Partilhar: WhatsApp
aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC02353

Sebenta · Organizar o processo de registo arqueológico (UC02353)

Tipos de registo, ficha estratigráfica, matriz de Harris, inventário, desenho técnico e segurança no trabalho de campo
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Assistente de Arqueólog ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a organizar o processo de registo de uma intervenção arqueológica, do primeiro dia de escavação até à entrega da informação ao arqueólogo responsável. O registo é o produto central do trabalho de campo: a arqueologia destrói o que escava, e só o registo permite reconstituir depois o que existia.

O percurso segue a lógica real de uma intervenção: primeiro situamos o trabalho no seu enquadramento legal e profissional, depois percorremos os seis tipos de registo (cartográfico, topográfico, fotográfico, gráfico, áudio e vídeo), o registo escrito (ficha, caderno de campo, relatório), a unidade estratigráfica e a matriz de Harris, o inventário de peças com um sistema de numeração próprio, o desenho técnico, a segurança no trabalho e, por fim, como se estrutura toda a informação para o gabinete.

Objetivos de aprendizagem (referencial): proceder à ordenação de toda a informação arqueológica recolhida no trabalho de campo; registar informação nas fichas de registo estratigráfico; inventariar peças, desenhos e fotografias, sempre com respeito pelas normas de inventário e pelas normas de segurança e saúde no trabalho.

O registo arqueológico é o conjunto de procedimentos que documentam, de forma sistemática, tudo o que se identifica e recolhe numa intervenção: unidades estratigráficas, achados, desenhos, fotografias e observações.

Porque se regista tudo

Uma escavação é, por natureza, destrutiva: ao remover uma camada de terra para chegar à seguinte, destrói-se para sempre a relação física entre ambas. O registo é a única forma de preservar essa informação depois de a terra ter sido removida. Sem registo, uma escavação bem-feita e uma escavação feita ao acaso produzem o mesmo resultado científico: nenhum.

Os trabalhos arqueológicos em Portugal regem-se pelo Decreto-Lei n.º 164/2014, que estabelece o regime jurídico dos trabalhos arqueológicos. Este diploma define, entre outros aspetos:

Os prazos concretos de entrega variam consoante o tipo e a dimensão da intervenção e ficam definidos, caso a caso, no plano de trabalhos aprovado: não há um número único de dias válido para todas as situações.

Onde se trabalha

O registo faz-se em duas fases complementares: trabalho de campo (no sítio, durante a escavação) e trabalho de gabinete (o tratamento posterior de toda a informação). As entidades que empregam este perfil incluem entidades públicas (administração central, autarquias, universidades, museus), empresas de arqueologia de conservação e restauro e de recuperação de património, empresas de turismo cultural e organizações sem fins lucrativos ligadas a sítios arqueológicos.

2. Tipos de registo: cartográfico e topográfico

O referencial da UC identifica seis tipos de registo em arqueologia. Começamos pelos dois que situam o sítio no espaço.

Registo cartográfico

Situa o sítio na paisagem envolvente: em que concelho está, em que carta topográfica oficial, a que altitude, próximo de que rios, estradas ou elevações. Usa sistemas de coordenadas oficiais (em Portugal, o sistema de referência ETRS89/PT-TM06 é o adotado pelas entidades públicas). É o registo que permite a qualquer pessoa, no futuro, localizar de novo o sítio sem ambiguidade.

Registo topográfico

Desenha a planta interna do sítio: a posição relativa de sondagens, estruturas e quadrículas, e as cotas de altitude de cada ponto relevante. Implanta-se no terreno uma malha de referência (quadrícula), a partir de estacas e coordenadas próprias do sítio, e um ponto zero (bench mark) do qual se medem todas as cotas relativas.

⚠️ Nunca se muda o ponto zero a meio de uma campanha sem o documentar explicitamente. Uma mudança não registada invalida todas as cotas medidas antes dela.

Exemplo resolvido · localizar e implantar um sítio

Situação: uma equipa vai iniciar uma sondagem no Sítio do Alto da Vinha.

  1. Localiza-se o sítio na carta topográfica oficial e regista-se o concelho, a folha da carta e as coordenadas de referência (registo cartográfico).
  2. Implanta-se no terreno uma quadrícula de 5×5 metros, com estacas identificadas por letra e número (A1, A2, B1…).
  3. Define-se um ponto zero fixo, geralmente num elemento estável (uma estaca cravada em rocha ou betão) fora da área a escavar.
  4. Todas as cotas de profundidade das unidades estratigráficas passam a medir-se a partir deste ponto zero.

O registo cartográfico situa o sítio no mapa do país; o registo topográfico situa cada estrutura dentro do próprio sítio.

3. Tipos de registo: fotográfico, gráfico, áudio e vídeo

Registo fotográfico

Documenta o estado do sítio em cada momento, sempre antes, durante e depois de qualquer intervenção sobre uma unidade estratigráfica. Toda a fotografia arqueológica inclui: escala métrica visível, seta de norte e identificação (sítio, UE, data, número da foto).

Registo gráfico

Desenha o que a fotografia, sozinha, não interpreta: limites de camadas, contornos e relações espaciais, através de convenções gráficas normalizadas (tracejados por tipo de sedimento, hachuras para pedra, linha contínua para limites certos, linha interrompida para limites hipotéticos).

Registo áudio e vídeo

O registo áudio capta observações e hipóteses de interpretação no momento em que surgem, e deve ser sempre transcrito depois para o caderno de campo ou para a base de dados. O registo em vídeo documenta processos completos (a abertura de uma sondagem, a remoção de uma estrutura complexa), algo que uma fotografia isolada não capta.

Tipo de registo O que documenta Suporte típico
Cartográfico localização do sítio na paisagem carta topográfica, coordenadas
Topográfico estrutura interna do sítio quadrícula, cotas, estação total
Fotográfico estado visual em cada momento fotografia com escala e norte
Gráfico interpretação de limites e contornos desenho de planta e corte
Áudio observações verbais no momento gravação, depois transcrita
Vídeo processos e sequências completas vídeo com identificação

Nenhum destes seis tipos substitui os outros; complementam-se e reforçam-se mutuamente.

4. O registo escrito: ficha, caderno de campo e relatório

A ficha de registo arqueológico

É o documento estruturado onde se descreve cada unidade identificada. Preenche-se em campo, no momento, nunca de memória já no gabinete. Os campos típicos são:

Campo O que regista
Identificação sítio, área, número da unidade, data
Descrição matéria, cor, textura, compacidade, inclusões
Interpretação o que a unidade representa
Relações o que cobre, é coberta por, corta ou é cortada por
Registo associado números das fotos, desenhos e achados relacionados
Responsável quem preencheu e validou

A descrição regista o que se observa; a interpretação é a leitura que se propõe sobre isso. São campos distintos: a descrição não muda mesmo que a interpretação seja revista mais tarde.

O caderno de campo

É o registo cronológico e contínuo da intervenção, dia a dia: decisões tomadas, condições meteorológicas, incidentes, alterações de estratégia. Complementa as fichas formais, que não captam este tipo de informação narrativa.

O relatório de intervenção

É o documento final, entregue à entidade licenciadora nos termos do Decreto-Lei n.º 164/2014. Reúne a metodologia, a descrição das unidades estratigráficas, a matriz de Harris, o inventário de achados e o registo gráfico e fotográfico selecionado. Constrói-se a partir de todas as fichas, do caderno de campo e do inventário, e nunca de raiz sem eles: a qualidade do relatório depende diretamente da qualidade do registo feito em campo.

Exemplo resolvido · preencher uma ficha de registo estratigráfico

Situação: identifica-se, na Área 2 do Sítio do Alto da Vinha, uma camada de terra castanha escura, compacta, com fragmentos de cerâmica, sobre uma estrutura de pedra.

  1. Identificar: a unidade destaca-se visualmente da anterior; atribui-se o número seguinte disponível no sítio, UE12.
  2. Descrever: "terra castanha escura, compacta, com fragmentos cerâmicos e carvões dispersos".
  3. Interpretar: "camada de ocupação".
  4. Registar relações: "cobre UE13 (estrutura de pedra)".
  5. Associar registo: fotos 045 a 048; desenho D-12.
  6. Assinar: responsável e data do preenchimento, em campo.

Se, semanas depois, a interpretação mudar (por exemplo, para "camada de abandono com deposição secundária"), a descrição do passo 2 mantém-se exatamente igual: só o campo de interpretação é revisto.

5. Unidades estratigráficas e as suas relações

A unidade estratigráfica (UE) é a unidade mínima de registo: uma camada, um corte, um enchimento ou uma estrutura, cada um numerado individualmente. Cada ação humana ou natural (depositar terra, abrir um buraco, construir um muro) deixa uma UE distinta.

Regras de numeração das UE

Relações entre unidades

Relação Significado
Cobre / é coberta por uma camada depositada sobre outra
Corta / é cortada por uma ação (ex.: uma vala) que atravessa uma unidade anterior
Enche / é enchida por o enchimento de um corte
Igual a a mesma unidade identificada em áreas separadas do sítio

Registar estas relações com rigor é o que, mais tarde, permite reconstruir a sequência de acontecimentos do sítio, através da matriz de Harris.

6. A matriz de Harris

A matriz de Harris é um diagrama que organiza todas as unidades estratigráficas de um sítio pela sua sequência relativa no tempo: as mais antigas em baixo, as mais recentes em cima. Constrói-se a partir das relações registadas nas fichas (cobre, corta, enche, iguala).

Um ponto essencial: a matriz não dá datas absolutas. Dá apenas ordem relativa, ou seja, se um evento aconteceu antes ou depois de outro. Datas absolutas vêm de outros métodos (materiais datantes, datação por radiocarbono, entre outros), aplicados depois sobre a sequência já estabelecida.

Exemplo resolvido · construir uma matriz de Harris

Situação: a UE03 (camada de ocupação) é cortada pela UE05 (uma vala), que é enchida pela UE06. Sobre a UE03 e a UE06 deposita-se a UE02 (camada de abandono).

Passo a passo:

  1. Listar as relações identificadas em campo: UE05 corta UE03; UE06 enche UE05; UE02 cobre UE06; UE02 cobre UE03.
  2. Colocar a unidade mais antiga na base: UE03.
  3. Sobre UE03, ligar o corte que a atravessa: UE05.
  4. Sobre UE05, ligar o que a enche: UE06.
  5. No topo, ligar a unidade que cobre tanto UE06 como UE03: UE02.
        UE02  (mais recente, cobre UE03 e UE06)
       /    \
    UE06     UE03
      |
    UE05  (corte, mais antigo dos quatro na sequência local)

A leitura da matriz, de baixo para cima, conta a história do sítio: primeiro existiu a UE03; depois abriu-se a vala UE05, que cortou a UE03; a vala foi enchida pela UE06; por fim, a UE02 depositou-se sobre ambas, selando a sequência.

7. Inventário de peças e sistema de numeração

Porque se inventariam as peças

Cada objeto recolhido (cerâmica, metal, osso, vidro) precisa de um número único que o ligue para sempre à unidade estratigráfica de onde saiu. Um achado sem esse elo perde grande parte do seu valor científico: o valor de um objeto arqueológico está tanto no contexto de onde saiu como no próprio objeto.

O sistema de numeração desta UC

Os achados numeram-se pela convenção SIGLA-ANO/UEnn-nnn:

Elemento O que representa
SIGLA sigla do sítio (3 a 4 letras)
ANO ano da intervenção
UEnn número da unidade estratigráfica de origem
nnn número sequencial do achado dentro dessa UE, em três dígitos

Exemplo: AVN-2026/UE12-004 é o 4.º achado inventariado na UE12 do sítio "Alto da Vinha" (sigla AVN), na intervenção de 2026. A contagem sequencial (nnn) é própria de cada combinação sigla + ano + UE e nunca reinicia nem se repete dentro do mesmo sítio.

Este código acompanha a peça em todos os suportes: etiqueta física no saco ou caixa, ficha de inventário, fotografia da peça e, mais tarde, o relatório final.

Exemplo resolvido · atribuir códigos de inventário

Situação: numa mesma sondagem do sítio "Casal Novo" (sigla CNV), a campanha de 2026 recolhe, na UE05, dois fragmentos de cerâmica e, na UE07, uma conta de vidro.

  1. Primeiro fragmento de cerâmica da UE05: CNV-2026/UE05-001.
  2. Segundo fragmento de cerâmica da UE05: CNV-2026/UE05-002.
  3. Conta de vidro da UE07 (primeiro achado dessa unidade): CNV-2026/UE07-001.

Note-se que a contagem da UE07 recomeça em 001, porque é uma combinação UE diferente da UE05: cada UE tem a sua própria sequência dentro do mesmo sítio e ano.

8. Cadeia de custódia, acondicionamento e desenho técnico

Cadeia de custódia

Regista todos os movimentos de uma peça, do momento em que é recolhida até ao seu destino final (reserva de museu, laboratório, exposição): quem a moveu, quando e para onde. Nenhum movimento fica por registar, mesmo que pareça momentâneo.

Acondicionamento

Cada peça acondiciona-se em saco ou caixa própria, identificada com o seu código, nunca misturada com peças de outra UE. Materiais frágeis (ossos, metais corroídos, vidro) pedem acondicionamento específico. A ficha de inventário e a etiqueta física têm de coincidir sempre; qualquer divergência corrige-se de imediato.

Desenho técnico

O desenho técnico arqueológico segue convenções de rigor métrico: escala sempre indicada (por exemplo, 1:20 em planta, 1:10 em corte de detalhe) e desenhada graficamente, não apenas em texto; orientação a norte sempre presente em planta; convenções gráficas fixas para sedimentos, pedra e limites certos ou hipotéticos.

Cada desenho recebe um número sequencial próprio (D-01, D-02…), registado na ficha da UE que representa, e mantém-se uma lista de desenhos do sítio que cruza esse número com a UE, a data e o autor. Perder essa ligação torna o desenho praticamente inútil para o relatório final.

9. Segurança e saúde no trabalho de campo

O trabalho de campo em arqueologia tem riscos específicos, que as normas de segurança e saúde no trabalho ajudam a mitigar:

Aplicar as normas em campo

  1. Verificar as condições do terreno antes de escavar (inclinação, tipo de solo, profundidade prevista).
  2. Usar o equipamento de proteção individual apropriado a cada tarefa.
  3. Reportar de imediato qualquer condição de risco observada, mesmo que não seja a tarefa de quem a vê.
  4. Manter o posto de trabalho arrumado: ferramentas guardadas e terra removida empilhada em local seguro, afastado do bordo da sondagem.

10. Do campo ao gabinete: organizar o processo

No fim de cada dia (ou de cada fase de campo), toda a informação recolhida tem de ser ordenada: fichas conferidas, fotografias descarregadas e identificadas, desenhos digitalizados, achados etiquetados.

A rotina de ordenação diária

  1. Conferir se todas as UE identificadas nesse dia têm ficha preenchida.
  2. Cruzar os números: cada ficha remete para as fotos, o desenho e os achados corretos.
  3. Detetar lacunas cedo (uma foto sem número, uma UE sem ficha), enquanto ainda há memória fresca do dia.
  4. Atualizar a matriz de Harris com as novas relações identificadas.
  5. Rever se cada peça inventariada tem etiqueta, ficha e código coincidentes.

Fazer esta rotina apenas no fim de uma campanha inteira torna as lacunas praticamente impossíveis de resolver: os detalhes finos esquecem-se em semanas.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Organizar o processo de registo arqueológico segue sempre a mesma lógica: enquadramento legal (Decreto-Lei n.º 164/2014, Património Cultural, I.P.) → seis tipos de registo (cartográfico, topográfico, fotográfico, gráfico, áudio, vídeo) → registo escrito (ficha, caderno de campo, relatório) → unidades estratigráficas e as suas relações → matriz de Harrisinventário de peças com sistema de numeração próprio → cadeia de custódia e acondicionamentodesenho técnicosegurança no trabalhoordenação diária de tudo, do campo para o gabinete. Domina este fluxo e serás capaz de organizar o registo de qualquer intervenção arqueológica.

Exercícios resolvidos

1. Uma UE identificada num dia não teve tempo de ser fotografada. O que fazer?

Resolução: registar de imediato a ausência de fotografia na ficha e, sendo a unidade ainda visível no terreno, fotografá-la assim que possível, antes de qualquer intervenção posterior a alterar o contexto. Se já não for possível, documentar claramente essa lacuna, nunca fingir que a fotografia existe.

2. Que relação estratigráfica se usa quando uma vala atravessa uma camada anterior?

Resolução: a relação corta / é cortada por. A camada anterior é cortada pela ação que abriu a vala; a vala, por sua vez, corta a camada.

3. Qual é o código de inventário do 2.º achado da UE09, sítio "Ribeira Funda" (sigla RBF), campanha de 2026?

Resolução: RBF-2026/UE09-002, seguindo a convenção SIGLA-ANO/UEnn-nnn desta UC.

4. Um colega diz que a matriz de Harris dá a data exata de cada camada. Está certo?

Resolução: não. A matriz de Harris dá apenas a ordem relativa dos acontecimentos (o que veio antes ou depois de quê), nunca datas absolutas. Datas absolutas vêm de outros métodos, como materiais datantes ou radiocarbono.

5. Porque é que a descrição de uma ficha de registo estratigráfico não deve mudar, mesmo que a interpretação seja revista mais tarde?

Resolução: porque a descrição regista o que foi observado objetivamente no momento (cor, textura, compacidade), enquanto a interpretação é uma leitura proposta sobre esses dados, que pode legitimamente ser revista à luz de informação posterior. Alterar a descrição apagaria o registo original do que foi visto.