorregamento por rolamento (elementos esféricos ou cilíndricos rolando entre pistas).

Componentes:

2.2 Tipos principais

Rolamentos de esferas (deep groove ball):

Rolamentos de rolos cilíndricos:

Rolamentos de rolos cónicos (tapered):

Rolamentos esféricos auto-alinhantes:

Rolamentos de agulhas:

Rolamentos axiais (de impulso):

2.3 Designação SKF / FAG / NSK

Código universal:

   6 2 0 8 - 2 R S
   │ │ │ │   │ │ │
   │ │ │ │   │ │ └── Material vedante (S=NBR, V=Viton)
   │ │ │ │   │ └──── Tipo (R=vedação contacto)
   │ │ │ │   └────── Número de vedantes (2 = ambos lados)
   │ │ │ └────────── Diâmetro interno = 8 × 5 = 40 mm
   │ │ └──────────── Série de largura (0=normal)
   │ └────────────── Série de diâmetro externo (2=série padrão)
   └──────────────── Tipo de rolamento (6=esferas rígidas)

Exemplo: 6208-2RS:

2.4 Vida útil — fórmula L10

Norma ISO 281:

L10 = (C/P)^p

Onde:

Em horas:

L10h = L10 × 10⁶ / (60 × n)
(n = rpm)

Exemplo prático:

(Pouco — talvez sobrecarregado. Aumentar dimensão ou reduzir carga.)

Em condições ideais (carga moderada, lubrificação correcta, alinhamento perfeito): 50 000-100 000 h (5-10 anos em uso contínuo).

2.5 Modos de falha

Modos clássicos:

Diagnóstico visual (após desmontar): observar pistas e elementos. Cada padrão indica causa diferente. Catálogos SKF têm guias visuais.

2.6 Montagem e substituição

Procedimento standard:

  1. Antes de qualquer intervenção: 5 regras de ouro (eléctrica + mecânica — bloquear todas as fontes de energia).

  2. Desmontagem do rolamento velho:

  3. Nunca martelar directamente no veio (deforma-o).
  4. Usar extractor de rolamentos (puller) — 2 ou 3 garras agarram pista externa, parafuso central puxa.
  5. Para rolamentos de difícil acesso: extractor hidráulico.
  6. Em casos extremos: cortar pista externa com rebarbadora (cuidado para não danificar o veio).

  7. Limpeza:

  8. Limpar assento do veio (zona onde encaixa o rolamento) com pano e solvente desengordurante.
  9. Limpar chumaceira (housing).
  10. Verificar se há danos (riscas, oval).

  11. Verificação dimensional:

  12. Medir Ø do veio com micrómetro (3 medições a 120°).
  13. Medir Ø da chumaceira com comparador interno.
  14. Comparar com tolerâncias do catálogo do rolamento.

  15. Preparação do rolamento novo:

  16. Aquecimento:
    • Forno indutivo (Solberg, SKF) — método profissional. 80-100 °C, ~3-5 min para rolamento médio.
    • Banho em óleo quente — alternativa para oficinas sem indutivo.
    • NUNCA usar maçarico (sobreaqueimento estraga aço, queima massa).
  17. Expansão térmica: Ø interno aumenta ~1 µm por mm de diâmetro por cada °C.

  18. Montagem:

  19. Aquecido, rolamento desliza facilmente no veio.
  20. Pressionar contra batente do veio até assentar (encosto firme).
  21. NUNCA martelar nas esferas (deforma pistas).
  22. Em montagens a frio (rolamentos pequenos): usar prensa hidráulica com tubo de pressão no anel interno.

  23. Lubrificação:

  24. Aplicar massa adequada (ver capítulo 4).
  25. Encher 30-50% do espaço livre (não mais — excesso provoca aquecimento).

  26. Verificação final:

  27. Rotação manual: deve ser suave, sem rangidos.
  28. Re-alinhar acoplamento se aplicável.
  29. Apertar pés do motor (binário do manual).

  30. Arranque controlado:

  31. Primeiro arranque sem carga.
  32. Verificar temperatura, vibração, ruído.
  33. Aceitar gradualmente carga normal.

3. Transmissões mecânicas

3.1 Acoplamentos

Ligam dois veios alinhados (motor + carga).

Acoplamento rígido:

Acoplamentos flexíveis:

3.2 Correias

Correia em V (V-belt):

Correia dentada (timing / synchronous belt):

Correia plana:

Manutenção de correias:

3.3 Engrenagens

Cilíndricas de dentes rectos:

Cilíndricas helicoidais:

Cónicas:

Sem-fim e roda:

3.4 Redutores

Componente combinando múltiplas engrenagens para obter redução elevada com elevada eficiência:

Tipos:

Fabricantes principais: SEW Eurodrive, Bonfiglioli, Nord Drivesystems, Lenze, Siemens.

Manutenção:


4. Lubrificação

4.1 Funções

A lubrificação serve 5 propósitos:

  1. Reduzir atrito entre superfícies em movimento relativo.
  2. Reduzir desgaste por contacto.
  3. Dissipar calor gerado pelo atrito.
  4. Vedar (impedir entrada de contaminantes).
  5. Proteger contra corrosão (água, ácidos).

Sem lubrificação adequada, rolamentos duram horas em vez de anos. Lubrificação é o factor único mais importante na vida útil dos componentes mecânicos.

4.2 Massas (graxas)

Composição: óleo base + espessante + aditivos.

Tipos por base (espessante):

Designação NLGI:

Marcas líder: Mobil, Shell, BP/Castrol, Total, Fuchs, Klüber (premium).

4.3 Óleos

Tipos por origem:

Viscosidades ISO VG (mesma escala que hidráulica):

ISO VG cSt @ 40°C Aplicações
32 32 Hidráulica leve, redutores rápidos pequenos
46 46 Hidráulica standard
68 68 Hidráulica pesada, redutores médios
100 100 Redutores normais
220 220 Redutores médios pesados
320 320 Engrenagens carregadas
460 460 Engrenagens muito carregadas
680 680 Engrenagens pesadas (siderurgia)

Aditivos comuns:

4.4 Métodos de aplicação

Lubrificação manual com pistola:

Lubrificação centralizada (automática):

Banho em óleo:

Pulverização (oil mist):

Rolamento selado (2RS):

4.5 Tabela de aplicação rápida

Aplicação Lubrificante típico
Rolamento rotor motor pequeno Massa lítio NLGI 2
Rolamento rotor motor grande Massa lítio-complexo NLGI 2/3
Rolamento de alta velocidade Massa poliureia NLGI 2
Rolamento húmido (bomba aquática) Massa cálcio NLGI 2
Redutor industrial standard Óleo ISO VG 220 mineral
Redutor pesado (siderurgia) Óleo ISO VG 460 sintético EP
Engrenagens abertas (grande) Massa grafitada
Corrente Óleo ISO VG 100 mineral
Caixa de velocidades automóvel Óleo ATF (Automatic Transmission Fluid)

4.6 Erros comuns


5. Alinhamento e balanceamento

5.1 Importância do alinhamento

Quando 2 veios são acoplados (motor-bomba, motor-redutor), devem ser coaxiais.

Desalinhamento causa:

Estima-se que 50% das falhas mecânicas industriais se devem a desalinhamento.

5.2 Tipos de desalinhamento

Paralelo (offset / parallel):

Angular:

Combinado (mais comum):

5.3 Tolerâncias

Tolerâncias industriais típicas (ANSI/ISO):

Velocidade Paralelo Angular
< 1000 rpm < 0,10 mm < 0,15 mm/m
1000-2000 rpm < 0,05 mm < 0,10 mm/m
2000-3000 rpm < 0,03 mm < 0,07 mm/m
> 3000 rpm < 0,02 mm < 0,05 mm/m

(Mais velocidade = mais exigente.)

5.4 Métodos de alinhamento

Régua + calços (método antigo):

Comparador relojério (rim & face):

Alinhamento a laser (moderno):

5.5 Procedimento de alinhamento (laser)

  1. Preparação:
  2. LOTO da máquina.
  3. Limpar zona dos pés do motor.
  4. Verificar bom encosto entre pés do motor e fundação.

  5. Montar cabeças laser: uma em cada veio (junto ao acoplamento).

  6. Medições iniciais:

  7. Rodar veios manualmente (mantendo acoplamento fechado).
  8. Software calcula valores actuais.

  9. Comparar com tolerâncias:

  10. Se OK: nada a fazer.
  11. Se não OK: software dá valores de calços.

  12. Ajustes:

  13. Afrouxar pés do motor.
  14. Adicionar/remover calços (shims) de espessura calculada (0,05; 0,1; 0,25; 0,5; 1 mm).
  15. Mover motor lateralmente conforme indicado.
  16. Apertar pés.

  17. Re-medir:

  18. Verificar valores actuais.
  19. Repetir ajustes até atingir tolerância.

  20. Aperto final (com chave dinamométrica, binário do manual).

  21. Documentar: valores antes/depois, calços usados.

5.6 Balanceamento de rotores

Rotor desbalanceado (massa não uniforme):

Tipos:

Procedimento de balanceamento:

Em laboratório:

Em campo (in situ):

Tolerâncias (norma ISO 21940-11):


6. Vibração e diagnóstico

6.1 Análise de vibração

Princípio: máquina em operação vibra com componentes nas frequências de:

Equipamento:

Análise FFT (Fast Fourier Transform):

6.2 Diagnóstico por padrões

Padrão no espectro Diagnóstico
Pico em 1× rotação Desequilíbrio do rotor
Picos em 1× e 2× rotação Desalinhamento
Picos em 2×, 3×, 4× rotação Folga mecânica (parafusos soltos, fundação)
Pico em 50 Hz Problema eléctrico (não vibração mecânica)
Picos em frequências do rolamento (BPFO, BPFI, BSF, FTF) Defeito em rolamento (pista exterior, interior, elemento, gaiola)
Pico em n_dentes × rpm Problema de engrenagem (dente partido, desgaste)
Banda larga (sem picos específicos) Lubrificação inadequada, contaminação

6.3 Frequências características de rolamentos

Para rolamento com:

BPFO (Ball Pass Frequency Outer)  = (n_b / 2) × (1 − (d/D) × cos α) × RPM/60
BPFI (Ball Pass Frequency Inner)  = (n_b / 2) × (1 + (d/D) × cos α) × RPM/60
BSF  (Ball Spin Frequency)        = (D / 2d) × (1 − (d/D)² × cos²α) × RPM/60
FTF  (Fundamental Train Frequency)= (1/2)   × (1 − (d/D) × cos α) × RPM/60

Software calcula automaticamente se o utilizador inserir os parâmetros do rolamento (catálogo SKF, FAG, etc.).

Pico no espectro a uma destas frequências → defeito identificado no componente correspondente.

6.4 Outros métodos

Termografia:

Análise de óleo:

Ruído (ultrassom):

Endoscopia (boroscópio):

6.5 Programa de manutenção preditiva

Implementação típica:

  1. Identificar equipamentos críticos (~20% mais importantes).
  2. Definir baselines (medições iniciais em estado bom).
  3. Plano de medições:
  4. Vibração: mensal a trimestral.
  5. Termografia: trimestral a semestral.
  6. Análise de óleo: trimestral.
  7. Alertas automáticos quando valores excedem limites.
  8. Tendências ao longo do tempo (gráficos).
  9. Intervenção planeada quando degradação significativa detectada.

Software:

Investimento inicial: 20-100 000 € (equipamentos + software + formação). ROI: tipicamente 6-18 meses (avarias evitadas + paragens reduzidas).


7. Ferramentas e instrumentos

7.1 Ferramentas básicas

Chaves:

Extractores:

Prensa hidráulica:

Forno indutivo:

Banho de óleo aquecido:

7.2 Instrumentos de medição

7.3 Software CMMS

Computerized Maintenance Management System:

Funcionalidades essenciais:

Opções:

Implementação: 6-12 meses, com formação extensiva. Resistência cultural inicial é normal — mas após adoptado é indispensável.


8. Procedimentos e segurança

8.1 LOTO (Lockout/Tagout)

Standard internacional (OSHA 1910.147 nos EUA; em Portugal exigido pelo Código do Trabalho):

Procedimento em 6 passos:

  1. Preparação: identificar todas as fontes de energia (eléctrica, pneumática, hidráulica, mecânica armazenada, térmica).

  2. Notificação: avisar operadores e supervisão.

  3. Shutdown: parar máquina por procedimento normal.

  4. Isolamento: cortar todas as fontes de energia (interruptores, válvulas, etc.).

  5. Lockout/Tagout:

  6. Colocar cadeado pessoal em cada ponto de isolamento.
  7. Etiqueta com identificação, data, motivo.
  8. Cada técnico tem a sua chave — ninguém remove cadeado alheio.

  9. Verificação: tentar accionar máquina (em vão) para confirmar isolamento total.

Após o trabalho:

Sem LOTO = causa #1 de fatalidades em manutenção industrial. Acidentes incluem: arranque inadvertido enquanto técnico está dentro da máquina (esmagamento), liberação de energia armazenada (mola, ar comprimido), choque eléctrico.

8.2 EPI específico mecânico

8.3 Procedimentos de trabalho

Cada tarefa de manutenção deve ter:

  1. Procedimento escrito: passos numerados, EPI necessário, ferramentas, peças.
  2. Análise de riscos específica (Job Safety Analysis — JSA).
  3. Permit-to-work em tarefas perigosas (alta tensão, espaços confinados, fogo).
  4. Comunicação entre técnicos durante tarefas a vários.

Tarefas críticas exigem:

8.4 Documentação

Cada intervenção gera:

Em CMMS, tudo digital, rastreável, e disponível para análise estatística (KPIs).


Apêndice A · Tabela de aperto de parafusos

Binário recomendado (Nm) para parafusos M-x classe 8.8 (aço médio resistência):

Tamanho Binário (Nm)
M4 3
M5 6
M6 10
M8 25
M10 50
M12 86
M16 210
M20 410
M24 710

(Aplicar 80% destes valores em ligações críticas com lubrificação anti-seize.)


Apêndice B · Sintomas e diagnóstico rápido

Sintoma Causa provável
Ruído metálico ritmado Rolamento partido
Ruído de roçagem Vedante a tocar parte rotativa
Vibração elevada Desbalanceamento, desalinhamento, folga
Sobreaquecimento mancal Lubrificação inadequada (falta ou excesso); carga excessiva; rolamento partido
Óleo escuro/queimado Sobreaquecimento histórico
Folga axial excessiva Pré-carga perdida; rolamento gasto
Correia rebenta com frequência Polias desalinhadas; tensão errada; vibração excessiva
Acoplamento parte Desalinhamento grave; sobrecarga; vibração

Apêndice C · Glossário


Apêndice D · Recursos