Sebenta · Levantamento topográfico das áreas intervencionadas e estruturas descobertas (UC02350)
- Introdução
- 1. O levantamento topográfico: objetivos, limites e pontos de referência
- 2. Redes de apoio topográfico
- 3. Grandezas e equipamentos de observação
- 4. Levantamento por perpendiculares e triangulação à fita
- 5. Nivelamento com o nível ótico
- 6. Equipamentos: taqueómetro, estação total, GPS e drones
- 7. Drones no levantamento arqueológico
- 8. Fotografia aérea e fotointerpretação
- 9. Ortofotografia, foto-retificação e fotogrametria
- 10. Mapeamento em SIG e integração de dados arqueológicos
- 11. Registos complementares no campo
- 12. Produtos topográficos: mapas e representação gráfica em vários formatos
- 13. Segurança, saúde no trabalho e proteção ambiental
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Numa intervenção arqueológica, nada se regista, nada se publica e nada se protege sem primeiro se saber onde tudo está. O levantamento topográfico é o processo que transforma uma sondagem no terreno num conjunto de coordenadas, cotas e desenhos rigorosos, capazes de localizar cada estrutura descoberta no espaço e de a relacionar com a área envolvente. É o trabalho que liga a escavação à cartografia.
Esta sebenta acompanha o percurso completo do/a Assistente de Arqueólogo/a nesta tarefa: analisar o plano de trabalho e as orientações do/a Arqueólogo/a; executar a medição topográfica das áreas intervencionadas e das estruturas descobertas; captar e registar imagens ortofotográficas; e representar graficamente toda a informação recolhida, em vários formatos. Ao longo do caminho aprendes as redes de apoio topográfico, as técnicas clássicas (perpendiculares, triangulação à fita, nivelamento), os equipamentos modernos (taqueómetro, estação total, GPS, drones), a fotografia aérea e a fotogrametria, e as regras de segurança e proteção ambiental que acompanham qualquer trabalho de campo.
Portugal continental usa o sistema de referência ETRS89 com a projeção cartográfica PT-TM06/ETRS89; em coordenadas UTM, todo o território continental cai no fuso 29N. As altitudes (cotas) são referidas ao datum de Cascais. Estas três convenções voltam em vários capítulos: fixa-as desde já.
1. O levantamento topográfico: objetivos, limites e pontos de referência
Um levantamento topográfico é o conjunto de operações de medição do terreno que determina a posição planimétrica (coordenadas E, N) e altimétrica (cota, Z) de um conjunto de pontos. Na arqueologia, aplica-se às áreas intervencionadas (as sondagens, as quadrículas de escavação) e às estruturas descobertas (muros, pavimentos, sepulturas, entre outras).
Objetivos do levantamento:
- Documentar a posição exata e a forma de cada estrutura descoberta.
- Relacionar a área intervencionada com a envolvente e com cartografia de referência.
- Produzir a base para plantas, cortes e relatórios.
- Garantir que outra equipa, anos mais tarde, consegue voltar ao mesmo lugar com a mesma precisão.
Definição de limites. Antes de qualquer medição, delimita-se com precisão a área a levantar, a sondagem, a quadrícula ou o sítio, com estacas ou piquetes numerados e referências escritas no caderno de campo.
Pontos de referência. São pontos fixos e materializados no terreno, com coordenadas e/ou cota conhecidas, a partir dos quais se fazem todas as medições seguintes. Incluem a referência de nível (o "BM", de bench mark) e os vértices geodésicos próximos do sítio.
Regista sempre, no caderno de campo, de que ponto de referência partiu cada medição e com que instrumento foi feita. Um levantamento sem essa informação é impossível de verificar mais tarde.
Entidades da rede geodésica nacional. A DGT (Direção-Geral do Território) é a entidade que gere a rede geodésica nacional, os vértices com coordenadas oficiais que servem de referência a qualquer levantamento em Portugal. O antigo IGeoE (Instituto Geográfico do Exército) tem hoje o nome de CIGeoE (Centro de Informação Geoespacial do Exército) e continua a produzir cartografia de referência.
2. Redes de apoio topográfico
Uma rede de apoio é o conjunto de pontos com coordenadas conhecidas e precisão garantida que serve de base a todas as medições de um levantamento. Sem uma rede de apoio bem implantada, cada medição individual pode ser precisa e o conjunto, mesmo assim, ficar deslocado no espaço.
| Rede | Como se obtém | Vantagem | Desvantagem |
|---|---|---|---|
| Rede primária (geodésica) | vértices da DGT, GPS/GNSS de precisão | rigor máximo, coordenadas oficiais | pontos escassos, nem sempre visíveis do sítio |
| Rede secundária | implantada a partir da primária, com estação total | densifica os pontos de apoio no terreno | acumula o erro da rede primária |
| Poligonal de apoio | sequência de estações ligadas entre si | rápida de montar, adaptável ao sítio | acumula erro se não fechar sobre pontos conhecidos |
A rede de apoio de um sítio arqueológico costuma fixar-se com estação total ou GPS/GNSS, e materializa-se com marcos permanentes (estacas metálicas, pregos com referência pintada), para se poder voltar ao mesmo referencial em campanhas de escavação seguintes.
3. Grandezas e equipamentos de observação
As grandezas de base de qualquer levantamento são três: ângulos, distâncias e desníveis. Todas as coordenadas se calculam a partir delas.
- Ângulos: horizontais (para orientação e azimutes) e verticais (zenitais, para calcular desníveis a partir de distâncias inclinadas).
- Distâncias: horizontais (usadas diretamente no cálculo de coordenadas), inclinadas (medidas no terreno, a converter em horizontais) e verticais (desníveis entre pontos).
- Medidas: comprimentos, áreas e volumes calculados a partir das grandezas anteriores.
Equipamentos de observação clássicos: fita métrica, bandeirolas (balizas que marcam a posição de um ponto à distância), prumo de centro (para centrar o instrumento exatamente sobre um ponto), bússola (para orientação aproximada) e nível de engenheiro.
Os três nortes
Um erro frequente é tratar "o Norte" como um valor único. Há três:
- Norte geográfico (verdadeiro): aponta ao polo Norte terrestre; é o Norte da cartografia e da astronomia.
- Norte magnético: o indicado pela agulha da bússola; varia com a declinação magnética do local e muda lentamente ao longo dos anos.
- Norte da quadrícula (grid north): paralelo ao eixo das ordenadas (Y) da quadrícula cartográfica; só coincide exatamente com o Norte geográfico no meridiano central do fuso.
Sempre que se regista um rumo ou um azimute, é preciso indicar a que Norte se refere. Em levantamentos com estação total ou GPS, o valor habitual é o Norte da quadrícula, por estar diretamente ligado às coordenadas E, N do sistema PT-TM06/ETRS89.
Exemplo resolvido · Azimute e distância entre dois pontos
Duas estações da poligonal de apoio têm as coordenadas locais (equivalentes a E, N, em metros):
P1 (5000,00; 8000,00) e P2 (5032,40; 8021,75).
ΔE = 5032,40 − 5000,00 = 32,40 m
ΔN = 8021,75 − 8000,00 = 21,75 m
Distância = √(ΔE² + ΔN²) = √(32,40² + 21,75²) = 39,02 m
Azimute (a partir do Norte da quadrícula) = arctan(ΔE / ΔN) = 56,13° ≈ 56° 07' 36"
O azimute conta-se sempre a partir do Norte, no sentido dos ponteiros do relógio, de 0° a 360°.
4. Levantamento por perpendiculares e triangulação à fita
Duas técnicas clássicas, sem estação total, permitem levantar pontos com fita métrica.
Perpendiculares à fita
Marca-se uma base, um alinhamento reto entre dois pontos conhecidos. Para cada ponto a levantar, mede-se a abcissa (distância ao longo da base, a partir de uma origem) e a ordenada (distância perpendicular à base, com esquadro ótico ou por estimativa em distâncias curtas).
Exemplo resolvido · Perpendiculares à fita
Um canto de estrutura P está a 14,20 m ao longo da base (abcissa) e a 4,35 m perpendicularmente à base (ordenada).
Distância A-P = √(abcissa² + ordenada²) = √(14,20² + 4,35²) = 14,85 m
As coordenadas locais de P, tendo a origem da base como referência, são simplesmente (14,20; 4,35).
Triangulação à fita
Sem esquadro, ou quando a distância à base é maior, mede-se a distância do ponto a levantar aos dois pontos conhecidos da base (dois lados de um triângulo). A posição obtém-se por interseção de arcos, um cálculo chamado trilateração.
Exemplo resolvido · Triangulação à fita
Base AB = 25,00 m. De um ponto P mede-se a = 18,60 m até A e b = 14,25 m até B. Tomando A como origem (0; 0) e B sobre o eixo das abcissas (25,00; 0):
x = (a² − b² + AB²) / (2 · AB) = (18,60² − 14,25² + 25,00²) / (2 × 25,00) = 15,36 m
y = √(a² − x²) = √(18,60² − 15,36²) = 10,49 m
Coordenadas locais de P: (15,36; 10,49). Verificação: a distância de B a P recalculada é √((25,00 − 15,36)² + 10,49²) = 14,25 m, exatamente o valor medido em campo, o que confirma o cálculo.
Quando usar cada uma: perpendiculares para pontos próximos da base e alinhamentos regulares (paredes retas, valas); triangulação quando não há visibilidade para marcar um ângulo reto com esquadro, ou a distância à base é maior.
5. Nivelamento com o nível ótico
Nivelar é determinar a diferença de altitude (o desnível) entre pontos, a partir de um ponto de cota conhecida, a referência de nível ou "BM".
Instrumentos: nível ótico (nível de engenheiro), tripé e mira graduada (estadia).
Tipos de nivelamento:
- Simples: um único lanço, entre dois pontos.
- Composto (ou fechado): vários lanços em sequência, que devem voltar ao ponto de partida ou a outro ponto de cota conhecida, para verificar o erro acumulado.
- De pormenor: pontos de detalhe do terreno ou de uma estrutura, medidos a partir de uma mesma posição do aparelho.
Método de cálculo em cada lanço:
Plano de referência = cota do ponto conhecido + leitura de ré
Cota do ponto seguinte = plano de referência − leitura de vante
A ré é a leitura de mira feita no ponto de cota conhecida; a vante, a leitura no ponto cuja cota se procura.
Exemplo resolvido · Nivelamento composto fechado
Um circuito de nivelamento parte de um BM de cota 42,500 m (datum de Cascais), passa por três pontos de pormenor e regressa ao mesmo BM, em quatro lanços:
| Estação | Ré em | Leitura de ré | Vante em | Leitura de vante | Plano de referência | Cota calculada |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | BM | 1,855 | P1 | 1,320 | 44,355 | 43,035 |
| 2 | P1 | 1,410 | P2 | 1,780 | 44,445 | 42,665 |
| 3 | P2 | 1,605 | P3 | 0,925 | 44,270 | 43,345 |
| 4 | P3 | 1,220 | BM | 2,061 | 44,565 | 42,504 |
Soma das leituras de ré = 6,090 m
Soma das leituras de vante = 6,086 m
Cota de chegada ao BM = 42,504 m (devia ser 42,500 m)
Erro de fecho = 42,504 − 42,500 = 0,004 m = 4 mm
Para saber se este erro é aceitável, compara-se com a tolerância, calculada a partir do percurso total percorrido pela mira:
Percurso total = 95 + 110 + 100 + 90 = 395 m = 0,395 km
Tolerância = 12 mm × √K (K em km) = 12 × √0,395 ≈ 7,5 mm
Como 4 mm ≤ 7,5 mm, o nivelamento fecha dentro da tolerância e as cotas calculadas podem ser aceites. Se o erro de fecho ultrapassar a tolerância, distribui-se proporcionalmente à distância de cada lanço, ou repete-se o trabalho.
6. Equipamentos: taqueómetro, estação total, GPS e drones
- Taqueómetro: instrumento ótico-mecânico que mede ângulos e, por estadimetria (leituras dos fios estadimétricos na mira), distâncias. É o precursor da estação total, ainda usado em algumas escolas para ensinar o princípio.
- Estação total: combina um teodolito eletrónico (mede ângulos horizontais e verticais) com um distanciómetro eletrónico (EDM). Calcula e regista automaticamente as coordenadas de cada ponto visado. É o principal equipamento do levantamento arqueológico atual.
- GPS/GNSS: recetores que calculam a posição a partir de sinais de satélite. Em modo RTK (tempo real cinemático), atingem precisão centimétrica e são muito eficientes em levantamentos extensos, ao ar livre.
- Drones: veículos aéreos não tripulados equipados com câmara, usados para fotografia aérea e para gerar ortofotomapas e modelos 3D por fotogrametria.
Critérios de escolha: dimensão da área, precisão exigida, visibilidade do céu (o GPS precisa de céu aberto, uma escavação numa gruta não o permite), orçamento e tempo disponível.
7. Drones no levantamento arqueológico
Um drone (veículo aéreo não tripulado) é pilotado remotamente ou voa de forma autónoma segundo um plano definido, equipado com câmara RGB, multiespectral ou térmica.
Técnicas de voo para fotogrametria: planos de voo automáticos, com sobreposição de imagens (frontal e lateral, normalmente acima de 70%) e altura de voo constante, para garantir cobertura completa do sítio e sem falhas.
Legislação. Em Portugal, o uso de drones é regulado pela ANAC (Autoridade Nacional da Aviação Civil): registo obrigatório do operador, seguro de responsabilidade civil, limites de altura e de distância à aeronave, e restrições em zonas sensíveis (aeroportos, áreas protegidas, património classificado). Antes de qualquer voo sobre um sítio arqueológico, confirma-se sempre as restrições aplicáveis àquela zona.
Vantagens no levantamento: rapidez, cobertura de áreas extensas, ponto de vista vertical impossível a partir do solo, e custo muito inferior ao de um voo tripulado.
8. Fotografia aérea e fotointerpretação
A fotografia aérea (obtida de avião, satélite ou drone) revela padrões invisíveis ao nível do solo.
Estratégias de análise:
- Marcas de vegetação: diferenças de crescimento sobre estruturas enterradas (a vegetação cresce mais ou menos, e com cor diferente, sobre um muro ou um fosso soterrado).
- Marcas de solo: diferenças de cor ou de humidade que denunciam estruturas debaixo da terra lavrada.
- Marcas de sombra: relevo residual, visível apenas em luz rasante, no início ou no fim do dia.
Elementos reconhecíveis: alinhamentos regulares, formas geométricas repetidas, cores anómalas no solo ou na vegetação.
Identificação de potenciais sítios arqueológicos: cruza-se estes elementos com cartografia histórica e com o conhecimento do terreno, para localizar sítios ainda por escavar. A fotointerpretação, a leitura sistemática destas imagens, é uma competência central mesmo antes de se ir a campo.
9. Ortofotografia, foto-retificação e fotogrametria
- Ortofotografia: fotografia aérea corrigida geometricamente (ortorretificada), com escala uniforme em toda a imagem, como um mapa. Permite medir distâncias diretamente sobre a imagem.
- Foto-retificação: processo de correção das distorções da fotografia original (perspetiva, relevo do terreno, inclinação da câmara), necessário para obter a ortofoto.
- Fotogrametria: técnica que reconstrói a geometria tridimensional de um objeto ou de um terreno a partir de várias fotografias sobrepostas, tiradas de ângulos diferentes.
- Processamento fotogramétrico: software dedicado processa centenas de fotografias de um voo de drone e gera nuvens de pontos, modelos 3D e ortofotomapas do sítio arqueológico.
Um voo de drone de 20 minutos sobre uma sondagem de 30 x 20 m, com sobreposição de 80%, gera cerca de 200 fotografias. Processadas em software fotogramétrico, produzem um ortofotomapa e um modelo 3D com resolução de poucos milímetros por pixel, um levantamento que a fita métrica levaria dias a igualar.
10. Mapeamento em SIG e integração de dados arqueológicos
Um SIG (Sistema de Informação Geográfica) é o software que integra dados espaciais (coordenadas, mapas, ortofotos) com dados alfanuméricos (descrições, datas, materiais).
Integração com outras informações arqueológicas: o levantamento topográfico cruza-se, no SIG, com a matriz estratigráfica, o inventário de artefactos e os registos de escavação, tudo georreferenciado no mesmo sistema de coordenadas.
Camadas (layers): cada tipo de informação, estruturas, sondagens, achados, curvas de nível, fica numa camada própria, que se pode ligar ou desligar consoante a análise.
Vantagem sobre o mapa em papel: o SIG permite consultas espaciais (por exemplo, "que artefactos foram encontrados a menos de 2 m desta estrutura") impossíveis de fazer manualmente numa planta impressa.
11. Registos complementares no campo
A ortofotografia mostra "o que está lá"; os registos complementares explicam "o que significa". Juntos, formam a documentação completa de uma intervenção.
- Desenhos técnicos: plantas e cortes, feitos à mão ou digitalmente, durante a escavação.
- Fotografias no campo: registo fotográfico sistemático de cada unidade estratigráfica e estrutura, sempre com escala e indicação do Norte visíveis no enquadramento.
- Registos estratigráficos: fichas de unidade estratigráfica (UE), com descrição, relações físicas com as unidades vizinhas e posição no espaço.
Uma fotografia de campo sem escala nem indicação do Norte é praticamente impossível de georreferenciar mais tarde. É um erro pequeno de executar e caro de corrigir.
12. Produtos topográficos: mapas e representação gráfica em vários formatos
O trabalho de campo termina em produtos gráficos, adequados a diferentes públicos e propósitos.
- Mapa topográfico: representação da área com curvas de nível, pontos cotados e planimetria.
- Mapa de distribuição de artefactos: localização de cada achado sobre a planta da sondagem, essencial para a análise espacial posterior.
- Outros produtos: plantas gerais e de pormenor, cortes estratigráficos, modelos digitais de superfície (MDS) e ortofotomapas.
Escala adequada ao propósito: plantas de pormenor de estruturas usam escalas grandes (por exemplo, 1:20 ou 1:50); plantas gerais do sítio usam escalas menores (por exemplo, 1:200 ou 1:500). Quanto maior o denominador, menor o objeto representado no papel.
Exemplo resolvido · Conversão de escala
Uma estrutura descoberta tem 3,40 m de largura. Representada à escala 1:50:
largura no papel = 3,40 × 100 / 50 = 6,8 cm
Uma área intervencionada de 25,0 m², representada à mesma escala 1:50, ocupa no papel:
área no papel = 25,0 × (100 × 100) / 50² = 100,0 cm²
Repara que a área se reduz com o quadrado da escala, não linearmente: passar de 1:50 para 1:100 não reduz a área do desenho a metade, reduz-a a um quarto.
Exemplo resolvido · Área de uma estrutura por coordenadas
Com cinco vértices medidos por estação total (coordenadas locais em metros), a área calcula-se pela fórmula de Gauss (também chamada fórmula do polígono, ou "shoelace"):
| Vértice | E | N |
|---|---|---|
| 1 | 5000,00 | 8000,00 |
| 2 | 5008,40 | 8000,60 |
| 3 | 5008,90 | 8006,30 |
| 4 | 5002,10 | 8007,10 |
| 5 | 4999,50 | 8003,20 |
Área = ½ · |Σ (xᵢ·yᵢ₊₁ − xᵢ₊₁·yᵢ)| = 53,90 m²
Este método dispensa a fita métrica: com as coordenadas de cada vértice, a área calcula-se em gabinete, de forma exata.
13. Segurança, saúde no trabalho e proteção ambiental
- Equipamento de proteção individual (EPI): calçado apropriado, luvas quando se manuseiam ferramentas ou estruturas, proteção solar em trabalho prolongado ao ar livre.
- Cuidado com o equipamento elétrico e eletrónico (estação total, GPS, drone) em condições de humidade, e atenção redobrada junto de taludes e escavações abertas.
- Uso correto do equipamento: a estação total e o GPS são instrumentos de precisão e custo elevado; transportam-se e montam-se com cuidado, seguindo sempre as instruções do fabricante.
- Drones: exigem formação e o respeito rigoroso pelas regras da ANAC descritas no capítulo 7.
- Proteção ambiental: minimizar o impacto físico do levantamento no sítio, não pisar áreas sensíveis, não danificar vegetação ou fauna, e cumprir as normas de proteção ambiental aplicáveis à área de intervenção.
Estas normas não são um extra, são critério de desempenho da UC: cumprir os procedimentos das técnicas de observação topográfica e respeitar as normas e instruções de utilização dos equipamentos de medição.
Erros comuns
- Confundir o Norte geográfico, o magnético e o da quadrícula ao registar um azimute ou rumo, sem indicar a qual dos três se refere.
- Esquecer de converter uma distância inclinada em distância horizontal antes de calcular coordenadas.
- Não verificar o fecho de um nivelamento composto: um erro de fecho fora da tolerância invalida as cotas e obriga a repetir o trabalho ou a compensar o erro proporcionalmente à distância de cada lanço.
- Trocar a leitura de ré pela de vante no cálculo da cota, invertendo o sinal da operação.
- Fotografar uma estrutura sem escala nem indicação do Norte, tornando a imagem impossível de georreferenciar depois.
- Fazer um voo de drone sobre um sítio sem confirmar antes as restrições da ANAC aplicáveis àquela zona.
- Escrever "fuso 29T" para Portugal continental: o fuso UTM correto é o 29N; a letra "T" é a banda de latitude do MGRS (o sul do continente fica na banda S e o norte na T), não é o hemisfério, e por isso "29T" não identifica o fuso de todo o continente.
Glossário
- Cota: altitude de um ponto, medida acima do datum de referência.
- Datum de Cascais: referência altimétrica oficial de Portugal continental, o nível médio do mar medido no marégrafo de Cascais entre 1938 e 1957.
- PT-TM06/ETRS89: sistema de referência e projeção cartográfica oficial de Portugal continental.
- Fuso 29N: fuso UTM que cobre todo o território de Portugal continental.
- Rede de apoio: conjunto de pontos com coordenadas conhecidas que serve de base a um levantamento.
- Ré: leitura de mira feita num ponto de cota conhecida, no início de um lanço de nivelamento.
- Vante: leitura de mira feita no ponto seguinte, cuja cota se pretende determinar.
- Plano de referência: altura do eixo ótico do nível acima do datum, calculada a partir da cota conhecida e da leitura de ré.
- Estação total: instrumento que combina teodolito eletrónico e distanciómetro eletrónico.
- Trilateração: cálculo da posição de um ponto a partir da distância a dois ou mais pontos conhecidos.
- Ortofotografia: fotografia aérea corrigida geometricamente, com escala uniforme.
- Fotogrametria: técnica de reconstrução tridimensional a partir de várias fotografias sobrepostas.
- SIG: Sistema de Informação Geográfica.
- DGT: Direção-Geral do Território, entidade que gere a rede geodésica nacional.
- CIGeoE: Centro de Informação Geoespacial do Exército, antigo IGeoE.
- ANAC: Autoridade Nacional da Aviação Civil, entidade que regula o uso de drones em Portugal.
Síntese
O levantamento topográfico arqueológico parte sempre do plano de trabalho e de uma rede de apoio bem implantada, com pontos de referência conhecidos e ligados ao datum de Cascais e ao fuso 29N de PT-TM06/ETRS89. A partir daí, a medição faz-se com técnicas clássicas (perpendiculares e triangulação à fita, nivelamento com nível ótico) ou com equipamento moderno (taqueómetro, estação total, GPS, drones). A fotografia aérea e a fotointerpretação ajudam a identificar potenciais sítios; a ortofotografia e a fotogrametria transformam fotos em produtos métricos rigorosos; o SIG integra tudo, das coordenadas aos registos estratigráficos. O trabalho termina em produtos topográficos, mapas, plantas e modelos, à escala adequada a cada propósito, sempre com segurança e proteção ambiental como pano de fundo.
Exercícios resolvidos
1. Um lanço de nivelamento tem leitura de ré de 1,215 m sobre um ponto de cota 38,760 m e leitura de vante de 0,845 m sobre o ponto seguinte. Qual a cota do ponto seguinte?
Resolução: plano de referência = 38,760 + 1,215 = 39,975 m. Cota do ponto seguinte = 39,975 − 0,845 = 39,130 m.
2. Calcula a distância e o azimute entre dois pontos com coordenadas (2000,00; 3000,00) e (2018,60; 3009,40).
Resolução: ΔE = 18,60 m; ΔN = 9,40 m. Distância = √(18,60² + 9,40²) = 20,84 m. Azimute = arctan(18,60 / 9,40) = 63,19° ≈ 63° 11' 21".
3. Uma estrutura de 5,20 m de comprimento é desenhada à escala 1:100. Que comprimento ocupa no papel?
Resolução: 5,20 × 100 / 100 = 5,2 cm.
4. Num levantamento por triangulação à fita, a base AB mede 20,00 m. Um ponto P dista 16,00 m de A e 13,00 m de B. Determina as coordenadas locais de P, tomando A como origem e B sobre o eixo das abcissas.
Resolução: x = (16,00² − 13,00² + 20,00²) / (2 × 20,00) = 12,18 m. y = √(16,00² − 12,18²) = 10,38 m. Coordenadas de P: (12,18; 10,38). Verificação: distância B-P = √((20,00 − 12,18)² + 10,38²) = 13,00 m, confirma o valor medido.