Sebenta · Elaborar orçamentos de materiais e serviços (UC02742)
- Introdução
- 1. O que é um orçamento
- 2. Recolher informação do projeto
- 3. Tipos de materiais, equipamentos e serviços
- 4. Fornecedores e prestadores de serviços
- 5. Custos de materiais e serviços
- 6. Estrutura e componentes de um orçamento
- 7. Software específico para elaboração de orçamentos
- 8. Determinação de custos: diretos e indiretos
- 9. Margens de lucro e a margem de venda
- 10. Cálculos financeiros e fórmulas relevantes
- 11. Elaborar e apresentar a proposta de orçamento
- 12. Avaliação de riscos, negociação e gestão documental
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Um técnico de visual merchandising que só sabe desenhar montras bonitas está a meio caminho. A outra metade é saber quanto custa fazê-las e quanto cobrar por elas. Esta sebenta ensina a construir um orçamento profissional do início ao fim: recolher os dados certos, listar os materiais e serviços a mobilizar, calcular custos diretos e indiretos, aplicar a margem de lucro correta, somar o IVA, e apresentar tudo num documento claro que o cliente aceite com confiança.
O percurso segue as três realizações do referencial desta UC: recolher informação sobre o projeto a orçamentar, executar o levantamento de recursos a mobilizar, e elaborar a proposta de orçamento. Ao longo do caminho, tratamos ainda fornecedores, riscos financeiros, negociação, gestão documental e as normas de segurança e qualidade que atravessam tudo isto.
Objetivos de aprendizagem (referencial): recolher e organizar os dados de um projeto a orçamentar; classificar materiais, equipamentos e serviços; selecionar fornecedores e comparar propostas; determinar custos diretos e indiretos; aplicar margens de lucro e fórmulas financeiras; elaborar e apresentar uma proposta de orçamento clara; avaliar riscos financeiros; e negociar e gerir a documentação do orçamento com rigor.
1. O que é um orçamento
Um orçamento é o documento onde uma empresa descreve, antes de começar o trabalho, os serviços e produtos a disponibilizar, os prazos de execução e as condições de pagamento e garantia. É diferente de uma fatura: a fatura é o documento fiscal emitido depois do trabalho estar feito (ou em curso); o orçamento é a proposta que precede o compromisso.
Em visual merchandising, um orçamento pode cobrir desde a renovação de uma única montra até ao equipamento completo de uma loja nova. Seja qual for a escala, o orçamento cumpre sempre três funções:
- Informar o cliente sobre o que vai receber e quando.
- Comprometer a empresa a um preço e a um prazo.
- Proteger ambas as partes, por escrito, se surgir um desacordo mais tarde.
Um orçamento aceite pelo cliente é, na prática, um contrato. Escreve-o como tal: com clareza e sem ambiguidades.
Porque é que o rigor decide o negócio
Um orçamento tem dois riscos opostos:
- Por defeito (valor a menos): o projeto sai deficitário, a empresa perde dinheiro a trabalhar.
- Por excesso (valor a mais): o cliente escolhe a concorrência.
Por isso a UC avalia diretamente o rigor, a transparência e o detalhe com que se elaboram as estimativas financeiras. Não são qualidades desejáveis, são um critério de desempenho.
2. Recolher informação do projeto
A primeira realização da UC é recolher informação relativa ao projeto a orçamentar. Os dados a recolher organizam-se em cinco grupos, todos do referencial oficial:
| Grupo | O que inclui |
|---|---|
| Objeto | o que se vai fazer: montra, expositor, loja completa |
| Local e condições | espaço, acessos, eletricidade, piso, horário de montagem |
| Requisitos normativos ou legais | segurança contra incêndios, acessibilidade, normas elétricas |
| Requisitos quantitativos | metros quadrados, número de peças, quantidades de material |
| Requisitos de qualidade ou conformidade | acabamentos exigidos, marca do cliente, materiais certificados |
Exemplo resolvido: visitar o local antes de orçamentar
A loja de decoração "Traço & Luz", em Cascais, pede um orçamento para renovar a montra de Natal. Antes de qualquer número, o técnico visita o espaço e recolhe:
- Objeto: substituir a decoração da montra por um cenário de Natal com iluminação.
- Local e condições: montra com 2,4 m de largura por 2,2 m de altura; uma tomada elétrica disponível no canto esquerdo; montagem só pode ser feita depois do fecho da loja (após as 20h).
- Requisitos normativos: instalação elétrica temporária tem de cumprir as normas de segurança contra incêndio da loja (materiais não inflamáveis próximos da iluminação).
- Requisitos quantitativos: cerca de 8 m² de superfície visível a revestir.
- Requisitos de qualidade: a loja pede tons quentes (dourado, vermelho, verde escuro), coerentes com a sua marca.
Só depois desta recolha é que o técnico avança para o levantamento de recursos.
Nunca orçamentes "de memória" ou só por telefone. Uma medida errada ou uma tomada elétrica inexistente descobre-se caro, no dia da montagem.
3. Tipos de materiais, equipamentos e serviços
Recolhidos os dados, executa-se o levantamento de recursos a mobilizar (segunda realização). Os tipos de recursos mais comuns em visual merchandising:
| Categoria | Exemplos |
|---|---|
| Estruturais | MDF, contraplacado, metal, acrílico, vidro |
| Revestimento e gráfica | vinil autocolante impresso, tecido, papel de parede |
| Iluminação | fita LED, projetores, calhas, transformadores |
| Expositores e suportes | manequins, prateleiras, ganchos, bases |
| Acabamentos | tinta, verniz, ferragens, colas |
| Serviços | montagem, desenho técnico, transporte, aluguer de equipamento |
Classificar por natureza
Antes de custear, classifica cada recurso pela sua natureza:
- Consumível: gasta-se no projeto e não volta (tinta, vinil impresso com o nome do cliente).
- Reutilizável / património da empresa: ferramentas e estruturas modulares que amortizam o custo por vários projetos.
- Alugado: manequins, andaimes, equipamento específico só para este trabalho.
- Serviço subcontratado: um eletricista, um gráfico, um transportador externo.
Esta classificação determina como o custo entra no orçamento: um item alugado é sempre um custo direto deste projeto; uma ferramenta própria da empresa, usada em dezenas de projetos, não se cobra ao preço total de compra.
4. Fornecedores e prestadores de serviços
Escolher bem os fornecedores é uma das aptidões centrais da UC. Os critérios de seleção mais relevantes:
- Preço por unidade e condições de pagamento.
- Prazo de entrega, sobretudo se o projeto tem uma data fixa.
- Qualidade e conformidade do material com o exigido.
- Garantia oferecida.
- Reputação e histórico de cumprimento.
- Capacidade de resposta a pedidos urgentes ou alterações.
Exemplo resolvido: comparar propostas de fornecedores
Para o projeto "Traço & Luz", o técnico precisa de 8 m² de vinil autocolante impresso, a entregar em 5 dias. Pede orçamento a dois fornecedores:
| Fornecedor | Preço/m² | Cálculo | Total (8 m²) | Prazo | Garantia |
|---|---|---|---|---|---|
| A | 18,75 € | 8 × 18,75 | 150,00 € | 3 dias | 12 meses |
| B | 16,50 € | 8 × 16,50 | 132,00 € | 10 dias | sem garantia |
O Fornecedor B é 150,00 − 132,00 = 18,00 € mais barato. Mas o prazo de 10 dias não cumpre os 5 dias disponíveis: o projeto ficaria comprometido. Escolhe-se o Fornecedor A, que cumpre o prazo e ainda dá garantia, apesar de custar mais.
Comparar propostas é sempre custo e risco. O preço mais baixo que não cumpre o prazo não é, na prática, uma proposta válida para este projeto.
Solicitar orçamentos a fornecedores
Comparar propostas só é possível se o pedido de orçamento for completo. Um pedido de orçamento a um fornecedor deve especificar sempre: a especificação técnica do que se pede (material, dimensões, acabamento), a quantidade, o prazo exigido de entrega, as condições de entrega e de pagamento, e a validade que se pede à proposta do fornecedor. Um pedido incompleto obriga a repetir contactos e atrasa o próprio orçamento ao cliente.
Além de cada pedido pontual, vale a pena cuidar da relação com fornecedores ao longo do tempo: condições negociadas de forma estável (descontos de volume, prazos de pagamento alargados), acordos de fornecimento que garantam prioridade em prazos apertados, e o histórico de cumprimento de cada fornecedor, que pesa na escolha tanto ou mais do que o preço de uma proposta isolada.
5. Custos de materiais e serviços
Cada linha do orçamento cruza uma quantidade com um custo unitário para dar o custo total dessa linha: custo total = quantidade × custo unitário.
Exemplo resolvido: materiais da montra "Traço & Luz"
| Material | Quantidade | Custo unitário | Cálculo | Custo total |
|---|---|---|---|---|
| Placas de MDF 18 mm | 6 un | 42,50 € | 6 × 42,50 | 255,00 € |
| Vinil autocolante impresso | 8 m² | 18,75 €/m² | 8 × 18,75 | 150,00 € |
| Fita LED | 12 m | 6,25 €/m | 12 × 6,25 | 75,00 € |
| Tinta e verniz | 3 un | 14,00 € | 3 × 14,00 | 42,00 € |
| Ferragens e suportes | 1 kit | 35,00 € | 1 × 35,00 | 35,00 € |
| Aluguer de manequins | 2 un | 45,00 € | 2 × 45,00 | 90,00 € |
| Subtotal materiais | 647,00 € |
Confirmando a soma: 255,00 + 150,00 + 75,00 + 42,00 + 35,00 + 90,00 = 647,00 €.
Exemplo resolvido: custo da mão de obra
A mão de obra segue a mesma lógica: horas × custo por hora, por tarefa.
| Tarefa | Quantidade | Custo/hora | Cálculo | Custo total |
|---|---|---|---|---|
| Montagem em loja (2 técnicos) | 16 h (2 × 8 h) | 12,50 €/h | 16 × 12,50 | 200,00 € |
| Preparação e desenho técnico | 5 h | 15,00 €/h | 5 × 15,00 | 75,00 € |
| Subtotal mão de obra | 275,00 € |
200,00 + 75,00 = 275,00 €.
Quando há mais do que uma pessoa a trabalhar, as horas de mão de obra multiplicam-se por cada pessoa: 2 técnicos × 8 horas = 16 horas pagas, não 8.
6. Estrutura e componentes de um orçamento
Um orçamento profissional organiza-se sempre nos mesmos componentes:
- Identificação: cliente, projeto, data, número do documento.
- Descrição das atividades a desenvolver, item a item.
- Custo unitário e total de cada item: materiais, mão de obra, transporte, outros custos.
- Termos e condições: prazos de execução, garantias, formas de pagamento.
- Validade da proposta (por exemplo, 30 dias).
- Modelo/formulário de apresentação consistente com a imagem da empresa.
Exemplo de modelo de orçamento
ORÇAMENTO N.º 2026/048
Cliente: Traço & Luz, Lda. · Data: 05/09/2026 · Validade: 30 dias
1. Materiais ................................ 647,00 €
2. Mão de obra ............................... 275,00 €
3. Custos indiretos .......................... 176,10 €
4. Margem de lucro (30% sobre o custo) ....... 329,43 €
5. IVA (23%) ................................. 328,33 €
TOTAL A PAGAR ............................. 1.755,86 €
Prazo de execução: 3 dias úteis · Garantia: 12 meses
Pagamento: 50% na adjudicação, 50% na entrega
Todos estes valores são desenvolvidos e explicados nos capítulos seguintes.
7. Software específico para elaboração de orçamentos
O referencial exige saber utilizar software específico para elaboração de orçamentos. Há duas famílias principais:
- Folhas de cálculo (Excel, Google Sheets): um separador por projeto, fórmulas próprias para somar custos diretos, indiretos, margem e IVA.
- Software de gestão empresarial (ERP): PHC, Primavera, Sage, ou aplicações específicas de retalho e visual merchandising, que ligam o orçamento a fichas de produto, stock e faturação.
A lógica de cálculo (custos → margem → IVA) é sempre a mesma; muda a ferramenta, não o raciocínio.
Vantagens do software sobre o papel
- Evita erros de soma: a fórmula soma sempre certo.
- Reutiliza modelos: um template poupa tempo em cada novo projeto.
- Guarda histórico: consultar preços de projetos anteriores.
- Atualiza em cadeia: mudar o preço de um material atualiza automaticamente o total.
O software calcula certo aquilo que se lhe pede, mas não sabe se o pedido em si está correto. O técnico tem sempre de verificar o resultado.
8. Determinação de custos: diretos e indiretos
Custos diretos
Os custos diretos atribuem-se diretamente ao projeto: materiais e mão de obra.
| Componente | Valor |
|---|---|
| Subtotal materiais | 647,00 € |
| Subtotal mão de obra | 275,00 € |
| Custos diretos | 922,00 € |
647,00 + 275,00 = 922,00 €.
Custos indiretos
Os custos indiretos não se veem no produto final, mas são reais: stock, transporte, deslocação, energia, taxas e impostos, margem de risco e outras despesas gerais.
| Custo indireto | Cálculo | Valor |
|---|---|---|
| Transporte (deslocação à loja) | 45,00 € | |
| Stock / armazenamento | 30,00 € | |
| Energia (atelier) | 15,00 € | |
| Margem de risco (5% dos custos diretos) | 922,00 × 0,05 | 46,10 € |
| Outras despesas gerais | 40,00 € | |
| Subtotal indiretos | 176,10 € |
45,00 + 30,00 + 15,00 + 46,10 + 40,00 = 176,10 €.
Custo total do projeto = custos diretos + custos indiretos = 922,00 + 176,10 = 1.098,10 €.
A margem de risco calcula-se sobre os custos diretos, não sobre o custo total nem sobre o preço de venda. Aplicar a percentagem à base errada distorce todo o cálculo seguinte.
9. Margens de lucro e a margem de venda
Há duas formas de calcular a margem de lucro, e dão números diferentes:
- Margem sobre o custo (markup): a margem é uma percentagem do custo total.
PV = Custo total × (1 + m) - Margem sobre a venda: a margem é uma percentagem do preço de venda final.
PV = Custo total ÷ (1 − m)
Exemplo resolvido: margem de 30% sobre o custo
Custo total = 1.098,10 €. Margem de referência da empresa: 30% sobre o custo.
- Lucro = 1.098,10 × 0,30 = 329,43 €.
- Preço de venda sem IVA = 1.098,10 + 329,43 = 1.427,53 €.
Essa mesma margem, medida sobre o preço de venda, é: 329,43 ÷ 1.427,53 = 23,08%, não 30%. É por isso que dizer apenas "a margem é 30%" é ambíguo sem dizer sobre o quê.
Exemplo resolvido: margem de 25% sobre a venda, mesmo custo
Se, em vez disso, a empresa definisse uma margem de 25% sobre o preço de venda para o mesmo custo total de 1.098,10 €:
- Preço de venda sem IVA = 1.098,10 ÷ (1 − 0,25) = 1.098,10 ÷ 0,75 = 1.464,13 €.
- Lucro = 1.464,13 − 1.098,10 = 366,03 €.
Repara: 1.464,13 € (margem de 25% sobre a venda) é um preço diferente de 1.427,53 € (margem de 30% sobre o custo), mesmo partindo do mesmo custo total. As duas fórmulas não são intercambiáveis.
Nunca enuncies uma regra ("a margem é X%") sem dizer se é sobre o custo ou sobre a venda, e aplica sempre a mesma definição do início ao fim do orçamento.
De onde vem a percentagem: margens de referência do setor
As margens usadas nesta sebenta e nas fichas (30%, 35%, 28%, 25%, 20%) não são inventadas ao acaso: aproximam-se das ordens de grandeza praticadas no setor da montagem e do visual merchandising, tipicamente entre 20% e 35% sobre o custo. Não são valores oficiais nem fixos por lei, são referências de mercado que cada empresa ajusta à sua realidade.
O critério de ajuste dentro deste intervalo depende de quatro fatores:
- Risco do projeto: quanto mais imprevisível (obra nova, fornecedores desconhecidos), mais perto dos 35%.
- Concorrência: um mercado com muitos concorrentes por um cliente empurra a margem para baixo.
- Recorrência do cliente: um cliente habitual e de confiança justifica uma margem mais baixa, perto dos 20%, porque o risco de incumprimento e o custo de angariação são menores.
- Prazo: um prazo apertado, que obriga a horas extra ou a fornecedores de urgência, justifica uma margem mais alta.
Na prática: um trabalho de montra corrente para um cliente novo ronda os 25% a 30%; um projeto único, urgente ou de alto risco pode justificar 35% ou mais; um cliente recorrente, com volume de trabalho garantido, pode aceitar 20% a 25%.
Estes intervalos são ordens de grandeza de referência, não tabelas oficiais. Cada empresa define a sua própria política de margens; o técnico aplica-a com critério, não de memória.
10. Cálculos financeiros e fórmulas relevantes
Resumo de todas as fórmulas usadas na orçamentação:
| Grandeza | Fórmula |
|---|---|
| Custo total da linha | Quantidade × Custo unitário |
| Custos diretos | Materiais + Mão de obra |
| Custo total do projeto | Custos diretos + Custos indiretos |
| Margem sobre o custo | Lucro = Custo total × m |
| Preço de venda (sobre o custo) | PV = Custo total × (1 + m) |
| Preço de venda (sobre a venda) | PV = Custo total ÷ (1 − m) |
| IVA | IVA = PV × taxa (23% em regra geral, Portugal continental) |
| Preço final ao cliente | PV + IVA |
Exemplo resolvido: o percurso completo, do custo ao preço final
| Etapa | Cálculo | Valor |
|---|---|---|
| Subtotal materiais | 647,00 € | |
| Subtotal mão de obra | 275,00 € | |
| Custos diretos | 647,00 + 275,00 | 922,00 € |
| Subtotal custos indiretos | 176,10 € | |
| Custo total | 922,00 + 176,10 | 1.098,10 € |
| Margem (30% sobre o custo) | 1.098,10 × 0,30 | 329,43 € |
| Preço de venda sem IVA | 1.098,10 + 329,43 | 1.427,53 € |
| IVA (23%) | 1.427,53 × 0,23 | 328,33 € |
| Preço final ao cliente | 1.427,53 + 328,33 | 1.755,86 € |
O IVA à taxa normal em Portugal continental é 23% e aplica-se sempre no fim, sobre o preço de venda sem IVA. O preço com IVA nunca entra na base de cálculo da margem.
11. Elaborar e apresentar a proposta de orçamento
A terceira realização da UC é elaborar proposta de orçamento. Reúne o trabalho de todos os capítulos anteriores num documento coerente:
- Descrição de atividades a desenvolver, por ordem lógica de execução.
- Custo unitário e total de cada item: materiais, mão de obra, transporte, outros custos.
- Termos e condições: prazos, garantias, formas de pagamento.
- Modelo/formulário consistente, com identidade da empresa.
O quarto critério de desempenho da UC pede que a proposta seja apresentada de forma clara e precisa, mostrando competências de comunicação e organização das informações financeiras:
- Ordem lógica: identificação → descrição → custos → condições → total.
- Linguagem acessível a quem não é técnico.
- Números alinhados, com moeda e casas decimais consistentes.
- Nenhum item "escondido": tudo o que o cliente paga aparece discriminado.
12. Avaliação de riscos, negociação e gestão documental
Avaliação de riscos financeiros
Entre a proposta e a entrega final podem passar semanas. Os riscos mais comuns:
- Variação de preços de matéria-prima (o vinil ou o MDF sobem de preço).
- Atraso de fornecedores, obrigando a soluções alternativas mais caras.
- Imprevistos no local (instalação elétrica insuficiente, paredes irregulares).
- Incumprimento de pagamento por parte do cliente.
Proteções habituais: a margem de risco nos custos indiretos, a validade limitada da proposta, e cláusulas de revisão de preço ou de alterações ao âmbito inicial.
Coerência, defesa e negociação de orçamentos
Antes de enviar, o orçamento tem de ser coerente com o levantamento de recursos: nada do que o projeto exige pode ficar de fora, e nenhum item orçamentado pode ser estranho ao projeto.
Apresentar a proposta é também defendê-la: justificar cada valor com dados (custo do material, horas necessárias), ouvir as objeções do cliente sem ceder por ceder, e distinguir o que pode ser ajustado (prazo, faseamento do pagamento) do que não pode (qualidade do material, segurança). Negociar não é sinónimo de descontar: ceder no preço sem reduzir o âmbito do trabalho corrói a margem planeada.
Gestão documental
Cada orçamento gera documentos a gerir, em papel e em digital: procedimentos e instruções de trabalho internas, impressos normalizados, e registos de tudo o que foi enviado e respondido. Um orçamento sem registo é um orçamento que a empresa não consegue defender mais tarde, se houver um diferendo com o cliente.
Normas de segurança, saúde no trabalho e qualidade
Duas famílias de normas atravessam toda a orçamentação: as normas de segurança e saúde no trabalho (equipamento de proteção, procedimentos de montagem seguros, trabalho em altura ou com eletricidade) e as normas da qualidade (materiais e processos conformes ao setor e à marca do cliente). Cortar nestas áreas para baixar o preço transfere o risco para as pessoas e para a reputação da empresa.
Erros comuns
- Orçamentar sem visitar o local, confiando só nas medidas dadas pelo cliente.
- Confundir custos diretos com indiretos, por exemplo incluir o transporte nos custos diretos.
- Calcular a margem de risco sobre a base errada (custo total ou preço de venda, em vez de custos diretos).
- Confundir margem sobre o custo com margem sobre a venda: são fórmulas diferentes e dão valores diferentes para a mesma percentagem.
- Aplicar o IVA antes da margem, usando um valor já com IVA como base do lucro.
- Escolher o fornecedor só pelo preço, ignorando prazo, qualidade e garantia.
- Enviar o orçamento sem registo nem cópia guardada.
- Ceder no preço em negociação sem reduzir o âmbito, o que corrói a margem planeada.
Glossário
- Orçamento: documento com a descrição de produtos/serviços, prazos e condições, proposto antes do trabalho.
- Custo unitário: custo de uma unidade de material, hora de mão de obra ou serviço.
- Custos diretos: materiais e mão de obra imputados diretamente ao projeto.
- Custos indiretos: stock, transporte, deslocação, energia, taxas e impostos, margem de risco e outras despesas gerais.
- Margem sobre o custo (markup): percentagem de lucro calculada sobre o custo total.
- Margem sobre a venda: percentagem de lucro calculada sobre o preço de venda final.
- IVA: Imposto sobre o Valor Acrescentado; taxa normal de 23% em Portugal continental.
- Preço de venda sem IVA: custo total mais a margem de lucro, antes de acrescentar o IVA.
- Margem de risco: parcela dos custos indiretos que protege contra imprevistos financeiros.
- Proposta de orçamento: documento final, com descrição, custos, termos e condições, apresentado ao cliente.
- Validade da proposta: prazo durante o qual os valores do orçamento se mantêm garantidos.
Síntese
Um orçamento profissional segue sempre a mesma sequência: recolher informação do projeto (objeto, local, requisitos, quantidades, qualidade) → levantar recursos (materiais, equipamentos, serviços e respetivos fornecedores) → calcular custos diretos (materiais + mão de obra) → somar os custos indiretos (stock, transporte, energia, risco, despesas gerais) para obter o custo total → aplicar a margem de lucro certa (sobre o custo ou sobre a venda, nunca as duas em simultâneo sem distinguir) → somar o IVA por último, sempre sobre o preço sem IVA → elaborar e apresentar a proposta com clareza → avaliar riscos, negociar com dados, e registar tudo. Domina esta sequência e consegues orçamentar qualquer projeto de visual merchandising.
Exercícios resolvidos
1. Uma loja pede um expositor com 4 placas de MDF a 38,00 € cada e 5 horas de montagem a 14,00 €/h. Qual é o custo direto total?
Resolução: materiais = 4 × 38,00 = 152,00 €; mão de obra = 5 × 14,00 = 70,00 €; custos diretos = 152,00 + 70,00 = 222,00 €.
2. Sobre o custo direto de 222,00 € do exercício anterior, aplica-se uma margem de risco de 5% e outras despesas gerais de 20,00 €. Qual é o custo total?
Resolução: margem de risco = 222,00 × 0,05 = 11,10 €; custos indiretos = 11,10 + 20,00 = 31,10 €; custo total = 222,00 + 31,10 = 253,10 €.
3. Sobre esse custo total de 253,10 €, aplica-se uma margem de 20% sobre o custo. Qual é o preço de venda sem IVA, e qual é o IVA a 23%?
Resolução: lucro = 253,10 × 0,20 = 50,62 €; PV sem IVA = 253,10 + 50,62 = 303,72 €; IVA = 303,72 × 0,23 = 69,86 €; preço final = 303,72 + 69,86 = 373,58 €.
4. Dois fornecedores de tinta apresentam: Fornecedor X, 12,00 €/litro, entrega em 2 dias; Fornecedor Y, 10,50 €/litro, entrega em 8 dias. Precisas de 5 litros em 4 dias. Qual escolhes?
Resolução: o Fornecedor Y é mais barato (5 × 10,50 = 52,50 € contra 5 × 12,00 = 60,00 €), mas o seu prazo de 8 dias não cumpre os 4 dias disponíveis. Escolhe-se o Fornecedor X, apesar da diferença de 7,50 €, porque é o único que cumpre o prazo do projeto.
5. Um técnico calculou o preço final aplicando primeiro o IVA sobre o custo total e só depois somou a margem sobre esse valor com IVA já incluído. Porque está errado, mesmo que o resultado pareça razoável?
Resolução: o IVA nunca deve entrar na base de cálculo da margem. Calcular a margem sobre um valor que já inclui IVA distorce o lucro real que a empresa fica a ganhar, porque uma parte do que parece "margem" é, na verdade, imposto. A ordem correta é sempre: custo total → margem → preço de venda sem IVA → IVA → preço final.
6. Um projeto tem custo total de 800,00 €. Compara o preço de venda sem IVA para uma margem de 20% sobre o custo e para uma margem de 20% sobre a venda.
Resolução: sobre o custo: PV = 800,00 × 1,20 = 960,00 €. Sobre a venda: PV = 800,00 ÷ 0,80 = 1.000,00 €. Para a mesma percentagem de 20%, a margem sobre a venda dá sempre um preço de venda mais alto do que a margem sobre o custo, porque a base do cálculo é diferente.