Sebenta · Desenhar campos de estruturas, níveis arqueológicos e perfis estratigráficos arqueológicos (UC02351)
- Introdução
- 1. Da escavação ao desenho arqueológico
- 2. Terminologia estratigráfica
- 3. Princípios da estratigrafia geológica e arqueológica
- 4. Processos de formação da estratigrafia
- 5. O registo arqueológico: planos, secções e tempo
- 6. As unidades estratigráficas
- 7. A Matriz de Harris e as relações estratigráficas
- 8. Desenho arqueológico versus desenho arquitetónico
- 9. As vistas técnicas: planta, alçado e corte
- 10. Escala, instrumentos e planeamento do desenho de campo
- 11. Georreferenciação no desenho de campo
- 12. Desenho assistido por computador (CAD)
- 13. Simbologia, bibliotecas e elementos arquitetónicos
- 14. Tintagem, vetorização e articulação com a tipografia
- 15. Documentar o campo de estruturas
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Escavar um sítio arqueológico é um processo destrutivo e irrepetível: cada unidade estratigráfica (UE) removida deixa de existir fisicamente. O desenho de campo, feito com rigor métrico e científico, é o principal instrumento que garante que essa evidência sobrevive à escavação, ao lado da fotografia e do registo escrito.
Esta sebenta ensina a planear, executar e documentar o desenho de campo de estruturas, níveis arqueológicos e perfis estratigráficos: da terminologia da estratigrafia à Matriz de Harris, das escalas e instrumentos de medição à georreferenciação, do desenho técnico de plantas, alçados e cortes à finalização em CAD.
Objetivos de aprendizagem (referencial): planear o desenho de campo de estruturas, níveis arqueológicos e estratigráficos; efetuar o desenho técnico do levantamento em planta, alçado e corte de estruturas arqueológicas e de elementos arquitetónicos; documentar o campo de estruturas e os processos de formação da estratigrafia arqueológica, cumprindo sempre as regras internacionais de representação gráfica e de registo estratigráfico com rigor métrico e científico.
1. Da escavação ao desenho arqueológico
Um sítio arqueológico só existe intacto uma vez: no momento anterior à escavação. A partir do primeiro corte de terra, a informação estratigráfica começa a ser destruída, unidade a unidade. Por isso a arqueologia desenvolveu um conjunto de registos que substituem o que deixa de existir fisicamente: o desenho técnico, a fotografia e a descrição escrita.
O desenho técnico ocupa aqui um lugar central porque é o único dos três registos capaz de representar, com rigor métrico, a posição exata, a forma e as relações espaciais entre estruturas e unidades estratigráficas. Uma fotografia mostra o aspeto; um desenho à escala mostra as medidas reais.
Evolução do desenho técnico como instrumento científico
O desenho arqueológico nem sempre foi um instrumento científico rigoroso. Até meados do século XX, dominavam os esboços de antiquários: desenhos ilustrativos, sem escala consistente nem sistematização, que registavam achados isolados mas não a sequência estratigráfica.
A consolidação do método estratigráfico, sobretudo com os trabalhos de Edward C. Harris nos anos 1970, transformou o desenho num registo sistemático, UE a UE, sempre à escala e com cotas. Hoje esse rigor mantém-se, mas o suporte mudou: do papel milimétrico e do poliéster de campo ao desenho assistido por computador (CAD), passando pela vetorização digital.
O rigor não está na ferramenta, está no processo: planear o que desenhar, medir com precisão e documentar sem ambiguidade. Um esboço em CAD sem escala vale tanto quanto um esboço de antiquário do século XIX.
2. Terminologia estratigráfica
A estratigrafia arqueológica usa um vocabulário técnico preciso, que importa dominar antes de avançar para as convenções de desenho.
- Estrato / camada: depósito sedimentar com características físicas próprias (cor, textura, compacidade, inclusões), formado por um processo de formação único ou por um evento concreto.
- Nível: conjunto de vestígios associados a um mesmo momento de ocupação ou uso do espaço, que pode atravessar várias camadas fisicamente distintas.
- Fase: momento coerente na história do sítio, geralmente definido por uma atividade específica (construção, reconstrução, abandono).
- Período: enquadramento cronológico-cultural mais amplo, associado normalmente a uma datação absoluta (ex.: período romano, período medieval).
- Complexo: agrupamento de unidades estratigráficas relacionadas funcionalmente entre si, como um complexo de combustão (lareira, cinzas e carvões associados).
- Unidade estratigráfica (UE): a menor entidade do registo, tratada em detalhe no capítulo 6.
Estes termos organizam-se numa escala do mais concreto (a UE, um depósito físico) ao mais abstrato (o período, um enquadramento cultural). Não são sinónimos: "camada" descreve o físico, "nível" descreve o funcional, e confundir os dois compromete a leitura de qualquer matriz ou relatório.
Um "nível de ocupação doméstica" pode incluir três camadas fisicamente distintas: um piso batido, uma lareira com cinzas e um pequeno depósito de lixo doméstico junto à parede. As três são camadas diferentes; juntas, formam um único nível funcional.
3. Princípios da estratigrafia geológica e arqueológica
A estratigrafia arqueológica herda três princípios da geologia, formulados originalmente por Nicolau Steno no século XVII:
- Princípio da sobreposição: numa sequência não perturbada, as camadas mais antigas encontram-se sempre por baixo das mais recentes.
- Princípio da horizontalidade original: os sedimentos depositam-se originalmente na horizontal, por ação da gravidade.
- Princípio da continuidade lateral: um depósito estende-se lateralmente até encontrar um limite físico, seja uma parede, um corte ou o limite natural da bacia de deposição.
O que muda entre geologia e arqueologia
| Estratigrafia geológica | Estratigrafia arqueológica | |
|---|---|---|
| Origem dos depósitos | processos naturais | naturais e humanos |
| Regularidade | camadas extensas e regulares | frequentemente interrompidas por cortes, fossas, alicerces |
| Escala temporal | milénios a milhões de anos | anos a séculos |
| Unidades negativas | raras | muito frequentes |
A ação humana introduz interrupções constantes na sequência: uma vala cortada, um alicerce escavado, um nivelamento artificial. Por isso a leitura estratigráfica em arqueologia exige mais atenção às interfaces do que a estratigrafia geológica clássica.
Estratigrafia real e estratigrafia artificial
Quando as interfaces entre unidades não são legíveis no terreno, o arqueólogo pode recorrer, como último recurso, a uma estratigrafia artificial: níveis de escavação arbitrários, definidos por uma espessura fixa (ex.: spits de 10 cm), em vez de pela leitura real dos depósitos.
A estratigrafia artificial nunca deve ser a opção por defeito. Escavar sempre por níveis arbitrários, por comodidade, destrói informação real que estava disponível para leitura. Usa-se apenas quando a sequência real não é, de facto, legível no terreno.
4. Processos de formação da estratigrafia
Cada unidade estratigráfica resulta de um processo de formação identificável, e reconhecê-lo é parte do trabalho de interpretação em campo.
- Sedimentação: acumulação gradual de partículas, de origem eólica, fluvial ou biológica.
- Deposição: colocação de material num único evento ou numa sucessão de eventos, de origem natural ou humana (um entulho, um nível de lixo doméstico).
- Erosão: remoção de material já depositado, que pode truncar camadas anteriores e criar lacunas na sequência estratigráfica.
- Infiltração: penetração de materiais mais recentes em camadas mais antigas, através de fendas, raízes ou tocas de animais, sem que a posição física do depósito original seja alterada.
Fatores naturais e fatores humanos
| Fator | Exemplos | Como se reconhece |
|---|---|---|
| Natural | chuva, vento, gelo-degelo, atividade animal | textura homogénea, estratificação regular |
| Humano | construção, demolição, lixo doméstico, agricultura | inclusões antrópicas: carvões, cerâmica, argamassa, metal |
Muitos sítios combinam os dois fatores na mesma sequência: um muro construído (fator humano) que colapsa e é depois coberto por sedimentação eólica lenta (fator natural) forma duas UEs de origem completamente diferente, uma a seguir à outra.
Nem toda a estratigrafia de um sítio arqueológico tem origem humana. Assumir isso por defeito leva a interpretações erradas sobre a função e a cronologia das unidades.
5. O registo arqueológico: planos, secções e tempo
O registo gráfico organiza-se em dois tipos complementares:
- Planos: registo horizontal, mostram a extensão de uma UE vista de cima, à cota em que foi identificada.
- Secções: registo vertical, mostram a sobreposição das UEs ao longo de uma linha de corte, o perfil estratigráfico.
Nenhum dos dois substitui o outro: um plano mostra onde uma UE se estende, uma secção mostra onde ela se posiciona na sequência temporal. Só com os dois é possível reconstruir o sítio em três dimensões a partir de desenhos bidimensionais.
Sincronia, diacronia e as três relações temporais
- Sincronia: UEs formadas no mesmo momento, associadas à mesma fase de ocupação.
- Diacronia: UEs formadas em momentos sucessivos, ao longo do tempo.
- Contemporaneidade, anterioridade e posterioridade: as três relações temporais possíveis entre quaisquer duas UEs.
Datação relativa e datação absoluta
A leitura estratigráfica dá sempre datação relativa: a posição de uma UE face às outras, lida diretamente na sequência. Só métodos complementares, como o radiocarbono ou a numismática, dão datação absoluta: um valor cronológico concreto associado a essa posição relativa.
Se duas UEs não têm relação estratigráfica direta entre si, isso não prova que sejam sincrónicas. Pode simplesmente não haver dados suficientes para as relacionar no tempo; a relação fica indeterminada, não presumida.
6. As unidades estratigráficas
A unidade estratigráfica (UE) é a unidade mínima e indivisível do registo arqueológico: um depósito ou uma superfície de corte com origem e características físicas próprias.
Cada UE identificada em campo recebe um número sequencial único, válido para todo o sítio (nunca reutilizado noutra área), e é registada numa ficha de UE, com descrição de cor, textura, compacidade, inclusões, limites e relações com as UEs vizinhas.
Classificação das unidades estratigráficas
- UE positivas (deposicionais): resultam da acumulação de material físico: uma camada, um enchimento, um piso, um nível de destruição.
- UE negativas (de corte): resultam da remoção de material, identificadas pela interface de corte, não por um depósito físico com volume próprio. Uma vala, uma fossa ou um alicerce são exemplos clássicos.
Uma UE negativa não tem massa própria: existe apenas como limite entre o que foi removido e o que ficou por escavar em redor. É sempre, mais tarde, preenchida por uma ou várias UEs positivas de enchimento, e as duas, corte e enchimento, recebem sempre números de UE diferentes.
Uma fossa escavada na Antiguidade (UE de corte) que foi depois preenchida com entulho doméstico (UE de enchimento) gera duas fichas de UE distintas, ligadas entre si pela relação "enche", nunca uma só ficha para os dois.
7. A Matriz de Harris e as relações estratigráficas
A Matriz de Harris, desenvolvida por Edward C. Harris nos anos 1970, é o instrumento central para organizar as relações cronológicas entre todas as UEs de um sítio, num diagrama sem qualquer relação com a escala espacial do desenho de campo.
Regras de construção da matriz:
- Cada UE ocupa uma caixa; ligam-se apenas as UEs em relação estratigráfica direta.
- As UEs mais antigas colocam-se em baixo; as mais recentes, em cima.
- A matriz constrói-se em campo, dia a dia, à medida que as relações se identificam, não apenas no fim da escavação.
As quatro relações estratigráficas
| Relação | Significado |
|---|---|
| cobre | uma UE positiva assenta diretamente sobre outra, sem a alterar |
| corta | uma UE negativa remove parte de uma ou mais UEs anteriores |
| enche | uma UE positiva preenche uma UE negativa (um corte) |
| é igual a | duas UEs registadas em áreas diferentes do sítio correspondem à mesma unidade física |
Exemplo resolvido: a Matriz de Harris da Sondagem 1
Na Sondagem 1 de um sítio hipotético identificaram-se cinco unidades estratigráficas, da mais antiga (base) à mais recente (topo):
- UE5: substrato geológico natural, a base da sequência, sem relação de cobertura com nada por baixo.
- UE4: piso de ocupação, cobre UE5.
- UE3: corte de uma fossa, corta UE4.
- UE2: enchimento da fossa, enche UE3.
- UE1: terra vegetal (camada superficial), cobre UE2.
UE1 terra vegetal cobre UE2
UE2 enchimento da fossa enche UE3
UE3 corte da fossa corta UE4
UE4 piso de ocupação cobre UE5
UE5 substrato geológico base da sequência
A leitura desta matriz, da base para o topo, conta uma história: sobre o substrato natural (UE5) construiu-se um piso (UE4); mais tarde, alguém escavou uma fossa que atravessou esse piso (UE3, o corte); a fossa foi depois preenchida (UE2, o enchimento); por fim, o local foi abandonado e cobriu-se de terra vegetal (UE1).
Erro frequente: ligar diretamente UE1 a UE4 na matriz, saltando o par corte/enchimento (UE3 e UE2) que fisicamente separa as duas. Um corte e o seu enchimento entram sempre como dois elos consecutivos da cadeia, nunca se omitem.
A relação é igual a usa-se, por exemplo, quando o mesmo piso UE4 é identificado numa segunda sondagem do mesmo sítio com outro número (UE9): documenta-se então "UE4 é igual a UE9", unindo as duas leituras numa só unidade real.
8. Desenho arqueológico versus desenho arquitetónico
O desenho arqueológico e o desenho arquitetónico partilham a base do desenho técnico, mas têm objetivos diferentes.
Semelhanças
- Uso rigoroso de escala, cotas e das três vistas ortográficas (planta, alçado, corte).
- Legenda completa, seta do norte, escala gráfica e referência ao sistema de coordenadas.
- Convenções de espessura e tipo de linha para distinguir o observado do inferido.
- O rigor métrico e científico como valor central, sempre acima da estética.
Diferenças
| Desenho arquitetónico | Desenho arqueológico | |
|---|---|---|
| Objetivo | representar um edifício construído ou a construir | documentar um processo de formação ao longo do tempo |
| Estados representados | normalmente um único estado final | várias fases sobrepostas na mesma folha |
| Foco | elementos construtivos: paredes, vãos, coberturas | unidades estratigráficas e as relações entre elas |
| Tratamento da incerteza | pouco frequente | sistemático: linha contínua para o observado, tracejada para o inferido |
O desenho arqueológico tem sempre de representar o tempo: várias fases de construção ou de uso podem coexistir na mesma folha, algo raro num projeto de arquitetura corrente, que normalmente representa um único estado, existente ou proposto.
9. As vistas técnicas: planta, alçado e corte
Efetuar o desenho técnico do levantamento em planta, alçado e corte de estruturas arqueológicas e de elementos arquitetónicos exige dominar as três vistas ortográficas.
- Planta: vista de cima, mostra a disposição horizontal das estruturas e das UEs a uma dada cota.
- Alçado: vista frontal de um plano vertical, como a face de um muro, sem distorção de perspetiva.
- Corte: secção vertical que atravessa o terreno ao longo de uma linha, mostrando a sobreposição estratigráfica em profundidade: o perfil estratigráfico.
As três vistas, combinadas, permitem reconstruir a estrutura em três dimensões a partir de desenhos bidimensionais. Uma planta sem um corte associado, ou um corte sem a planta que o localiza, é sempre um registo incompleto.
Método Europeu versus Método Americano
A representação de vistas ortográficas segue duas convenções distintas:
- Método Europeu (1.º diedro): o objeto imagina-se colocado entre o observador e o plano de projeção; as vistas dispõem-se como se "dobrassem" a partir da vista principal. É a convenção das normas portuguesas (NP) e da generalidade da Europa.
- Método Americano (3.º diedro): o plano de projeção fica entre o observador e o objeto. Mais comum em publicações e software de origem norte-americana.
Nenhum dos dois métodos é "certo" ou "errado" em absoluto, mas misturar os dois no mesmo desenho gera erros de leitura graves. A regra da UC é clara: adota-se sempre o Método Europeu, salvo indicação contrária explícita de uma publicação ou entidade.
10. Escala, instrumentos e planeamento do desenho de campo
Escolher a escala certa
A escala relaciona uma medida no papel com a medida real correspondente no terreno. Em arqueologia, as escalas mais comuns são:
| Escala | Uso típico |
|---|---|
| 1:1 ou 1:2 | pequenos objetos ou pormenores |
| 1:10 | estruturas de pequena dimensão, pormenores construtivos |
| 1:20 | perfis estratigráficos de sondagem, plantas de área limitada |
| 1:50 | plantas gerais de uma área ou de um sítio |
As conversões, passo a passo
As duas fórmulas de conversão usam-se sempre nesta direção:
- Medida real = medida no papel × escala.
- Medida no papel = medida real ÷ escala.
Exemplo resolvido 1. Um perfil estratigráfico é desenhado à escala 1:20. Uma camada mede, no papel, 3,5 cm de espessura. Qual é a espessura real no terreno?
Espessura real = 3,5 × 20 = 70 cm, ou seja, 0,70 m.
Exemplo resolvido 2. Uma estrutura mede realmente 4,80 m de comprimento. À escala 1:50, que comprimento ocupa no papel?
Comprimento no papel = 480 ÷ 50 = 9,6 cm.
A cota que se escreve num desenho arqueológico é sempre o valor real medido no terreno (por exemplo, "cota: 15,32 m"), nunca o valor que se obteria medindo com a régua diretamente sobre o papel do desenho.
Instrumentos de medição e desenho
- Fio de prumo e nível de bolha ou de mangueira: verificação de verticalidade e transporte de cotas relativas.
- Fita métrica, escala graduada e esquadro: medições diretas e ângulos retos no papel.
- Prancheta e papel milimétrico ou poliéster (permatrace): suporte estável para desenhar no terreno, o poliéster com a vantagem de resistir à humidade e não se deformar.
Planear o desenho de campo
Planear significa decidir, antes de escavar, o que desenhar (que UEs, que cortes), a que escala e em que sequência. É a primeira das três realizações centrais desta UC, precisamente porque a estratigrafia se destrói de forma irreversível à medida que se escava: não há segunda oportunidade para desenhar uma UE já removida.
11. Georreferenciação no desenho de campo
Implementar no terreno sistemas de georreferenciação auxiliares ao desenho de estratigrafia arqueológica é uma competência explicitamente avaliada nesta UC.
Instrumentos de georreferenciação
- Estação total: mede ângulos e distâncias, calcula coordenadas x, y, z de cada ponto com precisão milimétrica.
- GNSS/RTK: recetores de satélite de alta precisão, úteis para georreferenciar rapidamente pontos ao ar livre, especialmente em sítios extensos.
- Ponto fixo (datum) ou marco altimétrico: referência local fixa, implantada no início dos trabalhos, à qual se reportam todas as cotas absolutas do sítio.
Do sistema de coordenadas ao desenho
A georreferenciação liga o desenho de campo ao espaço real do sítio:
- Os vértices de cada sondagem ficam registados em coordenadas, permitindo posicionar o desenho sobre uma planta geral do sítio.
- As cotas absolutas anotam-se sempre em metros, relativas ao ponto fixo, nunca como cotas relativas isoladas ("0,00 no topo do corte") que depois seria preciso converter.
- A informação georreferenciada integra-se em software SIG, cruzando desenho, fotografia e dados de escavação de várias campanhas num único sistema de coordenadas.
Mudar de ponto fixo a meio de uma campanha, sem documentar a conversão entre os dois sistemas de cotas, é um erro grave: torna irreconciliáveis os desenhos feitos antes e depois da mudança.
12. Desenho assistido por computador (CAD)
O desenho de campo nasce sempre em papel ou poliéster, medido e desenhado à escala no terreno. A finalização, hoje, passa habitualmente por software de desenho assistido por computador.
Do papel ao digital
- Digitalização: o original de campo é digitalizado (scanner) e importado como imagem de fundo, à escala correta.
- Vetorização: cada linha estratigráfica é redesenhada sobre essa imagem, como objeto vetorial.
- Organização em camadas (layers): limites de UE, cotas, hachuras de textura, estruturas e legenda ficam em camadas separadas.
- Exportação: o desenho é exportado à escala e formato pedidos, para impressão ou publicação.
Ferramentas usuais: AutoCAD, QGIS (com módulos de CAD e georreferenciação), e Illustrator para o acabamento gráfico final.
Boas práticas
- Desenhar em CAD sempre à escala real (1:1 nas unidades do desenho); só se escala no momento de exportar para impressão.
- Nomear as camadas com uma convenção consistente em todo o projeto, para que qualquer membro da equipa as reconheça.
- Manter o original de campo em papel: o digital é uma versão de trabalho, nunca substitui o registo primário.
O CAD nunca inventa informação. Redesenha, com precisão vetorial, exatamente o que foi medido e desenhado no terreno; nada mais, nada menos.
13. Simbologia, bibliotecas e elementos arquitetónicos
Simbologia normalizada e bibliotecas de símbolos
O desenho arqueológico usa hachuras normalizadas para representar texturas e materiais sem ambiguidade: areia, argila, entulho, cinza, pedra e argamassa têm, cada uma, uma hachura própria e consistente entre desenhadores.
As bibliotecas de símbolos, organizadas por tipo de material, permitem reutilizar estas convenções entre projetos e entre membros da equipa. Quando a biblioteca normalizada não cobre um caso específico, é possível criar símbolos próprios, mas esses têm sempre de constar numa legenda explícita: um símbolo não documentado é, na prática, ilegível para quem não fez o desenho.
Desenho de elementos arquitetónicos
Desenhar elementos arquitetónicos, como muros, vãos, pavimentos ou elementos decorativos, é um método de estudo e de reconstituição de edifícios:
- Regista o estado atual de cada elemento, incluindo danos, lacunas e reconstruções posteriores.
- Permite propor reconstituições gráficas fundamentadas, sempre visualmente distintas do que foi efetivamente observado (por exemplo, a traço mais leve ou tracejado).
- Serve de base a estudos de evolução construtiva, cruzando o desenho arquitetónico com a leitura estratigráfica das fases de construção.
Reconstituição não é invenção. Uma proposta de reconstituição gráfica tem sempre de estar fundamentada em vestígios reais, e nunca se mistura visualmente, sem distinção clara, com o que foi medido em campo.
14. Tintagem, vetorização e articulação com a tipografia
Da tintagem tradicional à vetorização digital
A tintagem é a técnica tradicional de finalização gráfica: o desenho a lápis do terreno era redesenhado a tinta sobre decalque, garantindo um traço limpo e reprodutível para publicação. Hoje, a tintagem manual é largamente substituída pela vetorização digital, tratada no capítulo 12, com o mesmo objetivo: um traço limpo, uniforme e reprodutível.
Ambas as técnicas exigem decisões editoriais: que linha se mantém, que informação secundária se simplifica sem perder rigor científico. A finalização gráfica nunca acrescenta informação nova, apenas clarifica o que já foi registado em campo.
Procedimentos de articulação com as oficinas tipográficas
Quando o desenho segue para publicação (relatório, artigo, livro), é necessário articular com a oficina tipográfica responsável pela impressão:
- Confirmar o formato final de impressão e a escala de reprodução, garantindo que linhas, hachuras e texto continuam legíveis depois de reduzidos.
- Entregar os ficheiros no modo de cor correto (CMYK para impressão) e com resolução adequada de eventuais elementos rasterizados.
- Verificar as provas de impressão antes da tiragem final, corrigindo o que a mudança de escala ou de suporte possa ter distorcido.
Um desenho preparado em RGB, entregue diretamente a uma oficina que imprime em CMYK, sai frequentemente com cores diferentes das previstas no ecrã. Confirmar o modo de cor antes da entrega evita este retrabalho.
15. Documentar o campo de estruturas
Documentar o campo de estruturas e os processos de formação da estratigrafia arqueológica é a terceira realização central desta UC, e fecha o ciclo iniciado no planeamento.
Legendar e anotar
Cada desenho final leva uma legenda completa: título, identificação da sondagem, UEs representadas, escala, data, autor, seta do norte e referência ao sistema de coordenadas. As anotações feitas diretamente no desenho, como cotas e números de UE, completam a ficha de UE, mas nunca a substituem.
Um desenho sem legenda completa é, para efeitos científicos, um desenho não identificado: sem escala nem orientação, não pode ser lido com confiança fora do contexto imediato da escavação.
O registo mínimo de uma UE
O conjunto desenho + ficha de UE + fotografia é o registo mínimo aceitável de qualquer unidade estratigráfica antes da sua remoção. Faltar qualquer uma das três partes compromete a possibilidade de reconstruir, mais tarde, o processo de formação do sítio.
O ciclo completo
- Planear o desenho de campo antes de escavar.
- Escavar UE a UE, seguindo a leitura estratigráfica real.
- Desenhar plantas, alçados e cortes à escala correta, com georreferenciação.
- Registar as relações estratigráficas na Matriz de Harris.
- Documentar com legenda completa, ficha de UE e fotografia.
- Finalizar em CAD, com tintagem ou vetorização, pronto para publicação.
Erros comuns
- Confundir "camada" (o físico) com "nível" (o funcional), o que compromete a leitura da matriz e do relatório.
- Escavar sempre por níveis artificiais arbitrários, por comodidade, em vez de ler a estratigrafia real do terreno.
- Datar uma camada pelo objeto mais recente encontrado nela, ignorando a possibilidade de infiltração.
- Dar o mesmo número de UE ao corte e ao seu enchimento, quando são sempre duas unidades distintas.
- Ligar diretamente, na Matriz de Harris, duas UEs que têm um par corte/enchimento fisicamente entre elas.
- Multiplicar ou dividir pela escala na direção errada, confundindo, por exemplo, 1:20 com "vinte vezes maior".
- Escrever no desenho a medida tirada com a régua sobre o papel, em vez da medida real no terreno.
- Misturar Método Europeu e Método Americano de representação de vistas no mesmo desenho.
- Mudar de ponto fixo (datum) a meio da campanha sem documentar a conversão de cotas.
- Entregar ficheiros em RGB a uma oficina que imprime em CMYK, alterando as cores finais sem aviso.
Glossário
- Unidade estratigráfica (UE): a menor entidade do registo arqueológico, um depósito ou uma superfície de corte com origem própria.
- Camada: depósito sedimentar com características físicas próprias.
- Nível: conjunto de vestígios associados a um mesmo momento funcional de ocupação.
- Fase: momento coerente na história do sítio.
- Período: enquadramento cronológico-cultural mais amplo.
- Interface de corte: limite de uma UE negativa, sem volume físico próprio.
- Matriz de Harris: diagrama das relações cronológicas entre todas as UEs de um sítio.
- Cobre / corta / enche / é igual a: as quatro relações estratigráficas da Matriz de Harris.
- Estratigrafia real: os depósitos físicos efetivamente identificados no terreno.
- Estratigrafia artificial: níveis de escavação arbitrários, usados só quando a estratigrafia real não é legível.
- Planta: registo horizontal, vista de cima.
- Alçado: registo vertical de uma face, sem perspetiva.
- Corte / perfil estratigráfico: registo vertical da sobreposição das UEs.
- Método Europeu (1.º diedro): convenção de vistas usada em Portugal e na generalidade da Europa.
- Método Americano (3.º diedro): convenção alternativa de vistas ortográficas.
- Escala: relação entre a medida no papel e a medida real no terreno.
- Cota: valor de altitude real, relativo a um ponto fixo (datum).
- Georreferenciação: associação de pontos do desenho a coordenadas reais do território.
- Estação total: instrumento que mede ângulos e distâncias e calcula coordenadas x, y, z.
- CAD: desenho assistido por computador.
- Vetorização: conversão de um desenho digitalizado em linhas vetoriais editáveis.
- Tintagem: técnica tradicional de finalização gráfica a tinta, sobre decalque.
Síntese
O desenho de campo em arqueologia parte de um princípio simples: a escavação destrói o que estuda, por isso o registo gráfico tem de ser tão rigoroso quanto irreversível é a perda da evidência física. Este rigor apoia-se em terminologia precisa (estrato, nível, fase, período, UE), nos princípios herdados da geologia e nas suas adaptações à ação humana, e na Matriz de Harris como ferramenta para organizar as relações cronológicas entre unidades estratigráficas através de quatro relações bem definidas: cobre, corta, enche, é igual a.
No terreno, esse rigor traduz-se em planta, alçado e corte desenhados sempre em Método Europeu, a escalas convertidas com precisão entre papel e real, e em georreferenciação que liga cada desenho ao espaço físico do sítio. A finalização em CAD, com vetorização e articulação com as oficinas tipográficas, prepara esse trabalho de campo para a publicação, sem nunca lhe acrescentar informação que não tenha sido medida e observada. Documentar com legenda completa fecha o ciclo: sem isso, mesmo o desenho tecnicamente mais rigoroso perde valor científico.
Exercícios resolvidos
1. Uma UE identificada em campo é uma vala que atravessa um piso de ocupação. Que tipo de UE é, e que outra UE é sempre necessária para completar o par?
Resolução: é uma UE negativa (de corte). É sempre acompanhada de uma ou mais UEs positivas de enchimento, que preenchem a vala depois de escavada, e que recebem sempre um número de UE diferente do da própria vala.
2. Num perfil desenhado à escala 1:10, uma camada de entulho mede 8,2 cm de espessura no papel. Qual a espessura real no terreno?
Resolução: espessura real = 8,2 × 10 = 82 cm, ou seja, 0,82 m. A cota a registar no relatório usa sempre este valor real, nunca o medido diretamente no papel.
3. Explica a diferença entre "cobre" e "enche" na Matriz de Harris, com um exemplo de cada.
Resolução: cobre é a relação entre duas UEs positivas, uma assente sobre a outra sem a alterar (ex.: a terra vegetal cobre o enchimento de uma fossa). Enche é a relação entre uma UE positiva e a UE negativa que ela preenche (ex.: o enchimento de entulho enche o corte de uma fossa). A diferença está em existir, ou não, uma interface de corte por baixo.
4. Um colega desenha a planta geral de um sítio a 1:100 e o perfil de uma sondagem a 1:10, no mesmo projeto CAD. É um erro?
Resolução: não é um erro, desde que cada desenho esteja corretamente legendado com a sua própria escala e o software mantenha o desenho vetorial à escala real (1:1 nas unidades internas). Escalas diferentes servem propósitos diferentes: 1:100 para a visão de conjunto, 1:10 para o detalhe de um perfil.
5. Porque é que a estratigrafia dá sempre datação relativa e nunca, por si só, datação absoluta?
Resolução: porque a leitura estratigráfica só estabelece a posição de uma UE face às outras (antes, depois, ao mesmo tempo), sem lhe atribuir um valor cronológico concreto. Só métodos complementares, como o radiocarbono ou a análise de moedas, convertem essa posição relativa num ano ou século absoluto.
6. Um desenho de campo chega ao gabinete sem seta do norte nem escala gráfica. Pode ser usado no relatório final?
Resolução: não, sem correção. É um desenho incompleto: sem orientação nem escala, não pode ser lido com confiança por quem não esteve presente na escavação. Tem de ser complementado com a legenda completa antes de seguir para publicação, idealmente a partir das anotações de campo originais.