Sebenta · Realizar o aprovisionamento e controlo de stocks (UC02731)
- Introdução
- 1. Aprovisionamento, logística e cadeia de abastecimento
- 2. Gestão de stocks: conceitos e princípios gerais
- 3. Custos associados à gestão de stocks
- 4. Indicadores de gestão de stocks: rotação e cobertura
- 5. Ponto de encomenda e stock de segurança
- 6. A quantidade económica de encomenda (modelo de Wilson)
- 7. Métodos de valorização de stocks: FIFO, LIFO e custo médio ponderado
- 8. Análise ABC de stocks
- 9. Documentos e realização de encomendas
- 10. Armazenagem: tipos, receção, conferência e expedição
- 11. Inventariação: por produto, por valor e por dias
- 12. Sistemas informáticos de gestão de stocks
- 13. Segurança, qualidade e ambiente no armazém
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a gerir o stock de uma empresa com rigor: saber quando encomendar, quanto encomendar, como valorizar o que entra e sai, e como organizar o armazém e o inventário. É uma das áreas onde o técnico de vendas e marketing tem impacto direto no resultado da empresa: um stock mal gerido perde vendas por rutura ou imobiliza capital em excesso.
O percurso segue a lógica de quem gere o aprovisionamento no dia a dia: primeiro os conceitos (aprovisionamento, logística, cadeia de abastecimento, tipos e custos de stock), depois os indicadores de cálculo (rotação, cobertura, ponto de encomenda, stock de segurança, quantidade económica de encomenda), a seguir os métodos de valorização (FIFO, LIFO, custo médio ponderado) e a análise ABC, e por fim os procedimentos operacionais (documentos, armazenagem, inventário, sistemas informáticos, segurança e qualidade).
Objetivos de aprendizagem (referencial): realizar encomendas de produtos; calcular a cobertura de stocks para as diferentes categorias de produtos; inventariar os produtos existentes em stock; e controlar o processo de armazenagem dos produtos, aplicando técnicas de cálculo de cobertura e stocks e considerando o nível ótimo de stocks e os indicadores de cada categoria.
Ao longo da sebenta segue-se um caso comum, a Papelaria Central, Lda, uma distribuidora de material de escritório e papelaria, para que os cálculos de cada capítulo se liguem entre si em vez de aparecerem isolados.
1. Aprovisionamento, logística e cadeia de abastecimento
O aprovisionamento é a função que garante que a empresa tem, no momento certo e na quantidade certa, os bens e produtos de que precisa para vender ou para produzir. Cobre quatro atividades interligadas:
- Planear o que e quanto será necessário.
- Encomendar aos fornecedores certos, nas condições certas.
- Receber e conferir o que chega.
- Controlar o stock resultante, do ponto de vista físico e informático.
O objetivo do aprovisionamento é sempre duplo: nunca faltar o produto (evitar a rutura, que perde vendas e clientes) e não imobilizar capital a mais em stock parado (que tem custo de posse e risco de obsolescência).
Logística
A logística é o conjunto de atividades que planeia, executa e controla o fluxo físico de bens e a informação associada, desde a origem até ao cliente final. Inclui transporte, armazenagem, gestão de stocks e distribuição. O aprovisionamento é uma das peças da logística: a peça que trata da relação com os fornecedores e da constituição do stock.
Cadeia de abastecimento
A cadeia de abastecimento (supply chain) é a rede de todos os intervenientes envolvidos, direta ou indiretamente, na satisfação do pedido de um cliente:
Fornecedor de matéria-prima → Fabricante → Distribuidor/armazenista → Retalhista → Cliente final
Cada elo da cadeia depende do elo anterior: uma rutura no fornecedor de matéria-prima propaga-se, com atraso, até à prateleira da loja. Por isso a gestão de stocks nunca é um problema isolado de uma empresa: depende do comportamento de toda a cadeia.
Uma loja de eletrodomésticos vende um modelo de máquina de café muito procurado. O componente eletrónico dessa máquina é fabricado por um único fornecedor asiático. Quando esse fornecedor tem um atraso de produção de três semanas, o efeito chega ao retalhista dois a três meses depois, através do fabricante e do distribuidor: a loja fica sem o modelo nas prateleiras sem que nada de errado tenha acontecido dentro de portas.
2. Gestão de stocks: conceitos e princípios gerais
Stock é a quantidade de bens armazenados que aguardam venda, produção ou consumo. Existe por razões concretas, e não por acaso ou desleixo:
- Função de regulação: absorve diferenças entre o ritmo de compra/produção e o ritmo de venda/consumo, que raramente coincidem.
- Função de segurança: protege contra atrasos imprevistos de fornecedores ou picos inesperados de procura.
- Função de especulação: aproveitar um preço de compra baixo, ou antecipar uma subida de preços anunciada.
- Função de sazonalidade: acumular stock antes de picos previsíveis (material escolar antes de setembro, brinquedos antes do Natal).
Tipos de stock
| Tipo | O que é | Exemplo |
|---|---|---|
| Matérias-primas | usadas na produção, ainda não transformadas | tecido numa fábrica de roupa |
| Produtos em curso de fabrico | semi-acabados, a meio da produção | camisa cortada mas não cosida |
| Produtos acabados | prontos para venda | camisa embalada |
| Mercadorias | comprados prontos, para revenda sem transformação | camisa comprada a um fornecedor e revendida tal e qual |
| Consumíveis | material de apoio à operação, não vendido diretamente | sacos, etiquetas, cabides, embalagens |
No comércio e nos serviços, o stock que mais interessa gerir é o de mercadorias e consumíveis: não há transformação industrial, e o essencial do trabalho do técnico de vendas e marketing incide sobre eles.
Stock a mais e stock a menos são os dois erros simétricos desta função: o segundo perde-se em vendas, o primeiro perde-se em custo de posse e em produto que envelhece ou sai de moda. Todos os indicadores que se seguem servem para encontrar o ponto de equilíbrio entre os dois.
3. Custos associados à gestão de stocks
Gerir stock tem quatro custos distintos, e a gestão de stocks procura o equilíbrio entre eles, nunca a minimização isolada de um só:
- Custo de aquisição: o preço pago ao fornecedor pelo produto (e o transporte, quando faturado à parte).
- Custo de posse/armazenagem: espaço ocupado, seguros, mão de obra de armazém, deterioração e obsolescência, e o custo do capital que fica imobilizado enquanto o produto está parado (o dinheiro que não rende noutro lado).
- Custo de encomenda/lançamento: fixo por cada encomenda feita, independentemente da quantidade: telefonemas, tempo administrativo, transporte por entrega, conferência à chegada.
- Custo de rutura: vendas perdidas, clientes insatisfeitos, paragens de produção ou encomendas urgentes a um fornecedor alternativo mais caro, quando o stock falta.
Onde aparecem estes custos no dia a dia
| Custo | Onde aparece na prática |
|---|---|
| Aquisição | fatura do fornecedor |
| Posse | renda do armazém, seguro, eletricidade, juros do capital parado |
| Encomenda | tempo do funcionário a preparar o pedido, custo de transporte por entrega |
| Rutura | desconto dado ao cliente para compensar o atraso, encomenda urgente e mais cara |
Minimizar só o custo de posse (encomendar pouco de cada vez) aumenta o número de encomendas e o risco de rutura. Minimizar só o custo de encomenda (encomendar muito de cada vez) aumenta o custo de posse. O modelo de Wilson (capítulo 6) resolve matematicamente este compromisso.
4. Indicadores de gestão de stocks: rotação e cobertura
Rotação de stocks
A rotação de stocks mede quantas vezes o stock médio de um produto é vendido (e reposto) num determinado período, normalmente um ano. É o indicador central para perceber se um produto "gira" depressa ou fica parado.
Rotação (valor) = Custo das vendas (CMV) ÷ Stock médio (valor)
Stock médio = (Stock inicial + Stock final) / 2
Exemplo resolvido · rotação em valor
A Papelaria Central, Lda vende resmas de papel A4. No último ano:
- Custo das vendas (CMV): 87.600 €
- Stock inicial: 20.000 € · Stock final: 24.000 €
Passo 1 · Stock médio: (20.000 + 24.000) / 2 = 22.000 €
Passo 2 · Rotação: 87.600 / 22.000 = 3,98 ≈ 4 vezes por ano
O stock deste produto renova-se, em média, quase 4 vezes por ano.
Cobertura de stocks
A cobertura traduz a rotação em dias de vendas que o stock médio consegue garantir, sem nova entrada.
Cobertura (dias) = 365 ÷ Rotação
= Stock médio ÷ Consumo médio diário (forma equivalente)
Exemplo resolvido · cobertura em dias
Continuando o exemplo anterior:
Passo 1 · Via rotação: 365 / 3,98 = 91,7 dias
Passo 2 · Verificação, via consumo médio diário: consumo médio diário = 87.600 / 365 = 240 €/dia; cobertura = 22.000 / 240 = 91,7 dias ✓
As duas formas de calcular chegam ao mesmo valor, como tem de acontecer: são a mesma relação escrita de duas maneiras.
Quanto maior a rotação, menor a cobertura: um stock que gira depressa aguenta menos dias parado; um stock com pouca rotação acumula muitos dias de cobertura, o que pode significar excesso.
Rotação em valor vs rotação em quantidade
A rotação também se pode calcular em quantidade (unidades), em vez de valor:
Rotação (quantidade) = Quantidade vendida ÷ Stock médio (quantidade)
Na resma de papel A4, o preço de custo manteve-se constante o ano todo, a 6,00 €/un:
- Quantidade vendida anual = 87.600 / 6,00 = 14.600 unidades
- Stock médio em quantidade = 22.000 / 6,00 = 3.666,7 unidades
- Rotação em quantidade = 14.600 / 3.666,7 = 3,98, exatamente igual à rotação em valor
Isto só acontece porque o custo unitário foi constante. Se o preço de custo tivesse variado ao longo do ano (uma subida de fornecedor a meio do ano, por exemplo), o custo médio do que foi efetivamente vendido pode ser diferente do custo médio do que ficou em stock no fim do período, e as duas rotações divergem: uma pode dar 12 vezes/ano e a outra 10 vezes/ano para o mesmo produto, sem contradição nenhuma, porque medem coisas diferentes (ver o exercício resolvido da ficha 01, exercício 5).
Confundir "rotação" com "valor unitário do produto" é um dos erros mais graves nesta matéria. A rotação é uma razão (quantas vezes o stock gira num período), nunca um preço. E rotação em valor e rotação em quantidade só coincidem quando o preço de custo é constante no período analisado.
5. Ponto de encomenda e stock de segurança
Ponto de encomenda
O ponto de encomenda (reorder point, ROP) é o nível de stock que, ao ser atingido, deve desencadear uma nova encomenda, de forma a que o produto novo chegue antes de o stock se esgotar.
Ponto de encomenda = (Consumo médio diário × Prazo de entrega) + Stock de segurança
Stock de segurança
O stock de segurança é a reserva extra que protege contra dois tipos de variação: um consumo acima do previsto, ou um atraso do fornecedor. Uma forma simples e muito usada de o calcular:
Stock de segurança = (Consumo máximo diário − Consumo médio diário) × Prazo de entrega
Exemplo resolvido · ponto de encomenda e stock de segurança
Os tinteiros compatíveis da Papelaria Central têm os seguintes dados:
- Consumo médio diário: 18 unidades
- Consumo máximo diário já observado: 30 unidades
- Prazo de entrega do fornecedor: 4 dias
Passo 1 · Stock de segurança: (30 − 18) × 4 = 12 × 4 = 48 unidades
Passo 2 · Ponto de encomenda: (18 × 4) + 48 = 72 + 48 = 120 unidades
Quando o stock de tinteiros descer para 120 unidades, deve lançar-se a encomenda seguinte. Sem o stock de segurança, o ponto de encomenda seria apenas 72 unidades, e um pico de vendas ou um atraso do fornecedor deixaria a papelaria sem tinteiros até chegar a próxima entrega.
Um erro comum é confundir o ponto de encomenda (um nível de stock) com uma data fixa no calendário. Numa empresa com procura irregular, encomendar sempre no dia 1 de cada mês tanto pode provocar rutura como excesso; encomendar quando o stock físico atinge o ponto de encomenda ajusta-se ao ritmo real das vendas.
6. A quantidade económica de encomenda (modelo de Wilson)
O modelo de Wilson responde à pergunta seguinte: qual é a quantidade a encomendar de cada vez que minimiza a soma do custo de encomenda com o custo de posse? Essa quantidade chama-se quantidade económica de encomenda (QEE).
QEE = √( (2 × D × Cε) ÷ Ca )
Onde D é a procura anual em unidades, Cε é o custo fixo por cada encomenda (€), e Ca é o custo de posse por unidade e por ano (€/unidade/ano).
Exemplo resolvido · QEE, número de encomendas e verificação
A Papelaria Central quer aplicar o modelo à resma de papel A4:
- Procura anual: D = 14.600 unidades
- Custo por encomenda: Cε = 25 €
- Custo de posse por unidade e por ano: Ca = 2 €
Passo 1 · QEE:
QEE = √( (2 × 14.600 × 25) / 2 ) = √( 730.000 / 2 ) = √365.000 ≈ 604 unidades
Passo 2 · Número de encomendas por ano:
Nº encomendas = D / QEE = 14.600 / 604 ≈ 24,2 ≈ 24 encomendas/ano
Passo 3 · Intervalo entre encomendas:
Intervalo = 365 / 24 ≈ 15,2 dias
Passo 4 · Verificação (propriedade do ponto ótimo): no ponto ótimo de Wilson, o custo total de encomenda por ano é igual ao custo total de posse por ano.
- Custo de encomenda anual = 24,2 × 25 € ≈ 604,1 €
- Custo de posse anual = (604 / 2) × 2 € ≈ 604,0 €
Os dois valores praticamente coincidem: é a assinatura de que o cálculo está correto. Se, ao verificar, os dois custos derem valores muito diferentes, há um erro algures na fórmula (troca de Cε com Ca é o erro mais frequente).
O stock médio entre duas encomendas consecutivas não é a QEE inteira, é QEE / 2: o stock varia da QEE (mesmo a seguir a receber a encomenda) até perto de zero (mesmo antes da encomenda seguinte chegar), e a sua média é o ponto intermédio. Usar a QEE inteira no custo de posse é um erro que duplica esse custo por engano.
7. Métodos de valorização de stocks: FIFO, LIFO e custo médio ponderado
Quando o mesmo produto é comprado em lotes com custos unitários diferentes, é preciso um método para decidir a que custo se valorizam as saídas (vendas) e o stock que fica. Há três métodos principais.
Dados de partida (o mesmo exemplo para os três métodos)
A Papelaria Central tem, no início do mês, este historial de entradas de resma de papel A4:
| Movimento | Quantidade | Custo unitário | Valor |
|---|---|---|---|
| Existência inicial | 100 un | 5,00 € | 500 € |
| Compra 1 | 200 un | 5,50 € | 1.100 € |
| Compra 2 | 150 un | 6,00 € | 900 € |
| Total disponível | 450 un | 2.500 € |
Durante o mês saem 300 unidades para venda.
FIFO (First In, First Out)
Sai primeiro o lote mais antigo.
Passo 1: esgotar a existência inicial: 100 un × 5,00 € = 500 €. Faltam sair 200 un.
Passo 2: continuar pela Compra 1: 200 un × 5,50 € = 1.100 €. Já saíram as 300 un pedidas.
Custo da saída FIFO = 500 + 1.100 = 1.600 €
Stock final = 450 − 300 = 150 un, que sobram inteiramente da Compra 2, ao custo mais recente: 150 × 6,00 € = 900 €
Verificação: 1.600 + 900 = 2.500 €, que é o total disponível ✓
Custo médio ponderado (CMP)
Valoriza todas as saídas ao mesmo custo unitário médio, calculado sobre o total disponível.
Passo 1 · Custo médio unitário: 2.500 € / 450 un = 5,5556 €/un
Passo 2 · Custo da saída: 300 un × 5,5556 € = 1.666,67 €
Passo 3 · Stock final: 150 un × 5,5556 € = 833,33 €
Verificação: 1.666,67 + 833,33 = 2.500,00 € ✓
LIFO (Last In, First Out)
Sai primeiro o lote mais recente. Não é aceite fiscal e contabilisticamente em Portugal (o SNC não o permite), mas é importante conhecer o raciocínio.
Passo 1: esgotar a Compra 2: 150 un × 6,00 € = 900 €. Faltam sair 150 un.
Passo 2: continuar pela Compra 1: 150 un × 5,50 € = 825 €. Já saíram as 300 un.
Custo da saída LIFO = 900 + 825 = 1.725 €
Stock final = 50 un da Compra 1 (200 − 150) × 5,50 € + 100 un da existência inicial × 5,00 € = 275 + 500 = 775 €
Verificação: 1.725 + 775 = 2.500 € ✓
Comparação dos três métodos
| Método | Custo da saída | Stock final |
|---|---|---|
| FIFO | 1.600,00 € | 900,00 € |
| CMP | 1.666,67 € | 833,33 € |
| LIFO | 1.725,00 € | 775,00 € |
Com preços a subir ao longo do tempo (como neste exemplo), o FIFO dá sempre o custo de saída mais baixo e o stock final mais alto dos três (usa os preços antigos, mais baratos, nas saídas). O LIFO dá o resultado oposto. O CMP fica sempre entre os dois.
Em Portugal, para efeitos fiscais e de relato financeiro, o LIFO não é permitido (o SNC exige FIFO, custo médio ponderado ou métodos equiparados). Uma empresa portuguesa pode usar o raciocínio LIFO como exercício de análise, mas não pode valorizar as suas contas oficiais com ele.
8. Análise ABC de stocks
A análise ABC classifica os produtos em stock consoante o seu peso no valor total consumido ou vendido num período, para concentrar o esforço de controlo onde mais importa. Baseia-se na regra de Pareto ("80/20"): tipicamente, uma pequena parte dos produtos concentra a maior parte do valor.
- Classe A: poucos produtos, grande parte do valor. Merece controlo apertado: contagens frequentes, ponto de encomenda revisto com regularidade, stock de segurança bem calibrado.
- Classe B: peso intermédio, controlo normal.
- Classe C: muitos produtos, pouco valor cada um. Controlo simplificado: menos contagens, encomendas maiores e mais espaçadas.
Exemplo resolvido · classificação ABC
Uma papelaria tem oito referências, com este valor de consumo anual:
| Produto | Valor anual (€) | % do total | % acumulada | Classe |
|---|---|---|---|---|
| P1 | 5.000 | 33,3% | 33,3% | A |
| P3 | 4.500 | 30,0% | 63,3% | A |
| P5 | 3.000 | 20,0% | 83,3% | A |
| P2 | 1.200 | 8,0% | 91,3% | B |
| P7 | 800 | 5,3% | 96,7% | B |
| P4 | 300 | 2,0% | 98,7% | C |
| P6 | 150 | 1,0% | 99,7% | C |
| P8 | 50 | 0,3% | 100,0% | C |
Método passo a passo: (1) somar o valor total (15.000 €); (2) ordenar os produtos por valor decrescente; (3) calcular a percentagem de cada um e acumulá-la; (4) cortar em classes segundo uma regra fixa, sempre a mesma: a classe A inclui os produtos até a acumulada atingir ou ultrapassar pela primeira vez 80%; a classe B até ultrapassar 95%; o resto é C.
Neste exemplo, apenas 3 dos 8 produtos (37,5% das referências) já representam 83,3% do valor: são a classe A, e merecem a maior atenção de gestão.
A ABC não é uma fronteira rígida de 80% e 20%: é uma referência. O que importa é o método (ordenar por valor, acumular, cortar) e a conclusão prática: gastar o tempo de gestão onde ele tem mais impacto financeiro.
9. Documentos e realização de encomendas
Cada encomenda gera uma sequência de documentos que dá rastreabilidade fiscal e operacional a toda a operação:
- Nota de encomenda: o pedido formal ao fornecedor: produto, quantidade, preço acordado, prazo de entrega.
- Guia de remessa / guia de transporte: acompanha fisicamente a mercadoria durante o transporte, e serve de base à conferência na receção.
- Fatura: documento fiscal do valor a pagar pela mercadoria recebida.
- Nota de crédito / nota de débito: corrige a fatura original, por devolução, desconto posterior ou erro de faturação.
Procedimento de realizar uma encomenda
- Verificar o stock disponível face ao ponto de encomenda calculado.
- Confirmar a quantidade a encomendar (idealmente próxima da QEE) e o fornecedor (preço, prazo, condições de pagamento).
- Emitir a nota de encomenda e obter confirmação de receção pelo fornecedor.
- Registar a encomenda no sistema informático de gestão de stocks, com a data prevista de entrega.
- Acompanhar o prazo e agir com antecedência se houver sinais de atraso.
Sem estes documentos e sem este registo, a empresa não tem prova fiscal da operação nem consegue controlar se o que chegou corresponde ao que foi pedido.
10. Armazenagem: tipos, receção, conferência e expedição
Tipos de armazenagem
- Convencional: estantes ou paletização, com acesso manual ou por empilhador.
- Em bloco: paletes empilhadas diretamente umas sobre as outras, para produtos homogéneos e de grande volume.
- Dinâmica: estantes com rolos, em que a mercadoria entra por um lado e sai por outro; aplica o FIFO de forma automática e física.
- Automatizada: transportadores e equipamentos robotizados, comandados pelo sistema informático de gestão de armazém.
A escolha depende do volume movimentado, do tipo de produto (frágil, perecível, pesado) e da rotação de cada referência: produtos de rotação alta (classe A) beneficiam de acesso fácil e rápido, produtos de rotação baixa podem ficar em zonas menos acessíveis.
Receção e conferência
- Descarga e verificação do estado da embalagem exterior.
- Conferência quantitativa: contar as unidades recebidas e comparar com a guia de remessa e com a nota de encomenda original.
- Conferência qualitativa: verificar danos, prazos de validade e conformidade com o que foi encomendado.
- Registo de entrada no sistema informático, que atualiza automaticamente o stock disponível.
- Arrumação no local definido, por referência, lote ou zona.
Qualquer divergência entre o encomendado e o recebido regista-se de imediato e comunica-se ao fornecedor, antes de a mercadoria ser dada como aceite.
Expedição de mercadorias
- Picking: recolher fisicamente os produtos da encomenda de um cliente.
- Conferência de saída: confirmar que o que sai corresponde exatamente ao pedido.
- Embalamento adequado ao meio de transporte e à fragilidade do produto.
- Emissão da guia de remessa/transporte que acompanhará a mercadoria.
- Registo de saída no sistema, que atualiza o stock disponível.
- Carregamento e entrega ao transportador.
Um erro nesta fase (produto errado, quantidade errada) gera um cliente insatisfeito e o custo de uma devolução, além de distorcer o stock registado no sistema até ser corrigido.
11. Inventariação: por produto, por valor e por dias
Inventariar é contar fisicamente o stock existente e comparar essa contagem com o valor registado no sistema, para confirmar ou corrigir os dados.
- Inventário permanente: o sistema atualiza o stock a cada movimento (entrada, saída); contagens físicas parciais e frequentes servem para confirmar que o sistema não desviou da realidade.
- Inventário periódico ou intermitente: uma contagem completa numa data fixa, tipicamente no fecho do ano.
Às diferenças entre o stock contado e o stock registado chama-se quebras, e podem ter várias origens: furto, erro de registo, deterioração, ou simples erro de contagem.
Documentos de inventariação
A inventariação apoia-se em quatro documentos, que dão prova e rastreabilidade a toda a operação de contagem:
- Folha de contagem: o suporte, em papel ou no sistema, onde se regista a quantidade fisicamente contada de cada referência. A prática mais rigorosa é a contagem cega (blind count): quem conta não vê a quantidade que o sistema tem registada, só o nome ou código da referência, para não se deixar influenciar e "confirmar" um número em vez de contar de facto.
- Mapa/relatório de inventário: reúne, por referência, a quantidade contada, a quantidade que estava em sistema e a diferença entre as duas (quebra ou sobra), normalmente já valorizada em euros ao custo unitário do produto.
- Ficha de stock (ou ficha de armazém): o registo permanente, por produto, de todos os movimentos de entrada e saída, com a existência e o valor em stock atualizados a cada movimento. É o documento que um sistema informático de gestão de stocks mantém automaticamente (capítulo 12), mas que também pode ser preenchido manualmente num armazém mais pequeno.
- Mapa de regularização de quebras: documenta e justifica, movimento a movimento, o ajuste feito ao stock em sistema depois de um inventário, para o alinhar com a contagem física, com a causa atribuída a cada quebra (furto, deterioração, erro de registo).
Modelo de ficha de stock preenchida
Retomando o exemplo da resma de papel A4 do capítulo 7 (existência inicial de 100 un a 5,00 €, compra 1 de 200 un a 5,50 €, compra 2 de 150 un a 6,00 €, saída de 300 un valorizada por FIFO):
| Data | Documento | Entradas (un) | Saídas (un) | Custo unitário (€) | Existências (un) | Valor em stock (€) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 01/03 | Saldo inicial | 5,00 | 100 | 500,00 | ||
| 05/03 | Guia de remessa nº 118 (compra 1) | 200 | 5,50 | 300 | 1.600,00 | |
| 12/03 | Guia de remessa nº 126 (compra 2) | 150 | 6,00 | 450 | 2.500,00 | |
| 20/03 | Fatura de venda nº 342 (saída) | 300 | 150 | 900,00 |
A saída de 300 unidades foi valorizada por FIFO (capítulo 7): consome primeiro a existência inicial (100 un a 5,00 €) e depois 200 un da compra 1 (a 5,50 €), no valor total de 1.600 €, o que faz baixar o valor em stock de 2.500 € para os 900 € que ficam, todos da compra 2. A coluna "Existências" e a coluna "Valor em stock" são precisamente o que a folha de contagem confirma (ou contradiz) no dia do inventário físico.
As três categorias de inventariação exigidas pelo referencial
Inventariar "por diferentes categorias" significa olhar para o mesmo stock com três critérios distintos, não fazer três inventários separados:
- Por produto: contagem unidade a unidade, referência a referência. É a base física de qualquer inventário, seja qual for o critério de prioridade escolhido a seguir.
- Por valor: agrupar os produtos pela sua classe ABC (capítulo 8), dando mais frequência de contagem à classe A, que concentra a maior parte do valor em risco.
- Por dias: agrupar por cobertura restante (capítulo 4), sinalizando primeiro os produtos que estão prestes a esgotar (risco de rutura) ou parados há muitos dias (risco de obsolescência e capital imobilizado).
Um produto da classe A com apenas 5 dias de cobertura é mais urgente de verificar do que um produto da classe C com os mesmos 5 dias de cobertura: uma rutura no produto A tem um impacto financeiro e comercial muito maior. É por isso que a inventariação "por valor" e "por dias" se combinam, e não substituem a inventariação "por produto".
12. Sistemas informáticos de gestão de stocks
Um sistema de gestão de stocks (frequentemente parte de um WMS ou de um ERP) regista em tempo real cada movimento de entrada e saída, e calcula automaticamente os indicadores estudados nos capítulos anteriores:
- Atualiza o stock a cada receção ou picking.
- Calcula rotação, cobertura e ponto de encomenda, e emite alertas quando este se aproxima.
- Gera os relatórios que sustentam a análise ABC e o plano de inventário.
- Integra-se com a faturação e com o sistema de vendas (ponto de venda, loja online).
Boas práticas no uso do sistema
- Registar todos os movimentos em tempo real, sem deixar acumular para "mais tarde".
- Usar códigos de barras ou QR para reduzir erros de introdução manual de dados.
- Definir acessos por perfil, para que nem todos possam alterar stocks livremente.
- Fazer auditorias periódicas entre o que o sistema diz e o que a contagem física confirma.
- Manter cópias de segurança dos dados do sistema.
Um sistema alimentado com dados atrasados ou errados devolve indicadores errados, e leva a decisões de aprovisionamento erradas: um ponto de encomenda calculado sobre um consumo médio diário desatualizado dispara a encomenda tarde ou cedo demais.
13. Segurança, qualidade e ambiente no armazém
Segurança e saúde no trabalho
O armazém tem riscos próprios: quedas de altura, esmagamento por queda de cargas, acidentes com equipamentos de movimentação.
- EPI (Equipamento de Proteção Individual): calçado de biqueira de aço, luvas, colete de alta visibilidade, capacete quando aplicável.
- Procedimentos: empilhamento dentro dos limites de segurança, corredores desimpedidos, sinalização de zonas de risco.
- Formação obrigatória para quem opera equipamentos de movimentação (empilhador, porta-paletes).
Controlo da qualidade e normas ambientais
- Controlo da qualidade no aprovisionamento: verificar, na receção, se cada lote está em conformidade com as especificações contratadas ao fornecedor.
- Normas da qualidade (por exemplo, a família ISO 9001): procedimentos documentados e repetíveis, que reduzem a variabilidade e o erro humano.
- Proteção ambiental: gestão de embalagens e resíduos, separação para reciclagem, eficiência energética das instalações (iluminação, climatização de câmaras frias).
Cumprir estas normas é uma atitude avaliada nesta UC, e não um extra desligado da operação diária: qualidade na receção significa menos devoluções e reclamações mais à frente na cadeia.
Erros comuns
- Misturar rotação em valor com rotação em quantidade no mesmo raciocínio, sem perceber que só coincidem quando o preço de custo é constante.
- Dividir o custo das vendas pelo stock final (em vez do stock médio) para calcular a rotação.
- Confundir o ponto de encomenda (um nível de stock) com uma data fixa no calendário.
- Usar a QEE inteira (em vez de QEE/2) no cálculo do custo de posse anual.
- Trocar Cε com Ca na fórmula de Wilson.
- Aplicar o LIFO na contabilidade oficial de uma empresa portuguesa, quando o SNC não o permite.
- Inventariar todos os produtos com a mesma frequência, ignorando a classe ABC e a cobertura de cada um.
- Arrumar mercadoria antes de a conferir por completo na receção.
Glossário
- Aprovisionamento · função de planear, encomendar, receber e controlar o stock necessário à atividade da empresa.
- Logística · conjunto de atividades que planeia, executa e controla o fluxo físico de bens até ao cliente final.
- Cadeia de abastecimento · rede de todos os intervenientes envolvidos na satisfação do pedido de um cliente.
- Rotação de stocks · número de vezes que o stock médio é vendido e reposto num período.
- Cobertura de stocks · número de dias de vendas que o stock médio garante.
- Ponto de encomenda (ROP) · nível de stock que desencadeia uma nova encomenda.
- Stock de segurança · reserva extra que protege contra variações de consumo ou de prazo de entrega.
- QEE (quantidade económica de encomenda) · quantidade a encomendar que minimiza o custo total de encomenda mais posse, dada pelo modelo de Wilson.
- FIFO · método de valorização que faz sair primeiro o lote mais antigo (First In, First Out).
- LIFO · método de valorização que faz sair primeiro o lote mais recente (Last In, First Out); não aceite fiscalmente em Portugal.
- Custo médio ponderado (CMP) · método que valoriza todas as saídas ao custo médio do stock disponível.
- Análise ABC · classificação dos produtos pelo peso no valor total consumido, em classes A, B e C.
- Inventário permanente · atualização contínua do stock a cada movimento registado no sistema.
- Inventário periódico · contagem física completa numa data fixa.
- Quebra · diferença entre o stock contado fisicamente e o stock registado no sistema.
- EPI · Equipamento de Proteção Individual, usado na movimentação e armazenagem de mercadorias.
Síntese
O aprovisionamento equilibra dois riscos opostos: a rutura, que perde vendas, e o excesso de stock, que imobiliza capital. Esse equilíbrio mede-se com indicadores concretos: rotação e cobertura (velocidade do stock), ponto de encomenda e stock de segurança (quando encomendar, com que margem), e a QEE de Wilson (quanto encomendar de cada vez, ao menor custo total). O valor do que entra e sai do armazém calcula-se por FIFO, custo médio ponderado ou, só como exercício teórico, LIFO (não aceite fiscalmente em Portugal). A análise ABC prioriza o esforço de controlo pelos produtos que mais pesam no valor, e a inventariação por produto, por valor e por dias transforma essa prioridade em prática de contagem física. Por trás de tudo isto estão documentos que dão rastreabilidade à operação, procedimentos de armazenagem que a tornam eficiente, e normas de segurança, qualidade e ambiente que a tornam responsável.
Exercícios resolvidos
1. Uma empresa tem um custo das vendas anual de 60.000 € e um stock médio de 10.000 €. Calcula a rotação e a cobertura em dias.
Resolução: Rotação = 60.000 / 10.000 = 6 vezes/ano. Cobertura = 365 / 6 = 60,8 dias. Verificação: consumo médio diário = 60.000/365 = 164,4 €/dia; cobertura = 10.000/164,4 = 60,8 dias ✓.
2. Um produto tem consumo médio diário de 50 unidades, consumo máximo diário de 70 unidades e um prazo de entrega de 3 dias. Calcula o stock de segurança e o ponto de encomenda.
Resolução: Stock de segurança = (70 − 50) × 3 = 20 × 3 = 60 unidades. Ponto de encomenda = (50 × 3) + 60 = 150 + 60 = 210 unidades.
3. A procura anual de um artigo é de 9.000 unidades, o custo por encomenda é de 30 € e o custo de posse é de 3 €/unidade/ano. Calcula a QEE e o número de encomendas por ano.
Resolução: QEE = √((2 × 9.000 × 30) / 3) = √(540.000 / 3) = √180.000 ≈ 424,3 unidades. Nº de encomendas = 9.000 / 424,3 ≈ 21,2 ≈ 21 encomendas/ano. Verificação: custo de encomenda anual ≈ 21,2 × 30 = 636 €; custo de posse anual ≈ (424,3/2) × 3 = 636,5 €. Os valores coincidem, confirmando o cálculo.
4. Um armazém tem, no início do mês, 80 unidades a 10,00 €/un e recebe uma compra de 120 unidades a 11,00 €/un. Saem 150 unidades para venda. Calcula o custo da saída e o stock final por FIFO e por custo médio ponderado.
Resolução · FIFO: saem primeiro as 80 un a 10,00 € = 800 €, depois 70 un a 11,00 € = 770 €; custo da saída = 800 + 770 = 1.570 €. Stock final = 200 − 150 = 50 un, todas da compra mais recente: 50 × 11,00 € = 550 €. Verificação: 1.570 + 550 = 2.120 €, igual ao total disponível (80×10 + 120×11 = 800+1.320 = 2.120 €) ✓.
Resolução · custo médio ponderado: custo médio = 2.120 / 200 = 10,60 €/un. Custo da saída = 150 × 10,60 = 1.590 €. Stock final = 50 × 10,60 = 530 €. Verificação: 1.590 + 530 = 2.120 € ✓.
5. Classifica em ABC os seguintes produtos pelo valor anual consumido: X = 6.000 €, Y = 2.500 €, Z = 1.000 €, W = 500 €. Usa a regra do capítulo 8: classe A até a acumulada atingir ou ultrapassar pela primeira vez 80%, classe B até ultrapassar 95%, classe C o restante.
Resolução: Total = 6.000+2.500+1.000+500 = 10.000 €. Ordenando por valor decrescente e acumulando: X = 60% (cum. 60%), Y = 25% (cum. 85%), Z = 10% (cum. 95%), W = 5% (cum. 100%). Classes (regra: A até a acumulada atingir/ultrapassar 80% pela primeira vez, B até ultrapassar 95%): X e Y são classe A (a acumulada só ultrapassa os 80% em Y, com 85%, por isso X e Y entram os dois na classe A); Z é classe B (cum. 95%, ainda não ultrapassa os 95%); W é classe C (cum. 100%, ultrapassa os 95%).