Sebenta · Efetuar adereços com recurso a papel, cartão, tecido ou fibra têxtil (UC02738)
- Introdução
- 1. Adereços em visual merchandising: materiais e propriedades
- 2. Interpretar o briefing criativo
- 3. Planear: esboço, desenho técnico e maquetização
- 4. Protótipos virtuais e físicos
- 5. Cálculo de quantidades e dimensões de materiais
- 6. Estruturas básicas para adereços
- 7. Ferramentas manuais, corte e moldagem
- 8. Técnicas de colagem e união
- 9. Técnicas de pintura e acabamento
- 10. Sistemas de fixação e montagem
- 11. Durabilidade, resistência e preparação para exposição e venda
- 12. Tendências, normas e sustentabilidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a produzir adereços para visual merchandising: as peças decorativas, em papel, cartão, tecido ou fibra têxtil, que dão vida a uma montra, um expositor ou um espaço comercial. Não é o produto que se vende, é o que constrói a experiência à volta dele, e por isso tem de ser bem planeado, tecnicamente correto e seguro de expor ao público.
O percurso segue as três realizações do referencial: primeiro planeamos a execução do adereço (interpretar o briefing, esboçar, calcular material, conceber a estrutura), depois produzimos com técnicas manuais (cortar, moldar, colar, pintar), e por fim preparamos o resultado para aplicação em contexto de exposição e venda (fixar, testar durabilidade, documentar). Ao longo do caminho aplicam-se normas de segurança, ambiente e qualidade, porque um adereço mal preso ou feito de material inflamável é um risco real num espaço aberto ao público.
Objetivos de aprendizagem (referencial): identificar tipos e propriedades de papel, cartão, tecido e fibra têxtil; interpretar briefings criativos; elaborar esboços, desenhos técnicos e maquetes; criar protótipos virtuais e físicos; calcular quantidades e dimensões de material; conceber estruturas básicas; aplicar técnicas de corte, moldagem, colagem, união, pintura e acabamento; preparar sistemas de fixação e montagem; avaliar durabilidade e resistência; e aplicar normas de gestão de resíduos, segurança e saúde no trabalho, proteção ambiental e qualidade.
1. Adereços em visual merchandising: materiais e propriedades
Um adereço é qualquer peça produzida para compor visualmente uma montra, um expositor ou um espaço comercial: uma árvore decorativa de Natal, uma flor gigante para uma montra de primavera, uma bandeirola de tecido, um cenário de evento. Serve para criar ambiente e contar uma história em torno do produto, nunca para competir com ele.
Trabalha-se sobretudo com quatro famílias de materiais.
Papel e cartão
| Material | Tipos comuns | Propriedades |
|---|---|---|
| Papel | jornal, kraft, crepe, cartolina, vegetal | leve, económico, fácil de cortar e dobrar, pouca resistência à água |
| Cartão | canelado simples/duplo, prensado (grey board), pluma | rígido, boa relação peso/resistência, aceita corte, vinco e dobra |
A cartolina (entre 180 e 300 g/m²) é o intermédio entre papel e cartão: dobra com facilidade e ainda aguenta pequenas estruturas. O cartão canelado tem uma onda interior entre duas faces lisas, que lhe dá resistência a peso muito baixo, e é a base estrutural mais usada em adereços de montra. O cartão pluma (poliestireno extrudido entre duas faces de cartão fino) corta-se com estilete, fica perfeitamente plano e é a escolha para painéis e letras grandes.
Tecido e fibra têxtil
| Material | Tipos comuns | Propriedades |
|---|---|---|
| Tecido | feltro, tule, algodão, non-woven (TNT) | flexível, drapeja, cor e textura ricas, pode desfiar ao corte |
| Fibra têxtil | rafia, juta, corda de sisal, lã | dá volume e textura tridimensional, boa para amarrações e acabamentos |
O feltro é uma fibra prensada, não tecida, e por isso não desfia ao corte: é o material mais fácil de trabalhar num adereço. O tule é transparente e leve, usado para efeitos de profundidade. O non-woven (TNT) é barato, não desfia e imita tecido, muito comum em decoração sazonal de baixo custo. As fibras têxteis como a rafia e a corda de sisal dão um acabamento natural ou rústico, sobretudo em amarrações, franjas e laços.
Uma montra de Natal com uma árvore em cartão canelado forrada a feltro vermelho e um laço em rafia natural comunica "quente e artesanal" antes de o cliente ler qualquer texto. A mesma árvore forrada em tule branco comunicaria "delicado e festivo". O material escolhido já é uma mensagem.
2. Interpretar o briefing criativo
O briefing é o documento, ou a conversa registada, que define o que a loja ou a marca pretende de uma montra ou espaço, antes de se desenhar seja o que for.
Tipologias de briefing
- Sazonal: Natal, Páscoa, rebaixas, regressado às aulas.
- Campanha ou lançamento: apresentação de um produto novo.
- Evento: inauguração, pop-up, ação pontual.
- Interno: modelo repetido por uma cadeia de lojas, com pequenas variações locais.
Processo e elementos obrigatórios
O processo típico é: reunião com o cliente ou gestor da loja → registo das restrições → moodboard de referências visuais → aprovação do conceito → produção. Um briefing bem feito inclui sempre:
- Tema e conceito (ex.: "Primavera botânica", "Natal escandinavo").
- Restrições: orçamento máximo, prazo de entrega, dimensões exatas do espaço.
- Identidade da marca: cores, tipografia e materiais que a marca já usa ou evita.
- Público-alvo e duração da exposição, porque uma montra sazonal dura semanas e um adereço de evento dura horas, e isso decide o nível de reforço necessário.
Se algum destes elementos faltar, a primeira tarefa do técnico é perguntar, nunca inventar. Interpretar mal o briefing é a causa mais frequente de retrabalho caro.
3. Planear: esboço, desenho técnico e maquetização
O planeamento visual segue três etapas, cada uma mais rigorosa do que a anterior.
- Esboço (thumbnail): desenho rápido à mão, várias ideias em poucos minutos, sem preocupação de escala.
- Desenho técnico: vistas (frente, lado, topo) com medidas e proporções reais, já a pensar em como se corta e se monta a peça.
- Maquetização: reprodução do adereço numa escala reduzida (por exemplo 1:10), em material barato, para validar proporções antes de gastar o material final.
Exemplo resolvido: da ideia ao desenho técnico
Briefing: "árvore de Natal decorativa para montra, com 1,20 m de altura."
- Esboço: um cone com uma estrela no topo e três faixas de tecido a marcar "andares".
- Desenho técnico, com cotas: altura total 120 cm, raio da base 50 cm, raio do topo (truncado, onde assenta a estrela) 5 cm.
- Maquete à escala 1:10: mesmo cone em cartolina com 12 cm de altura e 5 cm de raio de base, para confirmar que a proporção "parece" uma árvore antes de cortar o cartão canelado definitivo.
Estas cotas (altura 120 cm, raio da base 50 cm) são as que vamos usar no capítulo seguinte para calcular o material. O planeamento e o cálculo de material são o mesmo projeto, em etapas diferentes.
4. Protótipos virtuais e físicos
Antes de gastar material definitivo, o técnico passa por duas formas de prototipagem.
Protótipo virtual
Um protótipo virtual, criado em software de modelação 3D (por exemplo SketchUp, Tinkercad ou Blender), permite:
- Ver o adereço de todos os ângulos, sem gastar material.
- Apresentar ao cliente e obter aprovação antes de produzir.
- Detetar problemas de escala e encaixe entre peças que um desenho 2D não mostra.
- Gerar planificações (a peça "desdobrada" em plano) que ajudam a cortar o material real com rigor.
Protótipo físico
O protótipo físico é uma versão real, normalmente em material barato (cartão simples, papel de jornal) ou em escala reduzida, produzida antes da produção em larga escala. Serve para:
- Confirmar que a estrutura aguenta o peso e a forma previstos.
- Testar cores e acabamentos numa amostra pequena antes de aplicar à peça toda.
- Corrigir erros sem desperdiçar o material definitivo, que costuma ser o mais caro.
O fluxo completo de um adereço é sempre: esboço → desenho técnico → protótipo virtual → protótipo físico → produção final. Cada etapa é mais cara do que a anterior, por isso o objetivo é apanhar o erro o mais cedo possível.
5. Cálculo de quantidades e dimensões de materiais
Antes de cortar, calcula-se quanto material é preciso comprar. As formas geométricas mais comuns em adereços:
| Forma | Área |
|---|---|
| Retângulo | comprimento × largura |
| Círculo | π × raio² |
| Superfície lateral do cone | π × raio × geratriz |
| Superfície de um paralelepípedo | 2 × (comprimento×largura + comprimento×altura + largura×altura) |
Regra da casa: à área calculada soma-se sempre entre 10% e 20% de desperdício de corte, para cobrir sobras entre peças, erros de recorte e o ajuste do padrão do tecido.
Exemplo resolvido 1: tecido para o cone de uma árvore decorativa
Retomando o cone do capítulo 3 (raio da base 50 cm, altura 120 cm), para o revestir com feltro precisamos primeiro da geratriz (a distância inclinada do topo à base, hipotenusa do triângulo raio/altura):
geratriz = √(raio² + altura²) = √(50² + 120²) = √(2 500 + 14 400) = √16 900 = 130 cm
Área lateral do cone (π ≈ 3,1416):
área lateral = π × raio × geratriz = 3,1416 × 50 × 130 ≈ 20 420 cm² ≈ 2,04 m²
Com 15% de desperdício de corte:
área com desperdício = 2,04 × 1,15 ≈ 2,35 m²
Rolo de feltro com 1,40 m de largura: 2,35 m² ÷ 1,40 m ≈ 1,68 m, arredondado por excesso (nunca por defeito) para 1,70 m, porque os rolos se compram em décimos de metro.
Exemplo resolvido 2: cartão para uma caixa-presente gigante
Uma "caixa de presente" decorativa, em cartão canelado, com 100 cm de comprimento, 60 cm de largura e 60 cm de altura. Área total de superfície:
área = 2 × (C×L + C×A + L×A) = 2 × (100×60 + 100×60 + 60×60)
= 2 × (6 000 + 6 000 + 3 600) = 2 × 15 600 = 31 200 cm² = 3,12 m²
Com 10% de desperdício de corte: 3,12 × 1,10 = 3,43 m².
Se as folhas de cartão canelado disponíveis medem 100 cm × 70 cm (0,70 m² por folha), o número de folhas necessárias é 3,43 ÷ 0,70 ≈ 4,90, arredondado por excesso para 5 folhas.
Arredonda-se sempre por excesso na compra de material, tanto em metros lineares de tecido como em número de folhas de cartão. Comprar "no limite" é a causa mais comum de faltar material a meio da produção, e voltar a encomendar atrasa o prazo do briefing.
6. Estruturas básicas para adereços
Uma estrutura é o esqueleto que dá forma a um adereço e aguenta o seu peso. Três princípios valem para qualquer estrutura:
- Base estável: mais larga do que alta, ou fixa/lastrada, para não tombar.
- Distribuição do peso: o material mais pesado fica perto da base, nunca no topo.
- Ponto de fixação previsto desde o início: já a pensar onde o adereço vai prender à montra, base, parede ou teto.
Materiais e tipos de estrutura
| Material estrutural | Uso típico |
|---|---|
| Vareta de madeira ou bambu | armações internas, leve e fácil de fixar |
| Arame ou fio de ferro | silhuetas dobráveis (estrela, floco de neve) |
| Cartão canelado dobrado | quando a própria "pele" do adereço já é estrutura |
| Tubo de PVC | peças grandes e mais permanentes, montam-se por secções |
Distinguem-se três tipos de estrutura: armação interna (esqueleto escondido dentro do adereço), autoportante (a própria peça se sustenta sem armação extra, como o cone da árvore, em que o cartão canelado dobrado já é rígido o suficiente) e suspensa (pendurada, sem apoio no chão).
7. Ferramentas manuais, corte e moldagem
Ferramentas e segurança
As ferramentas essenciais de um posto de trabalho de adereços são: tesouras (retas e de tecido), estiletes/x-ato, tapete de corte, régua metálica, esquadro, furador e tesoura de vinco (para dobras limpas em cartão).
Regras de segurança que não se negoceiam no corte:
- Cortar sempre sobre tapete de corte ou superfície adequada, nunca à mão.
- A lâmina do estilete corta sempre no sentido contrário ao corpo, nunca em direção às mãos ou ao tronco.
- Trocar a lâmina assim que perder o fio: uma lâmina cega obriga a mais força e escorrega com mais facilidade do que uma afiada, e é por isso mais perigosa.
- Usar luvas de proteção mecânica ao corte em sessões prolongadas de estilete.
Técnicas de corte e moldagem por material
| Material | Técnica |
|---|---|
| Cartão canelado | estilete + régua metálica; vinco (corte parcial, sem atravessar a folha) antes de dobrar |
| Cartolina/papel | tesoura ou estilete; dobra direta ou com vinco a seco |
| Tecido | tesoura de tecido, com o tecido esticado e alfinetado para não deslizar durante o corte |
| Papel molhado (papietagem) | moldagem à mão sobre um molde ou estrutura, em camadas sucessivas de tiras de papel com cola |
O vinco é o detalhe técnico que separa uma dobra limpa de uma dobra rasgada: sem ele, o cartão canelado tende a partir na linha de dobra.
8. Técnicas de colagem e união
Tipos de cola
| Cola/união | Uso típico | Risco / EPI |
|---|---|---|
| PVA (cola branca) | papel, cartão, tecido leve | baixo risco, à base de água |
| Cola quente (pistola) | fixações rápidas, estruturas | risco de queimadura, nunca tocar o bico |
| Cola de contacto/neoprene | tecido a cartão, materiais lisos | inflamável, com vapores orgânicos: exige ventilação, luvas de nitrilo e, em uso prolongado, máscara com filtro para vapores orgânicos |
| Costura, agrafo, cavilha | tecido, uniões estruturais | união mecânica, sem risco químico |
O critério de escolha combina o tipo de material a unir, o tempo de secagem disponível, a resistência necessária e a visibilidade da junta.
Uniões mecânicas vs colagem química
As uniões mecânicas (costura, agrafo, cavilha, nó) são reversíveis ou mais resistentes à tração e não dependem de tempo de secagem. A colagem química (PVA, contacto, quente) é mais rápida em superfícies planas, mas depende do tempo de cura e da compatibilidade dos materiais. Em peças manuseadas ou transportadas com frequência, combinar as duas técnicas, por exemplo colar e depois reforçar com agrafo ou costura, aumenta a segurança da junta.
A cola de contacto é a única desta lista que exige ventilação e proteção respiratória. Nunca se usa em espaço fechado sem janela aberta ou extração de ar.
9. Técnicas de pintura e acabamento
Preparação e tintas
Antes de pintar, lixam-se as arestas de cartão cortado e aplica-se primário ou gesso em superfícies de papietagem, para a tinta não descascar ao fim de poucos dias de exposição.
Tipos de tinta usados em adereços: acrílica (à base de água, baixo odor, seca depressa), spray (cobertura rápida e uniforme, mas exige ventilação e máscara adequada) e têxtil (fixa-se ao tecido sem o deixar rígido). Acabamentos comuns: verniz (proteção e brilho), purpurina, estêncil e efeito patine (envelhecido).
Exemplo resolvido: tinta para uma esfera decorativa
Esfera decorativa em papietagem, raio 15 cm, a pintar com 2 demãos de tinta acrílica.
área da esfera = 4 × π × raio² = 4 × 3,1416 × 15² = 4 × 3,1416 × 225 ≈ 2 827 cm² ≈ 0,283 m²
Como são 2 demãos, a área total a cobrir é 0,283 × 2 ≈ 0,565 m². Com um rendimento declarado na ficha técnica de 8 m² por litro:
tinta necessária = 0,565 ÷ 8 ≈ 0,071 L ≈ 71 ml
Não se compra tinta ao mililitro exato: arredonda-se para a embalagem disponível a seguir, por exemplo um boião de 100 ml.
10. Sistemas de fixação e montagem
Tipos de fixação
| Sistema | Uso típico |
|---|---|
| Fio de nylon transparente | suspensão de peças leves, efeito "flutuante" |
| Ganchos e varões | pendurar de estruturas de teto ou parede da montra |
| Ventosas | fixação reversível a vidro, sem furar |
| Fita dupla-face de alta resistência | fixação plana a superfícies lisas |
| Base com contrapeso | peças de chão que não podem tombar |
A escolha depende de três fatores: peso do adereço, superfície disponível (vidro, gesso cartonado, alumínio) e reversibilidade, porque a montra não pode ficar danificada quando a peça é removida.
Exemplo resolvido: margem de segurança de uma suspensão
O adereço da árvore de Natal, já montado (cartão canelado forrado a feltro), pesa 0,8 kg. A força que exerce no ponto de fixação é:
força = peso × gravidade = 0,8 × 9,8 ≈ 7,8 N
A regra de segurança da casa exige que o sistema de fixação suporte, no mínimo, 5 vezes o peso real do adereço, para cobrir golpes acidentais, vibração e degradação do material ao longo das semanas de exposição:
carga mínima exigida = 0,8 kg × 5 = 4 kg
Um fio de nylon vendido para uma carga de 5 kg cumpre esta margem com folga. A segurança do público é sempre o critério que manda: um adereço nunca pode ter risco de cair sobre um cliente ou um trabalhador.
11. Durabilidade, resistência e preparação para exposição e venda
Fatores que afetam a durabilidade
- Humidade: enfraquece colas à base de água e deforma papel e cartão.
- Luz solar direta (UV): desbota tecidos e tintas ao longo das semanas de exposição na montra.
- Manuseamento: montagens e desmontagens repetidas desgastam os pontos de fixação.
- Tempo de exposição: uma montra sazonal dura semanas, um adereço de evento dura horas, e o nível de reforço deve ser proporcional a essa duração, nem mais nem menos.
Testes simples e preparação final
Antes de o adereço sair da oficina, fazem-se três testes rápidos: teste de queda (de baixa altura, sobre superfície dura, para verificar se a estrutura resiste), teste de tração (puxar suavemente no ponto de fixação, confirmar a margem de segurança calculada) e, quando possível, teste de exposição a luz direta para antecipar o desbotamento.
A preparação final inclui limpar a peça, embalar para transporte e entregar uma ficha técnica com os materiais usados, as dimensões e os cuidados de manuseamento e fixação, para que quem monta a peça na loja não tenha de reinventar o processo.
12. Tendências, normas e sustentabilidade
Tendências e gestão de resíduos
As tendências atuais em adereços para visual merchandising apontam para materiais reciclados ou reaproveitados, tecidos naturais em vez de sintéticos descartáveis, e adereços modulares e reutilizáveis entre campanhas, o que exige planear a estrutura desde o capítulo 6 para ser desmontável, não colada em definitivo.
As normas de gestão de resíduos (Decreto-Lei n.º 102-D/2020, de 10 de dezembro) exigem separar os resíduos por fileira: papel/cartão, têxteis e plásticos. Sobras de cartão e tecido devem ser guardadas e catalogadas: o que hoje é desperdício, amanhã pode ser material para uma peça pequena.
Segurança, ambiente, qualidade e reação ao fogo
A Lei n.º 102/2009, de 10 de setembro (regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho) enquadra o dever de usar o EPI adequado a cada tarefa: luvas de proteção mecânica no corte, luvas de nitrilo e máscara com filtro para vapores orgânicos na cola de contacto e na tinta spray, e ventilação sempre que se trabalha com solventes.
Em espaço comercial aberto ao público, aplica-se o Regime Jurídico de Segurança Contra Incêndio em Edifícios (Decreto-Lei n.º 220/2008, de 12 de novembro) e o respetivo regulamento técnico (Portaria n.º 1532/2008, de 29 de dezembro). Os materiais decorativos usados em montras e expositores devem respeitar a classe de reação ao fogo exigida para o local de risco, classificada pelas Euroclasses (norma EN 13501-1, de A1 a F). Na dúvida sobre a classe de um material, consulta-se sempre a ficha técnica do fabricante antes de o aplicar numa montra ao público: nunca se decide "a olho".
As normas da qualidade fecham o processo: o adereço final verifica-se sempre contra o briefing, as medidas do desenho técnico e os resultados dos testes de durabilidade, antes de ser dado como pronto para expor.
Erros comuns
- Começar a cortar material sem confirmar as dimensões exatas do espaço no briefing.
- Saltar o protótipo físico e só descobrir um problema de peso ou proporção já com o material definitivo cortado.
- Calcular a área de material sem somar a margem de desperdício de corte, e ficar sem material a meio.
- Confundir a geratriz do cone com a altura vertical no cálculo da área lateral.
- Cortar tecido sem o esticar ou fixar primeiro, resultando em cortes tortos e desfiados.
- Dobrar cartão canelado sem vinco prévio, partindo a folha na linha de dobra.
- Usar cola de contacto em espaço fechado, sem ventilação nem máscara.
- Fixar um adereço pesado com um sistema pensado só para peso "nominal", sem margem de segurança.
- Ignorar a classe de reação ao fogo de materiais usados em grande quantidade num espaço comercial.
- Entregar o adereço sem ficha técnica, obrigando a equipa da loja a adivinhar como montá-lo.
Glossário
- Adereço: peça decorativa produzida para compor uma montra, expositor ou espaço comercial.
- Briefing: documento ou registo que define tema, restrições e objetivos de um projeto de decoração.
- Moodboard: composição de imagens de referência visual usada para alinhar um conceito.
- Cartão canelado: cartão com uma onda interior entre duas faces lisas, usado como base estrutural.
- Cartão pluma: poliestireno extrudido entre duas faces de cartão fino, corta-se plano com estilete.
- Vinco: corte parcial numa folha de cartão, feito antes de dobrar, para a dobra sair limpa.
- Papietagem: técnica de moldagem com tiras de papel molhadas em cola, aplicadas em camadas sobre um molde.
- Geratriz: no cone, a distância inclinada entre o topo e a base, usada no cálculo da área lateral.
- Estrutura autoportante: estrutura que se sustenta a si própria, sem armação interna adicional.
- Cola de contacto: adesivo inflamável, com vapores, usado sobretudo entre tecido e cartão ou materiais lisos.
- Rendimento de tinta: área que um litro de tinta consegue cobrir, indicada na ficha técnica.
- Reação ao fogo: comportamento de um material quando exposto ao fogo, classificado por Euroclasses (EN 13501-1).
- Ficha técnica do adereço: documento com materiais, dimensões e cuidados de manuseamento e fixação, entregue com a peça.
Síntese
Um adereço para visual merchandising nasce sempre de um briefing interpretado com rigor: tema, restrições, marca e duração da exposição. Planeia-se por etapas (esboço → desenho técnico → maquete → protótipo virtual e físico), calcula-se o material com margem de desperdício, e concebe-se uma estrutura adequada ao peso e ao ponto de fixação previsto. Produz-se com técnicas manuais de corte, moldagem, colagem e pintura, sempre com o EPI certo para cada ferramenta ou produto. Por fim, prepara-se o adereço para exposição e venda: fixa-se com margem de segurança, testa-se a durabilidade, documenta-se numa ficha técnica, e cumprem-se as normas de gestão de resíduos, segurança, ambiente, qualidade e reação ao fogo exigidas num espaço comercial aberto ao público.
Exercícios resolvidos
1. Um cliente pede uma "árvore decorativa grande" sem mais detalhes. Que três informações tens de confirmar antes de esboçar seja o que for?
Resolução: as dimensões exatas do espaço onde a árvore vai ficar, o orçamento e o prazo disponíveis, e a duração da exposição (para decidir o nível de reforço estrutural). Sem estes três dados, qualquer esboço arrisca-se a ser refeito.
2. Calcula a área lateral de um cone com raio de base 30 cm e altura 40 cm, e a quantidade de tecido necessária com 20% de desperdício, para um rolo com largura de 1,50 m.
Resolução: geratriz = √(30² + 40²) = √(900+1 600) = √2 500 = 50 cm. Área lateral = 3,1416 × 30 × 50 ≈ 4 712 cm² ≈ 0,47 m². Com 20% de desperdício: 0,47 × 1,20 ≈ 0,57 m². Em rolo de 1,50 m de largura: 0,57 ÷ 1,50 ≈ 0,38 m, arredondado por excesso para 0,40 m.
3. Porque é que uma lâmina de estilete cega é mais perigosa do que uma lâmina afiada?
Resolução: porque obriga a aplicar mais força para cortar, e essa força extra faz a lâmina escorregar com mais facilidade para fora da trajetória prevista, aumentando o risco de corte. A regra é trocar a lâmina assim que perder o fio, não esperar que "ainda corte".
4. Que cola escolherias para unir tecido a uma estrutura de cartão que vai ser transportada várias vezes, e porquê?
Resolução: cola de contacto, por dar boa aderência entre tecido e cartão em superfícies lisas, reforçada com costura ou agrafo nos pontos de maior tração, porque a peça vai ser manuseada repetidamente. A cola de contacto exige ventilação e luvas de nitrilo durante a aplicação.
5. Um adereço pesa 1,2 kg e vai ser suspenso do teto de uma montra. Que carga mínima deve o sistema de fixação suportar, seguindo a regra de segurança de 5 vezes o peso?
Resolução: carga mínima = 1,2 kg × 5 = 6 kg. Deve escolher-se um fio ou gancho com capacidade nominal igual ou superior a 6 kg, nunca dimensionado apenas para o peso real da peça.
6. Que legislação regula a reação ao fogo dos materiais decorativos usados numa montra de um centro comercial, e qual a norma que define as classes?
Resolução: o Regime Jurídico de Segurança Contra Incêndio em Edifícios (Decreto-Lei n.º 220/2008) e o Regulamento Técnico de Segurança Contra Incêndio em Edifícios (Portaria n.º 1532/2008), com as classes de reação ao fogo definidas pelas Euroclasses da norma EN 13501-1. Na dúvida sobre a classe de um material específico, consulta-se a ficha técnica do fabricante.