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UC · Unidade de Competência · UC02692

Sebenta · Controlar os stocks em loja e armazém (UC02692)

Da receção à expedição, com indicadores, custos, quebras e inventário
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Comércio ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a controlar os stocks de uma empresa de comércio, do momento em que a mercadoria chega ao armazém até ao momento em que sai para o cliente. É uma das competências mais transversais do técnico de comércio: sem stocks bem geridos não há vendas, e stocks mal geridos custam dinheiro todos os dias, quer haja produto a mais (capital parado, prazos de validade ultrapassados) quer haja produto a menos (rutura, cliente perdido).

O percurso segue o ciclo real de um armazém: primeiro os conceitos e os indicadores de gestão de stocks, depois a função compras e a gestão das encomendas, a seguir o armazém físico (organização, equipamentos, receção e armazenagem), a valorização e o inventário, a expedição, as quebras e a forma de as prevenir, e por fim a segurança e as normas que protegem pessoas, mercadoria e ambiente.

Objetivos de aprendizagem (referencial): rececionar e conferir os produtos em armazém; expedir os produtos; colaborar no inventário de produtos; e monitorizar os indicadores de stocks, utilizando o sistema informático para retirar relatórios de gestão. No fim desta UC deves saber aplicar os procedimentos de receção, conferência, armazenagem, expedição e inventário, tratar as quebras segundo a política da empresa e trabalhar em segurança.

1. Aprovisionamento, gestão de stocks e logística

O aprovisionamento é a função que garante que a empresa tem, no momento certo, a quantidade certa de mercadoria, ao custo mais adequado. Sem aprovisionamento não há o que vender, não há o que produzir e não há o que entregar: é o alicerce silencioso de qualquer negócio de comércio.

A gestão de stocks é o conjunto de técnicas que controla as quantidades de mercadoria armazenadas, para equilibrar dois custos que puxam em direções opostas: o custo de ter stock a mais (dinheiro parado, espaço ocupado, risco de quebra) e o custo de ter stock a menos (rutura, vendas perdidas, clientes insatisfeitos). Terminologia de base:

A logística é a disciplina mais larga que gere o fluxo físico e de informação, desde o fornecedor até ao cliente final: transporte, armazenagem, gestão de stocks e distribuição. Numa economia globalizada, a logística é decisiva: um atraso na origem (fábrica na Ásia, por exemplo) propaga-se por toda a cadeia de abastecimento até à prateleira da loja portuguesa. Uma boa gestão de stocks é a forma de a empresa absorver essa incerteza sem deixar o cliente sem produto.

Tipos de gestão de stocks

O referencial distingue três dimensões da gestão de stocks, que coexistem na mesma empresa:

Tipo O que trata
Gestão material fluxo físico: receção, arrumação, movimentação, contagem
Gestão administrativa registo documental: fichas de stock, guias, encomendas, inventário
Gestão económica o lado financeiro: custos, valorização do stock, rentabilidade

Numa ferragem, a gestão material é o colaborador que arruma as caixas de parafusos na prateleira; a gestão administrativa é o registo no sistema informático de que entraram 500 unidades; a gestão económica é saber quanto vale esse stock em euros e se compensa manter tanta quantidade parada.

2. Indicadores de gestão de stocks: rotação, cobertura e stock de segurança

Gerir stocks sem indicadores é gerir às cegas. O sistema informático de aprovisionamento produz relatórios que traduzem o stock em números que se comparam, mês a mês, artigo a artigo.

Rotação de stocks

A rotação de stocks mede quantas vezes o stock médio se renova num período (normalmente um ano). Calcula-se pela fórmula:

Rotação = Vendas do período (em unidades ou em euros) / Stock médio do mesmo período

O stock médio pode calcular-se de forma simples como a média entre o stock inicial e o stock final do período:

Stock médio = (Stock inicial + Stock final) / 2

Uma loja tem 820 unidades em stock no início do ano e 640 unidades no final do ano. Stock médio anual = (820 + 640) / 2 = 730 unidades.

Ao longo desse mesmo ano, a loja vendeu 7 300 unidades desse artigo. Rotação anual = 7 300 / 730 = 10 rotações por ano. O stock renova-se, em média, dez vezes por ano.

Quanto maior a rotação, mais depressa o stock se transforma em vendas, e menos capital fica parado. Uma rotação muito baixa é sinal de excesso de stock ou de artigo com pouca procura.

Cobertura de stocks

A cobertura traduz a rotação em dias: quantos dias o stock atual chega, ao ritmo de vendas atual. A fórmula geral usa sempre o número de dias do mesmo período da rotação:

Cobertura (dias) = Dias do período / Rotação do período

Na prática usam-se 365 dias quando a rotação é anual, e 30 dias quando a rotação é mensal (ou o número exato de dias do período em causa, se for outro).

Com a rotação anual de 10 calculada acima: Cobertura = 365 / 10 = 36,5 dias. O stock médio desta loja dura, em média, pouco mais de um mês.

Stock de segurança e ponto de encomenda

O stock de segurança (ou stock mínimo) é a quantidade extra que protege contra imprevistos: um atraso do fornecedor ou um pico de vendas. O ponto de encomenda é o nível de stock que dispara uma nova encomenda, para que a mercadoria chegue antes de o stock de segurança ser tocado:

Ponto de encomenda = (Consumo médio diário × Prazo de entrega) + Stock de segurança

Um artigo vende, em média, 40 unidades por dia. O fornecedor demora 6 dias a entregar. A loja define um stock de segurança de 60 unidades.

Ponto de encomenda = (40 × 6) + 60 = 240 + 60 = 300 unidades. Assim que o stock desce para 300, é preciso encomendar de novo, para não correr o risco de rutura.

Quanto mais irregular for o prazo do fornecedor ou a procura do artigo, maior deve ser o stock de segurança. Um fornecedor pontual e uma procura estável permitem trabalhar com margens mais apertadas.

3. Software de gestão de stocks

Todos os indicadores do capítulo anterior (rotação, cobertura, ponto de encomenda) só existem na prática porque o software de gestão de stocks os calcula automaticamente, a partir dos movimentos registados no sistema. Duas aptidões desta UC dependem diretamente de saber usar essa ferramenta: utilizar as funcionalidades do sistema informático de gestão de stocks e analisar mapas retirados do software de gestão de stocks.

A ficha de artigo no sistema

Cada referência tem, no sistema, uma ficha de artigo que reúne toda a informação necessária à gestão de stocks:

É esta ficha que sustenta a gestão das encomendas (capítulo 7) e a receção de mercadoria (capítulo 9): sem ela atualizada, nenhum indicador é de confiar.

Tipos de mapas e relatórios

O critério de desempenho de retirar relatórios que permitem analisar os indicadores de gestão de stocks aponta para quatro mapas que qualquer sistema de gestão de stocks deve produzir:

Extrato de um mapa de artigos abaixo do ponto de encomenda, tal como sai do sistema:

Artigo Stock atual Ponto de encomenda Situação
Ref. A1 180 300 Abaixo, encomendar
Ref. A2 420 300 Acima, ok
Ref. B1 95 90 Acima, ok (margem apertada)
Ref. B2 40 60 Abaixo, encomendar
Ref. C1 500 120 Acima, ok

Basta comparar a coluna do stock atual com a do ponto de encomenda: a Ref. A1 e a Ref. B2 já o ultrapassaram por baixo, por isso aparecem sinalizadas para encomenda imediata. Cruzar este mapa com a classificação ABC do artigo (capítulo 4) ajuda a decidir qual das duas encomendar primeiro, se os recursos para tratar as duas ao mesmo tempo forem limitados.

Códigos de barras e terminais de recolha de dados

Uma contagem de inventário feita com terminal de recolha de dados é muito mais rápida e muito menos sujeita a erro do que uma folha de papel com a lista de artigos escrita à mão: cada leitura já identifica o artigo certo, sem risco de trocar a referência.

4. Classificação ABC dos stocks

Nem todos os artigos merecem a mesma atenção. A análise ABC (ou curva de Pareto aplicada aos stocks) classifica os artigos pelo seu valor anual movimentado (quantidade × preço), para concentrar o esforço de controlo onde ele mais compensa.

Regra de corte usada nesta UC: ordenam-se os artigos por valor decrescente, calcula-se a percentagem acumulada do valor total, e classifica-se:

Uma loja tem 8 referências, com o valor anual movimentado seguinte (já ordenado do maior para o menor):

Artigo Valor anual % do valor % acumulada Classe
Ref. A1 42 000 € 42,00% 42,00% A
Ref. A2 28 000 € 28,00% 70,00% A
Ref. B1 12 000 € 12,00% 82,00% B
Ref. B2 8 000 € 8,00% 90,00% B
Ref. B3 5 000 € 5,00% 95,00% B
Ref. C1 2 500 € 2,50% 97,50% C
Ref. C2 1 500 € 1,50% 99,00% C
Ref. C3 1 000 € 1,00% 100,00% C

Valor total: 100 000 €. A Ref. A2 fecha os 70% acumulados, ainda dentro dos 80%, por isso a classe A termina aí; a Ref. B1 leva o acumulado a 82%, já acima dos 80%, por isso entra na classe B. A classe B fecha exatamente aos 95% (Ref. B3), e tudo o resto é classe C.

Conclusão: só 2 artigos em 8 (25%) são classe A, mas representam 70% do valor movimentado. É aí que o controlo, a contagem frequente e a negociação com fornecedores compensam mais.

Classe % de artigos (típico) % do valor Política de controlo
A 10-20% até 80% contagem frequente, stock de segurança apertado, negociação cuidada
B 20-30% 80-95% controlo intermédio, revisão periódica
C 50-70% 95-100% controlo simples, stock de segurança mais folgado

O corte é sempre pela percentagem acumulada, nunca pelo número de artigos. Esta UC adota a convenção estrita: assim que o acumulado ultrapassa os 80%, o artigo já é classe B, mesmo que seja o primeiro e único a fazê-lo. Por isso um artigo pode estar sozinho e ainda assim ser classe B, se sozinho já ultrapassar os 80% acumulados; e outro pode ser o vigésimo da lista e continuar classe A, se o acumulado ainda não tiver chegado aos 80%. O que decide a classe nunca é a posição na lista, é sempre a percentagem acumulada nesse ponto.

5. Custos de stocks e orçamentação

Manter stock não é gratuito. A orçamentação da gestão de stocks soma, pelo menos, dois grandes grupos de custos:

Custo de encomenda anual = Custo por encomenda × Número de encomendas no ano
Custo de posse anual = Taxa de posse × Custo unitário × Stock médio
Custo total de stocks = Custo de encomenda anual + Custo de posse anual

Uma loja encomenda um artigo 12 vezes por ano, a um custo de 25 € por encomenda (transporte e processamento).

Custo de encomenda anual = 25 × 12 = 300 €.

O artigo custa 10 € cada, o stock médio é de 500 unidades, e a empresa estima a taxa de posse em 20% ao ano (armazém, seguro, capital parado).

Custo de posse anual = 0,20 × 10 € × 500 = 1 000 €.

Custo total de stocks = 300 € + 1 000 € = 1 300 € por ano, só com este artigo.

Este cálculo mostra porque encomendar menos vezes e em maior quantidade reduz o custo de encomenda, mas aumenta o stock médio e, com ele, o custo de posse. O equilíbrio entre os dois é o que a gestão de stocks procura, artigo a artigo.

Orçamento previsional de custos de transporte

A aptidão de elaborar orçamentos previsionais de custos de transportes de mercadorias pede ao técnico de comércio que saiba estimar, antes de a mercadoria seguir viagem, quanto vai custar transportá-la. A estrutura do custo de transporte segue a mesma lógica dos custos de stocks vistos acima: uma parte fixa e uma parte variável.

Peso volumétrico (kg) = (Comprimento × Largura × Altura, em cm) / 5000
Peso taxável = maior valor entre Peso real e Peso volumétrico
Custo total de transporte = Custo fixo por expedição + Custo variável (pelo escalão do peso taxável)
Custo por unidade transportada = Custo total de transporte / Número de unidades transportadas

Uma ferragem expede mensalmente, para uma loja satélite, uma encomenda de 200 baldes de plástico, distribuídos por 4 caixas de 50 × 40 × 30 cm cada, com um peso real de 4 kg por caixa (16 kg no total).

Peso volumétrico por caixa = (50 × 40 × 30) / 5000 = 60 000 / 5000 = 12 kg. Para as 4 caixas, peso volumétrico total = 4 × 12 = 48 kg.

Peso taxável = maior valor entre o peso real (16 kg) e o peso volumétrico (48 kg) = 48 kg: mesmo sendo uma carga leve, a transportadora cobra pelo volume que ocupa, não pelo peso que tem.

A transportadora aplica estes escalões por peso taxável: até 20 kg, 12 €; de 20 a 50 kg, 22 €; de 50 a 100 kg, 35 €; acima de 100 kg, 0,50 €/kg. Os 48 kg taxáveis caem no escalão dos 20-50 kg: custo variável = 22 €.

A empresa cobra ainda um custo fixo de 8 € por expedição (documentação e processamento).

Custo total de transporte = 8 € + 22 € = 30 €.

Custo por unidade transportada = 30 € / 200 unidades = 0,15 €/unidade. Este valor soma-se ao custo do artigo quando a empresa calcula a margem real de cada balde vendido.

6. A função compras

A função compras garante que a empresa adquire a mercadoria certa, na quantidade certa, ao fornecedor certo, ao melhor preço e condições. Evoluiu de uma tarefa administrativa e reativa ("encomendar o que falta") para uma função estratégica, com peso direto na margem da empresa.

Estrutura e responsabilidades

Em empresas maiores, a função compras tem uma estrutura organizacional própria (departamento de compras), com responsáveis por família de produtos. Numa loja pequena, o técnico de comércio acumula muitas destas responsabilidades: identificar necessidades, contactar fornecedores, negociar condições, colocar encomendas e acompanhar entregas.

Planeamento de compras

Seleção de fornecedores

Escolher fornecedor não se resume ao preço. O processo típico:

  1. Pesquisa de fornecedores possíveis (feiras, catálogos, plataformas B2B, recomendação).
  2. Aspetos críticos a avaliar: preço, prazo de entrega, qualidade, condições de pagamento, capacidade de resposta.
  3. Critérios de seleção, ponderados conforme a prioridade da empresa (nem sempre o mais barato é o escolhido, se o prazo ou a qualidade forem críticos).
  4. Avaliação contínua: depois de escolhido, o fornecedor continua a ser avaliado (cumprimento de prazos, qualidade das entregas, resposta a reclamações), para decidir se se mantém ou se se procura alternativa.

Uma boa prática é manter mais do que um fornecedor para os artigos mais críticos (classe A da análise ABC), para não ficar refém de um único parceiro em caso de rutura ou de subida de preço.

7. Gestão das encomendas

A encomenda é o elo entre a decisão de compra e a chegada da mercadoria, e tem de estar articulada com a gestão de stocks: encomenda-se com base nos indicadores (ponto de encomenda, rotação, previsão de vendas), não por impulso.

Organização das encomendas

Uma papelaria detecta, no relatório do sistema, que um caderno específico atingiu o ponto de encomenda (300 unidades, calculado no capítulo 2). O responsável consulta a ficha do artigo, confirma o fornecedor habitual e o prazo de 6 dias, e coloca a encomenda através do portal do fornecedor, referindo o código interno e a quantidade que repõe o stock até ao nível-alvo definido.

8. O armazém: conceito, organização e equipamentos

O armazém é o espaço físico onde a mercadoria é recebida, guardada e preparada para expedição. Não é um mero depósito: é uma peça central da cadeia de abastecimento, onde a eficiência da arrumação e da movimentação decide a velocidade e o custo de todo o processo.

Organização do espaço, da mercadoria e dos documentos

Um armazém bem organizado separa claramente:

Equipamentos de armazenagem

O referencial distingue três grupos de equipamentos:

Grupo Exemplos
Apoio à operação compactadores de resíduos, máquina de filmar paletes, máquina de fechar caixas, monta-cargas
Movimentação porta-paletes, stacker, empilhador frontal, empilhador retrátil, order picker, reboque, tridirecional
Automação máquina de preparação automática, porta-paletes manual e elétrico, stacker, retrátil, transpalete

Num armazém de médio porte: o porta-paletes manual move paletes curtas distâncias sem eletricidade; o empilhador retrátil eleva paletes a vários metros de altura em corredores estreitos; a máquina de filmar paletes envolve a mercadoria em filme plástico antes da expedição, para não se desfazer no transporte.

Cada equipamento exige formação e, nalguns casos (empilhadores), certificação específica. Usar um equipamento sem formação é um risco de acidente grave, além de infração às normas de segurança e saúde no trabalho.

9. Receção, conferência e armazenagem

A receção de produtos é o primeiro ponto de controlo de qualidade da mercadoria que entra na empresa, e é uma das quatro realizações centrais desta UC: rececionar e conferir os produtos em armazém.

Procedimento de receção e conferência

  1. Confirmar que a entrega corresponde a uma encomenda em aberto (não se recebe mercadoria não encomendada sem validação).
  2. Conferir a guia de remessa contra o que fisicamente chega: quantidades, referências, estado da embalagem.
  3. Contar e inspecionar a mercadoria: danos de transporte, validade, conformidade com a encomenda.
  4. Registar discrepâncias (falta, excesso, dano) e comunicá-las ao fornecedor e à gestão de compras.
  5. Dar entrada no sistema informático, atualizando o stock disponível.
  6. Arrumar a mercadoria no local definido, de acordo com a organização do armazém.

Chega uma palete de 500 garrafas de detergente. A guia de remessa indica 500 unidades; a contagem física confirma 500, mas 4 garrafas chegam com a tampa danificada. Regista-se a não conformidade de 4 unidades, dá-se entrada de 496 unidades vendáveis em stock, e comunica-se ao fornecedor para efeitos de nota de crédito.

Quando e como encomendar

Este capítulo fecha o ciclo aberto no capítulo 2: quando encomendar depende do ponto de encomenda e da rotação; como encomendar depende do método (pontual, programado, contrato-quadro) e do canal acordado com o fornecedor. O controlo de entradas e saídas no sistema informático é o que mantém o stock teórico fiel à realidade, condição para todos os indicadores funcionarem.

10. Valorização de stocks e inventário

Depois de a mercadoria entrar em armazém, é preciso saber quanto vale o stock guardado, sobretudo quando o mesmo artigo entrou em datas diferentes, a preços diferentes.

FIFO e custo médio ponderado (CMP)

CMP = Valor total em stock / Quantidade total em stock

O stock de um artigo teve estes movimentos num mês:

Movimento Quantidade Preço unitário Valor
Stock inicial 100 5,00 € 500 €
Entrada dia 5 200 5,50 € 1 100 €
Entrada dia 15 200 6,00 € 1 200 €
Total disponível 500 - 2 800 €

Saíram 350 unidades no mês. Stock final em quantidade = 500 − 350 = 150 unidades.

Pelo CMP: CMP = 2 800 € / 500 = 5,60 €/unidade. Valor das saídas = 350 × 5,60 € = 1 960 €. Valor do stock final = 150 × 5,60 € = 840 €. Verificação: 1 960 € + 840 € = 2 800 € ✓.

Pelo FIFO: consome-se primeiro o stock inicial (100 un a 5,00 €), depois a entrada de dia 5 (200 un a 5,50 €), e só depois parte da entrada de dia 15: 350 − 100 − 200 = 50 unidades a 6,00 €.

Valor das saídas = (100 × 5,00 €) + (200 × 5,50 €) + (50 × 6,00 €) = 500 € + 1 100 € + 300 € = 1 900 €. Stock final = as 150 unidades restantes da entrada de dia 15, a 6,00 € = 900 €. Verificação: 1 900 € + 900 € = 2 800 € ✓.

Os dois métodos partem do mesmo valor total, mas distribuem-no de forma diferente entre saídas e stock final. O FIFO aproxima o valor do stock final ao custo mais recente; o CMP suaviza as variações de preço ao longo do tempo.

Colaborar no inventário de produtos

O inventário é a contagem física do stock, para confirmar (ou corrigir) o que o sistema informático regista. É uma das realizações centrais desta UC: colaborar no inventário de produtos, e um critério de desempenho aplicar os procedimentos de inventário de acordo com o plano estabelecido.

Tipos de inventário:

Exemplo resolvido · apurar diferenças de inventário

Após uma contagem física, comparam-se as quantidades contadas com as que o sistema regista:

Artigo Sistema Contado Diferença Custo unitário Valor do ajuste
Ref. 101 200 196 −4 (falta) 3,00 € −12,00 €
Ref. 102 150 150 0 5,00 € 0,00 €
Ref. 103 80 85 +5 (sobra) 12,00 € +60,00 €
Ref. 104 300 291 −9 (falta) 1,50 € −13,50 €

Ajuste total de inventário = −12,00 + 0,00 + 60,00 − 13,50 = +34,50 €.

O sistema é corrigido para os valores contados, e as diferenças ficam registadas: as faltas entram, à partida, como quebra (a investigar se são conhecidas ou desconhecidas, capítulo 12); a sobra da Ref. 103 pode indicar um erro de registo anterior, a investigar antes de simplesmente "aceitar" o ganho.

11. Expedição e devoluções

Expedir os produtos é a segunda realização central da UC: preparar e enviar a mercadoria que sai da empresa, seja para uma loja, para um cliente final ou para outro armazém.

Procedimento de expedição

  1. Picking · recolher os artigos da encomenda de venda nas localizações de armazenagem.
  2. Conferência · verificar que a quantidade e a referência correspondem ao documento de saída, para evitar erros na expedição.
  3. Embalagem e acondicionamento · proteger a mercadoria para o transporte.
  4. Emissão da guia de transporte e atualização do stock (saída no sistema).
  5. Carregamento e despacho para o transportador ou entrega direta.

Um erro de expedição (enviar o artigo errado ou a quantidade errada) gera custos duplos: o transporte da devolução e o transporte da correção, além de insatisfação do cliente. A conferência antes de fechar a caixa é o ponto de controlo mais barato de todo o processo.

Devoluções de clientes

As devoluções são um fluxo inverso que a gestão de stocks tem de tratar com o mesmo rigor da expedição: confirmar o motivo, o estado do artigo (vendável, danificado, fora de prazo) e decidir o destino: repor em stock vendável, enviar para quarentena, devolver ao fornecedor ou abater. Devoluções mal geridas distorcem o stock e escondem quebras reais.

12. Quebras: conceito, origem e causas

Quebra é a diferença entre o stock que o sistema regista e o stock que realmente existe, avaliada em quantidade ou em valor. Toda a empresa de comércio tem quebra; o objetivo não é eliminá-la (impossível), mas conhecê-la, controlá-la e reduzi-la.

Quebra conhecida e desconhecida

Um inventário revela: stock contabilístico = 18 500 unidades; stock físico contado = 17 930 unidades.

Quebra total = 18 500 − 17 930 = 570 unidades. Destas, 340 unidades já estavam registadas como quebra conhecida (produtos danificados e validades retiradas ao longo do mês).

Quebra desconhecida = 570 − 340 = 230 unidades, sem causa documentada: é este número que preocupa a gestão e que desencadeia investigação.

Ao preço médio de venda de 2,50 €, o valor da quebra total é 570 × 2,50 € = 1 425 €. Face a vendas anuais de 500 000 €, a percentagem de quebra é 1 425 / 500 000 × 100 = 0,285% (aproximadamente 0,29%), um valor a comparar com a média do setor para avaliar se é aceitável.

Causas extraordinárias

Eventos pontuais e de grande impacto, normalmente cobertos por seguro: incêndios e danos por água, derrocadas, falhas estruturais, tempestades, roubos e vandalismo.

Causas operacionais

O dia a dia da loja e do armazém, com muitas fontes pequenas mas persistentes:

A maior parte da quebra operacional não é dramática nem visível isoladamente; é a soma de muitos pequenos erros de processo. Por isso o controlo sistemático (capítulo seguinte) importa mais do que reagir a um incidente isolado.

13. Prevenção e gestão das quebras

Tratar as quebras "de acordo com a política interna da empresa" é um critério de desempenho desta UC. Prevenir e gerir quebra é um ciclo contínuo, não um evento único.

Procedimentos para a diminuição das quebras

Sistemas de avaliação, objetivos e monitorização

Uma política de quebra séria assenta em três passos:

  1. Definição de objetivos de quebra · uma meta concreta (por exemplo, reduzir de 0,29% para 0,20% das vendas) e as metodologias para a atingir (auditorias, formação, mudança de layout).
  2. Implementação de sistemas de avaliação e de melhoria · medir regularmente, comparar com a meta, ajustar o que não funciona.
  3. Monitorização constante dos resultados e implementação de medidas corretivas assim que um desvio é detetado, sem esperar pelo inventário anual seguinte.

Uma loja fixa como objetivo baixar a quebra desconhecida em 30% no próximo ano. Implementa: câmaras na zona de picking, dupla conferência nas expedições de maior valor, e uma auditoria mensal aleatória a 10% das referências classe A. Ao fim de seis meses, mede novamente a quebra desconhecida e compara com a meta a meio percurso, ajustando as medidas que não estão a resultar.

14. Segurança, acessos e equipamentos de proteção individual

Manusear os equipamentos de armazém respeitando os princípios de segurança, e respeitar as normas de segurança e saúde no trabalho, são dois critérios de desempenho centrais desta UC.

Sistemas de segurança e controlo de acessos

Equipamentos de proteção individual (EPI) e normas de segurança

A maior parte dos acidentes graves em armazém envolve equipamentos de movimentação (empilhadores, porta-paletes elétricos) e falta de EPI. O critério de desempenho "manusear respeitando os princípios de segurança" não é burocracia: é o que separa um armazém seguro de uma estatística.

15. Arrumação, manuseamento e acondicionamento de carga

Arrumação e métodos de previsão

Arrumar bem não é só "ter espaço": é decidir onde cada artigo fica, para minimizar deslocações e erros.

Manuseamento, embalamento e acondicionamento

Numa loja de eletrodomésticos, os artigos classe A (frigoríficos, máquinas de lavar) ficam junto à zona de expedição, por terem maior rotação e maior peso; os acessórios classe C (filtros, mangueiras) ficam em prateleiras mais altas e distantes, por serem procurados com pouca frequência.

FIFO físico e FEFO: arrumar para não estragar

Arrumar bem também é uma questão de prevenir quebra por validade, e aqui é preciso separar dois conceitos que soam parecidos mas não são o mesmo:

Não confundir os dois FIFO. Uma empresa pode valorizar o stock por custo médio ponderado (capítulo 10) e, ainda assim, arrumar fisicamente por FIFO físico ou FEFO (o mais antigo, ou o de validade mais próxima, à frente). São decisões independentes: uma é sobre como calcular o valor em euros, a outra é sobre como o produto se move fisicamente na prateleira.

16. Sinalização, resíduos, ambiente e qualidade

Fecham o referencial as normas transversais que enquadram toda a atividade de armazém:

Estas normas não são "extra": atravessam todos os capítulos anteriores. Uma receção bem sinalizada, resíduos separados corretamente e um procedimento documentado de inventário são, na prática, o mesmo rigor aplicado a frentes diferentes.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Controlar stocks é um ciclo que começa antes da mercadoria chegar (compras, encomendas, indicadores) e continua depois de sair (expedição, devoluções, quebras). Os indicadores (rotação, cobertura, ponto de encomenda, classificação ABC) dizem quando e quanto encomendar, e o software de gestão de stocks é o que os calcula e apresenta em mapas prontos a analisar; a receção e a armazenagem garantem que o que chega é o que foi pedido e fica bem guardado, com o orçamento de transporte já previsto antes de a mercadoria seguir viagem; a valorização e o inventário (FIFO, CMP, contagem física) mantêm o stock financeiramente correto, e o FIFO físico e o FEFO mantêm-no fisicamente correto na prateleira; as quebras, conhecidas e desconhecidas, exigem prevenção contínua, não só reação; e a segurança, os acessos e as normas de qualidade e ambiente atravessam todo o processo. Um técnico de comércio que domina este fluxo controla o stock em vez de ser controlado por ele.

Exercícios resolvidos

1. Uma loja tem stock inicial de 900 unidades e stock final de 700 unidades num mês, com vendas de 4 000 unidades no mesmo mês. Calcula a rotação mensal e a cobertura em dias, considerando o mês com 30 dias.

Resolução: Stock médio = (900 + 700) / 2 = 800 unidades. Rotação mensal = 4 000 / 800 = 5. Cobertura = 30 / 5 = 6 dias. O stock atual dura cerca de uma semana ao ritmo de vendas do mês.

2. Um artigo tem consumo médio de 15 unidades/dia, o fornecedor entrega em 10 dias, e a empresa define 40 unidades de stock de segurança. Calcula o ponto de encomenda.

Resolução: Ponto de encomenda = (15 × 10) + 40 = 150 + 40 = 190 unidades.

3. Numa análise ABC com valor total de 50 000 €, um artigo isolado representa 41 000 € (82% do total). Em que classe fica, e porquê?

Resolução: Fica em classe B, mesmo sendo um único artigo: 82% já ultrapassa o corte dos 80% definido para a classe A, por isso entra na classe seguinte, apesar de ser sozinho responsável pela maior fatia do valor.

4. Um inventário encontra stock contabilístico de 5 200 unidades e stock físico de 5 060 unidades. Há 90 unidades já registadas como quebra conhecida (produtos fora de validade). Calcula a quebra total e a quebra desconhecida.

Resolução: Quebra total = 5 200 − 5 060 = 140 unidades. Quebra desconhecida = 140 − 90 = 50 unidades, sem causa documentada.

5. Explica a diferença entre valorizar o stock por FIFO e por custo médio ponderado, e diz em que é que os dois métodos coincidem sempre.

Resolução: O FIFO consome primeiro as unidades mais antigas, pelo preço a que entraram; o CMP trata todas as unidades como se tivessem o mesmo custo, a média ponderada de todas as entradas. Os dois métodos coincidem sempre no valor total disponível (a soma de saídas mais stock final é igual nos dois casos); diferem apenas na forma como esse total se reparte entre o que já saiu e o que ainda está em stock.

6. Um colaborador diz "encontrámos 8 unidades a mais no inventário, é lucro, vamos só ajustar o sistema". O que respondes?

Resolução: Uma sobra de inventário não é automaticamente lucro: pode ser um erro de registo anterior (por exemplo, uma entrada não lançada ou uma saída lançada a mais), que só agora aparece corrigido pela contagem física. Antes de ajustar o sistema como um ganho, deve investigar-se a causa; só depois de confirmado que não há explicação documentável se trata como diferença de inventário a favor.