Sebenta · Representar graficamente a localização do sítio arqueológico (UC02345)
- Introdução
- 1. A arqueologia e a representação gráfica
- 2. Cartografia: evolução e cartografia moderna
- 3. Mapas e cartas: tipologias e cartografia de base e temática
- 4. Referenciação cartográfica: coordenadas relativas e absolutas
- 5. Sistemas de referência: meridianos e paralelos
- 6. Projeção e geometria
- 7. Simbologia cartográfica e escalas de medida
- 8. Registo cartográfico: sistemas de coordenadas e GPS
- 9. Desenho cartográfico assistido por computador (CAD)
- 10. Do sítio ao mapa: metodologia completa
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Representar graficamente um sítio arqueológico é muito mais do que apontá-lo num mapa turístico. É produzir um documento com rigor científico e legal: coordenadas exatas, simbologia normalizada e um desenho que qualquer profissional, hoje ou daqui a cinquenta anos, consiga ler e confiar.
Esta sebenta acompanha o percurso completo do assistente de arqueólogo/a: analisar a documentação gráfica e cartográfica já existente sobre a área, determinar as coordenadas geográficas do sítio no terreno, efetuar os desenhos da sua localização e, por fim, registar toda essa informação em mapas, cartas ou outra forma de representação gráfica.
Objetivos de aprendizagem (referencial): interpretar cartas topográficas e outra documentação cartográfica; aplicar sistemas de referência e sistemas de projeção; utilizar equipamento GPS segundo os procedimentos definidos; utilizar comandos básicos e avançados de um sistema CAD; e registar a localização de um sítio arqueológico em cartografia oficial, sempre sob a orientação do arqueólogo ou responsável da intervenção.
1. A arqueologia e a representação gráfica
Um sítio arqueológico só existe, para efeitos de investigação e de proteção legal, se estiver bem localizado. Uma descrição por palavras ("perto do cruzamento, junto à ribeira") não chega: é preciso um documento gráfico com coordenadas verificáveis.
O trabalho do assistente de arqueólogo/a divide-se em duas fases que se repetem ao longo de toda a UC:
- Trabalho de campo: reconhecimento do terreno, registo de coordenadas com GPS, fotografia e croquis.
- Trabalho de gabinete: análise de documentação existente, desenho técnico em CAD e registo final em mapas ou cartas.
Este ciclo, campo e gabinete, é o fio condutor de toda esta sebenta: cada capítulo corresponde a uma competência necessária para o completar com rigor.
2. Cartografia: evolução e cartografia moderna
A cartografia é a ciência e a técnica de representar a superfície terrestre. A sua evolução explica porque hoje se exige tanto rigor a um simples desenho de localização.
Da triangulação ao satélite
- Os mapas mais antigos eram desenhados por observação direta, com escalas e orientações pouco fiáveis.
- Nos séculos XVIII e XIX generalizou-se a triangulação geodésica: uma rede de pontos medidos com precisão que serve de esqueleto a toda a cartografia posterior.
- No século XX, a fotografia aérea e a restituição fotogramétrica permitiram cartografar territórios inteiros a partir do ar.
- Hoje, os satélites e os drones atualizam o terreno com uma frequência e uma precisão impensáveis há um século.
A cartografia moderna assenta em três pilares
- Rigor geodésico: as coordenadas ligam-se sempre a um sistema de referência internacional.
- Digitalização: cartas e ortofotomapas existem em ficheiros digitais, organizados em camadas.
- Atualização contínua: novas imagens de satélite e novos levantamentos mantêm a cartografia atual.
Em Portugal, a cartografia oficial é da responsabilidade da Direção-Geral do Território (DGT); a cartografia do património arqueológico é organizada pelo Património Cultural, I.P. (que sucedeu à DGPC em 2024), que mantém a base de dados nacional de sítios, o Endovélico, acessível através do Portal do Arqueólogo.
3. Mapas e cartas: tipologias e cartografia de base e temática
Nem todo o documento cartográfico serve o mesmo propósito, e escolher o documento errado compromete o resto do trabalho.
Tipologias principais
| Tipo | O que mostra | Exemplo de uso |
|---|---|---|
| Carta topográfica | relevo, altitude, curvas de nível | localizar um sítio face ao terreno |
| Carta militar | topografia rigorosa, escala 1:25 000 | referência oficial de campo em Portugal |
| Ortofotomapa | fotografia aérea georreferenciada | comparar o terreno atual com o histórico |
| Mapa temático | um tema sobre uma base topográfica | carta arqueológica de um concelho |
Cartografia de base e cartografia temática
A cartografia de base é o suporte neutro: relevo, rede viária, hidrografia e povoações. É o "fundo" sobre o qual tudo se desenha.
A cartografia temática usa essa base para representar um assunto concreto. A Carta Arqueológica é o exemplo central desta UC: constrói-se sobre uma base topográfica ou um ortofotomapa, assinalando cada sítio com a simbologia própria da arqueologia.
Um concelho pode ter uma carta topográfica de base à escala 1:25 000 do Centro de Informação Geoespacial do Exército (CIGeoE, antigo IGeoE) e, sobreposta, a sua Carta Arqueológica, com um símbolo diferente para povoados, necrópoles e achados isolados.
Interpretar uma carta topográfica
Ler corretamente uma carta topográfica é uma aptidão do referencial, e assenta em quatro elementos:
- Curvas de nível: linhas que unem pontos com a mesma altitude; quanto mais próximas estão entre si, mais acentuado é o declive.
- Equidistância: a diferença de altitude entre duas curvas de nível consecutivas (por exemplo, 10 m numa carta 1:25 000); é indicada na legenda e mantém-se constante em toda a carta.
- Grelha quilométrica: a rede de linhas que divide a carta em quadrículas de 1 km de lado, usada para localizar um ponto por coordenadas retangulares.
- Leitura de altitudes: a altitude de um ponto lê-se pela curva de nível em que assenta ou, entre curvas, por interpolação entre a curva inferior e a superior mais próximas.
Um ponto situa-se a meio caminho entre a curva de nível dos 120 m e a dos 130 m (equidistância de 10 m). Por interpolação, a sua altitude aproximada é de 125 m.
4. Referenciação cartográfica: coordenadas relativas e absolutas
Referenciar um ponto é atribuir-lhe coordenadas que o identificam de forma única, em qualquer carta ou sistema. Sem referenciação, dois relatórios do mesmo sítio podiam descrevê-lo de formas diferentes, sem se perceber que se trata do mesmo local.
Sistemas de referência em Portugal
Portugal usa hoje o sistema de referência ETRS89 (European Terrestrial Reference System 1989), que substituiu o antigo Datum 73. Um erro frequente e grave é misturar coordenadas dos dois sistemas no mesmo desenho: o mesmo ponto pode aparecer deslocado dezenas ou centenas de metros.
O GPS trabalha nativamente em WGS84. Em Portugal, WGS84 e ETRS89 diferem hoje cerca de 1 m, o que é desprezável num recetor portátil (erro de 3 a 5 m), mas não num levantamento de precisão. Os sistemas antigos são o Datum Lisboa (edições antigas da Carta Militar) e o Datum 73, e ambos deslocam o ponto dezenas a centenas de metros face ao ETRS89. Para usar em CAD, as coordenadas geográficas (graus) convertem-se em retangulares (metros) no sistema PT-TM06/ETRS89 (EPSG:3763), que não é o mesmo que UTM fuso 29. GPS é um dos sistemas GNSS, a par do Galileo e do GLONASS; para precisão centimétrica usa-se RTK ou a estação total.
Coordenadas relativas e absolutas
- Coordenadas relativas: posição de um ponto em relação a outro ponto conhecido, por exemplo "10 metros a norte do marco geodésico". Úteis no desenho de pormenor, dentro de uma sondagem.
- Coordenadas absolutas: posição de um ponto num sistema de referência global (latitude/longitude ou coordenadas retangulares x, y). Permitem colocar o sítio em qualquer carta do mundo.
Exemplo resolvido: registar as duas coordenadas
Uma equipa abre uma sondagem de 2 por 2 metros num sítio.
- Regista-se, com o GPS, a coordenada absoluta do canto sudoeste da sondagem, em ETRS89.
- Dentro da sondagem, mede-se cada estrutura em coordenadas relativas a esse canto, com fita métrica: por exemplo, "muro a 1,20 m a este e 0,40 m a norte do canto sudoeste".
- No relatório final, a posição absoluta entra na Carta Arqueológica; as posições relativas entram na planta de pormenor da sondagem.
Este cruzamento entre os dois tipos de coordenadas é o que liga o desenho de detalhe ao mapa geral.
5. Sistemas de referência: meridianos e paralelos
A superfície da Terra é organizada por uma rede de linhas imaginárias que permite dar a qualquer ponto uma posição única.
- Meridianos: unem o Polo Norte ao Polo Sul; definem a longitude, medida a partir do meridiano de Greenwich (0°), para este ou para oeste.
- Paralelos: são paralelos ao equador; definem a latitude, medida a partir do equador (0°), para norte ou para sul.
- Cada ponto na Terra fica definido por uma latitude e uma longitude únicas, em graus, minutos e segundos, ou em graus decimais.
Portugal Continental situa-se aproximadamente entre os 37° e os 42° de latitude norte, e entre os 6° e os 9,5° de longitude oeste.
Exemplo resolvido: converter graus, minutos e segundos em graus decimais
Muitas cartas antigas e alguns equipamentos indicam a coordenada em graus, minutos e segundos (°, ′, ″); o CAD e a maioria do software atual precisam dela em graus decimais.
- Coordenada de partida: 38° 43′ N.
- Os minutos convertem-se em fração de grau, dividindo por 60: 43 ÷ 60 = 0,7167.
- Soma-se à parte inteira dos graus: 38 + 0,7167 = 38,7167° N.
O mesmo cálculo aplica-se à longitude, e a segundos (dividindo por 3600 em vez de 60, quando existem).
Ler coordenadas num mapa
- Identificar os meridianos e paralelos mais próximos, marcados na moldura da carta.
- Interpolar a posição do ponto entre essas linhas.
- Anotar a latitude e a longitude com o número correto de casas decimais.
- Confirmar sempre o sistema de referência indicado na legenda da carta.
6. Projeção e geometria
A Terra é, na prática, um elipsoide; um mapa é plano. Projetar é o processo geométrico que transforma essa superfície curva num plano, sempre com alguma deformação: nenhuma projeção mantém ao mesmo tempo a área, a forma, a distância e o ângulo corretos.
Pensa numa casca de laranja: não há forma de a espalmar numa mesa sem rasgar ou esticar em algum ponto. Cada projeção cartográfica escolhe onde "esticar" menos, consoante o que interessa preservar.
Tipos de projeções
As projeções classificam-se de duas formas, que se combinam entre si: pela superfície geométrica usada para projetar, e pela propriedade que preservam.
| Superfície | Como funciona | Exemplo de uso |
|---|---|---|
| Cilíndrica | projeta a Terra sobre um cilindro envolvente, depois desenrolado | Mercator, base de muitos mapas-múndi e da própria UTM |
| Cónica | projeta sobre um cone assente sobre uma faixa de latitude | mapas de países de grande extensão este-oeste, como os Estados Unidos |
| Azimutal | projeta sobre um plano tangente a um único ponto | mapas centrados nos polos, ou em rotas aéreas a partir de uma cidade |
| Propriedade preservada | O que garante | Exemplo de uso |
|---|---|---|
| Conforme | os ângulos e a forma local, a área deforma-se | Mercator, usada em navegação, e a própria PT-TM06/ETRS89 |
| Equivalente | a área, a forma deforma-se | mapas de distribuição de fenómenos (população, uso do solo) |
| Equidistante | a distância a partir de um ponto ou ao longo de uma linha | mapas de alcance de um radar ou de uma rede de transportes |
Nenhuma projeção é conforme, equivalente e equidistante ao mesmo tempo: escolher uma propriedade implica sacrificar as outras.
Sistemas de projeção usados em Portugal
- Projeção UTM (Universal Transversa de Mercator): divide o globo em 60 fusos de 6°. Portugal Continental fica inteiro no fuso 29N (entre 12° O e 6° O); a Madeira fica no fuso 28N e os Açores nos fusos 25N e 26N.
- PT-TM06/ETRS89: projeção transversa de Mercator adaptada especificamente a Portugal Continental, usada na cartografia oficial da DGT.
O sistema de projeção converte as coordenadas geográficas (latitude, longitude) em coordenadas retangulares (x, y), muito mais fáceis de usar num software CAD. Sistema de referência e sistema de projeção são conceitos distintos, mas trabalham sempre em conjunto: confirmar os dois antes de importar qualquer coordenada.
7. Simbologia cartográfica e escalas de medida
Simbologia
A simbologia é o conjunto de sinais convencionais que representam elementos do terreno num mapa, para que não seja preciso escrever tudo por extenso.
- Pontuais: um ponto ou ícone (sítio arqueológico, marco geodésico, igreja).
- Lineares: uma linha (estrada, curso de água, limite administrativo).
- Zonais: uma área preenchida ou tramada (mancha florestal, zona urbana).
Cada carta tem uma legenda que explica todos os símbolos usados; ler a legenda é sempre o primeiro passo antes de interpretar uma carta nova.
Escalas de medida
A escala é a relação entre a distância no mapa e a distância real no terreno, escrita como 1:N.
- Escala numérica: 1:25 000 significa que 1 cm no mapa equivale a 25 000 cm, ou seja 250 m, no terreno.
- Escala gráfica: uma régua desenhada no mapa, que continua correta mesmo que o documento seja reduzido ou ampliado numa fotocópia.
Escalas grandes (1:500) mostram muito pormenor de uma área pequena; escalas pequenas (1:100 000) mostram uma área vasta com pouco pormenor.
Exemplo resolvido: calcular uma distância real
Numa carta à escala 1:25 000, a distância entre um marco geodésico e o sítio arqueológico, medida com uma régua, é de 6,4 cm.
- A escala 1:25 000 significa que cada 1 cm no mapa vale 25 000 cm no terreno.
- Distância real = 6,4 × 25 000 = 160 000 cm.
- Convertendo para metros: 160 000 cm ÷ 100 = 1 600 m, ou seja 1,6 km.
O mesmo raciocínio serve para qualquer escala: multiplicar a medida no mapa pelo denominador da escala e converter as unidades no fim.
8. Registo cartográfico: sistemas de coordenadas e GPS
O GPS (Global Positioning System) determina a posição de um ponto na Terra a partir de sinais de satélite. É a ferramenta que liga o terreno ao gabinete.
Preparar e usar o equipamento
- Antes de sair para o terreno, configurar o recetor com o sistema de referência correto (ETRS89, ainda que o aparelho trabalhe nativamente em WGS84) e o formato de coordenadas acordado pela equipa.
- A cobertura de satélites pode falhar sob vegetação densa, em vales fechados ou perto de estruturas metálicas.
- Respeitar rigorosamente os procedimentos de utilização do equipamento é um critério de desempenho avaliado nesta UC.
Procedimento de registo de um ponto
- Ligar o recetor e aguardar que fixe um número suficiente de satélites.
- Confirmar o sistema de referência e as unidades de coordenadas.
- Posicionar a antena exatamente sobre o ponto a registar.
- Aguardar a estabilização da leitura antes de gravar.
- Anotar a posição, a hora, a margem de erro indicada pelo aparelho e uma referência fotográfica do ponto.
Nunca gravar uma leitura instável ou com margem de erro elevada. Um ponto mal registado propaga-se a toda a carta e pode obrigar a repetir o trabalho de gabinete.
9. Desenho cartográfico assistido por computador (CAD)
O CAD (Computer-Aided Design) é o software de desenho técnico que transforma coordenadas e croquis de campo num desenho rigoroso.
Noções básicas
- O desenho é feito por coordenadas exatas (x, y), não por traço livre.
- Trabalha-se sempre à escala real: o desenho é feito 1:1 e só a impressão é reduzida à escala final.
- As camadas (layers) separam elementos: base topográfica, sítio, cotas, anotações, texto.
Comandos de construção e edição
- Comandos de desenho: linha, polilinha, círculo, retângulo.
- Comandos de edição: cópia, rotação, espelho, deslocamento, trim/extend, escala, matriz, offset.
Técnicas avançadas em 2D
- Trancados (hatch): preenchimento tramado de uma área fechada, usado por exemplo para distinguir tipos de solo ou de material construtivo na planta.
- Blocos: conjuntos de elementos agrupados e reutilizáveis (a seta de norte, um símbolo de sítio, a legenda), inseridos várias vezes sem redesenhar.
- Cotagem: anotação automática de medidas (distâncias, ângulos) diretamente sobre o desenho, sempre ligada às coordenadas reais.
- Referências externas (xref): ligação a outro ficheiro CAD (por exemplo, a base topográfica do concelho) sem o copiar para dentro do desenho; qualquer atualização à base propaga-se automaticamente.
- Georreferenciação de raster: ancorar uma imagem (ortofotomapa, carta digitalizada) a coordenadas reais, para poder desenhar por cima dela com rigor.
Exemplo resolvido: da coordenada GPS à planta em CAD
- Importar para o CAD a coordenada absoluta registada no terreno (ETRS89, sistema de projeção PT-TM06).
- Criar uma camada "Base" com a carta topográfica de fundo e uma camada "Sítio" para o desenho novo.
- Marcar o ponto por coordenadas exatas, não à mão.
- Desenhar o contorno do sítio com polilinha, usando as medidas relativas registadas no terreno.
- Acrescentar simbologia normalizada, orientação (seta de norte), escala gráfica e legenda.
O resultado é uma planta que qualquer outro técnico consegue interpretar sem ambiguidade.
10. Do sítio ao mapa: metodologia completa
Este capítulo junta tudo o que foi visto, na ordem em que acontece num trabalho real.
Identificar áreas de interesse com geoportais
Antes de ir a campo, a documentação existente consulta-se sobretudo em geoportais, plataformas oficiais que disponibilizam cartografia e dados geográficos online.
- SNIG (Sistema Nacional de Informação Geográfica): geoportal de referência em Portugal, agrega cartografia de dezenas de entidades públicas (relevo, uso do solo, áreas protegidas, cadastro).
- Portal do Arqueólogo: acesso à informação do Endovélico, incluindo a localização de sítios já referenciados junto da área de interesse.
- Sobreposição de camadas: cruzar, sobre a mesma base, a informação de vários geoportais (sítios conhecidos, hidrografia, áreas classificadas) revela padrões e riscos que uma única camada não mostra.
Antes de uma obra, o assistente sobrepõe no geoportal a camada de sítios do Endovélico com a de áreas protegidas: confirma que não há sítios registados na área, mas que parte do terreno está em zona de Rede Natura, uma condicionante a registar no relatório.
- Analisar a documentação gráfica e cartográfica existente: cartas topográficas e militares anteriores, ortofotomapas de várias datas, relatórios e cartas arqueológicas anteriores, registos fotográficos de intervenções anteriores.
- Determinar as coordenadas geográficas do sítio, no terreno, com o equipamento GPS e os procedimentos definidos.
- Efetuar os desenhos da localização, em CAD, à escala, com simbologia normalizada e legenda.
- Registar a informação em mapas, cartas ou outra forma de representação gráfica, reportando o sítio na Carta Arqueológica com as coordenadas absolutas e a simbologia oficial.
Numa obra de ampliação de uma via municipal, o assistente de arqueólogo/a recebe indicação de um achado isolado. Analisa primeiro a Carta Arqueológica do concelho (não há sítios registados nas proximidades), regista a coordenada absoluta com o GPS, desenha a planta de localização em CAD e regista o novo ponto na base de dados nacional, sob orientação do arqueólogo responsável.
Cada um destes quatro passos corresponde a uma realização avaliada nesta UC, e nenhum substitui o anterior.
Porque a ordem importa
Inverter esta sequência tem custos concretos. Ir logo para o CAD sem analisar a documentação existente arrisca desenhar de novo um sítio já conhecido, ou ignorar um marco geodésico próximo que facilitaria o registo. Registar coordenadas sem cuidado obriga a repetir o trabalho de campo, muitas vezes já não com as mesmas condições de acesso ao terreno. E desenhar sem depois registar na carta oficial deixa o sítio "invisível" para qualquer outro profissional, por muito rigoroso que tenha sido o desenho em si. A metodologia completa protege o resultado final, não é burocracia acrescentada.
Erros comuns
- Confiar só na descrição por palavras e não produzir um documento gráfico com coordenadas.
- Misturar sistemas de referência (ETRS89 com Datum 73) no mesmo desenho ou relatório.
- Trocar latitude com longitude ao ler ou escrever coordenadas.
- Não confirmar o sistema de referência de uma carta antes de interpolar coordenadas.
- Registar uma leitura de GPS instável ou com margem de erro elevada.
- Desenhar um croqui aproximado no CAD em vez de introduzir coordenadas exatas.
- Usar uma única camada no CAD, tornando impossível isolar ou imprimir só uma parte do desenho.
- Efetuar o desenho e não o registar depois na carta ou no mapa correspondente.
Glossário
- Cartografia: ciência e técnica de representar a superfície terrestre.
- Carta topográfica: representação do relevo e dos elementos do terreno, com rigor de escala.
- Ortofotomapa: fotografia aérea georreferenciada e corrigida geometricamente.
- Cartografia de base: fundo neutro (relevo, rede viária, hidrografia) sobre o qual se desenha um tema.
- Cartografia temática: representação de um tema específico sobre uma cartografia de base.
- Referenciação cartográfica: atribuição de coordenadas únicas a um ponto, num sistema reconhecido.
- Coordenadas relativas: posição de um ponto em relação a outro ponto conhecido.
- Coordenadas absolutas: posição de um ponto num sistema de referência global.
- Sistema de referência: modelo matemático da Terra ao qual as coordenadas se ligam (por exemplo, ETRS89).
- Meridiano: linha que une os polos e define a longitude.
- Paralelo: linha paralela ao equador que define a latitude.
- Projeção cartográfica: processo geométrico de representar a superfície da Terra num plano.
- UTM: sistema de projeção que divide o globo em fusos de 6°.
- Escala: relação entre a distância no mapa e a distância real no terreno.
- Simbologia cartográfica: conjunto de sinais convencionais usados num mapa ou carta.
- GPS: sistema de posicionamento global por satélite.
- CAD: software de desenho técnico assistido por computador.
- Camada (layer): nível independente de informação num desenho CAD.
- Carta Arqueológica: cartografia temática com o registo dos sítios arqueológicos de uma área.
Síntese
Representar graficamente um sítio arqueológico segue sempre a mesma sequência: analisar a documentação existente sobre a área, determinar as coordenadas com rigor no terreno através do GPS, efetuar o desenho técnico em CAD, à escala e com simbologia normalizada, e registar a informação na cartografia oficial. Por trás de cada passo estão os mesmos fundamentos: cartografia, sistemas de referência e de projeção, meridianos e paralelos, escalas e simbologia. Domina este percurso e estarás preparado para localizar qualquer sítio com o rigor que a profissão exige.
Exercícios resolvidos
1. Um colega mede 3,2 cm entre dois pontos numa carta à escala 1:50 000. Qual é a distância real?
Resolução: distância real = 3,2 × 50 000 = 160 000 cm = 1 600 m, ou seja 1,6 km.
2. Porque é que misturar coordenadas ETRS89 com coordenadas do antigo Datum 73 é um erro grave?
Resolução: os dois sistemas de referência assentam em modelos diferentes da Terra; a mesma coordenada numérica corresponde a um ponto físico diferente em cada sistema. Misturá-los desloca o ponto no mapa, por vezes dezenas ou centenas de metros, comprometendo o rigor de toda a localização.
3. Um assistente regista uma coordenada de GPS com o recetor ainda a "procurar satélites". Que princípio foi violado e que consequência pode ter?
Resolução: foi violado o procedimento de aguardar a estabilização da leitura antes de gravar. A consequência é uma coordenada pouco fiável, com margem de erro elevada, que se propaga ao desenho CAD e ao registo final na carta.
4. Distingue cartografia de base e cartografia temática, com um exemplo de cada uma aplicado à arqueologia.
Resolução: a cartografia de base é o fundo neutro, como uma carta topográfica com relevo e rede viária; a cartografia temática representa um tema específico sobre essa base, como a Carta Arqueológica, que assinala os sítios conhecidos de um concelho.
5. No CAD, porque se desenha sempre à escala real (1:1) e só se ajusta a escala na impressão?
Resolução: porque as coordenadas introduzidas correspondem a medidas reais do terreno; desenhar já reduzido introduziria erros de conversão a cada elemento. Manter o desenho à escala real garante que as medidas e as coordenadas se mantêm exatas, e a escala final aplica-se apenas na saída para papel ou PDF.
6. Um sítio arqueológico foi identificado numa obra e é preciso decidir a ordem dos próximos passos: (a) desenhar a planta em CAD, (b) registar o ponto na Carta Arqueológica, (c) analisar a documentação existente sobre a área, (d) registar as coordenadas com o GPS. Ordena os passos e justifica.
Resolução: a ordem correta é c, d, a, b. Primeiro analisa-se a documentação existente, para saber o que já é conhecido sobre a área; depois determinam-se as coordenadas no terreno com o GPS; só então se efetua o desenho de localização em CAD, já com coordenadas fiáveis; e por fim regista-se a informação na cartografia oficial, fechando o ciclo entre o campo e o gabinete. Saltar qualquer um destes passos, ou trocar a sua ordem, compromete o rigor de todo o processo e pode obrigar a repetir trabalho de campo já feito.