Implementar as normas de segurança e saúde no trabalho na produção de peças vidro (UC02375)
- Introdução
- 1. Segurança e saúde no trabalho: princípios e enquadramento legal
- 2. Riscos gerais e sua prevenção
- 3. A hierarquia da prevenção
- 4. Planos e documentos de segurança
- 5. Equipamentos de proteção individual (EPI)
- 6. Trabalho a quente: fornos, radiação e queimaduras
- 7. Trabalho a frio: corte, lapidação e jato de areia
- 8. Causas de acidentes de trabalho
- 9. Primeiros socorros e emergências
- 10. Incêndios: causas, tipos, deteção e extinção
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.
Introdução
Trabalhar o vidro combina dois mundos de risco muito diferentes: o calor extremo do forno, com temperaturas e radiação capazes de causar queimaduras graves em segundos, e o trabalho a frio de corte, lapidação e jato de areia, com arestas afiadas, projeções e poeiras perigosas para os pulmões. Esta sebenta ensina a implementar as normas de segurança e saúde no trabalho (SST) aplicáveis a este ofício: os princípios gerais, o enquadramento legal, a hierarquia correta da prevenção, os equipamentos de proteção individual específicos do vidro a quente e a frio, os planos de segurança do atelier e os procedimentos concretos de emergência.
Esta não é uma UC de conhecimentos "para saber", é uma UC de conhecimentos para usar todos os dias. Um técnico de vidro artístico está exposto a riscos reais: queimaduras, cortes, exposição a poeiras e a possibilidade de incêndio ou acidente elétrico. Saber implementar corretamente as normas de segurança é o que separa uma profissão longa e saudável de um percurso interrompido por um acidente evitável.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar os princípios gerais sobre segurança e saúde no trabalho; e aplicar medidas e procedimentos de segurança e saúde no trabalho, considerando os tipos de risco existentes no posto de trabalho e respetivas medidas de segurança, cumprindo as medidas de atuação em situação de emergência e respeitando o protocolo interno definido.
1. Segurança e saúde no trabalho: princípios e enquadramento legal
A segurança e saúde no trabalho (SST) é o conjunto de princípios, normas e práticas que visam proteger a vida, a integridade física e a saúde de quem trabalha. Assenta em três ideias centrais:
- Prevenção antes de reparação: é sempre melhor, mais barato e mais humano evitar o acidente do que lidar com as suas consequências.
- Responsabilidade partilhada: a entidade empregadora ou formadora tem o dever de avaliar riscos, informar e fornecer equipamento; o trabalhador ou formando tem o dever de cumprir os procedimentos e usar corretamente o que lhe é fornecido.
- Melhoria contínua: os planos e procedimentos revêm-se, não são escritos uma vez e esquecidos.
O enquadramento legal em Portugal
A SST não é uma opção de cada empresa, é regulada por lei:
| Diploma | O que regula |
|---|---|
| Lei n.º 102/2009, de 10 de setembro | Regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho; define obrigações gerais do empregador e do trabalhador, incluindo os princípios gerais de prevenção (art. 15.º) |
| Decreto-Lei n.º 348/93, de 1 de outubro | Prescrições mínimas de segurança e saúde para a utilização de equipamentos de proteção individual (EPI) pelos trabalhadores |
| Portaria n.º 988/93, de 6 de outubro | Lista indicativa de atividades e situações em que o uso de EPI pode ser necessário |
A Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) é a entidade que fiscaliza o cumprimento destas normas em Portugal. Conhecer estes diplomas não é um exercício académico: são eles que definem, em concreto, quem tem de fazer o quê para que um posto de trabalho seja seguro.
Esta legislação aplica-se a qualquer contexto de trabalho, incluindo a formação em oficina ou atelier. Um formando está tão protegido, e tão obrigado a cumprir os procedimentos, como um trabalhador contratado.
2. Riscos gerais e sua prevenção
Antes de entrar nos riscos específicos do vidro, há riscos que existem em qualquer posto de trabalho e que condicionam tudo o resto:
- Condições de segurança: estado das instalações elétricas, arrumação, sinalização, iluminação de emergência.
- Meio ambiente de trabalho: ruído, temperatura, ventilação, poeiras no ar.
- Carga de trabalho: exigência física (levantar peso, estar de pé horas seguidas) e mental (concentração, ritmo) da tarefa.
- Fadiga e insatisfação laboral: o cansaço acumulado e a desmotivação aumentam a probabilidade de erro humano, um dos maiores fatores de acidente.
Sistemas elementares de controlo de riscos
Controlar o risco é um processo com quatro passos, que se repete continuamente:
- Identificar o perigo: o que, neste posto de trabalho, pode causar dano.
- Avaliar o risco: cruzar a probabilidade de acontecer com a gravidade das consequências.
- Controlar: eliminar, reduzir ou proteger, conforme a hierarquia de prevenção (ver capítulo 3).
- Verificar e rever: confirmar que a medida resulta e atualizá-la sempre que o posto de trabalho muda.
Exemplo resolvido: avaliar um risco no atelier
Situação: uma bancada de lapidação, junto a uma janela, sem exaustão local, usada 3 horas por dia.
Passo 1, identificar: pó de vidro e de abrasivo em suspensão, ruído da máquina.
Passo 2, avaliar: probabilidade alta (uso diário e prolongado), gravidade relevante (o pó fino de vidro e de abrasivo irrita os olhos e as vias respiratórias, e o abrasivo pode conter sílica cristalina). Risco elevado.
Passo 3, controlar: instalar exaustão local ou passar a lapidação a húmido (combate na origem); só depois, garantir proteção respiratória e auditiva individual como reforço.
Passo 4, verificar: medir se a poeira visível no ar diminui após a intervenção e confirmar que a exaustão está sempre ligada durante o uso.
3. A hierarquia da prevenção
A Lei 102/2009 (art. 15.º, n.º 2) enumera os princípios gerais de prevenção que o empregador tem de aplicar: evitar os riscos; planificar a prevenção; identificar e avaliar os riscos; combater os riscos na origem; assegurar que a exposição a agentes químicos, físicos e biológicos e a fatores psicossociais não constitui risco; adaptar o trabalho ao ser humano; adaptar-se à evolução da técnica; substituir o que é perigoso pelo que é isento de perigo ou menos perigoso; dar prioridade à proteção coletiva em relação à individual; e dar instruções compreensíveis e adequadas. Como aplicação técnica, estes princípios organizam-se numa hierarquia, do mais eficaz para o menos eficaz:
- Evitar os riscos.
- Combater os riscos na origem.
- Substituir o que é perigoso pelo que é menos perigoso ou não perigoso.
- Adaptar o trabalho ao ser humano (ergonomia, ritmo, conceção dos postos).
- Dar prioridade às medidas de proteção coletiva em relação às individuais.
- Só depois, recorrer às medidas de proteção individual (EPI).
- Instruções, formação e informação adequadas em todas as fases do processo.
Regra prática: sempre que alguém propõe "dar um EPI" como primeira resposta a um risco, a pergunta certa é "porque não eliminamos ou reduzimos este risco na origem primeiro?". O EPI protege quem já está exposto; não evita a exposição.
Exemplo resolvido: aplicar a hierarquia ao forno
Risco: fumos e calor libertados pelo forno de fusão de vidro.
| Degrau da hierarquia | Medida aplicada |
|---|---|
| Evitar | Limitar o acesso à zona do forno a quem tem tarefa lá |
| Combater na origem | Instalar exaustão local sobre o forno |
| Substituir | Não aplicável neste caso (o forno é indispensável ao processo) |
| Proteção coletiva | Barreira térmica, ventilação geral da oficina |
| Proteção individual | Óculos com filtro IV, luvas e vestuário resistentes ao calor |
| Formação | Explicar o risco a cada formando antes da primeira exposição ao forno |
Note-se que passa pelos primeiros degraus mesmo quando alguns não eliminam o risco por completo, o EPI continua a ser necessário no fim, mas nunca é o único nível de proteção.
4. Planos e documentos de segurança
O plano de segurança interno organiza, num único conjunto de documentos, como o atelier previne e responde a incidentes. Inclui:
- Plano de prevenção de acidentes: medidas concretas para reduzir a probabilidade de acidente em cada posto de trabalho.
- Plano de prevenção de incêndios: medidas estruturais (materiais, exaustão, extintores) e comportamentais contra o fogo.
- Plano de evacuação: percursos de saída, sinalização e ponto de encontro, definidos e afixados.
- Plano de emergência: quem faz o quê, por que ordem, perante qualquer situação grave.
- Plano contra roubos: controlo de acessos e proteção de materiais e ferramentas de maior valor.
- Manuais de segurança: documentam os procedimentos de forma consultável por todos.
Um dos três critérios de desempenho desta UC é respeitar o protocolo interno definido: cada atelier tem o seu próprio plano, adaptado ao espaço, aos equipamentos e às pessoas. O que se aprende aqui é o método de leitura e aplicação, não um plano único válido para todos os locais.
Um atelier de vidro artístico afixa, junto à porta principal, a planta de evacuação com o percurso assinalado a verde, o ponto de encontro no exterior e os contactos de emergência. Junto ao forno, está afixado o procedimento específico para queimaduras e para corte de energia. Cada zona tem a informação relevante para os riscos que ali existem.
5. Equipamentos de proteção individual (EPI)
Um equipamento de proteção individual (EPI) é qualquer equipamento destinado a ser usado pelo trabalhador para se proteger de um ou mais riscos suscetíveis de ameaçar a sua saúde ou segurança. É regulado, em Portugal, pelo Decreto-Lei 348/93 e pela Portaria 988/93.
Regras gerais de uso do EPI:
- É o último recurso da hierarquia da prevenção, não o primeiro (ver capítulo 3).
- É obrigatório sempre que o risco não pode ser eliminado nem controlado por outra via.
- Tem de estar adequado ao risco concreto: um EPI genérico ou errado dá uma falsa sensação de segurança.
- É fornecido pela entidade formadora ou empregadora; usá-lo corretamente, em todas as tarefas em que é exigido, é responsabilidade de quem trabalha.
- Deve ser verificado antes de cada uso (não estar danificado) e substituído quando desgastado.
Regras de vestuário e movimentação de materiais
- Vestuário de trabalho: ajustado ao corpo, sem partes soltas, mangas largas ou adornos que possam prender-se em máquinas ou incendiar-se junto do forno.
- Prevenção de choques elétricos: verificar sempre cabos e equipamentos antes de usar; nunca operar equipamento elétrico com mãos ou vestuário húmidos.
- Movimentação de peças pesadas: levantar dobrando os joelhos e mantendo a carga próxima do corpo, nunca dobrando a coluna; usar meios auxiliares (carrinhos, elevadores) e pedir ajuda sempre que necessário.
- Ergonomia e proteção de máquinas: postos de trabalho ajustados à tarefa; resguardos e paragens de emergência das máquinas sempre operacionais, nunca retirados "só por um momento".
6. Trabalho a quente: fornos, radiação e queimaduras
O trabalho junto do forno, com vidro incandescente, concentra riscos próprios que exigem EPI específico.
Riscos
- Radiação infravermelha (IV) emitida pelo forno e pelo vidro fundido: pode lesar a pele e, sobretudo, a vista, mesmo sem contacto direto.
- Catarata do vidreiro: a exposição repetida, ao longo de anos, à radiação infravermelha do forno e do vidro incandescente opacifica o cristalino. Previne-se com óculos ou viseira com filtro IV sempre que se olha para o forno.
- Stress térmico: o calor dos fornos provoca desidratação, cãibras e exaustão. Beber água com frequência, fazer pausas em local fresco e não trabalhar sozinho. Golpe de calor (pele muito quente, confusão, desmaio, temperatura do corpo muito alta) é uma emergência médica: ligar 112, levar a vítima para um local fresco e arrefecê-la de imediato com água fria, panos molhados e ventilação; não dar líquidos se não estiver consciente.
- Queimaduras por contacto direto com o forno, com o vidro incandescente ou por projeção.
- Gases e fumos de combustão, se o forno não estiver bem ventilado.
- Superfícies quentes fora do forno: ferramentas, bancadas e peças em arrefecimento mantêm-se perigosas muito depois de deixarem de brilhar.
Uma peça de vidro deixa de estar incandescente muito antes de estar fria ao toque. Nunca avaliar a temperatura de uma peça "pela cor": usar sempre ferramenta própria e assumir que está quente até se confirmar o contrário.
EPI específico do vidro a quente
- Proteção ocular contra radiação infravermelha: óculos ou viseira com filtro específico para IV. Óculos de sol comuns não protegem contra esta radiação.
- Luvas resistentes ao calor, próprias para peças e ferramentas quentes (o vidro incandescente trabalha-se com a cana e os ferros, nunca à mão); nunca luvas sintéticas que possam derreter e colar à pele.
- Vestuário resistente ao calor: avental e mangas em material não inflamável.
- Calçado de proteção: fechado, resistente e antiderrapante, para projeções e para o piso junto ao forno.
7. Trabalho a frio: corte, lapidação e jato de areia
Depois de o vidro arrefecer, o trabalho de acabamento (corte, lapidação, jato de areia) traz um conjunto de riscos diferente, mas igualmente sério.
Riscos
- Cortes e estilhaços: o vidro parte-se em arestas afiadas e fragmentos que podem projetar-se com força.
- Poeiras: cortar e lapidar vidro liberta pó de vidro fino (o vidro é sílica amorfa), irritante para os olhos e as vias respiratórias, que se controla trabalhando a húmido e com aspiração. A sílica cristalina respirável vem de outras fontes do atelier: a areia e a mistura de matérias-primas, a areia de quartzo usada como abrasivo no jato, os moldes de gesso e sílica, os separadores de forno (kiln wash) e os refratários; a fibra cerâmica refratária dos fornos está classificada como cancerígena (ver a ficha de dados de segurança). A inalação repetida de sílica cristalina causa silicose e cancro do pulmão; os trabalhos com esta poeira estão abrangidos pelo regime dos agentes cancerígenos (Decreto-Lei n.º 301/2000, alterado pelo Decreto-Lei n.º 35/2020, que fixa o valor-limite de exposição no anexo). Regras: nunca varrer a seco nem soprar com ar comprimido (aspirar ou limpar a húmido); jato só em cabine fechada com aspiração e com abrasivo sem sílica livre (óxido de alumínio, carboneto de silício ou microesferas de vidro), nunca areia de quartzo; máscara FFP3 ou semimáscara com filtro P3 quando há poeira.
- Ruído: máquinas de corte, lapidação e jato de areia podem gerar níveis elevados de ruído continuado.
- Projeções de partículas de vidro e de material abrasivo durante o jato de areia.
O risco da poeira fina não se sente no momento: a silicose não dá dor nem desconforto imediato que avise. É por isso que a proteção tem de ser sistemática, e não reativa a um sintoma.
EPI e boas práticas
- Corte e lapidação a húmido: usar água durante o processo reduz drasticamente a quantidade de pó libertado no ar. É a medida mais eficaz sempre que o processo o permite.
- Proteção respiratória adequada: quando não é possível trabalhar a húmido, ou quando há poeira de sílica cristalina, usar máscara FFP3 ou semimáscara com filtro P3.
- Proteção ocular contra projeções: óculos ou viseira resistentes a impacto, em todo o corte, lapidação e jato de areia.
- Proteção auditiva nos processos e máquinas mais ruidosos.
- Luvas resistentes ao corte ao manipular vidro partido ou em bruto.
Exemplo resolvido: escolher o EPI certo por tarefa
Situação: um formando vai realizar, na mesma manhã, três tarefas: (1) retirar uma peça do forno, (2) cortar uma chapa de vidro a frio, (3) aplicar jato de areia numa peça decorativa.
Resolução, tarefa a tarefa:
- Retirar peça do forno: óculos com filtro IV, luvas resistentes ao calor, avental e calçado de proteção.
- Corte a frio: óculos de proteção contra projeções, luvas resistentes ao corte; se possível, corte a húmido para reduzir poeira.
- Jato de areia: jato em cabine fechada com aspiração e abrasivo sem sílica livre; máscara FFP3 ou semimáscara com filtro P3, proteção ocular fechada (o jato projeta com força), proteção auditiva.
Nenhuma destas três tarefas partilha o mesmo EPI completo: cada risco pede a combinação certa, não "um kit genérico" para o dia todo.
8. Causas de acidentes de trabalho
Conhecer as causas mais frequentes de acidente é o que permite antecipá-las, em vez de reagir depois de acontecerem:
- Acidentes de movimentação: quedas, entorses, esforços mal executados ao levantar peso.
- Choques e quedas: pisos escorregadios, objetos no caminho, degraus mal sinalizados.
- Acidentes com ferramentas e máquinas em movimento: contacto com partes móveis, resguardos retirados ou avariados.
- Choques elétricos: cabos ou equipamentos danificados, uso com mãos ou vestuário húmidos.
- Acidentes provocados por agentes químicos e gases: contacto ou inalação de produtos usados no atelier (corantes, ácidos, gases de combustão do forno). Ver mais abaixo, «Agentes químicos do vidro».
- Queimaduras: contacto com o forno, peças quentes ou ferramentas usadas a quente.
Agentes químicos do vidro
Antes de usar qualquer produto, ler o rótulo (pictogramas do Regulamento CLP, Reg. (CE) n.º 1272/2008) e a ficha de dados de segurança (FDS), que o fornecedor é obrigado a entregar. O Decreto-Lei n.º 24/2012 regula a exposição a agentes químicos no trabalho.
- Ácido fluorídrico e pastas de gravação ou foscagem (com bifluoreto de amónio ou de sódio): o contacto com a pele pode quase não doer no início e causar, horas depois, queimaduras profundas e uma intoxicação grave por baixa do cálcio no sangue. Só se usam com autorização do formador, em local ventilado ou com extração, com luvas de proteção química, óculos estanques e avental, e com gel de gluconato de cálcio à mão. Em caso de contacto: retirar a roupa contaminada, lavar de imediato com água corrente abundante, aplicar o gel de gluconato de cálcio massajando e ligar 112 ou ao CIAV (800 250 250), mesmo que a zona seja pequena.
- Chumbo (calhas e solda do vitral, cristal de chumbo, grisalhas e alguns esmaltes): entra por inalação de fumos e poeiras e pelas mãos à boca; acumula-se no organismo e é tóxico para a reprodução. O Decreto-Lei n.º 24/2012 fixa valores-limite e obriga à vigilância da saúde com análise do chumbo no sangue. Regras: soldar com extração de fumos; não comer, beber nem fumar no posto; lavar mãos e cara antes de sair; não levar a roupa de trabalho para casa; limpar a húmido ou com aspirador, nunca varrer a seco.
- Fluxos de soldadura, pátinas e solventes: irritantes ou corrosivos; usar luvas e óculos e ventilar.
Negligência, atenção e ergonomia
Muitos acidentes não têm uma causa técnica isolada, resultam de fatores humanos e organizativos:
- Negligência e falta de atenção: rotina, pressa e distração aumentam o erro. Combatem-se com procedimentos claros, pausas regulares e supervisão, não apenas com "mais cuidado".
- Proteção de máquinas: resguardos, paragens de emergência e sinalização sempre operacionais.
- Ergonomia: postos de trabalho ajustados à tarefa e à pessoa, para reduzir fadiga e posturas forçadas, que por sua vez reduzem o erro.
9. Primeiros socorros e emergências
A caixa de primeiros socorros deve estar acessível, completa e verificada regularmente, preparada para situações como perda de sentidos, feridas abertas e fechadas, choque elétrico, eletrocussão, ataque cardíaco, entorses ou distensões, envenenamento e queimaduras.
Em qualquer emergência, os primeiros minutos são decisivos. O procedimento correto segue sempre a mesma lógica:
- Avaliar a segurança do local antes de agir: não te tornes uma segunda vítima.
- Ligar 112, indicar a morada exata, o tipo de emergência e o número de vítimas.
- Seguir as instruções do operador do 112 até chegar ajuda.
- Não mover a vítima, exceto se houver perigo imediato (fogo, gás, estrutura instável).
- Manter a vítima calma e acompanhada, se estiver consciente, até chegar assistência; se estiver inconsciente, seguir o que está abaixo.
Regra crítica e não negociável: nunca tocar diretamente numa vítima em contacto com corrente elétrica. O primeiro passo é cortar a corrente no quadro elétrico. Se isso não for imediatamente possível, afasta-se a vítima usando um objeto seco e não condutor (madeira, plástico), nunca com as mãos nem com um objeto metálico ou húmido. Só depois de a corrente estar cortada, ou a vítima afastada em segurança, se presta qualquer assistência direta. Este afastamento só vale em baixa tensão e com o socorrista sobre piso seco; em alta tensão, ninguém se aproxima: ligar 112.
Exemplo resolvido: reagir a uma queimadura no atelier
Situação: um formando encosta o antebraço a uma peça acabada de sair do forno.
Passo 1: afastar de imediato a fonte de calor.
Passo 2: arrefecer de imediato a zona queimada com água corrente fresca (não gelada) durante pelo menos 20 minutos, seja qual for a gravidade; retirar anéis, relógio e roupa que não esteja colada à pele. Nunca usar gelo, manteiga, pasta de dentes nem outros produtos caseiros, e não rebentar as bolhas.
Passo 3: depois de arrefecer, cobrir sem apertar com penso esterilizado não aderente ou película aderente limpa. Se a queimadura tiver bolhas extensas, for maior do que a palma da mão da vítima, atingir a face, as mãos, os pés, as articulações ou os genitais, ou tiver aspeto branco ou carbonizado, avisar o responsável e ligar 112, continuando a arrefecer.
Passo 4: avisar o responsável e registar o incidente, conforme o plano de segurança interno (ver «Depois do socorro: o acidente de trabalho»), para se rever a causa e evitar repetição.
Como atuar em cada situação
- Corte com hemorragia: calçar luvas, fazer pressão direta e firme sobre a ferida com compressa ou pano limpo e manter; se a compressa ensopar, pôr outra por cima sem retirar a primeira. Ligar 112 se a hemorragia não parar. Não retirar um estilhaço encravado: imobilizá-lo, almofadar à volta e comprimir dos lados, nunca por cima.
- Corpo estranho no olho (pó ou lasca de vidro): não esfregar; lavar com água corrente limpa ou soro, do canto interno para o externo. Se a partícula estiver cravada ou não sair, não tentar tirar: cobrir os dois olhos sem pressionar e ir à urgência.
- Perda de sentidos: se a vítima não reage (chamá-la e abanar-lhe os ombros com firmeza), ligar logo 112 com o telefone em alta voz e, enquanto a chamada não é atendida, verificar se respira (ver, ouvir e sentir, durante 10 segundos). Se respira normalmente, pô-la em posição lateral de segurança, seguir as indicações do CODU e vigiar a respiração; a posição lateral de segurança está contraindicada no trauma ou na sua suspeita (queda, acidente, eletrocussão com projeção, soterramento): nesse caso não se mobiliza a vítima, salvo local inseguro ou impossibilidade de manter a via aérea permeável. Se não respira normalmente (a respiração agónica conta como paragem): iniciar SBV, 30 compressões para 2 insuflações, 100 a 120 por minuto e 5 a 6 cm de profundidade, e pedir o DAE, ligando-o logo que esteja disponível e seguindo as indicações do CODU (segundo o Manual de SBV-DAE do INEM, versão 2.0, março de 2026). Havendo duas pessoas, uma liga 112 e assegura o DAE, a outra avalia a vítima.
- Ataque cardíaco (dor ou aperto no peito, suores, falta de ar): ligar 112, sentar a vítima em repouso, não a deixar sozinha.
- Choque elétrico: depois de cortada a corrente, se não reage, ligar 112 em alta voz, verificar se respira e atuar como acima (sem mobilizar a vítima se houver suspeita de trauma); qualquer eletrizado deve ser visto por um médico. Em alta tensão, ninguém se aproxima: ligar 112.
- Entorse ou distensão: repouso, frio envolvido num pano e elevação; não forçar o movimento.
- Envenenamento ou contacto com produto químico: ligar ao CIAV, 800 250 250 (ou 112) com o rótulo ou a ficha de dados de segurança na mão; não provocar o vómito; na pele ou nos olhos, lavar com água corrente abundante.
Depois do socorro: o acidente de trabalho
- Avisar de imediato o formador ou o responsável do atelier, mesmo que a lesão pareça pequena.
- O responsável regista o acidente e participa-o ao seguro de acidentes de trabalho (ou ao seguro escolar, no caso dos formandos).
- Os acidentes mortais ou com lesão física grave são comunicados pelo empregador à ACT nas 24 horas seguintes (art. 111.º da Lei n.º 102/2009); até lá, não se mexe no local mais do que o necessário para socorrer.
- A causa é analisada e o plano de prevenção é revisto.
10. Incêndios: causas, tipos, deteção e extinção
Causas e tipos de incêndio
Um atelier de vidro tem várias fontes possíveis de incêndio: o sistema de aquecimento e cozedura (o próprio forno), chaminés e tubos de fumo mal limpos ou danificados, materiais inflamáveis guardados perto de zonas quentes, aparelhos elétricos avariados ou sobrecarregados, e pessoas fumadoras em zonas não autorizadas.
Os incêndios classificam-se em classes (NP EN 2), consoante o combustível: A sólidos (madeira, papel, tecido), B líquidos inflamáveis, C gases, D metais, F óleos e gorduras de cozinha. Não existe classe para fogos «elétricos»: em equipamento sob tensão usa-se um agente não condutor (CO2 ou pó) e corta-se a corrente. A classe determina qual o extintor certo para cada caso.
Sistemas de deteção
- Deteção de fumo: sensores que reagem a partículas de combustão; os mais comuns em espaços interiores.
- Deteção de calor: sensores que reagem à temperatura; mais indicados perto do forno, onde a deteção de fumo geraria falsos alarmes frequentes.
- Deteção de gás: sensores específicos onde há garrafas ou linhas de gás.
Todos os sistemas devem estar ligados a um alarme audível e ser testados periodicamente.
Tipos de extintores e atuação
| Extintor | Indicado para |
|---|---|
| Água | classe A |
| Espuma | classes A e B |
| Pó químico ABC | classes A, B e C; pode usar-se em equipamento sob tensão |
| CO2 | classe B e equipamento elétrico sob tensão, sem deixar resíduos |
| Pó especial D | metais |
| Agente químico húmido | classe F (óleos e gorduras de cozinha) |
Nunca usar água em equipamento elétrico ligado à corrente: é um dos erros mais graves e mais frequentes. Confirmar sempre o tipo de fogo antes de escolher o extintor.
Procedimento de atuação em caso de incêndio, por ordem:
- Dar o alarme e avisar quem está por perto.
- Avaliar se é um princípio de incêndio controlável ou se é preciso evacuar de imediato.
- Se for controlável: usar o extintor certo, seguindo o plano de ataque (aproximar a favor da saída, atacar a base do fogo).
- Se não for controlável: evacuar pelo percurso definido no plano de evacuação, acionar o sistema automático se existir, e ligar 112.
- Nunca voltar a uma zona evacuada antes de autorização expressa.
Gás: prevenção e extinção
- Garrafas de gás e de oxigénio: sempre na vertical, presas com corrente ou cinta, longe do forno e de fontes de calor, com a válvula fechada quando não estão em uso. Mangueiras em bom estado e com válvulas antirretorno e corta-chamas. Nunca usar óleo ou gordura em válvulas e ligações de oxigénio. As fugas procuram-se com água e sabão, nunca com chama. A ordem de abrir e fechar o gás e o oxigénio no maçarico segue o manual do fabricante.
- Fuga de gás sem chama (cheiro a gás): não acionar interruptores nem aparelhos elétricos, não fazer chama nem fumar; fechar a válvula se for seguro, abrir portas e janelas, evacuar e pedir ajuda do exterior.
- Fuga de gás a arder: a técnica de extinção é cortar a alimentação de gás (fechar a válvula da garrafa ou da linha), se for seguro. Não se apaga a chama sem fechar o gás: o gás continuaria a sair e formaria uma nuvem explosiva. Se não for possível fechar, afastar toda a gente, ligar 112 e, à distância, arrefecer com água as garrafas expostas ao calor, o que só os bombeiros devem fazer. Depois de fechado o gás, um resto de chama apaga-se com extintor de pó (classe C).
Erros comuns
- Colocar o EPI como primeira medida, ignorando os degraus anteriores da hierarquia da prevenção (evitar, combater na origem, substituir, proteção coletiva).
- Usar óculos de sol comuns junto do forno, pensando que protegem da radiação infravermelha. Não protegem.
- Cortar ou lapidar a seco por rotina, quando o corte a húmido reduziria drasticamente a pó de vidro.
- Tocar numa vítima em contacto com corrente elétrica sem cortar primeiro a corrente ou afastá-la com material isolante.
- Usar água num incêndio elétrico em vez do extintor de CO2 ou pó químico.
- Retirar resguardos de máquinas "só por um momento" para agilizar uma tarefa.
- Guardar materiais inflamáveis perto do forno "só por um dia".
- Avaliar a temperatura de uma peça pela cor, quando o vidro deixa de brilhar muito antes de arrefecer de facto.
Glossário
- SST: segurança e saúde no trabalho, conjunto de princípios e normas que protegem quem trabalha.
- EPI: equipamento de proteção individual, usado pelo trabalhador para se proteger de um risco concreto.
- Hierarquia da prevenção: ordem de prioridade das medidas de segurança, aplicação técnica dos princípios gerais de prevenção da Lei 102/2009, do topo (evitar o risco) até ao EPI.
- Radiação infravermelha (IV): radiação de calor emitida por fontes muito quentes, como o forno de vidro, invisível mas capaz de lesar a pele e a vista.
- Sílica cristalina respirável: poeira muito fina de quartzo (areia, moldes de gesso e sílica, refratários, abrasivo de areia) que causa silicose e cancro do pulmão; o pó de vidro, que é sílica amorfa, não é sílica cristalina.
- Corte/lapidação a húmido: técnica que usa água durante o processo para reduzir a poeira no ar.
- Plano de segurança interno: conjunto de documentos que organiza a prevenção e a resposta a incidentes de um local de trabalho.
- Plano de evacuação: define percursos de saída, sinalização e ponto de encontro em caso de emergência.
- Plano de emergência: define quem faz o quê, por que ordem, perante uma situação grave.
- ACT: Autoridade para as Condições do Trabalho, entidade que fiscaliza o cumprimento das normas de SST em Portugal.
- 112: número europeu de emergência, a acionar em qualquer situação grave.
Síntese
Implementar as normas de SST na produção de peças de vidro segue sempre a mesma lógica: conhecer os princípios e a lei (Lei 102/2009, DL 348/93) → aplicar a hierarquia da prevenção, do risco evitado ao EPI como último recurso → conhecer os planos e protocolos do local de trabalho → usar o EPI certo para cada tarefa, térmico junto do forno, respiratório e antiprojeção no trabalho a frio → reconhecer as causas de acidente para as antecipar → saber reagir em emergência, com o 112 e as regras corretas, sobretudo perante um choque elétrico → prevenir e combater incêndios com o extintor certo e o plano de evacuação. Este é o fio condutor que atravessa toda a UC, do primeiro princípio geral ao último procedimento de emergência.
Exercícios resolvidos
1. Um colega diz: "o mais importante é ter sempre o EPI certo". Concordas? Porquê?
Resolução: apenas em parte. O EPI é essencial, mas é o último degrau da hierarquia da prevenção. Antes disso, deve tentar-se evitar o risco, combatê-lo na origem e substituir o que é perigoso. O EPI protege quem já está exposto ao risco; não evita que a exposição aconteça.
2. Porque é que óculos de sol comuns não são um EPI válido junto do forno?
Resolução: porque não têm filtro específico para radiação infravermelha. Reduzem a luz visível, mas não protegem contra o calor radiante que pode lesar a pele e a vista junto do forno. É preciso equipamento com filtro próprio para IV.
3. Explica porque o corte a húmido é preferível ao corte a seco no trabalho de acabamento do vidro.
Resolução: o corte a seco liberta pó de vidro fino no ar, irritante para os olhos e as vias respiratórias. A água usada no corte a húmido reduz drasticamente esse pó, combatendo o risco na origem, antes de se recorrer à proteção respiratória. A sílica cristalina vem da areia, dos moldes de gesso e sílica, dos refratários e do jato com areia, não do vidro.
4. Um colega vai tocar numa pessoa que está em contacto com um cabo elétrico, para a afastar. O que lhe dizes?
Resolução: que nunca deve tocar diretamente na vítima. Deve primeiro tentar cortar a corrente no quadro elétrico; se não for possível de imediato, afastar a vítima com um objeto seco e não condutor (madeira, plástico). Tocar diretamente arrisca criar uma segunda vítima.
5. Que extintor se deve usar num princípio de incêndio num quadro elétrico ligado à corrente? E qual nunca se deve usar?
Resolução: usar CO2 (não deixa resíduos e é seguro em equipamento elétrico) ou pó químico. Nunca usar água nem espuma num incêndio elétrico com corrente ligada, risco de eletrocussão.
6. Descreve, por ordem, o procedimento perante um incêndio que não consegues controlar com o extintor.
Resolução: parar de tentar apagar → evacuar pelo percurso definido no plano de evacuação → acionar o sistema automático, se existir → ligar 112 com a localização e a situação → não voltar à zona sem autorização.