Sebenta · Pesquisar e organizar informação conducente à caracterização do sítio arqueológico (UC02344)
- Introdução
- 1. A prospeção arqueológica: conceito, objetivos e fases
- 2. Fontes de informação em arqueologia: primárias e secundárias
- 3. Toponímia: a memória escrita nos nomes de lugares
- 4. Cartografia aplicada à arqueologia
- 5. Topografia aplicada à arqueologia
- 6. Cartas e inventários arqueológicos
- 7. Técnicas de representação de dados em mapas
- 8. A entrevista como método de recolha de informação
- 9. Tratamento da informação recolhida e aplicações informáticas
- 10. O relatório de caracterização da intervenção arqueológica
- 11. Segurança, saúde no trabalho e proteção ambiental
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Antes de qualquer picareta tocar no chão, um sítio arqueológico já foi investigado dezenas de vezes: em arquivos, em mapas antigos, no nome que os vizinhos lhe dão há gerações. Esta sebenta ensina exatamente esse trabalho prévio, o que separa uma intervenção arqueológica séria de uma escavação às cegas: pesquisar e organizar a informação que permite caracterizar um sítio arqueológico.
O percurso segue a ordem real de trabalho de um assistente de arqueólogo: primeiro a prospeção, o método que organiza toda a pesquisa; depois as fontes (arquivos, museus, bibliotecas, o Endovélico); depois duas ferramentas de leitura do território, a toponímia e a cartografia, com a topografia e as cartas arqueológicas a completarem o quadro; depois a memória oral, recolhida por entrevista e tratada com rigor; e por fim a síntese de tudo num relatório de caracterização, sempre com segurança e proteção ambiental presentes em cada saída de campo.
Objetivos de aprendizagem (referencial): recolher e tratar informações de fontes cartográficas, toponímicas, documentais, locais e orais sobre o local a investigar; e redigir o relatório de caracterização da intervenção arqueológica, estruturando a informação com rigor e respeitando os procedimentos de pesquisa próprios da arqueologia.
1. A prospeção arqueológica: conceito, objetivos e fases
A prospeção arqueológica é o conjunto de trabalhos de reconhecimento e pesquisa de um território, realizados antes de qualquer escavação, com o objetivo de identificar, localizar e caracterizar vestígios arqueológicos. É a atividade que organiza tudo o resto desta UC: sem prospeção, não há caracterização possível.
A prospeção está prevista, em Portugal, no Regulamento de Trabalhos Arqueológicos (Decreto Lei n.º 164/2014), como fase obrigatória de qualquer intervenção arqueológica, autónoma ou associada a obra (estradas, urbanização, infraestruturas).
Objetivos da prospeção
- Localizar sítios ainda não conhecidos ou confirmar a localização de sítios já referenciados.
- Delimitar a extensão de um sítio no terreno.
- Avaliar o estado de conservação (bom, degradado, destruído).
- Recolher os elementos, cartográficos, documentais, orais, que permitem caracterizar o contexto arqueológico e ambiental.
As quatro fases
- Pesquisa de gabinete: bibliografia, cartografia, arquivos e toponímia, antes de sair de casa.
- Prospeção de campo: reconhecimento visual sistemático do terreno.
- Registo: fotografia, coordenadas GPS, recolha controlada de materiais de superfície.
- Síntese: cruzamento de toda a informação num relatório de caracterização.
Metodologias de prospeção
| Metodologia | Como funciona | Quando se usa |
|---|---|---|
| Sistemática | cobertura total da área, em faixas (transectos) regulares e espaçadas | áreas de intervenção definidas (ex.: traçado de uma via) |
| Não sistemática (orientada) | dirigida por indícios prévios: toponímia, denúncias, achados casuais, bibliografia | investigação exploratória, tempo ou meios limitados |
A ordem nunca se inverte: gabinete antes de campo. Ir para o terreno sem pesquisa prévia é desperdiçar horas a redescobrir o que já estava escrito num arquivo municipal.
2. Fontes de informação em arqueologia: primárias e secundárias
Toda a caracterização de um sítio assenta em fontes de informação. Saber distingui-las e saber onde procurá-las é a primeira aptidão prática desta UC.
Fontes primárias e secundárias
Uma fonte primária é um testemunho direto: o próprio vestígio, um documento de arquivo original, o depoimento de um morador local. Uma fonte secundária interpreta ou resume fontes primárias: um artigo científico, uma monografia, uma carta arqueológica já publicada.
| Tipo | Exemplos |
|---|---|
| Primária | espólio arqueológico, sítio no terreno, documento de arquivo original, entrevista a informante local, fotografia aérea de época |
| Secundária | monografias e teses, artigos científicos, cartas arqueológicas municipais publicadas, relatórios de intervenções anteriores |
Uma pesquisa rigorosa cruza sempre os dois tipos: a fonte secundária orienta a procura, a fonte primária confirma ou desmente a hipótese.
Onde procurar
- Museus: o Museu Nacional de Arqueologia e os museus municipais e regionais, com acervo, reservas e fichas de sítio.
- Arquivos: o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, arquivos municipais e distritais, com documentação histórica e cartografia antiga.
- Bibliotecas: a Biblioteca Nacional de Portugal e bibliotecas universitárias, com bibliografia especializada.
- Jornais e hemerotecas: notícias de achados, obras e denúncias, muitas vezes a única fonte de um achado casual antigo.
- Centros de investigação: universidades, laboratórios de arqueologia, associações regionais e clubes de arqueologia amadora.
- Endovélico: o sistema de informação e gestão arqueológica do Património Cultural, I.P. (que sucedeu à DGPC em 2024), a base de dados nacional de sítios, intervenções e espólio. É sempre o ponto de partida de qualquer prospeção em Portugal.
Exemplo resolvido · consultar o Endovélico antes de ir a campo
Uma equipa vai prospetar um vale antes da construção de uma variante rodoviária.
- Consulta o Endovélico e localiza dois sítios já referenciados na área, um povoado da Idade do Ferro e uma villa romana.
- Cruza com a carta arqueológica municipal, que confirma a localização aproximada e acrescenta um terceiro sítio, uma necrópole medieval, sem coordenadas precisas.
- Vai a arquivo municipal e encontra um auto de 1962 que descreve "muros antigos" perto do local da necrópole, com uma planta manuscrita.
- Só depois desta pesquisa de gabinete a equipa desenha os transectos de prospeção de campo, já com três alvos prioritários em vez de percorrer o vale ao acaso.
A pesquisa de gabinete não substitui o campo, mas torna o campo eficiente.
3. Toponímia: a memória escrita nos nomes de lugares
A toponímia é o estudo da origem e do significado dos nomes de lugares. É uma das fontes mais acessíveis e mais esquecidas: está disponível gratuitamente em qualquer carta, sem necessidade de deslocação ou autorização de acesso.
Muitos topónimos portugueses guardam, há séculos, a memória de ocupações e estruturas arqueológicas hoje já não visíveis à superfície. A raiz da palavra denuncia, muitas vezes, o que ali existiu.
Famílias de topónimos com valor arqueológico
| Origem | Exemplos de raiz | Indício |
|---|---|---|
| Latim | Citânia (civitas), Castro (castrum), Cividade | povoado fortificado, muitas vezes pré-histórico ou romano |
| Árabe | Alcáçova (al-qasaba), Almedina, Rabaçal | ocupação islâmica medieval, muitas vezes sobre estrutura anterior |
| Atividade económica | Ferradas, Ferrarias, Minas, Fornos | metalurgia, mineração ou produção antiga |
| Estrutura funerária | Mamoa, Anta, Orca | monumento megalítico |
| Vigilância e defesa | Atalaia, Torre, Outeiro | posto de vigia ou fortificação |
O topónimo é uma pista, nunca uma prova. Um "Castro" pode já ter sido totalmente destruído por agricultura intensiva, e um "Mouros" muitas vezes refere-se a lenda popular, não a ocupação islâmica real. Confirma-se sempre no terreno.
Exemplo resolvido · ler uma carta pelos topónimos
Numa carta militar 1:25 000, a equipa identifica os lugares Citânia da Ponte, Alcáçova Velha e Ferradas do Vale.
- Citânia da Ponte: do latim civitas, forte candidato a povoado fortificado pré-histórico ou romano. Prioridade alta de prospeção.
- Alcáçova Velha: do árabe al-qasaba, fortaleza. Indica ocupação islâmica medieval, possivelmente sobre um castro anterior. Prioridade alta.
- Ferradas do Vale: liga-se a atividade metalúrgica. Pode indicar uma antiga zona de exploração ou de trabalho de minério de ferro. Prioridade média, orienta a procura de escórias e fornos.
Conclusão: os três topónimos justificam prospeção, mas com hipóteses de trabalho diferentes para cada um.
4. Cartografia aplicada à arqueologia
A cartografia representa o território em mapas. Em arqueologia é ferramenta indispensável para localizar sítios, planear a prospeção e apresentar resultados no relatório final.
Conceitos essenciais
- Escala: a relação entre a distância no mapa e no terreno. Numa escala 1:25 000, 1 cm no mapa equivale a 250 m no terreno (25 000 cm), a escala de referência das cartas militares portuguesas.
- Sistema de coordenadas: em Portugal usa-se hoje o ETRS89 / PT-TM06, referencial oficial desde 2010, que substituiu o antigo Datum Lisboa. Misturar sistemas antigos e atuais gera erros de vários metros.
- Cartas militares: produzidas pelo Centro de Informação Geoespacial do Exército (CIGeoE, antigo IGeoE), escala 1:25 000, com relevo, toponímia e uso do solo.
- Ortofotomapas: fotografia aérea corrigida geometricamente, disponíveis na Direção Geral do Território (DGT), sobreponíveis em SIG a qualquer outra camada.
Ferramentas de trabalho
| Ferramenta | Função em arqueologia |
|---|---|
| SIG (ex.: QGIS, gratuito) | cruzar camadas: relevo, hidrografia, sítios, toponímia, uso do solo |
| GPS | recolher coordenadas de sítios e materiais no terreno |
| LiDAR | levantamento por laser aéreo, revela microrrelevo escondido pela vegetação |
| Fotografia aérea e satélite | deteta anomalias na vegetação e no solo (crop marks) que denunciam estruturas enterradas |
Um crop mark é uma diferença de cor ou de crescimento numa cultura agrícola, causada por uma estrutura enterrada por baixo (um muro seca a terra em cima, um fosso preserva humidade). É um dos indícios mais fiáveis de arqueologia invisível à superfície.
5. Topografia aplicada à arqueologia
Enquanto a cartografia trata o território, a topografia estuda e representa o relevo à escala do próprio sítio, em detalhe.
- Curvas de nível: linhas que unem pontos com a mesma altitude, mostram declives, patamares e depressões.
- Levantamento topográfico: medição de pontos no terreno com estação total, GPS de precisão ou fotogrametria por dron.
- Em arqueologia, a topografia é frequentemente o que revela alterações antrópicas do relevo natural: plataformas artificiais, aterros, fossos, taludes de defesa.
Exemplo resolvido · ler o relevo de um sítio
Num levantamento topográfico de uma encosta, a equipa nota um pequeno patamar plano, com cerca de 15 m de largura, a meia encosta, sem correspondência com a orientação natural do declive.
- Compara com as curvas de nível da carta militar: a irregularidade não consta na cartografia de conjunto (escala demasiado pequena para a detetar).
- Faz um levantamento topográfico de detalhe do patamar, com estação total.
- O patamar revela-se artificial: a curva de nível dobra em ângulo reto, incompatível com erosão natural.
- Hipótese de trabalho registada no relatório: possível plataforma de assentamento de um povoado, a confirmar por sondagem posterior.
O relevo "estranho" é, muitas vezes, o primeiro indício de ocupação humana antiga.
6. Cartas e inventários arqueológicos
Uma carta arqueológica é o inventário cartográfico sistemático de todos os sítios conhecidos numa área, normalmente ao nível municipal. É hoje instrumento de ordenamento do território, com valor legal, e condiciona planos diretores municipais e licenciamentos.
Processo de elaboração
- Levantamento bibliográfico e de arquivo de todos os sítios já referenciados.
- Consulta ao Endovélico, o inventário nacional.
- Prospeção de campo, para confirmar, atualizar ou descobrir sítios.
- Elaboração da ficha de sítio e da representação cartográfica final.
Tipos de carta arqueológica
| Tipo | Finalidade |
|---|---|
| Municipal | inventário completo de um concelho, a mais comum em Portugal |
| De risco | cruza sítios conhecidos com pressão urbanística ou agrícola |
| Temática | organizada por período (romano, medieval) ou por tipo de sítio (necrópoles, povoados) |
Esquema e componentes de uma carta arqueológica
Uma carta arqueológica organiza-se, tipicamente, em três componentes articulados:
- Base cartográfica: o mapa de referência, com escala, coordenadas e curvas de nível.
- Camada de sítios: pontos ou polígonos georreferenciados, cada um com um código único.
- Inventário associado: a ficha de sítio, com designação, tipologia, cronologia, estado de conservação e bibliografia.
O mapa mostra o "onde", a ficha explica o "o quê": um sem o outro é um inventário incompleto.
7. Técnicas de representação de dados em mapas
Depois de recolhida, a informação tem de ser comunicada com clareza, num mapa que se leia de relance.
- Simbologia por categoria: cores e símbolos distintos por tipologia de sítio (povoado, necrópole, achado isolado).
- Densidade: mapas de calor, para mostrar concentrações de achados numa área.
- Cronologia: cores ou tramas diferentes por período (pré-história, romano, medieval).
- Camadas sobrepostas: em SIG, cruzar sítios com hidrografia, relevo e uso do solo, para ler padrões de ocupação (por exemplo, povoados sempre próximos de linhas de água).
Um mapa com dezenas de símbolos parecidos e sem legenda clara não serve o relatório, por mais dados que contenha. Menos categorias, bem escolhidas e bem legendadas, comunicam sempre melhor.
8. A entrevista como método de recolha de informação
Nem toda a informação relevante está escrita. A memória oral dos residentes mais antigos de uma região guarda achados, nomes de lugares e até destruições que nenhum arquivo regista. A técnica de entrevista é o método estruturado de recolher essa memória com rigor.
Preparação da entrevista
- Identificar informantes locais: idade avançada, ligação de longa data ao território, disponibilidade.
- Preparar um guião com perguntas abertas, que deixem espaço para o entrevistado recordar livremente.
- Explicar sempre o objetivo da entrevista e pedir consentimento informado para gravar, uma exigência do RGPD sempre que se recolhem dados pessoais.
Condução da entrevista
- Começar por perguntas abertas ("o que se lembra deste lugar?"), só depois ir a perguntas específicas.
- Praticar escuta ativa: não interromper, não sugerir a resposta, não corrigir em tempo real.
- Confirmar nomes de lugares e datas aproximadas, sem forçar precisão que o entrevistado não tem.
- Manter assertividade na comunicação e sensibilidade cultural: a memória do entrevistado é tratada com respeito, não como mero dado a extrair.
Nunca fazer perguntas fechadas ou sugestivas, como "não é verdade que aqui havia um castelo?". Contaminam a resposta e invalidam o testemunho como fonte fiável.
Exemplo resolvido · uma entrevista bem conduzida
Um técnico entrevista um lavrador de 82 anos, morador toda a vida junto a um monte suspeito de ocultar um povoado.
- Explica o objetivo do trabalho e pede autorização para gravar. O lavrador aceita.
- Pergunta aberta: "o que se lembra deste monte, em criança?" O lavrador recorda "pedras grandes, em círculo, que já lá não estão, o meu pai tirou-as para a construção do muro."
- Pergunta específica: "sabe aproximadamente em que ano foram retiradas?" Resposta aproximada: "seria nos anos 1960."
- O técnico regista a informação como memória oral não confirmada por documento, mas coerente com a hipótese de um monumento megalítico destruído.
Este testemunho, sozinho, não prova nada. Cruzado com a toponímia local ("Anta Velha") e com uma fotografia aérea de 1958, torna-se um indício sólido.
9. Tratamento da informação recolhida e aplicações informáticas
Depois da entrevista, a informação precisa de organização antes de entrar no relatório.
Passos do tratamento
- Transcrição: passar o áudio a texto, integral ou por tópicos, conforme o objetivo.
- Codificação: identificar temas recorrentes (topónimos, achados, destruições, tradições).
- Cruzamento: comparar o que foi dito com a cartografia, a toponímia e a bibliografia já reunidas.
- Registo diferenciado: distinguir, no relatório, entre facto confirmado por outra fonte e tradição oral não confirmada.
Aplicações informáticas de apoio
| Ferramenta | Uso |
|---|---|
| Processador de texto com controlo de alterações | transcrição colaborativa |
| Folha de cálculo ou base de dados simples | codificar temas e cruzar entrevistas de vários informantes |
| Software de análise qualitativa | codificação de texto em projetos de maior escala |
| Gestor de ficheiros áudio com nomenclatura fixa | rastreabilidade: data, local, informante |
Uma folha de cálculo simples, com colunas "informante, data, tema, citação, confirmado (sim/não)", já organiza dezenas de entrevistas de forma pesquisável. O sentido de organização é uma das atitudes avaliadas nesta UC.
10. O relatório de caracterização da intervenção arqueológica
A redação do relatório de caracterização da intervenção arqueológica é a segunda realização central da UC: reúne, de forma estruturada, tudo o que foi pesquisado nos capítulos anteriores.
Estrutura habitual
- Enquadramento geográfico e administrativo: localização, concelho, freguesia, coordenadas.
- Enquadramento histórico e arqueológico: o que já se sabia da região, a partir das fontes secundárias.
- Metodologia: fontes consultadas, tipo de prospeção, entrevistas realizadas.
- Resultados: sítios identificados ou confirmados, materiais recolhidos.
- Caracterização do sítio: tipologia, cronologia, estado de conservação.
- Conclusões e recomendações.
- Anexos: cartografia, fichas de sítio, registo fotográfico, transcrições de entrevistas.
Estruturar a informação documental
Estruturar informação documental é o primeiro critério de desempenho desta UC. Significa organizar tudo o que se recolheu de forma coerente, antes de escrever uma única linha do relatório final.
- Criar uma pasta ou base de dados por sítio, com subpastas por tipo de fonte (bibliografia, cartografia, entrevistas, fotografia).
- Registar a proveniência de cada documento: onde e quando foi obtido.
- Verificar que cada afirmação do relatório é sustentada por uma fonte identificável.
- Rever o texto quanto a rigor, clareza e respeito pelos procedimentos de pesquisa específicos da arqueologia, o segundo critério de desempenho do referencial.
Exemplo resolvido · do enquadramento à conclusão, em síntese
Relatório de caracterização de um sítio identificado numa prospeção de gabinete e campo.
- Enquadramento: concelho X, freguesia Y, coordenadas ETRS89 registadas.
- Histórico: referência bibliográfica de 1978 a "vestígios romanos dispersos" na zona, sem coordenadas precisas.
- Metodologia: prospeção não sistemática orientada por toponímia (Citânia da Ponte), consulta ao Endovélico, uma entrevista a informante local.
- Resultados: concentração de tégula (telha romana) e cerâmica comum em área de 40 por 30 metros.
- Caracterização: povoado de época romana, estado de conservação parcial (parte destruída por lavoura agrícola).
- Conclusão: recomenda-se a integração na carta arqueológica municipal e monitorização em futuras obras na área.
Cada afirmação da conclusão remonta a uma fonte concreta, registada num anexo.
11. Segurança, saúde no trabalho e proteção ambiental
O trabalho de campo em arqueologia tem riscos próprios, que as normas de segurança e saúde no trabalho e de proteção ambiental procuram minimizar. Fazem parte do rigor profissional em qualquer saída, não são um capítulo à parte.
Riscos e equipamento
- Riscos de campo: terreno irregular, quedas, exposição solar prolongada, animais e plantas perigosas, valas e escavações abertas.
- Equipamento de proteção individual (EPI): calçado adequado, chapéu, luvas em trabalhos junto a escavações, proteção solar.
- Protocolo de saída: contacto de emergência definido, kit de primeiros socorros, consulta prévia da previsão meteorológica.
Proteção ambiental e enquadramento legal
- Não perturbar habitats protegidos e respeitar áreas classificadas (rede natura, parques naturais).
- Gerir corretamente os resíduos gerados no trabalho de campo.
- Licenciamento: intervenções arqueológicas exigem autorização do Património Cultural, I.P., e o acesso a propriedade privada exige autorização do proprietário.
Erros comuns
- Ir para o campo sem pesquisa de gabinete prévia, desperdiçando tempo e ignorando pistas já disponíveis em arquivo.
- Confiar num topónimo como prova, sem confirmação no terreno.
- Misturar sistemas de coordenadas antigos (Datum Lisboa) com o atual (ETRS89), introduzindo erros de vários metros.
- Fazer perguntas fechadas ou sugestivas numa entrevista, contaminando o testemunho.
- Transcrever entrevistas integralmente sem depois codificar por tema, perdendo tempo e clareza no relatório.
- Escrever o relatório antes de estruturar as fontes, obrigando a voltar atrás constantemente.
- Subestimar riscos "simples" de campo, como insolação ou torção de tornozelo em terreno acidentado.
- Ignorar arquivos municipais por parecerem menos "científicos", quando têm muitas vezes a documentação mais local e detalhada.
Glossário
- Prospeção arqueológica: pesquisa e reconhecimento de um território, antes de qualquer escavação.
- Fonte primária: testemunho direto (vestígio, documento original, depoimento).
- Fonte secundária: interpretação ou síntese de fontes primárias (artigo, monografia).
- Endovélico: sistema nacional de informação e gestão arqueológica, gerido pelo Património Cultural, I.P.
- Toponímia: estudo da origem e do significado dos nomes de lugares.
- Carta arqueológica: inventário cartográfico sistemático de sítios numa área.
- SIG: Sistema de Informação Geográfica, software para cruzar camadas de dados espaciais.
- ETRS89 / PT-TM06: sistema oficial de coordenadas em Portugal desde 2010.
- Crop mark: anomalia na vegetação causada por uma estrutura arqueológica enterrada.
- Memória oral: informação transmitida por relato, não por documento escrito.
- Informante local: pessoa entrevistada pela sua ligação e conhecimento do território.
- Consentimento informado: autorização explícita do entrevistado, exigida pelo RGPD.
- Relatório de caracterização: documento final que descreve e enquadra um sítio arqueológico.
- EPI: equipamento de proteção individual, usado no trabalho de campo.
Síntese
O trabalho desta UC segue sempre o mesmo fluxo: pesquisa de gabinete (fontes, toponímia, cartografia) prepara a prospeção de campo, que se completa com a entrevista a informantes locais. Toda a informação, escrita e oral, é tratada com rigor e cruzada entre si, nunca aceite isoladamente. O resultado converge sempre num relatório de caracterização, estruturado, rastreável até às fontes, e produzido com respeito pelas normas de segurança e proteção ambiental. Dominar este fluxo, do topónimo ao relatório final, é a competência central de um assistente de arqueólogo.
Exercícios resolvidos
1. Uma equipa vai prospetar uma área antes de uma obra rodoviária. Ordena as quatro fases da prospeção.
Resolução: (1) pesquisa de gabinete (bibliografia, cartografia, arquivos, toponímia); (2) prospeção de campo (reconhecimento sistemático); (3) registo (fotografia, coordenadas, materiais); (4) síntese (relatório de caracterização). A pesquisa de gabinete vem sempre primeiro, para orientar o campo.
2. Classifica como fonte primária ou secundária: (a) um artigo de 1978 sobre a região; (b) uma entrevista a um lavrador local; (c) uma carta arqueológica municipal publicada.
Resolução: (a) secundária, interpreta achados anteriores; (b) primária, testemunho direto; (c) secundária, síntese de vários sítios e fontes.
3. O topónimo "Alcáçova Velha" aparece numa carta. Que origem tem a palavra e que hipótese levanta?
Resolução: origem árabe (al-qasaba, fortaleza), indicando possível ocupação islâmica medieval, muitas vezes sobreposta a um castro anterior. É uma hipótese a confirmar no terreno, não uma prova.
4. Porque é essencial usar o mesmo sistema de coordenadas (ETRS89) em toda a cartografia de um relatório?
Resolução: porque misturar sistemas de coordenadas antigos (Datum Lisboa) com o atual introduz erros de vários metros na localização dos sítios, comprometendo a fiabilidade do relatório e a sua comparação com outras cartas.
5. Durante uma entrevista, o técnico pergunta "não é verdade que aqui havia um castelo?". Que erro comete e como corrigir?
Resolução: faz uma pergunta sugestiva, que induz a resposta e contamina o testemunho. Devia perguntar de forma aberta, por exemplo "o que se lembra deste lugar?", deixando o entrevistado recordar livremente.
6. Um relatório de caracterização apresenta conclusões sem indicar as fontes que as sustentam. Que critério de desempenho está a ser violado e porquê é grave?
Resolução: viola o critério de estruturar a informação documental e o de rigor na recolha e tratamento da informação. É grave porque impede que outro profissional verifique ou retome o trabalho, e retira credibilidade científica ao documento.