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aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC02389

Sebenta · Executar peças de vidro por Casting (UC02389)

Do modelo ao molde de gesso e sílica, ao forno, ao acabamento final
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Vidro Artístico ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

O Casting é a técnica de vidro artístico em que o vidro não é soprado nem trabalhado a quente à mão: é colocado, em pedaços sólidos, dentro de um molde, e é o forno que o funde lentamente até ele preencher a cavidade. É a técnica certa para peças com formas complexas, esculturas, relevos e objetos que seria impossível soprar.

Esta sebenta segue o percurso real de uma peça, do primeiro esboço ao acabamento final: planear o projeto, organizar o posto de trabalho, criar o modelo, construir o molde (aberto ou com contramolde), escolher e calcular o vidro, regular a curva de temperatura, cozer no forno, desmoldar depois do arrefecimento e fazer o acabamento. Ao longo do caminho, o rigor e o respeito pelas normas de segurança são tão avaliados como o resultado final: o gesso e a sílica dos moldes produzem um pó fino que exige cuidado sério, e o forno trabalha a centenas de graus.

Objetivos de aprendizagem (referencial): executar um molde para a técnica de Casting, preparar os vidros e aplicar no molde, cozer as peças e desmoldar após o arrefecimento, e executar o acabamento, respeitando sempre as normas de segurança, saúde no trabalho e qualidade.

1. Conceção e execução do projeto

Uma peça de Casting nasce sempre de um projeto, não de uma improvisação junto ao forno. Planear evita desperdiçar vidro, gesso e, sobretudo, horas de forno.

Planeamento

O planeamento de uma peça em Casting responde a quatro perguntas, por esta ordem:

  1. Que forma e função tem a peça (decorativa, funcional, escultórica)?
  2. Que tipo de molde é necessário: aberto (forma simples) ou molde e contramolde (forma com relevo ou fechada)?
  3. Que vidro (cor, tipo, forma de apresentação) e em que quantidade?
  4. Que curva de temperatura o vidro e o molde exigem?

O planeamento regista-se num desenho técnico à escala, com as medidas da peça, e serve de referência a todas as fases seguintes.

Fases da execução

A execução de um projeto de Casting segue sempre a mesma sequência, e saltar uma fase é a causa mais comum de peças perdidas:

Fase O que se faz
1. Desenho e planeamento esboço à escala, escolha do tipo de molde
2. Modelo (se aplicável) construir a peça original em barro, cera ou outro material
3. Execução do molde gesso e sílica em torno do modelo, com teques
4. Preparação do vidro selecionar, calcular a quantidade, cortar/pesar
5. Aplicação do vidro no molde colocar o vidro na cavidade
6. Cozedura curva de temperatura no forno
7. Arrefecimento e desmoldagem recozimento e remoção do molde
8. Acabamento esmerilar, lixar, polir

Cada fase depende do resultado da anterior: um molde mal cheio de bolhas de ar arruína a cozedura, e uma curva de temperatura errada pode partir a peça na desmoldagem.

2. Organização do posto de trabalho

O posto de trabalho de Casting muda ao longo das fases, e organizá-lo bem é um dos critérios de desempenho da UC: adequar o posto de trabalho em função das etapas e fases do projeto.

Regra de ouro: nunca misturar as zonas. O pó de gesso na zona do vidro estraga a peça; o pó de gesso na zona de acabamento (a seco) é o maior risco respiratório da UC.

3. O modelo

O modelo é a peça original, à escala final, a partir da qual se constrói o molde. É necessário sempre que a forma final não pode ser obtida diretamente com um molde aberto.

Materiais do modelo

A escolha do material do modelo depende do detalhe exigido e de se o modelo vai ser recuperável (barro pode ser reutilizado) ou consumido no processo (cera perdida).

Cera perdida: cuidados

Quando o modelo é de cera, o molde é aquecido antes da cozedura do vidro para eliminar a cera (que derrete e, em parte, evapora). Este passo:

4. Moldes abertos e molde com contramolde

Há dois tipos de molde na técnica de Casting, e escolher o errado obriga a recomeçar.

Molde aberto

Um molde aberto é uma cavidade única, sem tampa, esculpida ou moldada diretamente (sem modelo intermédio): serve para peças com uma só face de relevo, como um prato, uma tigela ou uma placa com um desenho gravado no fundo. O vidro é colocado na cavidade e a face superior fica lisa (a face que ficou virada para cima, ao ar).

Molde e contramolde

Quando a peça tem forma em ambas as faces, ou é fechada (uma escultura tridimensional, por exemplo), o molde tem duas metades:

O modelo é assente numa base, o gesso e sílica são aplicados numa metade de cada vez, com um plano de partição e chaves de encaixe entre as duas metades, para que o molde e o contramolde se separem sem estragar a peça na desmoldagem.

Exemplo: uma máscara decorativa tem relevo na frente (traços da face) e é lisa atrás. Usa-se molde e contramolde: o molde regista o relevo da frente, o contramolde fecha a peça por trás, com um orifício por onde se introduz o vidro (o canal de enchimento).

5. Materiais para moldes

O molde de Casting é feito de uma mistura refratária, capaz de suportar as temperaturas do forno sem se desfazer nem contaminar o vidro.

Material Função
Gesso liga a mistura, dá corpo e capacidade de registar o detalhe do modelo
Sílica (em pó) refratariedade à mistura: resiste às temperaturas de cozedura sem que o gesso, sozinho, se decomponha
Barro usado no modelo e em reforços do molde, nunca na mistura refratária
Teques placas (normalmente de madeira ou plástico rígido) que formam a "caixa" à volta do modelo, contendo a mistura líquida de gesso e sílica até endurecer

A mistura de gesso e sílica

A proporção de gesso e sílica é definida pela ficha técnica do fornecedor e pelo tamanho da peça (moldes maiores pedem mais espessura de parede, para resistir ao choque térmico). Regra geral do posto de trabalho:

  1. Medir a água primeiro, no recipiente de mistura.
  2. Polvilhar a mistura de gesso e sílica sobre a água, sem mexer, até ela deixar de absorver (satura à superfície).
  3. Deixar hidratar cerca de 2 minutos.
  4. Misturar bem, à mão ou com misturadora lenta, evitando incorporar ar (bolhas de ar no molde tornam-se defeitos na peça).
  5. Verter sobre o modelo, dentro dos teques, batendo ligeiramente para libertar bolhas.

Cuidado com o pó de sílica. A sílica em pó contém sílica cristalina respirável: ao pesar e polvilhar o pó seco, usa-se sempre proteção respiratória adequada e trabalha-se com boa ventilação. Depois de endurecido, o gesso e sílica são seguros de manusear; o risco está no pó seco e, mais tarde, ao esmerilar ou remover o molde.

6. Técnicas de execução do molde e ferramentas

Sequência de execução

  1. Preparar o modelo (limpo, sem rebarbas) e a base de trabalho.
  2. Montar os teques à volta do modelo, com uma folga uniforme (a futura espessura da parede do molde).
  3. Vedar as juntas dos teques com barro, para a mistura líquida não verter.
  4. Misturar e verter o gesso e sílica.
  5. Deixar curar (endurecer e perder a maior parte da água) antes de retirar os teques.
  6. Retirar o modelo (barro escava-se, cera derrete-se no forno).
  7. Limpar e secar a cavidade do molde antes de aplicar o vidro.

Ferramentas

7. Tipos de vidro e formas de apresentação

O vidro para Casting não é uma chapa lisa: chega ao posto de trabalho em formas sólidas, prontas a fundir dentro do molde.

Forma Descrição Uso típico
Nuggets pedaços irregulares, do tamanho de uma azeitona a uma noz preencher volumes médios a grandes
Granulado / frit grãos finos a médios, quase areia grossa camadas de detalhe, misturas de cor
Blocos (billets) peças maciças, cortadas ou moldadas em fábrica peças grandes e maciças, esculturas
Cacos de chapa fragmentos de vidro plano cortado preenchimento económico, cor uniforme

A escolha da forma de apresentação depende do volume a preencher (blocos para volumes grandes reduzem o número de bolhas de ar entre peças) e do efeito estético pretendido (o granulado dá texturas e transparências diferentes dos blocos).

8. Compatibilidade de vidros

Vidros diferentes contraem de forma diferente ao arrefecer, uma propriedade medida pelo coeficiente de expansão térmica (COE). Só se pode misturar, no mesmo molde, vidros com o mesmo COE (ou COEs certificados como compatíveis pelo fabricante).

Um projeto com vidro incompatível pode parecer perfeito à saída do forno e rachar semanas depois. É por isso que o teste de compatibilidade é uma norma de qualidade, não um extra.

9. Calcular e preparar o vidro para o molde

Antes de colocar o vidro no molde, calcula-se quanto vidro é preciso, para não faltar a meio da cozedura nem sobrar vidro fundido fora da cavidade.

Passo 1: medir o volume da cavidade

O método mais fiável é o deslocamento de água: enche-se a cavidade do molde com água, medida com um recipiente graduado, e o volume de água gasto é o volume da cavidade.

Exemplo resolvido: um recipiente graduado tem 500 ml de água. Enche-se a cavidade do molde com essa água até ao topo, e sobram 100 ml no recipiente.

Água usada para encher a cavidade = 500 − 100 = 400 ml.

Como 1 ml = 1 cm³, o volume da cavidade é V = 400 cm³.

Passo 2: calcular a massa de vidro

A massa de vidro necessária calcula-se a partir do volume e da densidade do vidro, que para vidro sódico-cálcico (o mais usado em Casting) é de aproximadamente 2,5 g/cm³:

massa = volume × densidade

Exemplo resolvido (continuação): para a cavidade de V = 400 cm³:

massa = 400 cm³ × 2,5 g/cm³ = 1000 g = 1 kg

Passo 3: aplicar a margem de segurança

Ao fundir, o vidro assenta e pode deixar pequenas faltas junto às arestas do molde. Regra do posto de trabalho: acrescentar uma margem de segurança de 8% à massa calculada.

Exemplo resolvido (continuação): massa com margem de segurança:

1000 g × 1,08 = 1080 g

Pesam-se 1080 g de vidro (em blocos, nuggets ou uma combinação), e o excesso, se sobrar vidro fundido acima do plano do molde, é removido no acabamento.

Preparar o vidro

10. Fornos e a curva de temperatura

O forno de Casting é normalmente elétrico, com resistências no topo e/ou nas paredes, e um controlador programável que executa a curva de temperatura (a sequência de subidas, patamares e descidas de temperatura ao longo do tempo).

Porque a curva importa

O vidro é um material que não gosta de choques térmicos: aquecido ou arrefecido depressa de mais, acumula tensões internas e racha. A curva de temperatura existe para:

  1. Aquecer devagar o suficiente para o molde e o vidro não racharem.
  2. Manter a temperatura de fusão o tempo necessário para o vidro preencher toda a cavidade.
  3. Arrefecer devagar através da zona de recozimento, onde as tensões internas se libertam.

Partes de uma curva de temperatura

Fase da curva O que acontece
Subida temperatura sobe a uma taxa (°C/hora) definida
Patamar a temperatura mantém-se fixa durante um tempo definido
Descida controlada a temperatura desce a uma taxa definida (mais lenta na zona de recozimento)
Arrefecimento natural o forno é desligado e a peça arrefece sozinha até à temperatura ambiente

11. Cozedura: ciclos, fusão e controlo do processo

A curva de temperatura completa, passo a passo

Seguindo o exemplo da peça de V = 400 cm³, massa 1080 g, com 4 cm de espessura na parte mais grossa:

Etapa De → Para Taxa ou duração Cálculo Tempo
1. Subida rápida 20 °C → 500 °C 300 °C/h (500 − 20) ÷ 300 1,6 h (1h36)
2. Subida lenta 500 °C → 700 °C 100 °C/h (700 − 500) ÷ 100 2 h
3. Patamar de fusão mantém a 780 °C 30 min + 30 min/kg 30 + (1,08 × 30) ≈ 30 + 32 ≈ 1h02
4. Descida rápida 780 °C → 480 °C 300 °C/h (780 − 480) ÷ 300 1 h
5. Patamar de recozimento mantém a 480 °C 1h por cm de espessura 4 cm × 1 h 4 h
6. Arrefecimento lento 480 °C → 360 °C 40 °C/h (480 − 360) ÷ 40 3 h
7. Arrefecimento natural 360 °C → ambiente forno desligado, sem controlo não contabilizado (várias horas, ao critério)

Tempo total controlado (etapas 1 a 6): 1,6 + 2 + 1,03 + 1 + 4 + 3 ≈ 12h40, sem contar o arrefecimento natural final.

A regra do patamar de recozimento ("1 hora por centímetro de espessura da parte mais grossa da peça") é a regra prática do posto de trabalho desta UC. Peças mais espessas retêm o calor no interior por mais tempo e precisam de um patamar mais longo para libertar as tensões internas antes de arrefecer mais depressa.

Parâmetros de controlo do processo

Três parâmetros têm de ser controlados em conjunto, e falhar um invalida os outros:

Fusão do vidro

Durante o patamar de fusão, o vidro passa de sólido a um líquido viscoso que flui e preenche a cavidade por ação da gravidade. Não ferve nem "derrama": assenta lentamente, como mel muito frio a escorrer. É por isso que a fusão em Casting demora, tipicamente, muito mais tempo do que uma fusão de chapa (fusing) de superfície plana: o vidro tem de descer e preencher todo o volume da cavidade, não só espalhar-se numa superfície.

12. Arrefecimento, desmoldagem e acabamentos

Arrefecer antes de desmoldar

A peça só se desmolda depois de completar toda a curva de arrefecimento, incluindo o arrefecimento natural até perto da temperatura ambiente. Abrir o forno ou o molde a quente sujeita a peça a um choque térmico que a pode partir, e sujeita quem trabalha a queimaduras.

Desmoldagem

  1. Confirmar que a peça está fria ao toque (ou muito próxima da temperatura ambiente).
  2. Retirar os teques ou partir o molde perdido com martelo, com cuidado, começando pelas zonas mais afastadas da peça.
  3. Libertar a peça, verificando que não fica presa em nenhuma reentrância.
  4. Retirar todos os resíduos de gesso e sílica agarrados à superfície.

O passo de maior exposição da UC

Desmoldar e limpar o molde é o momento de maior exposição a pó de sílica e gesso desta UC: o material está seco, frágil, e parte-se em fragmentos finos exatamente à mão do formando. Este passo exige sempre, sem exceção:

13. Controlo do produto final, normas de qualidade e segurança

Defeitos comuns e a sua causa

Defeito Causa provável
Bolhas de ar na peça vidro mal compactado no molde, ou mistura de gesso e sílica mal desarejada
Superfície com marcas de gesso molde mal limpo ou seco de forma incompleta antes da fusão
Fissuras (a curto ou longo prazo) curva de arrefecimento demasiado rápida, ou vidros incompatíveis
Peça incompleta (não preencheu o molde) massa de vidro calculada por defeito, ou patamar de fusão curto de mais
Superfície opaca ou "leitosa" (devitrificação) patamar de fusão longo de mais, ou temperatura de fusão baixa mantida tempo a mais

Controlo do produto final

Antes de dar a peça por concluída, verifica-se:

Acabamentos

Normas de segurança e de qualidade

Erros comuns

Glossário

Síntese

Uma peça de Casting percorre sempre o mesmo caminho: planear o projeto e organizar o posto de trabalho para cada fase, criar o modelo quando necessário, construir o molde (aberto, ou molde e contramolde) em gesso e sílica dentro dos teques, calcular o volume (por deslocamento de água) e a massa de vidro (volume × 2,5 g/cm³, mais margem de segurança), escolher vidros compatíveis em COE, aplicar a curva de temperatura correta no forno, deixar arrefecer por completo antes de desmoldar (o passo de maior exposição a pó, sempre com proteção respiratória), fazer o acabamento com água corrente, e verificar a conformidade final com o projeto. Rigor nos cálculos e respeito pelas normas de segurança percorrem todas as fases.

Exercícios resolvidos

1. Uma cavidade de molde é enchida com água a partir de um recipiente graduado com 800 ml. No fim, sobram 250 ml no recipiente. Qual é o volume da cavidade, e qual a massa de vidro necessária (densidade 2,5 g/cm³), sem margem de segurança?

Resolução: volume = 800 − 250 = 550 cm³. Massa = 550 × 2,5 = 1375 g.

2. Para a peça do exercício anterior, aplica a margem de segurança de 8%. Quantos gramas de vidro se pesam?

Resolução: 1375 g × 1,08 = 1485 g.

3. Uma peça tem 6 cm de espessura na parte mais grossa. Pela regra do posto de trabalho, quanto tempo dura o patamar de recozimento?

Resolução: 1 hora por centímetro × 6 cm = 6 horas.

4. Um formando quer mudar a temperatura de subida de 500 °C para 800 °C, a uma taxa de 100 °C/h. Quanto tempo demora essa etapa?

Resolução: (800 − 500) ÷ 100 = 3 horas.

5. Uma peça sai do forno com uma superfície leitosa e opaca em vez de transparente. Que defeito é este, e qual a causa mais provável?

Resolução: é devitrificação, causada por um patamar de fusão longo de mais ou por uma temperatura mantida a mais tempo do que o necessário na zona de fusão.

6. Porque é que a desmoldagem e a limpeza do molde exigem sempre proteção respiratória, mesmo que a peça já tenha arrefecido?

Resolução: porque o gesso e a sílica secos partem-se em fragmentos e pó fino nesse momento, libertando sílica cristalina respirável exatamente junto de quem trabalha; é o passo de maior exposição a este risco em toda a UC.