Sebenta · Analisar o projeto de instalações técnicas (UC02530)
- Introdução
- 1. O projeto de instalações técnicas
- 2. Enquadramento legal e normativo
- 3. Redes de abastecimento de água
- 4. Redes de drenagem de águas residuais e pluviais
- 5. Redes de instalações elétricas
- 6. Redes de telecomunicações (ITED)
- 7. Redes de gás
- 8. Redes de ventilação e climatização (AVAC)
- 9. Segurança contra incêndio (SCIE) e instalações técnicas
- 10. Compatibilização entre especialidades
- 11. Conformidade de materiais, equipamentos e acompanhamento em obra
- 12. Sinalizar omissões e incoerências
- 13. Segurança, ambiente e qualidade no acompanhamento
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Um edifício acabado esconde, dentro das suas paredes e lajes, seis redes que o tornam habitável: abastecimento de água, drenagem de águas residuais e pluviais, eletricidade, telecomunicações, gás e ventilação e climatização (AVAC). Cada uma tem o seu projeto de especialidade, o seu regulamento próprio e a sua simbologia.
Como técnico de obra, a tua função não é desenhar de raiz estes projetos: é ler, conferir, acompanhar a execução e compatibilizar entre especialidades, detetando cedo o que está errado, incompleto ou em conflito, antes de betonar, rebocar ou tapar uma instalação. Um erro apanhado no papel custa uma chamada telefónica. O mesmo erro apanhado depois da parede fechada custa uma demolição.
Objetivos de aprendizagem (referencial): executar desenhos das redes de água, drenagem, eletricidade, telecomunicações, gás e climatização; verificar a compatibilidade das instalações técnicas com os elementos estruturais e arquitetónicos; confirmar a conformidade dos materiais e equipamentos com os requisitos regulamentares; e sinalizar omissões, interferências ou incoerências entre os diversos projetos.
1. O projeto de instalações técnicas
Um projeto de especialidade é o conjunto de documentos elaborado por um projetista licenciado para uma rede técnica específica (água, eletricidade, gás, e assim por diante). Divide-se sempre em duas famílias de peças:
| Tipo | Conteúdo |
|---|---|
| Peças escritas | memória descritiva e justificativa, cálculos, caderno de encargos, medições e orçamento |
| Peças desenhadas | plantas por piso, esquemas verticais (montantes), pormenores construtivos, simbologia e legenda |
Antes de qualquer análise técnica, a primeira tarefa do técnico de obra é uma conferência de elementos: verificar que todas as peças previstas existem, que estão atualizadas (data e número de revisão) e que a simbologia usada nos desenhos corresponde à legenda do próprio projeto.
Exemplo resolvido · Conferir os elementos de um projeto de água
Chega à obra um projeto de abastecimento de água. A checklist inicial:
- Existe memória descritiva? Sim, com os caudais e diâmetros calculados.
- Existem plantas de todos os pisos? Falta a planta da cobertura, onde está o depósito.
- A legenda das plantas entregues corresponde aos símbolos usados nos desenhos? Sim.
- A data das plantas é a mesma em todas as peças? Não, há uma planta com uma revisão mais antiga.
Conclusão: o projeto tem duas falhas de elementos (planta em falta e revisão desatualizada) que se sinalizam ao projetista antes de se avançar para a análise técnica dos traçados.
2. Enquadramento legal e normativo
Cada rede de instalações técnicas em Portugal tem um diploma de referência próprio. Confundir o diploma de uma rede com o de outra é um erro grave em qualquer verificação técnica.
| Rede | Diploma de referência |
|---|---|
| Abastecimento e drenagem de água | Decreto Regulamentar n.º 23/95, de 23 de agosto |
| Instalações elétricas de baixa tensão | RTIEBT, aprovado pela Portaria n.º 949-A/2006, de 11 de setembro |
| Telecomunicações em edifícios (ITED) | Manual ITED, 4.ª edição, publicado pela ANACOM |
| Instalações de gás | Decreto-Lei n.º 97/2017, de 10 de agosto |
| Segurança contra incêndio em edifícios | RJ-SCIE, Decreto-Lei n.º 220/2008, de 12 de novembro |
A estas juntam-se quatro famílias de normas transversais, aplicáveis a todas as redes e a toda a obra:
- Normas de gestão de resíduos: separação e encaminhamento de resíduos de construção e demolição para destino autorizado.
- Normas de segurança e saúde no trabalho (SST): prevenção de acidentes e uso correto de equipamentos de proteção individual (EPI).
- Normas de proteção ambiental: prevenção de derrames, controlo de ruído e de poeiras.
- Normas da qualidade: procedimentos de verificação, registo e rastreabilidade de materiais e ensaios.
Não precisas de memorizar o texto de cada diploma. Precisas de saber, de forma imediata, a que rede corresponde cada um, para procurar a informação certa quando surge uma dúvida em obra.
3. Redes de abastecimento de água
A rede de abastecimento traz água fria (AF) e água quente (AQ) desde o ramal de ligação até cada dispositivo de consumo.
Traçado
- Coluna montante: sobe verticalmente pelo edifício, normalmente alojada numa caixa técnica acessível.
- Ramais: distribuem, em cada piso, a água da coluna até cada compartimento e dispositivo.
- O percurso deve ser o mais curto e direto possível, sempre acessível para manutenção futura.
- As tubagens de AQ e AF correm em paralelo, mas com afastamento mínimo entre si, para que o calor da água quente não se transmita à água fria em trânsito.
Simbologia e materiais
| Elemento | Símbolo | Legenda |
|---|---|---|
| Tubagem de água fria | linha contínua fina | AF |
| Tubagem de água quente | linha contínua fina com traço duplo curto | AQ |
| Válvula de seccionamento | círculo com traço diametral | VS |
| Contador de água | quadrado com a letra C | CA |
| Torneira de saída | círculo pequeno preenchido | T |
Os materiais correntes em redes prediais atuais são o tubo multicamada (PEX/AL/PEX) e o PPR; o cobre continua presente sobretudo em reabilitações. Qualquer material em contacto com água de consumo humano tem de ter certificação própria para esse uso.
Exemplo resolvido · Ler um troço de coluna montante
Uma planta mostra: contador (CA) no piso 0, coluna montante em AF até ao piso 3, com um ramal de AQ e AF para cada fogo e uma válvula de seccionamento (VS) à entrada de cada fogo.
- Confirma-se que existe uma VS por fogo, independente da coluna geral: permite cortar a água de um fogo sem afetar os restantes.
- Verifica-se que o diâmetro da coluna não diminui sem justificação de cálculo, o que causaria perda de pressão nos pisos mais altos.
- Confirma-se que a AQ tem isolamento térmico representado ou referido na memória descritiva.
- Se faltar a VS de algum fogo, é uma omissão a reportar ao projetista, nunca a resolver "por conta própria" em obra.
4. Redes de drenagem de águas residuais e pluviais
A drenagem separa sempre águas residuais domésticas (esgoto de sanitários e cozinhas) de águas pluviais (água da chuva), em redes distintas até ao coletor público, seguindo o Decreto Regulamentar n.º 23/95.
Traçado
- Cada aparelho sanitário liga, por um ramal de descarga, a um tubo de queda.
- O tubo de queda desce até uma caixa de visita ou liga diretamente ao coletor predial.
- As águas pluviais recolhem-se em caleiras e tubos de queda próprios, ligados a caixas de visita de pluviais, nunca às de residuais.
- Todo o traçado corre sempre em declive: a água não desce sem inclinação.
Simbologia e materiais
| Elemento | Símbolo | Legenda |
|---|---|---|
| Tubagem de águas residuais domésticas | linha contínua média | AR |
| Tubagem de águas pluviais | linha tracejada | AP |
| Caixa de visita | quadrado com as letras CV | CV |
| Ramal de descarga | linha fina inclinada | RD |
| Sifão | símbolo em U | SF |
Materiais correntes: PVC-U série reforçada para coletores e tubos de queda; PP nos ramais de descarga interiores. Todas as ligações de um aparelho sanitário passam por um sifão, que retém uma coluna de água e impede o retorno de cheiro para o interior do edifício.
Inclinações: mínimo, não janela
A inclinação de um coletor garante a velocidade de autolimpeza: com inclinação a menos, os sólidos sedimentam e o tubo entope; com inclinação a mais, a água separa-se dos sólidos e a limpeza deixa de ser eficaz.
Como regra prática corrente, usa-se uma inclinação mínima da ordem de 1% (1 cm por metro) em tubos de pequeno diâmetro, evitando em geral ultrapassar muito uma inclinação da ordem dos 4%. Estes valores são indicativos, não uma tabela fixa: o Decreto Regulamentar 23/95 define, em anexo, a inclinação exigida para cada diâmetro de tubo. Nunca trates um intervalo genérico como se servisse para qualquer diâmetro: consulta sempre a tabela do diploma para o diâmetro em causa.
5. Redes de instalações elétricas
A rede elétrica predial nasce no quadro elétrico (QE) e reparte-se por circuitos independentes, seguindo o RTIEBT.
Traçado
- O quadro elétrico recebe a alimentação geral e reparte-a em circuitos, cada um protegido por um disjuntor próprio.
- Circuitos independentes típicos: iluminação, tomadas de uso geral, cozinha, climatização, cada um com a sua proteção.
- As colunas e ramais correm em tubo VD (embutido em parede ou laje) ou em conduta corrugada.
- Cada circuito tem proteção magnetotérmica (contra curto-circuito e sobrecarga); o quadro tem, no mínimo, proteção diferencial geral (contra choque elétrico).
Simbologia e materiais
| Elemento | Símbolo | Legenda |
|---|---|---|
| Ponto de luz de teto | círculo com cruz interior | PL |
| Interruptor simples | círculo pequeno com um traço | INT |
| Tomada de uso geral | semicírculo com dois traços | TUG |
| Quadro elétrico | retângulo com as letras QE | QE |
| Proteção diferencial | retângulo com o símbolo Δ | DIF |
Materiais correntes: cabo H07V-U ou H07V-R (o "fio VD") dentro de tubo corrugado; a secção do condutor é sempre definida pelo projetista em função da corrente do circuito, nunca decidida "a olho" em obra.
As 5 regras de ouro dos trabalhos elétricos
Antes de qualquer intervenção numa instalação elétrica, cumprem-se sempre, por esta ordem: 1) separar a fonte de alimentação; 2) bloquear a religação acidental; 3) verificar a ausência de tensão com aparelho próprio; 4) ligar à terra e em curto-circuito; 5) sinalizar e delimitar a zona de trabalho.
Em caso de acidente elétrico: liga 112 e nunca toques na vítima antes de cortar a corrente. Tocar num corpo em contacto com tensão transmite a corrente a quem socorre, criando uma segunda vítima.
Exemplo resolvido · Verificar um circuito antes de o abrir
Um técnico precisa de abrir uma caixa de derivação de um circuito de iluminação que "parece" estar desligado no quadro.
- Separar: desligar o disjuntor do circuito identificado no quadro.
- Bloquear: colocar um cadeado ou sinalética no disjuntor, para que ninguém o religue.
- Verificar a ausência de tensão: medir com um aparelho próprio dentro da caixa, nunca confiar só na etiqueta do quadro.
- Ligar à terra e em curto-circuito se aplicável ao tipo de trabalho e ao nível de tensão.
- Sinalizar a zona antes de abrir a caixa.
Só depois destes cinco passos se abre a caixa de derivação em segurança.
6. Redes de telecomunicações (ITED)
As redes de telecomunicações seguem o Manual ITED, 4.ª edição, que normaliza como um edifício recebe e distribui dados, televisão e telefone.
Traçado
- Ponto de entrega: local onde a rede pública entra no edifício.
- Armário de telecomunicações (ATE): concentra as ligações, por fogo ou por edifício.
- Repartidor geral (RG): distribui os sinais para cada tomada.
- Cablagem em topologia de estrela: cada tomada liga diretamente ao repartidor, nunca em série com outra tomada.
Simbologia e materiais
| Elemento | Símbolo | Legenda |
|---|---|---|
| Tomada de telecomunicações | quadrado com RJ45 | TT |
| Armário de telecomunicações | retângulo com ATE | ATE |
| Repartidor geral | retângulo com RG | RG |
Materiais correntes: cabo de par entrançado categoria 6 (UTP ou FTP) e, cada vez mais, fibra ótica até ao fogo. A tubagem e as calhas de telecomunicações são próprias, distintas das da rede elétrica, para evitar interferência eletromagnética entre os dois sistemas.
7. Redes de gás
A rede de gás alimenta equipamentos como fogão, esquentador ou caldeira, seguindo o Decreto-Lei n.º 97/2017. É a rede onde um erro tem a consequência mais imediata e grave.
Traçado
- Ramal de introdução: liga a rede pública ou o depósito ao contador.
- Contador de gás: instalado em local ventilado, normalmente no exterior ou em nicho próprio.
- Coluna montante e ramais até cada aparelho, sempre à vista ou em condutas próprias, nunca embutidos sem a proteção prevista no projeto.
- Válvulas de corte: uma geral e uma junto a cada aparelho, sempre acessíveis e nunca obstruídas.
Simbologia e materiais
| Elemento | Símbolo | Legenda |
|---|---|---|
| Tubagem de gás | linha contínua com traço-ponto | G |
| Válvula de corte de gás | círculo com traço diametral e a letra G | VG |
| Contador de gás | quadrado com as letras CG | CG |
Materiais correntes: tubo de cobre ou aço para instalações fixas; sistemas multicamada certificados especificamente para gás (nunca os mesmos tubos usados na rede de água, mesmo que pareçam idênticos). As ligações a aparelhos são fixas ou por tubo flexível certificado e dentro do prazo de validade.
8. Redes de ventilação e climatização (AVAC)
A rede de ventilação e climatização (AVAC) garante ar novo, aquecimento e arrefecimento no edifício.
Traçado
- Unidade exterior (UE): equipamento de produção, normalmente em terraço, cobertura ou varanda técnica, sempre com ventilação garantida.
- Unidade interior (UI): entrega o ar tratado ao espaço, diretamente ou por condutas.
- Condutas de insuflação: levam o ar tratado ao espaço; condutas de retorno: recolhem o ar de volta à unidade.
- Grelhas de insuflação e de retorno, dimensionadas para o caudal de cada compartimento.
Simbologia e materiais
| Elemento | Símbolo | Legenda |
|---|---|---|
| Conduta de insuflação | retângulo de linha dupla, seta cheia | INS |
| Conduta de retorno | retângulo de linha dupla, seta tracejada | RET |
| Unidade interior | retângulo com UI | UI |
| Unidade exterior | retângulo com UE | UE |
| Grelha de insuflação ou retorno | trapézio | GR |
Materiais correntes: condutas de chapa galvanizada com isolamento térmico exterior; tubagem frigorígena de cobre, sempre isolada e estanque, entre a unidade interior e a exterior, quando o sistema é de expansão direta.
9. Segurança contra incêndio (SCIE) e instalações técnicas
O RJ-SCIE (Decreto-Lei n.º 220/2008) impõe exigências diretas às instalações técnicas, porque estas atravessam paredes e pavimentos que devem resistir ao fogo.
- Selagens corta-fogo: todo o atravessamento de um elemento resistente ao fogo por um tubo ou cabo exige uma selagem certificada.
- Compartimentação: as condutas de AVAC não podem propagar fumo entre compartimentos corta-fogo sem registos corta-fogo instalados.
- Instalações de segurança: a iluminação de emergência e a deteção de incêndio são também instalações técnicas, com projeto próprio e rede fisicamente distinta da rede normal.
Um técnico de obra confere um atravessamento de laje por uma coluna montante de água. O tubo está instalado, mas a folga entre o tubo e a laje continua aberta, sem selagem. Mesmo que a rede de água esteja tecnicamente correta, este ponto falha o SCIE e tem de ser corrigido antes de qualquer acabamento sobre essa zona.
10. Compatibilização entre especialidades
O critério de desempenho pede para acompanhar a verificação da compatibilidade dos projetos de instalações técnicas com os de arquitetura e estruturas, sinalizando interferências.
Como se compatibiliza
- Sobrepor as plantas de cada especialidade (água, eletricidade, gás, AVAC) sobre a planta de arquitetura e de estruturas.
- Procurar colisões: um tubo que passa onde está uma viga, uma conduta que não cabe no teto falso previsto.
- Confirmar que as reservas (furos e roços previstos na estrutura) coincidem com o traçado real das redes.
- A compatibilização faz-se antes da betonagem ou da alvenaria, nunca depois: corrigir no papel é barato, corrigir em betão já executado é caro.
Atravessamentos de vigas
Quando uma tubagem ou conduta precisa mesmo de atravessar uma viga estrutural, aplicam-se regras práticas sempre confirmadas com o projetista de estruturas: evitar furos nas zonas de maior esforço junto aos apoios da viga, preferindo, sempre que possível, a zona central do vão; e nunca decidir em obra o diâmetro ou a posição exata do furo, o que compete sempre ao projetista de estruturas. Se o projeto de estruturas não previu a passagem, não se abre o furo: sinaliza-se a incoerência e aguarda-se decisão.
11. Conformidade de materiais, equipamentos e acompanhamento em obra
O critério de desempenho pede para conferir a conformidade dos materiais, equipamentos e soluções técnicas com os regulamentos aplicáveis a cada especialidade.
- Cada material ou equipamento aplicado deve corresponder ao especificado no projeto (marca, modelo, características técnicas).
- Uma substituição por equivalente exige aprovação formal do projetista, nunca decidida em obra sem esse registo.
- Confirmar a marcação CE e a ficha técnica de cada equipamento antes de este ser aplicado.
Exemplo resolvido · Substituição de um equipamento em obra
Chega à obra um esquentador diferente do especificado no projeto de gás.
- Confirmar se existe aprovação escrita do projetista para a substituição.
- Se não existir, suspender a instalação desse equipamento até à decisão.
- Comparar a ficha técnica do equipamento novo com os requisitos do projeto: potência, tipo de exaustão, classe de eficiência.
- Registar a ocorrência e reportar ao responsável de obra e ao projetista.
Acompanhar a execução em obra
Depois de o projeto conferido, o técnico de obra acompanha a execução de cada rede no estaleiro: confirma que o instalado corresponde ao desenho aprovado, verifica a sequência (as redes embutidas instalam-se antes do reboco) e confirma os ensaios obrigatórios (pressão na água e no gás, isolamento na rede elétrica) antes de qualquer acabamento tapar a instalação.
12. Sinalizar omissões e incoerências
Distinguir com precisão o tipo de problema ajuda a comunicá-lo corretamente ao projetista:
- Omissão: um elemento que devia estar representado e não está (por exemplo, falta a válvula de corte de um circuito).
- Interferência: dois elementos de redes diferentes disputam o mesmo espaço físico.
- Incoerência: a mesma informação aparece de forma diferente em duas peças do mesmo projeto.
Procedimento de registo
- Registar por escrito (relatório de obra, livro de obra ou plataforma própria), com data, local e descrição objetiva.
- Fotografar ou marcar na planta o ponto exato da ocorrência.
- Comunicar ao responsável de obra e, através dele, ao projetista.
- Aguardar decisão formal antes de executar essa zona da instalação.
O registo protege a obra e o próprio técnico: mostra que o problema foi detetado e comunicado a tempo, e não descoberto tarde demais.
13. Segurança, ambiente e qualidade no acompanhamento
Equipamentos de proteção individual (EPI)
| Risco | EPI |
|---|---|
| Quedas de objetos, impacto na cabeça | Capacete |
| Cortes, contacto com materiais | Luvas |
| Pisos irregulares, perfurantes | Botas de biqueira e palmilha de aço |
| Poeiras (corte, demolição) | Máscara |
| Trabalhos elétricos | Luvas isolantes e calçado dielétrico |
Resíduos, ambiente e qualidade
- Gestão de resíduos: separar por tipo (metais, plásticos, isolamentos) e encaminhar para destino autorizado, nunca misturar nem abandonar em obra.
- Proteção ambiental: prevenir derrames de óleos e solventes, conter poeiras e ruído dentro dos limites aplicáveis.
- Normas da qualidade: cada verificação (ensaio de pressão, ensaio de isolamento, conferência de material) fica registada, com data e responsável, garantindo rastreabilidade.
Erros comuns
- Não conferir os elementos do projeto antes de o analisar: avançar com plantas em falta ou desatualizadas, gerando decisões sobre informação incompleta.
- Confundir o diploma de uma rede com o de outra: citar o RTIEBT para uma questão de gás, por exemplo.
- Colar tubagem de água quente à de água fria sem afastamento, aquecendo a água fria em trânsito.
- Tratar a inclinação de um coletor como uma "janela larga": o correto é confirmar sempre o mínimo tabelado para o diâmetro em causa no Decreto Regulamentar 23/95, não aplicar um valor genérico.
- Verificar a ausência de tensão só visualmente (disjuntor desligado), sem medir com aparelho próprio.
- Passar cabo de dados numa conduta elétrica "por estar livre", ignorando a interferência eletromagnética.
- Usar tubo de água para gás, ou o inverso, por parecerem semelhantes: a certificação é específica por rede.
- Deixar um atravessamento sem selagem corta-fogo, "para se ver depois".
- Abrir um furo numa viga sem aprovação do projetista de estruturas, comprometendo a segurança do edifício.
- Aceitar equipamento substituto sem aprovação formal do projetista, só porque "chegou primeiro" ou "está mais barato".
- Fechar uma parede ou teto antes de os ensaios obrigatórios estarem aprovados e registados.
- Comunicar uma incoerência só verbalmente, sem registo escrito nem fotografia.
Glossário
- Ramal: troço de tubagem ou cabo que liga a rede principal a um dispositivo ou compartimento.
- Coluna montante: troço vertical de uma rede que sobe pelo edifício.
- Caixa de visita (CV): câmara de inspeção e ligação numa rede de drenagem.
- Sifão: dispositivo que retém água para impedir o retorno de cheiro numa rede de drenagem.
- RTIEBT: Regras Técnicas das Instalações Elétricas de Baixa Tensão.
- ITED: Infraestruturas de Telecomunicações em Edifícios.
- Repartidor geral (RG): equipamento que distribui os sinais de telecomunicações para as tomadas.
- SCIE: Segurança Contra Incêndio em Edifícios.
- Selagem corta-fogo: material certificado que fecha um atravessamento de tubo ou cabo numa barreira resistente ao fogo.
- AVAC: Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado.
- Compatibilização: processo de verificar que os projetos de diferentes especialidades não entram em conflito físico entre si.
- Omissão, interferência, incoerência: os três tipos de problema entre projetos de instalações técnicas.
- EPI: Equipamento de Proteção Individual.
- Marcação CE: indicação de conformidade de um produto com a legislação europeia aplicável.
Síntese
Analisar um projeto de instalações técnicas segue sempre a mesma lógica: conferir os elementos do projeto, enquadrar cada rede no diploma certo, ler o traçado, a simbologia e os materiais de água, drenagem, eletricidade, telecomunicações, gás e AVAC, compatibilizar com estruturas e arquitetura, confirmar a conformidade de materiais e equipamentos, sinalizar por escrito omissões e incoerências, e acompanhar a execução em obra com os ensaios obrigatórios. Tudo isto sob as regras transversais de segurança (EPI, trabalhos elétricos), ambiente, resíduos e qualidade. Domina este fluxo e serás capaz de ler qualquer projeto de instalações técnicas, mesmo de um edifício que nunca tenhas visto.
Exercícios resolvidos
1. Um projeto de água chega à obra sem a planta da cobertura, onde fica o depósito. Qual é o primeiro passo?
Resolução: sinalizar a omissão ao projetista e aguardar a peça em falta, antes de avançar com a análise técnica do resto do projeto. Analisar um projeto incompleto gera decisões sobre informação parcial.
2. Encontras, numa planta, um tubo com o símbolo de linha contínua com traço-ponto. A que rede pertence e porque é diferente do símbolo da água?
Resolução: é a rede de gás (legenda G). O traço-ponto distingue-se de propósito do traço contínuo simples da água, precisamente para que as duas redes nunca se confundam numa planta onde aparecem sobrepostas.
3. Um coletor de esgoto está desenhado com uma inclinação muito acima do valor habitual. É um problema?
Resolução: sim. Inclinação a mais também é um erro, não só a menos: a água separa-se dos sólidos e a autolimpeza deixa de funcionar. O valor correto para o diâmetro em causa está na tabela do Decreto Regulamentar 23/95, não é "quanto mais, melhor".
4. Antes de abrir uma caixa de derivação elétrica que "parece" desligada, que passo nunca podes saltar?
Resolução: a verificação da ausência de tensão com aparelho próprio (regra de ouro n.º 3). O disjuntor pode estar mal identificado no quadro; confiar só na etiqueta é o erro mais comum e mais perigoso.
5. Um instalador de AVAC precisa de fazer passar uma conduta através de uma viga estrutural. O projeto de estruturas não previu essa passagem. O que fazer?
Resolução: não abrir o furo. Sinaliza-se a incoerência ao responsável de obra e ao projetista de estruturas, e aguarda-se decisão formal sobre o diâmetro e a posição exatos, ou uma solução alternativa de traçado.
6. Chega um esquentador diferente do especificado no projeto de gás, sem qualquer documento de aprovação. Podes instalá-lo?
Resolução: não. Suspende-se a instalação até existir aprovação escrita do projetista para a substituição, comparando entretanto a ficha técnica do novo equipamento com os requisitos do projeto (potência, tipo de exaustão, eficiência).
7. Encontras um atravessamento de laje por uma coluna de água, sem selagem corta-fogo. A rede de água está tecnicamente correta. É suficiente?
Resolução: não. Mesmo com a rede de água correta, a ausência de selagem corta-fogo viola o RJ-SCIE. O ponto tem de ser corrigido antes de qualquer acabamento cobrir essa zona.