Sebenta · Controlar os stocks em loja e armazém (UC02692)
- Introdução
- 1. Aprovisionamento, gestão de stocks e logística
- 2. Indicadores de gestão de stocks: rotação, cobertura e stock de segurança
- 3. Software de gestão de stocks
- 4. Classificação ABC dos stocks
- 5. Custos de stocks e orçamentação
- 6. A função compras
- 7. Gestão das encomendas
- 8. O armazém: conceito, organização e equipamentos
- 9. Receção, conferência e armazenagem
- 10. Valorização de stocks e inventário
- 11. Expedição e devoluções
- 12. Quebras: conceito, origem e causas
- 13. Prevenção e gestão das quebras
- 14. Segurança, acessos e equipamentos de proteção individual
- 15. Arrumação, manuseamento e acondicionamento de carga
- 16. Sinalização, resíduos, ambiente e qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a controlar os stocks de uma empresa de comércio, do momento em que a mercadoria chega ao armazém até ao momento em que sai para o cliente. É uma das competências mais transversais do técnico de comércio: sem stocks bem geridos não há vendas, e stocks mal geridos custam dinheiro todos os dias, quer haja produto a mais (capital parado, prazos de validade ultrapassados) quer haja produto a menos (rutura, cliente perdido).
O percurso segue o ciclo real de um armazém: primeiro os conceitos e os indicadores de gestão de stocks, depois a função compras e a gestão das encomendas, a seguir o armazém físico (organização, equipamentos, receção e armazenagem), a valorização e o inventário, a expedição, as quebras e a forma de as prevenir, e por fim a segurança e as normas que protegem pessoas, mercadoria e ambiente.
Objetivos de aprendizagem (referencial): rececionar e conferir os produtos em armazém; expedir os produtos; colaborar no inventário de produtos; e monitorizar os indicadores de stocks, utilizando o sistema informático para retirar relatórios de gestão. No fim desta UC deves saber aplicar os procedimentos de receção, conferência, armazenagem, expedição e inventário, tratar as quebras segundo a política da empresa e trabalhar em segurança.
1. Aprovisionamento, gestão de stocks e logística
O aprovisionamento é a função que garante que a empresa tem, no momento certo, a quantidade certa de mercadoria, ao custo mais adequado. Sem aprovisionamento não há o que vender, não há o que produzir e não há o que entregar: é o alicerce silencioso de qualquer negócio de comércio.
A gestão de stocks é o conjunto de técnicas que controla as quantidades de mercadoria armazenadas, para equilibrar dois custos que puxam em direções opostas: o custo de ter stock a mais (dinheiro parado, espaço ocupado, risco de quebra) e o custo de ter stock a menos (rutura, vendas perdidas, clientes insatisfeitos). Terminologia de base:
- Stock · quantidade de um artigo disponível num determinado momento.
- Existências · sinónimo de stock, usado sobretudo em contabilidade.
- Referência (SKU) · código único que identifica um artigo.
- Rutura de stock · falta do produto quando é preciso.
- Stock morto · produto parado, sem rotação, a ocupar espaço e capital.
A logística é a disciplina mais larga que gere o fluxo físico e de informação, desde o fornecedor até ao cliente final: transporte, armazenagem, gestão de stocks e distribuição. Numa economia globalizada, a logística é decisiva: um atraso na origem (fábrica na Ásia, por exemplo) propaga-se por toda a cadeia de abastecimento até à prateleira da loja portuguesa. Uma boa gestão de stocks é a forma de a empresa absorver essa incerteza sem deixar o cliente sem produto.
Tipos de gestão de stocks
O referencial distingue três dimensões da gestão de stocks, que coexistem na mesma empresa:
| Tipo | O que trata |
|---|---|
| Gestão material | fluxo físico: receção, arrumação, movimentação, contagem |
| Gestão administrativa | registo documental: fichas de stock, guias, encomendas, inventário |
| Gestão económica | o lado financeiro: custos, valorização do stock, rentabilidade |
Numa ferragem, a gestão material é o colaborador que arruma as caixas de parafusos na prateleira; a gestão administrativa é o registo no sistema informático de que entraram 500 unidades; a gestão económica é saber quanto vale esse stock em euros e se compensa manter tanta quantidade parada.
2. Indicadores de gestão de stocks: rotação, cobertura e stock de segurança
Gerir stocks sem indicadores é gerir às cegas. O sistema informático de aprovisionamento produz relatórios que traduzem o stock em números que se comparam, mês a mês, artigo a artigo.
Rotação de stocks
A rotação de stocks mede quantas vezes o stock médio se renova num período (normalmente um ano). Calcula-se pela fórmula:
Rotação = Vendas do período (em unidades ou em euros) / Stock médio do mesmo período
O stock médio pode calcular-se de forma simples como a média entre o stock inicial e o stock final do período:
Stock médio = (Stock inicial + Stock final) / 2
Uma loja tem 820 unidades em stock no início do ano e 640 unidades no final do ano. Stock médio anual = (820 + 640) / 2 = 730 unidades.
Ao longo desse mesmo ano, a loja vendeu 7 300 unidades desse artigo. Rotação anual = 7 300 / 730 = 10 rotações por ano. O stock renova-se, em média, dez vezes por ano.
Quanto maior a rotação, mais depressa o stock se transforma em vendas, e menos capital fica parado. Uma rotação muito baixa é sinal de excesso de stock ou de artigo com pouca procura.
Cobertura de stocks
A cobertura traduz a rotação em dias: quantos dias o stock atual chega, ao ritmo de vendas atual. A fórmula geral usa sempre o número de dias do mesmo período da rotação:
Cobertura (dias) = Dias do período / Rotação do período
Na prática usam-se 365 dias quando a rotação é anual, e 30 dias quando a rotação é mensal (ou o número exato de dias do período em causa, se for outro).
Com a rotação anual de 10 calculada acima: Cobertura = 365 / 10 = 36,5 dias. O stock médio desta loja dura, em média, pouco mais de um mês.
Stock de segurança e ponto de encomenda
O stock de segurança (ou stock mínimo) é a quantidade extra que protege contra imprevistos: um atraso do fornecedor ou um pico de vendas. O ponto de encomenda é o nível de stock que dispara uma nova encomenda, para que a mercadoria chegue antes de o stock de segurança ser tocado:
Ponto de encomenda = (Consumo médio diário × Prazo de entrega) + Stock de segurança
Um artigo vende, em média, 40 unidades por dia. O fornecedor demora 6 dias a entregar. A loja define um stock de segurança de 60 unidades.
Ponto de encomenda = (40 × 6) + 60 = 240 + 60 = 300 unidades. Assim que o stock desce para 300, é preciso encomendar de novo, para não correr o risco de rutura.
Quanto mais irregular for o prazo do fornecedor ou a procura do artigo, maior deve ser o stock de segurança. Um fornecedor pontual e uma procura estável permitem trabalhar com margens mais apertadas.
3. Software de gestão de stocks
Todos os indicadores do capítulo anterior (rotação, cobertura, ponto de encomenda) só existem na prática porque o software de gestão de stocks os calcula automaticamente, a partir dos movimentos registados no sistema. Duas aptidões desta UC dependem diretamente de saber usar essa ferramenta: utilizar as funcionalidades do sistema informático de gestão de stocks e analisar mapas retirados do software de gestão de stocks.
A ficha de artigo no sistema
Cada referência tem, no sistema, uma ficha de artigo que reúne toda a informação necessária à gestão de stocks:
- Referência (SKU), designação e código de barras.
- Fornecedor habitual, prazo de entrega e quantidade mínima de encomenda.
- Preço de custo e preço de venda.
- Localização física no armazém (corredor, prateleira).
- Stock atual, stock de segurança e ponto de encomenda.
- Histórico de movimentos: todas as entradas e saídas registadas.
É esta ficha que sustenta a gestão das encomendas (capítulo 7) e a receção de mercadoria (capítulo 9): sem ela atualizada, nenhum indicador é de confiar.
Tipos de mapas e relatórios
O critério de desempenho de retirar relatórios que permitem analisar os indicadores de gestão de stocks aponta para quatro mapas que qualquer sistema de gestão de stocks deve produzir:
- Mapa de existências · quantidade em stock de cada artigo, a uma determinada data.
- Mapa de rotação por artigo · rotação e cobertura recalculadas automaticamente para cada referência (capítulo 2).
- Mapa de artigos abaixo do ponto de encomenda · lista os artigos que já atingiram o ponto de encomenda, o gatilho de compra (capítulo 2).
- Mapa de quebras · quebra conhecida e desconhecida por artigo e por período (capítulo 12).
Extrato de um mapa de artigos abaixo do ponto de encomenda, tal como sai do sistema:
| Artigo | Stock atual | Ponto de encomenda | Situação |
|---|---|---|---|
| Ref. A1 | 180 | 300 | Abaixo, encomendar |
| Ref. A2 | 420 | 300 | Acima, ok |
| Ref. B1 | 95 | 90 | Acima, ok (margem apertada) |
| Ref. B2 | 40 | 60 | Abaixo, encomendar |
| Ref. C1 | 500 | 120 | Acima, ok |
Basta comparar a coluna do stock atual com a do ponto de encomenda: a Ref. A1 e a Ref. B2 já o ultrapassaram por baixo, por isso aparecem sinalizadas para encomenda imediata. Cruzar este mapa com a classificação ABC do artigo (capítulo 4) ajuda a decidir qual das duas encomendar primeiro, se os recursos para tratar as duas ao mesmo tempo forem limitados.
Códigos de barras e terminais de recolha de dados
- Código de barras (normalmente EAN-13 no retalho) identifica cada artigo de forma inequívoca, e é lido em vez de escrito à mão em cada receção, expedição ou contagem, o que reduz drasticamente o erro humano de registo.
- Terminal de recolha de dados (TRD) · leitor portátil que lê o código de barras e regista a operação diretamente no sistema, em tempo real. É a ferramenta que torna um inventário rotativo (capítulo 10) rápido de fazer sem parar a loja.
Uma contagem de inventário feita com terminal de recolha de dados é muito mais rápida e muito menos sujeita a erro do que uma folha de papel com a lista de artigos escrita à mão: cada leitura já identifica o artigo certo, sem risco de trocar a referência.
4. Classificação ABC dos stocks
Nem todos os artigos merecem a mesma atenção. A análise ABC (ou curva de Pareto aplicada aos stocks) classifica os artigos pelo seu valor anual movimentado (quantidade × preço), para concentrar o esforço de controlo onde ele mais compensa.
Regra de corte usada nesta UC: ordenam-se os artigos por valor decrescente, calcula-se a percentagem acumulada do valor total, e classifica-se:
- Classe A · artigos cuja percentagem acumulada chega até 80% do valor total. Normalmente poucos artigos, com grande peso.
- Classe B · a partir dos 80% até 95% acumulados.
- Classe C · a partir dos 95% até 100%. Muitos artigos, cada um com pouco peso individual.
Uma loja tem 8 referências, com o valor anual movimentado seguinte (já ordenado do maior para o menor):
| Artigo | Valor anual | % do valor | % acumulada | Classe |
|---|---|---|---|---|
| Ref. A1 | 42 000 € | 42,00% | 42,00% | A |
| Ref. A2 | 28 000 € | 28,00% | 70,00% | A |
| Ref. B1 | 12 000 € | 12,00% | 82,00% | B |
| Ref. B2 | 8 000 € | 8,00% | 90,00% | B |
| Ref. B3 | 5 000 € | 5,00% | 95,00% | B |
| Ref. C1 | 2 500 € | 2,50% | 97,50% | C |
| Ref. C2 | 1 500 € | 1,50% | 99,00% | C |
| Ref. C3 | 1 000 € | 1,00% | 100,00% | C |
Valor total: 100 000 €. A Ref. A2 fecha os 70% acumulados, ainda dentro dos 80%, por isso a classe A termina aí; a Ref. B1 leva o acumulado a 82%, já acima dos 80%, por isso entra na classe B. A classe B fecha exatamente aos 95% (Ref. B3), e tudo o resto é classe C.
Conclusão: só 2 artigos em 8 (25%) são classe A, mas representam 70% do valor movimentado. É aí que o controlo, a contagem frequente e a negociação com fornecedores compensam mais.
| Classe | % de artigos (típico) | % do valor | Política de controlo |
|---|---|---|---|
| A | 10-20% | até 80% | contagem frequente, stock de segurança apertado, negociação cuidada |
| B | 20-30% | 80-95% | controlo intermédio, revisão periódica |
| C | 50-70% | 95-100% | controlo simples, stock de segurança mais folgado |
O corte é sempre pela percentagem acumulada, nunca pelo número de artigos. Esta UC adota a convenção estrita: assim que o acumulado ultrapassa os 80%, o artigo já é classe B, mesmo que seja o primeiro e único a fazê-lo. Por isso um artigo pode estar sozinho e ainda assim ser classe B, se sozinho já ultrapassar os 80% acumulados; e outro pode ser o vigésimo da lista e continuar classe A, se o acumulado ainda não tiver chegado aos 80%. O que decide a classe nunca é a posição na lista, é sempre a percentagem acumulada nesse ponto.
5. Custos de stocks e orçamentação
Manter stock não é gratuito. A orçamentação da gestão de stocks soma, pelo menos, dois grandes grupos de custos:
- Custo de encomenda · o que custa cada ato de encomendar: processamento administrativo, transporte, receção. É um custo fixo por encomenda, que dilui quando se encomenda mais de cada vez.
- Custo de posse (armazenagem) · o que custa manter o stock parado: espaço, seguros, deterioração, e sobretudo o custo de oportunidade do capital investido em mercadoria em vez de estar a render de outra forma. Costuma calcular-se como uma taxa anual sobre o valor do stock médio.
Custo de encomenda anual = Custo por encomenda × Número de encomendas no ano
Custo de posse anual = Taxa de posse × Custo unitário × Stock médio
Custo total de stocks = Custo de encomenda anual + Custo de posse anual
Uma loja encomenda um artigo 12 vezes por ano, a um custo de 25 € por encomenda (transporte e processamento).
Custo de encomenda anual = 25 × 12 = 300 €.
O artigo custa 10 € cada, o stock médio é de 500 unidades, e a empresa estima a taxa de posse em 20% ao ano (armazém, seguro, capital parado).
Custo de posse anual = 0,20 × 10 € × 500 = 1 000 €.
Custo total de stocks = 300 € + 1 000 € = 1 300 € por ano, só com este artigo.
Este cálculo mostra porque encomendar menos vezes e em maior quantidade reduz o custo de encomenda, mas aumenta o stock médio e, com ele, o custo de posse. O equilíbrio entre os dois é o que a gestão de stocks procura, artigo a artigo.
Orçamento previsional de custos de transporte
A aptidão de elaborar orçamentos previsionais de custos de transportes de mercadorias pede ao técnico de comércio que saiba estimar, antes de a mercadoria seguir viagem, quanto vai custar transportá-la. A estrutura do custo de transporte segue a mesma lógica dos custos de stocks vistos acima: uma parte fixa e uma parte variável.
- Custo fixo por expedição · cobre a documentação e o processamento administrativo, independentemente do peso ou do destino.
- Custo variável · cresce com o peso, o volume ou a distância percorrida. A maior parte das transportadoras cobra-o por escalões: intervalos de peso (ou de zona de distância), cada um com um preço fixo ou uma taxa por quilo.
- Peso real vs. peso taxável · quando a mercadoria é volumosa mas leve, a transportadora não cobra pelo peso real, mas pelo peso taxável: o maior valor entre o peso real e o peso volumétrico, calculado a partir das dimensões da carga e de um fator de cubicagem (normalmente 5000 cm³/kg no transporte rodoviário em Portugal).
- Custo por unidade transportada · custo total do transporte a dividir pelo número de unidades da expedição, útil para imputar o custo de transporte ao custo de cada artigo vendido.
Peso volumétrico (kg) = (Comprimento × Largura × Altura, em cm) / 5000
Peso taxável = maior valor entre Peso real e Peso volumétrico
Custo total de transporte = Custo fixo por expedição + Custo variável (pelo escalão do peso taxável)
Custo por unidade transportada = Custo total de transporte / Número de unidades transportadas
Uma ferragem expede mensalmente, para uma loja satélite, uma encomenda de 200 baldes de plástico, distribuídos por 4 caixas de 50 × 40 × 30 cm cada, com um peso real de 4 kg por caixa (16 kg no total).
Peso volumétrico por caixa = (50 × 40 × 30) / 5000 = 60 000 / 5000 = 12 kg. Para as 4 caixas, peso volumétrico total = 4 × 12 = 48 kg.
Peso taxável = maior valor entre o peso real (16 kg) e o peso volumétrico (48 kg) = 48 kg: mesmo sendo uma carga leve, a transportadora cobra pelo volume que ocupa, não pelo peso que tem.
A transportadora aplica estes escalões por peso taxável: até 20 kg, 12 €; de 20 a 50 kg, 22 €; de 50 a 100 kg, 35 €; acima de 100 kg, 0,50 €/kg. Os 48 kg taxáveis caem no escalão dos 20-50 kg: custo variável = 22 €.
A empresa cobra ainda um custo fixo de 8 € por expedição (documentação e processamento).
Custo total de transporte = 8 € + 22 € = 30 €.
Custo por unidade transportada = 30 € / 200 unidades = 0,15 €/unidade. Este valor soma-se ao custo do artigo quando a empresa calcula a margem real de cada balde vendido.
6. A função compras
A função compras garante que a empresa adquire a mercadoria certa, na quantidade certa, ao fornecedor certo, ao melhor preço e condições. Evoluiu de uma tarefa administrativa e reativa ("encomendar o que falta") para uma função estratégica, com peso direto na margem da empresa.
Estrutura e responsabilidades
Em empresas maiores, a função compras tem uma estrutura organizacional própria (departamento de compras), com responsáveis por família de produtos. Numa loja pequena, o técnico de comércio acumula muitas destas responsabilidades: identificar necessidades, contactar fornecedores, negociar condições, colocar encomendas e acompanhar entregas.
Planeamento de compras
- Identificação das necessidades · cruzar o stock atual, o histórico de vendas e os indicadores (rotação, ponto de encomenda) para saber o que e quanto comprar.
- Ciclo de compra e venda · o compasso entre o momento em que se compra e o momento em que se vende, que define quanto tempo o capital fica investido em stock.
- Métodos de compra · compra pontual (por necessidade concreta), compra programada (calendário fixo, ex.: semanal) e compra por contrato-quadro (acordo de longo prazo com condições fixas).
Seleção de fornecedores
Escolher fornecedor não se resume ao preço. O processo típico:
- Pesquisa de fornecedores possíveis (feiras, catálogos, plataformas B2B, recomendação).
- Aspetos críticos a avaliar: preço, prazo de entrega, qualidade, condições de pagamento, capacidade de resposta.
- Critérios de seleção, ponderados conforme a prioridade da empresa (nem sempre o mais barato é o escolhido, se o prazo ou a qualidade forem críticos).
- Avaliação contínua: depois de escolhido, o fornecedor continua a ser avaliado (cumprimento de prazos, qualidade das entregas, resposta a reclamações), para decidir se se mantém ou se se procura alternativa.
Uma boa prática é manter mais do que um fornecedor para os artigos mais críticos (classe A da análise ABC), para não ficar refém de um único parceiro em caso de rutura ou de subida de preço.
7. Gestão das encomendas
A encomenda é o elo entre a decisão de compra e a chegada da mercadoria, e tem de estar articulada com a gestão de stocks: encomenda-se com base nos indicadores (ponto de encomenda, rotação, previsão de vendas), não por impulso.
Organização das encomendas
- Organização da base de dados · cada artigo tem uma ficha com referência, fornecedor habitual, prazo de entrega, quantidade mínima de encomenda e histórico de compras.
- Escolha do sortido · decidir que variedade de artigos (marcas, tamanhos, cores, gamas de preço) compõe a oferta da loja, equilibrando o que os clientes procuram com o espaço e o capital disponíveis.
- Comunicação com os fornecedores · hoje feita sobretudo por plataformas eletrónicas de encomenda (EDI, portais B2B, email estruturado), que reduzem erros face ao telefone.
Uma papelaria detecta, no relatório do sistema, que um caderno específico atingiu o ponto de encomenda (300 unidades, calculado no capítulo 2). O responsável consulta a ficha do artigo, confirma o fornecedor habitual e o prazo de 6 dias, e coloca a encomenda através do portal do fornecedor, referindo o código interno e a quantidade que repõe o stock até ao nível-alvo definido.
8. O armazém: conceito, organização e equipamentos
O armazém é o espaço físico onde a mercadoria é recebida, guardada e preparada para expedição. Não é um mero depósito: é uma peça central da cadeia de abastecimento, onde a eficiência da arrumação e da movimentação decide a velocidade e o custo de todo o processo.
Organização do espaço, da mercadoria e dos documentos
Um armazém bem organizado separa claramente:
- Zonas · receção, armazenagem, preparação de encomendas (picking), expedição, e uma zona de quarentena para produtos com problema ou devolvidos.
- Mercadoria · arrumada por critérios que facilitam a localização (por família, por rotação, por data de validade).
- Documentos · guias de remessa, faturas, fichas de receção e de inventário, arquivados de forma consistente para suportar auditorias e reclamações.
Equipamentos de armazenagem
O referencial distingue três grupos de equipamentos:
| Grupo | Exemplos |
|---|---|
| Apoio à operação | compactadores de resíduos, máquina de filmar paletes, máquina de fechar caixas, monta-cargas |
| Movimentação | porta-paletes, stacker, empilhador frontal, empilhador retrátil, order picker, reboque, tridirecional |
| Automação | máquina de preparação automática, porta-paletes manual e elétrico, stacker, retrátil, transpalete |
Num armazém de médio porte: o porta-paletes manual move paletes curtas distâncias sem eletricidade; o empilhador retrátil eleva paletes a vários metros de altura em corredores estreitos; a máquina de filmar paletes envolve a mercadoria em filme plástico antes da expedição, para não se desfazer no transporte.
Cada equipamento exige formação e, nalguns casos (empilhadores), certificação específica. Usar um equipamento sem formação é um risco de acidente grave, além de infração às normas de segurança e saúde no trabalho.
9. Receção, conferência e armazenagem
A receção de produtos é o primeiro ponto de controlo de qualidade da mercadoria que entra na empresa, e é uma das quatro realizações centrais desta UC: rececionar e conferir os produtos em armazém.
Procedimento de receção e conferência
- Confirmar que a entrega corresponde a uma encomenda em aberto (não se recebe mercadoria não encomendada sem validação).
- Conferir a guia de remessa contra o que fisicamente chega: quantidades, referências, estado da embalagem.
- Contar e inspecionar a mercadoria: danos de transporte, validade, conformidade com a encomenda.
- Registar discrepâncias (falta, excesso, dano) e comunicá-las ao fornecedor e à gestão de compras.
- Dar entrada no sistema informático, atualizando o stock disponível.
- Arrumar a mercadoria no local definido, de acordo com a organização do armazém.
Chega uma palete de 500 garrafas de detergente. A guia de remessa indica 500 unidades; a contagem física confirma 500, mas 4 garrafas chegam com a tampa danificada. Regista-se a não conformidade de 4 unidades, dá-se entrada de 496 unidades vendáveis em stock, e comunica-se ao fornecedor para efeitos de nota de crédito.
Quando e como encomendar
Este capítulo fecha o ciclo aberto no capítulo 2: quando encomendar depende do ponto de encomenda e da rotação; como encomendar depende do método (pontual, programado, contrato-quadro) e do canal acordado com o fornecedor. O controlo de entradas e saídas no sistema informático é o que mantém o stock teórico fiel à realidade, condição para todos os indicadores funcionarem.
10. Valorização de stocks e inventário
Depois de a mercadoria entrar em armazém, é preciso saber quanto vale o stock guardado, sobretudo quando o mesmo artigo entrou em datas diferentes, a preços diferentes.
FIFO e custo médio ponderado (CMP)
- FIFO (First In, First Out) · as saídas de stock consomem primeiro as unidades mais antigas, pela ordem de entrada.
- Custo médio ponderado (CMP) · todas as unidades em stock passam a valer o mesmo, calculado pela média ponderada de todas as entradas.
CMP = Valor total em stock / Quantidade total em stock
O stock de um artigo teve estes movimentos num mês:
| Movimento | Quantidade | Preço unitário | Valor |
|---|---|---|---|
| Stock inicial | 100 | 5,00 € | 500 € |
| Entrada dia 5 | 200 | 5,50 € | 1 100 € |
| Entrada dia 15 | 200 | 6,00 € | 1 200 € |
| Total disponível | 500 | - | 2 800 € |
Saíram 350 unidades no mês. Stock final em quantidade = 500 − 350 = 150 unidades.
Pelo CMP: CMP = 2 800 € / 500 = 5,60 €/unidade. Valor das saídas = 350 × 5,60 € = 1 960 €. Valor do stock final = 150 × 5,60 € = 840 €. Verificação: 1 960 € + 840 € = 2 800 € ✓.
Pelo FIFO: consome-se primeiro o stock inicial (100 un a 5,00 €), depois a entrada de dia 5 (200 un a 5,50 €), e só depois parte da entrada de dia 15: 350 − 100 − 200 = 50 unidades a 6,00 €.
Valor das saídas = (100 × 5,00 €) + (200 × 5,50 €) + (50 × 6,00 €) = 500 € + 1 100 € + 300 € = 1 900 €. Stock final = as 150 unidades restantes da entrada de dia 15, a 6,00 € = 900 €. Verificação: 1 900 € + 900 € = 2 800 € ✓.
Os dois métodos partem do mesmo valor total, mas distribuem-no de forma diferente entre saídas e stock final. O FIFO aproxima o valor do stock final ao custo mais recente; o CMP suaviza as variações de preço ao longo do tempo.
Colaborar no inventário de produtos
O inventário é a contagem física do stock, para confirmar (ou corrigir) o que o sistema informático regista. É uma das realizações centrais desta UC: colaborar no inventário de produtos, e um critério de desempenho aplicar os procedimentos de inventário de acordo com o plano estabelecido.
Tipos de inventário:
- Inventário geral · conta-se todo o stock, normalmente uma vez por ano, muitas vezes com a loja fechada.
- Inventário rotativo (cíclico) · conta-se uma parte do stock com regularidade (por exemplo, os artigos classe A todos os meses), sem parar a atividade.
Exemplo resolvido · apurar diferenças de inventário
Após uma contagem física, comparam-se as quantidades contadas com as que o sistema regista:
| Artigo | Sistema | Contado | Diferença | Custo unitário | Valor do ajuste |
|---|---|---|---|---|---|
| Ref. 101 | 200 | 196 | −4 (falta) | 3,00 € | −12,00 € |
| Ref. 102 | 150 | 150 | 0 | 5,00 € | 0,00 € |
| Ref. 103 | 80 | 85 | +5 (sobra) | 12,00 € | +60,00 € |
| Ref. 104 | 300 | 291 | −9 (falta) | 1,50 € | −13,50 € |
Ajuste total de inventário = −12,00 + 0,00 + 60,00 − 13,50 = +34,50 €.
O sistema é corrigido para os valores contados, e as diferenças ficam registadas: as faltas entram, à partida, como quebra (a investigar se são conhecidas ou desconhecidas, capítulo 12); a sobra da Ref. 103 pode indicar um erro de registo anterior, a investigar antes de simplesmente "aceitar" o ganho.
11. Expedição e devoluções
Expedir os produtos é a segunda realização central da UC: preparar e enviar a mercadoria que sai da empresa, seja para uma loja, para um cliente final ou para outro armazém.
Procedimento de expedição
- Picking · recolher os artigos da encomenda de venda nas localizações de armazenagem.
- Conferência · verificar que a quantidade e a referência correspondem ao documento de saída, para evitar erros na expedição.
- Embalagem e acondicionamento · proteger a mercadoria para o transporte.
- Emissão da guia de transporte e atualização do stock (saída no sistema).
- Carregamento e despacho para o transportador ou entrega direta.
Um erro de expedição (enviar o artigo errado ou a quantidade errada) gera custos duplos: o transporte da devolução e o transporte da correção, além de insatisfação do cliente. A conferência antes de fechar a caixa é o ponto de controlo mais barato de todo o processo.
Devoluções de clientes
As devoluções são um fluxo inverso que a gestão de stocks tem de tratar com o mesmo rigor da expedição: confirmar o motivo, o estado do artigo (vendável, danificado, fora de prazo) e decidir o destino: repor em stock vendável, enviar para quarentena, devolver ao fornecedor ou abater. Devoluções mal geridas distorcem o stock e escondem quebras reais.
12. Quebras: conceito, origem e causas
Quebra é a diferença entre o stock que o sistema regista e o stock que realmente existe, avaliada em quantidade ou em valor. Toda a empresa de comércio tem quebra; o objetivo não é eliminá-la (impossível), mas conhecê-la, controlá-la e reduzi-la.
Quebra conhecida e desconhecida
- Quebra conhecida · já identificada e documentada: um produto partido, uma validade expirada e retirada, um dano registado na receção.
- Quebra desconhecida · só aparece na diferença entre o inventário físico e o sistema, sem uma causa registada. É a mais preocupante, porque esconde furtos, erros de registo ou falhas de processo não detetadas.
Um inventário revela: stock contabilístico = 18 500 unidades; stock físico contado = 17 930 unidades.
Quebra total = 18 500 − 17 930 = 570 unidades. Destas, 340 unidades já estavam registadas como quebra conhecida (produtos danificados e validades retiradas ao longo do mês).
Quebra desconhecida = 570 − 340 = 230 unidades, sem causa documentada: é este número que preocupa a gestão e que desencadeia investigação.
Ao preço médio de venda de 2,50 €, o valor da quebra total é 570 × 2,50 € = 1 425 €. Face a vendas anuais de 500 000 €, a percentagem de quebra é 1 425 / 500 000 × 100 = 0,285% (aproximadamente 0,29%), um valor a comparar com a média do setor para avaliar se é aceitável.
Causas extraordinárias
Eventos pontuais e de grande impacto, normalmente cobertos por seguro: incêndios e danos por água, derrocadas, falhas estruturais, tempestades, roubos e vandalismo.
Causas operacionais
O dia a dia da loja e do armazém, com muitas fontes pequenas mas persistentes:
- Validade dos produtos ultrapassada · falha no controlo de datas ou no método de arrumação (ver capítulo 15, FIFO físico e FEFO).
- Quedas acidentais e mau acondicionamento (embalagem inadequada).
- Deficiente registo da localização do produto · perde-se tempo a procurar, e por vezes o artigo "desaparece" só porque não está onde o sistema diz.
- Furtos · de clientes (furto em loja) e, mais sensível, internos (colaboradores).
- Erros na expedição · enviar a menos, a mais ou o artigo errado.
- Devoluções de clientes mal tratadas ou não reintegradas corretamente no stock.
A maior parte da quebra operacional não é dramática nem visível isoladamente; é a soma de muitos pequenos erros de processo. Por isso o controlo sistemático (capítulo seguinte) importa mais do que reagir a um incidente isolado.
13. Prevenção e gestão das quebras
Tratar as quebras "de acordo com a política interna da empresa" é um critério de desempenho desta UC. Prevenir e gerir quebra é um ciclo contínuo, não um evento único.
Procedimentos para a diminuição das quebras
- Relacionamento com os fornecedores · embalagens mais resistentes, entregas mais fiáveis, reduzem dano e erro na origem.
- Melhor conhecimento do produto e das suas especificidades (fragilidade, validade, condições de conservação).
- Melhor conhecimento da procura · evita excesso de stock parado, que aumenta o risco de quebra por validade.
- Adequação das unidades, embalagens e formas de entrega ao tipo de produto e ao canal de venda.
- Controlo das operações · procedimentos claros de receção, arrumação, picking e expedição, sempre seguidos.
- Controlo aleatório de roubos · auditorias não anunciadas, tanto a clientes como a colaboradores.
- Controlo das atividades de manuseamento · supervisão de como a mercadoria é transportada e armazenada.
Sistemas de avaliação, objetivos e monitorização
Uma política de quebra séria assenta em três passos:
- Definição de objetivos de quebra · uma meta concreta (por exemplo, reduzir de 0,29% para 0,20% das vendas) e as metodologias para a atingir (auditorias, formação, mudança de layout).
- Implementação de sistemas de avaliação e de melhoria · medir regularmente, comparar com a meta, ajustar o que não funciona.
- Monitorização constante dos resultados e implementação de medidas corretivas assim que um desvio é detetado, sem esperar pelo inventário anual seguinte.
Uma loja fixa como objetivo baixar a quebra desconhecida em 30% no próximo ano. Implementa: câmaras na zona de picking, dupla conferência nas expedições de maior valor, e uma auditoria mensal aleatória a 10% das referências classe A. Ao fim de seis meses, mede novamente a quebra desconhecida e compara com a meta a meio percurso, ajustando as medidas que não estão a resultar.
14. Segurança, acessos e equipamentos de proteção individual
Manusear os equipamentos de armazém respeitando os princípios de segurança, e respeitar as normas de segurança e saúde no trabalho, são dois critérios de desempenho centrais desta UC.
Sistemas de segurança e controlo de acessos
- Delimitação de zonas de circulação · corredores marcados para peões e para equipamentos de movimentação, para evitar atropelamentos.
- Locais de acesso restrito · zonas de valor elevado, produtos perigosos ou de acesso reservado a pessoal autorizado.
- Mecanismos automáticos de controlo de acessos · cartões, códigos, biometria, que registam quem entra e quando, e sustentam a investigação de quebra desconhecida.
Equipamentos de proteção individual (EPI) e normas de segurança
- EPI típicos de armazém: calçado de proteção com biqueira reforçada, luvas, colete de alta visibilidade e, em zonas de movimentação de cargas em altura, capacete.
- As normas de segurança e saúde no trabalho (enquadradas pela legislação laboral e fiscalizadas pela ACT) obrigam a formação para operar equipamentos, sinalização de riscos e planos de emergência.
- Manutenção periódica e melhoria dos sistemas: equipamentos de movimentação e de proteção (extintores, alarmes) têm de ser revistos com regularidade, não só quando falham.
A maior parte dos acidentes graves em armazém envolve equipamentos de movimentação (empilhadores, porta-paletes elétricos) e falta de EPI. O critério de desempenho "manusear respeitando os princípios de segurança" não é burocracia: é o que separa um armazém seguro de uma estatística.
15. Arrumação, manuseamento e acondicionamento de carga
Arrumação e métodos de previsão
Arrumar bem não é só "ter espaço": é decidir onde cada artigo fica, para minimizar deslocações e erros.
- Localização · atribuir a cada artigo um lugar fixo ou dinâmico (slotting), conforme a rotação: os artigos classe A ficam mais próximos da zona de picking.
- Atribuição de espaço · o espaço reservado deve ser proporcional ao stock médio e à rotação do artigo, não igual para todos.
- Percurso de arrumação · desenhar o trajeto de quem arruma e de quem faz picking para minimizar distância percorrida e cruzamentos.
Manuseamento, embalamento e acondicionamento
- Manuseamento e embalamento dos produtos · técnicas adequadas a cada tipo de mercadoria (frágil, pesada, perecível), para não gerar quebra por dano.
- Acondicionamento da carga, com regras práticas: distribuir o peso, não empilhar acima do limite de segurança, colocar o mais pesado na base, imobilizar a carga (filme, cintas) antes do transporte.
Numa loja de eletrodomésticos, os artigos classe A (frigoríficos, máquinas de lavar) ficam junto à zona de expedição, por terem maior rotação e maior peso; os acessórios classe C (filtros, mangueiras) ficam em prateleiras mais altas e distantes, por serem procurados com pouca frequência.
FIFO físico e FEFO: arrumar para não estragar
Arrumar bem também é uma questão de prevenir quebra por validade, e aqui é preciso separar dois conceitos que soam parecidos mas não são o mesmo:
- FIFO contabilístico (capítulo 10) · é um método de valorização: decide a que preço se considera que saíram as unidades vendidas, para efeitos de custo e de valor de stock. É um cálculo em euros, não diz respeito a qual caixa física sai primeiro da prateleira.
- FIFO físico · é uma prática de arrumação: colocar as unidades mais antigas à frente, mais acessíveis, para que sejam as primeiras a sair fisicamente quando se faz o picking. Aplica-se sobretudo a artigos sem prazo de validade definido mas que se degradam ou saem de moda com o tempo (embalagens, ferragens expostas ao pó).
- FEFO (First Expired, First Out) · variante do FIFO físico para produtos com data de validade: não é a data de entrada que manda, é a data de validade mais próxima. Um lote que entrou depois mas tem validade mais curta (por exemplo, por ter sido produzido mais tarde num lote diferente) deve sair primeiro. Aplica-se sempre que existam prazos de validade a controlar.
Não confundir os dois FIFO. Uma empresa pode valorizar o stock por custo médio ponderado (capítulo 10) e, ainda assim, arrumar fisicamente por FIFO físico ou FEFO (o mais antigo, ou o de validade mais próxima, à frente). São decisões independentes: uma é sobre como calcular o valor em euros, a outra é sobre como o produto se move fisicamente na prateleira.
16. Sinalização, resíduos, ambiente e qualidade
Fecham o referencial as normas transversais que enquadram toda a atividade de armazém:
- Sinalização · placas de circulação, de risco, de saídas de emergência e de zonas restritas, indispensáveis para a segurança e para a orientação de quem trabalha no armazém.
- Normas de gestão de resíduos · separação de cartão, plástico e resíduos perigosos, em linha com o sistema integrado de gestão de resíduos de embalagens (o "Ponto Verde").
- Normas de proteção ambiental · redução de consumos, gestão eficiente de embalagens e transporte, alinhadas com as exigências crescentes de clientes e legislação.
- Normas da qualidade · procedimentos documentados e auditáveis (alinhados, por exemplo, com a família ISO 9001), que garantem que a receção, a armazenagem, o inventário e a expedição seguem sempre o mesmo padrão, independentemente de quem está de turno.
Estas normas não são "extra": atravessam todos os capítulos anteriores. Uma receção bem sinalizada, resíduos separados corretamente e um procedimento documentado de inventário são, na prática, o mesmo rigor aplicado a frentes diferentes.
Erros comuns
- Confundir stock morto com stock de segurança. O stock de segurança protege contra imprevistos e tem rotação; o stock morto está parado sem vender, é um problema a resolver, não uma reserva.
- Calcular a rotação com o stock final em vez do stock médio. Distorce o indicador, sobretudo em artigos sazonais.
- Aplicar o corte da análise ABC ao número de artigos, não à percentagem acumulada de valor. Uma classe A pode ter 2 ou 20 artigos, depende só de onde o acumulado atinge 80%.
- Misturar FIFO físico com o método de valorização contabilística. São coisas diferentes (capítulo 10 e capítulo 15): pode-se valorizar por custo médio ponderado e, ainda assim, arrumar fisicamente por FIFO ou FEFO (o mais antigo, ou o de validade mais próxima, à frente), para evitar quebra por validade.
- Orçamentar o transporte só pelo peso real. Quando a mercadoria é volumosa mas leve, a transportadora cobra pelo peso taxável (o maior entre o real e o volumétrico), não pelo peso real, e o orçamento fica subestimado se essa comparação não for feita.
- Tratar toda a diferença de inventário como quebra desconhecida, sem primeiro verificar se há quebra conhecida por lançar ou erro de registo.
- Aceitar sobras de inventário sem investigar, quando podem indicar um erro de registo anterior por corrigir, não um "ganho".
- Adiar a comunicação de discrepâncias na receção. Quanto mais tarde se reporta um dano ou uma falta ao fornecedor, mais difícil é obter a nota de crédito.
- Ignorar avisos de segurança "porque nunca aconteceu nada". É exatamente assim que os acidentes de armazém acontecem.
Glossário
- Aprovisionamento · garantir a mercadoria certa, na quantidade e no momento certos.
- Stock · quantidade de um artigo disponível num dado momento.
- Rotação de stocks · número de vezes que o stock médio se renova num período.
- Cobertura de stocks · número de dias que o stock atual chega, ao ritmo de vendas atual.
- Stock de segurança · quantidade extra que protege contra imprevistos.
- Ponto de encomenda · nível de stock que dispara uma nova encomenda.
- Análise ABC · classificação dos artigos por valor acumulado (A, B e C).
- Custo de posse · custo de manter o stock parado (espaço, seguro, capital).
- FIFO · método de saída de stock pelo mais antigo primeiro (contabilístico) ou de arrumação física (o mais antigo à frente).
- FEFO · método de arrumação e saída pelo produto com a validade mais próxima primeiro (First Expired, First Out), usado em produtos perecíveis.
- Custo médio ponderado (CMP) · valorização do stock pela média ponderada das entradas.
- Peso taxável · o maior valor entre o peso real e o peso volumétrico de uma expedição, usado pela transportadora para calcular o custo de transporte.
- Peso volumétrico · peso equivalente ao volume ocupado pela carga, calculado a partir das dimensões e de um fator de cubicagem.
- Inventário · contagem física do stock para confirmar ou corrigir o sistema.
- Picking · recolha dos artigos de uma encomenda nas localizações de armazenagem.
- Quebra · diferença entre o stock registado e o stock real.
- Quebra conhecida / desconhecida · com causa documentada, ou sem causa identificada.
- EPI · equipamento de proteção individual.
- Slotting · atribuição da localização de um artigo no armazém, conforme a rotação.
Síntese
Controlar stocks é um ciclo que começa antes da mercadoria chegar (compras, encomendas, indicadores) e continua depois de sair (expedição, devoluções, quebras). Os indicadores (rotação, cobertura, ponto de encomenda, classificação ABC) dizem quando e quanto encomendar, e o software de gestão de stocks é o que os calcula e apresenta em mapas prontos a analisar; a receção e a armazenagem garantem que o que chega é o que foi pedido e fica bem guardado, com o orçamento de transporte já previsto antes de a mercadoria seguir viagem; a valorização e o inventário (FIFO, CMP, contagem física) mantêm o stock financeiramente correto, e o FIFO físico e o FEFO mantêm-no fisicamente correto na prateleira; as quebras, conhecidas e desconhecidas, exigem prevenção contínua, não só reação; e a segurança, os acessos e as normas de qualidade e ambiente atravessam todo o processo. Um técnico de comércio que domina este fluxo controla o stock em vez de ser controlado por ele.
Exercícios resolvidos
1. Uma loja tem stock inicial de 900 unidades e stock final de 700 unidades num mês, com vendas de 4 000 unidades no mesmo mês. Calcula a rotação mensal e a cobertura em dias, considerando o mês com 30 dias.
Resolução: Stock médio = (900 + 700) / 2 = 800 unidades. Rotação mensal = 4 000 / 800 = 5. Cobertura = 30 / 5 = 6 dias. O stock atual dura cerca de uma semana ao ritmo de vendas do mês.
2. Um artigo tem consumo médio de 15 unidades/dia, o fornecedor entrega em 10 dias, e a empresa define 40 unidades de stock de segurança. Calcula o ponto de encomenda.
Resolução: Ponto de encomenda = (15 × 10) + 40 = 150 + 40 = 190 unidades.
3. Numa análise ABC com valor total de 50 000 €, um artigo isolado representa 41 000 € (82% do total). Em que classe fica, e porquê?
Resolução: Fica em classe B, mesmo sendo um único artigo: 82% já ultrapassa o corte dos 80% definido para a classe A, por isso entra na classe seguinte, apesar de ser sozinho responsável pela maior fatia do valor.
4. Um inventário encontra stock contabilístico de 5 200 unidades e stock físico de 5 060 unidades. Há 90 unidades já registadas como quebra conhecida (produtos fora de validade). Calcula a quebra total e a quebra desconhecida.
Resolução: Quebra total = 5 200 − 5 060 = 140 unidades. Quebra desconhecida = 140 − 90 = 50 unidades, sem causa documentada.
5. Explica a diferença entre valorizar o stock por FIFO e por custo médio ponderado, e diz em que é que os dois métodos coincidem sempre.
Resolução: O FIFO consome primeiro as unidades mais antigas, pelo preço a que entraram; o CMP trata todas as unidades como se tivessem o mesmo custo, a média ponderada de todas as entradas. Os dois métodos coincidem sempre no valor total disponível (a soma de saídas mais stock final é igual nos dois casos); diferem apenas na forma como esse total se reparte entre o que já saiu e o que ainda está em stock.
6. Um colaborador diz "encontrámos 8 unidades a mais no inventário, é lucro, vamos só ajustar o sistema". O que respondes?
Resolução: Uma sobra de inventário não é automaticamente lucro: pode ser um erro de registo anterior (por exemplo, uma entrada não lançada ou uma saída lançada a mais), que só agora aparece corrigido pela contagem física. Antes de ajustar o sistema como um ganho, deve investigar-se a causa; só depois de confirmado que não há explicação documentável se trata como diferença de inventário a favor.