Sebenta · Gravar figuras geométricas e figurativas em peças de vidro (UC02382)
- Introdução
- 1. O processo criativo no design e o desenho de esboço
- 2. Composição geométrica e figurativa
- 3. Construção geométrica: polígonos regulares
- 4. Dividir a circunferência: rosáceas
- 5. Malhas de repetição
- 6. Tipos de relevo e decoração funcional
- 7. Software de representação digital
- 8. Preparar a peça para a gravação
- 9. Ferramentas e equipamentos de gravação
- 10. Velocidade de rotação e técnicas de gravação
- 11. Acabamento, limpeza e controlo final
- 12. Segurança, saúde e normas da qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a desenhar, transpor e gravar figuras geométricas e figurativas em peças de vidro, do primeiro esboço ao controlo final da peça. É uma competência dupla: exige o rigor de um desenhador técnico (ângulos, medidas, repetições exatas) e a destreza manual de um artesão que domina a máquina de gravação.
O percurso segue a ordem real de trabalho num atelier ou numa oficina de vidro artístico: primeiro desenhamos (esboço, composição, construção geométrica), depois preparamos a peça (exame, limpeza, proteção), a seguir gravamos (ferramentas, velocidade, técnica) e por fim acabamos e controlamos o resultado, sempre sob normas de segurança e de qualidade.
Objetivos de aprendizagem (referencial): elaborar desenhos ou padrões para gravação em peças de vidro; preparar as peças de vidro para a gravação; aplicar as técnicas de gravação em peças de vidro; executar o acabamento e limpeza de peças, respeitando as normas de segurança, saúde e qualidade.
1. O processo criativo no design e o desenho de esboço
Antes de qualquer ferramenta tocar no vidro, existe um processo criativo: pesquisar referências, esboçar várias hipóteses, selecionar a mais forte e só depois desenhá-la com rigor.
As quatro fases
- Pesquisa: recolher referências de estilo, motivos e o contexto de uso da peça (uma taça de casamento não pede o mesmo motivo que um copo de bar).
- Esboço (sketch): desenhos rápidos à mão, sem compromisso, só para explorar ideias.
- Seleção: escolher, entre várias hipóteses, a que melhor serve a peça e o cliente.
- Desenho final: a ideia escolhida é redesenhada com rigor técnico, à escala real da peça.
A representação gráfica no design distingue-se em dois registos: o desenho à mão livre, expressivo e rápido, próprio da fase de esboço; e o desenho técnico rigoroso, com régua, esquadro e compasso, próprio da fase final que vai ser transposta para o vidro.
Um desenho de esboço que só o autor entende não serve para gravar. O desenho final tem de ser lido, sem ambiguidade, por quem prepara a peça.
2. Composição geométrica e figurativa
O referencial distingue dois tipos de composição, muitas vezes combinados na mesma peça.
| Tipo | Baseia-se em | Exemplos típicos |
|---|---|---|
| Geométrica | formas puras e construção rigorosa | polígonos, rosáceas, malhas, grecas |
| Figurativa | representação de formas reconhecíveis | flores, folhas, animais, paisagens |
Uma composição bem resolvida respeita quatro princípios:
- Eixo e centro: peças de vidro circulares ou axiais (pratos, taças, copos) pedem um desenho que respeite essa simetria.
- Equilíbrio: distribuir o peso visual do motivo, evitando zonas vazias que desequilibrem a peça.
- Escala do motivo face à peça: nem tão pequeno que se perca, nem tão grande que sufoque a peça.
- Função da peça: zonas de contacto direto (boca de um copo, pega de uma jarra) não devem ser gravadas, por conforto e higiene.
Exemplo resolvido · combinar os dois tipos
Um espelho decorativo pede uma moldura geométrica rigorosa (uma greca de quadrados repetidos) a enquadrar um ramo floral figurativo, desenhado livremente, num dos cantos. A moldura disciplina a peça com regras exatas; a flor dá-lhe expressão. O eixo da moldura e o centro visual da flor devem estar alinhados, ou a composição perde equilíbrio.
3. Construção geométrica: polígonos regulares
A base de toda a composição geométrica em vidro gravado é a divisão exata de uma circunferência. Um polígono regular de n lados inscrito numa circunferência divide-a em n arcos iguais.
A fórmula do ângulo central
Ângulo central = 360° ÷ n
| Polígono | n | Ângulo central |
|---|---|---|
| Triângulo equilátero | 3 | 360 ÷ 3 = 120° |
| Quadrado | 4 | 360 ÷ 4 = 90° |
| Pentágono | 5 | 360 ÷ 5 = 72° |
| Hexágono | 6 | 360 ÷ 6 = 60° |
| Octógono | 8 | 360 ÷ 8 = 45° |
| Decágono | 10 | 360 ÷ 10 = 36° |
| Dodecágono | 12 | 360 ÷ 12 = 30° |
Esta fórmula não se decora caso a caso: aplica-se a qualquer número de lados, incluindo os que não constam da tabela.
Do raio ao lado e ao apótema
Dado o raio R de uma circunferência, o lado L e o apótema a (distância do centro ao meio de cada lado) de um polígono regular de n lados obtêm-se por:
- L = 2 · R · sen(180° / n)
- a = R · cos(180° / n)
Exemplo resolvido · polígonos numa peça de raio 60 mm
Peça circular de raio R = 60 mm. Calculando lado e apótema para cada polígono:
| n | Ângulo central | Lado L | Apótema a |
|---|---|---|---|
| 3 | 120° | 2×60×sen(60°) = 103,92 mm | 60×cos(60°) = 30,00 mm |
| 4 | 90° | 2×60×sen(45°) = 84,85 mm | 60×cos(45°) = 42,43 mm |
| 6 | 60° | 2×60×sen(30°) = 60,00 mm | 60×cos(30°) = 51,96 mm |
| 8 | 45° | 2×60×sen(22,5°) = 45,92 mm | 60×cos(22,5°) = 55,43 mm |
Repara no hexágono: o lado (60,00 mm) é exatamente igual ao raio. Isto acontece porque sen(30°) = 0,5, logo L = 2 × 60 × 0,5 = 60. É por isso que o hexágono regular é o único polígono que se constrói só com o compasso aberto no raio da circunferência, marcando seis arcos consecutivos sem qualquer cálculo.
O pentágono, o decágono e a razão de ouro
O pentágono e o decágono regulares relacionam-se com a razão de ouro, φ = (1 + √5) ÷ 2 = 1,618034... O lado do decágono inscrito numa circunferência de raio R é:
L₁₀ = R ÷ φ
Para R = 60 mm: L₁₀ = 60 ÷ 1,618034 = 37,08 mm. O lado do pentágono, pela fórmula geral, é 2 × 60 × sen(36°) = 70,53 mm.
Construção prática: traçar a circunferência guia, marcar o ângulo central com o transferidor ou com o disco divisor graduado do engenho de gravação (72° para o pentágono, 36° para o decágono) e unir os pontos consecutivos com a régua.
4. Dividir a circunferência: rosáceas
Uma rosácea é um motivo com simetria rotacional: um elemento (uma pétala, uma folha) repete-se n vezes em torno de um centro comum, rodado sempre pelo mesmo ângulo central de 360° ÷ n.
Método de construção
- Traçar a circunferência guia e marcar o centro.
- Dividir a circunferência em n partes iguais, com o ângulo central 360° ÷ n.
- Desenhar um único elemento (a pétala), com rigor, num dos sectores.
- Copiar esse elemento para os restantes sectores, rodando-o pelo ângulo central a cada passo.
Só se desenha uma pétala com todo o cuidado; as restantes são cópias rigorosamente rodadas. Um erro nessa primeira pétala propaga-se a toda a rosácea.
Exemplo resolvido · rosácea de 5 pétalas
Peça: prato circular de raio R = 50 mm, rosácea de 5 pétalas centrada no meio.
- Ângulo central: 360° ÷ 5 = 72°.
- Marcar 5 pontos na circunferência, cada um a 72° do anterior: 0°, 72°, 144°, 216°, 288°.
- Verificação: 5 × 72° = 360°, a divisão fecha exatamente a volta completa.
- O lado do pentágono que une os pontos consecutivos vale 2 × 50 × sen(36°) = 58,78 mm; serve de guia para o contorno exterior de cada pétala.
- Desenhar a primeira pétala entre dois pontos consecutivos, com a ponta a tocar a circunferência e a base no centro.
- Copiar a pétala 4 vezes, rodando 72° a cada cópia, até fechar a rosácea.
O resultado é uma rosácea perfeitamente regular, porque toda a construção parte de uma única divisão angular exata.
Exemplo resolvido · rosácea de 8 pétalas
Mesma peça, agora com 8 pétalas: ângulo central = 360° ÷ 8 = 45°. Marcam-se 8 pontos a 0°, 45°, 90°, 135°, 180°, 225°, 270° e 315°; verificação: 8 × 45° = 360°. Este é o mesmo ângulo central do octógono da tabela do capítulo 3, porque uma rosácea de 8 pétalas e um octógono regular partilham a mesma divisão da circunferência.
5. Malhas de repetição
Além da repetição rotacional (rosáceas), existe a repetição linear, usada em frisos e orlas, e a repetição em grelha, usada em superfícies planas.
Friso linear: o conceito de passo
- Passo (pitch): distância entre o início de um motivo e o início do seguinte, ou seja, largura do motivo mais o vão entre motivos.
- Número de repetições = comprimento disponível ÷ passo, arredondado sempre por defeito ao número inteiro de motivos completos.
- Margem: o que sobra, dividido em partes iguais nas duas pontas para centrar o friso.
Exemplo resolvido · friso numa tira de vidro
Tira de vidro de 500 mm de comprimento, motivo de 30 mm de largura, vão de 10 mm entre motivos.
- Passo: 30 + 10 = 40 mm.
- Número de repetições: 500 ÷ 40 = 12,5, arredondado por defeito a 12 motivos.
- Comprimento ocupado: 12 × 40 = 480 mm.
- Margem sobrante: 500 − 480 = 20 mm, dividida em 10 mm de cada lado.
O friso fica com 12 motivos completos, centrado, com 10 mm de vidro liso em cada ponta. Um motivo cortado a meio nunca é aceitável: a sobra fica sempre como margem inteira.
Grelha em superfície
Numa superfície plana (um painel, uma porta de vidro), a repetição faz-se em duas direções, formando uma grelha de módulos iguais:
- Nº de colunas = largura ÷ módulo
- Nº de linhas = altura ÷ módulo
- Total de células = colunas × linhas
Exemplo resolvido · grelha num painel
Painel de 400 × 300 mm, módulo de 50 mm.
- Colunas: 400 ÷ 50 = 8
- Linhas: 300 ÷ 50 = 6
- Total de células: 8 × 6 = 48
Cada uma das 48 células recebe o mesmo motivo, gravado com o mesmo rigor e a mesma técnica: é a malha que organiza o trabalho de uma superfície inteira em repetições geridas, não em 48 desenhos diferentes.
6. Tipos de relevo e decoração funcional
A gravação em vidro não é só um traço: o tipo de relevo define a profundidade e a sensação ao tato do desenho.
| Tipo de relevo | Característica | Efeito |
|---|---|---|
| Gravação plana / linear | traço fino, pouca profundidade | contorno, desenho de linha |
| Baixo-relevo | remoção superficial e gradual | sombreado, sensação de volume ligeiro |
| Alto-relevo (escultórico) | remoção profunda, em várias camadas | forma tridimensional marcada |
| Fosco / matizado (matting) | textura opaca uniforme, sem contorno definido | fundo texturizado, contraste com o brilho |
Uma peça profissional combina relevos: contorno em gravação plana a definir limites, baixo-relevo a modelar volumes suaves, fosco em fundos para destacar por contraste as zonas transparentes, e alto-relevo reservado a peças de maior exigência artística.
Decoração ao serviço da funcionalidade
- Zonas de contacto (boca de copo, pega de jarra): sem relevo áspero ou frágil.
- Base de apoio: gravação sóbria, para não comprometer a estabilidade.
- Peças de iluminação: motivos em baixo-relevo ou fosco, que aproveitam a passagem de luz.
- Peças decorativas puras: maior liberdade de composição e profundidade.
7. Software de representação digital
O desenho vetorial (Adobe Illustrator, Inkscape, CorelDRAW) traz ao desenho técnico três vantagens que o papel não dá com a mesma facilidade:
- Precisão numérica: introduzir o ângulo exato (72°, 45°, 36°) em vez de o estimar a olho.
- Repetição e rotação automáticas: replicar um elemento pelo ângulo central certo, sem erro de cópia manual.
- Escala rigorosa 1:1: imprimir já à medida real da peça, pronto a transpor.
O vetorial guarda ângulos, medidas e curvas como fórmulas matemáticas, não como pontos fixos: ao ampliar ou reduzir, o desenho não perde qualidade nem precisão, ao contrário de uma imagem de bitmap. As camadas do software separam contorno, preenchimento e notas de relevo, do mesmo modo que um desenho técnico em papel separa essas informações por sobreposição de folhas de decalque.
O digital não substitui o esboço criativo inicial: entra depois, na fase de rigor, para preparar o desenho final que vai ser transposto para o vidro.
8. Preparar a peça para a gravação
Antes de qualquer marca na peça, cumpre-se um procedimento fixo de preparação.
Exame visual e limpeza
- Exame visual: observar a peça à trasluz e sob luz rasante, à procura de fissuras, bolhas ou defeitos de fabrico que a gravação possa agravar.
- Limpeza: remover pó, gordura e resíduos de embalagem com álcool e um pano macio, sem riscar a superfície.
- Extração de resíduos: garantir que não fica nenhuma partícula sólida que possa arranhar a peça ao contacto com a ferramenta.
- Secagem completa antes de aplicar qualquer fita ou máscara.
Isolamento e proteção
Isolar contra a gravação as partes da peça que não devem ser trabalhadas é tão decisivo como gravar as que devem:
- Fita adesiva: protege bordas, contornos ou zonas retas junto ao motivo.
- Papel adesivo (máscara de recorte): cortado à forma exata do motivo, expõe só a área a gravar.
- Proteção de bordas e cantos: reforço extra nas zonas mais frágeis da peça.
A máscara é o negativo do desenho: onde cobre, o vidro fica intacto; onde deixa exposto, está pronto a gravar.
Limpeza e nivelamento de superfícies
Antes de marcar, confirma-se que a superfície está nivelada e limpa, sem irregularidades que desviem a ferramenta durante a gravação. Peças com curvatura acentuada (copos, taças) exigem um posicionamento estável na mesa de gravação para manter esse nivelamento relativo à ferramenta.
9. Ferramentas e equipamentos de gravação
O referencial lista um conjunto concreto de ferramentas, cada uma com uma função própria. Selecionar ferramentas e equipamentos de gravação conforme o efeito pretendido é uma aptidão avaliada.
| Ferramenta | Função |
|---|---|
| Ponta de diamante | traço fino e definido, gravação plana e linear |
| Broca de carboneto de tungsténio | desbaste e relevo, mais resistente ao desgaste |
| Fresa | modelação de superfícies e relevos suaves |
| Disco | corte e desbaste de maiores áreas |
| Máquina e engenho de gravação | motor que roda a ferramenta, com controlo de velocidade |
Configurar a máquina e posicionar a peça
Antes de gravar, cumprem-se três passos:
- Configurar a máquina de gravação: escolher e fixar a ferramenta certa, ajustar a velocidade de rotação prevista para o relevo pretendido.
- Posicionar a peça na mesa de gravação: fixá-la de forma estável, alinhada com o desenho ou o gabarito.
- Verificar com régua e esquadro: confirmar que os eixos do desenho estão alinhados com os eixos da peça, sobretudo em composições geométricas como as rosáceas do capítulo 4.
Uma peça mal posicionada desalinha toda a rosácea ou a malha de repetição, mesmo que o desenho de origem esteja matematicamente correto: o erro acumula-se a cada elemento repetido.
Transpor o desenho para o vidro
Transpor o desenho é passar a composição do papel (ou do ecrã) para a superfície, curva ou plana, da peça de vidro:
- Decalque: papel fino com o desenho fixado à peça, servindo de guia visual ou de gabarito para recortar a máscara.
- Marcação com caneta de ponta fina: reproduzir as linhas principais diretamente sobre a peça, ou sobre a fita/papel adesivo já aplicado.
- Técnicas de marcação e delimitação de figuras: usar régua e esquadro para garantir que ângulos retos e linhas guia se mantêm corretos numa superfície muitas vezes curva.
- Conferência: comparar a marcação na peça com o desenho original antes de gravar, corrigindo com borracha o que for preciso.
10. Velocidade de rotação e técnicas de gravação
Um critério de desempenho central desta UC é adequar a velocidade de rotação das ferramentas em função do tipo de relevo.
| Relevo pretendido | Ferramenta típica | Velocidade | Pressão |
|---|---|---|---|
| Gravação plana / linear | ponta de diamante fina | rotação alta | ligeira |
| Fosco / matizado | fresa ou disco fino | rotação alta | uniforme, passes múltiplos |
| Baixo-relevo | broca de carboneto de tungsténio | rotação média | moderada, gradual |
| Alto-relevo | broca ou fresa de maior diâmetro | rotação mais baixa | firme, várias camadas |
Regra geral: quanto mais material é removido de cada vez, menor deve ser a velocidade, para controlar o desbaste sem fraturar o vidro. A velocidade ajusta-se ao longo da peça, conforme o desenho muda de zona: passar de um contorno linear para um baixo-relevo pede reduzir a rotação antes de mudar de ferramenta ou de pressão. Testar sempre num fragmento de vidro semelhante antes de gravar a peça final, sobretudo em relevos novos.
Aplicar a técnica
Com a peça preparada, protegida e a máquina configurada:
- Traço contínuo: seguir o contorno do desenho num movimento firme e constante, sem parar a meio de uma linha.
- Sombreado por sobreposição de passes: várias passagens leves em vez de uma única profunda, para um baixo-relevo controlado.
- Matizado por varrimento: movimento cruzado e regular sobre a área a tornar fosca, cobrindo toda a superfície sem falhas.
- Controlo do ângulo da ferramenta: manter o ângulo constante em relação à peça, para uma profundidade uniforme.
Ao gravar uma rosácea (capítulo 4), a ordem certa é: gravar primeiro os pontos de divisão da circunferência, gravar um elemento completo e conferir contra o desenho, e só depois repetir o mesmo gesto, com a mesma pressão e velocidade, nos restantes elementos. Garantir a consistência da qualidade e da precisão ao longo de todas as peças produzidas é o critério de desempenho que fecha este capítulo.
11. Acabamento, limpeza e controlo final
Acabamento
Depois de gravada, a peça passa por um acabamento que remove resíduos e revela o desenho final:
- Remover máscaras e fitas, com cuidado, sem arrastar resíduos de papel adesivo sobre a gravação fresca.
- Limpeza com limpa-vidros e panos, removendo pó de vidro e marcas de gordura das mãos.
- Papel de mãos e panos de limpeza para a secagem final, sem deixar fiapos na superfície gravada.
- Inspeção da textura, confirmando que o relevo está uniforme ao tato.
Controlo do produto final
- Comparar com o desenho original: todos os motivos, ângulos e relevos correspondem ao previsto.
- Verificar a consistência: em peças em série, todas mantêm a mesma qualidade e precisão de gravação.
- Testar ao tato e à luz: um relevo bem executado sente-se uniforme e, contra a luz, mostra profundidade regular.
- Registar não conformidades: peças com defeito ficam identificadas antes de seguirem para embalagem ou venda.
O controlo final fecha o ciclo do referencial: do desenho inicial (capítulos 1 a 5) à peça entregue com a qualidade prometida.
12. Segurança, saúde e normas da qualidade
A gravação de vidro produz pó de sílica em suspensão, prejudicial à saúde respiratória em exposição continuada, além do risco de partículas e cortes.
- Óculos de proteção: obrigatórios sempre que a máquina está em funcionamento, contra projeção de partículas de vidro.
- Luvas: proteção contra arestas e bordas cortantes, sobretudo ao manusear a peça antes e depois da gravação.
- Máscara respiratória: obrigatória contra a inalação de pó de sílica, mesmo em sessões curtas.
- Trabalho húmido: sempre que possível, gravar com água ou extração localizada, para reduzir o pó de sílica em suspensão no ar.
Respeitar as normas de segurança e saúde no trabalho é um critério de desempenho explícito do referencial. As normas da qualidade definem os critérios objetivos que dizem se uma peça está conforme, desde a preparação até ao controlo final do capítulo 11. Responsabilidade, autonomia, rigor, destreza e respeito pelas regras definidas são atitudes avaliadas ao longo de toda a UC, não só num exercício isolado.
Erros comuns
- Saltar a fase de esboço e desenhar logo a versão final, perdendo a comparação entre alternativas.
- Desenhar sem indicar a escala ou as dimensões reais da peça, tornando a transposição impossível.
- Confundir o ângulo central com o ângulo interno do polígono, que é um valor diferente.
- Tentar construir o pentágono como o hexágono: o pentágono não tem a igualdade lado = raio, precisa da razão de ouro.
- Arredondar o número de repetições de um friso por excesso em vez de por defeito, deixando um motivo cortado a meio.
- Não verificar se largura e altura de um painel são múltiplos exatos do módulo da grelha, deixando uma faixa incompleta na borda.
- Gravar toda a superfície de um copo, incluindo o rebordo da boca, ignorando a funcionalidade da peça.
- Usar sempre a mesma velocidade de rotação, independentemente do tipo de relevo pretendido.
- Saltar o exame visual e a limpeza por a peça "parecer" limpa, comprometendo aderência de máscaras e qualidade da gravação.
- Tirar o EPI "só um instante": o pó de sílica é um risco de saúde a longo prazo, invisível no momento.
Glossário
- Esboço (sketch): desenho rápido e exploratório, sem compromisso com o resultado final.
- Ângulo central: ângulo, medido a partir do centro de uma circunferência, correspondente a um lado de um polígono regular inscrito; vale 360° ÷ n.
- Apótema: distância do centro de um polígono regular ao ponto médio de um dos seus lados.
- Rosácea: motivo decorativo com simetria rotacional, formado pela repetição de um elemento em torno de um centro.
- Razão de ouro (φ): constante 1,618034..., ligada à proporção do pentágono e do decágono regulares.
- Passo (pitch): distância entre o início de um motivo e o início do seguinte, numa repetição linear.
- Malha: repetição organizada de um módulo em duas direções, formando uma grelha.
- Baixo-relevo: gravação com remoção superficial e gradual de vidro, criando sensação de volume ligeiro.
- Alto-relevo: gravação com remoção profunda, em várias camadas, criando forma tridimensional marcada.
- Matizado (matting): textura fosca e uniforme, sem contorno definido.
- Máscara: material (fita ou papel adesivo) que protege da gravação as zonas da peça que não devem ser trabalhadas.
- Desenho vetorial: representação digital baseada em fórmulas geométricas, sem perda de qualidade ao escalar.
- EPI: equipamento de proteção individual, óculos, luvas e máscara respiratória, entre outros.
- Sílica: componente mineral do vidro cujo pó, inalado, é prejudicial à saúde respiratória.
Síntese
Gravar uma figura em vidro segue sempre a mesma ordem: esboço (várias ideias) → desenho final rigoroso (geométrico e/ou figurativo) → construção geométrica (ângulo central 360° ÷ n, rosáceas, malhas de repetição com passo e margem) → software digital (precisão e repetição automática) → preparação da peça (exame, limpeza, isolamento) → gravação (ferramenta e velocidade adequadas ao relevo) → acabamento e controlo final, sempre com EPI e trabalho húmido contra a sílica. O rigor matemático do desenho só vale se a técnica de gravação o cumprir peça após peça, com a mesma consistência.
Exercícios resolvidos
1. Numa circunferência de raio R = 60 mm, qual o ângulo central e o lado de um octógono regular?
Resolução: ângulo central = 360° ÷ 8 = 45°. Lado: L = 2 × 60 × sen(22,5°) = 45,92 mm. O apótema seria a = 60 × cos(22,5°) = 55,43 mm.
2. Porque é que o hexágono regular é o único que se constrói só com o compasso aberto no raio da circunferência, sem calcular o lado?
Resolução: porque o ângulo central do hexágono é 60°, e sen(30°) = 0,5. Pela fórmula L = 2 × R × sen(180° ÷ n) = 2 × R × sen(30°) = 2 × R × 0,5 = R. O lado é sempre exatamente igual ao raio, para qualquer valor de R, o que não acontece com nenhum outro polígono regular.
3. Uma tira de vidro tem 320 mm. O motivo escolhido mede 22 mm de largura, com um vão de 8 mm entre motivos. Quantos motivos completos cabem, e qual a margem em cada ponta?
Resolução: passo = 22 + 8 = 30 mm. Número de repetições = 320 ÷ 30 = 10,67, arredondado por defeito a 10 motivos. Comprimento ocupado = 10 × 30 = 300 mm. Margem = 320 − 300 = 20 mm, ou seja 10 mm de cada lado.
4. Uma rosácea de 6 pétalas está a ser desenhada numa peça de raio 45 mm. Qual o ângulo central, e qual o lado do hexágono que une os pontos de divisão?
Resolução: ângulo central = 360° ÷ 6 = 60°. Lado do hexágono: L = 2 × 45 × sen(30°) = 2 × 45 × 0,5 = 45,00 mm, exatamente igual ao raio, confirmando a propriedade do capítulo 3.
5. Que tipo de relevo e que velocidade de rotação são adequados para gravar o contorno fino de uma pétala, e para modelar o volume suave do centro da mesma pétala?
Resolução: o contorno usa gravação plana / linear, com ponta de diamante fina e rotação alta, pressão ligeira. O volume do centro usa baixo-relevo, com broca de carboneto de tungsténio, rotação média e pressão moderada e gradual, em passes múltiplos.