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UC · Unidade de Competência · UC02776

Executar operações de normalização contabilística (UC02776)

Sistema de Normalização Contabilística, normas, instrumentos de suporte, procedimentos administrativos e implementação em software
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Contabilidade ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

Aprender a executar operações de normalização contabilística é perceber as regras que dão forma à contabilidade de uma entidade em Portugal, usar os instrumentos que o Sistema de Normalização Contabilística (SNC) põe à disposição e transformar essas regras em trabalho concreto, com documentos, contas, procedimentos e software. Não se trata de decorar diplomas. Trata-se de saber onde procurar a regra, como a interpretar e como a aplicar no dia a dia de um gabinete de contabilidade ou de um departamento financeiro.

O percurso segue a lógica de um projeto real. Começa por compreender o que é a normalização e porque existe; passa pelos tipos de normalização e pelos elementos fundamentais do SNC; estuda a estrutura conceptual, o Código de Contas e os modelos de demonstrações financeiras; percorre as normas contabilísticas e de relato financeiro (NCRF), a norma para pequenas entidades (NCRF-PE) e as normas internacionais (IAS/IFRS); olha para a legislação associada; e termina nos procedimentos administrativos, nas fases de implementação de um sistema de contabilidade e no software de gestão. Em todas as etapas contam o rigor, o respeito pelas regras e normas definidas, o sentido de organização e a cooperação com a equipa.

Objetivos de aprendizagem (referencial): preparar a informação para a execução de atividades de normalização contabilística; executar os procedimentos administrativos para realizar as operações de normalização contabilística; e colaborar na implementação de um sistema de contabilidade de acordo com o SNC. Em termos de desempenho, isto significa cumprir as normas gerais e as orientações e regulamentos internos de elaboração de documentos de prestação de contas, demonstrar domínio das regras do SNC e garantir o cumprimento dos procedimentos, prazos e requisitos estabelecidos.

Nota sobre legislação. As normas contabilísticas e os diplomas que as aprovam são alterados com alguma frequência. O que importa reter é a estrutura e a lógica do sistema: cada regra aplica-se sempre na redação em vigor do diploma que a contém. Antes de aplicar qualquer regra, consulta o texto oficial publicado no Diário da República e os documentos da entidade que normaliza a contabilidade em Portugal.

1. Normalização contabilística: conceito, objetivos e princípios

Para que serve a contabilidade

A contabilidade é o sistema que recolhe, classifica, regista e resume as operações de uma entidade em informação financeira útil. O seu produto final são as demonstrações financeiras: documentos que dizem quanto a entidade possui, quanto deve, quanto ganhou e quanto gastou. Quem lê essa informação toma decisões com ela:

Utilizador Que decisão toma Que pergunta faz às contas
Gestão o que comprar, produzir, vender, investir estamos a ganhar dinheiro? temos liquidez?
Sócios e investidores manter, aumentar ou retirar o investimento quanto vale a entidade? que resultados distribui?
Bancos e financiadores conceder ou não crédito consegue pagar o empréstimo?
Fornecedores vender a prazo ou exigir pagamento imediato paga a horas?
Trabalhadores confiar no futuro do emprego a entidade é sólida?
Estado e autoridade tributária cobrar impostos e fiscalizar o lucro tributável está correto?
Clientes escolher parceiros duradouros vai continuar a existir?

Para que todos estes utilizadores consigam ler e comparar contas de entidades diferentes, as contas têm de ser feitas com as mesmas regras. Se cada entidade escolhesse livremente como contar um inventário, quando reconhecer uma venda ou como apresentar o balanço, duas contas nunca seriam comparáveis.

O que é normalizar

Normalizar é estabelecer regras comuns, estáveis e reconhecidas que todas as entidades abrangidas devem seguir. Em contabilidade, a normalização incide sobre vários níveis:

A normalização não impede a contabilidade de ser trabalho de julgamento. Nenhuma norma prevê todas as situações. O que a norma garante é que o julgamento se exerce dentro de um quadro conhecido, onde duas pessoas competentes chegam a resultados próximos perante os mesmos factos.

Objetivos da normalização contabilística

O SNC procura, em conjunto, os seguintes objetivos:

  1. Comparabilidade: contas de entidades diferentes e de períodos diferentes podem ser postas lado a lado.
  2. Fiabilidade e transparência: a informação representa fielmente a realidade da entidade, sem a embelezar nem a esconder.
  3. Utilidade para a tomada de decisões: a informação é relevante para quem decide.
  4. Convergência com as normas internacionais: as normas portuguesas aproximam-se das normas internacionais de contabilidade, facilitando o investimento e o comércio entre países.
  5. Proporcionalidade: entidades pequenas têm exigências mais simples do que entidades grandes, para que o custo de cumprir não exceda o benefício de informar.
  6. Apoio ao controlo e à fiscalização: auditores, revisores e administração tributária encontram uma estrutura conhecida onde verificar.
  7. Redução do custo de preparação: a mesma estrutura serve gestores, bancos e Estado, evitando preparar contas diferentes para cada destinatário.

Os princípios em que assenta o SNC

Um princípio é uma ideia-base que orienta a aplicação das normas quando a letra da regra não chega. Em linguagem corrente, o SNC assenta em:

Exemplo resolvido · O regime do acréscimo em ação

A Empresa Alfa presta um serviço em 28 de dezembro e fatura 4 000 EUR (valor sem imposto, para simplificar). O cliente paga em 15 de janeiro. Ao mesmo tempo, a renda do armazém, de 600 EUR por mês, respeitante a dezembro, só é paga em janeiro.

Passo 1. Quando se reconhece o rendimento? Em dezembro, porque o serviço foi prestado em dezembro. O recebimento em janeiro é apenas o fecho do crédito.

Passo 2. Quando se reconhece o gasto da renda? Em dezembro, porque a renda é o preço do uso do armazém durante dezembro. O pagamento em janeiro é a liquidação de uma dívida.

Passo 3. Lançamentos em dezembro.

Operação Débito Crédito Valor
Prestação de serviço faturada 21 Clientes 72 Prestações de serviços 4 000
Renda de dezembro por pagar 62 Fornecimentos e serviços externos 27 Outras contas a receber e a pagar (2722 Credores por acréscimos de gastos) 600

Passo 4. Lançamentos em janeiro.

Operação Débito Crédito Valor
Cobrança do cliente 12 Depósitos à ordem 21 Clientes 4 000
Pagamento da renda 27 Outras contas a receber e a pagar (2722 Credores por acréscimos de gastos) 12 Depósitos à ordem 600

Resultado. As contas de dezembro mostram um rendimento de 4 000 e um gasto de 600, ainda que nenhum dinheiro tenha mexido nesse mês. Em janeiro, não aparece rendimento nem gasto nenhum: apenas movimentos de tesouraria. É isto que o regime do acréscimo garante.

Normalização não é fiscalidade

Um erro frequente de principiantes é confundir contabilidade com fiscalidade. A contabilidade segue o SNC e procura a imagem verdadeira e apropriada da entidade. A fiscalidade segue o Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas e demais legislação tributária, e procura apurar o lucro tributável. Os dois sistemas estão ligados, mas não são iguais: há gastos que a contabilidade reconhece e a lei fiscal não aceita (ou aceita só em parte), e vice-versa. O ponto de partida do cálculo do imposto é o resultado contabilístico, ao qual se fazem correções fora da contabilidade. Quem confunde os dois acaba por registar na contabilidade coisas que servem apenas o fisco, distorcendo as contas.

2. Tipos de normalização

Normalização, harmonização e uniformização

Três palavras aparecem muitas vezes misturadas, mas significam coisas diferentes:

Conceito Significado Grau de rigidez
Uniformização todas as entidades aplicam exatamente as mesmas regras, sem escolha máximo
Normalização regras comuns, com margem limitada para opções previstas na própria norma alto
Harmonização aproximação de práticas diferentes, tornando-as compatíveis sem as tornar iguais moderado

Os sistemas contabilísticos nacionais passaram por todas estas fases: da diversidade de práticas à aproximação (harmonização europeia, feita por diretivas) e depois à normalização mais profunda (adoção de normas internacionais e de modelos nacionais convergentes).

Normalização por âmbito geográfico

Normalização por natureza da regra

Normalização por objeto

Objeto O que uniformiza Exemplo
Conceitos e princípios definições e pressupostos estrutura conceptual
Reconhecimento e mensuração quando e por que valor se regista normas sobre inventários, ativos fixos, rédito
Plano de contas códigos e designações Código de Contas
Demonstrações financeiras formato e conteúdo modelos de balanço e de demonstração dos resultados
Documentos requisitos das faturas e documentos de suporte legislação sobre faturação
Procedimentos circuitos internos de aprovação e registo manuais de procedimentos

Do Plano Oficial de Contas ao SNC

Até 2010, a contabilidade das sociedades em Portugal seguia o Plano Oficial de Contas (POC), um plano de contas fortemente prescritivo, com poucas opções. O SNC substituiu-o a partir de 2010, mudando de filosofia: em vez de um plano com regras detalhadas e fechadas, passa a existir um sistema com estrutura conceptual, normas por tema e um Código de Contas flexível, mais próximo da lógica das normas internacionais, em que se privilegia a substância sobre a forma e o julgamento profissional dentro de limites claros. A transição obrigou todos os gabinetes a reaprender conceitos, a reclassificar contas e a reconfigurar o software, e é um bom exemplo de operação de normalização de grande escala.

Exemplo resolvido · Classificar o tipo de normalização

Classifica as seguintes situações segundo o tipo de normalização que ilustram.

  1. Uma diretiva europeia que obriga os Estados-Membros a aproximar as regras de elaboração das contas anuais.
  2. O manual interno que obriga a pedir duas assinaturas para lançar adiantamentos a fornecedores.
  3. O Código de Contas com designações e numeração obrigatórias para as classes de contas.
  4. As normas internacionais que uma entidade cotada em bolsa tem de aplicar às contas consolidadas.

Resolução.

  1. É normalização supranacional (europeia), por natureza legal, com o objetivo de harmonização.
  2. É normalização interna, da entidade, sobre procedimentos.
  3. É normalização nacional, imperativa, sobre o plano de contas.
  4. É normalização internacional, tornada obrigatória por regulamento para uma categoria de entidades.

O exercício mostra que a mesma regra pode ser classificada por mais do que um critério (âmbito, natureza e objeto) sem contradição.

Vantagens e limites da normalização

Vantagens: comparabilidade, linguagem comum entre profissionais, menos discricionariedade, menor risco de fraude por criatividade contabilística, redução do custo de formação e de auditoria, facilidade na migração de software.

Limites: regras pensadas para o caso médio podem ser desadequadas a um caso invulgar; a mudança de normas custa tempo e dinheiro; um sistema muito complexo pode ser mal aplicado por pequenas entidades; e uma norma nunca substitui a competência técnica e o sentido crítico do profissional. Por isso o SNC prevê regimes simplificados e exige que as políticas contabilísticas sejam escolhidas e divulgadas com fundamento.

3. O Sistema de Normalização Contabilística: elementos fundamentais

Visão geral

O Sistema de Normalização Contabilística (SNC) é o quadro contabilístico português aprovado por diploma legal (o Decreto-Lei que aprovou o SNC, na redação em vigor) e concretizado por um conjunto de portarias e avisos publicados no Diário da República. Aplica-se às entidades obrigadas por lei a ter contabilidade organizada, com regimes adaptados à dimensão e à natureza de cada uma. Para saber exatamente a que entidades se aplica e com que exceções, consulta o diploma na redação em vigor.

O SNC não é um único documento. É uma família de instrumentos que se completam. Compreender o que cada um faz é a primeira competência de quem trabalha com contabilidade.

Os elementos fundamentais

Elemento Para que serve Quando o consultas
Bases para a apresentação de demonstrações financeiras regras gerais de apresentação: que demonstrações existem, requisitos de forma ao preparar o conjunto de contas
Modelos de demonstrações financeiras formatos oficiais do balanço, das demonstrações dos resultados, das alterações no capital próprio e dos fluxos de caixa, e do anexo ao montar cada demonstração
Código de Contas lista de classes, contas e subcontas, com código e designação ao classificar e lançar
Estrutura Conceptual conceitos, pressupostos e características da informação ao interpretar dúvidas e escolher políticas
NCRF (Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro) regras de reconhecimento, mensuração e divulgação por tema ao tratar uma operação específica
NCRF-PE (para Pequenas Entidades) versão simplificada das NCRF entidades que cumprem os critérios de dimensão
Norma para microentidades regime ainda mais simples entidades que cumprem os critérios mais restritos
NCRF-ESNL (Entidades do Setor Não Lucrativo) regras adaptadas a associações, fundações e semelhantes entidades sem fins lucrativos
Normas Interpretativas esclarecem pontos de aplicação das normas quando a aplicação gera dúvidas

Como escolher o regime aplicável a uma entidade

A pergunta "qual das normas aplico?" é das primeiras que se faz ao receber um cliente ou um processo. O raciocínio segue sempre os mesmos passos:

  1. Tipo de entidade: é uma sociedade comercial, uma entidade sem fins lucrativos, uma entidade cotada ou sujeita a regras próprias? As entidades do setor não lucrativo têm norma específica.
  2. Dimensão: a lei define critérios de dimensão com base em três indicadores (total do balanço, volume de negócios líquido e número médio de empregados durante o período). O enquadramento depende de ultrapassar ou não os limites fixados na lei em períodos consecutivos. Os valores concretos alteram-se com o tempo e por isso consulta-se sempre a legislação em vigor.
  3. Obrigação de certificação legal de contas, consolidação ou admissão a mercado regulamentado: estas circunstâncias podem excluir regimes simplificados ou exigir normas internacionais.
  4. Opções permitidas: certas entidades podem optar por um regime mais exigente do que aquele em que se enquadram. A opção deve ser consciente e mantida de forma consistente.

Exemplo resolvido · Escolher o regime aplicável

Considera três entidades fictícias, descritas só pelo tipo e pela situação (sem valores, que dependem do diploma em vigor).

Resolução.

Estrutura do conjunto de contas

O conjunto das demonstrações financeiras completas inclui:

Os regimes simplificados dispensam algumas destas peças, e o diploma em vigor indica quais.

Quem cumpre o quê: responsabilidades

A responsabilidade pela preparação e apresentação das demonstrações financeiras é da gestão da entidade. O contabilista certificado assegura que a contabilidade está organizada de acordo com as normas e assina os documentos de prestação de contas quando a lei o exige. O auditor ou revisor emite opinião independente, nos casos em que a certificação é obrigatória. O assistente de contabilidade, que é o papel mais comum de quem termina este nível de formação, prepara a informação, regista as operações e colabora na elaboração dos documentos, sempre dentro dos procedimentos definidos.

4. Estrutura conceptual: pressupostos, características e elementos das demonstrações financeiras

Para que serve uma estrutura conceptual

A Estrutura Conceptual é a base teórica do sistema. Enuncia o objetivo das demonstrações financeiras, define os conceitos fundamentais e orienta a interpretação das normas. Quando uma norma é omissa ou ambígua, recorre-se à estrutura conceptual para decidir. Por isso, dominá-la dá autonomia: permite resolver casos novos sem esperar que alguém diga o que fazer.

Pressupostos subjacentes

São os dois já vistos:

Características qualitativas da informação

A informação financeira deve possuir um conjunto de qualidades para ser útil:

Característica O que significa Pergunta de controlo
Compreensibilidade quem tem conhecimento razoável da atividade consegue perceber um leitor atento entende esta rubrica?
Relevância influencia as decisões dos utilizadores muda alguma decisão se faltar?
Materialidade a omissão ou o erro poderia influenciar decisões o valor é significativo no contexto?
Fiabilidade está isenta de erros materiais e de viés confirma-se com os documentos?
Representação fidedigna as transações são retratadas como realmente aconteceram o registo mostra o que se passou?
Substância sobre a forma contabilizar a realidade económica e não só a forma jurídica o contrato diz uma coisa e a realidade outra?
Neutralidade sem enviesamento a favor de ninguém alguém é favorecido pela escolha?
Prudência cautela nas estimativas, sem criar reservas ocultas os rendimentos estão sobrestimados?
Plenitude nada de relevante foi omitido falta alguma operação do período?
Comparabilidade permite comparar no tempo e entre entidades os critérios são os mesmos do ano passado?

Estas dez qualidades não estão todas ao mesmo nível. As principais são quatro: compreensibilidade, relevância, fiabilidade e comparabilidade. As outras são atributos destas: a materialidade é um aspeto da relevância, e a representação fidedigna, a substância sobre a forma, a neutralidade, a prudência e a plenitude são atributos da fiabilidade. Quando numa pergunta de avaliação te pedirem "as principais características qualitativas", são as quatro.

Estas características por vezes entram em tensão. A prudência não autoriza esconder lucros, e a relevância não autoriza dispensar a fiabilidade. Cabe ao profissional ponderá-las e documentar a decisão.

Os elementos das demonstrações financeiras

As operações são classificadas em cinco elementos:

Elemento Definição resumida Exemplos
Ativo recurso controlado pela entidade, resultante de acontecimentos passados, do qual se esperam benefícios económicos futuros caixa, clientes, inventários, equipamentos
Passivo obrigação presente da entidade, resultante de acontecimentos passados, cuja liquidação se espera que envolva saída de recursos fornecedores, empréstimos, impostos a pagar
Capital próprio interesse residual nos ativos depois de deduzir os passivos capital realizado, reservas, resultados transitados
Rendimentos aumentos de benefícios económicos no período, sob a forma de entradas ou aumentos de ativos ou diminuições de passivos, que resultam em aumentos de capital próprio (exceto contribuições dos detentores de capital) vendas, prestações de serviços, juros recebidos
Gastos diminuições de benefícios económicos no período, que resultam em diminuições de capital próprio (exceto distribuições aos detentores de capital) custo das mercadorias, rendas, salários, depreciações

A relação fundamental entre os três primeiros é a equação contabilística:

Ativo = Passivo + Capital próprio

E a ligação ao desempenho é esta: Resultado do período = Rendimentos − Gastos, e o resultado, depois de apurado, integra o capital próprio.

Exemplo resolvido · Classificar as rubricas e verificar a equação

A Empresa Alfa apresenta, numa dada data, as seguintes rubricas (valores em EUR):

Passo 1. Classificar. Caixa, depósitos, clientes, mercadorias e equipamento são ativos. As depreciações acumuladas são uma dedução ao ativo. Fornecedores e empréstimo são passivos. Capital, resultados transitados e resultado líquido são capital próprio.

Passo 2. Totalizar o ativo. 1 500 + 8 500 + 12 000 + 9 000 + 30 000 − 6 000 = 55 000.

Passo 3. Totalizar o passivo. 11 000 + 20 000 = 31 000.

Passo 4. Totalizar o capital próprio. 15 000 + 4 000 + 5 000 = 24 000.

Passo 5. Verificar a equação. 31 000 + 24 000 = 55 000, que é igual ao ativo. ✓

Se o resultado não batesse, haveria um erro de classificação ou de omissão, e o primeiro passo seria rever a lista de rubricas.

Corrente e não corrente

No balanço, ativos e passivos separam-se, em regra, em correntes e não correntes. Um ativo é corrente se se espera realizá-lo, vendê-lo ou consumi-lo no ciclo normal de operações ou nos doze meses seguintes à data do balanço. Um passivo é corrente se se espera liquidá-lo nesse mesmo horizonte. O empréstimo do exemplo anterior, com vencimento a cinco anos, é passivo não corrente (a parte que vencer nos próximos doze meses é reclassificada como corrente).

Reconhecimento

Reconhecer um elemento é incluí-lo no balanço ou na demonstração dos resultados. Exige-se, em geral, que seja provável a entrada ou saída de benefícios económicos futuros e que o item tenha um custo ou valor que possa ser medido com fiabilidade. Se um desses requisitos falhar, o item não se reconhece como ativo ou passivo, mas pode ser divulgado no anexo.

Mensuração

Mensurar é atribuir um valor. As bases mais comuns são:

Base Significado Exemplo típico
Custo histórico valor pago ou recebido na data da transação equipamento comprado
Custo corrente valor que seria necessário pagar hoje reposição de um bem
Valor realizável líquido preço de venda estimado menos custos para vender inventários com preço em queda
Justo valor preço numa transação ordenada entre participantes do mercado certos instrumentos financeiros
Valor presente desconto de fluxos futuros créditos a muito longo prazo

Em regra, as normas indicam a base de mensuração para cada tipo de elemento. Ao profissional de nível 4 cabe reconhecer qual a base aplicável, preparar a informação para a aplicar e sinalizar quando a situação exige decisão de nível superior.

Manter o capital e o conceito de resultado

O resultado do período mede o aumento da riqueza da entidade, depois de preservado o capital inicial. É por isso que as distribuições aos sócios e as entradas de capital não são rendimentos nem gastos, mas movimentos de capital próprio. Um aumento de capital em dinheiro não é rendimento; o pagamento de dividendos não é gasto. Misturar estas duas categorias é um dos erros mais comuns de quem começa.

5. Instrumentos de suporte: Código de Contas, modelos e outros documentos

O que são instrumentos de suporte

Chamam-se instrumentos de suporte aos documentos e ferramentas que permitem aplicar o SNC no trabalho diário: o Código de Contas, os modelos de demonstrações financeiras, as normas e interpretações, a legislação, os manuais internos, os documentos de suporte aos lançamentos e o software. Um técnico competente sabe qual o instrumento certo para cada pergunta.

Pergunta Instrumento a consultar
Em que conta registo este gasto? Código de Contas e plano de contas interno
Em que momento reconheço esta venda? Norma contabilística sobre rédito e estrutura conceptual
Em que linha do balanço aparece este saldo? Modelos de demonstrações financeiras
Que informação acompanha as contas? Norma de apresentação e modelos do anexo
Este documento cumpre os requisitos legais? Legislação sobre faturação e documentos de suporte
Quem aprova este lançamento? Manual de procedimentos da entidade

O Código de Contas

O Código de Contas é a lista oficial de contas do SNC, organizada em classes (dígito 1 a 8), contas (dois dígitos), subcontas (três ou mais dígitos). Cada entidade pode desdobrar as subcontas para acompanhar a sua realidade (por exemplo, um desdobramento por cliente ou por banco), mas não pode alterar o sentido das contas oficiais.

Classe Designação Natureza do conteúdo
1 Meios financeiros líquidos caixa, depósitos à ordem, outros depósitos
2 Contas a receber e a pagar clientes, fornecedores, pessoal, Estado, financiamentos
3 Inventários e ativos biológicos compras, mercadorias, matérias-primas, produtos
4 Investimentos ativos fixos tangíveis e intangíveis, investimentos financeiros, depreciações
5 Capital, reservas e resultados transitados capital, reservas, resultados transitados
6 Gastos custo das mercadorias, serviços externos, pessoal, depreciações, financiamento
7 Rendimentos vendas, prestações de serviços, outros rendimentos
8 Resultados apuramento do resultado do período

Quando a entidade usa contabilidade de gestão (analítica), costuma reservar uma classe adicional para esse fim, a definir internamente.

Contas mais usadas

Para o dia a dia de um gabinete, convém conhecer de cor as contas seguintes:

Código Designação
11 Caixa
12 Depósitos à ordem
21 Clientes
22 Fornecedores
23 Pessoal
24 Estado e outros entes públicos
25 Financiamentos obtidos
27 Outras contas a receber e a pagar
28 Diferimentos
31 Compras
32 Mercadorias
43 Ativos fixos tangíveis
438 (em 43) Depreciações acumuladas
51 Capital subscrito
55 Reservas
56 Resultados transitados
61 Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas
62 Fornecimentos e serviços externos
63 Gastos com o pessoal
64 Gastos de depreciação e de amortização
68 Outros gastos
69 Gastos de financiamento
71 Vendas
72 Prestações de serviços
78 Outros rendimentos
79 Juros, dividendos e outros rendimentos similares
81 Resultado líquido do período

As depreciações acumuladas dos ativos fixos tangíveis registam-se na subconta 438 da conta 43; as amortizações acumuladas dos ativos intangíveis, na subconta 448 da conta 44.

A designação da conta 61 é a mesma que aparece na demonstração dos resultados por naturezas: a linha do modelo chama-se igualmente "Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas".

Dentro da conta 24, as subcontas do IVA são particularmente usadas: 2432 (IVA dedutível), 2433 (IVA liquidado) e as que servem para o apuramento e para o IVA a pagar ou a recuperar.

Como funciona um lançamento: débito e crédito

A contabilidade usa o método das partidas dobradas: cada operação afeta pelo menos duas contas, e o total dos débitos é sempre igual ao total dos créditos. A regra geral é:

Tipo de conta Aumenta com Diminui com Saldo normal
Ativo (classes 1 a 4, parte de 2) débito crédito devedor
Passivo (parte da classe 2) crédito débito credor
Capital próprio (classe 5) crédito débito credor
Gastos (classe 6) débito crédito devedor
Rendimentos (classe 7) crédito débito credor

Memoriza assim: o que a entidade tem (ativo) e o que ela gasta aumenta a débito; o que ela deve (passivo), o capital e o que ela ganha aumenta a crédito.

Exemplo resolvido · Compra e venda de mercadorias com IVA

Considera uma taxa de IVA de 23% (valor assumido apenas para este exemplo). A Empresa Alfa compra mercadorias a crédito por 2 000 EUR (sem IVA) e vende mercadorias a crédito por 3 000 EUR (sem IVA). Usa o método intermitente: as compras vão para a conta 31 e o custo das mercadorias vendidas regulariza-se no fim do período.

Passo 1. Calcular o IVA. Compra: 2 000 × 0,23 = 460; total a pagar ao fornecedor = 2 460. Venda: 3 000 × 0,23 = 690; total a receber do cliente = 3 690.

Passo 2. Lançar a compra.

Conta Débito Crédito
31 Compras 2 000
2432 IVA dedutível 460
22 Fornecedores 2 460
Totais 2 460 2 460

Passo 3. Lançar a venda.

Conta Débito Crédito
21 Clientes 3 690
71 Vendas 3 000
2433 IVA liquidado 690
Totais 3 690 3 690

Passo 4. Apurar o IVA. IVA liquidado (690) menos IVA dedutível (460) = 230 a pagar ao Estado. Se o dedutível excedesse o liquidado, a diferença seria um valor a recuperar.

Passo 5. Verificar. Em cada lançamento o total de débitos é igual ao total de créditos. É uma verificação obrigatória antes de gravar.

Exemplo resolvido · Apuramento do custo das mercadorias vendidas

No fim do período, a Empresa Alfa tem: inventário inicial de mercadorias, 4 000; compras do período, 26 000; inventário final contado e valorizado, 5 500.

Passo 1. Aplicar a fórmula. Custo das mercadorias vendidas = inventário inicial + compras − inventário final = 4 000 + 26 000 − 5 500 = 24 500.

Passo 2. Lançar as regularizações.

Conta Débito Crédito
61 Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas 4 000
32 Mercadorias 4 000
61 Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas 26 000
31 Compras 26 000
32 Mercadorias 5 500
61 Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas 5 500
Totais 35 500 35 500

Passo 3. Conferir. Débitos na conta 61: 4 000 + 26 000 = 30 000; créditos: 5 500. O saldo devedor é 24 500, igual ao calculado no passo 1. A conta 32 fica com 5 500, o valor do inventário final.

Exemplo resolvido · Depreciação pelo método da linha reta

A Empresa Alfa adquire um equipamento por 12 000 EUR, com vida útil estimada de cinco anos e valor residual nulo.

Passo 1. Calcular a depreciação anual. (12 000 − 0) ÷ 5 = 2 400.

Passo 2. Lançar no final de cada ano.

Conta Débito Crédito
64 Gastos de depreciação e de amortização 2 400
438 Depreciações acumuladas 2 400
Totais 2 400 2 400

Passo 3. Acompanhar o valor contabilístico.

Fim do ano Depreciação do ano Depreciação acumulada Valor líquido
1 2 400 2 400 9 600
2 2 400 4 800 7 200
3 2 400 7 200 4 800
4 2 400 9 600 2 400
5 2 400 12 000 0

A depreciação distribui o custo do bem pelos períodos que beneficiam do seu uso, em respeito do regime do acréscimo. O tratamento detalhado (vida útil, valor residual, método) está na norma contabilística sobre ativos fixos tangíveis, e as taxas máximas aceites em termos fiscais estão na legislação fiscal, por vezes diferentes das contabilísticas.

O balancete e a verificação de saldos

O balancete é a lista de todas as contas com os respetivos movimentos e saldos num momento. Serve para verificar se a contabilidade está equilibrada e como ponto de partida das demonstrações financeiras. Num balancete correto, o total dos saldos devedores é igual ao total dos saldos credores.

Exemplo de um balancete de verificação (valores em EUR, já com o imposto sobre o rendimento do período lançado):

Conta Saldo devedor Saldo credor
12 Depósitos à ordem 14 000
21 Clientes 18 000
32 Mercadorias 8 000
43 (431 a 437) Ativos fixos tangíveis 50 000
438 Depreciações acumuladas 10 000
22 Fornecedores 14 000
24 Estado e outros entes públicos 3 700
25 Financiamentos obtidos 15 000
27 Outras contas a receber e a pagar 4 300
51 Capital subscrito 30 000
55 Reservas 2 000
56 Resultados transitados 4 200
61 Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas 60 000
62 Fornecimentos e serviços externos 22 000
63 Gastos com o pessoal 30 000
64 Gastos de depreciação e de amortização 5 000
68 Outros gastos 3 000
69 Gastos de financiamento 1 500
812 Imposto sobre o rendimento do período 1 700
71 Vendas 120 000
72 Prestações de serviços 10 000
Totais 213 200 213 200

Conferência. Devedores: 14 000 + 18 000 + 8 000 + 50 000 + 60 000 + 22 000 + 30 000 + 5 000 + 3 000 + 1 500 + 1 700 = 213 200. Credores: 10 000 + 14 000 + 3 700 + 15 000 + 4 300 + 30 000 + 2 000 + 4 200 + 120 000 + 10 000 = 213 200. Os totais batem.

Atenção: um balancete equilibrado não prova que todos os lançamentos existem. Se faltasse por completo o lançamento do imposto (débito 812 e crédito 24, de 1 700), os totais desceriam 1 700 de cada lado, com devedores de 211 500 e credores de 211 500, e o balancete continuaria a fechar. Só uma diferença entre os totais denuncia um lançamento incompleto, gravado de um só lado: se estivesse lançado o débito 812 sem o crédito na conta 24, os devedores somariam 213 200, os credores 211 500 e a diferença de 1 700 apontaria para a partida que falta. É assim que se usa o balancete na prática: uma diferença não é um incómodo, é uma pista. Procura-se um lançamento com o valor da diferença, ou com metade dela (um valor lançado ao contrário desequilibra no dobro), ou, quando a diferença é múltipla de 9, uma troca de posição entre dois dígitos.

Modelos de demonstrações financeiras

Os modelos oficiais definem a estrutura exata do balanço, da demonstração dos resultados e das demais peças. Cada linha do modelo tem uma designação e, em geral, corresponde a uma ou várias contas do Código de Contas. Por isso o software costuma incluir uma tabela de correspondência (mapeamento) entre contas e linhas dos modelos. Uma conta mal mapeada faz o saldo aparecer na linha errada, mesmo que o balancete esteja certo.

Exemplo: o saldo da conta 21 Clientes aparece no balanço, nos ativos correntes, na linha dos clientes; o saldo da conta 22 Fornecedores aparece no passivo corrente, na linha dos fornecedores; os saldos das contas 71 e 72 contribuem para a linha "Vendas e serviços prestados" da demonstração dos resultados.

Exemplo resolvido · Construir a demonstração dos resultados e o balanço a partir do balancete

Usando o balancete anterior (depois de lançado o imposto):

Demonstração dos resultados por naturezas (EUR):

Rubrica Valor
Vendas e serviços prestados (120 000 + 10 000) 130 000
Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas (60 000)
Fornecimentos e serviços externos (22 000)
Gastos com o pessoal (30 000)
Gastos de depreciação e de amortização (5 000)
Outros gastos (3 000)
Resultado antes de gastos de financiamento e impostos 10 000
Gastos de financiamento (1 500)
Resultado antes de impostos 8 500
Imposto sobre o rendimento do período (1 700)
Resultado líquido do período 6 800

Balanço (EUR):

Rubrica Valor
Ativos fixos tangíveis (50 000 − 10 000) 40 000
Inventários (mercadorias) 8 000
Clientes 18 000
Caixa e depósitos bancários 14 000
Total do ativo 80 000
Capital realizado 30 000
Reservas 2 000
Resultados transitados 4 200
Resultado líquido do período 6 800
Total do capital próprio 43 000
Financiamentos obtidos (não corrente) 15 000
Fornecedores 14 000
Estado e outros entes públicos (3 700 no balancete, que incluem o imposto de 1 700 a pagar) 3 700
Outras contas a pagar 4 300
Total do passivo 37 000
Total do capital próprio e do passivo 80 000

Verificação. Ativo (80 000) = capital próprio (43 000) + passivo (37 000). ✓ O ciclo está fechado: balancete, demonstração dos resultados, balanço.

O anexo e as políticas contabilísticas

O anexo é a peça mais negligenciada pelos principiantes, e é onde a entidade explica as políticas contabilísticas adotadas (por exemplo, o método de depreciação), as estimativas relevantes, o referencial contabilístico aplicado e as notas às rubricas mais significativas. Quando uma entidade muda de política contabilística, deve divulgar a mudança, o motivo e o efeito. A coerência entre o anexo e as demonstrações (os números têm de bater) é uma verificação que se faz sempre antes de fechar um dossiê.

Manuais internos e documentos de suporte

Os manuais de procedimentos fixam, para cada entidade, quem faz o quê, em que prazo e com que aprovação. Os documentos de suporte (faturas, recibos, extratos, contratos, folhas de vencimentos, guias de pagamento) provam que a operação existiu. A regra de ouro é: nenhum lançamento sem documento de suporte válido. Um documento válido tem a identificação do emitente e do adquirente, a descrição do bem ou serviço, a data, os valores e o imposto, de acordo com a legislação de faturação em vigor.

6. Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro (NCRF)

O que são as NCRF

As Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro (NCRF) são as normas do SNC que tratam, tema a tema, do reconhecimento, da mensuração e da divulgação das operações e dos elementos das demonstrações financeiras. Estão estruturadas com base nas normas internacionais de contabilidade adotadas na União Europeia, adaptadas ao contexto nacional. Cada norma tem um número e um título, mas o que se aprende é o tema de cada uma: o número e o detalhe consultam-se no texto oficial, na redação em vigor.

Como se lê uma norma

Quase todas as normas seguem o mesmo esqueleto, o que facilita muito a consulta:

  1. Objetivo: o que a norma pretende regular.
  2. Âmbito: a que operações ou entidades se aplica (e o que fica de fora).
  3. Definições: termos com sentido preciso (por exemplo, o que é "valor realizável líquido").
  4. Reconhecimento: quando se regista o elemento.
  5. Mensuração: por que valor, inicialmente e depois.
  6. Divulgação: o que tem de constar do anexo.
  7. Data de eficácia e transição: a partir de quando se aplica e como se muda.

Quando procuras uma resposta, vai primeiro às definições e ao reconhecimento, e só depois à mensuração. Muitos erros nascem de aplicar o valor certo ao momento errado.

Temas tratados pelas NCRF

Tema O que regula, em termos simples
Estrutura e conteúdo das demonstrações financeiras como se apresentam as demonstrações
Demonstração dos fluxos de caixa classificação em atividades operacionais, de investimento e de financiamento
Políticas contabilísticas, alterações em estimativas e erros como tratar mudanças e correções
Inventários custeio, fórmulas de custo e valor realizável líquido
Ativos fixos tangíveis custo, depreciação, abates e vendas
Ativos intangíveis critérios de reconhecimento e amortização
Locações classificação e tratamento
Rédito quando e por que valor reconhecer vendas e serviços
Subsídios e apoios do Governo reconhecimento e apresentação
Imposto sobre o rendimento imposto corrente e diferido
Provisões, passivos contingentes e ativos contingentes obrigações incertas
Acontecimentos após a data do balanço eventos posteriores ao fecho
Efeitos de alterações em taxas de câmbio operações em moeda estrangeira
Custos de empréstimos obtidos capitalização ou gasto
Imparidade de ativos perdas de valor
Instrumentos financeiros classificação e mensuração
Partes relacionadas divulgação de transações
Concentrações e consolidação contas de grupos

Para quem trabalha ao nível de assistente, os temas mais frequentes no quotidiano são: apresentação das demonstrações, inventários, ativos fixos, rédito, imposto, provisões, acontecimentos após o balanço, moeda estrangeira e correção de erros.

Exemplo resolvido · Fórmulas de custo dos inventários

Uma entidade tem mercadorias da mesma referência e regista em unidades e em euros:

Data Operação Unidades Custo unitário (EUR)
1 jan Existência inicial 100 10,00
10 jan Compra 200 12,00
20 jan Compra 100 13,00
31 jan Saídas (vendas) no mês 250

Passo 1. Custo total disponível. 100 × 10 = 1 000; 200 × 12 = 2 400; 100 × 13 = 1 300. Total = 4 700 para 400 unidades.

Passo 2. Custo médio ponderado (calculado no fim do mês). 4 700 ÷ 400 = 11,75 por unidade. Custo das saídas = 250 × 11,75 = 2 937,50. Inventário final = 150 × 11,75 = 1 762,50. Soma: 2 937,50 + 1 762,50 = 4 700. ✓

Passo 3. FIFO (primeiro a entrar, primeiro a sair). As 250 unidades que saem são as mais antigas: 100 × 10 = 1 000, mais 150 × 12 = 1 800, total 2 800. O inventário final fica com 50 unidades a 12 (600) e 100 a 13 (1 300), total 1 900. Soma: 2 800 + 1 900 = 4 700. ✓

Passo 4. Comparar.

Fórmula Custo das saídas Inventário final Efeito no resultado
Custo médio ponderado 2 937,50 1 762,50 resultado menor
FIFO 2 800,00 1 900,00 resultado maior

Com preços a subir, o FIFO dá um custo das saídas menor (2 800 contra 2 937,50) e, por isso, um resultado maior. A escolha da fórmula é uma política contabilística: escolhe-se uma e aplica-se de forma consistente. Mudar de fórmula só se justifica por razões fundamentadas e exige divulgação.

Exemplo resolvido · Valor realizável líquido e perda por imparidade

Uma mercadoria tem custo de aquisição de 1 800 EUR. No fecho do período, estima-se vendê-la por 2 000 EUR, com custos de venda de 300 EUR.

Passo 1. Valor realizável líquido. 2 000 − 300 = 1 700.

Passo 2. Comparar com o custo. Os inventários mensuram-se pelo menor do custo e do valor realizável líquido. Menor entre 1 800 e 1 700 = 1 700.

Passo 3. Perda. 1 800 − 1 700 = 100, a registar como gasto do período (perda por imparidade de inventários), com contrapartida numa conta de perdas por imparidade acumuladas.

Se, no período seguinte, o valor realizável líquido recuperar, a perda é revertida até ao limite do custo original.

Exemplo resolvido · Acontecimentos após a data do balanço

O balanço de uma entidade fecha em 31 de dezembro e as contas são autorizadas para emissão em março. Classifica os acontecimentos como ajustantes (exigem alterar as contas) ou não ajustantes (só divulgação, se relevantes).

  1. Em fevereiro, um cliente com dívida de dezembro é declarado insolvente.
  2. Em fevereiro, um incêndio destrói parte do armazém, que estava intacto em 31 de dezembro.
  3. Em janeiro, conclui-se um litígio que já existia em dezembro, com decisão desfavorável e valor superior ao estimado.
  4. Em fevereiro, a entidade decide emitir novas ações.

Resolução.

  1. Ajustante: confirma que o crédito já estava em risco em dezembro. Há que reconhecer a perda (imparidade) nas contas de dezembro.
  2. Não ajustante: a condição (o incêndio) não existia no balanço. Divulga-se a natureza e o efeito estimado, se relevante.
  3. Ajustante: o litígio era uma situação existente em dezembro, e a decisão fornece prova adicional do valor a registar.
  4. Não ajustante: é uma decisão posterior, de capital; divulga-se se for relevante.

O critério é sempre o mesmo: o acontecimento fornece prova de uma condição que já existia na data do balanço?

Exemplo resolvido · Reconhecer ou não uma provisão

Uma provisão reconhece-se quando se cumprem três condições em simultâneo: (a) a entidade tem uma obrigação presente resultante de um acontecimento passado; (b) é provável uma saída de recursos para a liquidar; (c) pode fazer-se uma estimativa fiável. Aplica a regra aos casos:

Caso Obrigação presente? Saída provável? Estimativa fiável? Tratamento
Garantia dada a clientes por vendas já realizadas, com histórico de reparações sim sim sim provisão
Litígio em curso em que o advogado considera improvável a condenação possível não passivo contingente: divulgar, não provisionar
Intenção de reestruturar sem plano formal comunicado não nada a reconhecer
Litígio perdido em primeira instância, com decisão definitiva esperada contra a entidade e valor estimável sim sim sim provisão

Os ativos contingentes (ganhos possíveis) nunca se reconhecem enquanto não forem praticamente certos, por razões de prudência. Só podem ser divulgados se a entrada de benefícios for provável.

Políticas contabilísticas, estimativas e erros

Três situações parecem semelhantes e têm tratamentos diferentes:

Situação Exemplo Tratamento
Alteração de política contabilística passar de uma fórmula de custeio para outra aplica-se retrospetivamente, como se sempre tivesse sido usada, e divulga-se
Alteração de estimativa rever a vida útil de uma máquina de cinco para sete anos aplica-se prospetivamente, a partir do período da alteração
Erro de períodos anteriores esquecer uma fatura de fornecedor no ano passado corrige-se retrospetivamente, reexpressando os períodos comparativos quando material

Perante dúvida, pergunta: mudou o critério, mudou a estimativa ou havia um erro? A resposta decide o tratamento.

Exemplo resolvido · Revisão da vida útil

Um equipamento adquirido por 12 000 EUR é depreciado em cinco anos, a 2 400 por ano. No fim do ano 2, a entidade conclui que o equipamento durará, no total, sete anos (valor residual nulo).

Passo 1. Valor líquido no início do ano 3. 12 000 − (2 × 2 400) = 7 200.

Passo 2. Vida útil restante. 7 − 2 = 5 anos.

Passo 3. Nova depreciação anual. 7 200 ÷ 5 = 1 440, a aplicar a partir do ano 3. Os anos 1 e 2 não são alterados.

É uma alteração de estimativa, tratada prospetivamente. Divulga-se no anexo a natureza e o efeito da alteração.

Moeda estrangeira

Uma operação em moeda estrangeira regista-se na moeda funcional (para a maioria das entidades portuguesas, o euro) à taxa de câmbio da data da transação. Na data do balanço, os saldos monetários em moeda estrangeira (clientes, fornecedores, depósitos) reexprimem-se à taxa de câmbio de fecho, e a diferença é reconhecida em resultados.

Exemplo. Em novembro, uma entidade compra mercadorias a um fornecedor estrangeiro por 5 000 unidades de moeda estrangeira, à taxa de 0,90 euros por unidade, ou seja, 4 500 EUR. Em 31 de dezembro, a taxa é 0,92. A dívida passa a valer 5 000 × 0,92 = 4 600 EUR. A diferença de 100 EUR é um gasto cambial do período (a dívida aumentou), debitado a uma conta de gastos e creditado ao fornecedor.

Exemplo resolvido · Escolher a norma para uma situação nova

Chega ao gabinete uma pergunta: "A empresa recebeu um subsídio do Estado para comprar uma máquina. Como se regista?" O raciocínio é o de um técnico que procura a regra, não de quem adivinha:

  1. Identificar o tema: é um apoio do Governo ligado a um ativo, logo, a norma sobre subsídios e apoios do Governo.
  2. Ler as definições: perceber a diferença entre subsídio relacionado com ativos e subsídio relacionado com rendimentos.
  3. Ler o reconhecimento: o subsídio só se reconhece quando há segurança razoável de que as condições serão cumpridas e o subsídio será recebido.
  4. Ler a mensuração e a apresentação: o subsídio relacionado com ativos reconhece-se, em geral, como rendimento ao longo da vida útil do ativo, ficando o saldo ainda por reconhecer apresentado de acordo com o tratamento que a norma prevê.
  5. Consultar o anexo: ver o que é preciso divulgar.
  6. Registar a decisão na pasta do cliente, com a referência da norma e a versão consultada.

O procedimento é transversal: tema, definições, reconhecimento, mensuração, divulgação, registo.

7. NCRF-PE, microentidades e entidades do setor não lucrativo

A lógica da proporcionalidade

Exigir a uma papelaria de bairro o mesmo conjunto de contas que se exige a um grupo industrial seria desproporcionado: o custo de preparar e auditar informação detalhada excederia o seu benefício para quem a lê. É esta a ideia por trás dos regimes simplificados do SNC: manter a mesma estrutura de pensamento (a estrutura conceptual, o Código de Contas, os modelos), mas com menos exigências de reconhecimento, mensuração e divulgação para entidades de menor dimensão.

A NCRF-PE

A Norma Contabilística e de Relato Financeiro para Pequenas Entidades (NCRF-PE) é a versão simplificada das NCRF, aplicável às entidades que cumprem os critérios de dimensão definidos na lei. Em termos práticos:

Para saber, tema a tema, o que muda entre NCRF e NCRF-PE, o texto oficial na redação em vigor é a única fonte fiável. Em sala de aula e no trabalho, constrói uma tabela comparativa pessoal, atualizada sempre que a norma se alterar.

O regime das microentidades

As microentidades são as entidades de menor dimensão, definidas por critérios ainda mais restritos que os das pequenas entidades. Têm uma norma contabilística própria, mais simples ainda, que permite um conjunto de demonstrações financeiras reduzido e dispensa várias exigências. Algumas entidades que cumpram os critérios podem optar por não aplicar o regime, escolhendo o das pequenas entidades ou o geral. A opção é registada e mantida de forma consistente.

As entidades do setor não lucrativo

As entidades do setor não lucrativo, no âmbito definido na própria norma, têm uma norma específica, a NCRF-ESNL, que adapta os conceitos à sua realidade: em vez de lucro, falam de resultado e de fundos patrimoniais; em vez de sócios com capital, falam de associados, quotas e subsídios. O Código de Contas tem contas específicas para estas entidades.

Quadro comparativo dos regimes

Aspeto Regime geral (NCRF) Pequenas entidades (NCRF-PE) Microentidades Setor não lucrativo (ESNL)
Destinatários entidades que excedem os limites de dimensão ou que o exijam por natureza entidades que cumprem os critérios de dimensão entidades de dimensão mais reduzida, nos termos da lei associações, fundações e semelhantes
Complexidade maior menor mínima adaptada ao setor
Demonstrações conjunto completo conjunto completo ou reduzido, conforme a lei conjunto reduzido conjunto próprio, com adaptações
Divulgações extensas reduzidas mínimas adaptadas
Base normas internacionais adotadas na UE, adaptadas versão simplificada das NCRF norma própria muito simples NCRF adaptadas ao setor

Os conteúdos exatos de cada coluna dependem do diploma em vigor e devem ser verificados antes de cada trabalho.

Exemplo resolvido · Preparar a informação para uma pequena entidade

A Empresa Beta é uma sociedade por quotas de comércio a retalho. O gabinete recebe o processo de fecho do ano. Como assistente, deves preparar a informação para que o contabilista certificado decida o regime e feche as contas.

Passo 1. Reunir os indicadores de dimensão. Total do balanço no fim do ano, volume de negócios líquido do ano e número médio de empregados. Recolhe os valores do ano em curso e do anterior, porque o enquadramento depende de períodos consecutivos.

Passo 2. Registar numa ficha.

Indicador Ano anterior Ano em curso Fonte
Total do balanço (preencher) (preencher) balanço
Volume de negócios líquido (preencher) (preencher) demonstração dos resultados
Número médio de empregados (preencher) (preencher) processamento salarial

Passo 3. Cruzar com os limites do diploma em vigor. Verifica quantos dos três indicadores a entidade ultrapassa e se o faz em períodos consecutivos. A decisão sobre o regime é do contabilista certificado, mas tu entregas a ficha completa e fundamentada.

Passo 4. Verificar exceções. Existe obrigação de certificação legal de contas? A entidade pertence a um grupo com consolidação? Opta voluntariamente por um regime mais exigente?

Passo 5. Arquivar a ficha na pasta do cliente, com a data e a versão do diploma consultado. Quando alguém questionar o regime, a ficha responde.

Erros comuns na escolha do regime

8. Normas internacionais de contabilidade (IAS/IFRS)

Quem emite e como se chamam

As normas internacionais de contabilidade são emitidas por um organismo independente de normalização com sede em Londres, o International Accounting Standards Board (IASB), que sucedeu a um organismo anterior. As normas mais antigas chamam-se IAS (International Accounting Standards), as mais recentes chamam-se IFRS (International Financial Reporting Standards). Existem ainda interpretações (emitidas por um comité próprio) que esclarecem a aplicação das normas. Em conjunto, costuma dizer-se "as IAS/IFRS".

O que as torna obrigatórias na Europa

As normas internacionais não têm força legal por si. Na União Europeia, são adotadas através de um procedimento próprio e passam a vigorar por regulamento europeu. Esse regulamento obriga certas categorias de entidades, em especial as que têm valores admitidos à negociação em mercado regulamentado, a elaborar as contas consolidadas segundo as normas internacionais adotadas na União Europeia. Cada Estado-Membro pode permitir ou impor o seu uso a outras entidades e a contas individuais. Em Portugal, a legislação do SNC regula esta possibilidade; confirma sempre o enquadramento na redação em vigor.

Relação entre o SNC e as normas internacionais

O SNC foi construído com inspiração nas normas internacionais adotadas na União Europeia, o que significa:

Isto explica porque um profissional que domina o SNC lê com relativa facilidade contas feitas segundo as IFRS, e vice-versa, desde que conheça a terminologia.

Dicionário de termos

Termo na versão inglesa Equivalente em português do SNC
Statement of financial position Balanço
Statement of profit or loss Demonstração dos resultados
Statement of cash flows Demonstração dos fluxos de caixa
Property, plant and equipment Ativos fixos tangíveis
Intangible assets Ativos intangíveis
Inventories Inventários
Trade receivables Clientes
Trade payables Fornecedores
Revenue Rédito
Impairment Imparidade
Equity Capital próprio
Provisions Provisões
Fair value Justo valor
Going concern Continuidade
Accruals basis Regime do acréscimo

Exemplo resolvido · Traduzir uma rubrica entre referenciais

Um cliente estrangeiro envia as suas demonstrações segundo as normas internacionais. Uma das linhas diz Trade and other receivables: 245 000. Como a classificas nas contas portuguesas?

Passo 1. Traduzir o termo. Trade receivables corresponde a Clientes; other receivables corresponde a Outras contas a receber. Por isso a linha agrega as contas 21 (Clientes) e 27 (Outras contas a receber e a pagar, no que for crédito).

Passo 2. Pedir a decomposição. Só com o detalhe do anexo é possível separar os valores. Pede-o.

Passo 3. Registar a correspondência numa tabela de apoio, para reutilizar quando surgir a mesma linha.

Passo 4. Cuidado com as diferenças de critério. Mesmo que as palavras sejam as mesmas, o critério de mensuração pode divergir. Uma tradução rigorosa dos termos não substitui a verificação do critério.

Diferenças típicas de critério

Sem entrar no detalhe de cada norma, e apenas como orientação, as principais fontes de diferença entre referenciais costumam ser:

Matéria Fonte típica de diferença
Opções de mensuração o referencial internacional pode permitir opções que o SNC restringe, ou o contrário
Divulgações o nível de detalhe do anexo varia entre regimes
Instrumentos financeiros regras de classificação e mensuração distintas conforme o regime aplicável
Modelos de demonstrações linhas e ordem diferentes
Contas consolidadas regras próprias dos grupos

Porque interessa a um assistente de contabilidade

Mesmo que a entidade em que trabalhas aplique o regime das pequenas entidades, conhecer as normas internacionais ajuda em três situações: (a) clientes ou fornecedores estrangeiros que enviam informação em termos internacionais; (b) entidades portuguesas que fazem parte de grupos que reportam segundo as IFRS e te pedem informação adaptada; (c) a leitura de normas e interpretações que explicam, em mais pormenor, o espírito do SNC.

9. Legislação associada ao SNC

Mapa da legislação

A contabilidade vive entre vários diplomas. Para não te perderes, pensa na legislação em famílias:

Família Matérias Exemplos de pergunta que responde
Contabilidade e relato diploma que aprova o SNC, portarias do Código de Contas e dos modelos, avisos que publicam as normas Que conta uso? Que modelo preencho?
Direito societário Código das Sociedades Comerciais e legislação conexa Que documentos de prestação de contas tem a sociedade? Quem os aprova?
Direito comercial Código Comercial e legislação sobre escrituração Que livros e registos são obrigatórios?
Fiscalidade Código do IRC, Código do IRS, Código do IVA e legislação de faturação Esta despesa é aceite? Este documento é válido?
Trabalho e segurança social Código do Trabalho e legislação contributiva Como processar salários e contribuições?
Conservação de documentos legislação sobre arquivo de documentos administrativos e financeiros Durante quanto tempo guardo este documento?
Profissional e auditoria estatuto profissional dos contabilistas certificados e regime da auditoria Quem assina? Quando é obrigatória a certificação?
Proteção de dados regime de proteção de dados pessoais Posso guardar e partilhar estes dados?

Como consultar a legislação

  1. Partir sempre do texto consolidado em vigor, disponível no Diário da República eletrónico e nos portais oficiais.
  2. Anotar a data da consulta e a versão do diploma.
  3. Distinguir lei (diploma legal), portaria (regulamento do Governo), aviso (publicação de normas) e norma interpretativa.
  4. Quando a lei remete para outra, seguir a remissão até ao fim.
  5. Em caso de dúvida, perguntar ao contabilista certificado responsável, e não decidir sozinho.

Prestação de contas: o que é, em linha geral

A prestação de contas é o conjunto de documentos que a entidade tem de elaborar, aprovar e entregar nos termos da lei depois do fecho do exercício. Em linhas gerais, incluem:

Os prazos são fixados na lei e podem ser alterados. Em cada exercício, consulta o calendário de obrigações oficial e planeia as tarefas para trás, a partir da data-limite, com margem de segurança. Nunca copies datas do ano anterior sem confirmação.

Exemplo resolvido · Calendário interno de fecho

Para cumprir prazos, o gabinete cria um calendário interno que recua a partir do dia-limite legal. A tabela mostra a lógica (as datas ficam por preencher porque dependem do calendário oficial do ano):

Tarefa Responsável Prazo interno Dependência
Receber documentos do último trimestre assistente D − 60 dias cliente
Conciliações bancárias assistente D − 50 dias extratos
Regularizações de fim de ano (depreciações, acréscimos, inventário) assistente D − 40 dias conferência do contabilista
Balancete de fecho verificado contabilista certificado D − 30 dias regularizações
Demonstrações financeiras e anexo assistente e contabilista D − 20 dias balancete
Aprovação pela gestão e ata gestão D − 10 dias demonstrações
Submissão eletrónica contabilista certificado D − 5 dias aprovação

D é a data-limite oficial. Cada intervalo é um exemplo de planeamento, e não uma regra legal; o gabinete ajusta-os à sua realidade. O ponto essencial é que cada tarefa tem responsável, prazo e dependência.

Conservação e arquivo de documentos

A legislação sobre arquivo de documentos administrativos e financeiros impõe que os documentos de suporte sejam conservados durante o prazo legal e que estejam acessíveis e legíveis durante esse período. Isto aplica-se a documentos em papel e digitais. Boas práticas de arquivo:

  1. Classificar os documentos por entidade, ano e tipo.
  2. Numerar e referenciar cada documento ao lançamento que o suporta.
  3. Garantir a integridade: nenhum documento é alterado depois de arquivado. Se for preciso corrigir, cria-se um novo documento que referencia o anterior.
  4. Controlar o acesso, em respeito pela proteção de dados.
  5. Fazer cópias de segurança dos arquivos digitais e testar a recuperação.
  6. Registar a data de destruição quando o prazo terminar e usar processos seguros de eliminação.

Exemplo resolvido · Arquivo de uma fatura de fornecedor

A fatura de um fornecedor chega por email em formato eletrónico.

Passo 1. Verificar a validade. Identificação do fornecedor e da entidade adquirente (com número de identificação fiscal), descrição, data, valores, taxa e montante do imposto, número sequencial.

Passo 2. Atribuir referência interna. Por exemplo, tipo de documento, ano e número de ordem.

Passo 3. Lançar na contabilidade, indicando a referência no lançamento.

Passo 4. Arquivar o ficheiro na pasta digital correta (entidade, ano, fornecedores), com um nome que inclua a referência.

Passo 5. Fazer cópia de segurança e confirmar periodicamente que o ficheiro abre.

Passo 6. Conservar pelo prazo legal, registado na lista de retenção.

Software certificado e ficheiros normalizados

O software de faturação usado pelas entidades obrigadas deve cumprir os requisitos legais, incluindo a certificação quando aplicável, e permite exportar a informação num formato normalizado, o ficheiro de auditoria tributária (SAF-T). Quem trabalha com contabilidade deve saber que ficheiros se geram, com que periodicidade e quem os submete, para garantir que os dados contabilísticos e os de faturação batem entre si.

10. Fases de realização de um sistema de contabilidade segundo o SNC

Porque é um projeto

Implementar (ou adaptar) um sistema de contabilidade de acordo com o SNC não é carregar num botão. É um projeto, com início, fim, responsáveis, prazos e riscos. Acontece quando uma entidade nasce, quando muda de software, quando passa de um regime para outro, ou quando o sistema existente precisa de ser corrigido. O teu papel, ao nível de assistente, é colaborar: recolher informação, preparar tabelas, testar, registar e comunicar problemas, sob a coordenação de quem responde tecnicamente.

As fases

Fase O que se faz Produto de saída
1. Diagnóstico conhecer a entidade: atividade, dimensão, regime, circuitos, sistemas atuais, pessoas relatório de diagnóstico
2. Planeamento definir âmbito, tarefas, responsáveis, prazos e riscos plano do projeto
3. Políticas contabilísticas e plano de contas escolher as políticas permitidas pelas normas; desdobrar o Código de Contas manual de políticas e plano de contas interno
4. Documentos e circuitos definir os documentos de suporte, quem os recebe, aprova, regista e arquiva manual de procedimentos
5. Parametrização do software configurar empresa, períodos, contas, diários, impostos, utilizadores, modelos sistema parametrizado
6. Migração e saldos de abertura converter dados anteriores e carregar saldos iniciais saldos de abertura validados
7. Testes lançamentos de teste, balancetes, demonstrações, comparação com o sistema anterior relatório de testes
8. Formação ensinar os utilizadores a usar o sistema e os procedimentos utilizadores formados
9. Arranque começar a trabalhar no sistema novo sistema em produção
10. Acompanhamento e melhoria resolver dúvidas, afinar parâmetros, corrigir lista de melhorias

As fases não são rígidas nem estritamente sequenciais: os testes podem voltar a exigir ajustes na parametrização, e a formação começa antes do arranque. O que importa é que nenhuma fase seja saltada.

Fase 1: Diagnóstico

Perguntas que o diagnóstico responde:

A resposta a estas perguntas determina quanto trabalho vai ser preciso e que riscos existem.

Fase 3: Políticas contabilísticas e plano de contas

O SNC permite escolhas dentro de limites. Cada escolha deve ser registada e mantida. Por exemplo:

Matéria Opções frequentes (dentro do permitido) Decisão a registar
Inventários sistema permanente ou intermitente; fórmula de custeio qual e porquê
Depreciação método da linha reta ou outros previstos; vida útil por classe método, vida útil e valor residual
Reconhecimento do rédito momento da transferência do controlo; serviços ao longo do tempo critério por tipo de venda
Moeda estrangeira fonte da taxa de câmbio fonte oficial adotada
Limiar de capitalização valor a partir do qual um bem é ativo e não gasto valor aprovado pela gestão

O plano de contas interno desdobra o Código de Contas. Por exemplo, a conta 21 Clientes pode ter uma subconta por cliente; a conta 12 Depósitos à ordem, uma subconta por banco; a conta 62 Fornecimentos e serviços externos, subcontas por tipo de serviço (eletricidade, comunicações, rendas, limpeza). Regras úteis: uma numeração lógica e estável, designações claras, sem criar contas duplicadas e sem alterar o sentido das contas oficiais.

Fase 6: Migração e saldos de abertura

A fase da migração é a mais delicada, porque os erros ficam "escondidos" nos saldos. A técnica essencial é criar uma tabela de correspondência entre as contas antigas e as novas, e verificar que o total dos débitos e dos créditos iniciais é igual.

Exemplo resolvido · Tabela de correspondência e saldos de abertura

A Empresa Gama passa de um sistema antigo para um sistema parametrizado segundo o SNC. Os saldos antigos, em EUR, são:

Conta antiga Designação antiga Saldo Natureza
A1 Caixa 800 devedor
A2 Bancos 6 200 devedor
A3 Clientes 9 000 devedor
A4 Existências 5 000 devedor
A5 Imobilizado corpóreo 20 000 devedor
A6 Amortizações acumuladas 4 000 credor
A7 Fornecedores 7 000 credor
A8 Empréstimos 8 000 credor
A9 Capital 15 000 credor
A10 Resultados acumulados 7 000 credor

Passo 1. Verificar o equilíbrio do sistema antigo. Devedores: 800 + 6 200 + 9 000 + 5 000 + 20 000 = 41 000. Credores: 4 000 + 7 000 + 8 000 + 15 000 + 7 000 = 41 000. ✓

Passo 2. Mapear para o Código de Contas.

Conta antiga Conta nova Designação nova Débito Crédito
A1 11 Caixa 800
A2 12 Depósitos à ordem 6 200
A3 21 Clientes 9 000
A4 32 Mercadorias 5 000
A5 43 Ativos fixos tangíveis 20 000
A6 438 Depreciações acumuladas 4 000
A7 22 Fornecedores 7 000
A8 25 Financiamentos obtidos 8 000
A9 51 Capital subscrito 15 000
A10 56 Resultados transitados 7 000
Totais 41 000 41 000

Passo 3. Reconciliar. Os totais coincidem com os do sistema antigo. Depois de carregados os saldos no software, imprime o balancete de abertura e compara linha a linha.

Passo 4. Conferir a equação. Ativo líquido = 41 000 − 4 000 = 37 000; passivo = 7 000 + 8 000 = 15 000; capital próprio = 15 000 + 7 000 = 22 000; 15 000 + 22 000 = 37 000. ✓

Passo 5. Documentar. Arquiva a tabela, o balancete de abertura e a assinatura de quem validou. Se mais tarde aparecer uma dúvida sobre os saldos, a tabela é a prova.

Fase 7: Testes

Testar é fazer, de propósito, o que depois se vai fazer a sério, mas numa cópia ou numa empresa de teste:

  1. Lançamentos de cada tipo: compras, vendas, pagamentos, recebimentos, regularizações.
  2. Impostos: IVA liquidado e dedutível, retenções, apuramentos.
  3. Documentos de saída: balancete, razão, balanço, demonstração dos resultados, mapas de IVA.
  4. Permissões: o utilizador A consegue fazer o que deve e não consegue fazer o que não deve?
  5. Comparação paralela: processar o mesmo mês no sistema antigo e no novo e comparar resultados.
  6. Casos extremos: documentos com valor zero, notas de crédito, anulações, operações em moeda estrangeira.

Cada teste regista-se: data, quem testou, resultado, correção.

Fase 8 e 9: Formação e arranque

A formação deve ser prática, com exemplos da própria entidade. Para o arranque, é aconselhável definir uma data de corte (normalmente no início de um mês ou de um exercício), garantir cópias de segurança do sistema antigo e acompanhar de perto as primeiras semanas.

Fase 10: Acompanhamento

Depois do arranque, as dúvidas surgem. Cria um registo de ocorrências: o que aconteceu, quem reportou, como foi resolvido. Ao fim de um mês, analisa os padrões. Se o mesmo erro se repete, a causa está na parametrização ou na formação, e não nos utilizadores.

Atitudes que marcam a diferença num projeto

11. Software de gestão do SNC: características e funcionalidades

O que se espera de um bom software de contabilidade

O software de gestão contabilística é a ferramenta que transforma as regras do SNC em operações rápidas e consistentes. Um bom software:

Funcionalidades essenciais, uma a uma

Funcionalidade Para que serve Cuidado a ter
Criação da empresa e do exercício define identificação fiscal, regime, datas datas e regime errados contaminam tudo
Plano de contas contas disponíveis para lançar evitar contas duplicadas
Parametrização do IVA taxas, códigos de enquadramento, contas rever sempre quando a lei muda
Diários agrupam lançamentos por tipo usar o diário certo para cada documento
Lançamentos registo das operações conferir débito igual a crédito e referência do documento
Contas correntes saldo e antiguidade por cliente e fornecedor baixar documentos pagos pelo documento certo
Tesouraria e bancos movimentos de caixa e bancos, reconciliação reconciliar todos os meses
Imobilizado fichas de ativos e cálculo de depreciações validar vida útil e data de início
Inventários existências, custeio respeitar a política escolhida
Salários processamento e contabilização reconciliar com os mapas legais
Fecho do exercício regularizações, apuramento de resultados, abertura do seguinte só depois de conferir o balancete
Exportações ficheiros para as entidades públicas validar antes de submeter
Segurança utilizadores, perfis, cópias quem pode alterar o quê

Exemplo resolvido · Reconciliação bancária no software

No fim do mês, o extrato do banco mostra um saldo de 15 400 EUR. O saldo da conta 12 (subconta do banco) na contabilidade é de 15 040 EUR. Ao comparar os movimentos, encontras:

Passo 1. Ajustar o saldo do extrato. 15 400 − 1 200 (cheque em trânsito) + 800 (depósito em trânsito) = 15 000.

Passo 2. Ajustar o saldo contabilístico. 15 040 − 40 (comissão por lançar) = 15 000.

Passo 3. Conferir. Os dois saldos ajustados são iguais (15 000). A reconciliação fecha.

Passo 4. Lançar a comissão.

Conta Débito Crédito
62 Fornecimentos e serviços externos (serviços bancários) 40
12 Depósitos à ordem 40
Totais 40 40

Passo 5. Guardar a reconciliação, assinada e datada. Os itens "em trânsito" não se lançam: aparecem no extrato do mês seguinte e desaparecem sozinhos.

Exemplo resolvido · Contabilizar cinco documentos

Uma entidade recebe os documentos seguintes. Considera 23% de IVA (valor assumido para o exemplo) e indica o lançamento de cada um.

  1. Fatura de serviço de limpeza: 300 + IVA, a pagar a 30 dias.
  2. Pagamento a um fornecedor por transferência bancária, de uma dívida de 2 460.
  3. Fatura de compra de um computador, 1 200 + IVA, paga por transferência.
  4. Aviso de débito do banco com juros de um empréstimo: 85.
  5. Folha de salários de um trabalhador: remuneração bruta 2 000; retenção na fonte 260; contribuição do trabalhador 220; líquido a pagar 1 520.

Resolução.

N.º Conta Débito Crédito
1 62 Fornecimentos e serviços externos 300
1 2432 IVA dedutível (300 × 0,23 = 69) 69
1 22 Fornecedores 369
2 22 Fornecedores 2 460
2 12 Depósitos à ordem 2 460
3 43 Ativos fixos tangíveis 1 200
3 2432 IVA dedutível (1 200 × 0,23 = 276) 276
3 12 Depósitos à ordem 1 476
4 69 Gastos de financiamento 85
4 12 Depósitos à ordem 85
5 63 Gastos com o pessoal 2 000
5 24 Estado e outros entes públicos (retenção) 260
5 24 Estado e outros entes públicos (contribuições) 220
5 23 Pessoal 1 520

Verificação. Lançamento 1: 300 + 69 = 369 = 369 ✓. Lançamento 2: 2 460 = 2 460 ✓. Lançamento 3: 1 200 + 276 = 1 476 = 1 476 ✓. Lançamento 4: 85 = 85 ✓. Lançamento 5: 2 000 = 260 + 220 + 1 520 = 2 000 ✓.

Notas de bom senso: o computador é ativo fixo tangível apenas se a entidade assim o decidir nos termos da sua política de capitalização; se o valor ficar abaixo do limiar interno, regista-se como gasto. E o IVA do computador só é dedutível se as condições da lei de IVA estiverem cumpridas.

Controlo interno no software

Algumas características são especialmente importantes para a qualidade:

Folha de cálculo como complemento

A folha de cálculo continua a ser muito usada em contabilidade: para listagens, mapas de reconciliação, simulações de depreciações, conferências de saldos, calendários de obrigações. As boas práticas são: uma folha por finalidade, fórmulas visíveis e consistentes, células de entrada separadas das de cálculo, totais de controlo e proteção contra alterações acidentais. Uma folha nunca substitui o software contabilístico como registo oficial, mas é um excelente instrumento de trabalho.

Escolher e avaliar software

Se for preciso apoiar a escolha de uma solução, uma matriz simples ajuda:

Critério Pergunta
Conformidade cumpre o SNC, os modelos e a legislação em vigor?
Atualizações o fornecedor atualiza quando a lei muda?
Funcionalidades cobre IVA, imobilizado, inventários, salários, bancos?
Integração liga-se à faturação e aos portais públicos?
Segurança perfis, pista de auditoria, cópias?
Facilidade de uso a equipa aprende em tempo razoável?
Suporte existe apoio em português, com tempos de resposta?
Custo total licença, manutenção, formação, migração

Atribui a cada critério uma nota e um peso, e compara. Registar a decisão e o raciocínio evita discussões futuras.

12. Procedimentos administrativos das operações de normalização contabilística

O ciclo de trabalho

Executar operações de normalização contabilística no dia a dia é seguir um ciclo repetido com disciplina:

  1. Receber os documentos e a informação.
  2. Conferir a validade e a completude.
  3. Classificar segundo o Código de Contas e o plano interno.
  4. Lançar no software, com referência ao documento.
  5. Arquivar o documento.
  6. Reconciliar (bancos, contas correntes, IVA, salários).
  7. Rever com o responsável.
  8. Fechar o período.
  9. Reportar e preparar as demonstrações e as obrigações.

Checklist de conferência de um documento

Antes de lançar, confirma:

Exemplo resolvido · Detetar uma fatura duplicada

O balancete de compras do mês mostra dois lançamentos com o mesmo fornecedor, a mesma data e o mesmo valor, 1 230 EUR, mas com números de lançamento diferentes. Será duplicado?

Passo 1. Comparar a referência do documento. Se os dois lançamentos têm o mesmo número de fatura do fornecedor, é provável que seja duplicado. Se têm números diferentes, podem ser duas faturas legítimas.

Passo 2. Consultar o documento arquivado. Confirmar se existem um ou dois documentos físicos ou digitais.

Passo 3. Consultar a conta corrente do fornecedor. Se só existe um pagamento previsto, a dívida está inflacionada.

Passo 4. Corrigir. Se for duplicado, não se apaga o lançamento: faz-se um lançamento de estorno (o inverso) ou uma anulação autorizada, deixando rasto. A conta fica correta e a pista de auditoria preserva-se.

Conta Débito Crédito
22 Fornecedores 1 230
31 Compras (1 000) 1 000
2432 IVA dedutível (230) 230
Totais 1 230 1 230

O estorno é a forma correta de corrigir, porque o lançamento original continua a existir no histórico.

Segregação de funções e responsabilidade

A segregação de funções protege a entidade e o profissional. Ninguém deve acumular as tarefas de autorizar, registar, guardar ativos e conferir. Mesmo em equipas pequenas, é possível separar parcialmente (quem faz a reconciliação não faz os pagamentos). Quando a segregação não é possível, compensa-se com revisão por uma segunda pessoa e com relatórios de exceções.

Confidencialidade e ética

A informação contabilística é confidencial. O profissional cumpre o sigilo, não partilha dados fora do âmbito autorizado, não aceita pressões para alterar números e comunica ao responsável qualquer situação suspeita. A atitude de respeito pelas regras e normas não é rigidez, é a garantia de que o trabalho se pode defender perante qualquer revisão.

Cumprir prazos e requisitos

Os prazos fiscais, societários e contributivos são fixados em lei. A forma de os cumprir é planear a partir da data-limite, antecipar dependências, criar alertas e ter um plano B para falhas técnicas. Quando existir risco de atraso, comunica de imediato ao responsável. Um atraso comunicado a tempo ainda pode ser gerido; um atraso escondido costuma ser punido.

Exemplo resolvido · Registo de ocorrências no fecho do mês

Durante o fecho, encontras três problemas:

  1. Uma fatura de despesa sem número de identificação fiscal da entidade.
  2. Um movimento bancário sem documento de suporte, de 350 EUR.
  3. Um saldo credor numa conta de clientes, de 120 EUR.

Passo 1. Registar cada ocorrência numa lista com data, descrição, valor, responsável e estado.

Passo 2. Atuar de acordo com o procedimento.

  1. Pedir ao fornecedor a segunda via corrigida; até lá, não deduzir o IVA.
  2. Perguntar à gestão a natureza do movimento e obter o documento. Enquanto não houver documento, o movimento fica em conta transitória identificada, e não em gasto.
  3. Investigar a origem do saldo credor: pode ser um adiantamento, um recebimento em excesso ou uma nota de crédito por lançar. Conforme a causa, reclassifica-se, devolve-se ou lança-se a nota de crédito.

Passo 3. Acompanhar até ao fecho de cada ocorrência.

Passo 4. Comunicar ao responsável as ocorrências por resolver antes do fecho.

O profissional rigoroso não "arruma" um problema no sítio mais conveniente. Deixa-o visível, identificado e a caminho de resolução.

Erros comuns

Glossário

Síntese

A normalização contabilística existe para que as contas de entidades diferentes e de períodos diferentes sejam fiáveis, comparáveis e úteis a quem decide. Em Portugal, concretiza-se no SNC, um sistema com estrutura conceptual, Código de Contas, modelos de demonstrações financeiras, normas por tema (NCRF), regimes simplificados (NCRF-PE, microentidades, setor não lucrativo) e normas interpretativas, em convergência com as normas internacionais (IAS/IFRS) adotadas na União Europeia. A regra de ouro é o regime do acréscimo e a equação Ativo = Passivo + Capital próprio, com o resultado a ligar o desempenho ao capital.

Executar operações de normalização é trabalhar com método: preparar a informação, conferir e classificar documentos, lançar pelas partidas dobradas, arquivar, reconciliar, verificar balancetes e construir demonstrações coerentes. A legislação associada (societária, fiscal, laboral, de faturação e de conservação de documentos) define os prazos e requisitos que a entidade tem de cumprir, e consulta-se sempre no texto oficial em vigor. Implementar um sistema de contabilidade é um projeto em fases, do diagnóstico ao acompanhamento, e o software é a ferramenta que dá consistência, desde que bem parametrizado, testado e controlado. Em tudo isto contam o rigor, a responsabilidade, a cooperação e o respeito pelas regras e normas definidas. Com estas competências, serás capaz de preparar informação, executar procedimentos e colaborar na implementação de um sistema de contabilidade de acordo com o SNC.

Exercícios resolvidos

1. Uma entidade tem: depósitos à ordem 6 000; clientes 4 000; equipamento líquido 10 000; fornecedores 5 000; empréstimo a longo prazo 7 000; capital 2 000; reservas 3 000; resultado líquido do período 3 000. Verifica a equação contabilística.

Resolução: ativo = 6 000 + 4 000 + 10 000 = 20 000. Passivo = 5 000 + 7 000 = 12 000. Capital próprio = 2 000 + 3 000 + 3 000 = 8 000. Passivo + capital próprio = 12 000 + 8 000 = 20 000, igual ao ativo. A equação fecha. Se não fechasse, o primeiro passo seria rever a lista de rubricas e os documentos de suporte antes de aceitar o balanço.

2. Um bem custa 9 000 EUR, tem valor residual de 900 EUR e vida útil de seis anos. Calcula a depreciação anual pelo método da linha reta e o valor líquido no fim do ano 2.

Resolução: depreciação anual = (9 000 − 900) ÷ 6 = 8 100 ÷ 6 = 1 350. No fim do ano 2, a depreciação acumulada é 2 700 e o valor líquido é 9 000 − 2 700 = 6 300.

3. O balancete de uma entidade apresenta devedores de 45 300 e credores de 45 000. Qual o procedimento?

Resolução: a diferença é 300. Primeiro procura-se um lançamento de 300 gravado só de um lado. Depois um de 150, metade da diferença, lançado ao contrário: um valor que devia ter ido a débito e foi a crédito desequilibra o balancete no dobro do seu valor. A troca de dígitos fica excluída neste caso, porque a diferença de uma transposição é sempre múltipla de 9 e 300 não é. Não se ajusta com uma conta transitória para "fechar", porque isso esconde o erro. Corrige-se na origem, com estorno e novo lançamento, e confere-se de novo o balancete.

4. Classifica as seguintes situações como normalização nacional, internacional, imperativa ou interna: (a) regulamento europeu que impõe as normas internacionais às contas consolidadas de entidades cotadas; (b) circular interna que obriga a validar faturas acima de determinado montante com duas assinaturas; (c) portaria que aprova o Código de Contas.

Resolução: (a) normalização internacional, tornada imperativa por regulamento supranacional; (b) normalização interna da entidade; (c) normalização nacional e imperativa.

5. Em stock: 50 unidades a 4 EUR e 50 unidades a 5 EUR, nesta ordem de compra. Saem 70 unidades. Calcula o custo das saídas e o inventário final por FIFO.

Resolução: saídas = 50 × 4 + 20 × 5 = 200 + 100 = 300. Inventário final = 30 × 5 = 150. Verificação: 300 + 150 = 450 = 50 × 4 + 50 × 5. ✓

6. Em março, descobre-se que uma fatura de fornecedor de dezembro não foi lançada nas contas do ano anterior, já aprovadas. Como se classifica e trata?

Resolução: é um erro de período anterior. Corrige-se retrospetivamente, reexpressando os comparativos quando o valor é material, com divulgação. Se for imaterial, a entidade segue a política definida para o tratamento de correções; em qualquer caso, não se resolve apenas lançando o gasto no ano corrente sem análise.

7. O IVA liquidado de um mês foi de 1 150 EUR e o IVA dedutível, de 1 380 EUR. Qual o resultado do apuramento?

Resolução: 1 150 − 1 380 = −230. O IVA dedutível excede o liquidado em 230: há IVA a recuperar de 230 (a transitar para o período seguinte ou a pedir em reembolso, conforme as regras aplicáveis).

8. Num projeto de implementação, a equipa quer começar a registar no sistema novo sem testes, por falta de tempo. Que argumentos usas?

Resolução: sem testes, os erros de parametrização só aparecem em produção, onde corrigi-los custa mais e deixa rasto nas contas. Os testes verificam impostos, permissões, balancetes e demonstrações, e a comparação paralela com o sistema antigo prova que os resultados coincidem. Propõe-se um plano de testes mínimo, com os fluxos críticos, em vez de omitir a fase.