Sebenta · Analisar os principais mapas financeiros da empresa (UC02695)
- Introdução
- 1. Documentos contabilísticos e o Sistema de Normalização Contabilística (SNC)
- 2. O balanço: conceito, estrutura e balanço de gestão
- 3. Balanços sucessivos: comparar para analisar
- 4. Fundo de maneio e equilíbrio financeiro
- 5. Rácios de liquidez, solvabilidade e autonomia financeira
- 6. A demonstração de resultados por naturezas e os saldos intermédios de gestão
- 7. Cash-flow, autofinanciamento e análise económica
- 8. Rendibilidade e a árvore de rendibilidade do capital próprio
- 9. Orçamentos: sequência orçamental e análise de desvios
- 10. A demonstração dos fluxos de caixa
- 11. O relatório económico-financeiro e as normas de segurança, saúde e qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Um técnico de comércio que só sabe vender não chega para gerir. As decisões diárias, negociar um prazo de pagamento a um fornecedor, aceitar um desconto de um cliente, propor um investimento numa nova loja, dependem de ler corretamente os mapas financeiros da empresa: o balanço, a demonstração de resultados e a demonstração dos fluxos de caixa.
Esta sebenta ensina a fazer exatamente isso: reconhecer os documentos contabilísticos, interpretá-los com o Sistema de Normalização Contabilística (SNC) português, calcular os rácios económico-financeiros que resumem a saúde da empresa (liquidez, solvabilidade, autonomia financeira, rendibilidade), analisar saldos intermédios de gestão, ligar tudo isto ao orçamento e, por fim, redigir o relatório económico-financeiro que apresenta estas conclusões a quem decide.
O percurso segue sempre o mesmo método: números reais, contas verificadas ao cêntimo, e uma conclusão que os números sustentam, nunca o contrário. Todos os exemplos desta sebenta usam a Comercial Vidigal, Lda., uma empresa grossista de papelaria e material de escritório, com o balanço e a demonstração de resultados de dois anos consecutivos (Ano N-1 e Ano N), para que se veja a análise comparativa a funcionar do princípio ao fim.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar os indicadores e rácios económico-financeiros da empresa e participar na elaboração do seu relatório económico-financeiro, com base nos documentos contabilísticos, no balanço, na demonstração de resultados, na demonstração dos fluxos de caixa e nos rácios.
1. Documentos contabilísticos e o Sistema de Normalização Contabilística (SNC)
Em Portugal, as contas das empresas seguem o Sistema de Normalização Contabilística (SNC), o conjunto de normas que define como se regista, classifica e apresenta a informação financeira. O SNC garante que qualquer empresa portuguesa produz documentos comparáveis entre si e com empresas de outros países que seguem as normas internacionais (IFRS/IAS), das quais o SNC deriva.
Os três documentos contabilísticos que qualquer técnico tem de reconhecer e saber interpretar são:
| Documento | O que mostra | Pergunta a que responde |
|---|---|---|
| Balanço | o que a empresa tem e o que deve, numa data | "Qual é a situação patrimonial da empresa hoje?" |
| Demonstração de resultados | o que a empresa ganhou e gastou, num período | "A empresa deu lucro ou prejuízo, e porquê?" |
| Demonstração dos fluxos de caixa (DFC) | de onde veio e para onde foi o dinheiro | "Porque é que o saldo de caixa mudou?" |
Uma empresa pode ter lucro na demonstração de resultados e mesmo assim ficar sem dinheiro em caixa, porque o lucro contabilístico e o dinheiro que efetivamente entra e sai não são a mesma coisa (um cliente pode dever, um fornecedor pode esperar). É por isso que os três documentos têm de ser lidos em conjunto, nunca isoladamente.
Manter os programas informáticos de regularização contabilística atualizados é um critério de desempenho desta UC: sem lançamentos ao dia, qualquer rácio calculado hoje reflete uma realidade que já não existe.
2. O balanço: conceito, estrutura e balanço de gestão
O balanço é a fotografia da empresa numa data: o que ela tem (ativo) e como isso foi financiado (capital próprio e passivo). A equação fundamental da contabilidade, que nunca falha, é:
ATIVO = CAPITAL PRÓPRIO + PASSIVO
Se esta igualdade não bater certo, há um erro de lançamento. É a primeira verificação que se faz a qualquer balanço, antes de calcular fosse o que fosse.
Estrutura do balanço em massas patrimoniais
| Massa | Conteúdo típico |
|---|---|
| Ativo não corrente | ativos fixos tangíveis (edifícios, equipamento), ativos intangíveis, investimentos financeiros; permanecem na empresa mais de um ano |
| Ativo corrente | inventários (mercadorias), clientes, Estado e outros entes públicos, caixa e depósitos bancários; realizam-se ou consomem-se num ciclo até um ano |
| Capital próprio | capital social, reservas, resultados transitados, resultado líquido do período; o financiamento dos sócios |
| Passivo não corrente | financiamentos obtidos a médio e longo prazo (empréstimos bancários) |
| Passivo corrente | fornecedores, financiamentos obtidos a curto prazo, Estado e outros entes públicos, outras contas a pagar; obrigações a liquidar até um ano |
O balanço de gestão e a sua representação gráfica
O balanço de gestão reorganiza o balanço contabilístico (o que sai do SNC) numa forma mais útil para a análise: agrupa as massas por grau de liquidez (do mais líquido ao menos líquido, no ativo) e por grau de exigibilidade (do mais exigível ao menos exigível, no capital próprio e passivo). Representa-se graficamente como duas colunas em espelho:
ATIVO CAPITAL PRÓPRIO + PASSIVO
┌────────────────────┐ ┌────────────────────┐
│ Ativo não corrente │ │ Capital próprio │
├────────────────────┤ ├────────────────────┤
│ │ │ Passivo não corrente│
│ Ativo corrente │ ├────────────────────┤
│ │ │ Passivo corrente │
└────────────────────┘ └────────────────────┘
Esta representação gráfica é o primeiro passo da preparação do balanço para análise: antes de calcular um único rácio, o analista olha para as proporções relativas de cada massa e forma uma primeira impressão da estrutura financeira da empresa.
Balanço social não é o mesmo que balanço financeiro. O balanço social é um relatório sobre o emprego e as condições de trabalho na empresa (efetivos, formação, absentismo, remunerações), obrigatório em Portugal para empresas com 100 ou mais trabalhadores. Aparece no mesmo capítulo do referencial porque também é um "balanço de gestão", mas não entra nos cálculos financeiros desta UC.
3. Balanços sucessivos: comparar para analisar
Um único balanço diz pouco: uma liquidez de 1,8 é boa ou má? Só se sabe comparando com balanços sucessivos (o mesmo ano anterior) ou com empresas do mesmo setor. Os métodos de comparação são três, e usam-se em conjunto:
- Valores absolutos: a diferença em euros entre dois anos (
Ano N − Ano N-1). - Percentagens: a variação relativa (
(Ano N − Ano N-1) / Ano N-1), que permite comparar rubricas de grandezas diferentes. - Números-índice e gráficos: fixar o Ano N-1 como base 100 e expressar o Ano N em relação a essa base; um gráfico de barras ou de linhas torna a evolução visível de imediato.
Exemplo resolvido: o balanço da Comercial Vidigal, Lda.
A Comercial Vidigal, Lda. é uma empresa grossista de papelaria e material de escritório. Este é o seu balanço para dois anos consecutivos, em euros:
| Rubrica | Ano N-1 | Ano N | Variação (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|---|
| ATIVO NÃO CORRENTE | ||||
| Ativos fixos tangíveis | 180 000 | 210 000 | +30 000 | +16,7% |
| Ativos intangíveis | 10 000 | 8 000 | -2 000 | -20,0% |
| Total ANC | 190 000 | 218 000 | +28 000 | +14,7% |
| ATIVO CORRENTE | ||||
| Inventários | 95 000 | 110 000 | +15 000 | +15,8% |
| Clientes | 120 000 | 140 000 | +20 000 | +16,7% |
| Estado e outros entes públicos | 5 000 | 6 000 | +1 000 | +20,0% |
| Caixa e depósitos bancários | 40 000 | 17 000 | -23 000 | -57,5% |
| Total AC | 260 000 | 273 000 | +13 000 | +5,0% |
| TOTAL ATIVO | 450 000 | 491 000 | +41 000 | +9,1% |
| CAPITAL PRÓPRIO | ||||
| Capital social | 150 000 | 150 000 | 0 | 0,0% |
| Reservas | 30 000 | 37 000 | +7 000 | +23,3% |
| Resultados transitados | 20 000 | 28 000 | +8 000 | +40,0% |
| Resultado líquido do período | 25 000 | 38 000 | +13 000 | +52,0% |
| Total Capital Próprio | 225 000 | 253 000 | +28 000 | +12,4% |
| PASSIVO NÃO CORRENTE | ||||
| Financiamentos obtidos | 100 000 | 90 000 | -10 000 | -10,0% |
| PASSIVO CORRENTE | ||||
| Fornecedores | 90 000 | 105 000 | +15 000 | +16,7% |
| Financiamentos obtidos | 20 000 | 25 000 | +5 000 | +25,0% |
| Estado e outros entes públicos | 10 000 | 12 000 | +2 000 | +20,0% |
| Outras contas a pagar | 5 000 | 6 000 | +1 000 | +20,0% |
| Total Passivo Corrente | 125 000 | 148 000 | +23 000 | +18,4% |
| TOTAL CAPITAL PRÓPRIO + PASSIVO | 450 000 | 491 000 | +41 000 | +9,1% |
Verificação obrigatória: em ambos os anos, Total Ativo = Total Capital Próprio + Passivo (450 000 = 450 000 no Ano N-1; 491 000 = 491 000 no Ano N). O balanço equilibra nos dois anos, condição sem a qual nenhuma análise seguinte faz sentido.
Leitura em valores absolutos e percentagens: o ativo cresceu 41 000 € (+9,1%), sustentado sobretudo por mais inventários e mais clientes, isto é, a empresa vendeu mais mas também ficou a dever-lhe mais e com mais mercadoria parada. A caixa caiu 23 000 € (-57,5%), o sinal mais forte deste balanço, e será explicado no capítulo da demonstração dos fluxos de caixa. Do lado do financiamento, o capital próprio cresceu 28 000 € por via do resultado do exercício, enquanto o financiamento bancário de médio-longo prazo desceu 10 000 € (a empresa amortizou dívida).
4. Fundo de maneio e equilíbrio financeiro
O fundo de maneio líquido (FM) é o indicador central do equilíbrio financeiro a curto prazo. Calcula-se de duas formas, matematicamente equivalentes:
FM = Ativo corrente − Passivo corrente
FM = Capitais permanentes − Ativo não corrente (capitais permanentes = capital próprio + passivo não corrente)
A regra de interpretação, o equilíbrio financeiro mínimo, é esta:
- FM > 0: o equilíbrio financeiro a curto prazo está cumprido. Parte do ativo corrente é financiada por capitais permanentes (capital próprio e dívida de médio-longo prazo), o que dá à empresa uma margem de segurança para atrasos de cobrança ou quebras de vendas.
- FM ≤ 0: desequilíbrio. O ativo não corrente está a ser financiado, no todo ou em parte, por dívida de curto prazo, uma situação frágil porque essa dívida vence antes de o investimento gerar retorno.
Exemplo resolvido
Para a Comercial Vidigal, Lda.:
Ano N-1: FM = 260 000 − 125 000 = 135 000 €
FM = (225 000 + 100 000) − 190 000 = 325 000 − 190 000 = 135 000 €
Ano N: FM = 273 000 − 148 000 = 125 000 €
FM = (253 000 + 90 000) − 218 000 = 343 000 − 218 000 = 125 000 €
As duas fórmulas dão sempre o mesmo valor, porque partem da mesma equação do balanço. Nos dois anos o fundo de maneio é positivo: o equilíbrio financeiro a curto prazo está garantido. A ligeira descida de 135 000 € para 125 000 € (-10 000 €, -7,4%) acompanha o reembolso de financiamento de médio-longo prazo (-10 000 €) e merece atenção no relatório, sem ser motivo de alarme por si só.
Equilíbrio financeiro a médio e longo prazo
O FM olha ao curto prazo. O equilíbrio a médio e longo prazo verifica-se com um indicador próprio, que compara o financiamento estável com o investimento que ele tem de cobrir:
Cobertura do ativo não corrente = Capitais permanentes / Ativo não corrente
- ≥ 1: o equilíbrio financeiro mínimo a médio e longo prazo está cumprido. Os capitais permanentes (capital próprio e dívida de médio-longo prazo) cobrem todo o ativo não corrente.
- < 1: parte do ativo não corrente está a ser financiada por dívida de curto prazo, a mesma situação frágil já descrita para o FM negativo.
Exemplo resolvido
Para a Comercial Vidigal, Lda., reaproveitando os capitais permanentes já calculados no FM:
Ano N-1: Cobertura = 325 000 / 190 000 = 1,71
Ano N: Cobertura = 343 000 / 218 000 = 1,57
Acima de 1 nos dois anos: o equilíbrio financeiro a médio e longo prazo está garantido, com a folga a diminuir ligeiramente (1,71 → 1,57), coerente com o mesmo reembolso de financiamento que já explicava a descida do FM. Só com este indicador calculado é que a conclusão "a empresa mantém o equilíbrio financeiro a curto e a médio-longo prazo", usada mais à frente no capítulo 5, fica sustentada por um número.
Se o passivo não corrente descer ano após ano sem ser substituído por capital próprio equivalente, a cobertura do ativo não corrente aproxima-se de 1 e a capacidade de financiar novos investimentos com dívida bancária esgota-se. Este ponto liga-se diretamente à autonomia financeira e à solvabilidade, no capítulo seguinte.
5. Rácios de liquidez, solvabilidade e autonomia financeira
Um rácio é uma razão entre duas rubricas que resume uma dimensão da saúde financeira. Nesta UC usam-se cinco rácios; a maioria tem uma regra de interpretação fixa que se aplica sempre da mesma forma, exceto a liquidez imediata, que não tem um valor de referência fixo e se lê pela tendência.
Liquidez: capacidade de pagar as dívidas de curto prazo
| Rácio | Fórmula | Regra de interpretação |
|---|---|---|
| Liquidez geral | Ativo corrente / Passivo corrente | < 1: risco; 1 a 1,5: apertada; ≥ 1,5: confortável |
| Liquidez reduzida | (Ativo corrente − Inventários) / Passivo corrente | < 1: depende de vender inventários; ≥ 1: paga sem vender inventários |
| Liquidez imediata | Caixa e depósitos bancários / Passivo corrente | sem valor de referência fixo; lê-se a tendência e a cobertura imediata |
Autonomia financeira e solvabilidade: quem financia a empresa
| Rácio | Fórmula | Regra de interpretação |
|---|---|---|
| Autonomia financeira | Capital próprio / Ativo total | < 33%: dependência elevada de capitais alheios; 33% a <50%: equilíbrio razoável; ≥ 50%: autonomia sólida |
| Solvabilidade | Capital próprio / Passivo total | < 1: capital próprio inferior ao passivo, risco elevado para credores; ≥ 1: posição sólida |
Exemplo resolvido: os cinco rácios da Comercial Vidigal, Lda.
LIQUIDEZ GERAL
Ano N-1: 260 000 / 125 000 = 2,08
Ano N: 273 000 / 148 000 = 1,84
LIQUIDEZ REDUZIDA
Ano N-1: (260 000 − 95 000) / 125 000 = 165 000 / 125 000 = 1,32
Ano N: (273 000 − 110 000) / 148 000 = 163 000 / 148 000 = 1,10
LIQUIDEZ IMEDIATA
Ano N-1: 40 000 / 125 000 = 0,32
Ano N: 17 000 / 148 000 = 0,11
AUTONOMIA FINANCEIRA
Ano N-1: 225 000 / 450 000 = 50,0%
Ano N: 253 000 / 491 000 = 51,5%
SOLVABILIDADE (Passivo total = Passivo não corrente + Passivo corrente)
Ano N-1: 225 000 / (100 000 + 125 000) = 225 000 / 225 000 = 1,00
Ano N: 253 000 / (90 000 + 148 000) = 253 000 / 238 000 = 1,06
Leitura: a liquidez geral mantém-se confortável nos dois anos (≥ 1,5), mas desceu de 2,08 para 1,84; a liquidez reduzida também desceu de 1,32 para 1,10, continuando ≥ 1 (a empresa paga o passivo corrente sem ter de vender inventários, mas com menos margem). A queda mais acentuada é a da liquidez imediata (de 0,32 para 0,11), reflexo direto da quebra de caixa já identificada no balanço, o dado que mais preocupação deve merecer no relatório. Do lado do financiamento, a autonomia financeira e a solvabilidade melhoraram ligeiramente (50,0% → 51,5% e 1,00 → 1,06), mantendo-se ambas na zona sólida (≥ 50% e ≥ 1, respetivamente): a empresa financia-se cada vez mais com capitais próprios, não com dívida.
Conclusão do exemplo: a Comercial Vidigal, Lda. mantém o equilíbrio financeiro a curto e a médio-longo prazo, mas a queda da liquidez imediata é um sinal a vigiar e a explicar no relatório, cruzando-o com a demonstração dos fluxos de caixa do capítulo 10.
6. A demonstração de resultados por naturezas e os saldos intermédios de gestão
A demonstração de resultados por naturezas organiza os rendimentos e os gastos do período pela sua natureza económica (vendas, custo das mercadorias, fornecimentos e serviços externos, gastos com pessoal), não pela função a que se destinam. É o modelo mais usado pelas pequenas e médias empresas portuguesas.
À medida que se desce na demonstração, calculam-se os saldos intermédios de gestão (SIG), resultados parciais que isolam cada camada da atividade:
| Saldo intermédio | Cálculo | O que mede |
|---|---|---|
| Margem bruta | Vendas e serviços prestados − CMVMC | o ganho direto na venda da mercadoria, antes de qualquer estrutura |
| EBITDA | Margem bruta + outros rendimentos − FSE − Gastos com pessoal − outros gastos | o resultado gerado pela atividade, antes de depreciações, juros e impostos |
| EBIT (resultado operacional) | EBITDA − Gastos de depreciação e amortização | o resultado do negócio em si, já refletindo o desgaste dos ativos |
| RAI (resultado antes de impostos) | EBIT + Juros e rendimentos obtidos − Juros e gastos suportados | o resultado depois de pagar o financiamento |
| Resultado líquido do período | RAI − Imposto sobre o rendimento (IRC) | o que sobra para os sócios |
CMVMC significa Custo das Mercadorias Vendidas e das Matérias Consumidas; FSE significa Fornecimentos e Serviços Externos (rendas, eletricidade, comunicações, seguros, entre outros gastos correntes que não são pessoal nem mercadoria).
Exemplo resolvido: a demonstração de resultados da Comercial Vidigal, Lda.
| Rubrica | Ano N-1 | Ano N |
|---|---|---|
| Vendas e serviços prestados | 820 000 | 900 000 |
| CMVMC | -580 000 | -630 000 |
| = Margem bruta | 240 000 | 270 000 |
| Fornecimentos e serviços externos | -88 000 | -95 000 |
| Gastos com pessoal | -100 000 | -110 000 |
| Outros rendimentos e ganhos | 4 000 | 8 000 |
| Outros gastos e perdas | -3 000 | -5 000 |
| = EBITDA | 53 000 | 68 000 |
| Gastos de depreciação e amortização | -16 000 | -20 000 |
| = EBIT (resultado operacional) | 37 000 | 48 000 |
| Juros e rendimentos similares obtidos | 500 | 1 000 |
| Juros e gastos similares suportados | -5 500 | -6 000 |
| = Resultado antes de impostos (RAI) | 32 000 | 43 000 |
| Imposto sobre o rendimento do período | -7 000 | -5 000 |
| = Resultado líquido do período | 25 000 | 38 000 |
Verificação: o resultado líquido do Ano N (38 000 €) é exatamente o valor que consta do capital próprio no balanço do capítulo 3. As duas demonstrações têm de bater certo; se não baterem, há um erro num dos dois documentos.
Margem bruta em percentagem das vendas: 240 000 / 820 000 = 29,3% no Ano N-1; 270 000 / 900 000 = 30,0% no Ano N. A margem melhorou 0,7 pontos percentuais, sinal de que a empresa conseguiu vender com uma margem ligeiramente melhor, ou negociar melhores condições de compra.
O IRC apresentado (7 000 € no Ano N-1 e 5 000 € no Ano N) é um valor ilustrativo, escolhido para manter os cálculos redondos, e não resulta da aplicação direta da taxa de IRC português (21%, com taxa reduzida de 17% até 25 000 € de matéria coletável para PME) sobre o RAI. A diferença explica-se por fatores concretos, como a dedução de prejuízos fiscais reportáveis de anos anteriores ou benefícios fiscais ao investimento, que estão fora do âmbito desta UC. O que importa reter aqui é o método de cálculo do resultado líquido (RAI menos IRC), não a taxa efetiva de imposto.
7. Cash-flow, autofinanciamento e análise económica
Cash-flow e autofinanciamento
O cash-flow (fluxo de caixa gerado pela atividade, na sua forma mais simples) soma ao resultado líquido os gastos que não representam saída de dinheiro nesse período, sobretudo as depreciações e amortizações:
Cash-flow = Resultado líquido do período + Depreciações e amortizações
O autofinanciamento é a parte desse cash-flow que fica retida na empresa, depois de distribuídos os dividendos aos sócios:
Autofinanciamento = Cash-flow − Dividendos distribuídos
Exemplo resolvido
Para a Comercial Vidigal, Lda., no Ano N: o resultado líquido foi 38 000 € e as depreciações e amortizações do exercício totalizaram 20 000 €.
Cash-flow = 38 000 + 20 000 = 58 000 €
Sabendo que a empresa distribuiu 10 000 € de dividendos aos sócios (o valor exato que explica o aumento de reservas e resultados transitados no capítulo 3: do lucro de 25 000 € do Ano N-1, retiveram-se 15 000 € e distribuíram-se 10 000 €):
Autofinanciamento = 58 000 − 10 000 = 48 000 €
Dos 38 000 € de lucro do Ano N, a empresa gerou 58 000 € de meios financeiros líquidos, dos quais reteve 48 000 € para reinvestir ou reforçar a tesouraria.
Análise económica: custos operacionais variáveis e custos fixos
Para além dos saldos intermédios, a análise económica separa os gastos pelo seu comportamento face às vendas:
- Custos variáveis: variam com o volume de vendas. O CMVMC é o exemplo clássico numa empresa comercial: vender mais mercadoria implica comprar mais mercadoria.
- Custos fixos: mantêm-se estáveis independentemente do volume vendido, dentro de certos limites. Os gastos com pessoal administrativo e as rendas são exemplos típicos.
- Custos mistos ou semivariáveis: têm uma parte fixa e uma parte variável. Os FSE são o caso mais comum numa empresa de comércio: a renda do armazém é fixa, mas o transporte de mercadoria ou as comissões de venda variam com a atividade.
Esta separação é a base do cálculo do ponto crítico das vendas (o volume de vendas a partir do qual a margem cobre os custos fixos), que se aprofunda noutras UCs de gestão, mas que o técnico de comércio precisa de reconhecer para interpretar corretamente um relatório económico-financeiro.
8. Rendibilidade e a árvore de rendibilidade do capital próprio
A rendibilidade mede o retorno gerado em relação a uma base de referência (vendas, ativo ou capital próprio). Ao contrário da liquidez e da solvabilidade, não tem um valor de referência universal: compara-se com anos anteriores e com o setor.
| Rácio | Fórmula | Mede |
|---|---|---|
| Rendibilidade líquida das vendas | Resultado líquido / Vendas | quantos cêntimos de lucro ficam por cada euro vendido |
| Rendibilidade do ativo (ROA) | Resultado líquido / Ativo total | quão bem o ativo total é usado para gerar lucro |
| Rendibilidade do capital próprio (ROE) | Resultado líquido / Capital próprio | o retorno que os sócios obtêm sobre o que investiram |
Exemplo resolvido
RENDIBILIDADE LÍQUIDA DAS VENDAS
Ano N-1: 25 000 / 820 000 = 3,0%
Ano N: 38 000 / 900 000 = 4,2%
RENDIBILIDADE DO ATIVO (ROA)
Ano N-1: 25 000 / 450 000 = 5,6%
Ano N: 38 000 / 491 000 = 7,7%
RENDIBILIDADE DO CAPITAL PRÓPRIO (ROE)
Ano N-1: 25 000 / 225 000 = 11,1%
Ano N: 38 000 / 253 000 = 15,0%
Os três indicadores melhoraram do Ano N-1 para o Ano N.
A árvore da rendibilidade do capital próprio (decomposição DuPont)
O ROE resulta do produto de três fatores, cada um controlável por uma área diferente da empresa:
ROE = Rendibilidade das vendas × Rotação do ativo × Alavanca financeira
Onde a rotação do ativo é Vendas / Ativo total (quantas vezes o ativo "se renova" em vendas por ano) e a alavanca financeira é Ativo total / Capital próprio (quanto do ativo é financiado por terceiros, por cada euro de capital próprio).
Ano N-1: Rotação do ativo = 820 000 / 450 000 = 1,82
Alavanca financeira = 450 000 / 225 000 = 2,00
ROE = 3,0% × 1,82 × 2,00 = 11,1% (bate com o cálculo direto)
Ano N: Rotação do ativo = 900 000 / 491 000 = 1,83
Alavanca financeira = 491 000 / 253 000 = 1,94
ROE = 4,2% × 1,83 × 1,94 = 15,0% (bate com o cálculo direto)
Leitura da árvore: a melhoria do ROE (11,1% → 15,0%) veio sobretudo da rendibilidade das vendas (3,0% → 4,2%), já que a rotação do ativo se manteve praticamente estável (1,82 → 1,83) e a alavanca financeira até desceu ligeiramente (2,00 → 1,94, coerente com a maior autonomia financeira já identificada). A árvore de rendibilidade é o que permite dizer, no relatório, porque o ROE melhorou, não apenas que melhorou.
9. Orçamentos: sequência orçamental e análise de desvios
A sequência orçamental
Um orçamento é a tradução em números do plano da empresa para o período seguinte. A sequência habitual, numa empresa comercial, é:
Orçamento de vendas
↓
Orçamento de compras (função das vendas previstas e da política de stocks)
↓
Orçamento de gastos operacionais (FSE, pessoal)
↓
Orçamento de tesouraria (recebimentos e pagamentos previstos, mês a mês)
↓
Demonstrações financeiras previsionais
O orçamento de vendas é sempre o primeiro, porque condiciona todos os outros: sem uma previsão de vendas não há forma de estimar quanto comprar, quanto gastar em estrutura, nem quanto dinheiro vai entrar em caixa.
Análise de desvios
No fim do período, comparam-se os valores orçados com os reais, e calcula-se o desvio:
Desvio absoluto = Valor real − Valor orçado
Desvio percentual = Desvio absoluto / Valor orçado
A classificação do desvio como favorável ou desfavorável depende do tipo de rubrica:
- Em rendimentos (vendas): real acima do orçado é favorável.
- Em gastos (CMVMC, FSE, pessoal): real acima do orçado é desfavorável.
Exemplo resolvido
A Comercial Vidigal, Lda. tinha orçado para o Ano N vendas de 860 000 € e um CMVMC de 610 000 €. Os valores reais, do capítulo 6, foram 900 000 € e 630 000 €.
DESVIO DAS VENDAS
Desvio absoluto = 900 000 − 860 000 = +40 000 €
Desvio percentual = 40 000 / 860 000 = +4,7%
Classificação: FAVORÁVEL (rendimento acima do orçado)
DESVIO DO CMVMC
Desvio absoluto = 630 000 − 610 000 = +20 000 €
Desvio percentual = 20 000 / 610 000 = +3,3%
Classificação: DESFAVORÁVEL (gasto acima do orçado)
Leitura: a empresa vendeu mais do que planeado, o que por si só é uma boa notícia, mas o custo das mercadorias também subiu acima do previsto. Como a margem bruta em percentagem melhorou mesmo assim (capítulo 6), o desvio desfavorável do CMVMC não anulou o ganho das vendas extra; ficou apenas registado para corrigir a previsão de compras do próximo orçamento.
10. A demonstração dos fluxos de caixa
A demonstração dos fluxos de caixa (DFC) explica a variação da caixa entre dois balanços, algo que nem o balanço nem a demonstração de resultados mostram sozinhos. Organiza-se em três atividades:
| Atividade | Contém |
|---|---|
| Operacionais | recebimentos e pagamentos da atividade corrente da empresa |
| Investimento | aquisição e alienação de ativos fixos tangíveis e intangíveis |
| Financiamento | novos financiamentos obtidos, reembolsos de empréstimos, dividendos pagos |
O modelo oficial da DFC no SNC é o método direto (NCRF 2, conforme o modelo de demonstração dos fluxos de caixa da Portaria n.º 986/2009, atualizada pela Portaria n.º 220/2015): nas atividades operacionais, discrimina-se cada recebimento e pagamento por categoria, com rubricas como "Recebimentos de clientes", "Pagamentos a fornecedores" e "Pagamentos ao pessoal". O método indireto, que parte do resultado líquido e o ajusta pelas variações de inventários, clientes e fornecedores, não é o modelo do SNC: é uma reconciliação usada como ferramenta de análise, muito útil porque liga diretamente o balanço, a demonstração de resultados e a caixa, mas não substitui o modelo direto na demonstração que a empresa apresenta.
Exemplo resolvido: a DFC da Comercial Vidigal, Lda. (Ano N, modelo direto do SNC)
A caixa desceu de 40 000 € para 17 000 € entre os dois anos, uma variação de -23 000 €. No modelo direto do SNC, as atividades operacionais discriminam-se assim:
ATIVIDADES OPERACIONAIS
Recebimentos de clientes (900 000 vendas − 20 000 aumento de clientes) 880 000
Pagamentos a fornecedores (645 000 compras − 15 000 aumento de dívida) -630 000
Pagamentos ao pessoal -110 000
Pagamentos de fornecimentos e serviços externos (FSE) -95 000
Outros recebimentos/pagamentos relativos à exploração (Estado, outras
contas a pagar, outros rendimentos e gastos, líquido) 5 000
= CAIXA GERADA PELAS OPERAÇÕES 50 000
Juros pagos (líquido de juros recebidos) -5 000
Pagamento de Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas (IRC) -5 000
= FLUXO DAS ATIVIDADES OPERACIONAIS 40 000
ATIVIDADES DE INVESTIMENTO
Aquisição de ativos fixos tangíveis -48 000
= FLUXO DAS ATIVIDADES DE INVESTIMENTO -48 000
ATIVIDADES DE FINANCIAMENTO
Reembolso de financiamentos obtidos (médio-longo prazo) -10 000
Novos financiamentos obtidos (curto prazo) 5 000
Dividendos pagos -10 000
= FLUXO DAS ATIVIDADES DE FINANCIAMENTO -15 000
VARIAÇÃO DE CAIXA E EQUIVALENTES = 40 000 − 48 000 − 15 000 = -23 000
Caixa no início do período: 40 000
Caixa no fim do período: 40 000 − 23 000 = 17 000 ✓ bate com o balanço
Um pormenor de rigor: a aquisição de ativos fixos tangíveis (-48 000 €) não é a mesma coisa que o aumento do valor líquido no balanço (+30 000 €, de 180 000 € para 210 000 €). A diferença é exatamente a depreciação do exercício sobre esses ativos (18 000 €, dos 20 000 € totais de depreciações e amortizações, sendo os restantes 2 000 € amortização dos ativos intangíveis): compra = aumento líquido no balanço + depreciação do período, ou seja, 30 000 + 18 000 = 48 000 €.
Leitura para o relatório: a queda de caixa não é um sinal de alarme, é o resultado esperado de três decisões: investir 48 000 € em ativos fixos, reembolsar 10 000 € de dívida e distribuir 10 000 € de dividendos, tudo isto apesar de a atividade operacional ter gerado 40 000 € de caixa própria. É exatamente este tipo de explicação, não visível no balanço nem na demonstração de resultados isoladamente, que a DFC torna possível e que um relatório económico-financeiro tem de comunicar.
A reconciliação indireta como ferramenta de análise
Embora não seja o modelo do SNC, a reconciliação pelo método indireto continua a ser útil na análise, porque parte diretamente do resultado líquido, um número que já está calculado na demonstração de resultados, e mostra como ele se transforma em caixa:
ATIVIDADES OPERACIONAIS (reconciliação indireta)
Resultado líquido do período 38 000
(+) Depreciações e amortizações 20 000
(-) Variação em inventários (110 000 − 95 000) -15 000
(-) Variação em clientes (140 000 − 120 000) -20 000
(-) Variação em Estado, outros entes (AC) (6 000-5 000) -1 000
(+) Variação em fornecedores (105 000 − 90 000) 15 000
(+) Variação em Estado, outros entes (PC) (12 000-10 000) 2 000
(+) Variação em outras contas a pagar (6 000 − 5 000) 1 000
= FLUXO DAS ATIVIDADES OPERACIONAIS 40 000
O total (40 000 €) é exatamente o mesmo do modelo direto: os dois métodos chegam sempre ao mesmo resultado, só mudam a forma de o mostrar. As atividades de investimento e de financiamento são idênticas nos dois métodos, só a secção operacional muda.
11. O relatório económico-financeiro e as normas de segurança, saúde e qualidade
Técnicas de redação do relatório
O relatório económico-financeiro é o produto final desta UC: reúne a análise dos capítulos anteriores num texto claro, dirigido a quem vai decidir (gerência, sócios, banco). Um bom relatório segue esta estrutura:
- Sumário executivo: as duas ou três conclusões mais importantes, em poucas linhas, para quem só tem tempo para ler isto.
- Contexto: período analisado, empresa, fonte dos dados (balanço, demonstração de resultados, DFC).
- Análise por bloco: estrutura patrimonial (balanço), equilíbrio financeiro (fundo de maneio, liquidez), rendibilidade, e explicação dos fluxos de caixa.
- Comparação com o orçamento: desvios relevantes e a sua causa provável.
- Conclusões e recomendações: o que fazer a seguir, com base nos números, nunca opiniões soltas.
Regras de redação a cumprir sempre:
- Cada afirmação apoia-se num número calculado antes no relatório; nunca se conclui algo que os números não sustentam.
- Usa-se linguagem técnica correta (rácio, não "indicador qualquer"; resultado líquido, não "lucro final"), mas sem jargão desnecessário.
- Tabelas e gráficos substituem parágrafos longos de números: o texto interpreta, a tabela mostra.
- Frases curtas, uma ideia por parágrafo, sem repetir o que a tabela já diz.
Excerto de um relatório correto: "O fundo de maneio manteve-se positivo nos dois anos (135 000 € e 125 000 €), pelo que o equilíbrio financeiro a curto prazo está garantido. A queda de 23 000 € na caixa explica-se, segundo a demonstração dos fluxos de caixa, pelo investimento em ativos fixos (48 000 €) e pelo reembolso de dívida e distribuição de dividendos (20 000 € no total), superando a caixa gerada pela atividade operacional (40 000 €)."
Normas de segurança e saúde no trabalho, e normas da qualidade
Estas duas normas transversais aplicam-se também ao trabalho do técnico que analisa mapas financeiros, ainda que o risco físico seja menor do que noutras funções:
- Segurança e saúde no trabalho: postura correta em posto de trabalho com ecrã, pausas regulares, iluminação adequada e organização do posto (cabos, arquivo) para evitar quedas e lesões. A confidencialidade dos dados financeiros também é uma questão de segurança da informação, não só física.
- Normas da qualidade: aplicação de um método de verificação sistemático (confirmar que o balanço equilibra, que a demonstração de resultados bate com o resultado do balanço, que os rácios foram recalculados e não copiados de um período anterior por engano), documentação clara das fontes dos dados, e revisão por um colega antes de entregar o relatório final.
O rigor e o respeito pelas normas e regras definidas são atitudes avaliadas nesta UC: um relatório económico-financeiro com um erro de cálculo não detetado é mais prejudicial do que a ausência de relatório, porque gera decisões erradas com aparência de fundamentação sólida.
Erros comuns
- Confundir resultado líquido com dinheiro em caixa. Uma empresa pode ter lucro elevado e caixa a descer, se o lucro foi para clientes por cobrar, inventário parado ou investimento. A DFC é o documento que separa as duas coisas.
- Calcular um rácio e não o comparar com nada. Um rácio isolado, sem o ano anterior ou sem uma referência, não permite concluir se está bom ou mau.
- Trocar liquidez geral por liquidez reduzida. A liquidez reduzida exclui os inventários porque estes são a parte menos líquida do ativo corrente; usar a fórmula errada muda a conclusão.
- Somar depreciações ao lucro sem perceber porquê. As depreciações são um gasto contabilístico, não uma saída de dinheiro; por isso se somam de volta no cash-flow e na demonstração dos fluxos de caixa.
- Confundir o valor líquido de um ativo no balanço com o valor da compra. A variação líquida no balanço já vem depois de deduzida a depreciação do período; para achar o investimento bruto, soma-se a depreciação de volta.
- Classificar um desvio pela direção do número, não pelo tipo de rubrica. Um aumento é favorável nas vendas mas desfavorável nos gastos; aplicar sempre a mesma regra às duas dá conclusões erradas.
- Escrever conclusões que os números não sustentam. Se o relatório afirma "a empresa está em risco de falência" mas os rácios de solvabilidade e autonomia financeira estão sólidos, a conclusão contradiz os próprios dados apresentados.
- Confundir o método indireto com o modelo do SNC. O modelo oficial da DFC no SNC é o método direto; o indireto é só uma reconciliação de análise, ainda que muito útil.
Glossário
- SNC · Sistema de Normalização Contabilística, o conjunto de normas contabilísticas português.
- Ativo · o que a empresa possui e controla, com expectativa de gerar benefícios futuros.
- Passivo · as obrigações da empresa perante terceiros.
- Capital próprio · o financiamento dos sócios, incluindo o resultado do período.
- Ativo não corrente · ativos que permanecem na empresa mais de um ano.
- Ativo corrente · ativos que se realizam ou consomem num ciclo até um ano.
- CMVMC · Custo das Mercadorias Vendidas e das Matérias Consumidas.
- FSE · Fornecimentos e Serviços Externos.
- Fundo de maneio (FM) · a margem de segurança financeira a curto prazo (Ativo corrente menos Passivo corrente).
- Cobertura do ativo não corrente · o indicador do equilíbrio financeiro a médio e longo prazo (Capitais permanentes sobre Ativo não corrente).
- Liquidez · capacidade de pagar as dívidas de curto prazo.
- Solvabilidade · capacidade de a empresa cobrir o passivo total com capital próprio.
- Autonomia financeira · a proporção do ativo financiada por capital próprio.
- Rendibilidade · o retorno gerado em relação a uma base (vendas, ativo, capital próprio).
- ROA · Return on Assets, rendibilidade do ativo.
- ROE · Return on Equity, rendibilidade do capital próprio.
- EBITDA · resultado antes de depreciações, juros e impostos.
- EBIT · resultado operacional, antes de juros e impostos.
- Cash-flow · resultado líquido mais depreciações e amortizações do período.
- Autofinanciamento · cash-flow depois de distribuídos os dividendos.
- DFC · Demonstração dos Fluxos de Caixa, no modelo direto (rubricas de recebimentos e pagamentos), que é o modelo do SNC.
- Método indireto · reconciliação que parte do resultado líquido para chegar à caixa; não é o modelo do SNC, é uma ferramenta de análise.
- Desvio orçamental · a diferença entre o valor real e o valor orçado.
Síntese
A análise dos mapas financeiros de uma empresa segue sempre a mesma sequência: verificar que o balanço equilibra, preparar o balanço para análise (massas patrimoniais, comparação sucessiva em valores absolutos e percentagens), calcular o fundo de maneio e os rácios de liquidez, solvabilidade e autonomia financeira, decompor a demonstração de resultados nos saldos intermédios de gestão, calcular a rendibilidade e a sua árvore (DuPont), explicar a variação de caixa com a demonstração dos fluxos de caixa, comparar o real com o orçamento e, por fim, redigir o relatório económico-financeiro com conclusões que os números sustentam. A maioria dos rácios tem uma regra de leitura fixa; aplicá-la sempre da mesma forma, ler pela tendência os que não têm (como a liquidez imediata), e nunca inventar uma conclusão que a tabela não mostra, é o que separa um relatório técnico de um conjunto de números soltos.
Exercícios resolvidos
1. O balanço da Papelaria Sardoal, Lda. tem Ativo não corrente de 80 000 €, inventários de 30 000 €, clientes de 25 000 € e caixa de 5 000 €. O capital próprio é de 90 000 € e o passivo não corrente é de 20 000 €. Calcula o passivo corrente e verifica se o balanço equilibra.
Resolução: Total Ativo = 80 000 + 30 000 + 25 000 + 5 000 = 140 000 €. Como Ativo = Capital Próprio + Passivo, e Capital Próprio + Passivo não corrente = 90 000 + 20 000 = 110 000 €, o passivo corrente é 140 000 − 110 000 = 30 000 €. Verificação: 140 000 = 90 000 + 20 000 + 30 000 = 140 000. O balanço equilibra.
2. Com os dados do exercício 1, calcula o fundo de maneio pelas duas fórmulas e confirma que dão o mesmo resultado.
Resolução: Ativo corrente = 30 000 + 25 000 + 5 000 = 60 000 €. FM = Ativo corrente − Passivo corrente = 60 000 − 30 000 = 30 000 €. Pela outra fórmula: Capitais permanentes = 90 000 + 20 000 = 110 000 €; FM = 110 000 − 80 000 (Ativo não corrente) = 30 000 €. As duas fórmulas confirmam o mesmo valor, e como é positivo, o equilíbrio financeiro a curto prazo está cumprido.
3. Calcula a liquidez geral e a liquidez reduzida da Papelaria Sardoal, Lda. e classifica-as segundo a regra desta sebenta.
Resolução: Liquidez geral = 60 000 / 30 000 = 2,00, que é ≥ 1,5, logo confortável. Liquidez reduzida = (60 000 − 30 000) / 30 000 = 30 000 / 30 000 = 1,00, que é ≥ 1, logo a empresa consegue pagar o passivo corrente sem vender inventários.
4. A empresa tem Resultado líquido de 12 000 € e Vendas de 300 000 €. Calcula a rendibilidade líquida das vendas.
Resolução: Rendibilidade líquida das vendas = 12 000 / 300 000 = 4,0%. Por cada 100 € vendidos, ficam 4 € de lucro líquido.
5. Uma empresa orçamentou vendas de 200 000 € e vendeu, na realidade, 185 000 €. Calcula o desvio absoluto e percentual, e classifica-o.
Resolução: Desvio absoluto = 185 000 − 200 000 = -15 000 €. Desvio percentual = -15 000 / 200 000 = -7,5%. Como se trata de um rendimento (vendas) abaixo do orçado, o desvio é desfavorável.