Circuitos electromecânicos
Introdução
Esta UC é o coração da automação clássica industrial — montar, ler e diagnosticar circuitos que combinam componentes electromecânicos (relés, contactores, botoeiras, sensores) para controlar máquinas (especialmente motores). Apesar dos PLCs terem substituído a lógica de relés discreta em muitas aplicações, comando físico de potência continua a usar contactores; e em manutenção encontram-se ainda hoje milhões de circuitos com lógica electromecânica.
Pré-requisitos: UC02864 (Segurança), UC02924-UC02925 (CC/CA), UC02928 (Desenho).
1. Componentes electromecânicos
1.1 Família
| Componente | Função | Tensão típica |
|---|---|---|
| Relé | Interruptor accionado por bobina; cargas pequenas | 5-24V DC, 230V AC |
| Contactor | Relé robusto para potência (motores) | Bobina 24V DC ou 230V AC |
| Relé térmico | Protecção sobrecarga de motor | Calibrado à I nominal motor |
| Disjuntor magnetotérmico | Protecção curto-circuito + sobrecarga | Calibre = corrente protegida |
| Botoeira | Comando manual NO/NC | 24V ou 230V (comando) |
| Sinalização (lâmpada) | Feedback visual | 24V DC ou 230V AC |
| Sensor / fim-de-curso | Detecção física | 24V típico |
| Relé temporizador | Conta tempo | 24V/230V |
| Relé contador | Conta eventos | 24V/230V |
1.2 História e evolução
1900-1980: indústria controlada por lógica de relés — milhares de relés ligados em armários enormes. Edifícios inteiros para sistemas Ferrovia, telefonia.
1968+: PLC inventado (General Motors) — substitui lógica discreta por programação. Mais compacto, flexível, manutível.
Hoje: comando de motores (potência real) continua a usar contactores — é a forma fiável de comutar centenas de amperes. Mas a lógica vive no PLC.
Em manutenção encontras: - Máquinas novas: PLC + contactores. - Máquinas antigas: lógica de relés/contactores puramente electromecânica. - Híbridos: PLC controlando contactores, mas com lógica de segurança em paralelo cablada.
2. Relés
2.1 Estrutura
Bobina (entrada de comando)
│
─⏠─
│
Contactos:
NO (Normally Open)
NC (Normally Closed)
SPDT (1 entrada, 2 saídas; alterna)
DPDT (dupla)
Quando a bobina é energizada (corrente passa), o electroíman puxa armadura que muda o estado dos contactos: - NO fecha (passa a conduzir). - NC abre (deixa de conduzir).
2.2 Tipos
- Sub-miniatura — placa PCB; 1-2 A.
- Industrial socketed — base soquete; 5-15 A; substituível rapidamente.
- Relé de potência — 20-40 A.
- Relé estado sólido (SSR) — sem partes móveis; semicondutores; comutação silenciosa e rápida.
- Reed — contacto em ampola de vidro; raro hoje.
- Latching (biestable) — mantém estado após pulso (sem corrente contínua na bobina).
2.3 Especificações
- Tensão da bobina: 5V, 12V, 24V DC; 110V, 230V AC.
- Corrente nominal dos contactos: 1A, 5A, 10A, 16A, 30A.
- Tensão dos contactos: 24V DC, 250V AC, 380V AC.
- Vida: 100 000 a 10 milhões de operações.
Datasheet do fabricante (Finder, Schneider, Omron) tem tudo.
3. Contactores
3.1 Diferenças do relé
- Maior: cargas industriais (até centenas de amperes).
- Contactos principais (potência) + contactos auxiliares (comando).
- Bobina alimentada por comando 24V ou 230V.
- Mecânica robusta (10 milhões ciclos mecânicos).
- Selecção baseada em norma IEC 60947 com categorias de utilização.
3.2 Anatomia
Bobina A1-A2 (24V ou 230V)
│
─────⏠─────
│ │ │
1-2 3-4 5-6 Contactos principais (potência)
│ │ │
Contactos auxiliares:
13-14 (NO)
21-22 (NC)
Mais auxiliares por adição (LADN10, LADN20, etc.)
Numeração padronizada IEC 60947.
3.3 Categorias de utilização
| Categoria | Aplicação | Capacidade |
|---|---|---|
| AC1 | Cargas resistivas (aquecimento) | I_nominal |
| AC2 | Motores anel deslizante | Reduzida |
| AC3 | Motores assíncronos comutação normal | I_nominal motor |
| AC4 | Motores jogging, inversão, frequente | Reduzida 50% |
Exemplo: contactor Schneider LC1D09 — AC3 = 9A → motor 4 kW @ 400V.
Em catálogo aparecem kW por tensão: - LC1D09: 4 kW @ 400V, 2,2 kW @ 230V.
3.4 Selecção
Para escolher contactor: 1. Tipo de carga (AC1, AC3...). 2. Potência ou corrente do motor. 3. Tensão da bobina (24V comando ou 230V directo). 4. Contactos auxiliares necessários para o comando. 5. Marca/fornecedor preferido.
Tabelas de fabricantes (Schneider TeSys, ABB ContacTes) cruzam directamente "motor X kW @ Y V → contactor Z".
4. Relé térmico
4.1 Função
Protege motor de sobrecarga — corrente acima da nominal durante muito tempo (motor a forçar carga, encravamento, sub-tensão...).
4.2 Princípio
Lâmina bimetálica ou sensor electrónico no caminho da corrente do motor. Aquece com I × t. Se I_motor > I_calibrado durante tempo suficiente → contacto NC abre → corta comando do contactor → motor pára.
4.3 Curva de disparo
Curva tempo × corrente "inversa": - 100% I_nominal: não dispara (operação normal). - 110%: dispara em ~horas. - 150%: dispara em ~10 minutos. - 600%: dispara em ~10 segundos.
Suporta o pico de arranque (5-7× nominal por 1-2 segundos) sem disparar.
4.4 Configuração
Roda calibração na frente do relé térmico, ajustar para a corrente nominal do motor (escrita na chapa do motor).
Exemplo: motor 4 kW 400V tem I_nom ≈ 8,5 A. Configurar relé térmico para 8,5 A.
Classes: - Classe 10: dispara em 10s a 600% (padrão). - Classe 20: mais lento (para arranques pesados). - Classe 30: muito lento (raro).
4.5 Conjunto protecção motor
Rede → Disjuntor magnetotérmico → Contactor → Relé térmico → Motor
(curto-circuito) (comutação) (sobrecarga)
Ou usando disjuntor motor protector integrado (Schneider GV2 / ABB MS) que combina disjuntor + relé térmico num único componente — solução moderna e compacta.
5. Arranque de motores
5.1 Arranque directo
Mais simples e mais comum (~70% das instalações).
Potência:
L1 ── F1 ── QF1.1 ── KM1.1 ── F_t.1 ── U
L2 ── F2 ── QF1.2 ── KM1.2 ── F_t.2 ── V Motor
L3 ── F3 ── QF1.3 ── KM1.3 ── F_t.3 ── W
PE ─────────────────────────────────── PE
Comando 24V:
+24V ── S0(NC) ── F_t.aux ── S1(NO) ──┬── KM1.A1
│
└── KM1.aux NO (auto-retenção)
KM1.A2 ── 0V
Vantagens: - Simples, barato, fiável. - Pouca cablagem. - Pouco mantém.
Desvantagens: - Pico de corrente no arranque: 5-7× I_nominal. - Pode disparar disjuntor a montante. - Pode causar quedas de tensão na rede. - Stress mecânico (binário pico).
Aplicação: motores até 7,5 kW; rede robusta; cargas leves no arranque.
5.2 Inversão de marcha
Trocar 2 das 3 fases inverte sentido de rotação do motor 3F.
2 contactores (KM_F forward + KM_R reverse), cada um com cablagem própria das fases.
Inter-bloqueio crítico: nunca ambos fechados (curto-circuito entre 2 fases).
Comando (com inter-bloqueio):
Forward:
+24V ── S0 ── KM_R.NC ── S_F(NO) ──┬── KM_F.A1
│
└── KM_F.aux NO
Reverse:
+24V ── S0 ── KM_F.NC ── S_R(NO) ──┬── KM_R.A1
│
└── KM_R.aux NO
KM_F.A2 e KM_R.A2 ── 0V
Operação: parar primeiro com S0, depois premir direcção desejada. Direct switching entre F e R não é permitido (não há lógica para fazer paragem intermédia automaticamente).
Reforço: inter-bloqueio mecânico — alavanca física entre KM_F e KM_R impede mecanicamente ambos fecharem.
5.3 Estrela-triângulo (Y-Δ)
Reduz pico de corrente arranque de 5-7× para 2-3×.
Princípio: motor 3F com bobinas dimensionadas para 400V por bobina (configuração triângulo). Em arranque, ligá-lo em estrela → cada bobina recebe 230V (= 400/√3) → corrente arranque reduzida. Após acelerar → comuta para triângulo → 400V por bobina → potência nominal.
3 contactores: - KM1 — principal (sempre ligado durante operação). - KM_Y — estrela (ligado nos primeiros 3-10 segundos). - KM_D — triângulo (substitui KM_Y após arranque).
Temporizador KT (3-10s, configurável) controla a transição.
Sequência: 1. Premir start. 2. KM1 + KM_Y activam → motor em estrela. 3. Após T (KT): KM_Y desactiva, pequeno intervalo de transição (~50 ms), KM_D activa → motor em triângulo (operação normal).
Aplicação: motores 7,5-30+ kW; redes onde pico arranque é problema; cargas com inércia (ventiladores, bombas).
Limitação: durante arranque em Y, motor só tem 1/3 do binário nominal — não funciona se carga arranca pesada.
Hoje em dia substituído por: arranque suave electrónico (soft-start) ou variador de frequência (VFD).
5.4 Outros arranques
- Arranque por resistências — adicionar resistências em série com motor durante arranque; retirar progressivamente.
- Arranque por auto-transformador — fornece tensão reduzida durante arranque.
- Soft-start electrónico — variador electrónico controla tensão de arranque suavemente.
- VFD (Variador de Frequência) — controlo total da velocidade durante toda a operação. Padrão moderno.
6. Temporizadores
6.1 Tipos
On-delay (Timer-NO): temporiza antes de fechar contacto após energizar a bobina. - Estado inicial: contacto aberto. - Energiza bobina → conta tempo T → contacto fecha. - Desenergiza → contacto abre imediatamente.
Off-delay (Timer-OFF): mantém contacto X tempo após desenergizar. - Energiza → contacto fecha imediatamente. - Desenergiza → conta T → contacto abre.
Pulse (Timer-PULSE): fecha contacto por X tempo após energizar; depois abre automaticamente.
Cyclic (Timer-CYC): liga/desliga ciclicamente com X tempo on, Y off.
6.2 Aplicações
- Estrela-triângulo — on-delay para comutar Y→D.
- Sequenciamento de máquinas — passar de uma fase à seguinte após tempo.
- Iluminação temporizada — corredores, escadas.
- Refrigeração após desligar — ventilador continua X minutos para arrefecer motor.
6.3 Em PLC
Em automação moderna, temporizadores são funções de software no PLC. Mas em sistemas pequenos sem PLC, relé temporizador físico (Crouzet, Finder) é mais barato e fiável.
7. Sensores
7.1 Tipos
| Sensor | Detecta | Distância |
|---|---|---|
| Fim-de-curso (mecânico) | Contacto físico | 0 |
| Indutivo | Metais | 1-20 mm |
| Capacitivo | Qualquer material | 1-30 mm |
| Fotoeléctrico barreira | Bloqueio de luz | 1-30 m |
| Fotoeléctrico reflexivo | Reflexo de retro-reflector | 1-15 m |
| Fotoeléctrico difuso | Reflexo no próprio objecto | 10 cm-2 m |
| Ultrassom | Eco | 0,1-10 m |
| Magnético (reed) | Íman | Curta (em pistões pneumáticos) |
| Encoder | Rotação/posição | — (ligado mecanicamente) |
7.2 Saídas
Mecânicas (NO/NC) — contactos físicos como num relé. Usado em fim-de-curso.
Electrónicas (PNP/NPN): - PNP: sensor "fornece" +24V à carga quando activo. - NPN: sensor "puxa" para 0V quando activo.
Em PLC moderno: tipicamente PNP (corrente saindo do sensor para a entrada do PLC).
7.3 Aplicações no comando
Paragem de emergência por fim-de-curso:
+24V ── S0 ── B_fim_curso(NC) ── S1 ──┬── KM1.A1
│
└── KM1.aux NO
Se o sensor B detecta peça em posição limite (sobrecurso),
contacto NC abre → KM1 desactiva → motor pára imediatamente.
Sensores são olhos da automação electromecânica.
8. Esquemas funcionais e GRAFCET
8.1 Diagrama funcional
Mostra sequência de funções numa máquina:
[Início] → [Carregar peça] → [Furação] → [Saída] → [Descarregar] → [Volta]
Cada passo dispara o seguinte com confirmação por sensor.
8.2 GRAFCET (IEC 60848)
Norma para diagramas sequenciais. Combina: - Estados (rectângulos) com acções. - Transições (linhas) com condições.
┌───┐
│ 1 │ Estado inicial (espera)
└─┬─┘
│ "premiu START"
│
┌───┐
│ 2 │ Carregar peça
└─┬─┘ Acção: KM_carregar activo
│
│ "B_peça_em_posição = 1"
│
┌───┐
│ 3 │ Furar
└─┬─┘ Acção: KM_motor_furo activo
│
│ "B_fim_furo = 1"
│
...
Cada estado tem acções; transições têm condições (sensores, tempos).
8.3 Implementação
GRAFCET pode ser implementado: - Cablado com relés (complexo para muitos estados). - PLC — directamente programável em Ladder ou Sequencial.
Em projecto moderno: desenhar GRAFCET → programar em PLC.
9. Diagnóstico em campo
9.1 Multímetro
- V DC 24V no comando — verificar alimentação.
- Continuidade em contactos quando suposto fechado.
- Resistência da bobina (200-2000 Ω típico) — ∞ = bobina partida.
9.2 Sintomas comuns
| Sintoma | Causa provável |
|---|---|
| Motor não arranca | Falta de comando (verificar S0, S1, sensores em série); bobina KM1 partida; fusível queimado |
| Motor arranca mas pára logo | Relé térmico disparado (motor sobrecarregado, fases desequilibradas) |
| Relé térmico dispara após X minutos | Sobrecarga real ou má calibração |
| Contactor faz "buzz" mas não fecha | Bobina parcialmente queimada ou tensão insuficiente |
| Contactos colados (motor não pára) | Contactor sobrecarregado, contactos soldados — substituir contactor |
| Vibração + ruído | Contactor com tensão errada na bobina ou armadura mecânica gasta |
9.3 Manutenção preventiva
- Inspecção visual periódica do quadro.
- Limpeza (pó, sujidade).
- Verificar aperto de bornes (afrouxam com vibração térmica).
- Substituir contactores ao atingir 70% da vida nominal.
- Calibração anual de relés térmicos.
- Termografia para detectar pontos quentes (mau contacto, sobrecarga).
10. Liga a outras UCs
- UC02864 — segurança eléctrica em qualquer trabalho.
- UC02928 — esquemas que estamos a implementar.
- UC02925 — base trifásico de motores.
- UC02867 — manutenção dos componentes.
- UC02940 — PLC substitui lógica electromecânica em comando.
11. Conclusão
Circuitos electromecânicos são o músculo da automação industrial. Mesmo na era do PLC, contactores continuam a comutar a potência real para os motores. Saber montar, ler, diagnosticar sistemas com relés/contactores é competência essencial.
Pratica com montagem real em quadros didácticos — não basta ler esquemas.
Apêndice A · Cheat sheet
Componentes:
K = relé / contactor
KT = relé temporizador
Q = disjuntor
F = fusível
S = comutador / botoeira
M = motor
B = sensor
Categorias contactor:
AC1 = resistivo, I_nominal
AC3 = motor padrão
AC4 = motor jogging, reduzir 50%
Arranque motor:
Directo: < 7,5 kW
Estrela-triângulo: 7,5-30 kW (reduz pico 5-7× para 2-3×)
Soft-start: alternativa moderna
VFD: total controlo, padrão moderno
Inter-bloqueio inversão:
KM_R.NC em série com KM_F.A1
KM_F.NC em série com KM_R.A1
Sem isto: curto-circuito entre fases na inversão.
Apêndice B · Recursos
- Schneider TeSys — catálogo contactores e arrancadores.
- ABB ContacTes — equivalente.
- Finder, Omron — relés industriais.
- IEC 60947 — norma componentes baixa tensão.
- IEC 60848 — GRAFCET.
- Norma RTIEBT — Portugal.