Sebenta · Efetuar o planeamento e controlo da obra (UC02527)
- Introdução
- 1. Requisitos técnicos do projeto
- 2. As fases de execução de uma obra
- 3. Princípios de planeamento: objetivos e EDT
- 4. Redes PERT/CPM e o cálculo do caminho crítico
- 5. Folgas, atualização do plano e desvios
- 6. Organizar as equipas de trabalho
- 7. Gerir recursos materiais e equipamentos
- 8. Análise e gestão de riscos
- 9. Métodos construtivos e tecnologias
- 10. Controlar a obra: a curva S
- 11. Segurança, saúde, ambiente e qualidade no estaleiro
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a planear e controlar uma obra, da leitura do projeto até à entrega ao dono de obra. É o núcleo do trabalho de um técnico de obra: transformar um conjunto de peças escritas e desenhadas num plano executável, com fases, prazos, equipas e recursos, e depois acompanhar a obra no terreno, comparando o que foi planeado com o que realmente aconteceu.
O percurso desta sebenta segue a lógica de uma obra real: começamos por ler o projeto, identificamos as fases de execução, aprendemos as técnicas de planeamento (Gantt e redes PERT/CPM), calculamos o caminho crítico e as folgas, dimensionamos equipas e calculamos quantidades de recursos, analisamos riscos, escolhemos métodos construtivos, controlamos a obra com a curva S, e fechamos com segurança, ambiente, qualidade e enquadramento legal.
Objetivos de aprendizagem (referencial): identificar as fases de execução da obra; organizar as equipas de trabalho; planear o cronograma de obra; gerir os recursos materiais e equipamentos; controlar o cumprimento das normas de segurança. Todos os exemplos e cálculos desta sebenta usam a mesma obra de referência, a "Moradia Vila Verde", para que o aluno acompanhe um caso completo do início ao fim.
1. Requisitos técnicos do projeto
Antes de planear seja o que for, o técnico de obra tem de interpretar o projeto de execução. É o conhecimento "requisitos técnicos do projeto" e a aptidão "analisar e interpretar projetos de várias especialidades" que se treinam aqui.
O projeto de execução reúne peças escritas e desenhadas:
| Peça | O que contém |
|---|---|
| Planta | disposição dos espaços em vista de cima, para cada piso |
| Alçado | vista frontal de cada fachada |
| Corte | secção vertical, mostra pés-direitos e cotas de nível |
| Memória descritiva | justifica as soluções técnicas e os materiais escolhidos |
| Mapa de quantidades | quantidades de cada item, base do orçamento |
| Caderno de encargos | condições técnicas e contratuais da obra |
Coordenar as especialidades
Uma obra junta várias especialidades: arquitetura, estruturas, águas e esgotos, eletricidade, ITED, AVAC. Cada uma tem os seus próprios desenhos, e o técnico de obra tem de sobrepor as plantas para detetar conflitos, por exemplo uma viga estrutural a passar exatamente onde devia correr um tubo de esgoto.
Exemplo resolvido · Ler um mapa de quantidades
Um excerto do mapa de quantidades da "Moradia Vila Verde" indica: "Sapata contínua de fundação: 40 m de comprimento, secção de 0,6 m × 0,5 m, em betão C25/30."
O técnico de obra retira daqui três dados imediatamente úteis para o planeamento: o volume de betão a encomendar (calculado no capítulo 7), o prazo de cura típico do betão (necessário antes de a estrutura poder arrancar) e a classe do betão (C25/30), que tem de ser confirmada em cada entrega, ligação direta ao controlo de qualidade do capítulo 10.
2. As fases de execução de uma obra
Identificar as fases de execução da obra é a primeira realização desta UC. Numa construção de raiz, a sequência típica é:
- Estaleiro: montagem, sinalização e vedação do local.
- Movimentação de terras: limpeza do terreno e escavação.
- Fundações: sapatas e vigas de fundação.
- Estrutura: pilares, vigas e lajes.
- Alvenarias: paredes exteriores e interiores.
- Cobertura: estrutura e revestimento do telhado.
- Instalações: redes de águas, esgotos, eletricidade e ITED.
- Revestimentos e acabamentos: rebocos, pinturas e pavimentos.
- Arranjos exteriores e limpeza final: entrega ao dono de obra.
Interdependências entre fases
As fases não são blocos isolados: há interdependências. A estrutura só arranca depois de as fundações estarem curadas; as alvenarias precisam da estrutura para se apoiarem; as instalações entram nas paredes antes de estas serem revestidas. Algumas fases, contudo, podem correr em paralelo: a cobertura e as alvenarias partem ambas da estrutura concluída e não dependem uma da outra. Compreender estas interdependências é o que a rede PERT/CPM do capítulo 4 representa de forma rigorosa.
3. Princípios de planeamento: objetivos e EDT
Planear uma obra é gerir três objetivos que competem entre si, o triângulo do projeto: prazo, custo e qualidade. Comprimir o prazo custa dinheiro (mais equipas) ou qualidade (menos cuidado); é esse equilíbrio que os "princípios base de um planeamento" ensinam a gerir.
A EDT (estrutura de decomposição do trabalho)
Antes de datar seja o que for, decompõe-se a obra em partes mais pequenas e geríveis, a EDT (ou WBS, work breakdown structure):
Moradia Vila Verde
├── Estaleiro
├── Movimentação de terras
├── Fundações
│ ├── Escavação
│ └── Betonagem
├── Estrutura
├── Alvenarias
├── Cobertura
├── Instalações
├── Revestimentos e acabamentos
└── Arranjos exteriores
Cada ramo final é um pacote de trabalho: mede-se, orça-se e programa-se. É a EDT que alimenta o diagrama de Gantt e a rede PERT/CPM.
O diagrama de Gantt
O diagrama de Gantt representa cada atividade como uma barra horizontal ao longo do tempo: o eixo horizontal é o tempo, cada linha é uma atividade, e o comprimento da barra é a duração. É a técnica de planeamento mais usada por ser fácil de ler, mas tem um limite importante: não mostra bem porque é que uma atividade depende de outra, nem o efeito de um atraso sobre as restantes. Para isso usa-se a técnica de rede, tema do capítulo seguinte.
4. Redes PERT/CPM e o cálculo do caminho crítico
Calcular o caminho crítico do planeamento é uma aptidão explícita desta UC. A técnica PERT/CPM representa a obra como uma rede: cada atividade tem uma duração e depende de outras através de uma relação de precedência fim a início (a atividade seguinte só arranca depois de a anterior terminar).
A rede da "Moradia Vila Verde"
| Atividade | Descrição | Duração (dias úteis) | Predecessora(s) |
|---|---|---|---|
| A | Estaleiro | 3 | (nenhuma) |
| B | Movimentação de terras | 4 | A |
| C | Fundações | 6 | B |
| D | Estrutura | 10 | C |
| E | Alvenarias | 8 | D |
| F | Cobertura | 5 | D |
| G | Instalações | 7 | E |
| H | Revestimentos | 9 | F, G |
| I | Acabamentos | 6 | H |
Note-se a bifurcação: E e F arrancam ambas depois de D; e a convergência: H só arranca depois de F e G estarem concluídas.
Exemplo resolvido · Passagem à frente (ES e EF)
ES (início mais cedo) e EF (fim mais cedo) calculam-se do início para o fim da rede: EF = ES + duração; o ES de uma atividade é sempre o maior EF das suas predecessoras (nunca a média, nem a mais curta).
| Atividade | Duração | ES (dia útil) | EF (dia útil) |
|---|---|---|---|
| A | 3 | 1 | 3 |
| B | 4 | 4 | 7 |
| C | 6 | 8 | 13 |
| D | 10 | 14 | 23 |
| E | 8 | 24 | 31 |
| F | 5 | 24 | 28 |
| G | 7 | 32 | 38 |
| H | 9 | 39 | 47 |
| I | 6 | 48 | 53 |
O passo a explicar com cuidado é H: recebe de F (que termina no dia útil 28) e de G (que termina no dia útil 38). Como H só pode arrancar depois de ambas estarem concluídas, o seu ES é o dia útil 39, a seguir ao maior dos dois, G. A obra tem, assim, uma duração total de 53 dias úteis.
Exemplo resolvido · Passagem atrás (LS e LF)
LF (fim mais tarde) e LS (início mais tarde) calculam-se do fim para o início, sem atrasar o prazo total do projeto (53 dias úteis): LS = LF - duração; o LF de uma atividade é o menor LS das suas sucessoras.
| Atividade | ES | EF | LS | LF | Folga total |
|---|---|---|---|---|---|
| A | 1 | 3 | 1 | 3 | 0 |
| B | 4 | 7 | 4 | 7 | 0 |
| C | 8 | 13 | 8 | 13 | 0 |
| D | 14 | 23 | 14 | 23 | 0 |
| E | 24 | 31 | 24 | 31 | 0 |
| F | 24 | 28 | 34 | 38 | 10 |
| G | 32 | 38 | 32 | 38 | 0 |
| H | 39 | 47 | 39 | 47 | 0 |
| I | 48 | 53 | 48 | 53 | 0 |
A folga total de cada atividade é LS - ES (ou, de forma equivalente, LF - EF; os dois cálculos têm sempre de dar o mesmo valor). Só F tem folga: pode atrasar até 10 dias úteis sem atrasar a obra, porque existe uma rota alternativa (D→E→G) mais longa a alimentar H.
O caminho crítico
O caminho crítico é a sequência de atividades com folga total zero, a que determina a duração total da obra:
A → B → C → D → E → G → H → I
3 + 4 + 6 + 10 + 8 + 7 + 9 + 6 = 53 dias úteis
Qualquer atraso numa atividade do caminho crítico atrasa a obra inteira, dia a dia. F (cobertura) fica fora do caminho crítico.
Dias úteis e dias de calendário
Todos os cálculos desta sebenta usam dias úteis (semana de 5 dias, sem contar sábados, domingos nem feriados). A obra "Moradia Vila Verde", com 53 dias úteis e início numa segunda-feira, termina 73 dias de calendário depois (10 semanas completas mais 3 dias, numa quarta-feira), sem contar eventuais feriados no período. Nunca confundir estes dois valores: o plano de trabalhos trabalha em dias úteis, mas a data de entrega ao dono de obra é sempre uma data de calendário.
5. Folgas, atualização do plano e desvios
Folga total e folga livre
Há dois tipos de folga, e confundi-los é um erro frequente:
- Folga total: quanto uma atividade pode atrasar sem atrasar a obra inteira.
- Folga livre: quanto uma atividade pode atrasar sem atrasar a atividade imediatamente a seguir.
Para F, ambas valem 10 dias úteis, porque F só tem um sucessor (H), e H está no caminho crítico: atrasar F até 10 dias não atrasa nem H nem a obra. Quando uma atividade tem um único sucessor, folga total e folga livre coincidem sempre; quando tem vários sucessores, a folga livre pode ser menor que a folga total (ver exercício resolvido na ficha 01).
Exemplo resolvido · Atualizar o planeamento após um atraso
Aptidão da UC: atualizar o planeamento durante a execução da obra. Suponha-se que, em obra, C (fundações) atrasa de 6 para 8 dias úteis (dois dias a mais, por mau tempo durante a escavação).
C está no caminho crítico (folga total zero), logo o atraso propaga-se a toda a rede a jusante:
| Atividade | Duração original | ES/EF originais | ES/EF novos |
|---|---|---|---|
| C | 6 → 8 dias | 8 a 13 | 8 a 15 |
| D | 10 | 14 a 23 | 16 a 25 |
| E | 8 | 24 a 31 | 26 a 33 |
| G | 7 | 32 a 38 | 34 a 40 |
| H | 9 | 39 a 47 | 41 a 49 |
| I | 6 | 48 a 53 | 50 a 55 |
A obra passa de 53 para 55 dias úteis, exatamente os 2 dias de atraso de C. A cobertura (F) continua com 10 dias úteis de folga: o atraso em C desloca toda a rede em bloco, sem consumir a folga de F.
Regra a reter: um dia de atraso numa atividade crítica é sempre um dia de atraso na obra inteira; um atraso numa atividade com folga só é grave se ultrapassar essa folga.
6. Organizar as equipas de trabalho
Organizar as equipas de trabalho é a segunda realização desta UC. Dimensionar uma equipa cruza três valores: quantidade a produzir, dias disponíveis e produtividade por trabalhador.
Exemplo resolvido · Dimensionar a equipa de alvenaria
A atividade E (alvenarias) dura 8 dias úteis. A "Moradia Vila Verde" tem 160 m² de parede a construir.
- Necessário por dia: 160 m² ÷ 8 dias = 20 m²/dia.
- Produtividade de 1 pedreiro: 4 m²/dia (valor de referência para alvenaria corrente).
- Pedreiros necessários: 20 ÷ 4 = 5 pedreiros.
- Serventes de apoio, à razão de 1 servente por cada 2 pedreiros, arredondado por cima: 5 ÷ 2 = 2,5 → 3 serventes.
- Equipa total: 8 elementos (5 pedreiros + 3 serventes).
Se a duração disponível para a mesma área fosse menor, seria preciso mais pedreiros a trabalhar em paralelo, não pedreiros mais rápidos: a produtividade individual não muda, muda o número de pessoas.
Coordenar equipas diferentes
Numa obra trabalham várias equipas em simultâneo ou em sequência (pedreiros, eletricistas, canalizadores, subempreiteiros). A coordenação assenta em reuniões de obra regulares e no respeito pela sequência da rede PERT/CPM: uma equipa só entra quando a anterior liberta a frente de trabalho. Coordenar as atividades de diferentes equipas é um critério de desempenho avaliado nesta UC, e assenta em atitudes como conduta profissional, cooperação com a equipa e respeito pelas regras e normas definidas.
7. Gerir recursos materiais e equipamentos
Calcular quantidades de recursos é uma aptidão explícita desta UC.
Exemplo resolvido · Quantidade de betão
A sapata contínua de fundação, referida no mapa de quantidades (capítulo 1), tem 40 m de comprimento, 0,6 m de largura e 0,5 m de altura.
- Volume: 40 × 0,6 × 0,5 = 12 m³ de betão.
- Camião betoneira com capacidade de 8 m³: 12 ÷ 8 = 1,5 → 2 viagens (uma de 8 m³, outra de 4 m³, a última nunca segue o camião cheio).
- Produtividade da equipa de betonagem: 15 m³/dia.
- Tempo de betonagem: 12 ÷ 15 = 0,8 dia → arredonda-se sempre por cima: 1 dia útil.
Exemplo resolvido · Quantidade de tijolo
Para os mesmos 160 m² de parede do capítulo 6, com um consumo de referência de 13 tijolos por m²:
- Tijolos base: 160 × 13 = 2080 unidades.
- Quebra habitual em obra (cortes, transporte, roturas): 10%.
- Total com quebra: 2080 × 1,10 = 2288 unidades, que se arredonda para uma encomenda de 2290 tijolos.
Regra de ouro nestas contas: arredondar sempre por cima, tanto em recursos (viagens, unidades) como em prazos (dias). Uma fração de camião ou de dia não existe na prática.
Prazos de entrega e disponibilidade
O conhecimento "necessidades de mão de obra, materiais e equipamentos, considerando a disponibilidade, custos e prazos" cruza-se diretamente com a rede PERT/CPM: cada material ou equipamento tem um prazo de entrega (lead time), e a regra prática é encomendar de forma a que chegue antes do ES da atividade que o usa. Se a estrutura (D) arranca no dia útil 14 e o aço tem um prazo de entrega de 5 dias úteis, a encomenda tem de sair, o mais tardar, no dia útil 9. Equipamentos partilhados entre atividades (uma grua, um gerador) precisam de nivelamento, para garantir que não são pedidos por duas atividades ao mesmo tempo.
8. Análise e gestão de riscos
Análise e gestão de riscos, para antecipar possíveis obstáculos, é um conhecimento explícito desta UC. Usa-se uma matriz de probabilidade × impacto:
| Risco | Probabilidade | Impacto | Ação de mitigação |
|---|---|---|---|
| Atraso na entrega de betão | Média | Alto | reservar com dois fornecedores |
| Condições climatéricas adversas | Alta | Médio | folga de segurança na cobertura |
| Acidente de trabalho no estaleiro | Baixa | Alto | EPI obrigatório, briefing diário |
| Falta de mão de obra especializada | Média | Médio | subcontratação de reserva |
| Alteração ao projeto pelo dono de obra | Média | Alto | cláusula de revisão de prazo |
Um risco de alta probabilidade e alto impacto tem sempre prioridade máxima de resposta. A folga da rede PERT/CPM não é um acaso: pode e deve ser usada de propósito para absorver os riscos de maior impacto, como acontece com a cobertura (a atividade mais exposta ao tempo, com 10 dias úteis de folga nesta obra). Identificar o risco não chega: uma ação preventiva reduz a probabilidade antes de o risco acontecer; uma ação corretiva reduz o impacto depois de acontecer.
9. Métodos construtivos e tecnologias
Selecionar métodos construtivos adequados é um critério de desempenho desta UC.
| Método | Características | Quando escolher |
|---|---|---|
| Tradicional (alvenaria e betão armado in situ) | flexível, mão de obra local, mais lento | obra pequena, projeto irregular |
| Pré-fabricado (elementos produzidos em fábrica) | rápido, qualidade controlada, precisa de grua | prazos apertados, produção em série |
| LSF (light steel framing) | leve, seco, muito rápido a montar | ampliações, obras ligeiras |
A escolha do método impacta diretamente as durações da rede PERT/CPM: um método pré-fabricado pode reduzir a duração da estrutura (D) de 10 para 5 dias úteis, por exemplo, encurtando toda a obra, porque D está no caminho crítico.
Tecnologias de apoio ao planeamento
O software CAD apoia o desenho e a leitura de plantas, alçados e cortes; as aplicações de gestão de projetos constroem o Gantt e a rede PERT/CPM automaticamente e recalculam o caminho crítico a cada alteração; o BIM (building information modelling) junta as especialidades num modelo 3D único, detetando conflitos antes de a obra começar. A tecnologia acelera os cálculos, mas quem tem de interpretar o resultado continua a ser o técnico de obra.
10. Controlar a obra: a curva S
Monitorizar e supervisionar continuamente o avanço da obra, identificando desvios em relação ao cronograma e tomando ações corretivas, é um critério de desempenho central desta UC. A ferramenta que suporta esse controlo é a curva S.
O que é a curva S
A curva S representa o progresso acumulado da obra (em percentagem do valor total) ao longo do tempo. Chama-se assim pela forma característica: arranca devagar (estaleiro, fundações), acelera a meio (estrutura, alvenarias) e desacelera no fim (acabamentos, tarefas de detalhe).
Para construir a curva planeada da "Moradia Vila Verde" atribui-se a cada atividade um peso no valor total da obra (em percentagem, soma sempre 100%) e distribui-se esse peso de forma linear ao longo dos dias em que a atividade decorre:
| Atividade | A | B | C | D | E | F | G | H | I |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Peso (%) | 3 | 5 | 10 | 25 | 15 | 10 | 12 | 15 | 5 |
Progresso planeado acumulado, a intervalos de 5 dias úteis:
| Dia útil | 5 | 10 | 15 | 20 | 25 | 30 | 35 | 40 | 45 | 50 | 53 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| % planeado | 5,5% | 13,0% | 23,0% | 35,5% | 50,8% | 66,1% | 74,9% | 83,3% | 91,7% | 97,5% | 100% |
Exemplo resolvido · Calcular o desvio no dia útil 30
O critério de desempenho pede para identificar desvios em relação ao cronograma, ou seja, sempre em relação ao valor planeado para aquele dia concreto, nunca em relação ao dia anterior ou ao total da obra.
- Progresso planeado ao dia útil 30: 66,1% (ver tabela acima).
- Progresso real, medido em obra por levantamento no estaleiro: 58%.
- Desvio em pontos percentuais: 58 − 66,1 = −8,1 p.p.
- Desvio relativo ao planeado: −8,1 ÷ 66,1 × 100 ≈ −12,3%.
A obra está 12,3% atrasada em relação ao progresso planeado para o dia útil 30. É um desvio a registar e a corrigir, por exemplo com reforço de equipa nas atividades críticas ainda por concluir, e a reavaliar na atualização do plano do capítulo 5.
11. Segurança, saúde, ambiente e qualidade no estaleiro
Controlar o cumprimento das normas de segurança é a quinta realização desta UC, e junta-se aqui a três conhecimentos: normas de gestão de resíduos, normas de proteção ambiental e normas da qualidade.
EPI e segurança e saúde no trabalho
O EPI (equipamento de proteção individual) inclui capacete, botas com biqueira de aço, luvas e, em trabalho em altura, arnês. A Lei n.º 102/2009 estabelece o regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho em Portugal. Conferir que as normas de segurança estão a ser cumpridas no estaleiro, incluindo o uso correto de EPI, é um critério de desempenho explícito desta UC, sustentado pela atitude de responsabilidade pelas suas ações e pelas de terceiros.
O Plano de Segurança e Saúde (PSS)
O Decreto-Lei n.º 273/2003 define as regras de segurança e saúde no trabalho em estaleiros temporários ou móveis, o contexto de trabalho central desta UC. Exige um Plano de Segurança e Saúde (PSS), elaborado antes de a obra começar, e a nomeação de um coordenador de segurança em obra. O PSS identifica os riscos específicos da obra (ligação direta ao capítulo 8) e as medidas de prevenção associadas a cada um; aplica-se tanto a obras privadas como públicas, sempre que exista um estaleiro de construção.
Resíduos e proteção ambiental
Os RCD (resíduos de construção e demolição) têm regime próprio, definido pelo Decreto-Lei n.º 102-D/2020 (Regime Geral de Gestão de Resíduos, que revogou o antigo DL 46/2008). As obrigações típicas incluem a triagem no estaleiro (separar por tipo: betão, madeira, metais, embalagens), o encaminhamento para operadores licenciados, e o registo eletrónico do percurso do resíduo. Prever no Gantt o espaço e o tempo para essa triagem, em vez de a tratar como tarefa "à parte", evita atrasos e coimas.
Controlo da qualidade
Analisar a qualidade dos materiais e a conformidade com os padrões de construção é um critério de desempenho desta UC: verificar que os materiais entregues correspondem ao mapa de quantidades e ao caderno de encargos (marca, classe, certificação), confirmar ensaios obrigatórios (por exemplo, a resistência do betão aos 28 dias de cura) e rejeitar material não conforme antes de ser aplicado, sempre mais barato do que demolir e refazer.
Empreitadas públicas: o Código dos Contratos Públicos
Uma das saídas do técnico de obra é trabalhar para autarquias, um dos contextos de trabalho desta UC, em empreitadas de obras públicas. Estas são regidas pelo Código dos Contratos Públicos (CCP), aprovado pelo Decreto-Lei n.º 18/2008, que exige, como parte da proposta, um plano de trabalhos detalhado, normalmente acompanhado de plano de mão de obra e plano de equipamentos. É o Gantt e a rede PERT/CPM dos capítulos 3 e 4 que sustentam, na prática, esse plano de trabalhos formal, e é também a referência contratual usada para justificar eventuais prorrogações de prazo.
Erros comuns
- Calcular o ES de uma atividade com várias predecessoras pela mais curta, ou pela média. É sempre a maior EF das predecessoras que manda: uma atividade só arranca quando todas as que dependem dela estiverem concluídas.
- Confundir folga total com folga livre. Só coincidem quando a atividade tem um único sucessor; com vários sucessores, a folga livre pode ser menor.
- Não arredondar por cima em recursos e prazos. Uma fração de camião, de tijolo ou de dia não existe na prática, arredonda-se sempre para o valor inteiro seguinte.
- Calcular um desvio sem dizer em relação a quê. "58%" sozinho não diz nada; "58% quando o planeado para o dia útil 30 era 66,1%" diz tudo.
- Confundir dias úteis com dias de calendário. O plano de trabalhos usa dias úteis; a data de entrega ao dono de obra é sempre uma data de calendário.
- Usar o DL 273/2003 fora de contexto. Aplica-se a estaleiros temporários ou móveis; o CCP (DL 18/2008) aplica-se a empreitadas de obras públicas, são diplomas distintos com objetos distintos.
- Tratar o Gantt como suficiente numa rede complexa. Sem a rede PERT/CPM por trás, o Gantt não mostra o efeito de um atraso sobre as restantes atividades.
Glossário
- EDT / WBS: estrutura de decomposição do trabalho, a obra dividida em pacotes de trabalho geríveis.
- ES: início mais cedo de uma atividade (early start).
- EF: fim mais cedo de uma atividade (early finish).
- LS: início mais tarde de uma atividade sem atrasar a obra (late start).
- LF: fim mais tarde de uma atividade sem atrasar a obra (late finish).
- Folga total: quanto uma atividade pode atrasar sem atrasar a obra inteira.
- Folga livre: quanto uma atividade pode atrasar sem atrasar a atividade seguinte.
- Caminho crítico: sequência de atividades com folga total zero, determina a duração total da obra.
- Curva S: representação gráfica do progresso acumulado da obra ao longo do tempo.
- PSS: Plano de Segurança e Saúde de um estaleiro.
- RCD: resíduos de construção e demolição.
- CCP: Código dos Contratos Públicos.
- EPI: equipamento de proteção individual.
- BIM: building information modelling, modelo 3D único e partilhado entre especialidades.
- Lead time: prazo de entrega de um material ou equipamento entre a encomenda e a chegada à obra.
Síntese
Planear e controlar uma obra segue sempre a mesma ordem: ler o projeto (requisitos técnicos, especialidades) → identificar as fases e as suas interdependências → decompor em EDT → programar com Gantt e rede PERT/CPM → calcular o caminho crítico e as folgas → dimensionar equipas e calcular quantidades de recursos → analisar riscos e escolher o método construtivo → controlar com a curva S, medindo desvios sempre em relação ao planeado → atualizar o plano quando a realidade se desvia → tudo enquadrado por segurança (PSS, EPI), ambiente (RCD), qualidade e, em obra pública, o CCP. Domina este fluxo na "Moradia Vila Verde" e aplica-o a qualquer obra.
Exercícios resolvidos
1. Na rede da "Moradia Vila Verde", porque é que o ES de H é o dia útil 39 e não o dia útil 29 (a seguir a F)?
Resolução: porque H depende de duas predecessoras, F e G, e só pode arrancar depois de ambas estarem concluídas. F termina no dia útil 28, mas G só termina no dia útil 38; o ES de H é sempre o maior dos EF das suas predecessoras, logo dia útil 39 (o dia a seguir a 38).
2. Se a duração de E (alvenarias) passasse de 8 para 10 dias úteis, sem mudar mais nada, o que acontecia à duração total da obra?
Resolução: E está no caminho crítico (folga total zero), logo o atraso propaga-se integralmente: a obra passaria de 53 para 55 dias úteis, os mesmos 2 dias a mais em E.
3. E se fosse F (cobertura) a passar de 5 para 10 dias úteis?
Resolução: nada acontecia à duração total da obra. F tem 10 dias úteis de folga; um atraso de 5 dias (10 − 5) fica dentro dessa folga e não afeta H nem a obra.
4. Uma equipa de 5 pedreiros e 3 serventes constrói 160 m² de parede em 8 dias úteis. Se a área subisse para 200 m², mantendo o prazo de 8 dias e a mesma produtividade individual (4 m²/dia por pedreiro), quantos pedreiros seriam precisos?
Resolução: necessário por dia: 200 ÷ 8 = 25 m²/dia; pedreiros: 25 ÷ 4 = 6,25 → arredonda-se por cima para 7 pedreiros (produtividade individual não muda, aumenta o número de pessoas).
5. Ao dia útil 40, o progresso planeado da "Moradia Vila Verde" é 83,3%. Se o progresso real medido for 80%, qual é o desvio, em pontos percentuais e em percentagem relativa ao planeado, e a obra está adiantada ou atrasada?
Resolução: desvio em pontos percentuais: 80 − 83,3 = −3,3 p.p.; desvio relativo: −3,3 ÷ 83,3 × 100 ≈ −4,0%. A obra está atrasada em cerca de 4% face ao planeado para o dia útil 40, um desvio menor do que o do exemplo do dia útil 30 (−12,3%), o que sugere que a equipa está a recuperar terreno.