Sebenta · Realizar medições de elementos não estruturais (UC02537)
- Introdução
- 1. Ler o projeto e as regras gerais de medição
- 2. Alvenarias
- 3. Cantarias
- 4. Carpintarias
- 5. Serralharias e caixilharias em PVC
- 6. Isolamentos e impermeabilizações
- 7. Revestimentos de paredes, pisos, tetos e escadas
- 8. Coberturas inclinadas
- 9. Vidros, espelhos, pinturas e acabamentos
- 10. Instalações de canalização, ascensores, monta-cargas e equipamento
- 11. Segurança, ambiente e qualidade nas medições
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Um projeto de arquitetura, por muito bem desenhado que esteja, não constrói nada sozinho. Antes de comprar um saco de cimento ou uma placa de gesso cartonado, alguém tem de responder a uma pergunta muito concreta: quanto é preciso de cada coisa? Essa resposta chama-se medição: o levantamento rigoroso, elemento a elemento, das quantidades de trabalho de uma obra, a partir das peças escritas e desenhadas do projeto.
Esta sebenta trata das medições dos elementos não estruturais, tudo o que não faz parte do "esqueleto" resistente do edifício (fundações estruturais, vigas, pilares de betão armado, lajes) mas que forma a obra que o utilizador vê, toca e usa: alvenarias de compartimentação, cantarias, carpintarias, serralharias, caixilharias em PVC, isolamentos e impermeabilizações, revestimentos de paredes, pisos, tetos e escadas, coberturas inclinadas, vidros e espelhos, pinturas e acabamentos, instalações de canalização, ascensores e monta-cargas, e equipamento fixo e móvel.
O fio condutor é sempre o mesmo, do primeiro ao último capítulo: interpretar o projeto de arquitetura, aplicar a regra específica de medição de cada elemento e registar a quantidade com rigor, de forma a produzir um mapa de quantidades correto, coerente e verificável. Um erro de medição não fica só no papel: propaga-se ao orçamento, à encomenda de material e ao prazo da obra.
Objetivos de aprendizagem (referencial): medir alvenarias, cantarias, carpintarias, serralharias e caixilharias em PVC; medir isolamentos, impermeabilizações e revestimentos de paredes, pisos, tetos e escadas; medir revestimentos de coberturas inclinadas, vidros, espelhos, pinturas e acabamentos; medir instalações de canalização, ascensores, monta-cargas e elementos de equipamento fixo e móvel; e aplicar as normas de gestão de resíduos, os equipamentos de proteção individual, as normas de segurança e saúde no trabalho, de proteção ambiental e da qualidade.
Onde se usa esta competência: na indústria da construção, em gabinetes de projetos de arquitetura e engenharia, em autarquias (verificação de projetos e licenciamento) e no estaleiro, em contexto de obra.
1. Ler o projeto e as regras gerais de medição
Interpretar o projeto de arquitetura
Antes de medir seja o que for, é preciso interpretar devidamente um projeto de arquitetura: plantas (à escala 1:50 ou 1:100), cortes, alçados, pormenores construtivos e o mapa de acabamentos. Cada elemento a medir tem de ser identificado nestas peças, com a dimensão certa, e não "a olho" a partir de uma foto ou de uma ideia geral do edifício.
- Plantas: dão comprimentos e larguras em projeção horizontal.
- Cortes: dão pés-direitos, alturas de peitoril, espessuras de laje e de revestimento.
- Alçados: dão a composição das fachadas, vãos e a sua posição.
- Pormenores e mapa de acabamentos: dão a espessura das camadas, o tipo de material e a norma de aplicação.
Uma medição feita sem cruzar estas quatro peças está incompleta, mesmo que os números "pareçam" razoáveis.
O critério de desconto de vãos
A dúvida mais comum de quem começa a medir é: os vãos (portas e janelas) descontam-se sempre? O critério adotado nesta UC, e que se aplica de forma consistente a todos os capítulos que envolvem áreas de paredes (alvenaria, reboco, pintura, isolamento, revestimento cerâmico, papel de parede), é o seguinte:
Critério de desconto de vãos. Mede-se primeiro a área bruta do elemento (o desenvolvimento da parede, ou seja, o seu comprimento ou perímetro, multiplicado pela altura). Depois, descontam-se os vãos um a um: um vão (porta, janela ou outro) com área superior a 2,00 m² desconta-se pela sua área real; um vão com área igual ou inferior a 2,00 m² não se desconta, porque a folga de trabalho nos remates, ombreiras e padieiras compensa a área do vão. O critério aplica-se vão a vão, nunca à soma dos vãos da mesma divisão: dois vãos pequenos não se juntam para ultrapassar os 2,00 m².
Este critério aplica-se sempre da mesma forma, capítulo após capítulo. Guarda-o: é a régua com que se corrige a maior parte dos erros desta UC.
Arredondamento
Todas as medições desta sebenta arredondam-se a duas casas decimais: ao centímetro nos comprimentos e ao centímetro quadrado nas áreas. Um resultado intermédio (como o desenvolvimento de uma água de telhado) arredonda-se antes de ser usado no cálculo seguinte, para que qualquer pessoa que refaça as contas chegue ao mesmo valor.
Tabela de unidades de medição por trabalho
Cada trabalho tem a sua unidade própria. Escolher a unidade errada é um erro tão grave como errar o número: um mapa de quantidades com um armário medido em m² onde devia estar em unidade (un) não serve para encomendar nada. As unidades mais usadas nesta UC são m (metro linear, também escrito ml), m² (área), m³ (volume), un (unidade) e vg (verba global, para trabalhos vendidos como conjunto indivisível, sem se desagregar em quantidades).
| Trabalho | Unidade habitual |
|---|---|
| Alvenaria: paredes, muros, painéis de blocos | m² |
| Alvenaria: fundações e maciços | m³ |
| Pilares (alvenaria ou cantaria) | m³ ou m (quando esbeltos) |
| Cantaria: guarnecimentos, guardas, corrimãos | m |
| Cantaria: muros, paredes, revestimentos | m² |
| Carpintaria: portas, janelas, equipamentos | un |
| Carpintaria: estruturas, guardas, divisórias | m³, m ou m² |
| Serralharia: portas, janelas, equipamentos | un |
| Serralharia: fachadas-cortina, revestimentos, divisórias | m² |
| Caixilharia em PVC (vão) | m² |
| Vidros e espelhos | m² ou un |
| Isolamento: placas, mantas, ETICS | m² |
| Isolamento: trabalhos acessórios | m |
| Impermeabilização: superfícies | m² |
| Impermeabilização: juntas | m |
| Revestimentos de paredes, pisos e tetos | m² |
| Rodapés e guarnecimentos lineares | m |
| Revestimento de escadas | m² |
| Cobertura inclinada | m² |
| Drenagem pluvial: caleiras | m |
| Drenagem pluvial: tubos de queda | un |
| Pinturas de superfícies | m² |
| Pinturas de elementos lineares (grades, corrimãos) | m ou m² |
| Canalização: tubagens | m |
| Aparelhos sanitários | un |
| Ascensores e monta-cargas | un ou vg |
| Equipamento fixo e móvel | un |
⚠️ A verba global (vg) usa-se quando um trabalho é fornecido e montado como um conjunto "chave na mão" que não compensa desagregar (é o caso típico de um ascensor completo). Fora desses casos, mede-se sempre pela unidade que reflete a quantidade real: m, m², m³ ou un.
2. Alvenarias
O que se mede
A alvenaria é o conjunto de paredes construídas por justaposição de blocos, tijolos ou pedra, ligados por argamassa. O referencial pede que se saibam medir:
- Fundações (quando não estruturais, como sapatas de muros de vedação): ao volume (m³), comprimento × largura × altura da fundação.
- Muros de suporte, de vedação e cortinas: à área (m²), pelo critério de desconto de vãos.
- Paredes exteriores e interiores: à área (m²), pelo mesmo critério.
- Pilares: ao volume (m³), ou ao desenvolvimento linear (ml) quando têm secção constante e reduzida.
- Abóbadas e arcos: pela área da superfície curva desenvolvida (a superfície "desenrolada" da curvatura).
- Painéis de blocos: à área (m²), como uma parede simples.
Exemplo resolvido · área líquida de uma parede de alvenaria
Uma sala de estar tem, em planta, 5,00 m × 4,00 m, com pé-direito de 2,70 m. As paredes têm uma porta de 0,90 m × 2,10 m e uma janela de 1,80 m × 1,50 m.
- Perímetro: 2 × (5,00 + 4,00) = 18,00 m.
- Área bruta de alvenaria: 18,00 × 2,70 = 48,60 m².
- Área da porta: 0,90 × 2,10 = 1,89 m² → é ≤ 2,00 m², não se desconta.
- Área da janela: 1,80 × 1,50 = 2,70 m² → é > 2,00 m², desconta-se.
- Área líquida de alvenaria: 48,60 − 2,70 = 45,90 m².
Repara que a porta, apesar de existir e de ocupar espaço na parede, não desconta nada por ficar dentro do limiar de 2,00 m². É um erro clássico de quem começa: descontar todos os vãos sem verificar a área de cada um primeiro.
Exemplo resolvido · fundação e pilar (medição ao volume)
Um muro de vedação assenta numa fundação corrida com 12,00 m de comprimento, 0,60 m de largura e 0,40 m de altura. Ao lado, um pilar isolado de alvenaria armada tem secção de 0,30 m × 0,30 m e 2,70 m de altura.
- Volume de fundação: 12,00 × 0,60 × 0,40 = 2,88 m³.
- Volume de pilar: 0,30 × 0,30 × 2,70 = 0,24 m³.
O pilar também se pode registar ao metro linear, 2,70 m, com a secção (0,30 m × 0,30 m) anotada como característica: é o gabinete de projeto que escolhe a convenção, mas nunca se mede um elemento deste tipo à área, porque não é uma superfície, é um corpo com volume.
3. Cantarias
A cantaria é o trabalho em pedra natural aparelhada (granito, calcário, mármore), usada tanto em elementos estruturais de acabamento nobre como em pormenores decorativos. O referencial pede a medição de:
- Muros de suporte, muros de vedação, paredes exteriores e paredes interiores em cantaria: à área (m²) ou ao volume (m³), consoante a espessura da placa ou o elemento seja maciço.
- Pilares, arcos e abóbadas em cantaria: como na alvenaria, mas registando também o tipo de acabamento (polido, bujardado, flamejado), que influencia o preço.
- Escadas: à área do cobertor mais o espelho, tal como no capítulo 8.
- Guarnecimento de vãos (ombreiras e padieira em pedra): ao metro linear (ml).
- Guardas, balaustradas e corrimãos: ao metro linear (ml).
- Revestimentos: à área (m²).
Exemplo resolvido · guarnecimento de um vão em cantaria
Um vão de porta de entrada, com 1,00 m de largura e 2,10 m de altura, vai ser guarnecido com ombreiras e padieira em granito.
O guarnecimento mede-se pelas três faces do vão que recebem pedra: as duas ombreiras (verticais) e a padieira (horizontal, no topo).
Guarnecimento = 2 × altura + largura = 2 × 2,10 + 1,00 = 5,20 ml.
Nota que o guarnecimento se mede ao metro linear, não à área: o que interessa medir é o desenvolvimento da moldura de pedra à volta do vão, não a superfície da parede.
4. Carpintarias
A carpintaria cobre os trabalhos em madeira. O referencial pede que se saiba medir:
- Estruturas de madeira (asnas, barrotes, vigas): ao volume (m³) ou ao metro linear (ml) quando a secção é constante.
- Escadas em madeira: à área do cobertor e espelho (capítulo 8), ou ao número de degraus quando o preço é por peça.
- Portas, janelas e outros elementos em vãos: por unidade (un), com as dimensões e o tipo de aro registados.
- Guardas, balaustradas e corrimãos: ao metro linear (ml).
- Revestimentos e guarnecimentos de madeira (rodapés, forras, lambris): ao metro linear ou à área, consoante o elemento.
- Divisórias leves em madeira: à área (m²), com o critério de desconto de vãos.
- Equipamentos (armários embutidos, roupeiros): por unidade (un), com a área da frente registada.
Exemplo resolvido · área de um armário embutido
Um armário embutido de quarto tem uma frente de 2,40 m de largura por 2,60 m de altura.
Área da frente = 2,40 × 2,60 = 6,24 m².
Este valor mede a superfície de portas e caixilharia do armário, para efeitos de orçamentação de material e de mão de obra de montagem; a unidade de medição regista-se como 1 un (o conjunto), com a área anotada como característica.
Exemplo resolvido · mapa de vãos e medição por unidade
Carpintarias e serralharias medem-se sobretudo por unidade, e a boa prática é agrupar os elementos iguais numa única linha do mapa de quantidades, em vez de repetir uma linha por cada localização. Um projeto de uma pequena moradia tem:
| Elemento | Dimensões (m) | Quantidade | Unidade |
|---|---|---|---|
| Porta de entrada (madeira maciça) | 0,90 × 2,10 | 1 | un |
| Portas interiores (madeira, iguais entre si) | 0,80 × 2,10 | 6 | un |
| Portão de garagem (serralharia) | 3,00 × 2,20 | 1 | un |
| Janelas em PVC (iguais entre si) | 1,20 × 1,20 | 4 | un |
As 6 portas interiores, por serem todas iguais, registam-se numa única linha com a quantidade 6, e não em seis linhas repetidas: o mapa de quantidades agrupa por tipo, não por localização na planta.
Para orçamentar o acabamento (verniz ou pintura) das portas interiores, calcula-se a área da folha à parte, mesmo a unidade de contagem sendo "un":
Área total a envernizar = 6 × (0,80 × 2,10) = 6 × 1,68 = 10,08 m².
Repara que há duas medições sobre o mesmo elemento, com propósitos diferentes: 6 un é a quantidade a encomendar à carpintaria; 10,08 m² é a área a considerar para o acabamento de superfície. Nenhuma substitui a outra.
5. Serralharias e caixilharias em PVC
A serralharia cobre os elementos em metal (aço, alumínio, ferro forjado). As caixilharias em PVC são medidas no mesmo capítulo, por partilharem a lógica de vão e vidro. O princípio do capítulo anterior mantém-se: elementos metálicos e caixilharias iguais agrupam-se numa só linha do mapa de quantidades. O referencial pede a medição de:
- Portas, janelas e outros elementos em vãos (metálicos): por unidade (un) ou à área (m²) do vão, consoante o critério do gabinete de projeto.
- Fachadas-cortina: à área (m²) da fachada.
- Guardas, balaustradas e corrimãos: ao metro linear (ml), ou à área quando desenvolvidas em painel.
- Revestimentos: à área (m²).
- Divisórias leves e gradeamentos: à área (m²), com desconto de vãos quando aplicável.
- Equipamentos: por unidade (un).
- Caixilharias em PVC: à área do vão (m²), registando à parte a área líquida de vidro (ver capítulo 9).
Exemplo resolvido · janela em PVC
Uma janela em PVC tem 1,60 m de largura por 1,40 m de altura, com um caixilho de 0,09 m de largura em todo o perímetro do vidro.
- Área do vão (para a caixilharia): 1,60 × 1,40 = 2,24 m². Como é > 2,00 m², este vão desconta-se da alvenaria que o rodeia.
- Área líquida de vidro: descontando o caixilho dos dois lados em cada direção: (1,60 − 2 × 0,09) × (1,40 − 2 × 0,09) = 1,42 × 1,22 = 1,73 m².
São duas medições diferentes, com propósitos diferentes: a área do vão serve para descontar da alvenaria e para orçamentar a caixilharia; a área líquida de vidro serve para orçamentar o vidro em separado (capítulo 9).
6. Isolamentos e impermeabilizações
Isolamentos
Os isolamentos térmicos e acústicos medem-se, na maioria dos casos, à área (m²), com o mesmo critério de desconto de vãos das paredes:
- Isolamentos com placas ou mantas (poliestireno, lã de rocha): à área (m²).
- Isolamentos com material a granel ou moldado "in situ" (espuma projetada, granulado insuflado): à área (m²) quando a espessura é constante, ou ao volume (m³) quando não é.
- Sistemas de isolamento térmico compostos (ETICS, "capoto"): à área (m²) da fachada isolada.
- Trabalhos acessórios (perfis de remate, cantoneiras, fitas de estanquidade): ao metro linear (ml).
Impermeabilizações
As impermeabilizações protegem o edifício da água. Medem-se assim:
- Impermeabilizações de coberturas em terraço ou inclinadas: à área (m²) da superfície coberta.
- Impermeabilizações de paramentos verticais (caves, muros de suporte): à área (m²).
- Impermeabilizações de elementos enterrados (fundações, reservatórios): à área (m²).
- Impermeabilizações de juntas (juntas de dilatação, juntas de betonagem): ao metro linear (ml).
Exemplo resolvido · impermeabilização de um terraço
Um terraço acessível mede 7,00 m × 4,00 m em planta, e a manta impermeabilizante sobe pelos remates (rufos) até 0,20 m de altura em todo o perímetro.
- Área da laje de terraço: 7,00 × 4,00 = 28,00 m².
- Perímetro: 2 × (7,00 + 4,00) = 22,00 m.
- Área dos remates verticais: 22,00 × 0,20 = 4,40 m².
- Área total de impermeabilização: 28,00 + 4,40 = 32,40 m².
Os remates são um erro comum de esquecer: a manta não fica só no plano horizontal, sobe pelas paredes e platibandas, e essa área conta também.
Exemplo resolvido · quantidade de manta com sobreposições (dobras)
A área útil a impermeabilizar (a do exemplo anterior) é 32,40 m², mas a quantidade de manta a encomendar é sempre maior, porque entre faixas consecutivas do rolo se aplica uma sobreposição (dobra) que garante a estanquidade da junção.
A manta vem em rolos de 1,00 m de largura por 10,00 m de comprimento, e a sobreposição entre faixas é de 0,10 m.
- A primeira faixa cobre 1,00 m de largura na íntegra.
- Cada faixa seguinte, por sobrepor 0,10 m à anterior, acrescenta apenas 0,90 m de largura útil nova (1,00 − 0,10).
- Falta cobrir, depois da primeira faixa, 4,00 − 1,00 = 3,00 m de largura do terraço.
- Número de faixas adicionais: 3,00 ÷ 0,90 = 3,33, que se arredonda por excesso para 4 faixas.
- Total de faixas: 1 + 4 = 5 faixas.
- Comprimento de cada faixa (comprimento do terraço + folga de 0,20 m em cada topo, para dobrar nos remates): 7,00 + 2 × 0,20 = 7,40 m, cortados de um rolo de 10,00 m.
- Quantidade de manta a encomendar: 5 rolos × 1,00 m × 10,00 m = 50,00 m².
A diferença entre os 50,00 m² comprados e os 32,40 m² úteis (17,60 m²) não é desperdício por erro: explica-se pelas sobreposições entre faixas e pelo recorte no comprimento de cada rolo. Arredondar por excesso o número de faixas é sempre a decisão correta: por defeito, falta manta para fechar o terraço.
7. Revestimentos de paredes, pisos, tetos e escadas
Paredes, pisos e tetos
- Revestimentos de paramentos exteriores e interiores (reboco, azulejo, pedra decorativa): à área (m²), pelo critério de desconto de vãos.
- Revestimentos de pavimentos exteriores e interiores (ladrilho, mosaico, madeira): à área (m²). Não se descontam vãos de porta, porque um pavimento é contínuo; só se descontam elementos fixos de grande dimensão, como um pilar interior.
- Revestimentos de tetos exteriores e interiores (estuque, gesso cartonado, forro): à área (m²), igual à área do pavimento correspondente, salvo geometria diferente (mansardas, tetos inclinados).
Exemplo resolvido · reboco de parede e estuque de teto numa cozinha
Uma cozinha mede, em planta, 3,50 m × 3,00 m, com pé-direito de 2,60 m e uma única porta de 0,80 m × 2,00 m (sem janela, por ter ventilação mecânica).
- Perímetro: 2 × (3,50 + 3,00) = 13,00 m.
- Área bruta de reboco: 13,00 × 2,60 = 33,80 m².
- Área da porta: 0,80 × 2,00 = 1,60 m² → ≤ 2,00 m², não se desconta.
- Área líquida de reboco de parede: 33,80 m².
- Área de estuque de teto: 3,50 × 3,00 = 10,50 m² (igual à área de pavimento, sem desconto de vãos).
Nesta cozinha, a área de reboco da parede (33,80 m²) e a área de estuque do teto (10,50 m²) são medições completamente diferentes, mesmo tratando-se do mesmo compartimento: uma é o desenvolvimento vertical da parede, a outra é a área horizontal em planta.
Exemplo resolvido · revestimento e pavimento da sala de estar
Recuperando a sala de estar do capítulo 2 (5,00 m × 4,00 m, pé-direito 2,70 m, porta 0,90 m × 2,10 m, janela 1,80 m × 1,50 m):
- Área líquida de reboco/azulejo de parede (mesma regra do capítulo 2): 45,90 m².
- Área de pavimento: 5,00 × 4,00 = 20,00 m² (sem desconto de vãos).
- Rodapé: o rodapé corre ao longo do perímetro, mas interrompe-se onde há porta (a janela, por estar acima do nível do rodapé, não o interrompe). Rodapé = perímetro − largura da porta = 18,00 − 0,90 = 17,10 ml.
Escadas
Os degraus medem-se pela área do cobertor (a parte horizontal, onde se pisa) mais o espelho (a parte vertical), multiplicada pela largura da escada, e somada ao número de degraus.
Exemplo resolvido · revestimento de uma escada
Uma escada tem 16 degraus, cobertor de 0,29 m, espelho de 0,18 m e largura de 1,10 m.
- Área de cobertores: 16 × 0,29 × 1,10 = 5,10 m².
- Área de espelhos: 16 × 0,18 × 1,10 = 3,17 m².
- Área total de revestimento de escada: 5,10 + 3,17 = 8,27 m².
8. Coberturas inclinadas
As coberturas inclinadas medem-se sobre a superfície real da água (a superfície inclinada), não sobre a projeção horizontal, porque é essa a área de telha, chapa ou outro material de cobertura que vai ser aplicada.
O cálculo do desenvolvimento da água
Desenvolvimento da água = projeção horizontal ÷ cos(inclinação)
A projeção horizontal é o que se mede diretamente na planta de cobertura; a divisão pelo cosseno do ângulo de inclinação "estica" essa medida para a superfície real e inclinada do telhado.
Exemplo resolvido · cobertura de duas águas
Um edifício mede, em planta, 10,00 m × 8,00 m, com telhado de duas águas simétricas, inclinação de 30° e um beirado de 0,50 m a toda a volta.
- Largura total coberta (largura do edifício + beirados dos dois lados): 8,00 + 2 × 0,50 = 9,00 m.
- Projeção horizontal de cada água (metade da largura total, por serem simétricas): 9,00 ÷ 2 = 4,50 m.
- Comprimento de cada água (comprimento do edifício + beirados nas empenas): 10,00 + 2 × 0,50 = 11,00 m.
- Desenvolvimento da água: 4,50 ÷ cos(30°) = 4,50 ÷ 0,8660 = 5,20 m.
- Área de uma água: 5,20 × 11,00 = 57,20 m².
- Área total da cobertura (duas águas iguais): 2 × 57,20 = 114,40 m².
Drenagem de águas pluviais
A caleira (algeroz) mede-se ao metro linear, ao longo de cada beirado: 11,00 × 2 = 22,00 ml, neste exemplo. Os tubos de queda medem-se por unidade (un), com o seu comprimento registado à parte, ao metro linear.
9. Vidros, espelhos, pinturas e acabamentos
Vidros e espelhos
- Chapa de vidro em caixilhos: à área líquida (m²), descontando o caixilho, como no exemplo do capítulo 5.
- Divisórias de vidro perfilado: à área (m²).
- Portas e janelas de vidro: por unidade (un) ou à área (m²).
- Persianas com lâmina de vidro: à área (m²) ou por unidade.
- Espelhos: à área (m²) quando de grande dimensão, ou por unidade quando peças fixas de casa de banho.
Exemplo resolvido · vidro da janela da sala de estar
Retomando a janela do capítulo 2 (1,80 m × 1,50 m), com caixilho de 0,08 m:
Vidro = (1,80 − 2 × 0,08) × (1,50 − 2 × 0,08) = 1,64 × 1,34 = 2,20 m².
Pinturas
- Pintura de estruturas metálicas: à área (m²) desenvolvida, medindo as superfícies realmente expostas à tinta.
- Pintura de portas e portões: à área (m²), medindo ambas as faces, ou por unidade (un).
- Pintura de janelas e envidraçados: à área (m²) do vão, ou por unidade.
- Pintura de outros elementos em vãos, grades, guardas, balaustradas e corrimãos: ao metro linear (ml) ou à área desenvolvida.
- Pintura de equipamentos fixos e móveis: por unidade (un) ou à área.
⚠️ As caixilharias em PVC não se pintam: o PVC vem pigmentado de fábrica. Só se pintam elementos de madeira e de metal.
Exemplo resolvido · pintura de um portão metálico
Um portão de garagem metálico mede 3,00 m × 1,50 m e pinta-se dos dois lados.
Área de pintura = (3,00 × 1,50) × 2 faces = 4,50 × 2 = 9,00 m².
Exemplo resolvido · pintura completa de um quarto
Um quarto mede, em planta, 4,20 m × 3,60 m, pé-direito 2,50 m, com uma porta de 0,80 m × 2,10 m e uma janela de 1,40 m × 1,20 m. Vão pintar-se as paredes, o teto e o rodapé.
- Perímetro: 2 × (4,20 + 3,60) = 15,60 m.
- Área bruta de parede: 15,60 × 2,50 = 39,00 m².
- Área da porta: 0,80 × 2,10 = 1,68 m² → ≤ 2,00 m², não se desconta.
- Área da janela: 1,40 × 1,20 = 1,68 m² → ≤ 2,00 m², não se desconta.
- Área líquida de pintura de parede: 39,00 m² (nenhum dos dois vãos ultrapassa o limiar).
- Área de pintura de teto: 4,20 × 3,60 = 15,12 m².
- Área total de pintura (parede + teto): 39,00 + 15,12 = 54,12 m².
- Rodapé pintado: interrompe-se na porta, não na janela: 15,60 − 0,80 = 14,80 ml.
Um mapa de quantidades de pintura completo tem sempre, no mínimo, três linhas para o mesmo quarto: a área de parede, a área de teto (muitas vezes com tinta diferente) e o rodapé ao metro linear (muitas vezes com um esmalte diferente da parede).
Acabamentos
- Afagamento e acabamento de pavimentos de madeira e cortiça: à área (m²), igual à área de pavimento (capítulo 7).
- Acabamento de pavimentos de ladrilhos cerâmicos, de mármore e pastas compósitas: à área (m²).
- Acabamento de pavimentos com alcatifas, tapetes ou passadeiras: à área (m²).
- Acabamento de paredes com papel colado ou panos decorativos: à área (m²), com desconto de vãos, como um revestimento de parede comum.
- Outros acabamentos: à área ou por unidade, consoante o elemento.
10. Instalações de canalização, ascensores, monta-cargas e equipamento
Instalações de canalização
Aqui exige-se interpretar projetos de especialidades, não apenas o de arquitetura, porque as redes de água e esgoto vêm desenhadas nas peças de especialidade de águas e esgotos.
- Esgoto doméstico ou de águas residuais: ao metro linear (ml) de tubagem, com os ramais e caixas de visita contados por unidade (un).
- Esgoto de águas pluviais: ao metro linear (ml), com os ralos e caixas por unidade (un).
- Distribuição de água: ao metro linear (ml) de tubagem, por diâmetro.
- Aparelhos sanitários (sanita, lavatório, base de duche): por unidade (un).
- Distribuição de gás: ao metro linear (ml).
- Evacuação de lixo: por unidade (un), quando equipamento (compactador, tubagem de queda de lixo).
Exemplo resolvido · tubagem de abastecimento e queda no esgoto
Uma instalação tem 12,50 m de tubagem de abastecimento de água até à casa de banho, e 8,00 m de tubagem de esgoto até ao coletor, com uma pendente de 2%.
- Comprimento de abastecimento: 12,50 ml (registo direto).
- Queda do esgoto ao longo do troço: 8,00 × 0,02 = 0,16 m.
A pendente garante o escoamento por gravidade; sem a queda mínima adequada, a água estagna e o esgoto entope.
Exemplo resolvido · rede de esgoto com vários ramais
Uma casa de banho tem três aparelhos sanitários, cada um com o seu ramal de esgoto até a uma caixa de reunião, de onde parte o coletor principal até à rede pública:
- Ramal da sanita: 1,20 m.
- Ramal do lavatório: 0,80 m.
- Ramal do duche: 1,50 m.
-
Coletor (caixa de reunião até à rede pública): 6,00 m, com pendente de 2%.
-
Soma dos ramais: 1,20 + 0,80 + 1,50 = 3,50 ml.
- Queda do coletor: 6,00 × 0,02 = 0,12 m.
- Comprimento total de tubagem de esgoto: 3,50 + 6,00 = 9,50 ml.
Cada ramal mede-se e regista-se em separado no mapa de quantidades (diâmetros diferentes têm preços diferentes), mas o comprimento total de tubagem soma-se para efeitos de encomenda do material corrente.
Ascensores e monta-cargas
Ascensores e monta-cargas são equipamentos completos, fornecidos e montados por empresas especializadas. Medem-se por unidade (un) instalada, registando as características que determinam o preço: o percurso (número de pisos servidos e altura total de elevação), a carga nominal (em kg ou número de pessoas) e o tipo (elétrico, hidráulico).
Elementos de equipamento fixo e móvel
O equipamento fixo e móvel de mercado (mobiliário de cozinha, bancadas, eletrodomésticos encastráveis, cacifos) mede-se, em regra, por unidade (un), com a referência do fabricante e as dimensões registadas como características, e só à área (m²) quando o elemento é modular e vendido a metro quadrado (como certos armários lineares de cozinha).
11. Segurança, ambiente e qualidade nas medições
Medir não é uma atividade de secretária isolada do estaleiro: quem confirma medições em obra está sujeito às mesmas regras de qualquer outro profissional da construção.
- Equipamentos de proteção individual (EPI): capacete, botas de biqueira de aço, colete de alta visibilidade e, junto de coberturas inclinadas, arnês antiquedas. Usar os EPI corretos é uma aptidão exigida no referencial, não uma opção.
- Normas de segurança e saúde no trabalho: sinalização de risco, delimitação de zonas de queda em altura e de trabalhos sobre coberturas, e cumprimento do plano de segurança e saúde da obra.
- Normas de gestão de resíduos: separar e encaminhar corretamente os resíduos de construção e demolição (RCD), sobretudo em obras de reabilitação com demolição de alvenarias e revestimentos antigos.
- Normas de proteção ambiental: evitar o desperdício de materiais e a contaminação de solos e águas com produtos de impermeabilização e tintas.
- Normas da qualidade: registar as medições de forma rastreável e conferível, com as fontes (peça de desenho, folha, pormenor) sempre identificadas, para que outra pessoa possa verificar o trabalho.
Erros comuns
- Descontar todos os vãos sem verificar a área: um vão com 1,50 m² não se desconta; só se desconta acima de 2,00 m².
- Somar vãos pequenos para ultrapassar o limiar: o critério aplica-se vão a vão, nunca à soma.
- Esquecer os remates verticais numa impermeabilização de terraço: a manta sobe pelas paredes, e essa área conta.
- Medir a projeção horizontal de uma cobertura inclinada em vez do desenvolvimento real da água: falta sempre material.
- Confundir a área do vão de uma caixilharia com a área líquida de vidro: são duas medições diferentes, com propósitos diferentes.
- Descontar vãos de porta no pavimento: os pavimentos são contínuos, o vão de porta não se desconta.
- Esquecer que o rodapé se interrompe nas portas mas não nas janelas (que ficam acima do nível do rodapé).
- Pintar "em pensamento" as duas faces de uma porta e só medir uma.
Glossário
- Medição: levantamento das quantidades de trabalho de uma obra a partir do projeto.
- Vão: abertura numa parede ou cobertura para uma porta, janela ou outro elemento.
- Desconto de vãos: subtração da área de um vão à área bruta de um elemento, segundo o critério enunciado no capítulo 1.
- Desenvolvimento: comprimento real de uma superfície, sobretudo quando inclinada ou curva.
- Guarnecimento: acabamento em pedra ou madeira à volta de um vão (ombreiras e padieira).
- Cobertor: parte horizontal de um degrau, onde se pisa.
- Espelho: parte vertical de um degrau.
- Água (de cobertura): cada plano inclinado de um telhado.
- Beirado: prolongamento da cobertura para lá da parede, que protege a fachada da chuva.
- Caleira (algeroz): canal que recolhe a água pluvial ao longo do beirado.
- ETICS: sistema de isolamento térmico exterior colado à fachada, vulgo "capoto".
- RCD: resíduos de construção e demolição.
- EPI: equipamento de proteção individual.
Síntese
Medir elementos não estruturais segue sempre a mesma disciplina: ler o projeto (plantas, cortes, alçados, pormenores) → identificar o elemento e a sua unidade de medição (m², m³, ml, un) → aplicar o critério de desconto de vãos de forma consistente (vão a vão, acima de 2,00 m²) → calcular com rigor e arredondar a duas casas decimais. Alvenarias, cantarias, carpintarias, serralharias, caixilharias em PVC, isolamentos, impermeabilizações, revestimentos de paredes, pisos, tetos e escadas, coberturas inclinadas, vidros, espelhos, pinturas, acabamentos, canalizações, ascensores, monta-cargas e equipamento seguem todos esta mesma lógica, aplicada ao elemento concreto. Fá-lo sempre com EPI, respeitando as normas de segurança, de gestão de resíduos, de proteção ambiental e da qualidade.
Exercícios resolvidos
1. Uma parede tem 22,00 m² de área bruta e uma janela de 1,80 m². Qual é a área líquida de alvenaria?
Resolução: a janela tem 1,80 m², que é ≤ 2,00 m², logo não se desconta. A área líquida mantém-se em 22,00 m².
2. Um vão de porta em cantaria mede 0,80 m de largura por 2,00 m de altura. Qual o guarnecimento em metro linear?
Resolução: guarnecimento = 2 × altura + largura = 2 × 2,00 + 0,80 = 4,80 ml.
3. Um terraço de 6,00 m × 5,00 m tem remates de impermeabilização com 0,25 m de altura em todo o perímetro. Qual a área total de impermeabilização?
Resolução: área da laje = 6,00 × 5,00 = 30,00 m². Perímetro = 2 × (6,00 + 5,00) = 22,00 m. Área de remates = 22,00 × 0,25 = 5,50 m². Total = 30,00 + 5,50 = 35,50 m².
4. Uma água de cobertura tem projeção horizontal de 4,00 m e a cobertura tem inclinação de 25°. Qual é o desenvolvimento real da água?
Resolução: desenvolvimento = 4,00 ÷ cos(25°) = 4,00 ÷ 0,9063 = 4,41 m.
5. Uma janela de alumínio tem vão de 1,50 m × 1,20 m (área 1,80 m²) e vidro líquido de 1,40 m². Um colega diz "descontamos 1,40 m² à parede, porque é a área que interessa". Está certo?
Resolução: não. O que se desconta à parede é sempre a área do vão (1,80 m², que é > 2,00 m²? não, é ≤ 2,00 m², logo aqui também não se desconta), nunca a área líquida de vidro. A área de vidro serve só para orçamentar o vidro em separado.
6. Uma fundação corrida mede 8,00 m de comprimento, 0,50 m de largura e 0,35 m de altura. Em que unidade se mede, e qual é a quantidade?
Resolução: as fundações medem-se ao volume (m³): 8,00 × 0,50 × 0,35 = 1,40 m³.
7. Um projeto tem 5 janelas em PVC todas com as mesmas dimensões. Como se regista este elemento no mapa de quantidades?
Resolução: numa única linha, com a quantidade 5 un, e não em cinco linhas repetidas: o mapa de quantidades agrupa elementos iguais por tipo, não por localização na planta.
8. Uma manta impermeabilizante tem sobreposição (dobra) de 0,10 m entre faixas de 1,00 m de largura nominal. Quantas faixas são precisas para cobrir uma largura de 2,80 m?
Resolução: a primeira faixa cobre 1,00 m. Faltam 2,80 − 1,00 = 1,80 m. Cada faixa seguinte acrescenta 0,90 m úteis (1,00 − 0,10): 1,80 ÷ 0,90 = 2,00, exatamente 2 faixas adicionais. Total: 1 + 2 = 3 faixas.
9. Uma rede de esgoto tem dois ramais, de 1,00 m e 1,40 m, e um coletor de 4,00 m com pendente de 1,5%. Qual é o comprimento total de tubagem e a queda do coletor?
Resolução: comprimento total = 1,00 + 1,40 + 4,00 = 6,40 ml. Queda do coletor = 4,00 × 0,015 = 0,06 m.