Sebenta · Aplicar técnicas de merchandising (UC02743)
- Introdução
- 1. Merchandising: conceitos, objetivos e tipos
- 2. Layout de loja e fluxos de circulação
- 3. Psicologia do consumidor e comportamento de compra
- 4. Planogramas e regras de agrupamento de produtos
- 5. Técnicas de exposição visual e comunicação no ponto de venda
- 6. Merchandising sazonal
- 7. Visual merchandising ecológico
- 8. Equipamentos, ergonomia, segurança e acessibilidade
- 9. Gestão de stocks e técnicas de reposição
- 10. Indicadores de desempenho de merchandising
- 11. Métodos de observação do comportamento do cliente
- 12. Avaliar e ajustar a exposição
- 13. E-merchandising, tendências de consumo e cross-merchandising
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta prepara-te para aplicar técnicas de merchandising num espaço comercial real: organizar o layout e os produtos, executar e manter a exposição e reposição, e avaliar e ajustar essa exposição com base no comportamento do consumidor e no desempenho comercial. É o coração técnico do trabalho de um/a técnico/a de visual merchandising.
O percurso segue a lógica dos três tipos clássicos de merchandising: organização (layout, planogramas, agrupamento de produtos), sedução (exposição visual, PLV, sazonalidade, sustentabilidade) e gestão (indicadores de desempenho, observação do consumidor, e-merchandising). No fim, deves conseguir organizar um espaço, executar uma exposição com rigor técnico e estético, e propor ajustes sustentados em dados, não em opinião.
Objetivos de aprendizagem (referencial): organizar o espaço comercial e os produtos; executar e manter a exposição e a reposição de produtos; e avaliar e ajustar a exposição em função do comportamento do consumidor e do desempenho comercial, cumprindo sempre as normas de segurança, ambiente e qualidade.
1. Merchandising: conceitos, objetivos e tipos
Merchandising é o conjunto de técnicas aplicadas no ponto de venda para apresentar o produto certo, no local certo, na quantidade certa e no momento certo, maximizando a venda e a experiência de compra. A ideia central: o produto deve conseguir vender-se a si próprio na prateleira, mesmo sem um vendedor por perto.
Os três tipos de merchandising
| Tipo | Foco | Exemplo |
|---|---|---|
| De organização | onde e como colocar os produtos | planograma, níveis de prateleira |
| De sedução | tornar a compra agradável e apelativa | montras, iluminação, PLV |
| De gestão | otimizar resultados com dados | indicadores, rotação, quota de linear |
Estes três tipos não são fases separadas: um bom trabalho de merchandising exige as três em simultâneo. Organizar sem seduzir dá um espaço eficiente mas pouco atrativo; seduzir sem gerir é caro e sem retorno mensurável.
Objetivos do merchandising
- Aumentar vendas e o valor médio da compra, através da compra por impulso e da venda cruzada.
- Melhorar a experiência de compra, reduzindo o esforço de procura do cliente.
- Otimizar a rotação de stock, reduzindo ruturas e excesso de produto parado.
- Reforçar a imagem de marca e a coerência visual do espaço comercial.
- Sustentar decisões em dados de vendas, não apenas em critérios estéticos.
Estes objetivos ligam-se diretamente às três realizações da UC: organizar (R1), executar e manter (R2), avaliar e ajustar (R3).
2. Layout de loja e fluxos de circulação
O layout é a disposição geral do mobiliário e dos corredores numa loja. É a primeira decisão de merchandising de organização, porque condiciona para onde o cliente olha e por onde caminha.
Tipos de layout
| Layout | Descrição | Onde se usa |
|---|---|---|
| Grelha | corredores paralelos e retos | supermercados |
| Livre (boutique) | mobiliário assimétrico, percursos soltos | lojas de moda |
| Circuito / pista | percurso único que obriga a passar por tudo | grandes superfícies |
| Especializado | zonas por categoria com identidade própria | grandes armazéns |
Zonas quentes e zonas frias
- Zona quente: área de maior passagem e visibilidade (entrada, fim de corredores, cabeceiras de gôndola). Concentra os produtos de maior margem ou de compra por impulso.
- Zona fria: área de menor passagem (cantos, fundo da loja, zonas pouco iluminadas). Recebe produtos de primeira necessidade, para "obrigar" o cliente a atravessar a loja e passar por zonas quentes pelo caminho.
- Zona de descompressão: os primeiros metros junto à entrada, onde o cliente ainda se está a adaptar ao espaço e raramente decide comprar.
- Em países de condução à direita, o padrão de circulação mais comum é virar à direita e percorrer a loja em sentido anti-horário.
Exemplo resolvido: onde colocar o pão e o leite
Um supermercado quer decidir onde colocar o pão e o leite, produtos de primeira necessidade comprados por quase todos os clientes.
Análise: se ficassem junto à entrada (zona quente), o cliente compraria só o que precisa e sairia rapidamente, sem passar pelo resto da loja. Colocando-os no fundo da loja (zona fria), o cliente é obrigado a atravessar corredores com produtos de impulso e maior margem para lá chegar.
Decisão: pão e leite no fundo, cabeceiras de gôndola junto à entrada e ao longo do percurso reservadas a produtos de destaque e promoções.
3. Psicologia do consumidor e comportamento de compra
Compreender porque o cliente decide comprar é a base para decidir onde e como expor cada produto.
Fatores que influenciam a decisão de compra
- Motivação: necessidade funcional ou emocional.
- Perceção sensorial: cor, iluminação, som ambiente e cheiro do espaço.
- Aprendizagem e hábito: o cliente procura o produto onde já o encontrou antes.
- Atitudes e valores: sustentabilidade, marca, preço, origem do produto.
- Influência social: recomendações e comportamento de outros compradores.
Tipos de compra
- Compra planeada: o cliente já decidiu o que vai levar antes de entrar na loja.
- Compra por impulso: decisão tomada no momento, tipicamente junto à caixa ou em displays de destaque.
- Venda cruzada (cross-merchandising): colocar produtos complementares perto um do outro para sugerir a compra conjunta (retomado no capítulo 12).
A maior parte das decisões de compra no ponto de venda é tomada em poucos segundos, frequentemente sem grande deliberação consciente. É sobre esta base que atuam a exposição visual e a PLV.
4. Planogramas e regras de agrupamento de produtos
Um planograma é a representação gráfica, à escala, de como os produtos devem ser dispostos numa prateleira, expositor ou gôndola: que produto, em que posição, com que quantidade de frente (facing). É o documento de trabalho de quem repõe, e elimina a improvisação.
Níveis de prateleira
| Nível | Altura aproximada | Uso típico |
|---|---|---|
| Nível dos olhos | 1,20 a 1,60 m | produtos de maior margem ou a promover |
| Nível das mãos | 0,80 a 1,20 m | produtos de grande consumo |
| Nível do chão | abaixo de 0,80 m | produtos pesados ou volumosos |
| Nível superior | acima de 1,60 m | produtos de reserva ou pouco procurados |
A regra prática mais citada em merchandising é "o nível dos olhos é o nível que vende": é onde se colocam os produtos que se pretende impulsionar.
Regras de agrupamento
- Por categoria (todos os iogurtes juntos).
- Por marca (toda a gama de uma marca junta).
- Por uso (produtos de churrasco agrupados).
- Por complementaridade (massa junto ao molho de tomate).
Exemplo resolvido: redesenhar um planograma
Uma prateleira de cereais tem três produtos com o mesmo espaço, mas desempenhos diferentes:
| Produto | Nível atual | Vendas/mês |
|---|---|---|
| Cereal A (marca própria) | chão | 400 un. |
| Cereal B (marca líder) | olhos | 900 un. |
| Cereal C (infantil) | superior | 250 un. |
Passo 1, diagnosticar: o produto B já está no nível certo (olhos, maior venda). O produto C, dirigido a crianças, está num nível que um adulto atinge mas uma criança dificilmente vê ou alcança. O produto A está no chão, pouco visível, apesar de ter uma venda intermédia.
Passo 2, decidir: o Cereal C desce para o nível das mãos, à altura de uma criança acompanhada; o Cereal A sobe do chão para o nível das mãos, ganhando visibilidade sem ocupar o nível dos olhos, já ocupado pelo líder de vendas B.
Passo 3, justificar: a decisão respeita o público-alvo de cada produto, não apenas o volume de vendas isolado.
5. Técnicas de exposição visual e comunicação no ponto de venda
Suportes de exposição
- Montra: primeira comunicação visual da loja, deve mudar com regularidade.
- Cabeceira de gôndola (endcap): extremidade do corredor, a zona quente por excelência dentro da loja.
- Ilha: expositor autónomo colocado no meio do espaço de circulação.
- Display de chão: estrutura de cartão ou metal para produtos em promoção.
- Blocking de cor: agrupar produtos pela cor da embalagem, criando impacto visual à distância.
Comunicação no ponto de venda (PLV)
A PLV (publicidade no local de venda) comunica preço, promoção ou informação junto ao produto:
| Material | Função |
|---|---|
| Cartaz | preço, promoção, informação de categoria |
| Wobbler | etiqueta oscilante que chama a atenção junto ao produto |
| Stopper | paragem de prateleira, destaca um produto específico |
| Sinalética | orientação de categoria e navegação na loja |
| Iluminação dirigida | realça um produto ou zona específica |
A PLV deve ser sempre coerente com a identidade visual da marca, estar atualizada (preço e promoção corretos) e nunca esconder o produto que promove.
6. Merchandising sazonal
O merchandising sazonal adapta a exposição a datas e épocas do ano com impacto direto no consumo.
| Época | Categorias reforçadas |
|---|---|
| Natal | decoração, presentes, doces |
| Páscoa | chocolates, têxtil-lar |
| Verão | praia, viagens, bebidas frescas |
| Regresso às aulas | papelaria, mochilas |
| Black Friday / saldos | eletrónica, vestuário |
Ciclo de uma campanha sazonal
- Planear: calendário, orçamento, categorias e metas de venda.
- Preparar: encomendar stock, adereços e PLV com antecedência.
- Montar: instalar a exposição sazonal em toda a loja.
- Monitorizar: acompanhar vendas e ajustar reposição durante a época.
- Desmontar: retirar a decoração e repor o planograma normal a tempo da época seguinte.
O planeamento começa semanas antes da data, para garantir stock, PLV e mão de obra de montagem a tempo. Desmontar a tempo é tão importante como montar: uma exposição fora de época transmite descuido e ocupa espaço que já devia servir a campanha seguinte.
7. Visual merchandising ecológico
O visual merchandising ecológico reduz o impacto ambiental da exposição sem perder o efeito visual, e liga-se diretamente às normas de proteção ambiental do referencial.
Práticas sustentáveis
- Reutilizar estruturas e adereços de campanhas anteriores em vez de comprar novos.
- Usar materiais recicláveis ou de origem sustentável (cartão, madeira certificada, tecido natural).
- Substituir iluminação convencional por LED, com menor consumo energético e menos calor emitido.
- Reduzir a quantidade de PLV descartável e preferir suportes duradouros e modulares.
- Registar o que foi reutilizado, para facilitar decisões na campanha seguinte.
Sustentabilidade é hoje um valor de marca tão relevante como o preço ou a qualidade percebida, e não é sinónimo de exposição pobre: um expositor feito de paletes de madeira recuperadas pode ser mais original do que um comprado de raiz.
8. Equipamentos, ergonomia, segurança e acessibilidade
Equipamentos e suportes de exposição
Gôndolas e prateleiras, expositores e ilhas, manequins e bustos, vitrines e montras, ganchos e cestos, e sistemas de iluminação (spotlights, calhas, fitas LED) constituem o equipamento base do visual merchandiser. A escolha depende do produto, do espaço disponível e do orçamento.
Ergonomia, segurança e acessibilidade
- Ergonomia: alturas de trabalho adequadas, técnica correta de levantamento de cargas, uso de carrinhos de apoio.
- Segurança e saúde no trabalho: expositores estáveis e fixos, sinalização de obstáculos, equipamento de proteção individual quando aplicável, e respeito pelo limite de carga de cada estrutura.
- Acessibilidade: corredores com largura suficiente para cadeiras de rodas, sinalética legível e à altura adequada, produtos essenciais também ao alcance de pessoas com mobilidade reduzida (tipicamente entre 40 e 120 cm de altura).
- Normas da qualidade: procedimentos escritos e verificação periódica do cumprimento das regras de exposição e reposição.
Estas normas não são um extra opcional: são um critério transversal a toda a atividade de merchandising, do planograma à reposição diária.
9. Gestão de stocks e técnicas de reposição
FIFO, FEFO e ruturas de stock
- FIFO (First In, First Out): o primeiro produto a entrar é o primeiro a sair, evitando produto parado no fundo da prateleira.
- FEFO (First Expired, First Out): sai primeiro o que expira primeiro, essencial em produtos perecíveis, mesmo quando não coincide com a ordem de chegada.
- Rutura de stock: a prateleira fica vazia com procura ainda existente, perdendo-se a venda e, com repetição, a confiança do cliente na loja.
- Excesso de stock: capital parado, risco de validade ultrapassada ou de desatualização do produto.
Métodos de reposição
- Reposição contínua: verificação e reabastecimento várias vezes ao dia, típica de produtos de alta rotação.
- Reposição periódica: reabastecimento em horários fixos, antes da abertura ou ao fecho da loja.
- Contagem e inventário: confirmação regular do stock físico contra o registo no sistema informático.
- Picking: recolha de produto no armazém para repor a loja ou preparar encomendas online.
A rotina de reposição deve seguir sempre o planograma em vigor: repor "à pressa" sem o respeitar desorganiza todo o trabalho de merchandising de organização feito antes.
10. Indicadores de desempenho de merchandising
Este capítulo reúne os indicadores que sustentam a realização "avaliar e ajustar a exposição em função do comportamento do consumidor e do desempenho comercial". Todos partilham a mesma lógica: transformar dados de vendas e de espaço em decisões concretas.
Rendimento por metro linear (RPML)
Mede quanto cada metro de prateleira gera de vendas:
RPML = Vendas (€) ÷ Metros lineares ocupados (m)
Quota de linear
Mede a percentagem do espaço total que uma categoria ocupa:
Quota de linear = (Linear da categoria ÷ Linear total) × 100
Índice de sensibilidade (IS)
Compara a percentagem de vendas de uma categoria com a percentagem de linear que ocupa:
IS = % de vendas ÷ % de linear
- IS > 1: a categoria vende mais do que o espaço que ocupa, é candidata a ganhar linear.
- IS = 1: equilíbrio entre espaço ocupado e desempenho de vendas.
- IS < 1: a categoria vende menos do que o espaço que ocupa, é candidata a perder linear.
Rotação de stock
Mede quantas vezes o stock médio se renova num período:
Rotação = Vendas do período (un.) ÷ Stock médio (un.)
Elasticidade do linear
Mede o efeito de variar o espaço ocupado nas vendas geradas:
Elasticidade = % de variação das vendas ÷ % de variação do linear
Exemplo resolvido completo
Um corredor de mercearia tem 20 metros lineares e 30.000 € de vendas mensais, repartidos por quatro categorias:
| Categoria | Linear (m) | Vendas (€) | Quota de linear | % vendas | IS | RPML (€/m) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Lacticínios | 10 | 15.000 | 50% | 50% | 1,00 | 1.500 |
| Bebidas | 5 | 9.000 | 25% | 30% | 1,20 | 1.800 |
| Snacks | 3 | 4.500 | 15% | 15% | 1,00 | 1.500 |
| Conservas | 2 | 1.500 | 10% | 5% | 0,50 | 750 |
| Total | 20 | 30.000 | 100% | 100% |
Passo 1, quota de linear: cada categoria a dividir pelo total de 20 m (10/20 = 50%, 5/20 = 25%, 3/20 = 15%, 2/20 = 10%; soma 100%).
Passo 2, percentagem de vendas: cada categoria a dividir pelo total de 30.000 € (15.000/30.000 = 50%, 9.000/30.000 = 30%, 4.500/30.000 = 15%, 1.500/30.000 = 5%; soma 100%).
Passo 3, índice de sensibilidade: dividir a % de vendas pela quota de linear de cada linha (50/50 = 1,00; 30/25 = 1,20; 15/15 = 1,00; 5/10 = 0,50).
Passo 4, rendimento por metro linear: dividir as vendas pelo linear de cada linha (15.000/10 = 1.500; 9.000/5 = 1.800; 4.500/3 = 1.500; 1.500/2 = 750).
Conclusão: Bebidas tem o IS mais alto (1,20) e o maior RPML (1.800 €/m); vende mais do que o seu espaço justifica e deve ganhar linear. Conservas tem o IS mais baixo (0,50) e o menor RPML (750 €/m); vende metade do que o seu espaço justificaria e deve perder linear a favor de Bebidas. Lacticínios e Snacks estão em equilíbrio (IS = 1,00) e mantêm o espaço atual.
Exemplo resolvido: rotação e elasticidade
Um produto vende 240 unidades por mês, com um stock médio de 40 unidades:
Rotação = 240 ÷ 40 = 6, ou seja, o stock renova-se 6 vezes no mês, a cada 30 ÷ 6 = 5 dias.
A categoria Bebidas do exemplo anterior teve o seu linear aumentado de 5 para 6 metros (variação de +1/5 = +20%), e as vendas subiram de 9.000 para 9.900 € (variação de +900/9.000 = +10%):
Elasticidade = 10% ÷ 20% = 0,5
Uma elasticidade de 0,5 (inferior a 1) indica que a categoria é pouco elástica ao espaço: cada 1% adicional de linear gerou, em média, apenas 0,5% de vendas adicionais. Ainda assim, como Bebidas já tinha IS acima de 1, o ganho de linear resultou em mais vendas totais, mesmo que a um ritmo decrescente.
11. Métodos de observação do comportamento do cliente
Os indicadores de vendas dizem o quê; a observação diz o porquê.
| Método | O que mede |
|---|---|
| Observação direta | percurso e paragens do cliente na loja |
| Contagem de fluxos | número de pessoas por corredor ou zona |
| Tempo de permanência | quanto tempo o cliente para junto de um expositor |
| Taxa de conversão | percentagem de clientes que compram, face aos que param ou entram |
| Cliente mistério e inquéritos | perceção subjetiva sobre a experiência de compra |
Uma zona com muito fluxo mas baixa taxa de conversão indica uma exposição visível mas pouco eficaz: o problema não é a localização, é a apresentação do produto nessa localização.
12. Avaliar e ajustar a exposição
A realização "avaliar e ajustar a exposição de produtos em função do comportamento do consumidor e do desempenho comercial" segue um ciclo de melhoria contínua:
- Recolher dados de vendas, rotação e observação de fluxo.
- Comparar com o esperado ou com o período anterior.
- Diagnosticar a causa (posição na prateleira, PLV, rutura de stock, sazonalidade).
- Ajustar o planograma, o suporte de exposição ou a rotina de reposição.
- Voltar a medir para confirmar se o ajuste resultou.
Uma exposição nunca está "terminada": este ciclo repete-se sempre que os indicadores do capítulo 10 ou os dados de observação do capítulo 11 sinalizam uma oportunidade de melhoria.
13. E-merchandising, tendências de consumo e cross-merchandising
E-merchandising e merchandising visual online
O e-merchandising aplica os princípios do merchandising físico ao ambiente digital:
| Conceito físico | Equivalente digital |
|---|---|
| Planograma / nível dos olhos | ordem dos produtos numa página de categoria |
| Montra / cabeceira de gôndola | banners e destaques na homepage |
| Cross-merchandising | recomendações "compre também" |
| Observação de fluxo | dados de navegação (cliques, tempo na página) |
Os mesmos indicadores do capítulo 10 aplicam-se ao ambiente digital, apenas mudam as unidades: metros lineares tornam-se posições numa página.
Tendências de consumo e cross-merchandising
Entre as tendências de consumo mais relevantes para o visual merchandiser destacam-se o consumo consciente e sustentável, a personalização da experiência, a valorização de experiências na loja física e a integração omnicanal (loja física e online a funcionar como um só espaço de compra).
O cross-merchandising consiste em expor produtos complementares de categorias diferentes juntos, para sugerir uma compra conjunta: massa junto ao molho de tomate, carvão junto ao isqueiro de churrasco, protetor solar junto aos artigos de praia. É uma das técnicas mais simples e eficazes de aumentar o valor médio da compra, distinta da venda por impulso porque assenta na complementaridade funcional entre produtos, não apenas na proximidade da caixa.
Erros comuns
- Confundir merchandising com publicidade: a publicidade atrai à loja, o merchandising vende dentro dela.
- Colocar o produto mais rentável no nível do chão, onde tem pouca visibilidade.
- Calcular o índice de sensibilidade ou a quota de linear sobre totais diferentes (por exemplo, vendas de um mês contra linear de outra data).
- Repor sempre pela frente (FIFO puro) em produtos perecíveis, ignorando a data de validade (deveria aplicar-se FEFO).
- Montar a exposição sazonal demasiado tarde, perdendo as primeiras semanas de procura, ou esquecer de a desmontar a tempo.
- Confiar apenas nos indicadores de vendas sem observar o comportamento real do cliente na loja, ou vice-versa.
- Tratar a loja online como um catálogo estático, sem aplicar lógica de e-merchandising.
Glossário
- Merchandising: técnicas aplicadas no ponto de venda para apresentar o produto certo, no local certo, na quantidade certa e no momento certo.
- Layout: disposição geral do mobiliário e dos corredores numa loja.
- Zona quente / zona fria: área de maior ou menor passagem e visibilidade na loja.
- Planograma: representação gráfica, à escala, da disposição dos produtos numa prateleira ou expositor.
- Facing: número de frentes de um produto expostas na prateleira.
- PLV: publicidade no local de venda, materiais que comunicam preço, promoção ou informação junto ao produto.
- Cross-merchandising: exposição conjunta de produtos complementares de categorias diferentes.
- FIFO: First In, First Out, o primeiro produto a entrar é o primeiro a sair.
- FEFO: First Expired, First Out, sai primeiro o produto com validade mais próxima.
- Rendimento por metro linear (RPML): vendas geradas por cada metro de prateleira ocupado.
- Quota de linear: percentagem do espaço total de exposição ocupada por uma categoria.
- Índice de sensibilidade (IS): relação entre a percentagem de vendas e a percentagem de linear de uma categoria.
- Rotação de stock: número de vezes que o stock médio se renova num período.
- Elasticidade do linear: variação percentual das vendas por cada variação percentual do linear ocupado.
- E-merchandising: aplicação dos princípios de merchandising ao ambiente digital de venda.
Síntese
Aplicar técnicas de merchandising segue sempre a mesma lógica: organizar o espaço e os produtos (layout, zonas quentes e frias, planogramas, agrupamento) → executar e manter a exposição e a reposição (suportes, PLV, sazonalidade, sustentabilidade, equipamentos, ergonomia, segurança, FIFO/FEFO) → avaliar e ajustar com base em dados (rendimento por metro linear, índice de sensibilidade, rotação, elasticidade, observação do consumidor) → repetir o ciclo, incluindo no ambiente digital através do e-merchandising e nas oportunidades de cross-merchandising. Domina este fluxo e sabes transformar qualquer espaço comercial num espaço que vende de forma mensurável.
Exercícios resolvidos
1. Uma categoria ocupa 20% do linear de um corredor e gera 30% das vendas. Calcula o índice de sensibilidade e interpreta o resultado.
Resolução: IS = % de vendas ÷ % de linear = 30 ÷ 20 = 1,5. Como IS > 1, a categoria vende mais do que o espaço que ocupa: é candidata a ganhar mais linear.
2. Um produto vendeu 360 unidades num mês, com um stock médio de 60 unidades. Calcula a rotação e o tempo médio de renovação do stock.
Resolução: Rotação = 360 ÷ 60 = 6. O stock renova-se a cada 30 ÷ 6 = 5 dias.
3. Uma prateleira tem 4 metros lineares e gera 3.200 € de vendas mensais. Calcula o rendimento por metro linear.
Resolução: RPML = 3.200 ÷ 4 = 800 €/m.
4. O linear de uma categoria passou de 8 para 10 metros (variação de +25%) e as vendas passaram de 12.000 € para 13.200 € (variação de +10%). Calcula a elasticidade do linear e interpreta.
Resolução: Elasticidade = 10% ÷ 25% = 0,4. Como é inferior a 1, a categoria é pouco elástica ao espaço: cada 1% adicional de linear gerou, em média, apenas 0,4% de vendas adicionais.
5. Um colega de trabalho diz: "os produtos de primeira necessidade devem ficar sempre perto da entrada, para o cliente encontrar tudo rápido." Concordas? Justifica com base na lógica de zonas quentes e frias.
Resolução: Não, é o contrário do que a técnica de merchandising recomenda. Produtos de primeira necessidade (que o cliente compra sempre) colocam-se tipicamente em zonas frias (fundo da loja), obrigando o cliente a atravessar zonas quentes com produtos de maior margem e de compra por impulso pelo caminho. Colocá-los junto à entrada reduziria o percurso do cliente pela loja e as oportunidades de venda adicional.