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UC · Unidade de Competência · UC02300

Sebenta · Implementar as normas de segurança e saúde no trabalho em calcetaria (UC02300)

Da lei portuguesa ao gesto no estaleiro, princípios, planos, EPI, riscos de calcetaria e cantaria, primeiros socorros e incêndios
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Calceteiro/a Artístico ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Um calceteiro artístico trabalha com pedra, ferramentas de percussão, máquinas de corte, cargas pesadas e, muitas vezes, na via pública, em contacto com trânsito e peões. Esta sebenta ensina a implementar as normas de segurança e saúde no trabalho (SST) que tornam esse ofício seguro, tanto para quem o pratica como para quem passa ao lado.

O percurso segue a lógica da própria unidade curricular: primeiro analisamos os princípios gerais de SST e o enquadramento legal português, depois vemos como esses princípios se organizam em planos de segurança e de prevenção, depois entramos nos riscos concretos da calcetaria e da cantaria artística (com destaque para a sílica cristalina no corte de pedra), e terminamos com os procedimentos de primeiros socorros, emergências e combate a incêndios.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar os princípios gerais sobre segurança e saúde no trabalho; e aplicar medidas e procedimentos de segurança e saúde no trabalho, considerando os tipos de risco existentes no posto de trabalho, cumprindo as medidas de atuação em emergência e respeitando o protocolo interno definido.

Aviso importante. Esta sebenta descreve obrigações e procedimentos gerais. Nunca substitui a formação específica de equipamento, o plano de segurança do local concreto de trabalho, nem as instruções de um profissional de segurança e saúde no trabalho. Perante qualquer dúvida real, segue sempre o protocolo interno e pede orientação a quem é responsável pela segurança no teu local de trabalho.

1. Princípios gerais de segurança e saúde no trabalho

A segurança e saúde no trabalho (SST) é o conjunto de princípios, regras e práticas organizadas para proteger a vida e a saúde de quem trabalha. Não nasce de boa vontade individual: é um sistema com direitos, deveres e responsabilidades bem definidos.

Direitos e deveres

A hierarquia da prevenção

Perante qualquer risco identificado, a resposta segue sempre a mesma ordem de prioridade, da medida mais eficaz para a menos eficaz:

Ordem Medida O que significa
1 Eliminação remover o perigo por completo
2 Substituição trocar por um processo menos perigoso
3 Controlo de engenharia isolar o perigo com equipamento (resguardos, aspiração)
4 Sinalização e organização avisar e organizar o espaço de trabalho
5 Equipamento de proteção individual (EPI) proteger diretamente a pessoa

Exemplo resolvido. Numa obra de calcetaria é preciso cortar lancis de calcário. Aplicando a hierarquia:

  1. Eliminação: verificar se é possível encomendar os lancis já cortados à medida na pedreira, evitando o corte no local.
  2. Substituição: se o corte no local for mesmo necessário, usar sempre corte húmido (com água) em vez de corte a seco.
  3. Controlo de engenharia: usar máquina com sistema de aspiração e resguardo da lâmina.
  4. Sinalização: delimitar a zona de corte, afastando quem não está a trabalhar nela.
  5. EPI: usar máscara de proteção respiratória adequada (P3/FFP3), óculos e proteção auditiva.

Note-se que o EPI só entra no fim, depois de esgotadas as outras medidas, e não como única resposta ao risco.

Esta hierarquia vai reaparecer em toda a sebenta: é a lógica que organiza a resposta a qualquer risco identificado no posto de trabalho.

A prevenção de riscos profissionais em Portugal assenta numa lei-quadro e em decretos-lei que a desenvolvem em áreas específicas.

A lei-quadro

A Lei n.º 102/2009 estabelece o regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho. Define as obrigações gerais do empregador (avaliar riscos, planear a prevenção, informar e formar) e os direitos e deveres do trabalhador. É a partir desta lei que se organizam todos os planos e procedimentos estudados nesta sebenta.

Diplomas que desenvolvem áreas específicas

Diploma Área que regula
Decreto-Lei n.º 273/2003 prescrições mínimas de segurança e saúde em estaleiros temporários ou móveis (obras)
Decreto-Lei n.º 50/2005 prescrições mínimas de segurança na utilização de equipamentos de trabalho
Decreto-Lei n.º 348/93 prescrições mínimas de segurança na utilização de equipamentos de proteção individual (EPI)
Decreto-Lei n.º 330/93 prescrições mínimas de segurança na movimentação manual de cargas
Decreto Regulamentar n.º 22-A/98 aprova o Regulamento de Sinalização do Trânsito; o seu título sobre sinalização temporária regula a sinalização de obras e trabalhos na via pública

Não é preciso decorar números de decreto-lei. É preciso saber, para cada situação de trabalho (obra na via pública, uso de uma máquina, uso de EPI, transporte manual de pedra), que existe legislação portuguesa específica e onde a procurar: nos normativos da empresa, no plano de segurança do local, ou junto do responsável de SST.

Documentação sobre segurança e saúde no trabalho

Além da legislação, o calceteiro tem acesso a documentação de apoio: relatórios de acidentes, folhetos e brochuras informativas, normativos específicos da empresa e manuais de segurança do equipamento. Reconhecer os manuais de segurança e saber onde consultá-los é uma aptidão avaliada nesta UC.

3. Planos de segurança e de prevenção

A lei e a documentação traduzem-se, em cada local de trabalho concreto, num conjunto de planos.

O plano de segurança

O plano de segurança é o documento central: organiza, para um local de trabalho específico, os riscos identificados e as medidas que os controlam. Resulta de uma avaliação de riscos feita posto a posto, inclui procedimentos e responsáveis definidos, e é atualizado sempre que o local, a equipa ou os equipamentos mudam.

Interpretar o plano de segurança de uma obra é uma aptidão central desta UC: significa saber ler, num plano real, quais os riscos identificados para aquele local e que medida corresponde a cada um.

Em estaleiros de obra, o Decreto-Lei n.º 273/2003 exige o instrumento equivalente: o Plano de Segurança e Saúde (PSS). O PSS tem um coordenador de segurança em projeto e um coordenador de segurança em obra, a quem se reportam as situações de risco identificadas no terreno, e reúne a compilação técnica do estaleiro. A abertura de um estaleiro abrangido exige ainda comunicação prévia à ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho).

Os quatro planos de prevenção

Plano O que organiza
Prevenção de acidentes medidas que reduzem a probabilidade de acidentes de trabalho
Prevenção de incêndios deteção, meios de extinção e comportamento perante o fogo
Evacuação rotas de saída, ponto de encontro e responsáveis pela saída ordenada
Contra roubos proteção de ferramentas, materiais e bens em loja, armazém ou obra

Um erro comum é confundir o plano de prevenção de incêndios com o plano de evacuação: o primeiro existe para evitar que o fogo comece ou se alastre, o segundo organiza a saída de pessoas depois de uma emergência já estar em curso. São documentos distintos, ainda que relacionados.

Manuais de segurança e protocolo interno

Os manuais de segurança traduzem a lei e os planos em instruções práticas para tarefas concretas: como cortar pedra em segurança, como mover uma carga, como operar uma máquina específica. O protocolo interno acrescenta as regras próprias de cada local: quem aciona a emergência, onde está o extintor mais próximo, qual o ponto de encontro em caso de evacuação.

Respeitar o protocolo interno definido é um critério de desempenho explícito desta UC, mesmo quando o "costume" de outro local sugere fazer diferente. Cada obra ou empresa pode ter regras próprias, e é sempre o protocolo do local atual que prevalece.

4. Riscos e meios de segurança na calcetaria e na cantaria artística

Os contextos de trabalho do calceteiro

O trabalho do calceteiro artístico decorre em contextos muito diferentes, cada um com riscos próprios:

Contexto Riscos típicos
Loja quedas ao mesmo nível, movimentação de peças na receção
Armazém empilhamento instável de material, movimentação de cargas pesadas
Ruas, praças e passeios trânsito, presença de terceiros, exposição solar, corte de pedra no local
Quintas terreno irregular, trabalho isolado, uso de equipamento motorizado

Considerar os tipos de risco existentes no posto de trabalho e respetivas medidas de segurança e preventivas é o primeiro critério de desempenho da UC, e exige adaptar a análise a cada contexto, em vez de aplicar sempre o mesmo raciocínio.

Sílica cristalina respirável: o risco do corte de pedra

O corte de calcário e basalto, materiais comuns na calcetaria portuguesa, liberta poeira que contém sílica cristalina respirável. A inalação prolongada desta poeira, ao longo de anos de exposição, está associada a doença pulmonar grave. É um risco que não causa sintomas imediatos, o que o torna particularmente perigoso: não dói no momento em que acontece.

Regras que não se negoceiam no corte de pedra:

Esta é, mais uma vez, a hierarquia da prevenção em ação: primeiro reduzir a poeira na fonte (corte húmido), só depois recorrer à proteção respiratória individual.

Meios e regras de segurança em cantaria artística

A vertente de cantaria artística acrescenta riscos mecânicos próprios:

Os meios de segurança associados incluem óculos de proteção contra projeções, proteção auditiva junto de máquinas ruidosas, e resguardos que nunca devem ser removidos para trabalhar mais depressa.

Sinalização de obra na via pública

Trabalhar em ruas, praças e passeios implica partilhar espaço com peões e trânsito. A sinalização temporária de obras na via pública é regulada pelo Decreto Regulamentar n.º 22-A/98, que aprova o Regulamento de Sinalização do Trânsito, no seu título sobre sinalização temporária.

Exemplo resolvido. Uma equipa vai recalcetar um troço de passeio numa rua com trânsito moderado.

  1. Delimitar a zona de trabalho com a sinalização normalizada prevista no diploma (cones, fitas, painéis), nunca com sinalização improvisada.
  2. Garantir um corredor seguro e sinalizado para os peões, já que o passeio está ocupado.
  3. Se necessário, sinalizar também para o trânsito automóvel, respeitando as distâncias mínimas de aviso.
  4. A sinalização é uma medida de organização na hierarquia da prevenção: protege terceiros que não escolheram estar perto da obra, não apenas quem trabalha nela.

A sinalização delimita a obra, mas não substitui a alta visibilidade individual: quem trabalha na via pública tem sempre de ser visto pelos condutores, mesmo dentro da zona sinalizada. Ver o EPI de vestuário de alta visibilidade no capítulo seguinte.

Exposição solar em trabalho de rua

O trabalho em ruas, praças e passeios expõe o calceteiro a longas horas de sol. As horas de maior risco são tipicamente entre as 11h e as 17h, quando a radiação solar é mais intensa. Sempre que possível, procurar a sombra para pausas e para tarefas que o permitam, manter uma hidratação regular ao longo do turno, aplicar protetor solar em pele exposta, e usar vestuário que cubra os braços e proteção para a cabeça. Este cuidado soma-se, não substitui, às restantes medidas de segurança do posto de trabalho.

5. Equipamentos de proteção individual, ergonomia e prevenção da negligência

Equipamentos de proteção individual (EPI)

O Decreto-Lei n.º 348/93 estabelece as prescrições mínimas de segurança para a utilização de EPI, a última linha de defesa na hierarquia da prevenção.

EPI Protege de
Óculos de proteção projeção de lascas e partículas
Máscara/respirador (P3/FFP3) poeiras finas, incluindo sílica cristalina
Luvas cortes, abrasão, esmagamento
Calçado de segurança queda de objetos, perfuração
Protetores auditivos ruído de máquinas de corte e percussão
Capacete quedas de objetos em altura
Vestuário de alta visibilidade (colete ou casaco retrorrefletor, EN ISO 20471) ser visto pelos condutores em trabalho na via pública

Em trabalho na via pública, o vestuário de alta visibilidade deve ser, em geral, de classe 2; em vias de velocidade elevada ou em trabalho noturno, deve subir para classe 3, com maior área refletora.

Um EPI danificado, mal ajustado ou inadequado ao risco concreto equivale, na prática, a não ter proteção nenhuma. Verificar o estado do EPI antes de cada utilização é parte do procedimento, não um extra.

Ergonomia e proteção de máquinas

A ergonomia adapta a tarefa e a postura ao corpo humano, reduzindo o desgaste acumulado ao longo dos anos. A proteção de máquinas junta resguardos fixos ou móveis, paragens de emergência acessíveis, e formação específica antes de qualquer operação.

Métodos de supressão da negligência e falta de atenção

A fadiga, a rotina e as tarefas repetitivas aumentam o risco de distração, e por isso a negligência combate-se com organização do trabalho, não só com boa vontade individual:

6. Movimentação manual de cargas e condução de equipamento

Movimentação manual de cargas

O Decreto-Lei n.º 330/93 estabelece as prescrições mínimas de segurança na movimentação manual de cargas, um risco central num ofício que lida com pedra e material pesado.

Não existe um valor único de peso "seguro" válido para toda a gente e todas as situações: depende da postura, da distância, da frequência e das características de quem levanta. Os limites aplicáveis a cada posto de trabalho vêm da avaliação de riscos e da formação específica da empresa, e devem ser consultados no plano de segurança do local, nunca assumidos de memória.

Técnica de levantamento manual

Sem fixar um peso "seguro", há regras de técnica que reduzem sempre o risco de lesão ao levantar uma carga:

Condução e operação de equipamento

Operar equipamento de calcetaria (compactadores, cortadoras, pequenas máquinas motorizadas) exige regras próprias de segurança:

7. Causas e tipos de acidentes de trabalho

Famílias de causas

Família Exemplos
Acidentes de movimentação quedas, entorses ao caminhar em terreno irregular
Choques e quedas quedas ao mesmo nível ou de altura
Ferramentas e máquinas em movimento cortes, esmagamentos, projeção de partículas
Choques elétricos contacto com cabos ou equipamentos danificados
Agentes químicos e gases contacto com produtos de limpeza, colas, poeiras
Queimaduras contacto com superfícies quentes ou chama

Acidentes típicos em calcetaria

Aplicando estas famílias ao trabalho concreto do calceteiro: quedas ao mesmo nível por piso irregular ou molhado; esmagamento de mãos e pés ao manusear blocos e lancis; cortes com ferramentas de percussão e máquinas; lesões músculo-esqueléticas por movimentação repetida de cargas; e exposição prolongada ao sol em trabalho de rua.

Identificar os principais acidentes de trabalho em calcetaria é uma aptidão avaliada: quem reconhece o padrão consegue antecipar a medida preventiva certa.

8. Primeiros socorros e situações de emergência

A caixa de primeiros socorros

Todo o local de trabalho deve ter uma caixa de primeiros socorros acessível e conhecida por toda a equipa: material de penso, desinfetante, luvas descartáveis, tesoura e outros materiais definidos pela empresa. A caixa deve estar visível, sinalizada e de fácil acesso, com os prazos de validade verificados regularmente.

Reconhecer situações de emergência

Situação O que observar
Perda de sentidos a pessoa não responde a estímulos
Ferida aberta / fechada sangramento visível ou hematoma sem corte
Queimadura vermelhidão, bolha ou lesão por calor
Choque elétrico / eletrocussão contacto com corrente elétrica
Ataque cardíaco dor no peito, falta de ar, mal-estar súbito
Entorse ou distensão dor articular ou muscular após esforço
Envenenamento contacto ou ingestão de substância tóxica

Choque elétrico ou eletrocussão: nunca tocar na vítima. Perante uma vítima em contacto com corrente elétrica, o primeiro gesto nunca é tocar-lhe diretamente. Cortar primeiro a alimentação elétrica no quadro ou disjuntor, ou retirar a ficha da tomada. Se isso não for possível de imediato, afastar a fonte de corrente com material isolante e seco (por exemplo, um cabo de madeira ou plástico), nunca com as mãos nem com objetos metálicos ou húmidos. Só depois de a corrente estar cortada ou afastada é seguro aproximar-se da vítima. Ligar sempre o 112, mesmo que a pessoa pareça ter recuperado: a lesão cardíaca provocada por eletrocussão pode ser tardia.

Perante qualquer uma destas situações, o procedimento do calceteiro é sempre o mesmo: garantir a segurança do local, acionar a emergência médica e seguir o protocolo interno, sem improvisar tratamentos ou diagnósticos que não domina. Reportar a situação de emergência com rigor e rapidez é a aptidão exigida, não substituir um profissional de saúde.

Ligar o 112 e os primeiros passos por situação

Perante qualquer uma das situações de emergência, o primeiro gesto do calceteiro é ligar 112. Ao operador, deve indicar-se: o local exato (morada ou ponto de referência da obra), o que aconteceu, quantos feridos existem, e o estado de consciência e de respiração da vítima. Nunca desligar primeiro: é sempre o operador do 112 quem termina a chamada.

Para além da chamada, há passos mínimos e seguros que qualquer pessoa pode dar enquanto o socorro não chega, e práticas que nunca se devem fazer:

Situação Fazer Nunca fazer
Hemorragia Compressão direta com um penso sobre a ferida, membro elevado; se o penso encharcar, sobrepor outro sem retirar o primeiro Remover o penso já encharcado
Queimadura Arrefecer com água corrente tépida durante 20 minutos; retirar anéis e relógio antes de a zona inchar Gelo, manteiga, pasta de dentes, ou rebentar bolhas
Vítima inconsciente a respirar Colocar em posição lateral de segurança e vigiar a respiração Deixar a vítima deitada de costas, sozinha e sem vigilância
Vítima sem respiração normal Ligar 112 e iniciar compressões torácicas; usar um DAE (desfibrilhador automático externo) se existir Perder tempo à procura do pulso antes de agir
Entorse ou distensão Repouso, aplicação de frio e imobilização da zona Massajar a zona ou tentar "endireitar" a articulação
Envenenamento Guardar a embalagem e o rótulo da substância para mostrar ao socorro Provocar o vómito

Estes passos são o mínimo que qualquer pessoa pode fazer em segurança enquanto a emergência não chega. Prestar socorro efetivo exige formação certificada (por exemplo, suporte básico de vida): fora dela, o papel do calceteiro é reconhecer a situação, reportá-la com rigor e seguir estes passos mínimos, nunca substituir um profissional de saúde.

Exemplo resolvido: reportar uma emergência

Um colega cai de uma pequena altura durante o transporte de material e queixa-se de dor intensa numa perna, sem conseguir levantar-se.

  1. Garantir a segurança do local: afastar ferramentas ou material que possam causar novo acidente, sem mover o colega desnecessariamente.
  2. Avaliar rapidamente: está consciente e a responder? Consegue explicar o que sente?
  3. Acionar a emergência conforme o protocolo interno do local (chamada de emergência, aviso ao responsável).
  4. Não mover a pessoa se houver suspeita de lesão grave, exceto se o local continuar perigoso.
  5. Manter a calma e informar com clareza a localização exata e o que aconteceu, quando a emergência for contactada.

O lado administrativo do acidente de trabalho

Um acidente de trabalho não termina quando a emergência é atendida: tem também um lado administrativo que o calceteiro deve conhecer. O acidente tem de ser participado ao empregador logo que possível, e a empresa deve registá-lo. Todo o trabalhador está coberto por um seguro de acidentes de trabalho obrigatório, que assegura assistência e compensação em caso de lesão. Em caso de acidente grave ou mortal, a empresa tem ainda o dever de comunicar à ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho).

9. Incêndios: causas, tipos e deteção

Causas de incêndio

Um incêndio raramente surge sem causa identificável: sistemas de aquecimento e cozedura mal utilizados, chaminés e tubos de fumo em mau estado, materiais inflamáveis armazenados perto de fontes de calor, aparelhos elétricos danificados ou sobrecarregados, e pessoas fumadoras em locais não autorizados.

Tipos de incêndio

Classe Material que arde
A sólidos comuns (madeira, papel, tecido)
B líquidos inflamáveis (solventes, óleos)
C gases inflamáveis
D metais
F óleos e gorduras alimentares

O tipo de incêndio determina o meio de extinção adequado, tratado no capítulo seguinte.

Sistemas de deteção

Detetores de fumo, detetores de calor e botões de alarme manual avisam a equipa antes de o fogo se alastrar, dando tempo para reagir segundo o plano de prevenção de incêndios.

10. Extintores, plano de ataque e plano de evacuação

Tipos de extintores

Extintor Indicado para
Água pulverizada classe A
Pó químico ABC classes A, B e C
CO₂ (dióxido de carbono) fogos elétricos e classe B, sem deixar resíduo
Espuma classes A e B

Usar o extintor errado para o tipo de incêndio pode não apagar o fogo e, em equipamento elétrico, criar um risco adicional. Confirmar sempre o extintor disponível e a classe de incêndio antes de agir.

Manipulação do extintor: a sequência P.A.S.S.

Exemplo resolvido. Perante um pequeno foco de incêndio de classe A com um extintor de pó ABC disponível:

  1. Puxar o pino de segurança do extintor.
  2. Apontar o difusor à base das chamas, nunca ao topo.
  3. Suster/apertar o gatilho com firmeza.
  4. Varrer de um lado para o outro, a curta distância, até o fogo apagar.

Se o fogo não diminuir rapidamente, ou se estiver a alastrar, a prioridade muda de imediato para evacuar e acionar os bombeiros, nunca insistir a qualquer custo.

Plano de ataque ao incêndio

O plano de ataque define quem aciona o alarme, quem tenta a primeira intervenção com o extintor, e a partir de que ponto se prioriza a evacuação sobre a extinção. O acionamento do sistema automático (se existir) é sempre parte do protocolo definido, nunca uma decisão isolada de uma pessoa.

Técnicas de extinção de incêndio de gás

Um incêndio alimentado por fuga de gás exige cuidado adicional: apagar a chama sem cortar a fuga pode acumular gás não queimado e criar risco de explosão.

Sempre que possível, cortar a alimentação de gás antes ou ao mesmo tempo que se extingue a chama. Se não for possível cortar a fuga em segurança, a prioridade passa a ser afastar pessoas e evacuar, deixando a intervenção para os bombeiros. Nunca considerar resolvida uma situação de fuga de gás só porque a chama apagou.

Plano de evacuação

O plano de evacuação organiza a saída ordenada de pessoas de um local em emergência: define rotas de saída sinalizadas e sempre desobstruídas, um ponto de encontro onde a equipa confirma que todos saíram, e responsáveis atribuídos pela evacuação. Deve ser conhecido antes de qualquer emergência real: não há tempo para o consultar durante um incêndio a decorrer.

Plano contra roubos

O plano contra roubos protege ferramentas, materiais e peças de valor, tanto em loja como em armazém ou em obra: controlo de acessos a zonas de armazenamento, registo de equipamento de maior valor, arrumação e fecho correto fora do horário de trabalho, e comunicação imediata de qualquer situação suspeita, seguindo o protocolo interno.

Erros comuns

Glossário

Síntese

A segurança e saúde no trabalho em calcetaria assenta na Lei n.º 102/2009, desenvolvida pelos decretos-lei sobre estaleiros (273/2003, com o Plano de Segurança e Saúde e o coordenador de segurança), equipamentos (50/2005), EPI (348/93) e movimentação manual de cargas (330/93), e pelo Regulamento de Sinalização do Trânsito (Decreto Regulamentar 22-A/98) na via pública. A hierarquia da prevenção (eliminar, substituir, controlar, sinalizar, EPI só no fim) aplica-se a todos os riscos do ofício, com destaque para a sílica cristalina no corte de pedra, que exige corte húmido e proteção respiratória P3/FFP3, nunca varrer a seco. Os planos de segurança e de prevenção (acidentes, incêndios, evacuação, roubos) e o protocolo interno organizam a resposta antes de a emergência acontecer, e os procedimentos de primeiros socorros, reconhecimento de emergências e combate a incêndios seguem sempre sequências treinadas, nunca a improvisação.

Exercícios resolvidos

1. Uma obra precisa de cortar lancis de calcário na via pública. Aplica a hierarquia da prevenção às cinco medidas possíveis.

Resolução: 1) Eliminação: encomendar os lancis já cortados, se possível. 2) Substituição: usar corte húmido em vez de corte a seco. 3) Controlo de engenharia: máquina com aspiração e resguardo. 4) Sinalização: delimitar a zona de corte e sinalizar a via pública conforme o DR 22-A/98. 5) EPI: máscara P3/FFP3, óculos e proteção auditiva, como última linha de defesa.

2. Porque é que varrer a seco a poeira de corte de calcário é uma prática a evitar?

Resolução: porque volta a suspender no ar a sílica cristalina respirável já depositada, expondo quem limpa e quem está por perto ao mesmo risco que se tentou reduzir com o corte húmido. Deve usar-se aspiração adequada ou humedecer a superfície antes de limpar.

3. Distingue plano de prevenção de incêndios de plano de evacuação.

Resolução: o plano de prevenção de incêndios organiza a deteção, os meios de extinção e o comportamento para evitar que o fogo comece ou se alastre. O plano de evacuação organiza a saída ordenada de pessoas depois de uma emergência já estar em curso, com rotas de saída e ponto de encontro.

4. Uma botija de gás em obra começa a alimentar um pequeno foco de incêndio. Que cuidado adicional deve o calceteiro ter em relação a um incêndio comum de classe A?

Resolução: deve procurar cortar a alimentação de gás antes ou ao mesmo tempo que extingue a chama, porque apagar a chama sem cortar a fuga pode acumular gás não queimado e criar risco de explosão. Se não conseguir cortar a fuga em segurança, a prioridade passa a ser evacuar e acionar os bombeiros.

5. Que EPI é adequado ao corte de calcário em obra, e em que ordem da hierarquia da prevenção entra?

Resolução: máscara de proteção respiratória P3/FFP3 (contra a sílica cristalina), óculos de proteção (contra projeção de partículas) e proteção auditiva (ruído da máquina de corte). O EPI entra em último lugar na hierarquia da prevenção, depois de se ter procurado eliminar, substituir (corte húmido), controlar (aspiração, resguardo) e sinalizar a zona.

6. Que passos segue o calceteiro perante um colega que perde os sentidos em obra?

Resolução: garantir primeiro a segurança do local, verificar se a pessoa responde a estímulos, acionar de imediato a emergência médica seguindo o protocolo interno, e não improvisar tratamentos que não domina. O papel do calceteiro é reconhecer a situação e reportá-la com rigor, não substituir um profissional de saúde.