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UC · Unidade de Competência · UC02765

Sebenta · Implementar as normas de segurança e saúde no trabalho em marketing e publicidade (UC02765)

Princípios, legislação, avaliação de riscos, planos de segurança, EPI, acidentes, primeiros socorros e incêndios
—h · — pontos crédito Curso: T. Marketing/RP, T. Organização de Eventos ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a implementar as normas de segurança e saúde no trabalho (SST) no contexto do marketing, das relações públicas e da publicidade. Pode parecer um setor "de secretária", mas quem trabalha nele passa horas ao ecrã, monta eventos, coordena rodagens, manuseia equipamento de iluminação e som e trabalha sob pressão de prazos — todos contextos com riscos reais para a saúde e a segurança.

O objetivo não é decorar leis, mas saber pensar em prevenção: identificar o que pode correr mal, avaliar a gravidade, aplicar a medida certa pela ordem certa e saber agir quando algo acontece (um acidente, uma emergência médica, um incêndio, uma evacuação). No fim, deves ser capaz de olhar para um escritório, um estúdio ou um evento e dizer, com fundamento, o que está seguro e o que precisa de correção.

Objetivos de aprendizagem (referencial):

  1. Analisar os princípios gerais sobre segurança e saúde no trabalho.
  2. Aplicar medidas e procedimentos de segurança e saúde no trabalho.

Percorremos os princípios e o enquadramento legal, a avaliação de riscos e os planos de segurança, os riscos específicos do setor, os equipamentos de proteção, os acidentes de trabalho, os primeiros socorros e a segurança contra incêndios e a evacuação. Cada capítulo tem exemplos concretos aplicados ao dia a dia de uma agência ou produtora.

1. O que é a SST e porque importa

A Segurança e Saúde no Trabalho (SST) é o conjunto de normas, medidas e práticas destinadas a prevenir acidentes de trabalho e doenças profissionais e a proteger o bem-estar físico e mental de quem trabalha.

Convém separar dois conceitos:

O conceito que une tudo é a prevenção: agir antes de o dano acontecer, e não remediar depois. Toda a legislação e toda a boa prática de SST assentam nesta ideia.

Porque importa no marketing e publicidade

O setor é diverso e cada contexto tem os seus riscos:

Contexto Riscos típicos
Escritório / agência Postura, ecrãs, ruído ambiente, stress, sedentarismo
Produção de vídeo / rodagens Cargas, cabos, eletricidade, alturas, calor dos projetores
Eventos e ativações Montagem de estruturas, multidões, evacuação, ruído
Estúdio / gráfica Máquinas, produtos químicos (tintas, solventes)
Trabalho remoto Ergonomia em casa, isolamento, riscos psicossociais

A cultura de urgência (prazos apertados, "para ontem") aumenta a fadiga e o erro humano. E quando se organiza um evento com público, há responsabilidade legal também pela segurança de terceiros.

O regime jurídico da SST em Portugal assenta na Lei n.º 102/2009, de 10 de setembro — Regime Jurídico da Promoção da Segurança e Saúde no Trabalho — com alterações posteriores. Esta lei transpõe para a ordem interna a Diretiva-Quadro 89/391/CEE da União Europeia e aplica-se a todos os setores de atividade, incluindo agências, produtoras e estúdios.

O princípio-base (art.º 5.º): o trabalhador tem direito a prestar trabalho em condições que respeitem a sua segurança e a sua saúde, e cabe ao empregador assegurá-lo.

A lei é complementada por diplomas específicos, entre os quais interessam ao setor:

Existem ainda entidades de referência: a ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho), que fiscaliza; e a DGS e o SNS na área da saúde. O incumprimento pode gerar coimas e, em caso de acidente grave, responsabilidade civil e criminal.

3. Direitos, deveres e organização dos serviços

A SST é uma responsabilidade partilhada.

Obrigações do empregador (art.º 15.º)

  1. Avaliar os riscos e planear a prevenção.
  2. Eliminar ou reduzir os riscos, de preferência na origem.
  3. Informar e formar os trabalhadores sobre riscos e medidas.
  4. Fornecer equipamentos de proteção adequados e em bom estado.
  5. Organizar os serviços de SST e a vigilância da saúde (exames de admissão, periódicos, ocasionais).
  6. Elaborar planos de emergência (primeiros socorros, combate a incêndios, evacuação).
  7. Consultar os trabalhadores e facilitar a sua participação.

Contratar um técnico ou empresa externa não transfere a responsabilidade última do empregador.

Deveres do trabalhador (art.º 17.º)

Organização dos serviços

Os serviços de SST podem ser internos, comuns (grupo de empresas) ou externos (contratados). A modalidade exigível depende da dimensão e do nível de risco. Empresas maiores ou de risco elevado precisam de técnico superior de SST e de acompanhamento por médico do trabalho.

4. Princípios gerais de prevenção

A Lei 102/2009 (art.º 15.º, n.º 2) estabelece uma hierarquia de princípios que se aplica sempre por ordem:

  1. Evitar os riscos (eliminar a fonte).
  2. Avaliar os riscos que não se podem evitar.
  3. Combater os riscos na origem.
  4. Adaptar o trabalho ao ser humano (ergonomia).
  5. Ter em conta a evolução técnica.
  6. Substituir o perigoso pelo menos perigoso.
  7. Planear a prevenção de forma integrada.
  8. Priorizar a proteção coletiva face à individual.
  9. Dar instruções adequadas aos trabalhadores.

A regra de ouro é o princípio 8: proteção coletiva antes de proteção individual. Uma barreira, uma sinalização ou uma organização do espaço que protege todos vale mais do que dar um EPI a cada pessoa — porque não depende de cada um se lembrar de o usar.

Exemplo aplicado

Numa rodagem, há cabos de alimentação a atravessar uma zona de passagem.

5. Avaliação de riscos e planos de segurança

Perigo vs risco

Avaliar o risco é responder a duas perguntas: qual a probabilidade de isto acontecer? e quão grave seria se acontecesse? A combinação dá o nível de risco:

Nível de risco = Probabilidade × Gravidade

Prob. \ Grav. Ligeira Grave Muito grave
Baixa Trivial Tolerável Moderado
Média Tolerável Moderado Importante
Alta Moderado Importante Intolerável

Os planos de segurança

Os planos operacionalizam a prevenção no estabelecimento:

Um plano não é um documento morto: revê-se após cada acidente, cada obra e cada mudança de layout ou de equipamento.

6. Riscos específicos do marketing e publicidade

Regra prática: cada novo projeto — uma rodagem, um evento, uma ativação — deve ter a sua própria avaliação de riscos feita antes de arrancar, porque o cenário muda a cada produção.

Ergonomia e trabalho com ecrãs

A maior parte do dano no setor é cumulativo — as LMELT (lesões músculo-esqueléticas ligadas ao trabalho). Previne-se com o posto bem montado:

Isto concretiza o 4.º princípio de prevenção: adaptar o trabalho à pessoa, não a pessoa ao trabalho.

7. Equipamentos de proteção individual (EPI)

O EPI é o último recurso — só depois de esgotadas as medidas de proteção coletiva. Deve ser adequado ao risco, ter marcação CE, ser mantido e usado corretamente, e a sua utilização deve ser formada.

Risco EPI típico
Ruído (concertos, produção) Protetores auditivos
Queda de objetos (montagem) Capacete, botas com biqueira de aço
Projeções / químicos Óculos, luvas, máscara
Trabalho em altura Arnês e linha de vida
Alta visibilidade (eventos) Colete refletor

Métodos de supressão da negligência e da falta de atenção: checklists antes de cada operação, sinalização clara, formação repetida, e pausas para combater a fadiga (um trabalhador cansado erra mais).

Proteção de máquinas: resguardos, encravamentos e paragens de emergência que nunca devem ser desativados para "ir mais depressa".

8. Acidentes de trabalho — causas e tipos

Acidente de trabalho é o que ocorre no local e no tempo de trabalho — ou no trajeto habitual (acidente in itinere) — e produz lesão, doença ou morte.

Causas mais frequentes:

Boas práticas de movimentação manual de cargas: dobrar os joelhos (não as costas), manter a carga junto ao corpo, não torcer o tronco, pedir ajuda em peças pesadas, usar vestuário adequado e calçado antiderrapante, e recorrer a meios auxiliares (carrinhos, porta-paletes).

Em caso de acidente, há obrigação de participação (comunicação à seguradora e, nos casos graves, à ACT) e registo interno para análise das causas — para que não se repita.

9. Primeiros socorros e situações de emergência

O objetivo dos primeiros socorros é estabilizar a vítima até chegar a ajuda diferenciada — e não improvisar para além do que se sabe fazer.

Sequência PAS: Proteger o local (afastar o perigo) → Alertar (112) → Socorrer.

Caixa de primeiros socorros — conteúdo base

A caixa deve estar sinalizada, acessível, completa e dentro da validade. Deve haver socorristas com formação e o local do DAE (desfibrilhador automático externo) deve ser conhecido.

Como agir em situações de emergência

Situação Ação imediata
Perda de sentidos Verificar respiração; posição lateral de segurança; 112
Ferida aberta / fechada Comprimir com compressa limpa; não retirar objetos encravados
Queimadura Arrefecer com água ~20 min; não rebentar bolhas; não aplicar cremes
Choque elétrico / eletrocussão Cortar a corrente antes de tocar na vítima; 112
Ataque cardíaco 112; repouso; iniciar SBV + DAE se houver paragem
Entorse / distensão Método RICE: repouso, gelo, compressão, elevação
Envenenamento 112 / CIAV 800 250 250; não provocar vómito sem indicação

Em todas: manter a calma, proteger o local e chamar o 112 com informação clara (o quê, onde, quantas vítimas).

10. Segurança contra incêndios, evacuação e roubos

Causas e o triângulo do fogo

Causas comuns: sistemas de aquecimento e cozedura, chaminés e tubos de fumo, materiais inflamáveis, aparelhos elétricos sobrecarregados e pessoas fumadoras.

Para haver fogo, precisam de coexistir três elementos — o triângulo do fogo: combustível + comburente (oxigénio) + energia de ativação (calor). Retirar qualquer um dos três apaga o fogo.

Classes de fogo e extintores

Classe Combustível Agente extintor
A Sólidos (papel, madeira, tecido) Água, pó ABC
B Líquidos (solventes, tintas, óleos) Pó, CO₂, espuma
C Gases
D Metais Pó especial
F Óleos e gorduras de cozinha Extintor específico classe F

⚠️ Em equipamento elétrico ligado, usar CO₂ ou pónunca água (risco de eletrocussão).

Deteção e plano de ataque

Plano de evacuação

Plano contra roubos

Erros comuns

Glossário

Síntese

A SST protege as pessoas ao prevenir acidentes e doenças, com base na Lei n.º 102/2009. É uma responsabilidade partilhada: o empregador organiza, avalia, forma e protege; o trabalhador cumpre, usa os meios corretamente e comunica perigos. A prevenção segue uma hierarquia (evitar → avaliar → combater na origem → coletivo antes de individual), operacionalizada através de planos (estabelecimento, acidentes, incêndios, evacuação, roubos). No marketing e publicidade, os riscos vão da ergonomia ao stress, passando pela eletricidade, pelas cargas e pelos eventos. Em emergência, aplica-se PAS + 112; num incêndio, identifica-se a classe para escolher o extintor certo, usa-se a regra PASS e, em dúvida, evacua-se.

Exercícios resolvidos

1. Distingue perigo de risco com um exemplo do setor. Um projetor de estúdio quente é o perigo (fonte de dano). O risco é a probabilidade de alguém se queimar nele combinada com a gravidade da queimadura — que aumenta se estiver numa zona de passagem apertada e diminui se estiver sinalizado e isolado.

2. Ordena, segundo a hierarquia de prevenção, três formas de lidar com cabos numa zona de passagem: (a) avisar a equipa, (b) sinalizar com rampas, (c) passar os cabos por cima em esteira. Correta: (c) → (b) → (a). Eliminar/afastar a fonte (esteira aérea = mais próximo de proteção coletiva na origem), depois proteção coletiva com rampas + sinalização, e só por último o aviso individual, que depende da atenção de cada um.

3. Numa gráfica pega fogo a um bidão de solvente. Que classe de fogo é e que agente NÃO deves usar? É fogo de classe B (líquido inflamável). Não deves usar água (espalha o líquido em chamas); usa-se pó, CO₂ ou espuma.

4. Um colega leva um choque elétrico e fica caído junto ao equipamento. Qual é a tua primeira ação? Cortar a corrente antes de lhe tocar (senão o socorrista também é eletrocutado). Só depois avaliar a vítima e chamar o 112. Aplica-se o P de "Proteger" da sequência PAS.

5. Explica a regra 20-20-20 e o princípio de prevenção que concretiza. A cada 20 minutos ao ecrã, olhar durante 20 segundos para algo a cerca de 6 metros (20 pés), para descansar a vista e mudar de postura. Concretiza o princípio de adaptar o trabalho ao ser humano (ergonomia) e ajuda a prevenir a fadiga visual e as LMELT.