Partilhar: WhatsApp
aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC02691

Sebenta · Gerir a cadeia de abastecimento (UC02691)

Da logística 1.0 à 4.0, intervenientes, transportes, armazém, stocks e normas do setor
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Comércio ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a gerir a cadeia de abastecimento de uma empresa do setor do comércio: como o produto chega do produtor ao consumidor, quem participa nesse percurso, como se escolhe o transporte, como se organiza um armazém e como se controla o stock sem faltar nem sobrar.

O ponto de partida é simples: a cadeia de abastecimento é a rede de organizações e atividades que movem um produto do produtor ao consumidor final, e a logística é a função que planeia esse fluxo. Esta função evoluiu em quatro fases históricas, da logística 1.0 (transportes) à logística 4.0 (digital), e é esse fio condutor que estrutura toda a matéria.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar a estratégia de logística adotada por uma empresa; colaborar na aplicação dos procedimentos logísticos; aplicar os princípios gerais da logística comercial; selecionar o meio de transporte considerando tempo, custo e segurança; contactar e recolher informação junto de operadores de logística; e distinguir as diferentes tipologias de logística.

Aplica-se a empresas grossistas e retalhistas (físicas e digitais), a instituições e associações do setor, e a empresas produtoras de bens de grande consumo (FMCG).

1. Da logística à cadeia de abastecimento

A cadeia de abastecimento (supply chain) é o conjunto de organizações, pessoas, atividades, informação e recursos envolvidos em levar um produto ou serviço do produtor ao consumidor final. A logística é a função dentro dessa cadeia que planeia, executa e controla o fluxo físico (transporte, armazenagem, stocks, embalagem) e o fluxo de informação (pedidos, previsões, faturação).

Um técnico de comércio que compreende a cadeia de abastecimento negoceia melhor com fornecedores, escolhe transportes com critério, evita ruturas de stock e sabe identificar onde a operação está a perder dinheiro.

Enquadramento histórico: da logística 1.0 à 4.0

A logística evoluiu em quatro fases, à medida que a tecnologia e a globalização transformaram o comércio:

Fase Foco principal Exemplo de atividade
Logística 1.0 transportes: mover a mercadoria de A para B escolher e contratar transportadores
Logística 2.0 gestão de armazéns e processos gestão de stock, cross-docking, transporte multimodal
Logística 3.0 armazém + transporte + serviços agregados embalagem, acondicionamento, operadores 3PL
Logística 4.0 logística digital e-commerce, e-fulfillment, entregas rápidas, logística inversa

A globalização alargou as cadeias de abastecimento a fornecedores e clientes em qualquer parte do mundo, exigindo coordenação entre transportes, moedas, alfândegas e fusos horários. A atualidade soma a esta complexidade a pressão por respostas rápidas, sustentáveis e cada vez mais digitais.

Estas quatro fases não se substituem: acrescentam-se. Uma empresa de comércio eletrónico de hoje continua a precisar de transportes bem escolhidos (1.0) e de um armazém bem gerido (2.0), além das camadas digitais da 4.0.

2. Intervenientes na cadeia de abastecimento

A cadeia de abastecimento tem quatro grandes tipos de intervenientes:

O duplo fluxo: produto e informação

A cadeia funciona com dois fluxos em sentidos opostos:

Produtor  Operador logístico  Grossista  Retalhista  Consumidor    (fluxo físico do produto)
Produtor  Operador logístico  Grossista  Retalhista  Consumidor    (fluxo de informação: pedidos, previsões)

Uma falha no fluxo de informação (uma previsão errada, um pedido não comunicado) tem tanto impacto como uma falha no fluxo físico: o transporte certo que chega tarde de nada serve.

Nem todas as cadeias seguem esta ordem completa: muitas empresas vendem diretamente ao consumidor (D2C, direct-to-consumer), saltando o grossista e por vezes o retalhista físico. É o caso de várias marcas que só vendem online.

3. Estratégias Push e Pull

As duas grandes estratégias de resposta à procura são o Push e o Pull, e distingui-las é um critério de desempenho central desta UC.

Push: empurrar a produção para o mercado

Na estratégia Push, a empresa produz e distribui com base em previsões de procura, sem esperar por pedidos concretos.

Pull: puxar a produção pelo pedido real

Na estratégia Pull, a produção e a distribuição só arrancam depois de existir um pedido real do cliente.

Push Pull
Gatilho da produção previsão de procura pedido real do cliente
Risco principal excesso ou rutura de stock atraso na entrega
Exemplo típico produtos de grande consumo (FMCG) produtos personalizados ou sob encomenda

Na prática, muitas cadeias combinam as duas: produção Push até um ponto de desacoplamento (ex.: componentes-base) e montagem final Pull, só quando o pedido do cliente chega.

4. Determinar necessidades: MRP e CRP

Depois de decidida a estratégia, é preciso saber quanto e quando encomendar ou produzir. É o papel dos métodos de determinação de necessidades.

MRP: planeamento das necessidades de materiais

O MRP (Manufacturing Resource Planning) calcula o que é preciso encomendar, em que quantidade e quando, a partir de um plano de vendas ou de produção:

  1. Parte do plano diretor (o que se quer vender ou produzir e quando).
  2. Desdobra nos componentes e matérias-primas necessários.
  3. Compara com o stock existente e com encomendas já em curso.
  4. Gera propostas de encomenda, com quantidade e data.

CRP: verificação da capacidade

O CRP (Capability Resource Planning) confirma se a empresa tem capacidade real (pessoas, equipamento, espaço) para cumprir o que o MRP propôs. Se a capacidade for insuficiente, o plano ajusta-se: subcontratar, adiar ou reforçar recursos.

Uma loja de mobiliário planeia vender 30 estantes no mês seguinte (plano de vendas). O MRP calcula que são precisas 120 dobradiças e 60 prateleiras extra, e verifica que já há 40 dobradiças em stock, pelo que propõe encomendar 80. O CRP confirma que a equipa de montagem consegue montar as 30 estantes no prazo com o pessoal disponível; se não conseguisse, seria preciso reforçar a equipa ou adiar parte das entregas.

MRP e CRP trabalham em ciclo: um plano de necessidades sem verificação de capacidade é apenas uma lista de desejos. É também aqui que entra a aptidão de reportar informação: um técnico de comércio que deteta uma necessidade fora do habitual (um pedido de cliente maior que o normal) deve comunicá-la, para entrar no ciclo seguinte de MRP/CRP.

5. Transportes: meios, seleção e contacto com operadores

Meios de transporte

A logística 1.0 centra-se no transporte. Cada meio tem vantagens e limitações próprias:

Meio Vantagens Limitações
Rodoviário flexível, porta-a-porta, rápido em curtas distâncias custo por km mais alto, sujeito a trânsito
Ferroviário económico em grandes volumes e longas distâncias menos flexível, exige rede ferroviária
Marítimo muito económico em grandes volumes internacionais lento, exige portos e transbordo
Aéreo o mais rápido, ideal para urgências e alto valor o mais caro
Fluvial económico em zonas com rios navegáveis limitado à rede hidrográfica

O transporte multimodal combina mais do que um meio na mesma expedição, sob um único contrato: por exemplo, mercadoria que viaja de navio (longa distância) e depois de camião (distribuição final). É hoje a norma no comércio internacional.

Selecionar o meio de transporte

O critério de desempenho da UC é explícito: selecionar o meio de transporte considerando tempo, custo e segurança.

Regra prática: primeiro define-se o prazo aceitável, depois procura-se o meio mais barato e seguro que o cumpra. Não vale a pena escolher só pelo custo se isso puser em risco o prazo ou a integridade da mercadoria.

Contactar e recolher informação junto dos operadores

Antes de decidir, o técnico de comércio contacta e recolhe informação junto de vários operadores de logística (transportadores):

  1. Definir o que se precisa transportar: peso, volume, natureza da mercadoria, origem e destino.
  2. Pedir cotações a mais do que um operador, comparando preço, prazo e condições.
  3. Confirmar os seguros de transporte incluídos e o que cobrem.
  4. Verificar a rastreabilidade oferecida.
  5. Formalizar em guia de transporte/CMR e confirmar o prazo por escrito.

Nunca decidir com um único orçamento. Esquecer de perguntar pelo seguro é um erro caro: sem seguro, um dano na carga é prejuízo total do vendedor.

6. Gestão de armazéns e cross-docking

Processos do armazém

A logística 2.0 trouxe a gestão profissional do armazém:

Processo O que garante
Receção e conferência a mercadoria que chega corresponde ao pedido
Localização (slotting) cada artigo tem um lugar fixo e identificado
Picking a encomenda é reunida com exatidão e rapidez
Inventário o stock físico confere com o stock registado no sistema
Expedição a encomenda sai embalada, identificada e a tempo

O inventário periódico (contagem física) é essencial: divergências entre o stock físico e o do sistema levam a ruturas ou excessos que ninguém detetou a tempo.

Cross-docking

O cross-docking é um processo em que a mercadoria chega e sai do armazém quase sem ser armazenada: descarrega-se de um transporte e carrega-se diretamente noutro, para o destino final.

Transportes e distribuição na logística 2.0

A distribuição organiza-se em redes:

7. Gestão de stocks: stock de segurança, ponto de encomenda e indicadores

Manter stock custa dinheiro (espaço, seguros, capital parado), mas não ter stock custa vendas perdidas. A gestão de stocks equilibra dois riscos opostos: a rutura (falta o produto) e o excesso (produto parado). Para equilibrar, usam-se dois valores de referência.

Stock de segurança

O stock de segurança é a quantidade extra guardada para cobrir picos de procura ou atrasos do fornecedor, sem entrar em rutura:

$$\text{Stock de segurança} = (\text{Consumo máximo diário} - \text{Consumo médio diário}) \times \text{Prazo de entrega (dias)}$$

Exemplo resolvido. Uma mercearia vende em média 40 unidades/dia de um produto, com um pico de 60 unidades/dia. O fornecedor entrega em 5 dias.

Stock de segurança = (60 − 40) × 5 = 20 × 5 = 100 unidades.

Ponto de encomenda

O ponto de encomenda é o nível de stock que, ao ser atingido, dispara uma nova encomenda, para que o produto chegue antes de haver rutura:

$$\text{Ponto de encomenda} = (\text{Consumo médio diário} \times \text{Prazo de entrega}) + \text{Stock de segurança}$$

Exemplo resolvido (continuação): consumo médio 40 unidades/dia, prazo de entrega 5 dias, stock de segurança 100 unidades.

Ponto de encomenda = (40 × 5) + 100 = 200 + 100 = 300 unidades.

Interpretação: quando o stock físico descer para 300 unidades, dispara-se uma nova encomenda ao fornecedor.

A primeira parcela da fórmula (consumo médio × prazo de entrega) cobre o consumo normal enquanto se espera pela nova entrega; a segunda parcela (stock de segurança) é a almofada extra contra picos ou atrasos.

Taxa de serviço

A taxa de serviço mede a percentagem de encomendas satisfeitas na quantidade e no prazo acordados:

$$\text{Taxa de serviço} = \frac{\text{Encomendas entregues completas e a tempo}}{\text{Total de encomendas}} \times 100$$

Exemplo resolvido. Num mês, uma empresa recebeu 250 encomendas e entregou 235 completas e dentro do prazo.

Taxa de serviço = 235 / 250 × 100 = 94,0%.

Custos logísticos

O custo logístico total reparte-se por várias componentes:

Componente Exemplo de custo
Transporte fretes, combustível, portagens
Armazenagem renda ou amortização do armazém, eletricidade
Posse de stock capital imobilizado, seguros, obsolescência
Processamento de encomendas pessoal, sistemas, embalagem

Exemplo resolvido. Custos mensais: transporte 4 200 €, armazenagem 1 800 €, posse de stock 950 €, processamento 600 €.

Total = 4 200 + 1 800 + 950 + 600 = 7 550 €.

Peso do transporte = 4 200 / 7 550 × 100 ≈ 55,6% do custo total: a componente mais pesada.

8. Logística 3.0: armazém, transporte e serviços agregados

A logística 3.0 junta armazém e transporte a serviços de valor acrescentado:

Estes serviços podem ser prestados por um operador logístico de serviço completo (3PL, third-party logistics), que oferece armazenagem, transporte, embalagem e gestão de devoluções num só pacote. A vantagem para a empresa contratante é focar-se no seu negócio principal; o custo a considerar é a perda de controlo direto sobre o processo.

9. Logística digital 4.0: e-commerce, e-fulfillment e logística inversa

O impacto do e-commerce

O comércio eletrónico mudou as exigências logísticas: encomendas unitárias e dispersas (em vez de grandes volumes para poucos pontos de venda), expectativa de entrega rápida (24-48h), rastreabilidade em tempo real e picos de procura sazonais muito acentuados.

E-fulfillment

O e-fulfillment é o processo entre o clique "comprar" e a entrega ao cliente: receção da encomenda no sistema, picking unitário, embalagem individual, expedição com rastreio e entrega ao domicílio ou em ponto de recolha. Os centros de e-fulfillment têm um layout desenhado para picking rápido de unidades, diferente do layout de um armazém tradicional orientado a paletes.

Logística inversa e devoluções

A logística inversa trata do fluxo do cliente de volta à empresa: devoluções, trocas, reciclagem e reparação. No e-commerce, a taxa de devolução é significativamente mais alta do que na loja física.

Depois da inspeção, um produto devolvido segue um de vários caminhos:

Estado do produto Destino
Perfeito, embalagem intacta volta ao stock para nova venda
Danificado, mas reparável reparação e venda como recondicionado
Fora de uso reciclagem ou eliminação segundo as normas de resíduos

Um processo de devolução simples e rápido é hoje um fator de decisão de compra, não um detalhe pós-venda.

10. Tendências, normas e sustentabilidade

Tendências da logística

Várias tendências pressionam a logística comercial a evoluir:

Normas de gestão de resíduos e proteção ambiental

A atividade logística gera resíduos (embalagens, paletes, produtos fora de prazo) que têm de ser geridos por normas específicas: separação na origem (papel/cartão, plástico, madeira, indiferenciados), destino certificado em operadores licenciados, e redução na fonte (menos embalagem, paletização otimizada). As normas de proteção ambiental aplicam-se também a emissões de transporte e a substâncias perigosas em armazém.

Segurança e saúde no trabalho e equipamentos de proteção individual

Um armazém tem riscos próprios: quedas de altura, esmagamento por empilhadores, cargas mal acondicionadas. As normas de segurança e saúde no trabalho exigem:

Normas da qualidade

As normas da qualidade (família ISO 9001) aplicam-se também à logística: conferência sistemática por checklist, registo de não conformidades (cada erro é registado e analisado, não apenas corrigido) e melhoria contínua com base nos indicadores já estudados (taxa de serviço, devoluções, custos).

Erros comuns

Glossário

Síntese

A cadeia de abastecimento liga produtor, operador logístico, grossista e retalhista, e a logística evoluiu da fase 1.0 (transportes) à 4.0 (digital). A estratégia de resposta à procura é Push ou Pull, planeada com MRP e CRP. O transporte escolhe-se por tempo, custo e segurança, sempre com cotações comparadas junto de vários operadores. O armazém organiza-se em receção, arrumação, picking e expedição, com o cross-docking a reduzir o tempo de permanência da mercadoria. A gestão de stocks usa o stock de segurança e o ponto de encomenda para evitar ruturas, medida pela taxa de serviço e pelos custos logísticos. O e-commerce trouxe o e-fulfillment e tornou a logística inversa rotina. Tudo isto opera sob normas de resíduos, ambiente, segurança e qualidade, num setor pressionado por tendências de sustentabilidade e digitalização.

Exercícios resolvidos

1. Uma empresa produz detergentes com base nas vendas do ano anterior, sem esperar por pedidos concretos. Que estratégia é esta e qual o principal risco?

Resolução: é a estratégia Push: produz-se com base em previsões de procura. O principal risco é o desajuste entre a previsão e a procura real, gerando excesso de stock (se vender menos do que previsto) ou rutura (se vender mais).

2. Uma loja vende em média 25 unidades/dia de um artigo, com um pico de 35 unidades/dia. O fornecedor entrega em 6 dias. Calcula o stock de segurança e o ponto de encomenda.

Resolução: Stock de segurança = (35 − 25) × 6 = 10 × 6 = 60 unidades. Ponto de encomenda = (25 × 6) + 60 = 150 + 60 = 210 unidades. Quando o stock descer para 210 unidades, dispara-se uma nova encomenda.

3. Num trimestre, uma empresa recebeu 600 encomendas e entregou 552 completas e a tempo. Calcula a taxa de serviço.

Resolução: taxa de serviço = 552 / 600 × 100 = 92,0%.

4. Uma empresa precisa de enviar 15 toneladas de material de construção de Lisboa ao Porto, sem urgência. Que meio de transporte escolherias e porquê?

Resolução: rodoviário (ou ferroviário, se disponível para o trajeto): sem urgência, prevalece o critério do custo por tonelada face ao aéreo, e o volume/peso não justifica o transporte aéreo. O ferroviário seria preferível se a rede permitir e reduzir custo em grande volume.

5. Um cliente devolve um casaco comprado online por não servir o tamanho. A peça chega com a embalagem intacta. Qual o destino mais provável na logística inversa?

Resolução: por estar em perfeitas condições e com embalagem intacta, volta ao stock para nova venda, após inspeção. Só produtos danificados seguem para reparação/recondicionamento, ou para reciclagem se estiverem fora de uso.