Sebenta · Avaliar e efetuar a limpeza das estruturas e peças arqueológicas (UC02356)
- Introdução
- 1. Princípios de conservação: a base de tudo
- 2. Diagnóstico do estado de conservação
- 3. Sujidade: conceito, tipos e efeitos
- 4. Fichas de conservação e marcação
- 5. Planear o processo de limpeza
- 6. Métodos de limpeza mecânica
- 7. Métodos de limpeza húmida e mista
- 8. Segurança, saúde e ambiente
- 9. Documentação, relatório e execução final
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta prepara o/a assistente de arqueólogo/a para as três tarefas centrais desta UC: analisar o estado de conservação das peças e as suas principais patologias, planear o processo de limpeza das estruturas e peças arqueológicas, e proceder à limpeza das peças arqueológicas, sob orientação de um/a Arqueólogo/a. Estas três frases, retiradas do referencial oficial, são o fio condutor de todos os capítulos seguintes.
O trabalho acontece em contexto de entidades públicas (organismos com competências de intervenção na arqueologia, autarquias, universidades, museus com acervo arqueológico), empresas de arqueologia, de conservação e restauro, e de recuperação de património, empresas de turismo cultural, e organizações sem fins lucrativos ligadas a sítios ou património arqueológico. Pode acontecer no trabalho de campo, junto ao local de achamento, ou no trabalho de gabinete, em laboratório.
Em Portugal, a tutela do património arqueológico está hoje na Património Cultural, I.P., organismo que sucedeu à extinta DGPC (Direção-Geral do Património Cultural). É importante conhecer o nome atual, porque documentação mais antiga ainda refere a sigla anterior.
Aviso importante desde já: esta UC forma para a limpeza preliminar, reversível e de baixo risco. Consolidação, colagem, reintegração de partes e qualquer intervenção sobre peças destinadas a análise laboratorial especializada são trabalho de um/a conservador-restaurador/a, fora do âmbito do assistente. Saber reconhecer esse limite é, em si, uma competência desta UC.
1. Princípios de conservação: a base de tudo
Antes de qualquer instrumento tocar numa peça, aplicam-se três princípios que atravessam toda a matéria.
Intervenção mínima
Fazer apenas o necessário para estabilizar a peça e permitir a sua leitura e o seu estudo, nunca mais do que isso. Em conservação de património, "limpar bem" não significa "limpar até brilhar": significa remover o que impede a leitura da peça e parar aí.
Reversibilidade
Só se usam métodos e produtos que possam, em princípio, ser desfeitos ou que não alterem a peça de forma permanente. Este princípio aplica-se a tudo: à limpeza, à marcação dos elementos e a qualquer material aplicado sobre a peça.
Documentação antes e depois
Regista-se sempre o estado da peça antes de intervir (fotografia, ficha de conservação, descrição escrita) e o resultado depois. Sem este registo, perde-se a possibilidade de perceber, no futuro, o que foi feito e porquê.
Regra prática para decidir qualquer método nesta UC: se a ação não for reversível, se remover mais do que a sujidade, ou se não ficar documentada, não se faz. Estes três princípios respondem sempre à pergunta "posso fazer isto?".
O limite do assistente
Sempre que o diagnóstico revelar peças muito frágeis, fragmentadas ou instáveis, necessidade de consolidação, colagem ou reintegração, ou peças destinadas a análise de resíduos, datação ou estudo laboratorial especializado, o assistente para, regista o que observou e encaminha para o/a Arqueólogo/a ou para um/a conservador-restaurador/a.
Exemplo resolvido: aplicar os três princípios
Uma peça de cerâmica chega ao laboratório com uma crosta de terra endurecida e uma zona onde a pintura original parece estar a descamar.
- Diagnóstico: observa-se à lupa. A crosta é sujidade mineral; a descamação é degradação física da própria decoração.
- Decisão de intervenção mínima: propõe-se remover apenas a crosta, com pincel de cerdas macias, e não tocar na zona de pintura frágil.
- Decisão de reversibilidade: escolhe-se um método a seco (pincel), sem produtos, porque é totalmente reversível e de baixo risco.
- Documentação: fotografa-se antes, regista-se na ficha o método escolhido, executa-se, fotografa-se depois e atualiza-se a ficha com o resultado.
A zona de pintura frágil é assinalada na ficha como "não intervencionar, encaminhar para avaliação", respeitando o limite do assistente.
2. Diagnóstico do estado de conservação
Analisar o estado de conservação das peças e as suas principais patologias é sempre o primeiro passo antes de qualquer limpeza. É uma observação cuidadosa, feita antes de tocar na peça mais do que o necessário.
Fatores de degradação primário e secundário
O fator de degradação primário é a causa original do problema: por exemplo, o tipo de solo em que a peça esteve enterrada, a humidade, ou a composição do próprio material. O fator de degradação secundário é o que age depois de a peça sair do contexto original: manuseamento incorreto, exposição ao ar e à luz, variações de temperatura no transporte ou armazenamento.
Os quatro tipos de degradação
| Tipo | O que é | Sinais a observar |
|---|---|---|
| Física | fissuras, fraturas, perda de material | fragmentos soltos, lascas, faltas |
| Química | reação do material com o ambiente | manchas de corrosão, alteração de cor |
| Biológica | ação de organismos vivos | fungos, líquenes, marcas de raízes |
| Mecânica | desgaste por atrito ou pressão | superfícies polidas por fricção, amolgadelas |
Muitas peças apresentam mais do que um tipo de degradação em simultâneo. Uma peça metálica pode ter corrosão química (ferrugem, óxido) e, ao mesmo tempo, uma fratura física de um choque no transporte.
Alterações da coesão ou aderência
São sinais de que os próprios materiais que compõem a peça estão a perder a ligação entre si: a superfície esfarela ao toque, a decoração descama, ou camadas de material separam-se. Estes sinais contraindicam a limpeza húmida ou mais intensa, porque qualquer manuseamento pode agravar a perda.
Sujidade e degradação não são a mesma coisa. Sujidade é material estranho depositado sobre a peça, removível em princípio; degradação é uma alteração do próprio material da peça, que não se "limpa", trata-se de forma completamente diferente e está, em regra, fora do âmbito do assistente.
Exemplo resolvido: classificar o diagnóstico
Uma peça de bronze apresenta uma camada verde esbranquiçada, ativa, que continua a crescer, e um fragmento partido numa das extremidades.
- Camada verde ativa: é degradação química (corrosão ativa do bronze), não sujidade. Requer avaliação especializada, pode ser instável e continuar a evoluir.
- Fragmento partido: é degradação física. Não se cola nem consolida nesta UC.
- Conclusão do diagnóstico: peça sinalizada para encaminhamento, com ficha de conservação preenchida, sem qualquer tentativa de limpeza ou intervenção mecânica na zona da corrosão ativa.
3. Sujidade: conceito, tipos e efeitos
Sujidade é todo o material estranho depositado sobre a peça, que não faz parte dela, e que, em princípio, pode ser removido sem alterar o objeto original. Distingue-se sempre da degradação (capítulo anterior): a sujidade tira-se, a degradação é parte da peça.
Meios e recursos de identificação
Identifica-se sujidade por observação direta, por vezes com luz rasante (que revela relevo e crostas), por teste de solubilidade num ponto discreto (uma pequena área pouco visível, testada antes de generalizar), e sempre com lupa ou microscópio para detalhe fino.
Tipos de sujidade, origem e natureza
| Origem | Natureza | Exemplo |
|---|---|---|
| Mineral | terra, sedimento, calcário | crosta de terra endurecida |
| Orgânica | resíduos vegetais ou animais | raízes, matéria decomposta |
| Biológica ativa | organismos vivos | líquenes, fungos, musgo |
| Antrópica | resíduos de manuseamento anterior | fita adesiva, etiquetas antigas, colas |
Efeitos nos materiais de suporte
O efeito da sujidade depende do material de suporte: numa cerâmica porosa, a sujidade mineral pode entranhar-se nos poros e ser difícil de remover sem afetar a superfície; numa pedra exposta, a sujidade biológica ativa (líquenes, musgo) pode continuar a degradar a superfície se não for tratada; num metal, uma crosta de terra pode estar a esconder corrosão ativa por baixo, que só se vê depois de remover a sujidade com muito cuidado.
Uma peça de vidro romano recuperada de um contexto húmido chega ao laboratório com uma película iridescente e uma crosta de terra. A iridescência é degradação química da superfície do vidro (não se remove, é irreversível e faz parte do estado da peça); a crosta de terra é sujidade mineral (remove-se com cuidado, testando antes num ponto discreto).
4. Fichas de conservação e marcação
Fichas in situ e em laboratório
O registo do trabalho começa no momento do achamento. A ficha in situ é preenchida no local, com a localização exata, a condição imediata da peça e as primeiras medidas de proteção tomadas (embalagem, acondicionamento para transporte). A ficha em laboratório é mais completa: diagnóstico detalhado, fotografias, proposta de método de limpeza e o registo de toda a evolução do tratamento.
Objetivos e conteúdos das fichas
O objetivo é garantir rastreabilidade (nunca se perde a ligação entre a peça e a sua história), permitir decisões informadas (quem decide o método tem acesso a todo o diagnóstico) e servir de base ao relatório final da intervenção.
Conteúdos típicos de uma ficha de conservação: identificação única da peça, local e data de achamento, contexto estratigráfico, material, estado de conservação, patologias identificadas, fotografias antes e depois, método e produtos de limpeza aplicados, e observações do/a Arqueólogo/a responsável.
Marcação dos elementos
Marcação é identificar fisicamente cada peça de forma permanente mas reversível, para que a ligação entre o objeto e o seu registo nunca se perca.
Procedimento de marcação: preparar a marcação escolhendo um local discreto na peça, fora de fraturas, bordos e zonas decoradas ou diagnósticas, aplicar uma camada de base de resina reversível (ex.: Paraloid B-72 em acetona), escrever o código de identificação com nanquim por cima dessa base e, depois de seco, selá-lo com uma camada de proteção da mesma resina. É a camada de base que torna a marcação reversível: com acetona retira-se tudo sem tocar na superfície original. Trabalha-se com luvas de nitrilo e boa ventilação, por causa do solvente, e nunca se usa corretor, verniz de unhas ou marcador. O código liga sempre a peça à sua ficha de conservação e ao seu contexto de achamento (sítio, unidade estratigráfica, número de achado).
Nunca se escreve um código diretamente sobre a superfície original da peça, sem a camada protetora. É um erro irreversível: a marcação tem de poder ser removida no futuro sem danificar o material original.
Exemplo resolvido: preencher uma ficha em laboratório
Peça: fragmento de cerâmica comum, achado numa unidade estratigráfica romana.
- Identificação: código de achado, sítio, unidade estratigráfica, data.
- Material: cerâmica de pasta grosseira, cozedura oxidante.
- Diagnóstico: crosta de terra na superfície externa (sujidade mineral); ausência de degradação química ou biológica visível.
- Método proposto: limpeza mecânica com pincel de cerdas macias, testada num ponto discreto.
- Resultado: crosta removida, superfície original preservada, sem sinais de perda de material.
- Marcação: código aplicado sobre base protetora numa zona interna, discreta, da peça.
5. Planear o processo de limpeza
Planear o processo de limpeza das estruturas e peças arqueológicas é a segunda realização desta UC, e nasce sempre do diagnóstico feito nos capítulos anteriores. Nunca se limpa sem plano.
Critérios, rotinas e limites de intervenção
Os critérios determinam que método é adequado ao material, ao tipo de sujidade e ao estado de conservação diagnosticado. As rotinas definem a sequência de passos: sempre da técnica menos agressiva para a mais agressiva, nunca ao contrário. Os limites de intervenção marcam até onde se pode ir sem sair da limpeza preliminar reversível: ultrapassar o limite significa encaminhar a peça, não "arriscar mais um pouco".
Metodologia de intervenção
Um plano de limpeza estruturado responde sempre a estas perguntas, por esta ordem:
- Objetivo: o que se espera alcançar com a intervenção (por exemplo, remover uma crosta de terra sem afetar a decoração).
- Instrumentos e produtos: propostos do menos ao mais agressivo, cada um com a sua natureza, propriedades e campo de aplicação.
- Teste prévio: aplicado num ponto discreto da peça, antes de generalizar a toda a superfície.
- Tipo de relatório e documentação técnica a produzir no final: ficha atualizada, fotografias, descrição escrita do processo.
O plano é sempre validado pelo/a Arqueólogo/a responsável antes de se avançar para a execução. O assistente propõe, não decide sozinho.
Um plano bem feito responde sempre a estas quatro perguntas: com que objetivo, com que instrumentos e produtos, testado como, e documentado como. Se uma destas respostas faltar, o plano não está pronto.
Exemplo resolvido: montar um plano de limpeza
Peça: pequeno objeto metálico (provável fivela), com crosta de terra e sinais leves de corrosão localizada.
- Objetivo: remover a crosta de terra que impede a leitura da forma do objeto, sem afetar a corrosão estável já presente.
- Instrumentos e produtos: primeiro pincel de cerdas macias e aspirador de baixa potência; se necessário, compressa de algodão ligeiramente humedecida, apenas em água destilada, com autorização prévia.
- Teste prévio: aplicado numa área de 1 cm², num canto discreto do objeto, e observado o resultado antes de continuar.
- Documentação: fotografia antes, descrição do plano na ficha, validação escrita do/a Arqueólogo/a antes de executar.
6. Métodos de limpeza mecânica
A via mecânica usa força física controlada, sem líquidos, e é sempre a primeira opção a considerar, por ser a mais fácil de controlar e a mais reversível de todos os métodos.
Instrumentos da via mecânica
| Instrumento | Uso principal |
|---|---|
| Pincéis de cerdas macias | pó solto e sedimento superficial |
| Escovas de dentes (cerdas macias) | zonas com relevo ou reentrâncias |
| Aspiradores de baixa potência | remoção de pó sem contacto físico |
| Bisturis e espátulas | crostas localizadas e firmes, trabalho lento sob lupa |
| Pinças | remoção de pequenos elementos soltos, sem tocar diretamente na superfície |
A regra de ouro
Começa-se sempre pelo instrumento menos agressivo, e só se sobe de intensidade se o teste prévio confirmar que é necessário e seguro. O bisturi nunca é a primeira escolha, mesmo que pareça mais rápido: rapidez não é critério em conservação de património.
Se a via mecânica com pincel e escova não remove a sujidade, o passo seguinte é considerar a via húmida ou mista (capítulo 7), sempre com teste prévio. Nunca se aumenta simplesmente a força com o mesmo instrumento, nem se usam escovas metálicas ou raspagem forçada: risca e remove material original de forma irreversível.
Exemplo resolvido: sequência de limpeza mecânica
Peça de osso trabalhado, com pó solto e uma pequena crosta de terra numa reentrância.
- Aspirador de baixa potência: remove o pó solto de toda a superfície.
- Pincel de cerdas macias: trabalha a superfície geral, incluindo áreas com relevo.
- Escova de dentes de cerdas macias: alcança a reentrância onde está a crosta.
- Resultado: crosta removida sem necessidade de bisturi nem de qualquer produto líquido. Documentado como limpeza mecânica completa.
7. Métodos de limpeza húmida e mista
A via húmida
A limpeza húmida usa água ou soluções aquosas suaves, aplicada com compressas de algodão humedecidas, nunca por imersão direta da peça sem autorização e sem confirmar antes que o material o permite. Prefere-se sempre água destilada à água da torneira, para não introduzir sais ou minerais que causem problemas de conservação mais tarde.
Duas proibições absolutas nesta UC: nunca lavar cerâmica mal cozida ou com decoração pintada não fixada (a água dissolve o pigmento ou desfaz a própria peça), e nunca lavar peças destinadas a análise de resíduos ou datação (a água remove exatamente a informação que se pretende preservar).
A via mista e os produtos específicos
A via mista combina a mecânica e a húmida, ou recorre a produtos específicos ao processo de limpeza de artefactos arqueológicos, sempre por indicação do/a Arqueólogo/a, nunca por iniciativa própria do assistente.
- Solventes como álcool ou acetona podem ser indicados para certos resíduos, mas exigem sempre EPI adequado e boa ventilação (ver capítulo 8).
- Nunca usar ácidos para limpar metais: reagem com a corrosão presente e podem destruir a peça de forma irreversível, além de representar um risco grave para quem manuseia o produto.
- Nunca usar escovas metálicas em nenhum material: risca superfícies e remove material original de forma permanente.
- Testa-se sempre num ponto discreto, aguarda-se para observar o efeito, e só depois se generaliza à peça inteira.
Exemplo resolvido: decidir entre mecânica, húmida e mista
Uma peça cerâmica de pasta bem cozida, sem decoração pintada, tem uma crosta de terra muito aderente que resiste ao pincel.
- Tentativa mecânica: pincel e escova de dentes não removem a crosta na totalidade.
- Avaliação do material: cerâmica bem cozida, sem pintura frágil, confirmado com o/a Arqueólogo/a. Não se aplica a proibição da via húmida.
- Decisão: via húmida, compressa de algodão com água destilada, teste prévio num canto da peça.
- Resultado: crosta amolecida e removida com o pincel após humedecimento, sem via mista com solventes ser necessária.
Se a peça tivesse decoração pintada não fixada, a decisão teria sido diferente: manter apenas a via mecânica e encaminhar para avaliação especializada, mesmo que a crosta não saísse por completo.
8. Segurança, saúde e ambiente
A segurança acompanha toda a exposição ao risco, do início ao fim do trabalho, não apenas o momento de aplicar um produto.
Equipamentos de proteção individual (EPI)
| EPI | Quando se usa |
|---|---|
| Luvas (nitrilo, resistentes ao produto) | preparação, aplicação, limpeza do posto de trabalho |
| Óculos de proteção | sempre que há risco de salpico, mesmo em testes pequenos |
| Máscara com filtro adequado | abertura, aplicação e descarte do produto |
| Avental ou bata | durante toda a sessão de trabalho |
Antes de usar qualquer produto, consulta-se a ficha de dados de segurança (FDS), que indica o EPI exato necessário, a ventilação requerida e os primeiros socorros em caso de acidente.
O EPI não se limita ao momento de aplicar o produto. Cobre também a limpeza da bancada de trabalho e o descarte dos resíduos, feitos fora da bancada, ainda com luvas e, se aplicável, máscara. Um erro comum é retirar o EPI assim que o produto é aplicado; o risco continua até tudo estar limpo e os resíduos corretamente descartados.
Ventilação e descarte de resíduos
Trabalha-se com solventes apenas em local bem arejado ou com exaustão local, nunca em espaço fechado sem circulação de ar. Compressas usadas, embalagens e restos de produto vão para recipientes de resíduos próprios, identificados, nunca para o lixo comum nem para o esgoto. O descarte é feito longe da bancada de trabalho, com o EPI ainda colocado.
As normas de segurança e saúde no trabalho e as normas de proteção ambiental aplicam-se sempre em simultâneo: proteger quem trabalha e proteger o ambiente fazem parte da mesma rotina diária.
Procedimento de emergência
Em caso de acidente, como ingestão de um produto, contacto com os olhos, queimadura química ou ferida com um instrumento, o procedimento é sempre o mesmo:
- Afastar-se da fonte de risco em segurança.
- Ligar 112 de imediato e seguir as indicações do operador.
- Ter a ficha de dados de segurança do produto envolvido disponível, para informar os serviços de emergência.
- Só depois de pedir ajuda se tentam medidas de primeiros socorros indicadas na própria FDS, se a situação o permitir com segurança.
Nunca se tenta "resolver sozinho" um acidente com um produto químico antes de pedir ajuda. Primeiro liga-se o 112, depois age-se com indicação.
9. Documentação, relatório e execução final
Proceder à limpeza sob orientação
A terceira realização desta UC fecha o ciclo: proceder à limpeza das peças arqueológicas, sob orientação de um/a Arqueólogo/a. Isto significa executar o plano já validado, com os instrumentos e métodos aprovados, cumprindo sempre o EPI e as normas de segurança e ambiente.
O que fica documentado
Cada etapa fica registada na ficha de conservação: o que foi feito, com que instrumento, com que produto (se algum), e o resultado observado. Fotografam-se sempre o antes e o depois, para o relatório final e para a memória técnica da intervenção, que pode ser consultada anos mais tarde por outro investigador.
Atitudes avaliadas
Esta UC avalia, além do conhecimento técnico, um conjunto de atitudes profissionais: responsabilidade pelas próprias ações, autonomia dentro das funções atribuídas (nunca decidir fora do que compete ao assistente), rigor, sentido de organização, empenho e persistência na resolução de problemas, e respeito pelas normas e regras definidas.
Um assistente rigoroso, ao terminar a limpeza de um lote de dez peças, entrega ao/à Arqueólogo/a: dez fichas de conservação atualizadas, fotografias antes/depois de cada peça, um breve relatório com os métodos usados, e um registo separado das duas peças que encaminhou para avaliação especializada, com a justificação de cada encaminhamento.
Erros comuns
- Limpar antes de diagnosticar: saltar a observação cuidadosa e ir direto ao instrumento. Sem diagnóstico, não há base para escolher o método certo.
- Confundir sujidade com degradação: tratar uma corrosão ou uma fratura como se fosse sujidade removível. A degradação é parte da peça, não se "limpa".
- Saltar o teste prévio: aplicar um método diretamente em toda a peça "porque parece resistente". O teste existe exatamente para peças que parecem resistentes e não são.
- Usar ácidos em metais ou escovas metálicas em qualquer material: causam dano irreversível e, no caso dos ácidos, risco grave para a saúde.
- Lavar cerâmica frágil ou pintada, ou peças destinadas a datação: destrói informação e material que não se recupera.
- Retirar o EPI cedo demais: esquecer que a exposição continua até à limpeza da bancada e ao descarte correto dos resíduos.
- Marcar a peça sem base protetora: escrever o código diretamente sobre a superfície original, tornando a marcação irreversível.
- Não documentar: fazer a limpeza mas não preencher a ficha nem fotografar antes e depois. O trabalho fica sem memória técnica.
- Decidir sozinho fora do limite do assistente: avançar com consolidação, colagem ou limpeza de peças para análise especializada sem encaminhar primeiro.
Glossário
- Assistente de arqueólogo/a: profissional que apoia o/a Arqueólogo/a em tarefas de campo e de laboratório, incluindo diagnóstico e limpeza preliminar de peças.
- Conservação preliminar: intervenção reversível e de baixo risco, que estabiliza e permite a leitura da peça, sem substituir o trabalho do/a conservador-restaurador/a.
- Intervenção mínima: princípio segundo o qual só se faz o estritamente necessário à conservação da peça.
- Reversibilidade: princípio segundo o qual qualquer método ou produto usado deve poder ser desfeito no futuro.
- Patologia: alteração ou problema identificado no estado de conservação de uma peça.
- Fator de degradação primário: causa original da degradação da peça (ex.: condições de enterramento).
- Fator de degradação secundário: causa de degradação que age depois do achamento (ex.: manuseamento incorreto).
- Sujidade: material estranho depositado sobre a peça, em princípio removível sem alterar o objeto original.
- Ficha de conservação: documento que regista o diagnóstico, o método aplicado e a evolução do tratamento de uma peça.
- Marcação: identificação física permanente mas reversível de cada peça, ligada à sua ficha e ao seu contexto de achamento.
- Via mecânica: método de limpeza por força física controlada, sem líquidos.
- Via húmida: método de limpeza com água ou soluções aquosas suaves.
- Via mista: combinação de métodos mecânicos, húmidos ou com produtos específicos.
- EPI: equipamento de proteção individual (luvas, óculos, máscara, avental).
- Ficha de dados de segurança (FDS): documento que indica os riscos, o EPI necessário e os primeiros socorros de um produto.
- Património Cultural, I.P.: organismo público que tutela hoje o património cultural e arqueológico em Portugal, sucessor da extinta DGPC.
Síntese
O trabalho do assistente de arqueólogo/a segue sempre a mesma ordem: diagnosticar o estado de conservação e as patologias, identificar e classificar a sujidade, registar tudo em fichas de conservação e aplicar a marcação, planear o processo de limpeza com critérios, rotinas e limites claros, escolher o método adequado (mecânica primeiro, húmida ou mista depois, nunca ácidos em metais nem escovas metálicas), cumprir sempre o EPI e as normas de segurança e ambiente, e proceder à limpeza sob orientação, documentando cada etapa. Três princípios atravessam tudo: intervenção mínima, reversibilidade e documentação antes/depois. Reconhecer o limite do assistente e encaminhar o que excede a limpeza preliminar é tão importante como saber limpar.
Exercícios resolvidos
1. Uma peça de bronze tem uma camada verde ativa que parece estar a crescer. É sujidade ou degradação? O que fazer?
Resolução: é degradação química (corrosão ativa), não sujidade. Não se limpa nem se tenta remover. Regista-se na ficha de conservação e encaminha-se para o/a Arqueólogo/a ou para avaliação especializada, porque está fora do limite do assistente.
2. Porque é que a via mecânica é sempre o primeiro método a considerar, mesmo quando parece mais lenta?
Resolução: porque é a mais fácil de controlar e a mais reversível de todos os métodos. Segue o princípio da intervenção mínima: se a sujidade sair com pincel, não há razão para usar um método mais agressivo, mesmo que demore mais tempo.
3. Um colega quer lavar uma peça de cerâmica com decoração pintada para "ficar apresentável para uma foto". O que lhe respondes?
Resolução: que não se pode lavar, porque a decoração pintada não fixada dissolve-se ou desaparece em contacto com a água. É uma das duas proibições absolutas desta UC. A limpeza para fotografia usa só métodos mecânicos suaves, nunca água numa peça assim.
4. Depois de aplicar um solvente numa peça, o assistente tira logo as luvas. Está correto?
Resolução: não. O EPI cobre toda a exposição ao risco, incluindo a limpeza da bancada de trabalho e o descarte dos resíduos, que se fazem fora da bancada. As luvas (e a máscara, se aplicável) mantêm-se até essas duas etapas estarem concluídas.
5. Durante a limpeza, um pouco de solvente entra em contacto com os olhos do assistente. Qual é o primeiro passo?
Resolução: afastar-se da fonte de risco em segurança e ligar 112 de imediato, seguindo as indicações do operador. Ter a ficha de dados de segurança do produto disponível para informar os serviços de emergência. Só depois se seguem outras medidas de primeiros socorros indicadas na FDS, se a situação o permitir com segurança.