Executar operações de normalização contabilística (UC02776)
- Introdução
- 1. Normalização contabilística: conceito, objetivos e princípios
- 2. Tipos de normalização
- 3. O Sistema de Normalização Contabilística: elementos fundamentais
- 4. Estrutura conceptual: pressupostos, características e elementos das demonstrações financeiras
- Para que serve uma estrutura conceptual
- Pressupostos subjacentes
- Características qualitativas da informação
- Os elementos das demonstrações financeiras
- Exemplo resolvido · Classificar as rubricas e verificar a equação
- Corrente e não corrente
- Reconhecimento
- Mensuração
- Manter o capital e o conceito de resultado
- 5. Instrumentos de suporte: Código de Contas, modelos e outros documentos
- O que são instrumentos de suporte
- O Código de Contas
- Contas mais usadas
- Como funciona um lançamento: débito e crédito
- Exemplo resolvido · Compra e venda de mercadorias com IVA
- Exemplo resolvido · Apuramento do custo das mercadorias vendidas
- Exemplo resolvido · Depreciação pelo método da linha reta
- O balancete e a verificação de saldos
- Modelos de demonstrações financeiras
- Exemplo resolvido · Construir a demonstração dos resultados e o balanço a partir do balancete
- O anexo e as políticas contabilísticas
- Manuais internos e documentos de suporte
- 6. Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro (NCRF)
- O que são as NCRF
- Como se lê uma norma
- Temas tratados pelas NCRF
- Exemplo resolvido · Fórmulas de custo dos inventários
- Exemplo resolvido · Valor realizável líquido e perda por imparidade
- Exemplo resolvido · Acontecimentos após a data do balanço
- Exemplo resolvido · Reconhecer ou não uma provisão
- Políticas contabilísticas, estimativas e erros
- Exemplo resolvido · Revisão da vida útil
- Moeda estrangeira
- Exemplo resolvido · Escolher a norma para uma situação nova
- 7. NCRF-PE, microentidades e entidades do setor não lucrativo
- 8. Normas internacionais de contabilidade (IAS/IFRS)
- 9. Legislação associada ao SNC
- 10. Fases de realização de um sistema de contabilidade segundo o SNC
- Porque é um projeto
- As fases
- Fase 1: Diagnóstico
- Fase 3: Políticas contabilísticas e plano de contas
- Fase 6: Migração e saldos de abertura
- Exemplo resolvido · Tabela de correspondência e saldos de abertura
- Fase 7: Testes
- Fase 8 e 9: Formação e arranque
- Fase 10: Acompanhamento
- Atitudes que marcam a diferença num projeto
- 11. Software de gestão do SNC: características e funcionalidades
- 12. Procedimentos administrativos das operações de normalização contabilística
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
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Introdução
Aprender a executar operações de normalização contabilística é perceber as regras que dão forma à contabilidade de uma entidade em Portugal, usar os instrumentos que o Sistema de Normalização Contabilística (SNC) põe à disposição e transformar essas regras em trabalho concreto, com documentos, contas, procedimentos e software. Não se trata de decorar diplomas. Trata-se de saber onde procurar a regra, como a interpretar e como a aplicar no dia a dia de um gabinete de contabilidade ou de um departamento financeiro.
O percurso segue a lógica de um projeto real. Começa por compreender o que é a normalização e porque existe; passa pelos tipos de normalização e pelos elementos fundamentais do SNC; estuda a estrutura conceptual, o Código de Contas e os modelos de demonstrações financeiras; percorre as normas contabilísticas e de relato financeiro (NCRF), a norma para pequenas entidades (NCRF-PE) e as normas internacionais (IAS/IFRS); olha para a legislação associada; e termina nos procedimentos administrativos, nas fases de implementação de um sistema de contabilidade e no software de gestão. Em todas as etapas contam o rigor, o respeito pelas regras e normas definidas, o sentido de organização e a cooperação com a equipa.
Objetivos de aprendizagem (referencial): preparar a informação para a execução de atividades de normalização contabilística; executar os procedimentos administrativos para realizar as operações de normalização contabilística; e colaborar na implementação de um sistema de contabilidade de acordo com o SNC. Em termos de desempenho, isto significa cumprir as normas gerais e as orientações e regulamentos internos de elaboração de documentos de prestação de contas, demonstrar domínio das regras do SNC e garantir o cumprimento dos procedimentos, prazos e requisitos estabelecidos.
Nota sobre legislação. As normas contabilísticas e os diplomas que as aprovam são alterados com alguma frequência. O que importa reter é a estrutura e a lógica do sistema: cada regra aplica-se sempre na redação em vigor do diploma que a contém. Antes de aplicar qualquer regra, consulta o texto oficial publicado no Diário da República e os documentos da entidade que normaliza a contabilidade em Portugal.
1. Normalização contabilística: conceito, objetivos e princípios
Para que serve a contabilidade
A contabilidade é o sistema que recolhe, classifica, regista e resume as operações de uma entidade em informação financeira útil. O seu produto final são as demonstrações financeiras: documentos que dizem quanto a entidade possui, quanto deve, quanto ganhou e quanto gastou. Quem lê essa informação toma decisões com ela:
| Utilizador | Que decisão toma | Que pergunta faz às contas |
|---|---|---|
| Gestão | o que comprar, produzir, vender, investir | estamos a ganhar dinheiro? temos liquidez? |
| Sócios e investidores | manter, aumentar ou retirar o investimento | quanto vale a entidade? que resultados distribui? |
| Bancos e financiadores | conceder ou não crédito | consegue pagar o empréstimo? |
| Fornecedores | vender a prazo ou exigir pagamento imediato | paga a horas? |
| Trabalhadores | confiar no futuro do emprego | a entidade é sólida? |
| Estado e autoridade tributária | cobrar impostos e fiscalizar | o lucro tributável está correto? |
| Clientes | escolher parceiros duradouros | vai continuar a existir? |
Para que todos estes utilizadores consigam ler e comparar contas de entidades diferentes, as contas têm de ser feitas com as mesmas regras. Se cada entidade escolhesse livremente como contar um inventário, quando reconhecer uma venda ou como apresentar o balanço, duas contas nunca seriam comparáveis.
O que é normalizar
Normalizar é estabelecer regras comuns, estáveis e reconhecidas que todas as entidades abrangidas devem seguir. Em contabilidade, a normalização incide sobre vários níveis:
- conceitos (o que é um ativo, um passivo, um rendimento);
- critérios de reconhecimento e de mensuração (quando e por que valor se regista uma operação);
- plano de contas (o código e a designação de cada conta);
- modelos de demonstrações financeiras (a forma de apresentar o balanço e a demonstração dos resultados);
- divulgações (a informação adicional que fica no anexo).
A normalização não impede a contabilidade de ser trabalho de julgamento. Nenhuma norma prevê todas as situações. O que a norma garante é que o julgamento se exerce dentro de um quadro conhecido, onde duas pessoas competentes chegam a resultados próximos perante os mesmos factos.
Objetivos da normalização contabilística
O SNC procura, em conjunto, os seguintes objetivos:
- Comparabilidade: contas de entidades diferentes e de períodos diferentes podem ser postas lado a lado.
- Fiabilidade e transparência: a informação representa fielmente a realidade da entidade, sem a embelezar nem a esconder.
- Utilidade para a tomada de decisões: a informação é relevante para quem decide.
- Convergência com as normas internacionais: as normas portuguesas aproximam-se das normas internacionais de contabilidade, facilitando o investimento e o comércio entre países.
- Proporcionalidade: entidades pequenas têm exigências mais simples do que entidades grandes, para que o custo de cumprir não exceda o benefício de informar.
- Apoio ao controlo e à fiscalização: auditores, revisores e administração tributária encontram uma estrutura conhecida onde verificar.
- Redução do custo de preparação: a mesma estrutura serve gestores, bancos e Estado, evitando preparar contas diferentes para cada destinatário.
Os princípios em que assenta o SNC
Um princípio é uma ideia-base que orienta a aplicação das normas quando a letra da regra não chega. Em linguagem corrente, o SNC assenta em:
- Regime do acréscimo (periodização económica): os efeitos das operações são reconhecidos quando ocorrem, e não quando o dinheiro entra ou sai. Uma venda de dezembro pertence ao ano de dezembro, mesmo que seja cobrada em janeiro.
- Continuidade: presume-se que a entidade vai continuar a operar no futuro previsível. Se não for assim, os valores têm de refletir essa realidade e a situação tem de ser divulgada.
- Consistência de apresentação: a forma de apresentar e classificar os elementos mantém-se de um período para o outro, salvo razão fundamentada.
- Materialidade e agregação: a informação é material se a sua omissão ou erro puder influenciar decisões. Elementos relevantes apresentam-se em separado; os de pequena importância podem agrupar-se.
- Não compensação: ativos e passivos, e rendimentos e gastos, não se compensam entre si, exceto quando uma norma o permitir.
- Informação comparativa: as demonstrações apresentam os valores do período e os do período anterior.
Exemplo resolvido · O regime do acréscimo em ação
A Empresa Alfa presta um serviço em 28 de dezembro e fatura 4 000 EUR (valor sem imposto, para simplificar). O cliente paga em 15 de janeiro. Ao mesmo tempo, a renda do armazém, de 600 EUR por mês, respeitante a dezembro, só é paga em janeiro.
Passo 1. Quando se reconhece o rendimento? Em dezembro, porque o serviço foi prestado em dezembro. O recebimento em janeiro é apenas o fecho do crédito.
Passo 2. Quando se reconhece o gasto da renda? Em dezembro, porque a renda é o preço do uso do armazém durante dezembro. O pagamento em janeiro é a liquidação de uma dívida.
Passo 3. Lançamentos em dezembro.
| Operação | Débito | Crédito | Valor |
|---|---|---|---|
| Prestação de serviço faturada | 21 Clientes | 72 Prestações de serviços | 4 000 |
| Renda de dezembro por pagar | 62 Fornecimentos e serviços externos | 27 Outras contas a receber e a pagar (2722 Credores por acréscimos de gastos) | 600 |
Passo 4. Lançamentos em janeiro.
| Operação | Débito | Crédito | Valor |
|---|---|---|---|
| Cobrança do cliente | 12 Depósitos à ordem | 21 Clientes | 4 000 |
| Pagamento da renda | 27 Outras contas a receber e a pagar (2722 Credores por acréscimos de gastos) | 12 Depósitos à ordem | 600 |
Resultado. As contas de dezembro mostram um rendimento de 4 000 e um gasto de 600, ainda que nenhum dinheiro tenha mexido nesse mês. Em janeiro, não aparece rendimento nem gasto nenhum: apenas movimentos de tesouraria. É isto que o regime do acréscimo garante.
Normalização não é fiscalidade
Um erro frequente de principiantes é confundir contabilidade com fiscalidade. A contabilidade segue o SNC e procura a imagem verdadeira e apropriada da entidade. A fiscalidade segue o Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas e demais legislação tributária, e procura apurar o lucro tributável. Os dois sistemas estão ligados, mas não são iguais: há gastos que a contabilidade reconhece e a lei fiscal não aceita (ou aceita só em parte), e vice-versa. O ponto de partida do cálculo do imposto é o resultado contabilístico, ao qual se fazem correções fora da contabilidade. Quem confunde os dois acaba por registar na contabilidade coisas que servem apenas o fisco, distorcendo as contas.
2. Tipos de normalização
Normalização, harmonização e uniformização
Três palavras aparecem muitas vezes misturadas, mas significam coisas diferentes:
| Conceito | Significado | Grau de rigidez |
|---|---|---|
| Uniformização | todas as entidades aplicam exatamente as mesmas regras, sem escolha | máximo |
| Normalização | regras comuns, com margem limitada para opções previstas na própria norma | alto |
| Harmonização | aproximação de práticas diferentes, tornando-as compatíveis sem as tornar iguais | moderado |
Os sistemas contabilísticos nacionais passaram por todas estas fases: da diversidade de práticas à aproximação (harmonização europeia, feita por diretivas) e depois à normalização mais profunda (adoção de normas internacionais e de modelos nacionais convergentes).
Normalização por âmbito geográfico
- Normalização nacional: as regras são definidas e aprovadas pelo Estado, através de diplomas legais e de normas emitidas pelo organismo nacional competente. Em Portugal, é o caso do SNC.
- Normalização regional ou supranacional: um conjunto de países acorda regras comuns. A União Europeia exerce-a através de diretivas (que cada Estado transpõe para a legislação interna) e de regulamentos (que se aplicam diretamente).
- Normalização internacional: normas emitidas por organismos independentes de vocação mundial, como o organismo emissor das IFRS, adotadas voluntariamente por países ou impostas a certas categorias de entidades.
Normalização por natureza da regra
- Normalização imperativa (legal): a regra está em lei ou regulamento e é de cumprimento obrigatório. Os diplomas que aprovam o SNC e as respetivas normas são deste tipo.
- Normalização recomendada (profissional): orientações e boas práticas emitidas por organismos profissionais. Não obrigam, mas são referências fortes, sobretudo quando a lei é omissa.
- Normalização interna (da entidade): a própria entidade fixa, dentro do quadro legal, as suas políticas contabilísticas, os seus circuitos de documentos e o seu plano de contas detalhado. É a que mais afeta o trabalho diário.
Normalização por objeto
| Objeto | O que uniformiza | Exemplo |
|---|---|---|
| Conceitos e princípios | definições e pressupostos | estrutura conceptual |
| Reconhecimento e mensuração | quando e por que valor se regista | normas sobre inventários, ativos fixos, rédito |
| Plano de contas | códigos e designações | Código de Contas |
| Demonstrações financeiras | formato e conteúdo | modelos de balanço e de demonstração dos resultados |
| Documentos | requisitos das faturas e documentos de suporte | legislação sobre faturação |
| Procedimentos | circuitos internos de aprovação e registo | manuais de procedimentos |
Do Plano Oficial de Contas ao SNC
Até 2010, a contabilidade das sociedades em Portugal seguia o Plano Oficial de Contas (POC), um plano de contas fortemente prescritivo, com poucas opções. O SNC substituiu-o a partir de 2010, mudando de filosofia: em vez de um plano com regras detalhadas e fechadas, passa a existir um sistema com estrutura conceptual, normas por tema e um Código de Contas flexível, mais próximo da lógica das normas internacionais, em que se privilegia a substância sobre a forma e o julgamento profissional dentro de limites claros. A transição obrigou todos os gabinetes a reaprender conceitos, a reclassificar contas e a reconfigurar o software, e é um bom exemplo de operação de normalização de grande escala.
Exemplo resolvido · Classificar o tipo de normalização
Classifica as seguintes situações segundo o tipo de normalização que ilustram.
- Uma diretiva europeia que obriga os Estados-Membros a aproximar as regras de elaboração das contas anuais.
- O manual interno que obriga a pedir duas assinaturas para lançar adiantamentos a fornecedores.
- O Código de Contas com designações e numeração obrigatórias para as classes de contas.
- As normas internacionais que uma entidade cotada em bolsa tem de aplicar às contas consolidadas.
Resolução.
- É normalização supranacional (europeia), por natureza legal, com o objetivo de harmonização.
- É normalização interna, da entidade, sobre procedimentos.
- É normalização nacional, imperativa, sobre o plano de contas.
- É normalização internacional, tornada obrigatória por regulamento para uma categoria de entidades.
O exercício mostra que a mesma regra pode ser classificada por mais do que um critério (âmbito, natureza e objeto) sem contradição.
Vantagens e limites da normalização
Vantagens: comparabilidade, linguagem comum entre profissionais, menos discricionariedade, menor risco de fraude por criatividade contabilística, redução do custo de formação e de auditoria, facilidade na migração de software.
Limites: regras pensadas para o caso médio podem ser desadequadas a um caso invulgar; a mudança de normas custa tempo e dinheiro; um sistema muito complexo pode ser mal aplicado por pequenas entidades; e uma norma nunca substitui a competência técnica e o sentido crítico do profissional. Por isso o SNC prevê regimes simplificados e exige que as políticas contabilísticas sejam escolhidas e divulgadas com fundamento.
3. O Sistema de Normalização Contabilística: elementos fundamentais
Visão geral
O Sistema de Normalização Contabilística (SNC) é o quadro contabilístico português aprovado por diploma legal (o Decreto-Lei que aprovou o SNC, na redação em vigor) e concretizado por um conjunto de portarias e avisos publicados no Diário da República. Aplica-se às entidades obrigadas por lei a ter contabilidade organizada, com regimes adaptados à dimensão e à natureza de cada uma. Para saber exatamente a que entidades se aplica e com que exceções, consulta o diploma na redação em vigor.
O SNC não é um único documento. É uma família de instrumentos que se completam. Compreender o que cada um faz é a primeira competência de quem trabalha com contabilidade.
Os elementos fundamentais
| Elemento | Para que serve | Quando o consultas |
|---|---|---|
| Bases para a apresentação de demonstrações financeiras | regras gerais de apresentação: que demonstrações existem, requisitos de forma | ao preparar o conjunto de contas |
| Modelos de demonstrações financeiras | formatos oficiais do balanço, das demonstrações dos resultados, das alterações no capital próprio e dos fluxos de caixa, e do anexo | ao montar cada demonstração |
| Código de Contas | lista de classes, contas e subcontas, com código e designação | ao classificar e lançar |
| Estrutura Conceptual | conceitos, pressupostos e características da informação | ao interpretar dúvidas e escolher políticas |
| NCRF (Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro) | regras de reconhecimento, mensuração e divulgação por tema | ao tratar uma operação específica |
| NCRF-PE (para Pequenas Entidades) | versão simplificada das NCRF | entidades que cumprem os critérios de dimensão |
| Norma para microentidades | regime ainda mais simples | entidades que cumprem os critérios mais restritos |
| NCRF-ESNL (Entidades do Setor Não Lucrativo) | regras adaptadas a associações, fundações e semelhantes | entidades sem fins lucrativos |
| Normas Interpretativas | esclarecem pontos de aplicação das normas | quando a aplicação gera dúvidas |
Como escolher o regime aplicável a uma entidade
A pergunta "qual das normas aplico?" é das primeiras que se faz ao receber um cliente ou um processo. O raciocínio segue sempre os mesmos passos:
- Tipo de entidade: é uma sociedade comercial, uma entidade sem fins lucrativos, uma entidade cotada ou sujeita a regras próprias? As entidades do setor não lucrativo têm norma específica.
- Dimensão: a lei define critérios de dimensão com base em três indicadores (total do balanço, volume de negócios líquido e número médio de empregados durante o período). O enquadramento depende de ultrapassar ou não os limites fixados na lei em períodos consecutivos. Os valores concretos alteram-se com o tempo e por isso consulta-se sempre a legislação em vigor.
- Obrigação de certificação legal de contas, consolidação ou admissão a mercado regulamentado: estas circunstâncias podem excluir regimes simplificados ou exigir normas internacionais.
- Opções permitidas: certas entidades podem optar por um regime mais exigente do que aquele em que se enquadram. A opção deve ser consciente e mantida de forma consistente.
Exemplo resolvido · Escolher o regime aplicável
Considera três entidades fictícias, descritas só pelo tipo e pela situação (sem valores, que dependem do diploma em vigor).
- Entidade A: sociedade por quotas que presta serviços a poucos clientes, sem certificação legal de contas, com dimensão claramente reduzida durante vários períodos.
- Entidade B: associação cultural sem fins lucrativos, com quotas dos associados e subsídios.
- Entidade C: sociedade anónima admitida a negociação num mercado regulamentado, que elabora contas consolidadas.
Resolução.
- A: parte-se da verificação dos critérios de dimensão. Se cumprir os da microentidade, poderá usar o regime respetivo; se não, verifica-se o regime de pequenas entidades (NCRF-PE) antes do regime geral das NCRF. A decisão é sempre fundamentada nos números reais e no diploma em vigor.
- B: aplica-se o regime próprio das entidades do setor não lucrativo.
- C: contas consolidadas de entidade cotada seguem as normas internacionais adotadas na União Europeia; as contas individuais seguem o regime que a legislação nacional fixar para essa entidade.
Estrutura do conjunto de contas
O conjunto das demonstrações financeiras completas inclui:
- Balanço: situação patrimonial numa data (ativo, capital próprio e passivo).
- Demonstração dos resultados (por naturezas ou por funções): desempenho de um período.
- Demonstração das alterações no capital próprio: variações das rubricas de capital próprio.
- Demonstração dos fluxos de caixa: entradas e saídas de dinheiro por atividade.
- Anexo: informação adicional, políticas contabilísticas e notas explicativas.
Os regimes simplificados dispensam algumas destas peças, e o diploma em vigor indica quais.
Quem cumpre o quê: responsabilidades
A responsabilidade pela preparação e apresentação das demonstrações financeiras é da gestão da entidade. O contabilista certificado assegura que a contabilidade está organizada de acordo com as normas e assina os documentos de prestação de contas quando a lei o exige. O auditor ou revisor emite opinião independente, nos casos em que a certificação é obrigatória. O assistente de contabilidade, que é o papel mais comum de quem termina este nível de formação, prepara a informação, regista as operações e colabora na elaboração dos documentos, sempre dentro dos procedimentos definidos.
4. Estrutura conceptual: pressupostos, características e elementos das demonstrações financeiras
Para que serve uma estrutura conceptual
A Estrutura Conceptual é a base teórica do sistema. Enuncia o objetivo das demonstrações financeiras, define os conceitos fundamentais e orienta a interpretação das normas. Quando uma norma é omissa ou ambígua, recorre-se à estrutura conceptual para decidir. Por isso, dominá-la dá autonomia: permite resolver casos novos sem esperar que alguém diga o que fazer.
Pressupostos subjacentes
São os dois já vistos:
- Regime do acréscimo (periodização económica);
- Continuidade.
Características qualitativas da informação
A informação financeira deve possuir um conjunto de qualidades para ser útil:
| Característica | O que significa | Pergunta de controlo |
|---|---|---|
| Compreensibilidade | quem tem conhecimento razoável da atividade consegue perceber | um leitor atento entende esta rubrica? |
| Relevância | influencia as decisões dos utilizadores | muda alguma decisão se faltar? |
| Materialidade | a omissão ou o erro poderia influenciar decisões | o valor é significativo no contexto? |
| Fiabilidade | está isenta de erros materiais e de viés | confirma-se com os documentos? |
| Representação fidedigna | as transações são retratadas como realmente aconteceram | o registo mostra o que se passou? |
| Substância sobre a forma | contabilizar a realidade económica e não só a forma jurídica | o contrato diz uma coisa e a realidade outra? |
| Neutralidade | sem enviesamento a favor de ninguém | alguém é favorecido pela escolha? |
| Prudência | cautela nas estimativas, sem criar reservas ocultas | os rendimentos estão sobrestimados? |
| Plenitude | nada de relevante foi omitido | falta alguma operação do período? |
| Comparabilidade | permite comparar no tempo e entre entidades | os critérios são os mesmos do ano passado? |
Estas dez qualidades não estão todas ao mesmo nível. As principais são quatro: compreensibilidade, relevância, fiabilidade e comparabilidade. As outras são atributos destas: a materialidade é um aspeto da relevância, e a representação fidedigna, a substância sobre a forma, a neutralidade, a prudência e a plenitude são atributos da fiabilidade. Quando numa pergunta de avaliação te pedirem "as principais características qualitativas", são as quatro.
Estas características por vezes entram em tensão. A prudência não autoriza esconder lucros, e a relevância não autoriza dispensar a fiabilidade. Cabe ao profissional ponderá-las e documentar a decisão.
Os elementos das demonstrações financeiras
As operações são classificadas em cinco elementos:
| Elemento | Definição resumida | Exemplos |
|---|---|---|
| Ativo | recurso controlado pela entidade, resultante de acontecimentos passados, do qual se esperam benefícios económicos futuros | caixa, clientes, inventários, equipamentos |
| Passivo | obrigação presente da entidade, resultante de acontecimentos passados, cuja liquidação se espera que envolva saída de recursos | fornecedores, empréstimos, impostos a pagar |
| Capital próprio | interesse residual nos ativos depois de deduzir os passivos | capital realizado, reservas, resultados transitados |
| Rendimentos | aumentos de benefícios económicos no período, sob a forma de entradas ou aumentos de ativos ou diminuições de passivos, que resultam em aumentos de capital próprio (exceto contribuições dos detentores de capital) | vendas, prestações de serviços, juros recebidos |
| Gastos | diminuições de benefícios económicos no período, que resultam em diminuições de capital próprio (exceto distribuições aos detentores de capital) | custo das mercadorias, rendas, salários, depreciações |
A relação fundamental entre os três primeiros é a equação contabilística:
Ativo = Passivo + Capital próprio
E a ligação ao desempenho é esta: Resultado do período = Rendimentos − Gastos, e o resultado, depois de apurado, integra o capital próprio.
Exemplo resolvido · Classificar as rubricas e verificar a equação
A Empresa Alfa apresenta, numa dada data, as seguintes rubricas (valores em EUR):
- Caixa: 1 500
- Depósitos à ordem: 8 500
- Clientes: 12 000
- Mercadorias em armazém: 9 000
- Equipamento (valor de aquisição): 30 000
- Depreciações acumuladas do equipamento: 6 000
- Fornecedores: 11 000
- Empréstimo bancário a pagar em cinco anos: 20 000
- Capital: 15 000
- Resultados transitados: 4 000
- Resultado líquido do período: 5 000
Passo 1. Classificar. Caixa, depósitos, clientes, mercadorias e equipamento são ativos. As depreciações acumuladas são uma dedução ao ativo. Fornecedores e empréstimo são passivos. Capital, resultados transitados e resultado líquido são capital próprio.
Passo 2. Totalizar o ativo. 1 500 + 8 500 + 12 000 + 9 000 + 30 000 − 6 000 = 55 000.
Passo 3. Totalizar o passivo. 11 000 + 20 000 = 31 000.
Passo 4. Totalizar o capital próprio. 15 000 + 4 000 + 5 000 = 24 000.
Passo 5. Verificar a equação. 31 000 + 24 000 = 55 000, que é igual ao ativo. ✓
Se o resultado não batesse, haveria um erro de classificação ou de omissão, e o primeiro passo seria rever a lista de rubricas.
Corrente e não corrente
No balanço, ativos e passivos separam-se, em regra, em correntes e não correntes. Um ativo é corrente se se espera realizá-lo, vendê-lo ou consumi-lo no ciclo normal de operações ou nos doze meses seguintes à data do balanço. Um passivo é corrente se se espera liquidá-lo nesse mesmo horizonte. O empréstimo do exemplo anterior, com vencimento a cinco anos, é passivo não corrente (a parte que vencer nos próximos doze meses é reclassificada como corrente).
Reconhecimento
Reconhecer um elemento é incluí-lo no balanço ou na demonstração dos resultados. Exige-se, em geral, que seja provável a entrada ou saída de benefícios económicos futuros e que o item tenha um custo ou valor que possa ser medido com fiabilidade. Se um desses requisitos falhar, o item não se reconhece como ativo ou passivo, mas pode ser divulgado no anexo.
Mensuração
Mensurar é atribuir um valor. As bases mais comuns são:
| Base | Significado | Exemplo típico |
|---|---|---|
| Custo histórico | valor pago ou recebido na data da transação | equipamento comprado |
| Custo corrente | valor que seria necessário pagar hoje | reposição de um bem |
| Valor realizável líquido | preço de venda estimado menos custos para vender | inventários com preço em queda |
| Justo valor | preço numa transação ordenada entre participantes do mercado | certos instrumentos financeiros |
| Valor presente | desconto de fluxos futuros | créditos a muito longo prazo |
Em regra, as normas indicam a base de mensuração para cada tipo de elemento. Ao profissional de nível 4 cabe reconhecer qual a base aplicável, preparar a informação para a aplicar e sinalizar quando a situação exige decisão de nível superior.
Manter o capital e o conceito de resultado
O resultado do período mede o aumento da riqueza da entidade, depois de preservado o capital inicial. É por isso que as distribuições aos sócios e as entradas de capital não são rendimentos nem gastos, mas movimentos de capital próprio. Um aumento de capital em dinheiro não é rendimento; o pagamento de dividendos não é gasto. Misturar estas duas categorias é um dos erros mais comuns de quem começa.
5. Instrumentos de suporte: Código de Contas, modelos e outros documentos
O que são instrumentos de suporte
Chamam-se instrumentos de suporte aos documentos e ferramentas que permitem aplicar o SNC no trabalho diário: o Código de Contas, os modelos de demonstrações financeiras, as normas e interpretações, a legislação, os manuais internos, os documentos de suporte aos lançamentos e o software. Um técnico competente sabe qual o instrumento certo para cada pergunta.
| Pergunta | Instrumento a consultar |
|---|---|
| Em que conta registo este gasto? | Código de Contas e plano de contas interno |
| Em que momento reconheço esta venda? | Norma contabilística sobre rédito e estrutura conceptual |
| Em que linha do balanço aparece este saldo? | Modelos de demonstrações financeiras |
| Que informação acompanha as contas? | Norma de apresentação e modelos do anexo |
| Este documento cumpre os requisitos legais? | Legislação sobre faturação e documentos de suporte |
| Quem aprova este lançamento? | Manual de procedimentos da entidade |
O Código de Contas
O Código de Contas é a lista oficial de contas do SNC, organizada em classes (dígito 1 a 8), contas (dois dígitos), subcontas (três ou mais dígitos). Cada entidade pode desdobrar as subcontas para acompanhar a sua realidade (por exemplo, um desdobramento por cliente ou por banco), mas não pode alterar o sentido das contas oficiais.
| Classe | Designação | Natureza do conteúdo |
|---|---|---|
| 1 | Meios financeiros líquidos | caixa, depósitos à ordem, outros depósitos |
| 2 | Contas a receber e a pagar | clientes, fornecedores, pessoal, Estado, financiamentos |
| 3 | Inventários e ativos biológicos | compras, mercadorias, matérias-primas, produtos |
| 4 | Investimentos | ativos fixos tangíveis e intangíveis, investimentos financeiros, depreciações |
| 5 | Capital, reservas e resultados transitados | capital, reservas, resultados transitados |
| 6 | Gastos | custo das mercadorias, serviços externos, pessoal, depreciações, financiamento |
| 7 | Rendimentos | vendas, prestações de serviços, outros rendimentos |
| 8 | Resultados | apuramento do resultado do período |
Quando a entidade usa contabilidade de gestão (analítica), costuma reservar uma classe adicional para esse fim, a definir internamente.
Contas mais usadas
Para o dia a dia de um gabinete, convém conhecer de cor as contas seguintes:
| Código | Designação |
|---|---|
| 11 | Caixa |
| 12 | Depósitos à ordem |
| 21 | Clientes |
| 22 | Fornecedores |
| 23 | Pessoal |
| 24 | Estado e outros entes públicos |
| 25 | Financiamentos obtidos |
| 27 | Outras contas a receber e a pagar |
| 28 | Diferimentos |
| 31 | Compras |
| 32 | Mercadorias |
| 43 | Ativos fixos tangíveis |
| 438 (em 43) | Depreciações acumuladas |
| 51 | Capital subscrito |
| 55 | Reservas |
| 56 | Resultados transitados |
| 61 | Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas |
| 62 | Fornecimentos e serviços externos |
| 63 | Gastos com o pessoal |
| 64 | Gastos de depreciação e de amortização |
| 68 | Outros gastos |
| 69 | Gastos de financiamento |
| 71 | Vendas |
| 72 | Prestações de serviços |
| 78 | Outros rendimentos |
| 79 | Juros, dividendos e outros rendimentos similares |
| 81 | Resultado líquido do período |
As depreciações acumuladas dos ativos fixos tangíveis registam-se na subconta 438 da conta 43; as amortizações acumuladas dos ativos intangíveis, na subconta 448 da conta 44.
A designação da conta 61 é a mesma que aparece na demonstração dos resultados por naturezas: a linha do modelo chama-se igualmente "Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas".
Dentro da conta 24, as subcontas do IVA são particularmente usadas: 2432 (IVA dedutível), 2433 (IVA liquidado) e as que servem para o apuramento e para o IVA a pagar ou a recuperar.
Como funciona um lançamento: débito e crédito
A contabilidade usa o método das partidas dobradas: cada operação afeta pelo menos duas contas, e o total dos débitos é sempre igual ao total dos créditos. A regra geral é:
| Tipo de conta | Aumenta com | Diminui com | Saldo normal |
|---|---|---|---|
| Ativo (classes 1 a 4, parte de 2) | débito | crédito | devedor |
| Passivo (parte da classe 2) | crédito | débito | credor |
| Capital próprio (classe 5) | crédito | débito | credor |
| Gastos (classe 6) | débito | crédito | devedor |
| Rendimentos (classe 7) | crédito | débito | credor |
Memoriza assim: o que a entidade tem (ativo) e o que ela gasta aumenta a débito; o que ela deve (passivo), o capital e o que ela ganha aumenta a crédito.
Exemplo resolvido · Compra e venda de mercadorias com IVA
Considera uma taxa de IVA de 23% (valor assumido apenas para este exemplo). A Empresa Alfa compra mercadorias a crédito por 2 000 EUR (sem IVA) e vende mercadorias a crédito por 3 000 EUR (sem IVA). Usa o método intermitente: as compras vão para a conta 31 e o custo das mercadorias vendidas regulariza-se no fim do período.
Passo 1. Calcular o IVA. Compra: 2 000 × 0,23 = 460; total a pagar ao fornecedor = 2 460. Venda: 3 000 × 0,23 = 690; total a receber do cliente = 3 690.
Passo 2. Lançar a compra.
| Conta | Débito | Crédito |
|---|---|---|
| 31 Compras | 2 000 | |
| 2432 IVA dedutível | 460 | |
| 22 Fornecedores | 2 460 | |
| Totais | 2 460 | 2 460 |
Passo 3. Lançar a venda.
| Conta | Débito | Crédito |
|---|---|---|
| 21 Clientes | 3 690 | |
| 71 Vendas | 3 000 | |
| 2433 IVA liquidado | 690 | |
| Totais | 3 690 | 3 690 |
Passo 4. Apurar o IVA. IVA liquidado (690) menos IVA dedutível (460) = 230 a pagar ao Estado. Se o dedutível excedesse o liquidado, a diferença seria um valor a recuperar.
Passo 5. Verificar. Em cada lançamento o total de débitos é igual ao total de créditos. É uma verificação obrigatória antes de gravar.
Exemplo resolvido · Apuramento do custo das mercadorias vendidas
No fim do período, a Empresa Alfa tem: inventário inicial de mercadorias, 4 000; compras do período, 26 000; inventário final contado e valorizado, 5 500.
Passo 1. Aplicar a fórmula. Custo das mercadorias vendidas = inventário inicial + compras − inventário final = 4 000 + 26 000 − 5 500 = 24 500.
Passo 2. Lançar as regularizações.
| Conta | Débito | Crédito |
|---|---|---|
| 61 Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas | 4 000 | |
| 32 Mercadorias | 4 000 | |
| 61 Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas | 26 000 | |
| 31 Compras | 26 000 | |
| 32 Mercadorias | 5 500 | |
| 61 Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas | 5 500 | |
| Totais | 35 500 | 35 500 |
Passo 3. Conferir. Débitos na conta 61: 4 000 + 26 000 = 30 000; créditos: 5 500. O saldo devedor é 24 500, igual ao calculado no passo 1. A conta 32 fica com 5 500, o valor do inventário final.
Exemplo resolvido · Depreciação pelo método da linha reta
A Empresa Alfa adquire um equipamento por 12 000 EUR, com vida útil estimada de cinco anos e valor residual nulo.
Passo 1. Calcular a depreciação anual. (12 000 − 0) ÷ 5 = 2 400.
Passo 2. Lançar no final de cada ano.
| Conta | Débito | Crédito |
|---|---|---|
| 64 Gastos de depreciação e de amortização | 2 400 | |
| 438 Depreciações acumuladas | 2 400 | |
| Totais | 2 400 | 2 400 |
Passo 3. Acompanhar o valor contabilístico.
| Fim do ano | Depreciação do ano | Depreciação acumulada | Valor líquido |
|---|---|---|---|
| 1 | 2 400 | 2 400 | 9 600 |
| 2 | 2 400 | 4 800 | 7 200 |
| 3 | 2 400 | 7 200 | 4 800 |
| 4 | 2 400 | 9 600 | 2 400 |
| 5 | 2 400 | 12 000 | 0 |
A depreciação distribui o custo do bem pelos períodos que beneficiam do seu uso, em respeito do regime do acréscimo. O tratamento detalhado (vida útil, valor residual, método) está na norma contabilística sobre ativos fixos tangíveis, e as taxas máximas aceites em termos fiscais estão na legislação fiscal, por vezes diferentes das contabilísticas.
O balancete e a verificação de saldos
O balancete é a lista de todas as contas com os respetivos movimentos e saldos num momento. Serve para verificar se a contabilidade está equilibrada e como ponto de partida das demonstrações financeiras. Num balancete correto, o total dos saldos devedores é igual ao total dos saldos credores.
Exemplo de um balancete de verificação (valores em EUR, já com o imposto sobre o rendimento do período lançado):
| Conta | Saldo devedor | Saldo credor |
|---|---|---|
| 12 Depósitos à ordem | 14 000 | |
| 21 Clientes | 18 000 | |
| 32 Mercadorias | 8 000 | |
| 43 (431 a 437) Ativos fixos tangíveis | 50 000 | |
| 438 Depreciações acumuladas | 10 000 | |
| 22 Fornecedores | 14 000 | |
| 24 Estado e outros entes públicos | 3 700 | |
| 25 Financiamentos obtidos | 15 000 | |
| 27 Outras contas a receber e a pagar | 4 300 | |
| 51 Capital subscrito | 30 000 | |
| 55 Reservas | 2 000 | |
| 56 Resultados transitados | 4 200 | |
| 61 Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas | 60 000 | |
| 62 Fornecimentos e serviços externos | 22 000 | |
| 63 Gastos com o pessoal | 30 000 | |
| 64 Gastos de depreciação e de amortização | 5 000 | |
| 68 Outros gastos | 3 000 | |
| 69 Gastos de financiamento | 1 500 | |
| 812 Imposto sobre o rendimento do período | 1 700 | |
| 71 Vendas | 120 000 | |
| 72 Prestações de serviços | 10 000 | |
| Totais | 213 200 | 213 200 |
Conferência. Devedores: 14 000 + 18 000 + 8 000 + 50 000 + 60 000 + 22 000 + 30 000 + 5 000 + 3 000 + 1 500 + 1 700 = 213 200. Credores: 10 000 + 14 000 + 3 700 + 15 000 + 4 300 + 30 000 + 2 000 + 4 200 + 120 000 + 10 000 = 213 200. Os totais batem.
Atenção: um balancete equilibrado não prova que todos os lançamentos existem. Se faltasse por completo o lançamento do imposto (débito 812 e crédito 24, de 1 700), os totais desceriam 1 700 de cada lado, com devedores de 211 500 e credores de 211 500, e o balancete continuaria a fechar. Só uma diferença entre os totais denuncia um lançamento incompleto, gravado de um só lado: se estivesse lançado o débito 812 sem o crédito na conta 24, os devedores somariam 213 200, os credores 211 500 e a diferença de 1 700 apontaria para a partida que falta. É assim que se usa o balancete na prática: uma diferença não é um incómodo, é uma pista. Procura-se um lançamento com o valor da diferença, ou com metade dela (um valor lançado ao contrário desequilibra no dobro), ou, quando a diferença é múltipla de 9, uma troca de posição entre dois dígitos.
Modelos de demonstrações financeiras
Os modelos oficiais definem a estrutura exata do balanço, da demonstração dos resultados e das demais peças. Cada linha do modelo tem uma designação e, em geral, corresponde a uma ou várias contas do Código de Contas. Por isso o software costuma incluir uma tabela de correspondência (mapeamento) entre contas e linhas dos modelos. Uma conta mal mapeada faz o saldo aparecer na linha errada, mesmo que o balancete esteja certo.
Exemplo: o saldo da conta 21 Clientes aparece no balanço, nos ativos correntes, na linha dos clientes; o saldo da conta 22 Fornecedores aparece no passivo corrente, na linha dos fornecedores; os saldos das contas 71 e 72 contribuem para a linha "Vendas e serviços prestados" da demonstração dos resultados.
Exemplo resolvido · Construir a demonstração dos resultados e o balanço a partir do balancete
Usando o balancete anterior (depois de lançado o imposto):
Demonstração dos resultados por naturezas (EUR):
| Rubrica | Valor |
|---|---|
| Vendas e serviços prestados (120 000 + 10 000) | 130 000 |
| Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas | (60 000) |
| Fornecimentos e serviços externos | (22 000) |
| Gastos com o pessoal | (30 000) |
| Gastos de depreciação e de amortização | (5 000) |
| Outros gastos | (3 000) |
| Resultado antes de gastos de financiamento e impostos | 10 000 |
| Gastos de financiamento | (1 500) |
| Resultado antes de impostos | 8 500 |
| Imposto sobre o rendimento do período | (1 700) |
| Resultado líquido do período | 6 800 |
Balanço (EUR):
| Rubrica | Valor |
|---|---|
| Ativos fixos tangíveis (50 000 − 10 000) | 40 000 |
| Inventários (mercadorias) | 8 000 |
| Clientes | 18 000 |
| Caixa e depósitos bancários | 14 000 |
| Total do ativo | 80 000 |
| Capital realizado | 30 000 |
| Reservas | 2 000 |
| Resultados transitados | 4 200 |
| Resultado líquido do período | 6 800 |
| Total do capital próprio | 43 000 |
| Financiamentos obtidos (não corrente) | 15 000 |
| Fornecedores | 14 000 |
| Estado e outros entes públicos (3 700 no balancete, que incluem o imposto de 1 700 a pagar) | 3 700 |
| Outras contas a pagar | 4 300 |
| Total do passivo | 37 000 |
| Total do capital próprio e do passivo | 80 000 |
Verificação. Ativo (80 000) = capital próprio (43 000) + passivo (37 000). ✓ O ciclo está fechado: balancete, demonstração dos resultados, balanço.
O anexo e as políticas contabilísticas
O anexo é a peça mais negligenciada pelos principiantes, e é onde a entidade explica as políticas contabilísticas adotadas (por exemplo, o método de depreciação), as estimativas relevantes, o referencial contabilístico aplicado e as notas às rubricas mais significativas. Quando uma entidade muda de política contabilística, deve divulgar a mudança, o motivo e o efeito. A coerência entre o anexo e as demonstrações (os números têm de bater) é uma verificação que se faz sempre antes de fechar um dossiê.
Manuais internos e documentos de suporte
Os manuais de procedimentos fixam, para cada entidade, quem faz o quê, em que prazo e com que aprovação. Os documentos de suporte (faturas, recibos, extratos, contratos, folhas de vencimentos, guias de pagamento) provam que a operação existiu. A regra de ouro é: nenhum lançamento sem documento de suporte válido. Um documento válido tem a identificação do emitente e do adquirente, a descrição do bem ou serviço, a data, os valores e o imposto, de acordo com a legislação de faturação em vigor.
6. Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro (NCRF)
O que são as NCRF
As Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro (NCRF) são as normas do SNC que tratam, tema a tema, do reconhecimento, da mensuração e da divulgação das operações e dos elementos das demonstrações financeiras. Estão estruturadas com base nas normas internacionais de contabilidade adotadas na União Europeia, adaptadas ao contexto nacional. Cada norma tem um número e um título, mas o que se aprende é o tema de cada uma: o número e o detalhe consultam-se no texto oficial, na redação em vigor.
Como se lê uma norma
Quase todas as normas seguem o mesmo esqueleto, o que facilita muito a consulta:
- Objetivo: o que a norma pretende regular.
- Âmbito: a que operações ou entidades se aplica (e o que fica de fora).
- Definições: termos com sentido preciso (por exemplo, o que é "valor realizável líquido").
- Reconhecimento: quando se regista o elemento.
- Mensuração: por que valor, inicialmente e depois.
- Divulgação: o que tem de constar do anexo.
- Data de eficácia e transição: a partir de quando se aplica e como se muda.
Quando procuras uma resposta, vai primeiro às definições e ao reconhecimento, e só depois à mensuração. Muitos erros nascem de aplicar o valor certo ao momento errado.
Temas tratados pelas NCRF
| Tema | O que regula, em termos simples |
|---|---|
| Estrutura e conteúdo das demonstrações financeiras | como se apresentam as demonstrações |
| Demonstração dos fluxos de caixa | classificação em atividades operacionais, de investimento e de financiamento |
| Políticas contabilísticas, alterações em estimativas e erros | como tratar mudanças e correções |
| Inventários | custeio, fórmulas de custo e valor realizável líquido |
| Ativos fixos tangíveis | custo, depreciação, abates e vendas |
| Ativos intangíveis | critérios de reconhecimento e amortização |
| Locações | classificação e tratamento |
| Rédito | quando e por que valor reconhecer vendas e serviços |
| Subsídios e apoios do Governo | reconhecimento e apresentação |
| Imposto sobre o rendimento | imposto corrente e diferido |
| Provisões, passivos contingentes e ativos contingentes | obrigações incertas |
| Acontecimentos após a data do balanço | eventos posteriores ao fecho |
| Efeitos de alterações em taxas de câmbio | operações em moeda estrangeira |
| Custos de empréstimos obtidos | capitalização ou gasto |
| Imparidade de ativos | perdas de valor |
| Instrumentos financeiros | classificação e mensuração |
| Partes relacionadas | divulgação de transações |
| Concentrações e consolidação | contas de grupos |
Para quem trabalha ao nível de assistente, os temas mais frequentes no quotidiano são: apresentação das demonstrações, inventários, ativos fixos, rédito, imposto, provisões, acontecimentos após o balanço, moeda estrangeira e correção de erros.
Exemplo resolvido · Fórmulas de custo dos inventários
Uma entidade tem mercadorias da mesma referência e regista em unidades e em euros:
| Data | Operação | Unidades | Custo unitário (EUR) |
|---|---|---|---|
| 1 jan | Existência inicial | 100 | 10,00 |
| 10 jan | Compra | 200 | 12,00 |
| 20 jan | Compra | 100 | 13,00 |
| 31 jan | Saídas (vendas) no mês | 250 |
Passo 1. Custo total disponível. 100 × 10 = 1 000; 200 × 12 = 2 400; 100 × 13 = 1 300. Total = 4 700 para 400 unidades.
Passo 2. Custo médio ponderado (calculado no fim do mês). 4 700 ÷ 400 = 11,75 por unidade. Custo das saídas = 250 × 11,75 = 2 937,50. Inventário final = 150 × 11,75 = 1 762,50. Soma: 2 937,50 + 1 762,50 = 4 700. ✓
Passo 3. FIFO (primeiro a entrar, primeiro a sair). As 250 unidades que saem são as mais antigas: 100 × 10 = 1 000, mais 150 × 12 = 1 800, total 2 800. O inventário final fica com 50 unidades a 12 (600) e 100 a 13 (1 300), total 1 900. Soma: 2 800 + 1 900 = 4 700. ✓
Passo 4. Comparar.
| Fórmula | Custo das saídas | Inventário final | Efeito no resultado |
|---|---|---|---|
| Custo médio ponderado | 2 937,50 | 1 762,50 | resultado menor |
| FIFO | 2 800,00 | 1 900,00 | resultado maior |
Com preços a subir, o FIFO dá um custo das saídas menor (2 800 contra 2 937,50) e, por isso, um resultado maior. A escolha da fórmula é uma política contabilística: escolhe-se uma e aplica-se de forma consistente. Mudar de fórmula só se justifica por razões fundamentadas e exige divulgação.
Exemplo resolvido · Valor realizável líquido e perda por imparidade
Uma mercadoria tem custo de aquisição de 1 800 EUR. No fecho do período, estima-se vendê-la por 2 000 EUR, com custos de venda de 300 EUR.
Passo 1. Valor realizável líquido. 2 000 − 300 = 1 700.
Passo 2. Comparar com o custo. Os inventários mensuram-se pelo menor do custo e do valor realizável líquido. Menor entre 1 800 e 1 700 = 1 700.
Passo 3. Perda. 1 800 − 1 700 = 100, a registar como gasto do período (perda por imparidade de inventários), com contrapartida numa conta de perdas por imparidade acumuladas.
Se, no período seguinte, o valor realizável líquido recuperar, a perda é revertida até ao limite do custo original.
Exemplo resolvido · Acontecimentos após a data do balanço
O balanço de uma entidade fecha em 31 de dezembro e as contas são autorizadas para emissão em março. Classifica os acontecimentos como ajustantes (exigem alterar as contas) ou não ajustantes (só divulgação, se relevantes).
- Em fevereiro, um cliente com dívida de dezembro é declarado insolvente.
- Em fevereiro, um incêndio destrói parte do armazém, que estava intacto em 31 de dezembro.
- Em janeiro, conclui-se um litígio que já existia em dezembro, com decisão desfavorável e valor superior ao estimado.
- Em fevereiro, a entidade decide emitir novas ações.
Resolução.
- Ajustante: confirma que o crédito já estava em risco em dezembro. Há que reconhecer a perda (imparidade) nas contas de dezembro.
- Não ajustante: a condição (o incêndio) não existia no balanço. Divulga-se a natureza e o efeito estimado, se relevante.
- Ajustante: o litígio era uma situação existente em dezembro, e a decisão fornece prova adicional do valor a registar.
- Não ajustante: é uma decisão posterior, de capital; divulga-se se for relevante.
O critério é sempre o mesmo: o acontecimento fornece prova de uma condição que já existia na data do balanço?
Exemplo resolvido · Reconhecer ou não uma provisão
Uma provisão reconhece-se quando se cumprem três condições em simultâneo: (a) a entidade tem uma obrigação presente resultante de um acontecimento passado; (b) é provável uma saída de recursos para a liquidar; (c) pode fazer-se uma estimativa fiável. Aplica a regra aos casos:
| Caso | Obrigação presente? | Saída provável? | Estimativa fiável? | Tratamento |
|---|---|---|---|---|
| Garantia dada a clientes por vendas já realizadas, com histórico de reparações | sim | sim | sim | provisão |
| Litígio em curso em que o advogado considera improvável a condenação | possível | não | passivo contingente: divulgar, não provisionar | |
| Intenção de reestruturar sem plano formal comunicado | não | nada a reconhecer | ||
| Litígio perdido em primeira instância, com decisão definitiva esperada contra a entidade e valor estimável | sim | sim | sim | provisão |
Os ativos contingentes (ganhos possíveis) nunca se reconhecem enquanto não forem praticamente certos, por razões de prudência. Só podem ser divulgados se a entrada de benefícios for provável.
Políticas contabilísticas, estimativas e erros
Três situações parecem semelhantes e têm tratamentos diferentes:
| Situação | Exemplo | Tratamento |
|---|---|---|
| Alteração de política contabilística | passar de uma fórmula de custeio para outra | aplica-se retrospetivamente, como se sempre tivesse sido usada, e divulga-se |
| Alteração de estimativa | rever a vida útil de uma máquina de cinco para sete anos | aplica-se prospetivamente, a partir do período da alteração |
| Erro de períodos anteriores | esquecer uma fatura de fornecedor no ano passado | corrige-se retrospetivamente, reexpressando os períodos comparativos quando material |
Perante dúvida, pergunta: mudou o critério, mudou a estimativa ou havia um erro? A resposta decide o tratamento.
Exemplo resolvido · Revisão da vida útil
Um equipamento adquirido por 12 000 EUR é depreciado em cinco anos, a 2 400 por ano. No fim do ano 2, a entidade conclui que o equipamento durará, no total, sete anos (valor residual nulo).
Passo 1. Valor líquido no início do ano 3. 12 000 − (2 × 2 400) = 7 200.
Passo 2. Vida útil restante. 7 − 2 = 5 anos.
Passo 3. Nova depreciação anual. 7 200 ÷ 5 = 1 440, a aplicar a partir do ano 3. Os anos 1 e 2 não são alterados.
É uma alteração de estimativa, tratada prospetivamente. Divulga-se no anexo a natureza e o efeito da alteração.
Moeda estrangeira
Uma operação em moeda estrangeira regista-se na moeda funcional (para a maioria das entidades portuguesas, o euro) à taxa de câmbio da data da transação. Na data do balanço, os saldos monetários em moeda estrangeira (clientes, fornecedores, depósitos) reexprimem-se à taxa de câmbio de fecho, e a diferença é reconhecida em resultados.
Exemplo. Em novembro, uma entidade compra mercadorias a um fornecedor estrangeiro por 5 000 unidades de moeda estrangeira, à taxa de 0,90 euros por unidade, ou seja, 4 500 EUR. Em 31 de dezembro, a taxa é 0,92. A dívida passa a valer 5 000 × 0,92 = 4 600 EUR. A diferença de 100 EUR é um gasto cambial do período (a dívida aumentou), debitado a uma conta de gastos e creditado ao fornecedor.
Exemplo resolvido · Escolher a norma para uma situação nova
Chega ao gabinete uma pergunta: "A empresa recebeu um subsídio do Estado para comprar uma máquina. Como se regista?" O raciocínio é o de um técnico que procura a regra, não de quem adivinha:
- Identificar o tema: é um apoio do Governo ligado a um ativo, logo, a norma sobre subsídios e apoios do Governo.
- Ler as definições: perceber a diferença entre subsídio relacionado com ativos e subsídio relacionado com rendimentos.
- Ler o reconhecimento: o subsídio só se reconhece quando há segurança razoável de que as condições serão cumpridas e o subsídio será recebido.
- Ler a mensuração e a apresentação: o subsídio relacionado com ativos reconhece-se, em geral, como rendimento ao longo da vida útil do ativo, ficando o saldo ainda por reconhecer apresentado de acordo com o tratamento que a norma prevê.
- Consultar o anexo: ver o que é preciso divulgar.
- Registar a decisão na pasta do cliente, com a referência da norma e a versão consultada.
O procedimento é transversal: tema, definições, reconhecimento, mensuração, divulgação, registo.
7. NCRF-PE, microentidades e entidades do setor não lucrativo
A lógica da proporcionalidade
Exigir a uma papelaria de bairro o mesmo conjunto de contas que se exige a um grupo industrial seria desproporcionado: o custo de preparar e auditar informação detalhada excederia o seu benefício para quem a lê. É esta a ideia por trás dos regimes simplificados do SNC: manter a mesma estrutura de pensamento (a estrutura conceptual, o Código de Contas, os modelos), mas com menos exigências de reconhecimento, mensuração e divulgação para entidades de menor dimensão.
A NCRF-PE
A Norma Contabilística e de Relato Financeiro para Pequenas Entidades (NCRF-PE) é a versão simplificada das NCRF, aplicável às entidades que cumprem os critérios de dimensão definidos na lei. Em termos práticos:
- reúne, num único documento, as regras que as pequenas entidades mais utilizam;
- elimina ou simplifica matérias raras em pequenas entidades (por exemplo, certas operações complexas com instrumentos financeiros ou combinações de negócios);
- reduz as divulgações exigidas no anexo;
- permite, em certos casos, a aplicação voluntária de uma NCRF para matérias que a NCRF-PE não trate ou trate de forma simplificada, nos termos que a própria norma prevê;
- mantém o essencial: a estrutura conceptual, os pressupostos, as características qualitativas, o Código de Contas e os modelos.
Para saber, tema a tema, o que muda entre NCRF e NCRF-PE, o texto oficial na redação em vigor é a única fonte fiável. Em sala de aula e no trabalho, constrói uma tabela comparativa pessoal, atualizada sempre que a norma se alterar.
O regime das microentidades
As microentidades são as entidades de menor dimensão, definidas por critérios ainda mais restritos que os das pequenas entidades. Têm uma norma contabilística própria, mais simples ainda, que permite um conjunto de demonstrações financeiras reduzido e dispensa várias exigências. Algumas entidades que cumpram os critérios podem optar por não aplicar o regime, escolhendo o das pequenas entidades ou o geral. A opção é registada e mantida de forma consistente.
As entidades do setor não lucrativo
As entidades do setor não lucrativo, no âmbito definido na própria norma, têm uma norma específica, a NCRF-ESNL, que adapta os conceitos à sua realidade: em vez de lucro, falam de resultado e de fundos patrimoniais; em vez de sócios com capital, falam de associados, quotas e subsídios. O Código de Contas tem contas específicas para estas entidades.
Quadro comparativo dos regimes
| Aspeto | Regime geral (NCRF) | Pequenas entidades (NCRF-PE) | Microentidades | Setor não lucrativo (ESNL) |
|---|---|---|---|---|
| Destinatários | entidades que excedem os limites de dimensão ou que o exijam por natureza | entidades que cumprem os critérios de dimensão | entidades de dimensão mais reduzida, nos termos da lei | associações, fundações e semelhantes |
| Complexidade | maior | menor | mínima | adaptada ao setor |
| Demonstrações | conjunto completo | conjunto completo ou reduzido, conforme a lei | conjunto reduzido | conjunto próprio, com adaptações |
| Divulgações | extensas | reduzidas | mínimas | adaptadas |
| Base | normas internacionais adotadas na UE, adaptadas | versão simplificada das NCRF | norma própria muito simples | NCRF adaptadas ao setor |
Os conteúdos exatos de cada coluna dependem do diploma em vigor e devem ser verificados antes de cada trabalho.
Exemplo resolvido · Preparar a informação para uma pequena entidade
A Empresa Beta é uma sociedade por quotas de comércio a retalho. O gabinete recebe o processo de fecho do ano. Como assistente, deves preparar a informação para que o contabilista certificado decida o regime e feche as contas.
Passo 1. Reunir os indicadores de dimensão. Total do balanço no fim do ano, volume de negócios líquido do ano e número médio de empregados. Recolhe os valores do ano em curso e do anterior, porque o enquadramento depende de períodos consecutivos.
Passo 2. Registar numa ficha.
| Indicador | Ano anterior | Ano em curso | Fonte |
|---|---|---|---|
| Total do balanço | (preencher) | (preencher) | balanço |
| Volume de negócios líquido | (preencher) | (preencher) | demonstração dos resultados |
| Número médio de empregados | (preencher) | (preencher) | processamento salarial |
Passo 3. Cruzar com os limites do diploma em vigor. Verifica quantos dos três indicadores a entidade ultrapassa e se o faz em períodos consecutivos. A decisão sobre o regime é do contabilista certificado, mas tu entregas a ficha completa e fundamentada.
Passo 4. Verificar exceções. Existe obrigação de certificação legal de contas? A entidade pertence a um grupo com consolidação? Opta voluntariamente por um regime mais exigente?
Passo 5. Arquivar a ficha na pasta do cliente, com a data e a versão do diploma consultado. Quando alguém questionar o regime, a ficha responde.
Erros comuns na escolha do regime
- Usar os valores de um só ano para decidir, em vez dos períodos consecutivos que a lei considera.
- Esquecer que a natureza da entidade (por exemplo, associação) obriga a norma própria, independentemente da dimensão.
- Aplicar a NCRF-PE e continuar a apresentar divulgações do regime geral sem necessidade, ou o contrário, deixando o anexo curto demais para o regime aplicável.
- Mudar de regime a meio do exercício sem fundamentar.
8. Normas internacionais de contabilidade (IAS/IFRS)
Quem emite e como se chamam
As normas internacionais de contabilidade são emitidas por um organismo independente de normalização com sede em Londres, o International Accounting Standards Board (IASB), que sucedeu a um organismo anterior. As normas mais antigas chamam-se IAS (International Accounting Standards), as mais recentes chamam-se IFRS (International Financial Reporting Standards). Existem ainda interpretações (emitidas por um comité próprio) que esclarecem a aplicação das normas. Em conjunto, costuma dizer-se "as IAS/IFRS".
O que as torna obrigatórias na Europa
As normas internacionais não têm força legal por si. Na União Europeia, são adotadas através de um procedimento próprio e passam a vigorar por regulamento europeu. Esse regulamento obriga certas categorias de entidades, em especial as que têm valores admitidos à negociação em mercado regulamentado, a elaborar as contas consolidadas segundo as normas internacionais adotadas na União Europeia. Cada Estado-Membro pode permitir ou impor o seu uso a outras entidades e a contas individuais. Em Portugal, a legislação do SNC regula esta possibilidade; confirma sempre o enquadramento na redação em vigor.
Relação entre o SNC e as normas internacionais
O SNC foi construído com inspiração nas normas internacionais adotadas na União Europeia, o que significa:
- os conceitos (ativo, passivo, rédito, imparidade) são, no essencial, os mesmos;
- a estrutura das normas por tema é semelhante;
- o SNC faz adaptações ao contexto nacional e restringe algumas opções;
- as NCRF-PE e a norma das microentidades são simplificações nacionais.
Isto explica porque um profissional que domina o SNC lê com relativa facilidade contas feitas segundo as IFRS, e vice-versa, desde que conheça a terminologia.
Dicionário de termos
| Termo na versão inglesa | Equivalente em português do SNC |
|---|---|
| Statement of financial position | Balanço |
| Statement of profit or loss | Demonstração dos resultados |
| Statement of cash flows | Demonstração dos fluxos de caixa |
| Property, plant and equipment | Ativos fixos tangíveis |
| Intangible assets | Ativos intangíveis |
| Inventories | Inventários |
| Trade receivables | Clientes |
| Trade payables | Fornecedores |
| Revenue | Rédito |
| Impairment | Imparidade |
| Equity | Capital próprio |
| Provisions | Provisões |
| Fair value | Justo valor |
| Going concern | Continuidade |
| Accruals basis | Regime do acréscimo |
Exemplo resolvido · Traduzir uma rubrica entre referenciais
Um cliente estrangeiro envia as suas demonstrações segundo as normas internacionais. Uma das linhas diz Trade and other receivables: 245 000. Como a classificas nas contas portuguesas?
Passo 1. Traduzir o termo. Trade receivables corresponde a Clientes; other receivables corresponde a Outras contas a receber. Por isso a linha agrega as contas 21 (Clientes) e 27 (Outras contas a receber e a pagar, no que for crédito).
Passo 2. Pedir a decomposição. Só com o detalhe do anexo é possível separar os valores. Pede-o.
Passo 3. Registar a correspondência numa tabela de apoio, para reutilizar quando surgir a mesma linha.
Passo 4. Cuidado com as diferenças de critério. Mesmo que as palavras sejam as mesmas, o critério de mensuração pode divergir. Uma tradução rigorosa dos termos não substitui a verificação do critério.
Diferenças típicas de critério
Sem entrar no detalhe de cada norma, e apenas como orientação, as principais fontes de diferença entre referenciais costumam ser:
| Matéria | Fonte típica de diferença |
|---|---|
| Opções de mensuração | o referencial internacional pode permitir opções que o SNC restringe, ou o contrário |
| Divulgações | o nível de detalhe do anexo varia entre regimes |
| Instrumentos financeiros | regras de classificação e mensuração distintas conforme o regime aplicável |
| Modelos de demonstrações | linhas e ordem diferentes |
| Contas consolidadas | regras próprias dos grupos |
Porque interessa a um assistente de contabilidade
Mesmo que a entidade em que trabalhas aplique o regime das pequenas entidades, conhecer as normas internacionais ajuda em três situações: (a) clientes ou fornecedores estrangeiros que enviam informação em termos internacionais; (b) entidades portuguesas que fazem parte de grupos que reportam segundo as IFRS e te pedem informação adaptada; (c) a leitura de normas e interpretações que explicam, em mais pormenor, o espírito do SNC.
9. Legislação associada ao SNC
Mapa da legislação
A contabilidade vive entre vários diplomas. Para não te perderes, pensa na legislação em famílias:
| Família | Matérias | Exemplos de pergunta que responde |
|---|---|---|
| Contabilidade e relato | diploma que aprova o SNC, portarias do Código de Contas e dos modelos, avisos que publicam as normas | Que conta uso? Que modelo preencho? |
| Direito societário | Código das Sociedades Comerciais e legislação conexa | Que documentos de prestação de contas tem a sociedade? Quem os aprova? |
| Direito comercial | Código Comercial e legislação sobre escrituração | Que livros e registos são obrigatórios? |
| Fiscalidade | Código do IRC, Código do IRS, Código do IVA e legislação de faturação | Esta despesa é aceite? Este documento é válido? |
| Trabalho e segurança social | Código do Trabalho e legislação contributiva | Como processar salários e contribuições? |
| Conservação de documentos | legislação sobre arquivo de documentos administrativos e financeiros | Durante quanto tempo guardo este documento? |
| Profissional e auditoria | estatuto profissional dos contabilistas certificados e regime da auditoria | Quem assina? Quando é obrigatória a certificação? |
| Proteção de dados | regime de proteção de dados pessoais | Posso guardar e partilhar estes dados? |
Como consultar a legislação
- Partir sempre do texto consolidado em vigor, disponível no Diário da República eletrónico e nos portais oficiais.
- Anotar a data da consulta e a versão do diploma.
- Distinguir lei (diploma legal), portaria (regulamento do Governo), aviso (publicação de normas) e norma interpretativa.
- Quando a lei remete para outra, seguir a remissão até ao fim.
- Em caso de dúvida, perguntar ao contabilista certificado responsável, e não decidir sozinho.
Prestação de contas: o que é, em linha geral
A prestação de contas é o conjunto de documentos que a entidade tem de elaborar, aprovar e entregar nos termos da lei depois do fecho do exercício. Em linhas gerais, incluem:
- Relatório de gestão: descreve a evolução da atividade, a situação da entidade e perspetivas;
- Demonstrações financeiras do regime aplicável;
- Proposta de aplicação de resultados;
- Certificação legal de contas e relatório de auditoria, quando exigidos;
- Ata de aprovação das contas pelos sócios ou órgão competente;
- Entrega por via eletrónica no sistema previsto na lei (a chamada informação empresarial simplificada, que agrega obrigações perante várias entidades públicas).
Os prazos são fixados na lei e podem ser alterados. Em cada exercício, consulta o calendário de obrigações oficial e planeia as tarefas para trás, a partir da data-limite, com margem de segurança. Nunca copies datas do ano anterior sem confirmação.
Exemplo resolvido · Calendário interno de fecho
Para cumprir prazos, o gabinete cria um calendário interno que recua a partir do dia-limite legal. A tabela mostra a lógica (as datas ficam por preencher porque dependem do calendário oficial do ano):
| Tarefa | Responsável | Prazo interno | Dependência |
|---|---|---|---|
| Receber documentos do último trimestre | assistente | D − 60 dias | cliente |
| Conciliações bancárias | assistente | D − 50 dias | extratos |
| Regularizações de fim de ano (depreciações, acréscimos, inventário) | assistente | D − 40 dias | conferência do contabilista |
| Balancete de fecho verificado | contabilista certificado | D − 30 dias | regularizações |
| Demonstrações financeiras e anexo | assistente e contabilista | D − 20 dias | balancete |
| Aprovação pela gestão e ata | gestão | D − 10 dias | demonstrações |
| Submissão eletrónica | contabilista certificado | D − 5 dias | aprovação |
D é a data-limite oficial. Cada intervalo é um exemplo de planeamento, e não uma regra legal; o gabinete ajusta-os à sua realidade. O ponto essencial é que cada tarefa tem responsável, prazo e dependência.
Conservação e arquivo de documentos
A legislação sobre arquivo de documentos administrativos e financeiros impõe que os documentos de suporte sejam conservados durante o prazo legal e que estejam acessíveis e legíveis durante esse período. Isto aplica-se a documentos em papel e digitais. Boas práticas de arquivo:
- Classificar os documentos por entidade, ano e tipo.
- Numerar e referenciar cada documento ao lançamento que o suporta.
- Garantir a integridade: nenhum documento é alterado depois de arquivado. Se for preciso corrigir, cria-se um novo documento que referencia o anterior.
- Controlar o acesso, em respeito pela proteção de dados.
- Fazer cópias de segurança dos arquivos digitais e testar a recuperação.
- Registar a data de destruição quando o prazo terminar e usar processos seguros de eliminação.
Exemplo resolvido · Arquivo de uma fatura de fornecedor
A fatura de um fornecedor chega por email em formato eletrónico.
Passo 1. Verificar a validade. Identificação do fornecedor e da entidade adquirente (com número de identificação fiscal), descrição, data, valores, taxa e montante do imposto, número sequencial.
Passo 2. Atribuir referência interna. Por exemplo, tipo de documento, ano e número de ordem.
Passo 3. Lançar na contabilidade, indicando a referência no lançamento.
Passo 4. Arquivar o ficheiro na pasta digital correta (entidade, ano, fornecedores), com um nome que inclua a referência.
Passo 5. Fazer cópia de segurança e confirmar periodicamente que o ficheiro abre.
Passo 6. Conservar pelo prazo legal, registado na lista de retenção.
Software certificado e ficheiros normalizados
O software de faturação usado pelas entidades obrigadas deve cumprir os requisitos legais, incluindo a certificação quando aplicável, e permite exportar a informação num formato normalizado, o ficheiro de auditoria tributária (SAF-T). Quem trabalha com contabilidade deve saber que ficheiros se geram, com que periodicidade e quem os submete, para garantir que os dados contabilísticos e os de faturação batem entre si.
10. Fases de realização de um sistema de contabilidade segundo o SNC
Porque é um projeto
Implementar (ou adaptar) um sistema de contabilidade de acordo com o SNC não é carregar num botão. É um projeto, com início, fim, responsáveis, prazos e riscos. Acontece quando uma entidade nasce, quando muda de software, quando passa de um regime para outro, ou quando o sistema existente precisa de ser corrigido. O teu papel, ao nível de assistente, é colaborar: recolher informação, preparar tabelas, testar, registar e comunicar problemas, sob a coordenação de quem responde tecnicamente.
As fases
| Fase | O que se faz | Produto de saída |
|---|---|---|
| 1. Diagnóstico | conhecer a entidade: atividade, dimensão, regime, circuitos, sistemas atuais, pessoas | relatório de diagnóstico |
| 2. Planeamento | definir âmbito, tarefas, responsáveis, prazos e riscos | plano do projeto |
| 3. Políticas contabilísticas e plano de contas | escolher as políticas permitidas pelas normas; desdobrar o Código de Contas | manual de políticas e plano de contas interno |
| 4. Documentos e circuitos | definir os documentos de suporte, quem os recebe, aprova, regista e arquiva | manual de procedimentos |
| 5. Parametrização do software | configurar empresa, períodos, contas, diários, impostos, utilizadores, modelos | sistema parametrizado |
| 6. Migração e saldos de abertura | converter dados anteriores e carregar saldos iniciais | saldos de abertura validados |
| 7. Testes | lançamentos de teste, balancetes, demonstrações, comparação com o sistema anterior | relatório de testes |
| 8. Formação | ensinar os utilizadores a usar o sistema e os procedimentos | utilizadores formados |
| 9. Arranque | começar a trabalhar no sistema novo | sistema em produção |
| 10. Acompanhamento e melhoria | resolver dúvidas, afinar parâmetros, corrigir | lista de melhorias |
As fases não são rígidas nem estritamente sequenciais: os testes podem voltar a exigir ajustes na parametrização, e a formação começa antes do arranque. O que importa é que nenhuma fase seja saltada.
Fase 1: Diagnóstico
Perguntas que o diagnóstico responde:
- Qual a forma jurídica e a atividade (comércio, serviços, indústria, setor não lucrativo)?
- Em que regime se enquadra (geral, pequenas entidades, microentidades, ESNL)?
- Que sistemas existem (folha de cálculo, software antigo, software de faturação)?
- Que volumes de documentos, de clientes, de fornecedores e de lançamentos mensais existem?
- Quem faz o quê, hoje? Onde há atrasos ou erros recorrentes?
- Que obrigações periódicas têm de ser cumpridas e por quem?
A resposta a estas perguntas determina quanto trabalho vai ser preciso e que riscos existem.
Fase 3: Políticas contabilísticas e plano de contas
O SNC permite escolhas dentro de limites. Cada escolha deve ser registada e mantida. Por exemplo:
| Matéria | Opções frequentes (dentro do permitido) | Decisão a registar |
|---|---|---|
| Inventários | sistema permanente ou intermitente; fórmula de custeio | qual e porquê |
| Depreciação | método da linha reta ou outros previstos; vida útil por classe | método, vida útil e valor residual |
| Reconhecimento do rédito | momento da transferência do controlo; serviços ao longo do tempo | critério por tipo de venda |
| Moeda estrangeira | fonte da taxa de câmbio | fonte oficial adotada |
| Limiar de capitalização | valor a partir do qual um bem é ativo e não gasto | valor aprovado pela gestão |
O plano de contas interno desdobra o Código de Contas. Por exemplo, a conta 21 Clientes pode ter uma subconta por cliente; a conta 12 Depósitos à ordem, uma subconta por banco; a conta 62 Fornecimentos e serviços externos, subcontas por tipo de serviço (eletricidade, comunicações, rendas, limpeza). Regras úteis: uma numeração lógica e estável, designações claras, sem criar contas duplicadas e sem alterar o sentido das contas oficiais.
Fase 6: Migração e saldos de abertura
A fase da migração é a mais delicada, porque os erros ficam "escondidos" nos saldos. A técnica essencial é criar uma tabela de correspondência entre as contas antigas e as novas, e verificar que o total dos débitos e dos créditos iniciais é igual.
Exemplo resolvido · Tabela de correspondência e saldos de abertura
A Empresa Gama passa de um sistema antigo para um sistema parametrizado segundo o SNC. Os saldos antigos, em EUR, são:
| Conta antiga | Designação antiga | Saldo | Natureza |
|---|---|---|---|
| A1 | Caixa | 800 | devedor |
| A2 | Bancos | 6 200 | devedor |
| A3 | Clientes | 9 000 | devedor |
| A4 | Existências | 5 000 | devedor |
| A5 | Imobilizado corpóreo | 20 000 | devedor |
| A6 | Amortizações acumuladas | 4 000 | credor |
| A7 | Fornecedores | 7 000 | credor |
| A8 | Empréstimos | 8 000 | credor |
| A9 | Capital | 15 000 | credor |
| A10 | Resultados acumulados | 7 000 | credor |
Passo 1. Verificar o equilíbrio do sistema antigo. Devedores: 800 + 6 200 + 9 000 + 5 000 + 20 000 = 41 000. Credores: 4 000 + 7 000 + 8 000 + 15 000 + 7 000 = 41 000. ✓
Passo 2. Mapear para o Código de Contas.
| Conta antiga | Conta nova | Designação nova | Débito | Crédito |
|---|---|---|---|---|
| A1 | 11 | Caixa | 800 | |
| A2 | 12 | Depósitos à ordem | 6 200 | |
| A3 | 21 | Clientes | 9 000 | |
| A4 | 32 | Mercadorias | 5 000 | |
| A5 | 43 | Ativos fixos tangíveis | 20 000 | |
| A6 | 438 | Depreciações acumuladas | 4 000 | |
| A7 | 22 | Fornecedores | 7 000 | |
| A8 | 25 | Financiamentos obtidos | 8 000 | |
| A9 | 51 | Capital subscrito | 15 000 | |
| A10 | 56 | Resultados transitados | 7 000 | |
| Totais | 41 000 | 41 000 |
Passo 3. Reconciliar. Os totais coincidem com os do sistema antigo. Depois de carregados os saldos no software, imprime o balancete de abertura e compara linha a linha.
Passo 4. Conferir a equação. Ativo líquido = 41 000 − 4 000 = 37 000; passivo = 7 000 + 8 000 = 15 000; capital próprio = 15 000 + 7 000 = 22 000; 15 000 + 22 000 = 37 000. ✓
Passo 5. Documentar. Arquiva a tabela, o balancete de abertura e a assinatura de quem validou. Se mais tarde aparecer uma dúvida sobre os saldos, a tabela é a prova.
Fase 7: Testes
Testar é fazer, de propósito, o que depois se vai fazer a sério, mas numa cópia ou numa empresa de teste:
- Lançamentos de cada tipo: compras, vendas, pagamentos, recebimentos, regularizações.
- Impostos: IVA liquidado e dedutível, retenções, apuramentos.
- Documentos de saída: balancete, razão, balanço, demonstração dos resultados, mapas de IVA.
- Permissões: o utilizador A consegue fazer o que deve e não consegue fazer o que não deve?
- Comparação paralela: processar o mesmo mês no sistema antigo e no novo e comparar resultados.
- Casos extremos: documentos com valor zero, notas de crédito, anulações, operações em moeda estrangeira.
Cada teste regista-se: data, quem testou, resultado, correção.
Fase 8 e 9: Formação e arranque
A formação deve ser prática, com exemplos da própria entidade. Para o arranque, é aconselhável definir uma data de corte (normalmente no início de um mês ou de um exercício), garantir cópias de segurança do sistema antigo e acompanhar de perto as primeiras semanas.
Fase 10: Acompanhamento
Depois do arranque, as dúvidas surgem. Cria um registo de ocorrências: o que aconteceu, quem reportou, como foi resolvido. Ao fim de um mês, analisa os padrões. Se o mesmo erro se repete, a causa está na parametrização ou na formação, e não nos utilizadores.
Atitudes que marcam a diferença num projeto
- Responsabilidade: assumir as tarefas e comunicar atrasos cedo.
- Rigor: conferir totais, datas, nomes e referências.
- Sentido de organização: pastas, nomes de ficheiros e registos consistentes.
- Cooperação: partilhar dúvidas e soluções com a equipa.
- Sentido crítico: desconfiar de números que "não parecem certos".
- Resiliência e persistência: erros de migração são normais, e resolvem-se com método.
- Respeito pelas regras e normas definidas: o atalho de hoje é o problema de amanhã.
11. Software de gestão do SNC: características e funcionalidades
O que se espera de um bom software de contabilidade
O software de gestão contabilística é a ferramenta que transforma as regras do SNC em operações rápidas e consistentes. Um bom software:
- inclui o Código de Contas e permite desdobrá-lo;
- inclui os modelos de demonstrações financeiras e mapeia as contas para cada linha;
- garante a partida dobrada: não grava um lançamento desequilibrado;
- gere períodos contabilísticos, com bloqueio de períodos fechados;
- gere diários (compras, vendas, bancos, caixa, operações diversas, regularizações);
- gere terceiros (clientes, fornecedores, trabalhadores, entidades públicas) com ficha completa;
- trata o IVA: taxas, enquadramentos, mapas e declarações periódicas;
- importa ficheiros e documentos eletrónicos e exporta ficheiros normalizados;
- tem perfis de utilizador e registo de alterações (pista de auditoria);
- faz cópias de segurança e permite restaurar;
- emite mapas e listagens (balancete, razão, extratos de conta corrente, balanço, demonstração dos resultados).
Funcionalidades essenciais, uma a uma
| Funcionalidade | Para que serve | Cuidado a ter |
|---|---|---|
| Criação da empresa e do exercício | define identificação fiscal, regime, datas | datas e regime errados contaminam tudo |
| Plano de contas | contas disponíveis para lançar | evitar contas duplicadas |
| Parametrização do IVA | taxas, códigos de enquadramento, contas | rever sempre quando a lei muda |
| Diários | agrupam lançamentos por tipo | usar o diário certo para cada documento |
| Lançamentos | registo das operações | conferir débito igual a crédito e referência do documento |
| Contas correntes | saldo e antiguidade por cliente e fornecedor | baixar documentos pagos pelo documento certo |
| Tesouraria e bancos | movimentos de caixa e bancos, reconciliação | reconciliar todos os meses |
| Imobilizado | fichas de ativos e cálculo de depreciações | validar vida útil e data de início |
| Inventários | existências, custeio | respeitar a política escolhida |
| Salários | processamento e contabilização | reconciliar com os mapas legais |
| Fecho do exercício | regularizações, apuramento de resultados, abertura do seguinte | só depois de conferir o balancete |
| Exportações | ficheiros para as entidades públicas | validar antes de submeter |
| Segurança | utilizadores, perfis, cópias | quem pode alterar o quê |
Exemplo resolvido · Reconciliação bancária no software
No fim do mês, o extrato do banco mostra um saldo de 15 400 EUR. O saldo da conta 12 (subconta do banco) na contabilidade é de 15 040 EUR. Ao comparar os movimentos, encontras:
- Cheque emitido a fornecedor, lançado na contabilidade e ainda não descontado: 1 200.
- Depósito feito no último dia do mês, lançado na contabilidade e ainda não refletido no extrato: 800.
- Comissão de manutenção de conta debitada pelo banco e ainda não lançada: 40.
Passo 1. Ajustar o saldo do extrato. 15 400 − 1 200 (cheque em trânsito) + 800 (depósito em trânsito) = 15 000.
Passo 2. Ajustar o saldo contabilístico. 15 040 − 40 (comissão por lançar) = 15 000.
Passo 3. Conferir. Os dois saldos ajustados são iguais (15 000). A reconciliação fecha.
Passo 4. Lançar a comissão.
| Conta | Débito | Crédito |
|---|---|---|
| 62 Fornecimentos e serviços externos (serviços bancários) | 40 | |
| 12 Depósitos à ordem | 40 | |
| Totais | 40 | 40 |
Passo 5. Guardar a reconciliação, assinada e datada. Os itens "em trânsito" não se lançam: aparecem no extrato do mês seguinte e desaparecem sozinhos.
Exemplo resolvido · Contabilizar cinco documentos
Uma entidade recebe os documentos seguintes. Considera 23% de IVA (valor assumido para o exemplo) e indica o lançamento de cada um.
- Fatura de serviço de limpeza: 300 + IVA, a pagar a 30 dias.
- Pagamento a um fornecedor por transferência bancária, de uma dívida de 2 460.
- Fatura de compra de um computador, 1 200 + IVA, paga por transferência.
- Aviso de débito do banco com juros de um empréstimo: 85.
- Folha de salários de um trabalhador: remuneração bruta 2 000; retenção na fonte 260; contribuição do trabalhador 220; líquido a pagar 1 520.
Resolução.
| N.º | Conta | Débito | Crédito |
|---|---|---|---|
| 1 | 62 Fornecimentos e serviços externos | 300 | |
| 1 | 2432 IVA dedutível (300 × 0,23 = 69) | 69 | |
| 1 | 22 Fornecedores | 369 | |
| 2 | 22 Fornecedores | 2 460 | |
| 2 | 12 Depósitos à ordem | 2 460 | |
| 3 | 43 Ativos fixos tangíveis | 1 200 | |
| 3 | 2432 IVA dedutível (1 200 × 0,23 = 276) | 276 | |
| 3 | 12 Depósitos à ordem | 1 476 | |
| 4 | 69 Gastos de financiamento | 85 | |
| 4 | 12 Depósitos à ordem | 85 | |
| 5 | 63 Gastos com o pessoal | 2 000 | |
| 5 | 24 Estado e outros entes públicos (retenção) | 260 | |
| 5 | 24 Estado e outros entes públicos (contribuições) | 220 | |
| 5 | 23 Pessoal | 1 520 |
Verificação. Lançamento 1: 300 + 69 = 369 = 369 ✓. Lançamento 2: 2 460 = 2 460 ✓. Lançamento 3: 1 200 + 276 = 1 476 = 1 476 ✓. Lançamento 4: 85 = 85 ✓. Lançamento 5: 2 000 = 260 + 220 + 1 520 = 2 000 ✓.
Notas de bom senso: o computador é ativo fixo tangível apenas se a entidade assim o decidir nos termos da sua política de capitalização; se o valor ficar abaixo do limiar interno, regista-se como gasto. E o IVA do computador só é dedutível se as condições da lei de IVA estiverem cumpridas.
Controlo interno no software
Algumas características são especialmente importantes para a qualidade:
- Pista de auditoria: o software regista quem alterou o quê, quando e antes de quê. Nunca a desligues.
- Segregação de funções: quem lança não é quem aprova pagamentos; quem reconcilia não é quem movimenta o banco.
- Bloqueio de períodos: fechado um mês, ninguém altera sem autorização formal, e essa autorização fica registada.
- Numeração sequencial dos documentos, sem saltos nem repetições.
- Cópias de segurança automáticas e testadas.
- Acesso por perfil, com palavras-passe individuais e confidenciais (nunca partilhadas).
Folha de cálculo como complemento
A folha de cálculo continua a ser muito usada em contabilidade: para listagens, mapas de reconciliação, simulações de depreciações, conferências de saldos, calendários de obrigações. As boas práticas são: uma folha por finalidade, fórmulas visíveis e consistentes, células de entrada separadas das de cálculo, totais de controlo e proteção contra alterações acidentais. Uma folha nunca substitui o software contabilístico como registo oficial, mas é um excelente instrumento de trabalho.
Escolher e avaliar software
Se for preciso apoiar a escolha de uma solução, uma matriz simples ajuda:
| Critério | Pergunta |
|---|---|
| Conformidade | cumpre o SNC, os modelos e a legislação em vigor? |
| Atualizações | o fornecedor atualiza quando a lei muda? |
| Funcionalidades | cobre IVA, imobilizado, inventários, salários, bancos? |
| Integração | liga-se à faturação e aos portais públicos? |
| Segurança | perfis, pista de auditoria, cópias? |
| Facilidade de uso | a equipa aprende em tempo razoável? |
| Suporte | existe apoio em português, com tempos de resposta? |
| Custo total | licença, manutenção, formação, migração |
Atribui a cada critério uma nota e um peso, e compara. Registar a decisão e o raciocínio evita discussões futuras.
12. Procedimentos administrativos das operações de normalização contabilística
O ciclo de trabalho
Executar operações de normalização contabilística no dia a dia é seguir um ciclo repetido com disciplina:
- Receber os documentos e a informação.
- Conferir a validade e a completude.
- Classificar segundo o Código de Contas e o plano interno.
- Lançar no software, com referência ao documento.
- Arquivar o documento.
- Reconciliar (bancos, contas correntes, IVA, salários).
- Rever com o responsável.
- Fechar o período.
- Reportar e preparar as demonstrações e as obrigações.
Checklist de conferência de um documento
Antes de lançar, confirma:
- A entidade adquirente é a correta (nome e número de identificação fiscal)?
- O emitente é conhecido e o documento está dentro da validade?
- A data pertence ao período?
- Os valores somam? Base + imposto = total?
- A taxa de IVA é coerente com o bem ou serviço?
- Existe documento de suporte do pagamento ou da encomenda?
- O documento já foi lançado antes (duplicados)?
- A despesa tem natureza empresarial?
Exemplo resolvido · Detetar uma fatura duplicada
O balancete de compras do mês mostra dois lançamentos com o mesmo fornecedor, a mesma data e o mesmo valor, 1 230 EUR, mas com números de lançamento diferentes. Será duplicado?
Passo 1. Comparar a referência do documento. Se os dois lançamentos têm o mesmo número de fatura do fornecedor, é provável que seja duplicado. Se têm números diferentes, podem ser duas faturas legítimas.
Passo 2. Consultar o documento arquivado. Confirmar se existem um ou dois documentos físicos ou digitais.
Passo 3. Consultar a conta corrente do fornecedor. Se só existe um pagamento previsto, a dívida está inflacionada.
Passo 4. Corrigir. Se for duplicado, não se apaga o lançamento: faz-se um lançamento de estorno (o inverso) ou uma anulação autorizada, deixando rasto. A conta fica correta e a pista de auditoria preserva-se.
| Conta | Débito | Crédito |
|---|---|---|
| 22 Fornecedores | 1 230 | |
| 31 Compras (1 000) | 1 000 | |
| 2432 IVA dedutível (230) | 230 | |
| Totais | 1 230 | 1 230 |
O estorno é a forma correta de corrigir, porque o lançamento original continua a existir no histórico.
Segregação de funções e responsabilidade
A segregação de funções protege a entidade e o profissional. Ninguém deve acumular as tarefas de autorizar, registar, guardar ativos e conferir. Mesmo em equipas pequenas, é possível separar parcialmente (quem faz a reconciliação não faz os pagamentos). Quando a segregação não é possível, compensa-se com revisão por uma segunda pessoa e com relatórios de exceções.
Confidencialidade e ética
A informação contabilística é confidencial. O profissional cumpre o sigilo, não partilha dados fora do âmbito autorizado, não aceita pressões para alterar números e comunica ao responsável qualquer situação suspeita. A atitude de respeito pelas regras e normas não é rigidez, é a garantia de que o trabalho se pode defender perante qualquer revisão.
Cumprir prazos e requisitos
Os prazos fiscais, societários e contributivos são fixados em lei. A forma de os cumprir é planear a partir da data-limite, antecipar dependências, criar alertas e ter um plano B para falhas técnicas. Quando existir risco de atraso, comunica de imediato ao responsável. Um atraso comunicado a tempo ainda pode ser gerido; um atraso escondido costuma ser punido.
Exemplo resolvido · Registo de ocorrências no fecho do mês
Durante o fecho, encontras três problemas:
- Uma fatura de despesa sem número de identificação fiscal da entidade.
- Um movimento bancário sem documento de suporte, de 350 EUR.
- Um saldo credor numa conta de clientes, de 120 EUR.
Passo 1. Registar cada ocorrência numa lista com data, descrição, valor, responsável e estado.
Passo 2. Atuar de acordo com o procedimento.
- Pedir ao fornecedor a segunda via corrigida; até lá, não deduzir o IVA.
- Perguntar à gestão a natureza do movimento e obter o documento. Enquanto não houver documento, o movimento fica em conta transitória identificada, e não em gasto.
- Investigar a origem do saldo credor: pode ser um adiantamento, um recebimento em excesso ou uma nota de crédito por lançar. Conforme a causa, reclassifica-se, devolve-se ou lança-se a nota de crédito.
Passo 3. Acompanhar até ao fecho de cada ocorrência.
Passo 4. Comunicar ao responsável as ocorrências por resolver antes do fecho.
O profissional rigoroso não "arruma" um problema no sítio mais conveniente. Deixa-o visível, identificado e a caminho de resolução.
Erros comuns
- Confundir contabilidade com fiscalidade, registando na contabilidade o que serve apenas o cálculo do imposto.
- Reconhecer rendimentos e gastos pelo dinheiro e não pelo momento em que ocorrem, ignorando o regime do acréscimo.
- Tratar uma entrada de capital como rendimento, ou uma distribuição de lucros como gasto.
- Usar um balancete desequilibrado como ponto de partida das demonstrações, em vez de procurar primeiro o lançamento incompleto que a diferença denuncia.
- Decidir o regime aplicável com os dados de um só ano, em vez dos períodos consecutivos que a lei considera.
- Citar números de normas, artigos ou limites sem os confirmar no texto oficial em vigor.
- Alterar a política contabilística sem a fundamentar nem a divulgar, quebrando a consistência.
- Aplicar de forma retrospetiva uma simples alteração de estimativa, mexendo em períodos que não se alteram.
- Apagar um lançamento errado em vez de o estornar, destruindo a pista de auditoria.
- Lançar sem documento de suporte válido, ou arquivar o documento sem a referência do lançamento.
- Mapear mal as contas para as linhas dos modelos, de modo que o saldo aparece na rubrica errada mesmo com o balancete certo.
- Migrar saldos sem tabela de correspondência nem reconciliação, deixando erros escondidos nos saldos de abertura.
- Esquecer a reconciliação bancária, acumulando diferenças difíceis de explicar.
- Partilhar palavras-passe do software ou desligar a pista de auditoria para "ganhar tempo".
- Copiar prazos do ano anterior em vez de consultar o calendário oficial do ano em curso.
- Deixar o anexo inconsistente com as demonstrações, com números que não batem.
Glossário
- Acréscimo (regime do acréscimo): princípio segundo o qual os efeitos das operações se reconhecem quando ocorrem, e não quando há recebimento ou pagamento.
- Anexo: peça das demonstrações financeiras que contém políticas contabilísticas, estimativas e notas explicativas.
- Ativo: recurso controlado pela entidade, resultante de acontecimentos passados, do qual se esperam benefícios económicos futuros.
- Balancete: listagem de todas as contas com os seus movimentos e saldos num dado momento.
- Balanço: demonstração financeira que mostra a situação patrimonial em determinada data.
- Capital próprio: interesse residual nos ativos depois de deduzidos os passivos.
- Código de Contas: lista oficial de classes, contas e subcontas do SNC.
- Continuidade: pressuposto de que a entidade continuará a operar no futuro previsível.
- Custo histórico: base de mensuração pelo valor pago ou recebido na data da transação.
- Débito e crédito: os dois lados de um lançamento nas partidas dobradas.
- Demonstração dos resultados: demonstração do desempenho de um período, por naturezas ou por funções.
- Depreciação: repartição sistemática do custo de um ativo pela sua vida útil.
- Estorno: lançamento inverso que anula um lançamento anterior, preservando o histórico.
- Estrutura Conceptual: base teórica do SNC com objetivos, pressupostos e conceitos.
- Gasto: diminuição de benefícios económicos no período que resulta em diminuição do capital próprio, exceto distribuições aos detentores de capital.
- Harmonização: aproximação de práticas diferentes, tornando-as compatíveis.
- IAS/IFRS: normas internacionais de contabilidade emitidas por organismo internacional independente.
- Imparidade: perda de valor de um ativo para um montante inferior ao seu valor contabilístico.
- Justo valor: preço numa transação ordenada entre participantes do mercado.
- Lançamento: registo contabilístico de uma operação, com débitos e créditos iguais.
- Materialidade: característica de uma informação cuja omissão ou erro pode influenciar decisões.
- Microentidade: entidade de dimensão mais reduzida, com norma contabilística própria.
- NCRF: Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro do SNC.
- NCRF-ESNL: norma do SNC para as entidades do setor não lucrativo.
- NCRF-PE: norma do SNC para pequenas entidades.
- Normalização: estabelecimento de regras comuns, estáveis e reconhecidas.
- Passivo: obrigação presente da entidade, resultante de acontecimentos passados, cuja liquidação se espera que envolva saída de recursos.
- Partidas dobradas: método em que cada operação afeta pelo menos duas contas e débitos e créditos são iguais.
- Pista de auditoria: registo de quem alterou o quê, quando e como no sistema.
- Política contabilística: princípios e critérios específicos que a entidade aplica na preparação das demonstrações.
- Prestação de contas: conjunto de documentos que a entidade elabora, aprova e entrega nos termos da lei.
- Provisão: passivo de data ou montante incertos, reconhecido quando cumpre os critérios da norma.
- Rédito: rendimento proveniente das atividades ordinárias, como vendas e prestações de serviços.
- Rendimento: aumento de benefícios económicos no período que resulta em aumento do capital próprio, exceto contribuições dos detentores de capital.
- SNC: Sistema de Normalização Contabilística.
- Substância sobre a forma: princípio de contabilizar a realidade económica das operações e não só a sua forma jurídica.
- Valor realizável líquido: preço de venda estimado menos os custos necessários para concluir e vender.
Síntese
A normalização contabilística existe para que as contas de entidades diferentes e de períodos diferentes sejam fiáveis, comparáveis e úteis a quem decide. Em Portugal, concretiza-se no SNC, um sistema com estrutura conceptual, Código de Contas, modelos de demonstrações financeiras, normas por tema (NCRF), regimes simplificados (NCRF-PE, microentidades, setor não lucrativo) e normas interpretativas, em convergência com as normas internacionais (IAS/IFRS) adotadas na União Europeia. A regra de ouro é o regime do acréscimo e a equação Ativo = Passivo + Capital próprio, com o resultado a ligar o desempenho ao capital.
Executar operações de normalização é trabalhar com método: preparar a informação, conferir e classificar documentos, lançar pelas partidas dobradas, arquivar, reconciliar, verificar balancetes e construir demonstrações coerentes. A legislação associada (societária, fiscal, laboral, de faturação e de conservação de documentos) define os prazos e requisitos que a entidade tem de cumprir, e consulta-se sempre no texto oficial em vigor. Implementar um sistema de contabilidade é um projeto em fases, do diagnóstico ao acompanhamento, e o software é a ferramenta que dá consistência, desde que bem parametrizado, testado e controlado. Em tudo isto contam o rigor, a responsabilidade, a cooperação e o respeito pelas regras e normas definidas. Com estas competências, serás capaz de preparar informação, executar procedimentos e colaborar na implementação de um sistema de contabilidade de acordo com o SNC.
Exercícios resolvidos
1. Uma entidade tem: depósitos à ordem 6 000; clientes 4 000; equipamento líquido 10 000; fornecedores 5 000; empréstimo a longo prazo 7 000; capital 2 000; reservas 3 000; resultado líquido do período 3 000. Verifica a equação contabilística.
Resolução: ativo = 6 000 + 4 000 + 10 000 = 20 000. Passivo = 5 000 + 7 000 = 12 000. Capital próprio = 2 000 + 3 000 + 3 000 = 8 000. Passivo + capital próprio = 12 000 + 8 000 = 20 000, igual ao ativo. A equação fecha. Se não fechasse, o primeiro passo seria rever a lista de rubricas e os documentos de suporte antes de aceitar o balanço.
2. Um bem custa 9 000 EUR, tem valor residual de 900 EUR e vida útil de seis anos. Calcula a depreciação anual pelo método da linha reta e o valor líquido no fim do ano 2.
Resolução: depreciação anual = (9 000 − 900) ÷ 6 = 8 100 ÷ 6 = 1 350. No fim do ano 2, a depreciação acumulada é 2 700 e o valor líquido é 9 000 − 2 700 = 6 300.
3. O balancete de uma entidade apresenta devedores de 45 300 e credores de 45 000. Qual o procedimento?
Resolução: a diferença é 300. Primeiro procura-se um lançamento de 300 gravado só de um lado. Depois um de 150, metade da diferença, lançado ao contrário: um valor que devia ter ido a débito e foi a crédito desequilibra o balancete no dobro do seu valor. A troca de dígitos fica excluída neste caso, porque a diferença de uma transposição é sempre múltipla de 9 e 300 não é. Não se ajusta com uma conta transitória para "fechar", porque isso esconde o erro. Corrige-se na origem, com estorno e novo lançamento, e confere-se de novo o balancete.
4. Classifica as seguintes situações como normalização nacional, internacional, imperativa ou interna: (a) regulamento europeu que impõe as normas internacionais às contas consolidadas de entidades cotadas; (b) circular interna que obriga a validar faturas acima de determinado montante com duas assinaturas; (c) portaria que aprova o Código de Contas.
Resolução: (a) normalização internacional, tornada imperativa por regulamento supranacional; (b) normalização interna da entidade; (c) normalização nacional e imperativa.
5. Em stock: 50 unidades a 4 EUR e 50 unidades a 5 EUR, nesta ordem de compra. Saem 70 unidades. Calcula o custo das saídas e o inventário final por FIFO.
Resolução: saídas = 50 × 4 + 20 × 5 = 200 + 100 = 300. Inventário final = 30 × 5 = 150. Verificação: 300 + 150 = 450 = 50 × 4 + 50 × 5. ✓
6. Em março, descobre-se que uma fatura de fornecedor de dezembro não foi lançada nas contas do ano anterior, já aprovadas. Como se classifica e trata?
Resolução: é um erro de período anterior. Corrige-se retrospetivamente, reexpressando os comparativos quando o valor é material, com divulgação. Se for imaterial, a entidade segue a política definida para o tratamento de correções; em qualquer caso, não se resolve apenas lançando o gasto no ano corrente sem análise.
7. O IVA liquidado de um mês foi de 1 150 EUR e o IVA dedutível, de 1 380 EUR. Qual o resultado do apuramento?
Resolução: 1 150 − 1 380 = −230. O IVA dedutível excede o liquidado em 230: há IVA a recuperar de 230 (a transitar para o período seguinte ou a pedir em reembolso, conforme as regras aplicáveis).
8. Num projeto de implementação, a equipa quer começar a registar no sistema novo sem testes, por falta de tempo. Que argumentos usas?
Resolução: sem testes, os erros de parametrização só aparecem em produção, onde corrigi-los custa mais e deixa rasto nas contas. Os testes verificam impostos, permissões, balancetes e demonstrações, e a comparação paralela com o sistema antigo prova que os resultados coincidem. Propõe-se um plano de testes mínimo, com os fluxos críticos, em vez de omitir a fase.