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UC · Unidade de Competência · UC02694

Sebenta · Realizar mapas previsionais de vendas e de custos (UC02694)

Contabilidade essencial, custos, margem e markup, previsão de vendas e de custos, balanço, demonstração de resultados e de fluxos de caixa
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Comércio ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Uma empresa de comércio não gere às cegas. Antes de comprar mercadoria, contratar mais um vendedor ou abrir uma loja nova, alguém tem de responder a duas perguntas muito concretas: quanto vamos vender? e quanto nos vai custar? Responder com rigor a estas perguntas é elaborar mapas previsionais de vendas e de custos, e é essa a competência central desta unidade curricular.

Para elaborar esses mapas com confiança, é preciso primeiro dominar a linguagem da contabilidade: o que é uma conta, o que são débito e crédito, que tipos de custos existem, como se calcula uma margem de lucro ou um markup, e como se leem os três documentos que resumem a saúde de uma empresa (balanço, demonstração de resultados e demonstração de fluxos de caixa). Sem esta base, um mapa previsional é só uma folha de números sem significado.

Objetivos de aprendizagem (referencial): elaborar mapas previsionais das vendas da empresa e elaborar mapas previsionais dos custos da empresa, com base na contabilidade e na empresa, no Sistema de Normalização Contabilística (SNC), no conceito de conta, nos princípios contabilísticos básicos, nos tipos de custos, na margem de lucro e no markup, e nas demonstrações financeiras (balanço, demonstração de resultados e demonstração de fluxos de caixa), respeitando sempre as normas de segurança, saúde no trabalho e da qualidade.

Ao longo desta sebenta acompanhamos um caso contínuo: a Mercearia Center, Lda, uma empresa retalhista de produtos alimentares embalados (FMCG), do tipo de empresas referido no contexto de trabalho desta UC. Sempre que possível, os mesmos números voltam de capítulo em capítulo, para se perceber como tudo encaixa num único ciclo de gestão.

1. A empresa, o património e a contabilidade

A contabilidade é o sistema que regista, classifica e resume, em termos monetários, as operações de uma empresa, para que se saiba a todo o momento o que a empresa tem, o que deve e o que ganhou ou perdeu.

Património individual vs património empresarial

Um erro comum de quem começa um negócio é misturar as contas de casa com as contas da empresa. São dois patrimónios distintos:

Património individual Património empresarial
Titular a pessoa a empresa (entidade autónoma)
Bens e dívidas casa, carro, salário, contas pessoais mercadoria, equipamento, dívidas a fornecedores
Regime vida privada Sistema de Normalização Contabilística (SNC)

A empresa é, para efeitos contabilísticos, uma entidade separada do seu dono, mesmo quando é um empresário em nome individual. Um levantamento pessoal do dinheiro da caixa da loja não é uma "despesa da empresa que desapareceu": é uma retirada de capital, e tem de ser registada como tal.

Funções e divisões da contabilidade

A contabilidade cumpre três funções principais:

Divide-se, de forma clássica, em:

2. Introdução ao Sistema de Normalização Contabilística (SNC)

O SNC (Sistema de Normalização Contabilística) é o conjunto de normas que regula, em Portugal, como as empresas devem registar as suas operações e apresentar as suas demonstrações financeiras. É de aplicação obrigatória à generalidade das empresas portuguesas.

O SNC é composto, entre outros elementos, por:

Sem uma norma comum, cada empresa registaria as suas operações à sua maneira, e nenhum balanço seria comparável com outro. O SNC garante que uma conta chamada "Mercadorias" significa a mesma coisa numa mercearia em Faro e numa em Bragança.

3. A conta: conceito, tipos e movimentação

A conta é o instrumento contabilístico que regista, ao longo do tempo, as variações de um determinado elemento patrimonial ou de um determinado gasto ou rendimento (por exemplo, a conta "Caixa", a conta "Clientes" ou a conta "Compras").

Características da conta

Tipos de conta

Tipo de conta Exemplos O que aumenta com o débito
Contas de ativo Caixa, Depósitos à ordem, Clientes, Mercadorias um aumento (mais dinheiro, mais mercadoria)
Contas de passivo Fornecedores, Empréstimos uma diminuição (débito reduz uma dívida)
Contas de capital próprio Capital, Resultados transitados uma diminuição
Contas de gastos Compras, Fornecimentos e serviços externos um aumento (mais gasto)
Contas de rendimentos Vendas, Prestações de serviços uma diminuição

Representação e movimentação

A representação simplificada de uma conta é o chamado "T":

          Caixa
------------------------
 Débito  |  Crédito
------------------------
  500 €  |
         |    120 €
------------------------
Saldo devedor: 380 €

Cada operação da empresa gera pelo menos um registo a débito e um a crédito, de igual valor: é o chamado método das partidas dobradas, a base de toda a contabilidade financeira.

Exemplo resolvido. A Mercearia Center, Lda compra mercadoria a pronto pagamento, no valor de 500 €.

A operação afeta duas contas:

O total debitado (500 €) é igual ao total creditado (500 €). O registo está equilibrado, como tem sempre de estar.

4. Princípios contabilísticos básicos

Além do débito e do crédito, há princípios que atravessam todas as operações de uma empresa de comércio.

Resultado = Rendimentos − Gastos

Exemplo resolvido. No mês de Março, a Mercearia Center, Lda vendeu 12.000 € de mercadoria, que lhe tinha custado 7.200 € a comprar, e teve ainda 3.100 € de outros gastos (renda, salários, eletricidade).

Resultado = Rendimentos − Gastos = 12.000 − (7.200 + 3.100) = 12.000 − 10.300 = 1.700 € de lucro no mês.

Se os gastos tivessem sido de 12.500 €, o resultado seria negativo (−500 €): um prejuízo. A contabilidade não julga se o resultado é bom ou mau, apenas o regista com rigor; a análise desse resultado é o passo seguinte, tratado nos capítulos sobre mapas previsionais.

5. Custos: noção e tipos

Custo é o valor dos recursos consumidos pela empresa para produzir, comprar ou vender um bem ou serviço. Distinguir tipos de custo é a base de qualquer mapa previsional de custos, e uma das aptidões centrais desta UC.

Custos fixos

Não variam com a quantidade vendida (ou variam muito pouco), num determinado intervalo de tempo: renda do espaço, salários da equipa de estrutura, seguros, subscrições de software de gestão. Existem mesmo com zero vendas no mês.

Custos variáveis

Crescem (ou diminuem) proporcionalmente à quantidade vendida: o custo de compra de cada unidade de mercadoria, as comissões pagas por venda, as embalagens usadas por encomenda.

Custos diretos

Podem ser atribuídos, sem ambiguidade, a um produto, a uma linha de produtos ou a um serviço concreto: o custo de compra de um produto específico é direto a esse produto; a comissão paga por uma venda concreta é direta a essa venda. Um custo direto tanto pode ser fixo como variável, consoante o seu comportamento face à quantidade; a distinção entre direto e indireto responde a uma pergunta diferente da distinção entre fixo e variável: não "varia com a quantidade?", mas sim "sei exatamente a que produto ou serviço pertence?". Um custo que não pode ser atribuído a um único produto (a renda do armazém onde estão todos os produtos, por exemplo) diz-se indireto, e tem de ser repartido por critérios (como a área ocupada ou o peso das vendas de cada linha).

Exemplo resolvido. Classifica cada custo da Mercearia Center, Lda quanto ao seu comportamento (fixo ou variável) e quanto à atribuição (direto ou indireto a um produto específico):

Custo Fixo / variável Direto / indireto
Renda mensal do armazém Fixo Indireto (partilhado por todos os produtos)
Custo de compra da água aromatizada Variável Direto (a esse produto)
Salário da gerência Fixo Indireto
Comissão paga por caixa de arroz vendida Variável Direto (a esse produto)
Seguro do edifício Fixo Indireto

Um mesmo custo pode ser variável e direto ao mesmo tempo (a comissão por caixa de arroz), ou fixo e indireto ao mesmo tempo (a renda). São duas classificações independentes.

6. Margem de lucro e markup

Margem de lucro e markup respondem à mesma pergunta, mas a partir de bases diferentes: quanto se ganha, em cada unidade vendida, acima do que ela custou.

Margem de lucro (%): a percentagem do preço de venda que corresponde a lucro.

Margem de lucro (%) = (Preço de venda − Custo) ÷ Preço de venda × 100

Markup (%): a percentagem que se acrescenta ao custo para chegar ao preço de venda.

Markup (%) = (Preço de venda − Custo) ÷ Custo × 100

O numerador é sempre o mesmo (Preço de venda − Custo); o que muda é o denominador: a margem divide pelo preço de venda, o markup divide pelo custo. Por isso, para o mesmo produto, o markup em percentagem é sempre maior do que a margem de lucro em percentagem (com um mesmo lucro absoluto, dividir por um valor menor, o custo, dá sempre uma percentagem maior).

Determinar o preço de venda a partir do markup ou da margem

Preço de venda (a partir do markup sobre o custo) = Custo × (1 + Markup)

Preço de venda (a partir da margem sobre o preço) = Custo ÷ (1 − Margem)

Exemplo resolvido. A Mercearia Center, Lda compra um produto a 12 € a unidade.

Opção A, definir a margem de lucro em 30% sobre o preço de venda:

Preço de venda = 12 ÷ (1 − 0,30) = 12 ÷ 0,70 = 17,14 € (arredondado ao cêntimo)

Markup equivalente = (17,142857... − 12) ÷ 12 × 100 ≈ 42,86%

Opção B, definir o markup em 40% sobre o custo:

Preço de venda = 12 × (1 + 0,40) = 16,80 €

Margem de lucro equivalente = (16,80 − 12) ÷ 16,80 × 100 ≈ 28,57%

As duas opções dão preços diferentes (17,14 € vs 16,80 €) para percentagens de referência diferentes (30% de margem não é o mesmo que 40% de markup). Ao negociar preços com fornecedores ou ao ler uma folha de cálculo de preços, confirma sempre se a percentagem indicada é margem (sobre a venda) ou markup (sobre o custo): confundir as duas leva a preços mais baixos do que o pretendido.

Margem bruta e margem líquida

A margem de lucro pode calcular-se a diferentes níveis do resultado da empresa:

Margem bruta (%) = (Vendas − CMVMC) ÷ Vendas × 100

Margem líquida (%) = Resultado líquido ÷ Vendas × 100

Exemplo resolvido. A Mercearia Center, Lda faturou, num trimestre, 80.000 € de vendas. O custo das mercadorias vendidas (CMVMC) foi de 52.000 €, e os restantes gastos operacionais (rendas, salários, eletricidade) foram de 15.000 €. A taxa de IRC aplicável é de 21%.

Resultado antes de impostos = 80.000 − 52.000 − 15.000 = 13.000 €

Imposto (IRC) = 13.000 × 0,21 = 2.730 €

Resultado líquido = 13.000 − 2.730 = 10.270 €

Margem bruta = (80.000 − 52.000) ÷ 80.000 × 100 = 35%

Margem líquida = 10.270 ÷ 80.000 × 100 = 12,84%

A diferença entre 35% (margem bruta) e 12,84% (margem líquida) mostra quanto os restantes gastos operacionais e os impostos "consomem" da margem inicial sobre a mercadoria. Uma margem bruta saudável não garante, por si só, um resultado líquido positivo.

7. Mapas previsionais de vendas: métodos de previsão

Um mapa previsional de vendas é um documento que estima, período a período (mês, trimestre), quanto a empresa espera vender, em unidades e em valor. É o ponto de partida de toda a gestão comercial e financeira, incluindo do mapa previsional de custos.

Dois métodos quantitativos são particularmente úteis quando já existe histórico de vendas:

Média móvel (de n períodos): a média dos últimos n valores, que se atualiza a cada novo período, "esquecendo" o valor mais antigo. Serve para captar a tendência recente, filtrando oscilações pontuais.

Média móvel = Soma dos últimos n valores ÷ n

Sazonalidade: quando as vendas de um produto sobem e descem de forma repetida em certos meses (por exemplo, bebidas no Verão, material escolar em Setembro), a média móvel sozinha não chega, porque ela olha só para os últimos meses e não sabe que o mês seguinte é, por natureza, mais forte ou mais fraco. Corrige-se com um índice sazonal.

Índice sazonal do mês = Média de vendas desse mês (no histórico) ÷ Média mensal geral (no mesmo histórico)

Previsão sazonal do mês = Tendência recente (por exemplo, a média móvel) × Índice sazonal desse mês

Um índice acima de 1 indica um mês tipicamente mais forte do que a média; um índice abaixo de 1 indica um mês tipicamente mais fraco.

Exemplo resolvido: Mercearia Center, Lda. A "Água aromatizada Fresca 1,5L" é um produto sazonal, com mais procura no Verão. Vendas mensais (unidades) dos últimos dois anos:

Mês Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Ano 1 800 780 850 900 950 1200 1600 1550 1100 900 850 820
Ano 2 850 800 880 950 1000 1250 1700 1650 1150 950 880 860

Passo 1, tendência recente por média móvel de 3 meses (Outubro, Novembro e Dezembro do Ano 2):

Média móvel = (950 + 880 + 860) ÷ 3 = 2.690 ÷ 3 ≈ 896,67 unidades

Passo 2, índice sazonal de Julho. Média de Julho nos dois anos = (1.600 + 1.700) ÷ 2 = 1.650. Média mensal geral dos dois anos = 1.050,83 (a média das 24 médias mensais).

Índice sazonal de Julho = 1.650 ÷ 1.050,83 ≈ 1,5702

Passo 3, previsão sazonal para o próximo Julho:

Previsão = 896,67 × 1,5702 ≈ 1.407,93, arredondado a 1.408 unidades

Sem o índice sazonal, a média móvel sozinha previa apenas ≈897 unidades para Julho, menos de dois terços do valor real esperado: teria deixado a Mercearia Center sem stock a meio do Verão. É por isso que produtos sazonais nunca se previnem só com média móvel.

8. Mapas previsionais de custos, margem de contribuição e ponto crítico

O mapa previsional de custos estima, para o mesmo período do mapa de vendas, quanto a empresa espera gastar, separando custos fixos de custos variáveis. Os dois mapas, o de vendas e o de custos, lêem-se sempre em conjunto: um mapa de vendas sem o respetivo mapa de custos não diz se a empresa vai ter lucro ou prejuízo.

Uma forma prática de construir o mapa previsional de custos, quando os custos variáveis são proporcionais à receita (por exemplo, o custo de compra da mercadoria representa sempre a mesma percentagem das vendas), é estimar essa percentagem a partir do histórico e aplicá-la à receita prevista.

Da relação entre receita, custos variáveis e custos fixos nasce a margem de contribuição, o indicador que liga o mapa de vendas ao mapa de custos:

Margem de contribuição = Receita prevista − Custos variáveis previstos

Taxa de margem de contribuição (%) = Margem de contribuição ÷ Receita prevista × 100

O que sobra da margem de contribuição depois de pagos os custos fixos é o resultado operacional previsto:

Resultado operacional previsto = Margem de contribuição − Custos fixos previstos

E o nível de vendas a partir do qual esse resultado deixa de ser negativo chama-se ponto crítico das vendas (ou ponto de equilíbrio): o valor de vendas que cobre exatamente os custos fixos e os custos variáveis, sem lucro nem prejuízo.

Ponto crítico das vendas (em valor) = Custos fixos previstos ÷ Taxa de margem de contribuição

Exemplo resolvido: Mercearia Center, Lda. Mapa previsional de vendas para o próximo trimestre:

Mês Receita prevista
Mês 1 28.000 €
Mês 2 30.500 €
Mês 3 34.000 €
Total 92.500 €

Com base no histórico, os custos variáveis (mercadoria, comissões, embalagens) representam sempre 60% da receita, e os custos fixos mensais (renda, salários da equipa fixa, seguros) são de 9.000 €.

Custos variáveis previstos = 60% × 92.500 = 55.500 €

Custos fixos previstos (trimestre) = 9.000 × 3 = 27.000 €

Margem de contribuição = 92.500 − 55.500 = 37.000 €

Taxa de margem de contribuição = 37.000 ÷ 92.500 × 100 = 40%

Resultado operacional previsto = 37.000 − 27.000 = 10.000 €

Ponto crítico das vendas (trimestre) = 27.000 ÷ 0,40 = 67.500 € (mensal: 9.000 ÷ 0,40 = 22.500 €)

A previsão de 92.500 € está bem acima do ponto crítico de 67.500 €: o mapa previsional mostra uma folga de 25.000 € de vendas antes de a empresa começar a perder dinheiro. É esta folga, e não só o resultado previsto, que interessa comunicar à gestão.

9. Analisar desvios e identificar oportunidades de redução de custos

Elaborar um mapa previsional não termina quando o período acaba: é preciso comparar o previsto com o real, calcular o desvio e interpretá-lo, um dos critérios de desempenho centrais desta UC.

Desvio absoluto = Real − Previsto

Desvio percentual (%) = (Real − Previsto) ÷ Previsto × 100

Um desvio é favorável quando melhora o resultado (mais receita do que a prevista, ou menos custo do que o previsto) e desfavorável no caso contrário. Cuidado: um desvio favorável nos custos não é, por si só, boa notícia, se vier acompanhado de um desvio ainda pior nas vendas.

Exemplo resolvido: Mercearia Center, Lda (continuação). Resultados reais do mesmo trimestre, a comparar com o mapa previsional do capítulo anterior:

Previsto Real Desvio Desvio %
Receita 92.500 € 90.500 € −2.000 € −2,16%
Custos totais 82.500 € 81.000 € −1.500 € −1,82%
Resultado operacional 10.000 € 9.500 € −500 € −5,00%

Os custos tiveram um desvio favorável (gastou-se menos 1.500 € do que o previsto), mas o resultado operacional ainda assim ficou abaixo do previsto (−500 €), porque a quebra de receita (−2.000 €) foi maior do que a poupança em custos. Olhar só para o desvio de custos, sem olhar para o de receita, teria dado uma imagem enganosamente positiva.

Nem sempre um desvio desfavorável é a causa de um resultado negativo. Se o próprio mapa previsional já apontava para um prejuízo, o desvio agrava-o, mas não o cria.

Exemplo resolvido: uma linha de produto com plano já deficitário. Um produto vende-se a 5,00 €, com um custo variável unitário de 4,40 € (margem de contribuição unitária de 0,60 €, ou seja, 12%). Os custos fixos mensais atribuídos a esta linha são de 540 €.

Ponto crítico (unidades) = 540 ÷ 0,60 = 900 unidades por mês

O mapa previsional desta linha estimava vender 850 unidades, um valor abaixo do ponto crítico:

Resultado previsto = 850 × 0,60 − 540 = 510 − 540 = −30 € (o plano já nascia deficitário)

No mês, venderam-se apenas 800 unidades (desvio de −50 unidades, ou −5,88%):

Resultado real = 800 × 0,60 − 540 = 480 − 540 = −60 €

Desvio no resultado = −60 − (−30) = −30 €

O desvio desfavorável de vendas agravou o prejuízo em 30 €, mas não foi a sua causa: mesmo sem qualquer desvio, cumprindo as 850 unidades do plano, a linha já daria prejuízo, porque o plano previa vender abaixo do ponto crítico. A medida corretiva certa não é "vender mais 50 unidades para anular o desvio", é rever o preço, negociar um custo variável mais baixo ou reduzir os custos fixos atribuídos a esta linha, para que o próprio ponto crítico desça abaixo do volume que é realista vender.

Esta distinção liga-se diretamente às oportunidades de redução de custos e à otimização de recursos:

10. O balanço

Uma demonstração financeira é um documento que resume, num determinado momento ou período, a situação económica e financeira de uma empresa, para que gestores, sócios e outras entidades interessadas (bancos, fornecedores, Estado) a possam avaliar. As três demonstrações financeiras centrais desta UC são o balanço, a demonstração de resultados e a demonstração de fluxos de caixa.

O balanço é a fotografia da empresa num determinado momento (por exemplo, 31 de dezembro): o que a empresa tem (ativo), o que deve (passivo) e o que é dos sócios (capital próprio).

Ativo = Passivo + Capital próprio

Ativo (o que a empresa tem) Passivo + Capital próprio (de onde veio)
Depósitos à ordem, Clientes, Mercadorias, Equipamento Fornecedores, Empréstimos bancários, Capital, Resultados

Esta equação tem sempre de estar equilibrada: tudo o que a empresa tem foi financiado, ou por dívidas a terceiros (passivo), ou pelos próprios sócios e pelos resultados acumulados (capital próprio).

Exemplo resolvido. No final do ano, a Mercearia Center, Lda tem: Depósitos à ordem 15.000 €, Clientes 8.000 €, Mercadorias em armazém 22.000 €, Equipamento 35.000 €. Deve a Fornecedores 12.000 € e tem um Empréstimo bancário de 18.000 €. O Capital social é de 40.000 €.

Ativo total = 15.000 + 8.000 + 22.000 + 35.000 = 80.000 €

Passivo total = 12.000 + 18.000 = 30.000 €

Capital próprio = Ativo − Passivo = 80.000 − 30.000 = 50.000 €

Como o Capital social é de 40.000 €, os restantes 10.000 € de capital próprio correspondem a resultados acumulados de anos anteriores.

11. A demonstração de resultados e a demonstração de fluxos de caixa

A demonstração de resultados (também chamada demonstração dos resultados, DR) mostra, ao contrário do balanço, um período (por exemplo, o ano inteiro), e explica como se chegou ao resultado líquido: rendimentos menos gastos.

Pode apresentar-se de duas formas, ambas obrigatórias no SNC para muitas empresas:

O resultado líquido apurado é o mesmo em ambas as formas; muda apenas a forma como os gastos estão organizados na demonstração.

A demonstração de fluxos de caixa (DFC) mostra algo diferente de ambas: não o resultado contabilístico, mas o movimento real de dinheiro que entrou e saiu da empresa no período, organizado em três categorias:

Uma empresa pode ter um resultado líquido positivo na demonstração de resultados e, ainda assim, ficar com pouco dinheiro em caixa (por exemplo, se vendeu muito a crédito e os clientes ainda não pagaram); é a demonstração de fluxos de caixa que revela essa diferença.

Exemplo resolvido. Distingue o documento certo para cada pergunta: (a) "Quanto deve a empresa aos fornecedores neste momento?"; (b) "Qual foi o resultado do ano, agrupado por função (vendas, distribuição, administração)?"; (c) "Quanto dinheiro entrou por via de um novo empréstimo bancário?"

12. Normas de segurança, saúde no trabalho e da qualidade

Elaborar mapas previsionais é, sobretudo, trabalho de cálculo e de análise, mas continua sujeito a normas.

Segurança e saúde no trabalho:

Normas da qualidade:

Um mapa previsional errado é pior do que nenhum mapa: dá segurança falsa a uma decisão de investimento, de contratação ou de compra de stock. Trocar 92.500 € por 29.500 € de receita prevista, por um erro de digitação, muda por completo a leitura do ponto crítico e da folga de vendas.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Elaborar mapas previsionais de vendas e de custos assenta sempre na mesma base contabilística: distinguir o património pessoal do empresarial, aplicar as regras do SNC, entender a conta e o débito/crédito, e classificar corretamente os custos (fixos, variáveis e diretos). A partir daí, calcula-se a margem de lucro e o markup para definir preços, constrói-se o mapa previsional de vendas (com média móvel e sazonalidade) e o mapa previsional de custos (com margem de contribuição e ponto crítico das vendas), compara-se sempre o previsto com o real através dos desvios, verificando se a causa de um resultado é mesmo o desvio ou já vinha do próprio plano, e identificam-se oportunidades de redução de custos. Por fim, o balanço, a demonstração de resultados e a demonstração de fluxos de caixa dão a visão global da empresa que sustenta todo este trabalho, sempre com rigor no cálculo (normas de qualidade) e cuidado no trabalho de campo (segurança e saúde).

Exercícios resolvidos

1. Uma empresa compra mercadoria a pronto pagamento por 800 €. Indica as duas contas movimentadas, o tipo de cada uma e o sentido (débito ou crédito) do movimento.

Resolução: Compras (conta de gastos) é debitada em 800 € (o gasto aumenta); Caixa (conta de ativo) é creditada em 800 € (a disponibilidade diminui). O total debitado e o total creditado são ambos 800 €, como exige o método das partidas dobradas.

2. Um produto custa 20 € e vende-se por 32 €. Calcula a margem de lucro e o markup.

Resolução: Margem de lucro = (32 − 20) ÷ 32 × 100 = 12 ÷ 32 × 100 = 37,5%. Markup = (32 − 20) ÷ 20 × 100 = 12 ÷ 20 × 100 = 60%.

3. Vendas mensais de um produto sem sazonalidade nos últimos quatro meses: 540, 560, 590 e 610 unidades. Calcula a previsão para o mês seguinte por média móvel de 3 meses.

Resolução: Previsão = (560 + 590 + 610) ÷ 3 = 1.760 ÷ 3 ≈ 586,67 unidades, arredondado a 587 unidades.

4. Uma empresa prevê 15.000 € de receita mensal, com custos variáveis de 45% da receita e custos fixos de 4.000 €. Calcula a margem de contribuição, a taxa de margem de contribuição e o ponto crítico das vendas em valor.

Resolução: Custos variáveis = 45% × 15.000 = 6.750 €. Margem de contribuição = 15.000 − 6.750 = 8.250 €. Taxa de margem de contribuição = 8.250 ÷ 15.000 × 100 = 55%. Ponto crítico = 4.000 ÷ 0,55 ≈ 7.272,73 €.

5. O mapa previsional de custos do exercício anterior estimava 10.750 € de custos totais (6.750 € variáveis + 4.000 € fixos). No mês, os custos reais foram de 10.500 €. Calcula o desvio absoluto e percentual, e classifica-o.

Resolução: Desvio = 10.500 − 10.750 = −250 €. Desvio % = −250 ÷ 10.750 × 100 ≈ −2,33%. É um desvio favorável: a empresa gastou menos do que o previsto.

6. Uma empresa faturou 50.000 € de vendas, com um CMVMC de 30.000 €, outros gastos operacionais de 12.000 € e uma taxa de IRC de 21%. Calcula a margem bruta e a margem líquida.

Resolução: Resultado antes de impostos = 50.000 − 30.000 − 12.000 = 8.000 €. Imposto = 8.000 × 0,21 = 1.680 €. Resultado líquido = 8.000 − 1.680 = 6.320 €. Margem bruta = (50.000 − 30.000) ÷ 50.000 × 100 = 40%. Margem líquida = 6.320 ÷ 50.000 × 100 = 12,64%.

7. Um produto vende-se a 6 € e tem um custo variável unitário de 4,50 €. Os custos fixos mensais atribuídos são de 450 €. O mapa previsional estimava vender 250 unidades no mês, mas venderam-se apenas 240. O plano estava acima ou abaixo do ponto crítico, e o desvio agravou ou aliviou o resultado?

Resolução: Margem de contribuição unitária = 6 − 4,50 = 1,50 €. Ponto crítico = 450 ÷ 1,50 = 300 unidades. O plano previa 250 unidades, abaixo do ponto crítico: resultado previsto = 250 × 1,50 − 450 = 375 − 450 = −75 € (prejuízo já no plano). Resultado real = 240 × 1,50 − 450 = 360 − 450 = −90 €. O desvio (−10 unidades) agravou o prejuízo em 15 €, mas não foi a sua causa: o plano já era deficitário antes de qualquer desvio, porque previa vender abaixo do ponto crítico.