Partilhar: WhatsApp
aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC02530

Sebenta · Analisar o projeto de instalações técnicas (UC02530)

Ler, verificar e acompanhar em obra os projetos de água, drenagem, eletricidade, telecomunicações, gás e climatização
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Obra ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Um edifício acabado esconde, dentro das suas paredes e lajes, seis redes que o tornam habitável: abastecimento de água, drenagem de águas residuais e pluviais, eletricidade, telecomunicações, gás e ventilação e climatização (AVAC). Cada uma tem o seu projeto de especialidade, o seu regulamento próprio e a sua simbologia.

Como técnico de obra, a tua função não é desenhar de raiz estes projetos: é ler, conferir, acompanhar a execução e compatibilizar entre especialidades, detetando cedo o que está errado, incompleto ou em conflito, antes de betonar, rebocar ou tapar uma instalação. Um erro apanhado no papel custa uma chamada telefónica. O mesmo erro apanhado depois da parede fechada custa uma demolição.

Objetivos de aprendizagem (referencial): executar desenhos das redes de água, drenagem, eletricidade, telecomunicações, gás e climatização; verificar a compatibilidade das instalações técnicas com os elementos estruturais e arquitetónicos; confirmar a conformidade dos materiais e equipamentos com os requisitos regulamentares; e sinalizar omissões, interferências ou incoerências entre os diversos projetos.

1. O projeto de instalações técnicas

Um projeto de especialidade é o conjunto de documentos elaborado por um projetista licenciado para uma rede técnica específica (água, eletricidade, gás, e assim por diante). Divide-se sempre em duas famílias de peças:

Tipo Conteúdo
Peças escritas memória descritiva e justificativa, cálculos, caderno de encargos, medições e orçamento
Peças desenhadas plantas por piso, esquemas verticais (montantes), pormenores construtivos, simbologia e legenda

Antes de qualquer análise técnica, a primeira tarefa do técnico de obra é uma conferência de elementos: verificar que todas as peças previstas existem, que estão atualizadas (data e número de revisão) e que a simbologia usada nos desenhos corresponde à legenda do próprio projeto.

Exemplo resolvido · Conferir os elementos de um projeto de água

Chega à obra um projeto de abastecimento de água. A checklist inicial:

  1. Existe memória descritiva? Sim, com os caudais e diâmetros calculados.
  2. Existem plantas de todos os pisos? Falta a planta da cobertura, onde está o depósito.
  3. A legenda das plantas entregues corresponde aos símbolos usados nos desenhos? Sim.
  4. A data das plantas é a mesma em todas as peças? Não, há uma planta com uma revisão mais antiga.

Conclusão: o projeto tem duas falhas de elementos (planta em falta e revisão desatualizada) que se sinalizam ao projetista antes de se avançar para a análise técnica dos traçados.

Cada rede de instalações técnicas em Portugal tem um diploma de referência próprio. Confundir o diploma de uma rede com o de outra é um erro grave em qualquer verificação técnica.

Rede Diploma de referência
Abastecimento e drenagem de água Decreto Regulamentar n.º 23/95, de 23 de agosto
Instalações elétricas de baixa tensão RTIEBT, aprovado pela Portaria n.º 949-A/2006, de 11 de setembro
Telecomunicações em edifícios (ITED) Manual ITED, 4.ª edição, publicado pela ANACOM
Instalações de gás Decreto-Lei n.º 97/2017, de 10 de agosto
Segurança contra incêndio em edifícios RJ-SCIE, Decreto-Lei n.º 220/2008, de 12 de novembro

A estas juntam-se quatro famílias de normas transversais, aplicáveis a todas as redes e a toda a obra:

Não precisas de memorizar o texto de cada diploma. Precisas de saber, de forma imediata, a que rede corresponde cada um, para procurar a informação certa quando surge uma dúvida em obra.

3. Redes de abastecimento de água

A rede de abastecimento traz água fria (AF) e água quente (AQ) desde o ramal de ligação até cada dispositivo de consumo.

Traçado

Simbologia e materiais

Elemento Símbolo Legenda
Tubagem de água fria linha contínua fina AF
Tubagem de água quente linha contínua fina com traço duplo curto AQ
Válvula de seccionamento círculo com traço diametral VS
Contador de água quadrado com a letra C CA
Torneira de saída círculo pequeno preenchido T

Os materiais correntes em redes prediais atuais são o tubo multicamada (PEX/AL/PEX) e o PPR; o cobre continua presente sobretudo em reabilitações. Qualquer material em contacto com água de consumo humano tem de ter certificação própria para esse uso.

Exemplo resolvido · Ler um troço de coluna montante

Uma planta mostra: contador (CA) no piso 0, coluna montante em AF até ao piso 3, com um ramal de AQ e AF para cada fogo e uma válvula de seccionamento (VS) à entrada de cada fogo.

  1. Confirma-se que existe uma VS por fogo, independente da coluna geral: permite cortar a água de um fogo sem afetar os restantes.
  2. Verifica-se que o diâmetro da coluna não diminui sem justificação de cálculo, o que causaria perda de pressão nos pisos mais altos.
  3. Confirma-se que a AQ tem isolamento térmico representado ou referido na memória descritiva.
  4. Se faltar a VS de algum fogo, é uma omissão a reportar ao projetista, nunca a resolver "por conta própria" em obra.

4. Redes de drenagem de águas residuais e pluviais

A drenagem separa sempre águas residuais domésticas (esgoto de sanitários e cozinhas) de águas pluviais (água da chuva), em redes distintas até ao coletor público, seguindo o Decreto Regulamentar n.º 23/95.

Traçado

Simbologia e materiais

Elemento Símbolo Legenda
Tubagem de águas residuais domésticas linha contínua média AR
Tubagem de águas pluviais linha tracejada AP
Caixa de visita quadrado com as letras CV CV
Ramal de descarga linha fina inclinada RD
Sifão símbolo em U SF

Materiais correntes: PVC-U série reforçada para coletores e tubos de queda; PP nos ramais de descarga interiores. Todas as ligações de um aparelho sanitário passam por um sifão, que retém uma coluna de água e impede o retorno de cheiro para o interior do edifício.

Inclinações: mínimo, não janela

A inclinação de um coletor garante a velocidade de autolimpeza: com inclinação a menos, os sólidos sedimentam e o tubo entope; com inclinação a mais, a água separa-se dos sólidos e a limpeza deixa de ser eficaz.

Como regra prática corrente, usa-se uma inclinação mínima da ordem de 1% (1 cm por metro) em tubos de pequeno diâmetro, evitando em geral ultrapassar muito uma inclinação da ordem dos 4%. Estes valores são indicativos, não uma tabela fixa: o Decreto Regulamentar 23/95 define, em anexo, a inclinação exigida para cada diâmetro de tubo. Nunca trates um intervalo genérico como se servisse para qualquer diâmetro: consulta sempre a tabela do diploma para o diâmetro em causa.

5. Redes de instalações elétricas

A rede elétrica predial nasce no quadro elétrico (QE) e reparte-se por circuitos independentes, seguindo o RTIEBT.

Traçado

Simbologia e materiais

Elemento Símbolo Legenda
Ponto de luz de teto círculo com cruz interior PL
Interruptor simples círculo pequeno com um traço INT
Tomada de uso geral semicírculo com dois traços TUG
Quadro elétrico retângulo com as letras QE QE
Proteção diferencial retângulo com o símbolo Δ DIF

Materiais correntes: cabo H07V-U ou H07V-R (o "fio VD") dentro de tubo corrugado; a secção do condutor é sempre definida pelo projetista em função da corrente do circuito, nunca decidida "a olho" em obra.

As 5 regras de ouro dos trabalhos elétricos

Antes de qualquer intervenção numa instalação elétrica, cumprem-se sempre, por esta ordem: 1) separar a fonte de alimentação; 2) bloquear a religação acidental; 3) verificar a ausência de tensão com aparelho próprio; 4) ligar à terra e em curto-circuito; 5) sinalizar e delimitar a zona de trabalho.

Em caso de acidente elétrico: liga 112 e nunca toques na vítima antes de cortar a corrente. Tocar num corpo em contacto com tensão transmite a corrente a quem socorre, criando uma segunda vítima.

Exemplo resolvido · Verificar um circuito antes de o abrir

Um técnico precisa de abrir uma caixa de derivação de um circuito de iluminação que "parece" estar desligado no quadro.

  1. Separar: desligar o disjuntor do circuito identificado no quadro.
  2. Bloquear: colocar um cadeado ou sinalética no disjuntor, para que ninguém o religue.
  3. Verificar a ausência de tensão: medir com um aparelho próprio dentro da caixa, nunca confiar só na etiqueta do quadro.
  4. Ligar à terra e em curto-circuito se aplicável ao tipo de trabalho e ao nível de tensão.
  5. Sinalizar a zona antes de abrir a caixa.

Só depois destes cinco passos se abre a caixa de derivação em segurança.

6. Redes de telecomunicações (ITED)

As redes de telecomunicações seguem o Manual ITED, 4.ª edição, que normaliza como um edifício recebe e distribui dados, televisão e telefone.

Traçado

Simbologia e materiais

Elemento Símbolo Legenda
Tomada de telecomunicações quadrado com RJ45 TT
Armário de telecomunicações retângulo com ATE ATE
Repartidor geral retângulo com RG RG

Materiais correntes: cabo de par entrançado categoria 6 (UTP ou FTP) e, cada vez mais, fibra ótica até ao fogo. A tubagem e as calhas de telecomunicações são próprias, distintas das da rede elétrica, para evitar interferência eletromagnética entre os dois sistemas.

7. Redes de gás

A rede de gás alimenta equipamentos como fogão, esquentador ou caldeira, seguindo o Decreto-Lei n.º 97/2017. É a rede onde um erro tem a consequência mais imediata e grave.

Traçado

Simbologia e materiais

Elemento Símbolo Legenda
Tubagem de gás linha contínua com traço-ponto G
Válvula de corte de gás círculo com traço diametral e a letra G VG
Contador de gás quadrado com as letras CG CG

Materiais correntes: tubo de cobre ou aço para instalações fixas; sistemas multicamada certificados especificamente para gás (nunca os mesmos tubos usados na rede de água, mesmo que pareçam idênticos). As ligações a aparelhos são fixas ou por tubo flexível certificado e dentro do prazo de validade.

8. Redes de ventilação e climatização (AVAC)

A rede de ventilação e climatização (AVAC) garante ar novo, aquecimento e arrefecimento no edifício.

Traçado

Simbologia e materiais

Elemento Símbolo Legenda
Conduta de insuflação retângulo de linha dupla, seta cheia INS
Conduta de retorno retângulo de linha dupla, seta tracejada RET
Unidade interior retângulo com UI UI
Unidade exterior retângulo com UE UE
Grelha de insuflação ou retorno trapézio GR

Materiais correntes: condutas de chapa galvanizada com isolamento térmico exterior; tubagem frigorígena de cobre, sempre isolada e estanque, entre a unidade interior e a exterior, quando o sistema é de expansão direta.

9. Segurança contra incêndio (SCIE) e instalações técnicas

O RJ-SCIE (Decreto-Lei n.º 220/2008) impõe exigências diretas às instalações técnicas, porque estas atravessam paredes e pavimentos que devem resistir ao fogo.

Um técnico de obra confere um atravessamento de laje por uma coluna montante de água. O tubo está instalado, mas a folga entre o tubo e a laje continua aberta, sem selagem. Mesmo que a rede de água esteja tecnicamente correta, este ponto falha o SCIE e tem de ser corrigido antes de qualquer acabamento sobre essa zona.

10. Compatibilização entre especialidades

O critério de desempenho pede para acompanhar a verificação da compatibilidade dos projetos de instalações técnicas com os de arquitetura e estruturas, sinalizando interferências.

Como se compatibiliza

  1. Sobrepor as plantas de cada especialidade (água, eletricidade, gás, AVAC) sobre a planta de arquitetura e de estruturas.
  2. Procurar colisões: um tubo que passa onde está uma viga, uma conduta que não cabe no teto falso previsto.
  3. Confirmar que as reservas (furos e roços previstos na estrutura) coincidem com o traçado real das redes.
  4. A compatibilização faz-se antes da betonagem ou da alvenaria, nunca depois: corrigir no papel é barato, corrigir em betão já executado é caro.

Atravessamentos de vigas

Quando uma tubagem ou conduta precisa mesmo de atravessar uma viga estrutural, aplicam-se regras práticas sempre confirmadas com o projetista de estruturas: evitar furos nas zonas de maior esforço junto aos apoios da viga, preferindo, sempre que possível, a zona central do vão; e nunca decidir em obra o diâmetro ou a posição exata do furo, o que compete sempre ao projetista de estruturas. Se o projeto de estruturas não previu a passagem, não se abre o furo: sinaliza-se a incoerência e aguarda-se decisão.

11. Conformidade de materiais, equipamentos e acompanhamento em obra

O critério de desempenho pede para conferir a conformidade dos materiais, equipamentos e soluções técnicas com os regulamentos aplicáveis a cada especialidade.

Exemplo resolvido · Substituição de um equipamento em obra

Chega à obra um esquentador diferente do especificado no projeto de gás.

  1. Confirmar se existe aprovação escrita do projetista para a substituição.
  2. Se não existir, suspender a instalação desse equipamento até à decisão.
  3. Comparar a ficha técnica do equipamento novo com os requisitos do projeto: potência, tipo de exaustão, classe de eficiência.
  4. Registar a ocorrência e reportar ao responsável de obra e ao projetista.

Acompanhar a execução em obra

Depois de o projeto conferido, o técnico de obra acompanha a execução de cada rede no estaleiro: confirma que o instalado corresponde ao desenho aprovado, verifica a sequência (as redes embutidas instalam-se antes do reboco) e confirma os ensaios obrigatórios (pressão na água e no gás, isolamento na rede elétrica) antes de qualquer acabamento tapar a instalação.

12. Sinalizar omissões e incoerências

Distinguir com precisão o tipo de problema ajuda a comunicá-lo corretamente ao projetista:

Procedimento de registo

  1. Registar por escrito (relatório de obra, livro de obra ou plataforma própria), com data, local e descrição objetiva.
  2. Fotografar ou marcar na planta o ponto exato da ocorrência.
  3. Comunicar ao responsável de obra e, através dele, ao projetista.
  4. Aguardar decisão formal antes de executar essa zona da instalação.

O registo protege a obra e o próprio técnico: mostra que o problema foi detetado e comunicado a tempo, e não descoberto tarde demais.

13. Segurança, ambiente e qualidade no acompanhamento

Equipamentos de proteção individual (EPI)

Risco EPI
Quedas de objetos, impacto na cabeça Capacete
Cortes, contacto com materiais Luvas
Pisos irregulares, perfurantes Botas de biqueira e palmilha de aço
Poeiras (corte, demolição) Máscara
Trabalhos elétricos Luvas isolantes e calçado dielétrico

Resíduos, ambiente e qualidade

Erros comuns

Glossário

Síntese

Analisar um projeto de instalações técnicas segue sempre a mesma lógica: conferir os elementos do projeto, enquadrar cada rede no diploma certo, ler o traçado, a simbologia e os materiais de água, drenagem, eletricidade, telecomunicações, gás e AVAC, compatibilizar com estruturas e arquitetura, confirmar a conformidade de materiais e equipamentos, sinalizar por escrito omissões e incoerências, e acompanhar a execução em obra com os ensaios obrigatórios. Tudo isto sob as regras transversais de segurança (EPI, trabalhos elétricos), ambiente, resíduos e qualidade. Domina este fluxo e serás capaz de ler qualquer projeto de instalações técnicas, mesmo de um edifício que nunca tenhas visto.

Exercícios resolvidos

1. Um projeto de água chega à obra sem a planta da cobertura, onde fica o depósito. Qual é o primeiro passo?

Resolução: sinalizar a omissão ao projetista e aguardar a peça em falta, antes de avançar com a análise técnica do resto do projeto. Analisar um projeto incompleto gera decisões sobre informação parcial.

2. Encontras, numa planta, um tubo com o símbolo de linha contínua com traço-ponto. A que rede pertence e porque é diferente do símbolo da água?

Resolução: é a rede de gás (legenda G). O traço-ponto distingue-se de propósito do traço contínuo simples da água, precisamente para que as duas redes nunca se confundam numa planta onde aparecem sobrepostas.

3. Um coletor de esgoto está desenhado com uma inclinação muito acima do valor habitual. É um problema?

Resolução: sim. Inclinação a mais também é um erro, não só a menos: a água separa-se dos sólidos e a autolimpeza deixa de funcionar. O valor correto para o diâmetro em causa está na tabela do Decreto Regulamentar 23/95, não é "quanto mais, melhor".

4. Antes de abrir uma caixa de derivação elétrica que "parece" desligada, que passo nunca podes saltar?

Resolução: a verificação da ausência de tensão com aparelho próprio (regra de ouro n.º 3). O disjuntor pode estar mal identificado no quadro; confiar só na etiqueta é o erro mais comum e mais perigoso.

5. Um instalador de AVAC precisa de fazer passar uma conduta através de uma viga estrutural. O projeto de estruturas não previu essa passagem. O que fazer?

Resolução: não abrir o furo. Sinaliza-se a incoerência ao responsável de obra e ao projetista de estruturas, e aguarda-se decisão formal sobre o diâmetro e a posição exatos, ou uma solução alternativa de traçado.

6. Chega um esquentador diferente do especificado no projeto de gás, sem qualquer documento de aprovação. Podes instalá-lo?

Resolução: não. Suspende-se a instalação até existir aprovação escrita do projetista para a substituição, comparando entretanto a ficha técnica do novo equipamento com os requisitos do projeto (potência, tipo de exaustão, eficiência).

7. Encontras um atravessamento de laje por uma coluna de água, sem selagem corta-fogo. A rede de água está tecnicamente correta. É suficiente?

Resolução: não. Mesmo com a rede de água correta, a ausência de selagem corta-fogo viola o RJ-SCIE. O ponto tem de ser corrigido antes de qualquer acabamento cobrir essa zona.