Operações de serralharia de bancada
- Introdução
- 1. A bancada e as ferramentas
- 2. Marcar antes de cortar
- 3. Serrar
- 4. Limar
- 5. Furar
- 6. Roscar à mão
- 7. Outras técnicas de união
- 8. Acabamento
- 9. Segurança específica
- 10. Liga a outras UCs
- 11. Conclusão
- Apêndice A · Tabela de furos de pré-roscagem (rosca métrica padrão)
- Apêndice B · Velocidade de corte para furação (Vc em m/min)
- Apêndice C · Recursos
Introdução
A serralharia de bancada é o gesto fundador da mecânica. Antes de fresadoras CNC e máquinas de electroerosão, há a bancada, o torno de bancada, a serra de mão, a lima, o berbequim, o macho. Quem domina a bancada percebe o que está a acontecer quando usa a máquina automática.
Esta UC dá a base manual que torna o resto possível: marcar, cortar, limar, furar, roscar, com as mãos.
1. A bancada e as ferramentas
1.1 A bancada
- Tampo robusto (madeira maciça 40-60 mm, ou metal), plano, sem folgas.
- Altura aos cotovelos com o operador a pé — ergonomia.
- Iluminação ≥ 500 lux, lateral + frontal (evitar sombras directas).
- Acesso aos 4 lados quando possível (acesso a peças longas).
- Suporte de ferramentas próximo (painel, gavetas), organizado.
1.2 Torno de bancada (prensa)
Maxilas com mordentes. Boas práticas:
- Aperto firme mas não excessivo — uma mão na manivela.
- Mordentes macios (alumínio, cobre, plástico) para não marcar peças acabadas.
- Peça acima do nível das maxilas (zona livre de trabalho).
- Maxila fixa alinhada com a borda da bancada para acomodar peças longas.
- Lubrificar mecanismo periodicamente.
1.3 Caixa de ferramentas básica
- Serrote de arco (com lâminas de várias TPI).
- Limas — gross/médio/fino, formas chata/triangular/redonda/meia-cana/quadrada.
- Martelos — 500 g + 1 kg + martelo de borracha.
- Berbequim de bancada + brocas HSS 1-13 mm.
- Machos (jogos de 3) e tarraxas M3-M12.
- Riscador, granitas, compasso de pontas.
- Régua de aço, esquadro, fita métrica.
- Paquímetro, micrómetro (UC02848).
- Escovas de aço, escarareadores.
- Limas-agulha para trabalho fino.
2. Marcar antes de cortar
2.1 Sequência
- Limpar peça — desengordurar com solvente.
- Azul de marcar — pincelar camada fina (visibilidade do riscado).
- Riscar — traçar linhas com riscador (aço duro, ponta fina).
- Granitas / centerpunch — marcar pontos onde furar ou intersecções importantes.
- Verificar — paquímetro/régua/esquadro confirmam as linhas.
- Cortar / furar — seguir a linha do lado correto (depende do material a remover ou conservar).
2.2 Ferramentas de marcação
- Riscador de aço temperado, ponta endurecida. Substitui caneta porque marca em metal.
- Compasso de pontas — transferir medidas, traçar arcos.
- Esquadro — referência perpendicular.
- Régua de aço — linhas rectas.
- Granitas (centerpunch) — bate-se com martelo para fazer ponto.
- Riscador de altura — em mesa de granito, marca alturas precisas.
2.3 Provérbio
"Medir duas vezes, cortar uma."
Trabalho mal marcado = peça ao lixo + tempo perdido. Marcar é metade do trabalho.
3. Serrar
3.1 Lâminas — TPI (dentes por polegada)
| TPI | Material |
|---|---|
| 14-18 | Secções grossas, vergas, perfis cheios |
| 24 | Geral, chapa 4-6 mm |
| 32 | Chapa fina < 3 mm, tubo |
Regra absoluta: sempre ≥ 3 dentes em contacto com a peça. Menos = lâmina engata e parte.
3.2 Montagem da lâmina
- Dentes a avançar (na ida).
- Esticar bem — lâmina lassa engata.
- Apertar parafuso firmemente.
- Inspeccionar antes de cada uso.
3.3 Técnica
- Apertar peça no torno perto do corte (5-20 mm).
- Posição corpo: pé direito atrás, esquerdo à frente (em direcção ao corte).
- Ambas as mãos no serrote — uma na pega, outra na ponta.
- Pressão na ida (corte), alívio na volta (não desgastar dentes).
- Curso longo — usa toda a lâmina.
- Ritmo lento (60-80 cursos/min).
- Vertical primeiro até marcar; depois inclinar 10-15°.
- Final do corte — segurar peça para não cair.
3.4 Tipos de corte
- Recto — a maioria.
- Em ângulo — marcar dos dois lados (assim alinha).
- Tubo — lâmina fina (32 TPI); rodar tubo a cada 2-3 empurrões.
- Chapa — apertar entre duas tiras de madeira para não vibrar.
3.5 Serras eléctricas
- Serra de fita (vertical) — cortes longos, formas.
- Serra circular com disco de metal — corte rápido recto.
- Serra alternativa eléctrica (sabre saw) — obra.
Princípios iguais; velocidade da lâmina ajustada ao material.
4. Limar
4.1 Anatomia da lima
[espigão]─[cabo madeira]─[virola]─[garganta]─[corpo]─[ponta]
- Espigão — espeto para encaixar no cabo.
- Cabo — madeira, com virola (anel metálico) para não rachar.
- Corpo — parte ativa, com picado (gross/médio/fino/bastardo).
REGRA: lima sem cabo NÃO se usa — espigão pode espetar a mão se a peça empurra.
4.2 Tipos de lima por forma
- Chata — superfícies planas.
- Meia-cana — uma face plana, outra convexa; cavidades.
- Redonda — furos, raios internos.
- Triangular — cantos, dentes, ranhuras a 60°.
- Quadrada — rasgos com 90°.
- Faca — cortes finos.
- Limas-agulha — trabalho fino, joalharia, mecanismos.
4.3 Picados
- Bastardo — grosseiro, remove muito material rapidamente.
- Meio-bastardo — geral.
- Fino — acabamento.
- Picado duplo (a maioria) — duas séries de dentes cruzados.
- Picado simples — uma série; corte mais limpo em metais macios (alumínio, latão).
4.4 Técnica
- Apertar peça no torno (90° à lima).
- Posição: pé esquerdo à frente (canhotos invertem).
- Mão dominante no cabo, outra na ponta.
- Avanço com pressão uniforme.
- Recuo sem pressão — corte é só na ida.
- Curso longo + ritmo lento — usar corpo, não só braço.
- Verificar cada minuto com esquadro + régua: planicidade, esquadria.
- Mudar de direcção a cada minuto (cruzar) para limar uniforme.
4.5 Limar plano vs raio
- Plano: lima chata, varrer toda a superfície, cruzando direcções.
- Côncavo: lima redonda ou meia-cana; passes longos e curvos.
- Convexo: lima chata; rotação suave do pulso.
4.6 Manutenção da lima
- Escarrear com escova de aço quando dentes entopem.
- Limar giz antes de limar alumínio — reduz entupimento.
- Não bater a lima contra o aço — pode lascar.
- Guardar em separador (cabos para cima, sem contacto entre limas) — preservar corte.
5. Furar
5.1 Berbequim de bancada (coluna)
- Avanço por manivela — controlo manual.
- Mesa ajustável em altura + inclinação.
- Mandril com chave (ou auto-blocante).
- Profundidade com batente.
- Mais preciso que berbequim de mão.
5.2 Brocas
- HSS (aço rápido) — geral.
- HSS-Co (cobalto) — aço inox, ligas duras.
- Carboneto (widia) — peças endurecidas, ferro fundido.
- Brocas de centrar — fazer guia.
- Brocas escalonadas — chapa fina, vários diâmetros num só.
5.3 Velocidade de corte
N (rpm) = (1000 × Vc) / (π × D)
Vc (velocidade de corte, m/min):
- Aço carbono baixo: 25-35
- Aço carbono médio: 20-25
- Aço inox: 10-15
- Alumínio: 60-100
- Latão: 50-70
- Ferro fundido: 20-25
- Plástico: 50-80
Exemplo: aço carbono, broca Ø 8 mm: N = (1000 × 25) / (π × 8) ≈ 995 rpm.
Tabela típica na máquina. Broca pequena → rpm alta; broca grande → rpm baixa.
5.4 Refrigeração / lubrificação
- Aço, inox: óleo de corte (taladrina solúvel).
- Alumínio: álcool, querosene, ou seco com pausas.
- Latão, ferro fundido: seco.
- Sem refrigeração: broca queima (vermelha), perde corte, peça aquece, broca azulada → trocar.
5.5 Sequência de furo
- Fixar peça com grampo ou mordaças de máquina — nunca segurar à mão (broca pode agarrar, peça gira, ferida grave).
- Marcar centro com granitas (ou broca de centrar).
- Broca pré-furo Ø 3 mm para furos > 6 mm (broca-guia).
- Broca final com rpm certa + óleo se metal.
- Avanço firme, sem forçar (apara contínua = bom; pó = mal).
- Aliviar pressão quando broca está quase a sair — chapa fina entala.
- Escarear rebarba à saída com broca maior (chamfre).
- Soprar a limalha (com cuidado: óculos!).
5.6 Profundidade controlada
- Batente no berbequim — define profundidade.
- Fita adesiva na broca como marca.
- Anel-colar na broca para profundidade exacta.
5.7 Furos cegos vs passantes
- Passante — atravessa a peça; escarear ambos os lados.
- Cego — para a meio; cuidado com apara acumulada (retirar broca, soprar, continuar).
6. Roscar à mão
6.1 Tipos de rosca
- Métrica (M) — padrão SI. M8 = diâmetro nominal 8 mm; passo padrão 1,25 mm.
- Métrica fina (M8 × 1) — passo menor, mais resistência ao desaperto.
- UNC / UNF (Unified Coarse/Fine) — polegadas, americana.
- BSW / BSF (Whitworth) — polegadas, antiga.
- NPT / G — roscas de tubo (cónicas/cilíndricas).
Identificar com calibre de roscas ou tabela passo/diâmetro.
6.2 Macho e tarraxa
- Macho — talha rosca dentro de furo (fêmea).
- Tarraxa / cossinete — talha rosca fora de veio (macho).
Jogo de 3 machos: 1. Cónico (taper) — entrada, primeiros fios. 2. Intermediário (plug) — aprofunda. 3. Final / em fundo (bottoming) — termina, especialmente em furos cegos.
6.3 Furo de pré-roscagem
Antes de roscar, furar com broca certa:
Furo de pré-roscagem = D - passo
M3 (passo 0,5): furo 2,5 mm
M4 (passo 0,7): furo 3,3 mm
M5 (passo 0,8): furo 4,2 mm
M6 (passo 1,0): furo 5,0 mm
M8 (passo 1,25): furo 6,8 mm
M10 (passo 1,5): furo 8,5 mm
M12 (passo 1,75): furo 10,3 mm
Tabela típica na parede. Furar mal = macho parte ou rosca não pega.
6.4 Técnica de roscagem
- Lubrificar macho e furo com óleo de corte.
- Macho na manivela em T, perpendicular ao furo (verificar com esquadro 90°).
- Pressionar e rodar 1 volta — sentir o macho engatar na rosca.
- Recuar 1/2 volta — quebra a apara, evita prender.
- Avançar 1 volta + recuar 1/2 volta — repetir.
- Profundidade controlada (se cego, parar antes do fundo).
- Mudar para macho intermediário + final se necessário.
- Testar com parafuso M correspondente.
6.5 Quando parar
- Resistência súbita — macho a partir; parar imediatamente.
- Macho preso — recuar muito devagar; eventualmente trabalhar com chave anti-rotação.
- Macho partido — extração com extractor de machos ou electroerosão (caro).
6.6 Tarraxa (em veio)
- Bizelo na extremidade do veio (45°, 1-2 mm) — entrada fácil.
- Lubrificar + tarraxa em porta-tarraxas.
- Perpendicular + apertar + rodar 1 volta + ½ recuo.
- Repetir até obter o comprimento de rosca desejado.
Tarraxa é tipicamente regulável — ajustar para classe de tolerância.
7. Outras técnicas de união
7.1 Rebitar
- Rebites cegos (pop-rivets) — alicate de rebitar; chapas finas, alumínio/aço.
- Rebites maciços — punção + martelo; uniões pesadas.
- Cuidado: alinhar furos antes (escarear ligeiro).
7.2 Soldadura suave (estanho)
- Ferro de soldar 30-60 W ou estação electrónica.
- Estanho (sn) ou sem chumbo (SnAgCu) com fluxo.
- Para uniões eléctricas ou chapa fina sem esforço mecânico.
Soldadura por arco (eléctrodo, MIG/TIG) — UC02921 separada.
7.3 Colagem técnica
- Loctite (anaeróbico) — fixar parafusos contra desaperto por vibração.
- Cianoacrilato — pequenas montagens rápidas.
- Epoxi — alta resistência.
- Adesivos estruturais (Sika, 3M VHB) — substituem rebites em alguns casos.
7.4 União por aperto
- Parafuso + porca — clássico, desmontável.
- Parafuso + furo roscado.
- Parafusos auto-roscantes — chapa fina, não exige rosca prévia.
Torque correto importa: parafuso M8 classe 8.8 → ~25 Nm.
8. Acabamento
8.1 Sequência
- Limar rebarbas (lima fina).
- Escarear furos.
- Polir progressivamente: lixa 80 → 120 → 240 → 400 → 600 → 1000 → 2000.
- Limpar com solvente entre cada grit.
- Proteger superfície: tinta, óleo, zincagem, anodização.
8.2 Lixar
- Lixa de água com água + sabão — acabamento fino.
- Lixa-disco ou lixadora orbital para grandes superfícies.
- Direcção consistente (não em círculos aleatórios — riscos cruzados).
8.3 Polir
- Pasta de polir (verde/branca/vermelha) em disco de feltro/algodão.
- Polidora de bancada com discos.
- Brilho progressivo.
8.4 Proteção
- Tinta — primário (anti-corrosivo) + acabamento.
- Zincagem (galvanização) — banho electrolítico.
- Niquelagem / cromagem — decorativo/funcional.
- Anodização — alumínio; cores possíveis.
- Óleo — peças de uso, manutenção periódica.
9. Segurança específica
Reforço da UC02855:
- Óculos panorâmicos sempre — limalha voa.
- Luvas anti-corte EN 388 ao manipular chapa; nunca ao furar/serrar com máquina rotativa.
- Calçado S3 sempre — peças caem.
- Mangas apertadas, cabelo preso, sem anéis/relógios/colares.
- Limpar limalha com escova, nunca com a mão.
- Aspirar pó (alumínio, magnésio são inflamáveis).
- Pausa a cada 30-45 min em trabalho repetitivo.
10. Liga a outras UCs
- UC02855 — segurança em todas as operações.
- UC02848 — medição e marcação antes/depois.
- UC02877 — interpretar desenho técnico.
- UC02919 — fresadora/torno (precisão maior, mas princípios iguais).
- UC02920 — fabrico aditivo (alternativa quando aplicável).
- UC02921 — soldadura forte para estruturas.
- UC02867 — manutenção mecânica usa serralharia diariamente.
11. Conclusão
A serralharia ensina paciência, precisão e respeito pelos materiais. O técnico que sabe cortar, limar, furar e roscar à mão percebe o que se passa nas máquinas CNC, diagnostica problemas que a máquina não diagnostica, e tem autonomia quando a oficina está sem eletricidade ou sem programa.
Mesmo na indústria mais automatizada, há sempre uma peça que precisa de um retoque manual — e quem sabe fazê-lo é insubstituível.
Apêndice A · Tabela de furos de pré-roscagem (rosca métrica padrão)
| Rosca | Passo (mm) | Furo (mm) |
|---|---|---|
| M2 | 0,4 | 1,6 |
| M2,5 | 0,45 | 2,05 |
| M3 | 0,5 | 2,5 |
| M4 | 0,7 | 3,3 |
| M5 | 0,8 | 4,2 |
| M6 | 1,0 | 5,0 |
| M8 | 1,25 | 6,8 |
| M10 | 1,5 | 8,5 |
| M12 | 1,75 | 10,3 |
| M14 | 2,0 | 12,0 |
| M16 | 2,0 | 14,0 |
| M20 | 2,5 | 17,5 |
Apêndice B · Velocidade de corte para furação (Vc em m/min)
| Material | Vc |
|---|---|
| Aço carbono baixo (S235) | 25-35 |
| Aço carbono médio (C45) | 20-30 |
| Aço de ferramentas | 15-20 |
| Aço inox 304/316 | 10-15 |
| Ferro fundido cinzento | 20-30 |
| Alumínio (1050, 6061) | 60-100 |
| Latão | 50-70 |
| Bronze | 30-50 |
| Plásticos | 50-100 |
Apêndice C · Recursos
- Fundação ATEC — manuais técnicos.
- Manuais Sandvik / Mitsubishi — datasheets de ferramentas.
- Total Materia — base de dados de materiais.
- Boas referências em vídeo: This Old Tony (en), Abom79 (en), Stefan Gotteswinter (en/de).
- Normas EN ISO — geometria, ferramentas, tolerâncias.