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UC · Unidade de Competência · UC02259

Implementar cor em projetos de design de comunicação (UC02259)

Da teoria da cor à paleta aplicada, legível e inclusiva, em imagem, vetores e impressão
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Design de Comunicação Gráfica, T. Artes e Produções Gráficas ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

Quase tudo o que um designer de comunicação faz passa pela cor. Um logótipo reconhece-se à distância pela sua cor antes de se ler o nome; um cartaz organiza-se pelo contraste entre o que importa e o que apoia; uma embalagem vende-se na prateleira pela cor que faz parar o olhar. Esta sebenta ensina a implementar cor em projetos de design de comunicação: analisar como a cor é usada em peças existentes, criar paletas de cor com critério, operar as aplicações de edição de imagem e de vetores e aplicar e manipular a cor na produção de peças, garantindo legibilidade e clareza da mensagem.

O percurso segue a ordem de trabalho de um projeto real. Começamos pela teoria da cor: a luz, a perceção, a classificação das cores, o círculo cromático, as sínteses aditiva e subtrativa, o matiz, o tom e a saturação, a temperatura, os contrastes e as harmonias. Seguimos para os princípios de seleção da cor: psicologia, cultura, significado e adequação ao conceito. Depois estudamos as técnicas de utilização: RGB, hexadecimal, CMYK, quadricromia, monotonia, dicotomia, catálogos Pantone, tramas e gestão de cor. Entramos nas aplicações informáticas de edição de imagem e de vetores, nos ajustes de cor e nos efeitos visuais. Fechamos com a criação de paletas legíveis, o design inclusivo, a pesquisa de referências e tendências, a gestão de ficheiros, a segurança e saúde no trabalho e a proteção ambiental.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar esquemas de cor em peças de design de comunicação; operar aplicações informáticas de edição de imagem e de vetores; criar paletas de cor para projetos de design de comunicação; aplicar e manipular a cor na produção de peças.

Como estudar com esta sebenta. Cada capítulo tem explicação, tabelas de consulta e pelo menos um exemplo resolvido passo a passo. Refaz as contas antes de leres a solução e, sempre que possível, repete os exercícios num programa de edição: a cor aprende-se a olhar e a medir, não só a ler. Ao longo do texto usamos uma paleta de trabalho com cinco cores (terracota, azul-marinho, areia, verde-sálvia e creme) para que os valores se possam comparar de capítulo para capítulo.

Nome Hexadecimal RGB Função na paleta de trabalho
Terracota #E07A5F 224, 122, 95 acento decorativo (em texto, botões e ícones usa-se a variante escura #B5391A, ver cap. 16 e 17)
Azul-marinho #1F3A5F 31, 58, 95 dominante e texto
Areia #F2CC8F 242, 204, 143 secundária
Verde-sálvia #81B29A 129, 178, 154 apoio
Creme #F4F1DE 244, 241, 222 fundo

1. A cor, a luz e a perceção

A cor não é uma propriedade fixa dos objetos. É o resultado de três elementos que atuam em conjunto: uma fonte de luz, uma superfície que reflete ou absorve parte dessa luz e um observador que a recebe e a interpreta. Se mudar qualquer um destes três, a cor muda.

A luz e o espetro visível

A luz branca contém todas as radiações visíveis. Quando atravessa um prisma, decompõe-se num espetro contínuo que vai do violeta e do azul, passando pelo verde e pelo amarelo, até ao laranja e ao vermelho. Um objeto parece vermelho porque a sua superfície reflete sobretudo a parte vermelha do espetro e absorve as restantes; parece preto porque absorve quase tudo; parece branco porque reflete quase tudo.

Daqui sai uma consequência prática importante: sem luz com a composição certa, a cor não aparece. Uma peça impressa vista sob uma luz muito amarelada ou muito azulada altera-se. Por isso, as provas de cor aprovam-se sob luz normalizada, e os ecrãs calibram-se.

O olho e o cérebro

A retina tem dois tipos de recetores. Os bastonetes funcionam com pouca luz e não distinguem cores; os cones funcionam com luz suficiente e existem em três tipos, com maior sensibilidade a zonas do espetro que correspondem aproximadamente ao vermelho, ao verde e ao azul. O cérebro compara os sinais dos três tipos de cone e constrói a sensação de cor. É esta organização em três canais que explica por que razão os ecrãs, as câmaras e os programas de edição trabalham com três valores, vermelho, verde e azul.

Com pouca luz (ao fim da tarde, num cinema) os cones deixam de trabalhar bem, e o olho passa a distinguir sobretudo claro e escuro. Por isso as cores parecem perder intensidade ao anoitecer.

A perceção é relativa

O cérebro não mede a cor de forma absoluta: compara cada cor com o que a rodeia. Três fenómenos importam ao designer:

Porque isto importa ao designer

Decidir uma cor não é só escolher um valor num seletor. É prever como essa cor será vista: em que suporte, com que luz, ao lado de que outras cores e por que público. Uma cor aprovada no ecrã do portátil pode falhar no papel de jornal, na vitrina de uma loja com luz quente ou num telemóvel sob o sol.

Exemplo resolvido · a mesma cor, três contextos

O azul-marinho #1F3A5F é usado como fundo de um cartaz. Vai ser visto em três situações. Que cuidados tomar?

  1. No ecrã do estúdio: o monitor está calibrado e a luz da sala é neutra. O azul aparece como definido. Cuidado: confirmar que o perfil do monitor está ativo.
  2. Impresso em offset, papel revestido: o azul-marinho convertido para CMYK fica ligeiramente menos saturado, porque a impressão tem gama menor. Cuidado: pedir prova de cor e comparar sob luz normalizada.
  3. Afixado numa montra com luz quente: a luz amarelada reduz a diferença entre o azul e as zonas pretas, e o azul parece mais escuro e mais cinzento. Cuidado: dar margem de contraste ao texto claro que estiver sobre ele.

Conclusão: a cor de um projeto define-se para um contexto de visualização, e é nesse contexto que se testa.

2. Classificação das cores e círculo cromático

Classificar as cores é dar-lhes nome e lugar, para que se possa falar delas com precisão e combiná-las com critério. As classificações mais usadas em design são feitas a partir do círculo cromático.

O círculo cromático

O círculo cromático dispõe os matizes em círculo, de forma que cada cor fica entre as suas vizinhas mais próximas. Cada matiz ocupa uma posição que se mede em graus, de 0° a 360°. Os círculos de doze matizes são os mais comuns no ensino.

Existem vários círculos, conforme o sistema que os sustenta:

Círculo Primárias Para que serve
RYB (tradicional) amarelo, vermelho, azul pintura, ensino das artes, escolha intuitiva de esquemas
RGB vermelho, verde, azul ecrãs e luz
CMY ciano, magenta, amarelo impressão

Cores primárias, secundárias e terciárias

Cores complementares

Duas cores são complementares quando estão em posições opostas no círculo. Colocadas lado a lado, realçam-se mutuamente e dão o máximo contraste de matiz. Misturadas, anulam-se e tendem para um cinzento ou castanho.

No círculo RYB, os pares complementares são vermelho e verde, azul e laranja, amarelo e violeta. No círculo RGB, são vermelho e ciano, verde e magenta, azul e amarelo. O mesmo nome de cor pode, portanto, ter complementares diferentes, consoante o círculo usado.

Cores quentes, frias, neutras e acromáticas

Cores puras, tintas, tons e sombras

Uma cor pura é um matiz no seu máximo de saturação. Juntando branco obtém-se uma tinta clara (tint); juntando preto obtém-se uma sombra (shade); juntando cinzento obtém-se um tom (tone), menos saturado. Em português corrente, "tom" é usado para qualquer variação de uma cor, por isso convém precisar o sentido quando se escreve num briefing.

Exemplo resolvido · classificar as cores da paleta de trabalho

Classificar as cinco cores da paleta de trabalho quanto à temperatura e à sua posição no círculo.

Cor Matiz aproximado (HSL) Temperatura Classificação
Terracota #E07A5F 13° (vermelho-alaranjado) quente terciária no modelo tradicional, pouco saturada
Azul-marinho #1F3A5F 215° (azul) frio primária fria, escura
Areia #F2CC8F 37° (amarelo-alaranjado) quente terciária clara
Verde-sálvia #81B29A 151° (verde) frio, suave secundária desaturada
Creme #F4F1DE cerca de 52° neutra quente quase neutra, muito clara

Passos: (1) converter cada hexadecimal em RGB; (2) obter o matiz num seletor HSL; (3) comparar com o círculo; (4) decidir se é quente ou fria pela zona do círculo; (5) registar luminosidade e saturação para completar a classificação.

3. Síntese aditiva e síntese subtrativa da cor

Há duas maneiras fundamentais de produzir cor: somar luzes ou subtrair luz com pigmentos. Cada uma define um sistema com as suas primárias, o seu ponto de partida e o seu suporte.

Síntese aditiva

Na síntese aditiva, parte-se da escuridão e juntam-se luzes coloridas. As primárias são o vermelho, o verde e o azul (RGB). Cada luz isolada é uma cor; duas luzes juntas dão uma cor secundária; as três juntas, em intensidade máxima, dão branco.

Combinação de luzes Resultado
Vermelho + verde Amarelo
Verde + azul Ciano
Azul + vermelho Magenta
Vermelho + verde + azul Branco
Nenhuma luz Preto

É o sistema de ecrãs, televisores, projetores, câmaras fotográficas e scanners. Cada ponto de um ecrã (píxel) é formado por três subpíxeis, um vermelho, um verde e um azul, cuja intensidade varia. Em 8 bits por canal, cada valor vai de 0 a 255, o que dá 256 × 256 × 256 = 16 777 216 combinações.

Síntese subtrativa

Na síntese subtrativa, parte-se do branco do papel e juntam-se pigmentos que absorvem parte da luz. As primárias são o ciano, o magenta e o amarelo (CMY). Cada tinta absorve uma zona do espetro e deixa passar o resto.

Combinação de tintas Resultado
Ciano + magenta Azul
Magenta + amarelo Vermelho
Amarelo + ciano Verde
Ciano + magenta + amarelo Castanho escuro, quase preto
Nenhuma tinta Branco do papel

Como os pigmentos reais não são perfeitos, os três juntos nunca dão um preto limpo. Por isso acrescenta-se uma quarta tinta, o preto (K, de key), e o sistema passa a chamar-se CMYK. É o sistema da impressão offset, digital, serigráfica e de grande formato.

Comparar os dois sistemas

Aditiva (RGB) Subtrativa (CMYK)
Ponto de partida preto branco do papel
Mais cor mais luz, mais claro mais tinta, mais escuro
Suportes ecrã, projeção, vídeo papel, cartão, têxteis, plásticos
Gama mais ampla mais restrita
Cores exclusivas verdes e azuis muito vivos alguns cianos muito saturados

A gama e as cores fora de gama

A gama (gamut) é o conjunto de cores que um sistema consegue reproduzir. A gama de um ecrã RGB é, em geral, maior do que a da impressão em quadricromia, em especial nos azuis e verdes saturados e nos laranjas muito vivos. Uma cor do ecrã que a impressão não alcança diz-se fora de gama; ao converter para CMYK, o programa substitui-a pela mais próxima reproduzível, e a cor "apaga-se". Os programas mostram um aviso de gama, e o designer deve usá-lo antes de fechar uma peça para impressão.

Exemplo resolvido · prever a mudança de um laranja vivo

Um cartaz foi desenhado em RGB com um laranja muito saturado, rgb(255, 106, 0). O cliente quer imprimi-lo em offset. O que fazer?

  1. Ativar a prova de cores (simulação do perfil de impressão) no programa: o laranja torna-se visivelmente menos vivo.
  2. Confirmar o aviso de gama: o laranja é assinalado como fora de gama.
  3. Converter para o perfil de impressão e anotar o valor CMYK devolvido.
  4. Decidir: aceitar o laranja um pouco mais baixo, ou reservar uma cor direta (Pantone) para o elemento mais importante.
  5. Comunicar ao cliente a diferença, mostrando uma prova impressa.

Conclusão: o desvio previsto no ecrã evita a surpresa na entrega.

4. Matiz, tom, saturação, luminosidade e temperatura

Qualquer cor pode ser descrita por três atributos independentes. Conhecê-los permite descrever, comparar e ajustar cores com rigor, em vez de dizer "um bocadinho mais forte".

Matiz

O matiz (hue) é o que distingue as famílias de cor: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, violeta e todos os intermédios. É o ângulo da cor no círculo cromático, de 0° a 360°. No círculo HSL usado nos seletores de cor, 0° é o vermelho, 60° o amarelo, 120° o verde, 180° o ciano, 240° o azul e 300° o magenta.

Saturação

A saturação é a pureza ou intensidade da cor. Uma cor de saturação alta é vívida, intensa; uma de saturação baixa aproxima-se do cinzento. Em 0% de saturação, a cor é acromática. Reduz-se a saturação juntando cinzento, ou a cor complementar, o que dá os tons desaturados.

Luminosidade, valor ou tom

A luminosidade (também valor, ou tom em sentido estrito) indica quão clara ou escura é a cor, do preto ao branco. É o atributo que mais pesa na legibilidade: dois matizes diferentes com a mesma luminosidade distinguem-se mal quando se converte a peça para escala de cinzentos.

Os três atributos nos seletores de cor

Modelo do seletor Atributos Notas
HSB (HSV) matiz, saturação, brilho usado em muitos programas de design
HSL matiz, saturação, luminosidade usado em CSS
RGB vermelho, verde, azul modelo de ecrã
CMYK percentagem de cada tinta modelo de impressão

A mesma cor tem valores diferentes em cada modelo. A terracota #E07A5F é, em HSL, 13°, 68%, 63%; em HSB, 13°, 58%, 88%.

Temperatura da cor

Em design, a temperatura da cor é a sensação de calor ou frio que a cor transmite. As cores quentes (amarelos, laranjas, vermelhos) parecem avançar e transmitem energia, proximidade e calor; as cores frias (azuis, verdes azulados, violetas) parecem recuar e transmitem calma, distância e frescura. A temperatura é relativa: um verde-amarelado é frio ao lado de um laranja, e quente ao lado de um azul.

Em fotografia e vídeo, a temperatura de cor refere-se à cor da luz e mede-se em kelvin (K). Valores baixos (cerca de 2700 K, como uma lâmpada incandescente) dão luz alaranjada; valores altos (7000 K, um dia nublado) dão luz azulada; a luz do dia ao meio-dia ronda os 5500 K. Nos programas de edição, o controlo de temperatura e matiz serve para corrigir dominantes: uma fotografia feita sob lâmpada incandescente tende para o amarelo e corrige-se arrefecendo-a.

Exemplo resolvido · gerar variações a partir de um matiz

A partir da terracota #E07A5F (rgb 224, 122, 95), obter uma tinta clara e uma sombra.

  1. Tinta clara a 50%: misturar com branco em partes iguais. R = (224 + 255) ÷ 2 ≈ 240; G = (122 + 255) ÷ 2 ≈ 189; B = (95 + 255) ÷ 2 = 175. Resultado: rgb(240, 189, 175), ou #F0BDAF.
  2. Sombra a 50%: misturar com preto em partes iguais. R = 224 ÷ 2 = 112; G = 122 ÷ 2 = 61; B = 95 ÷ 2 ≈ 48. Resultado: rgb(112, 61, 48), ou #703D30.
  3. Conferir: o matiz mantém-se em torno dos 13°; muda a luminosidade. Num seletor HSL, a tinta clara tem luminosidade perto dos 81% e a sombra perto dos 31%.

Conclusão: variar só a luminosidade dá uma escala monocromática, a base de qualquer paleta coesa.

5. Modelos planos e volumétricos da distribuição das cores

Os modelos de cor organizam todas as cores de acordo com os seus atributos. Os planos mostram apenas parte da informação; os volumétricos mostram os três atributos ao mesmo tempo.

Modelos planos

Modelos volumétricos

O que o volume ensina

Os modelos volumétricos revelam que o amarelo mais saturado é sempre claro, e que o azul mais saturado é sempre escuro. Não é possível ter um amarelo vivo e escuro, nem um azul vivo e claro, sem perder saturação. Quem pretende texto amarelo com bom contraste sobre fundo claro está a pedir o impossível, e quem escolhe um fundo azul saturado já garante um fundo escuro.

Exemplo resolvido · localizar uma cor no modelo

Localizar a areia #F2CC8F no modelo HSL e prever o seu comportamento em texto.

  1. Valores HSL: matiz 37°, saturação 79%, luminosidade 75%.
  2. A luminosidade de 75% situa-a na metade clara do eixo vertical.
  3. A relação de contraste com o branco é baixa (a luminância é elevada), por isso não serve de texto sobre fundo branco.
  4. Sobre o azul-marinho #1F3A5F o contraste é de cerca de 7,6 : 1, por isso serve como texto ou ícone sobre fundo escuro.

Conclusão: o modelo prevê o desempenho da cor antes de a aplicarmos.

6. Contrastes de cor

Uma composição de cor funciona por relações, e não por cores isoladas. O pintor e professor Johannes Itten sistematizou sete contrastes de cor que continuam a servir de vocabulário em design. Conhecê-los permite analisar uma peça e construir outra com intenção.

Contraste Em que consiste Efeito típico em design
Cor em si cores puras, muito diferentes entre si (vermelho, amarelo, azul) vivacidade, ambiente infantil ou festivo
Claro e escuro diferença de luminosidade legibilidade, volume, drama
Quente e frio diferença de temperatura espaço (quente avança, frio recua), emoção
Complementares cores opostas no círculo energia, vibração, destaque
Simultâneo a cor aparente muda por influência da vizinha ilusões, cuidados com fundos
Qualidade cor saturada contra cor desaturada foco, hierarquia
Quantidade proporção das áreas de cada cor equilíbrio, dominância

Claro e escuro, o contraste que decide a leitura

De todos, o contraste de claro e escuro é o mais importante para a legibilidade. O olho lê formas, e as formas distinguem-se sobretudo por diferença de luminosidade. Dois matizes muito diferentes com a mesma luminosidade (um vermelho e um verde de igual claridade, por exemplo) criam um efeito de vibração nas margens e o texto torna-se cansativo. Um teste muito simples: converter a peça para escala de cinzentos. Se os elementos ainda se distinguem, o contraste de luminosidade é suficiente.

Contraste simultâneo

O contraste simultâneo explica porque se devem ver as cores no seu contexto. Um mesmo cinzento colocado sobre azul tende a parecer ligeiramente alaranjado, e sobre vermelho parece esverdeado, porque o cérebro exagera a diferença em relação à cor vizinha. Quando uma cor tem de manter a sua aparência em vários fundos (o logótipo de uma marca, por exemplo), é preciso testar a cor sobre cada fundo previsto.

Contraste de quantidade

A proporção das áreas importa tanto como a escolha das cores. Uma cor forte em área pequena atua como acento; a mesma cor em área grande domina e cansa. Uma regra prática, muito usada em design de interfaces e de marcas, é a proporção 60 : 30 : 10: 60% de cor dominante (em geral uma neutra ou a cor de marca), 30% de cor secundária e 10% de cor de acento.

Exemplo resolvido · diagnosticar um cartaz que "não se lê"

Um cartaz tem título em vermelho puro (#FF0000) sobre fundo verde (#009700). O cliente diz que "cansa a vista". Porquê, e como corrigir?

  1. Contraste de matiz: vermelho e verde são quase complementares no círculo RYB, logo o contraste de matiz é máximo.
  2. Contraste de luminosidade: a razão de contraste calculada entre os dois é de cerca de 1,03 : 1 (luminâncias relativas de 0,213 e 0,221), quase nula: as luminosidades são praticamente iguais.
  3. Diagnóstico: matizes muito diferentes com luminosidade praticamente igual vibram e dão texto cansativo. Além disso, quem tem dificuldade na distinção entre vermelho e verde vê dois tons de luminosidade quase igual.
  4. Correção: manter a ideia de pares vermelho e verde, mas separando luminosidades. Por exemplo, texto branco sobre verde escuro (#1B6F65, razão de cerca de 6,0 : 1), ou texto verde muito escuro sobre fundo claro.
  5. Verificação: converter para escala de cinzentos e medir de novo.

Conclusão: o que garante a leitura é a diferença de luminosidade, e não a de matiz.

7. Esquemas e harmonias cromáticas

Um esquema (ou harmonia) cromático é uma regra para escolher cores que funcionam em conjunto. Todos partem do círculo cromático e definem as posições relativas dos matizes. Usam-se como ponto de partida, e não como regra rígida.

Os esquemas principais

Esquema Como se constrói Carácter Risco
Monocromático um só matiz, com variações de luminosidade e saturação coeso, elegante, calmo pouca hierarquia, monotonia
Análogo três a cinco matizes vizinhos harmonioso, natural pouco contraste
Complementar dois matizes opostos energético, de alto contraste vibração se as áreas forem iguais
Complementar dividido um matiz e os dois vizinhos do seu complementar contraste forte, mais fácil de equilibrar exige cuidado com saturação
Triádico três matizes a 120° vivo e equilibrado pode parecer infantil
Tetrádico (duplo complementar) dois pares de complementares rico, variado difícil de equilibrar
Acromático só branco, preto e cinzentos sóbrio, intemporal frio sem acento

Dominante, secundária e acento

Em todos os esquemas, funciona melhor uma estrutura com hierarquia: uma cor dominante, que ocupa a maior área; uma secundária, que apoia; e um acento, pequeno e forte. Mesmo num esquema triádico, o equilíbrio vem de cada cor ter um papel e uma proporção distinta, e não de usar todas em áreas iguais.

Construir esquemas a partir de um matiz

Dado um matiz de partida H, os outros obtêm-se por somas de ângulos (no círculo HSL):

Esquema Matizes
Complementar H e H + 180°
Complementar dividido H, H + 150° e H + 210°
Análogo H - 30°, H e H + 30°
Triádico H, H + 120° e H + 240°
Tetrádico H, H + 60°, H + 180° e H + 240°

Exemplo resolvido · construir três esquemas a partir da terracota

Partindo da terracota #E07A5F (matiz 13° em HSL), construir esquemas complementar, análogo e triádico e escolher um para o cartaz de uma feira de artesanato.

  1. Complementar: 13° + 180° = 193°, um azul-esverdeado (ciano suave). Par terracota e azul-esverdeado: energia, contraste quente e frio.
  2. Análogo: 13° - 30° = 343° (rosa-avermelhado), 13° e 13° + 30° = 43° (laranja-dourado). Par de vizinhos quentes: caloroso, mas com pouco contraste.
  3. Triádico: 13°, 133° (verde) e 253° (azul-violeta). Vivo, mais difícil de domar.
  4. Escolha: para uma feira de artesanato quer-se calor e tradição, por isso o análogo quente serve de base (terracota, dourado) e o azul-marinho do complementar entra só como cor de texto e de acento.
  5. Proporção: 60% creme (fundo neutro), 30% terracota e dourado, 10% azul-marinho.

Conclusão: o esquema é uma ferramenta de arranque, e as decisões de proporção e de papel fecham o trabalho.

8. Analisar esquemas e paletas em peças de design

Um dos primeiros desempenhos pedidos a um técnico é identificar o esquema e a paleta de cor de uma peça existente: um logótipo, um cartaz, uma página web, uma embalagem. A análise é o que permite aprender com o trabalho dos outros e justificar escolhas.

Método de análise em seis passos

  1. Contexto: que peça é, para quem, onde é usada e com que objetivo.
  2. Recolha: extrair as cores dominantes. Num programa de edição, usa-se o conta-gotas sobre a imagem da peça; na web, as ferramentas de inspeção mostram os valores exatos.
  3. Registo: anotar cada cor em hexadecimal e agrupá-las por matiz, luminosidade e saturação.
  4. Classificação: localizar os matizes no círculo cromático e dar nome ao esquema (monocromático, análogo, complementar, dividido, triádico, outro).
  5. Proporção e papel: estimar quanto de cada cor há (dominante, secundária, acento) e que função cumpre (fundo, texto, destaque, estado).
  6. Avaliação: medir o contraste dos pares texto e fundo, testar em cinzentos, e perguntar se a paleta serve a mensagem e o público.

O que deve ficar numa ficha de análise

Campo Conteúdo
Identificação peça, autor ou marca, data, suporte
Imagem de apoio captura ou fotografia da peça
Paleta amostras com valores hexadecimais
Esquema nome do esquema e justificação com o círculo
Proporção percentagens aproximadas de cada cor
Contrastes razões medidas para os pares de texto
Função da cor hierarquia, identidade, emoção, orientação
Conclusão pontos fortes, fraquezas e o que aprender

Cuidado com as fotografias

Uma fotografia tem milhares de matizes e não tem "esquema". A análise incide sobre as cores de design (fundos, tipografia, formas, logótipos, botões) e, no caso das imagens, sobre a dominante geral e o tratamento de cor (duotone, filtro, temperatura).

Exemplo resolvido · ficha de análise de um folheto

Folheto de uma mercearia fina (caso fictício): fundo creme, título e logótipo em azul-marinho, preços em terracota, pequenas ilustrações em verde-sálvia.

  1. Contexto: folheto A5 de promoções, impresso em papel não revestido, lido em casa e na loja.
  2. Recolha e registo: creme #F4F1DE, azul-marinho #1F3A5F, terracota #E07A5F, verde-sálvia #81B29A.
  3. Classificação: matizes aproximados 52°, 215°, 13° e 151°. O azul-marinho (215°) e a terracota (13°) estão quase opostos (diferença de 202°, perto dos 180°): contraste complementar, com o verde como apoio. O esquema é complementar com apoio, e não triádico.
  4. Proporção: cerca de 65% creme, 20% azul-marinho, 10% terracota, 5% verde-sálvia. Aproxima-se de 60 : 30 : 10 com um neutro dominante.
  5. Contrastes: azul-marinho sobre creme, 10,1 : 1 (excelente); terracota sobre creme, 2,6 : 1 (insuficiente para texto normal e também para texto grande, que exige 3 : 1). Os preços em terracota não cumprem o mínimo, seja qual for o tamanho.
  6. Avaliação: boa hierarquia, paleta calorosa e adequada a uma mercearia. Ponto a corrigir: preços em terracota mais escura (por exemplo, #B5391A, cerca de 5,2 : 1 sobre o creme do folheto e 5,9 : 1 sobre branco).

Conclusão: a análise mede, classifica e conclui com uma recomendação concreta.

9. Princípios de seleção da cor: psicologia, cultura e significado

Escolher uma cor é escolher um significado provável. A cor atua sobre as emoções, a memória e a cultura de quem a vê, e esse efeito pode ser usado para reforçar ou contrariar a mensagem. Há, porém, uma regra de base: nenhuma cor tem significado fixo.

Associações frequentes (contexto ocidental)

Cor Associações positivas Associações negativas Usos habituais
Vermelho energia, paixão, coragem, urgência perigo, agressividade, proibição promoções, alertas, restauração, desporto
Laranja entusiasmo, calor, convívio barato, impulsividade chamada à ação, alimentação, crianças
Amarelo otimismo, luz, atenção aviso, ansiedade sinalização, juventude, destaque
Verde natureza, saúde, calma, crescimento inveja, inexperiência ambiente, saúde, finanças, bio
Azul confiança, serenidade, tecnologia frieza, distância bancos, saúde, tecnologia, seguros
Violeta criatividade, luxo, espiritualidade artificial, excentricidade beleza, cultura, arte
Rosa ternura, delicadeza infantilizar, estereótipo beleza, doçaria, campanhas
Castanho terra, tradição, conforto monotonia café, chocolate, artesanato
Preto elegância, sofisticação, poder luto, peso luxo, moda, tecnologia
Branco limpeza, simplicidade, paz vazio, frieza, luto em algumas culturas saúde, minimalismo
Cinzento neutralidade, rigor tristeza, anonimato corporativo, tecnologia

O ponto de vista psicológico

A cor influencia a atenção (cores saturadas e quentes captam o olhar mais depressa), a perceção de espaço (as quentes avançam e as frias recuam) e a emoção. Mas os efeitos são estatísticos e dependentes do contexto: o vermelho num semáforo significa parar, num cartaz de saldos significa oportunidade, num ecrã de aplicação significa erro. Convém tratar as associações como hipóteses a validar com o público.

O ponto de vista cultural

O significado das cores varia com a cultura, a religião, a época e a geografia:

Em projetos para vários países, pesquisa-se cada mercado, e a paleta pode ter variantes.

Valor subjetivo e poder na mensagem visual

Cada pessoa tem memórias e gostos ligados à cor. O designer reconhece este valor subjetivo, mas não o deixa conduzir a decisão: as escolhas justificam-se pelo público, pelo objetivo e pelo contexto, e não pelo gosto pessoal de quem desenha ou de quem aprova. A cor tem poder na mensagem visual: pode reforçar, ou sabotar, o que o texto e a imagem dizem. Um alerta em azul pastel perde urgência; um produto biológico em preto e néon contradiz o conceito.

O significado da cor na mensagem visual e gráfica

Na mensagem gráfica a cor cumpre funções concretas:

Exemplo resolvido · escolher a cor de uma campanha de saúde

Uma campanha municipal sobre rastreio da visão tem de passar confiança e urgência moderada, para adultos de 40 a 65 anos, em cartazes e no site.

  1. Briefing: confiança, clareza, acessibilidade; público maduro, com possível perda de acuidade visual.
  2. Associações: azul (confiança, saúde), verde (saúde), laranja ou vermelho (urgência, a usar só em acento).
  3. Cultura e contexto: em Portugal, o verde e o azul são muito usados na saúde, por isso há risco de parecer igual a outras campanhas. Escolhe-se um azul-marinho profundo, diferenciado por um acento em terracota.
  4. Acessibilidade: público com visão mais fraca pede contraste elevado, por isso texto azul-marinho (#1F3A5F) sobre creme ou branco (razões acima de 10 : 1).
  5. Decisão: dominante azul-marinho, neutros claros, acento em terracota escura (#B5391A) para a chamada à ação, com o contraste do texto por cima verificado (branco sobre #B5391A dá 5,9 : 1).

Conclusão: cada escolha tem um porquê ligado a público, mensagem e uso.

10. Adequação da cor ao estilo, à composição e ao conceito

A cor serve o conceito. Um projeto gráfico tem uma ideia central, e a cor é uma das principais formas de a tornar visível. Esta adequação faz-se com um conjunto de perguntas e com a atenção às interdependências entre a cor e os restantes elementos visuais.

Perguntas de adequação

Pergunta O que decide
Quem é o público (idade, cultura, contexto)? associações aceitáveis, contraste mínimo
Qual é o suporte (ecrã, papel, sinalética, embalagem)? sistema de cor, perfis, acabamentos
Em que luz será vista? saturação, contraste, risco de metamerismo
Qual é o conceito (calma, urgência, tradição, inovação)? matiz dominante e esquema
Quem são os concorrentes e que cores ocupam? diferenciação
Qual é o estilo (minimalista, retro, editorial, maximalista)? saturação, número de cores, contrastes
Qual é a composição (grelha, espaços em branco, hierarquia)? distribuição e proporção

Interdependência da cor com os restantes elementos visuais

A cor não trabalha sozinha. Depende de:

Estilo e cor

Estilo Tendência de paleta
Minimalista poucas cores, neutras, um acento
Retro cores quentes desaturadas, tons de mostarda, laranja queimado, verde-oliva
Editorial contraste forte, preto e branco com um acento
Infantil cores primárias saturadas, esquema triádico
Luxo preto, dourado, tons escuros e profundos
Natural e artesanal terras, verdes suaves, creme

São tendências, não obrigações: o conceito pode pedir o oposto.

Exemplo resolvido · da ideia à paleta

A marca fictícia Atelier Cobre e Sal, de cerâmica artesanal feita com argilas portuguesas e esmaltes salinos, quer um logótipo e um cartaz.

  1. Conceito: tradição, matéria, calor, rigor artesanal.
  2. Associações: terras e cobres (terracota), mar (azul-marinho), sal (creme).
  3. Esquema: complementar suave, terracota com azul-marinho, com creme como neutro.
  4. Interdependências: o cartaz será impresso em papel não revestido, que escurece as cores, por isso a terracota é ligeiramente clareada na versão impressa; o logótipo, em vetor, existe em duas cores e em versão a uma só cor, para carimbos e etiquetas.
  5. Estilo: natural e artesanal, poucas cores e muito espaço em branco.
  6. Teste: o logótipo azul-marinho sobre creme (10,1 : 1) e creme sobre azul-marinho (10,1 : 1, a mesma razão com os papéis trocados) funciona nos dois sentidos.

Conclusão: a paleta é consequência de um conceito, e não ponto de partida.

11. Sistemas de cor para ecrã: RGB e hexadecimal

Para trabalhar com cor num computador é preciso dominar os sistemas de cor digitais. O RGB é o sistema-base de todo o trabalho em ecrã, e o hexadecimal é a sua forma abreviada, a mais usada na web.

RGB

No modelo RGB, cada cor é definida por três valores, de 0 a 255 em 8 bits por canal: a quantidade de vermelho (R), de verde (G) e de azul (B). Exemplos:

Cor R G B
Preto 0 0 0
Branco 255 255 255
Vermelho puro 255 0 0
Verde puro 0 255 0
Azul puro 0 0 255
Cinzento médio 128 128 128
Amarelo 255 255 0

Quando os três valores são iguais, a cor é um cinzento. Um RGB com um canal muito acima dos outros tem dominante dessa cor.

Hexadecimal

O hexadecimal escreve os mesmos três valores em base 16, com os dígitos 0 a 9 e as letras A a F (A = 10, B = 11, C = 12, D = 13, E = 14, F = 15). Cada canal ocupa dois dígitos, de 00 (0) a FF (255), e o conjunto é precedido de #: #RRGGBB.

Converter hexadecimal em decimal. Multiplica-se o primeiro dígito por 16 e soma-se o segundo. Converter decimal em hexadecimal. Divide-se por 16: o quociente é o primeiro dígito, o resto é o segundo.

Existe também a forma curta de três dígitos (#RGB), válida quando cada par tem dois dígitos iguais: #FA0 equivale a #FFAA00.

O espaço sRGB e outros espaços

O RGB é um modelo; para ter cores concretas precisa de um espaço de cor que defina as primárias e a curva de resposta. O sRGB é o espaço de referência para a web e para a maior parte dos ecrãs. Espaços com gama mais ampla (como o Adobe RGB, para fotografia e impressão, ou o Display P3, usado em ecrãs recentes) têm cores mais saturadas, mas só se veem bem em ecrãs que as suportam. Num documento, o perfil associado diz ao programa como interpretar os valores.

Exemplo resolvido · converter entre hexadecimal e RGB

a) Converter #E07A5F em RGB.

  1. Separar os pares: E0, 7A, 5F.
  2. E0 = 14 × 16 + 0 = 224.
  3. 7A = 7 × 16 + 10 = 122.
  4. 5F = 5 × 16 + 15 = 95.
  5. Resultado: rgb(224, 122, 95).

b) Converter rgb(31, 58, 95) em hexadecimal.

  1. 31 ÷ 16 = 1 resto 15, ou seja 1F.
  2. 58 ÷ 16 = 3 resto 10, ou seja 3A.
  3. 95 ÷ 16 = 5 resto 15, ou seja 5F.
  4. Resultado: #1F3A5F.

c) Verificar: #F4F1DE corresponde a F4 = 244, F1 = 241, DE = 222, ou seja, rgb(244, 241, 222): um creme com a componente azul um pouco mais baixa do que as outras, o que lhe dá um tom quente.

12. Quadricromia, CMYK, monotonia e dicotomia

O referencial usa o termo dicotomia para a impressão a duas cores, também chamada dicromia ou bicromia.

Em impressão, a cor é feita com tintas, e cada tinta corresponde a uma chapa (no offset) ou a um canal (na impressão digital). O número de tintas é uma decisão de projeto, que condiciona o resultado e o custo.

Quadricromia e CMYK

A quadricromia (ou impressão a quatro cores) usa as tintas ciano (C), magenta (M), amarelo (Y, de yellow) e preto (K, de key). Cada cor é descrita por quatro percentagens, de 0% a 100%, que indicam a cobertura de cada tinta.

Cor C M Y K
Ciano puro 100 0 0 0
Magenta puro 0 100 0 0
Amarelo puro 0 0 100 0
Preto só em K 0 0 0 100
Vermelho de impressão 0 100 100 0
Azul de impressão 100 100 0 0
Verde de impressão 100 0 100 0

Porque existe o K

Há três razões para a tinta preta:

  1. Preto limpo: C, M e Y juntos dão um castanho escuro, e não um preto verdadeiro.
  2. Economia: o preto é mais barato do que três tintas coloridas, e seca mais depressa.
  3. Nitidez do texto: o texto fino e as linhas finas imprimem-se só em K, numa única chapa, o que elimina o risco de desregisto, o desalinhamento entre chapas que cria contornos coloridos.

Preto rico e cobertura total de tinta

Em grandes áreas escuras, K 100 sozinho pode parecer fraco. O preto rico junta K 100 a percentagens de C, M e Y (por exemplo, C 60, M 40, Y 40, K 100; os valores exatos definem-se com a gráfica) para um preto mais profundo. Há, porém, um limite para a soma das percentagens, a cobertura total de tinta, que depende do papel e do processo de impressão: o papel revestido admite mais tinta do que o não revestido e o de jornal. A gráfica indica o limite, e o perfil de cor aplica-o na conversão.

Conversão de RGB para CMYK

A conversão não é uma fórmula única. Existe uma conta simples (K = 1 - máximo dos canais normalizados), que serve para perceber a ideia, mas a conversão profissional faz-se com um perfil de cor, que tem em conta o papel, a tinta e a prensa.

Exemplo resolvido · conversão simplificada da terracota

Converter a terracota rgb(224, 122, 95) em CMYK pela fórmula simples.

  1. Normalizar: R' = 224 ÷ 255 ≈ 0,878; G' = 122 ÷ 255 ≈ 0,478; B' = 95 ÷ 255 ≈ 0,373.
  2. K = 1 - máximo = 1 - 0,878 = 0,122, ou seja, 12%.
  3. C = (1 - R' - K) ÷ (1 - K) = (1 - 0,878 - 0,122) ÷ 0,878 = 0.
  4. M = (1 - G' - K) ÷ (1 - K) = (1 - 0,478 - 0,122) ÷ 0,878 ≈ 0,455, ou seja, 46%.
  5. Y = (1 - B' - K) ÷ (1 - K) = (1 - 0,373 - 0,122) ÷ 0,878 ≈ 0,575, ou seja, 58%.
  6. Resultado simplificado: C 0, M 46, Y 58, K 12.
  7. Nota: com um perfil de impressão a conversão devolve valores diferentes (em geral com C mais alto e K quase nulo), e é esse valor que se usa na produção.

Monotonia (monocromia)

Na monotonia, a peça usa uma só tinta. O preto sobre papel branco é o caso mais comum (jornais, livros de texto, formulários), mas pode usar-se uma cor direta. Os tons obtêm-se com tramas de várias percentagens da mesma tinta, e a peça fica coesa e barata.

Dicotomia (duas cores)

A dicotomia, a impressão a duas tintas (bicromia, duotone), é um recurso expressivo e económico. Pode combinar uma tinta preta com uma cor direta, ou duas cores diretas. Uma fotografia convertida em duotone usa a luminosidade da imagem para variar a proporção entre as duas tintas. O resultado pode ser tão forte como um trabalho a quatro cores, com menos custo e maior identidade.

Comparação das técnicas

Técnica N.º de tintas Vantagens Limites
Monotonia 1 custo mínimo, coesão sem cor variada
Dicotomia 2 identidade forte, económico gama de cores limitada
Tricromia 3 casos especiais pouco usada
Quadricromia 4 (CMYK) fotografias e cor variada cores diretas e metálicos não reproduzem
Quadricromia + cor direta 5 ou mais cor de marca exata, metálicos custo mais alto

Exemplo resolvido · escolher o número de tintas

Um cartaz de teatro de rua será afixado em 300 exemplares, com orçamento reduzido. O logótipo da companhia é laranja fluorescente.

  1. Imagem: fotografia de um ator, que pode tratar-se em preto e branco.
  2. Logótipo: laranja fluorescente, que o CMYK não reproduz.
  3. Solução: dicotomia com preto (para a fotografia e o texto) e o laranja fluorescente como cor direta (para o logótipo e para um bloco de acento).
  4. Resultado: duas chapas em vez de cinco, cor de marca exata e um impacto visual superior ao de um cartaz fotográfico a quatro cores.
  5. Registo: o ficheiro de produção indica as duas tintas, e a cor direta chama-se, no ficheiro, com o nome exato da referência.

Conclusão: escolher o número de tintas é uma decisão criativa e económica ao mesmo tempo.

13. Catálogos Pantone, tramas e gestão de cor

O sistema Pantone

O Pantone Matching System (PMS) é o sistema de cores diretas mais usado em artes gráficas. Cada cor tem um código e uma fórmula de mistura a partir de um conjunto de tintas-base, o que permite imprimi-la com o mesmo resultado em gráficas diferentes. Os catálogos (formula guides) são leques físicos com amostras impressas.

Quando usar cor direta

Situação Razão
Cor de marca crítica (logótipo) consistência em todos os suportes
Metálicos e fluorescentes o CMYK não os reproduz
Impressão a uma ou duas cores custo e identidade
Grandes áreas de cor lisa sem tramas visíveis, sem variação
Embalagens e etiquetas cor reconhecível na prateleira

Tramas

A impressão representa tons e cores com tramas: matrizes de pequenos pontos de tamanho variável, que o olho funde. Um tom de 50% é uma trama em que metade da área está coberta de tinta.

Gestão de cor

A gestão de cor é o conjunto de práticas que fazem uma cor parecer igual em dispositivos e suportes diferentes. Assenta em perfis ICC, ficheiros que descrevem como cada dispositivo reproduz a cor.

  1. Calibrar e caracterizar o monitor com um colorímetro ou espetrofotómetro; valores típicos de trabalho são luminância moderada e temperatura de cor de referência, definidos pelo fluxo de trabalho da empresa.
  2. Definir o espaço de trabalho (por exemplo, sRGB para web) e conservar os perfis dos ficheiros.
  3. Receber o perfil de impressão da gráfica, adequado ao papel e ao processo.
  4. Converter no fim, com a intenção de reprodução certa: perceptual (preserva as relações entre cores) ou colorimétrica relativa (preserva as cores dentro da gama).
  5. Provar: prova digital contratual (se necessária), ou prova de ecrã com simulação do perfil.
  6. Visualizar as provas sob luz normalizada de 5000 K (D50), em cabine de visualização, e comparar com o catálogo.

Exemplo resolvido · preparar uma cor de marca para três suportes

A terracota da marca tem de aparecer em web, em folhetos offset e numa etiqueta serigrafada a uma cor.

  1. Web: usa-se o hexadecimal #E07A5F, em sRGB.
  2. Folhetos offset: converte-se para o perfil de impressão indicado pela gráfica e confirma-se o valor CMYK. Regista-se o resultado no guia de marca, e pede-se uma prova.
  3. Etiqueta serigráfica: escolhe-se a referência Pantone mais próxima no catálogo físico, para papel revestido ou não revestido consoante a etiqueta, e regista-se o código.
  4. Guia de marca: uma tabela com os três valores (hexadecimal, CMYK, Pantone) e a indicação "o catálogo físico prevalece".
  5. Verificação: pôr lado a lado as três amostras sob luz normalizada e confirmar que a diferença é aceitável.

Conclusão: uma cor de marca tem sempre uma definição por suporte.

14. Edição de imagem e de vetores: aplicações informáticas

Para implementar a cor num projeto é preciso operar duas famílias de aplicações. Cada uma trata a cor à sua maneira, e saber qual usar em cada tarefa é metade do trabalho.

Imagem estática (bitmap)

Uma imagem bitmap (ou raster) é uma grelha de píxeis, cada um com a sua cor. A qualidade depende da resolução, o número de píxeis disponíveis para a dimensão final. É o formato da fotografia e das texturas.

Vetores

Uma imagem vetorial é feita de caminhos definidos matematicamente (pontos, curvas e preenchimentos). Pode ampliar-se ou reduzir-se sem perda de qualidade, porque a forma é recalculada.

Comparação

Bitmap Vetor
Elementos píxeis caminhos e formas
Resolução fixa independente
Fotografia sim não
Logótipos e ícones não sim
Tamanho do ficheiro cresce com a resolução pequeno
Formatos PSD, TIFF, JPG, PNG AI, SVG, PDF, EPS

Modo de cor do documento

Ao criar um documento, escolhe-se o modo de cor: RGB para web, ecrã e vídeo; CMYK para impressão em quadricromia. O modo decide-se no início. Para web, trabalha-se em RGB. Para impressão, trabalha-se em RGB com a prova de cores do perfil de impressão ativa e converte-se no fim, com o perfil da gráfica; só se começa em CMYK quando a gráfica o exigir.

Formatos de ficheiro e cor

Formato Características Uso
JPG compressão com perdas, sem transparência fotografia na web
PNG sem perdas, com transparência ecrã, logótipos em bitmap
TIFF sem perdas, aceita CMYK e camadas impressão, arquivo
PSD / AI / INDD formatos de trabalho, com camadas edição
SVG vetor para a web ícones, logótipos
PDF vetor e bitmap, perfil e cores diretas incorporados entrega para impressão

Exemplo resolvido · definir o modo e a resolução

Preparar uma imagem para um cartaz A3 impresso e para a mesma imagem na web.

  1. Cartaz A3: 297 × 420 mm. A 300 ppi, o tamanho em píxeis é cerca de (297 ÷ 25,4 × 300) × (420 ÷ 25,4 × 300) = 3508 × 4961 píxeis. A fotografia original tem de ter, no mínimo, essa dimensão. Cartazes vistos de longe aceitam resoluções mais baixas.
  2. Modo de cor: trabalhar em RGB (gama mais ampla), com a prova de cores do perfil de impressão ativa, e converter para CMYK com o perfil da gráfica no fim.
  3. Versão web: duplicar o original, reduzir para 1600 píxeis de largura, perfil sRGB, exportar em JPG com qualidade média ou alta.
  4. Nomenclatura: cartaz_feira_v02_A3_cmyk.tif e cartaz_feira_v02_web_srgb.jpg.

Conclusão: um projeto raramente tem uma só versão do ficheiro. Cada destino tem a sua.

15. Ajustes de cor e efeitos visuais

Os ajustes de cor corrigem e interpretam a imagem; os efeitos visuais criam um aspeto. Ambos se fazem em imagem e em vetores, com ferramentas semelhantes, e em ambos a regra é a não destrutividade.

Ajustes de matiz, saturação e luminosidade

Ajuste O que faz Utilização típica
Matiz / saturação / luminosidade roda os matizes, aumenta ou baixa a intensidade, clareia ou escurece mudar a cor de um objeto, apagar cores vivas
Brilho e contraste altera luminosidade geral e diferença entre claros e escuros correções rápidas
Níveis define pontos de preto, de branco e de meios-tons corrigir imagens baças
Curvas controla o contraste por zonas tonais acabamento fino
Equilíbrio de cores desloca sombras, meios-tons e luzes para uma cor corrigir dominantes
Temperatura e matiz (tint) altera o aquecimento ou arrefecimento da imagem corrigir a luz da cena
Vibração (vibrance) aumenta a saturação das cores menos saturadas reforçar sem saturar a pele
Mapa de gradiente substitui os tons por um gradiente de cores duotone, efeitos de cor
Seletiva altera só uma gama de cores alterar só os azuis do céu

Camadas de ajuste e máscaras

Em vez de aplicar um ajuste diretamente nos píxeis, usam-se camadas de ajuste, que ficam acima da imagem e podem ser editadas, ocultadas ou apagadas. As máscaras limitam o efeito a uma zona. É a prática não destrutiva: o original mantém-se intacto e o trabalho pode ser revisto.

Efeitos visuais com cor

Legibilidade e clareza em qualquer efeito

O efeito serve a mensagem. Antes de fechar, perguntam-se três coisas: o texto continua a ler-se? A hierarquia mantém-se? A cor ainda é fiel à marca? Se a resposta for não a alguma, o efeito deve ser atenuado ou retirado.

Exemplo resolvido · duotone para unificar fotografias

Três fotografias de produtos, feitas com luzes diferentes, vão aparecer juntas num catálogo. Quer-se coerência com a paleta (azul-marinho e areia).

  1. Converter cada fotografia para escala de cinzentos (camada de ajuste, sem destruir o original).
  2. Mapa de gradiente: sombras no azul-marinho #1F3A5F, luzes na areia #F2CC8F.
  3. Ajustar contraste com níveis, de modo a que as três imagens tenham a mesma gama de claros e escuros.
  4. Verificar o texto sobre a imagem: o título areia sobre a zona azul-marinho tem razão de 7,6 : 1, e cumpre o mínimo.
  5. Guardar como ficheiro de camadas e exportar a versão final; arquivar o original.

Conclusão: o duotone fecha o conjunto e dá identidade, sem precisar de reeditar a luz de cada fotografia.

Roteiro prático nas aplicações

Os nomes dos comandos mudam de aplicação para aplicação e de versão para versão; as funções mantêm-se. Procura sempre a função indicada, e não a posição de um menu. O roteiro serve para imagem estática (Photoshop, Affinity Photo, GIMP) e para vetores (Illustrator, Affinity Designer, Inkscape).

Em imagem estática

  1. Criar o documento com as dimensões finais, a resolução do destino, o modo de cor e o perfil (sRGB para ecrã; RGB com a prova do perfil da gráfica para impressão).
  2. Abrir a fotografia e guardar uma cópia do original; trabalhar sempre sobre a cópia ou em camadas.
  3. Recolher cores com a ferramenta de amostra de cor (conta-gotas), de preferência com a média de uma pequena área e não de um píxel isolado, e guardar as cores recolhidas como amostras.
  4. Corrigir a dominante com uma camada de ajuste de temperatura e matiz (ou de equilíbrio de cores), até uma zona que deve ser neutra ficar neutra.
  5. Criar o efeito com camadas de ajuste: matiz e saturação, ou mapa de gradiente com as cores da paleta nas sombras e nas luzes.
  6. Limitar o efeito a uma zona com a máscara da camada de ajuste, pintando a preto o que deve ficar de fora.
  7. Experimentar modos de mistura (multiplicar, ecrã, sobrepor) e baixar a opacidade até o efeito servir a mensagem.
  8. Verificar: ver a imagem em escala de cinzentos, simular uma deficiência de visão das cores e medir o contraste entre o texto e a zona da imagem que está por baixo.
  9. Exportar: guardar o ficheiro com camadas para trabalho e exportar a cópia final com o perfil de cor incorporado (conversão para o perfil da gráfica, quando é impressão).

Em vetores

  1. Criar o documento com o modo de cor e o perfil do destino.
  2. Criar amostras globais para cada cor da paleta, com o valor exato e um nome que diga o papel (por exemplo, «principal», «acento»). Se a cor for uma tinta direta, criar a amostra como cor direta.
  3. Aplicar as amostras ao preenchimento e ao contorno de cada forma, em vez de escrever os valores à mão.
  4. Mudar uma cor em todo o documento editando a amostra global: todas as formas que a usam acompanham a alteração.
  5. Recolorir o desenho para criar variantes (uma só cor, invertida, modo escuro), substituindo cada amostra pela correspondente.
  6. Verificar: medir o contraste de cada par de texto e fundo e ver o desenho em escala de cinzentos.
  7. Exportar em SVG para a web e em PDF para a gráfica, com o perfil incorporado e as cores diretas preservadas, e abrir o ficheiro exportado para confirmar o resultado.

Conclusão: o que se aprende uma vez numa aplicação aplica-se a todas, porque o procedimento é o mesmo: documento com modo e perfil, amostras, ajustes não destrutivos, verificação e exportação com perfil.

16. Criar paletas de cor para projetos

Uma paleta de cor é um conjunto fechado de cores, com funções e regras de uso. É um documento de projeto: sem funções definidas, é só uma lista de cores bonitas.

Papéis na paleta

Papel Quantidade Função Exemplo
Principal (dominante) 1 identidade, grandes áreas azul-marinho
Secundária 1 a 2 apoio, variedade areia, verde-sálvia
Acento 1 chamada à ação, destaque terracota escura #B5391A (a terracota clara #E07A5F só em áreas decorativas)
Neutras 2 a 3 fundos, texto, linhas creme, cinzentos
Estado (interfaces) 2 a 3 sucesso, aviso, erro verde, laranja, vermelho

Procedimento de criação

  1. Briefing: público, suporte, mensagem, concorrentes, restrições (orçamento, número de tintas).
  2. Referências: moodboard (ver capítulo 19).
  3. Cor-base: escolher o matiz dominante por conceito e por associação.
  4. Esquema: escolher a harmonia (monocromática, análoga, complementar, dividida, triádica).
  5. Escalas: construir variações de luminosidade para cada cor (tipicamente de cinco a nove degraus), para fundos, estados e texto.
  6. Neutras: criar neutras ligeiramente tingidas da cor-base, que dão coerência (em vez de cinzentos puros).
  7. Contraste: testar cada par de texto e fundo (ver capítulo 17).
  8. Visão das cores: simular daltonismo e converter para cinzentos.
  9. Conversão: obter CMYK e, se for o caso, Pantone, e verificar a gama.
  10. Documentar: nome, valores, regras de uso, combinações permitidas e proibidas.

Aplicações para criar paletas

A ferramenta sugere; o designer decide, com base no briefing.

Quantas cores

Menos é mais: três a cinco cores bem escolhidas, cada uma com escala de luminosidade, dão mais coerência do que doze cores sem papel. Em impressão, o número de cores diretas afeta o custo.

Exemplo resolvido · construir a paleta do Atelier Cobre e Sal

  1. Briefing: logótipo, cartaz, embalagem em cartão kraft, site simples.
  2. Cor-base: azul-marinho #1F3A5F, de tom profundo, que remete para o mar e para o sal.
  3. Esquema: complementar suave com terracota #E07A5F (acento quente), creme #F4F1DE (neutra), areia #F2CC8F (secundária) e verde-sálvia #81B29A (apoio).
  4. Proporção: 60% creme e branco, 30% azul-marinho (texto, logótipo, fundos escuros), 10% terracota (acentos), com areia e sálvia em pequenos apoios.
  5. Escala do azul-marinho: #1F3A5F (100%), 85%, 70%, 40% e 15% de tinta clara, para fundos e estados.
  6. Contrastes: azul-marinho sobre creme 10,1 : 1; creme sobre azul-marinho 10,1 : 1; areia sobre azul-marinho 7,6 : 1; terracota sobre creme 2,6 : 1 (abaixo de 3 : 1: só para elementos puramente decorativos, nunca para texto nem para informação).
  7. Ajuste: para texto, botões e ícones com significado, criar uma versão mais escura (#B5391A, 5,2 : 1 sobre o creme e 5,9 : 1 sobre branco).
  8. Conversão: CMYK por perfil, Pantone consultado em catálogo físico para a etiqueta serigráfica.
  9. Documento: página de paleta com amostras, valores e regras ("não usar a terracota #E07A5F para texto, nem para botões ou ícones com significado; usar a terracota escura #B5391A").

Conclusão: a paleta final é pequena, mede-se, e qualquer colega a consegue aplicar sem perguntar.

17. Legibilidade e clareza: contraste e textos

Uma paleta só é boa se o texto se ler. A legibilidade não se avalia só a olho: tem uma medida objetiva, a razão de contraste, adotada pelas WCAG (Web Content Accessibility Guidelines, as diretrizes de acessibilidade para o conteúdo web do W3C), e útil também em peças impressas e em sinalética.

Razão de contraste

A razão de contraste compara a luminância relativa de duas cores. A fórmula é:

Razão = (L1 + 0,05) ÷ (L2 + 0,05), em que L1 é a luminância da cor mais clara e L2 a da mais escura.

A razão vai de 1 : 1 (cores iguais) a 21 : 1 (preto sobre branco). A luminância relativa de uma cor sRGB calcula-se assim:

  1. Dividir cada canal (R, G, B) por 255.
  2. Linearizar cada valor: se for menor ou igual a 0,04045, dividir por 12,92; caso contrário, calcular ((valor + 0,055) ÷ 1,055) elevado a 2,4.
  3. L = 0,2126 × R + 0,7152 × G + 0,0722 × B, com os valores já linearizados. O verde pesa mais porque o olho é mais sensível a ele.

Mínimos das WCAG

Elemento Nível AA (mínimo) Nível AAA (reforçado)
Texto normal 4,5 : 1 7 : 1
Texto grande (18 pt, ou 14 pt a negrito) 3 : 1 4,5 : 1
Componentes de interface e gráficos relevantes 3 : 1 (sem nível reforçado)

Texto de 18 pt equivale a cerca de 24 px em ecrã. Os valores comparam-se sem arredondar: 4,499 : 1 não cumpre 4,5 : 1. Há exceções para texto puramente decorativo e para logótipos.

Boas práticas de legibilidade

Exemplo resolvido · calcular a razão de contraste à mão

Calcular a razão entre o branco (#FFFFFF) e o azul-marinho (#1F3A5F), e decidir se serve para texto normal.

  1. Luminância do branco: L = 1.
  2. Canais do azul-marinho: R = 31, G = 58, B = 95. Divididos por 255: 0,1216; 0,2275; 0,3725.
  3. Linearizados: 0,0137; 0,0423; 0,1144.
  4. Luminância: L = 0,2126 × 0,0137 + 0,7152 × 0,0423 + 0,0722 × 0,1144 = 0,0029 + 0,0303 + 0,0083 ≈ 0,0414.
  5. Razão: (1 + 0,05) ÷ (0,0414 + 0,05) = 1,05 ÷ 0,0914 ≈ 11,5 : 1.
  6. Decisão: acima de 4,5 : 1 e acima de 7 : 1; cumpre o nível AA e o AAA para texto normal.

Exemplo resolvido · corrigir um botão

Um botão tem texto branco sobre terracota #E07A5F. A razão calculada é de cerca de 2,95 : 1. Corrigir.

  1. Diagnóstico: 2,95 é inferior a 3 : 1 (mínimo para texto grande) e muito inferior a 4,5 : 1 (texto normal). Falha nos dois casos.
  2. Opção A, rejeitada: manter a terracota e usar texto azul-marinho (#1F3A5F) dá 3,9 : 1. Chegaria para texto grande (18 pt, ou 14 pt a negrito), mas o texto de um botão é texto normal e exige 4,5 : 1; e o próprio botão, a 2,6 : 1 contra o creme da página, fica abaixo dos 3 : 1 exigidos aos componentes de interface, ou seja, nem o botão se distingue do fundo.
  3. Opção B: manter o texto branco e escurecer a terracota para #B5391A: razão de cerca de 5,9 : 1 sobre branco e 5,2 : 1 sobre o creme, cumpre 4,5 : 1, e o botão destaca-se do fundo claro.
  4. Opção C, só fora de botões: texto preto sobre terracota dá 7,1 : 1 e serve num bloco decorativo com texto, mas não resolve a falta de contraste do bloco contra a página, por isso não serve para um botão.
  5. Escolha: a opção B preserva a identidade (continua terracota, mais profunda) e dá margem. Regista-se a variante "terracota escura" #B5391A na paleta, para texto, botões e ícones, e a terracota #E07A5F fica reservada a áreas decorativas.

O cinzento mais claro para texto sobre branco

O cinzento #767676 sobre branco dá 4,54 : 1, e é o mais claro que ainda cumpre 4,5 : 1; o cinzento #777777 dá 4,48 : 1, e falha. Uma diferença de um valor em cada canal basta para passar de aprovado a reprovado, e daí a importância de medir.

18. Design inclusivo

O design inclusivo (ou design para todos) procura que o resultado seja compreendido e utilizável pelo maior número possível de pessoas, em vez de pressupor um utilizador padrão. Não é um nicho: pessoas com baixa visão, com visão reduzida das cores, mais velhas, a ler ao sol ou com um ecrã mau são todas beneficiadas por uma boa prática de contraste.

Os cinco eixos do referencial

Eixo O que significa na prática
Diversidade e inclusão pensar em idades, capacidades, línguas, contextos e culturas diferentes desde o briefing
Acessibilidade contraste suficiente, tamanho legível, não depender só da cor
Flexibilidade e adaptação a peça funciona em várias versões (modo escuro, preto e branco, impressa, em ecrã pequeno)
Clareza e comunicação efetiva mensagem simples, hierarquia evidente, linguagem acessível
Representatividade e sensibilidade cultural imagens, cores e símbolos que respeitam e representam as pessoas a quem a peça se dirige

Visão das cores e daltonismo

Cerca de 1 em cada 12 homens e 1 em cada 200 mulheres têm alguma forma de deficiência na visão das cores, a maioria na distinção entre vermelho e verde. Os tipos principais são:

Tipo Dificuldade Cores confundidas
Protanopia / protanomalia falta ou fraqueza de cones sensíveis ao vermelho vermelhos escuros parecem escurecer; confusão com verdes e castanhos
Deuteranopia / deuteranomalia falta ou fraqueza de cones sensíveis ao verde confusão entre vermelhos, verdes e castanhos
Tritanopia falta de cones sensíveis ao azul (rara) confusão entre azuis e verdes, amarelos e rosas
Acromatopsia ausência de visão de cor (muito rara) só se distingue claro e escuro

Regras de ouro

  1. A cor não pode ser o único meio de transmitir informação (critério das WCAG sobre o uso da cor). Quando há estados, acrescentar ícone, texto, forma ou padrão.
  2. Dar contraste de luminosidade entre elementos que se pretendem distinguir.
  3. Em gráficos, usar rótulos diretos, formas e padrões de preenchimento, além de cores distinguíveis.
  4. Evitar pares problemáticos, como vermelho e verde de luminosidade igual.
  5. Testar com simuladores de daltonismo e em escala de cinzentos.
  6. Prever versões da peça (alto contraste, modo escuro, preto e branco).

Sensibilidade cultural e representatividade

Exemplo resolvido · tornar um gráfico acessível

Um gráfico de barras mostra o estado de cinco projetos com verde (concluído), amarelo (em curso) e vermelho (atrasado), sem legenda direta.

  1. Problema: a distinção depende só da cor; a pessoa com deuteranopia confunde verde, amarelo e vermelho, e a impressão a preto e branco perde tudo.
  2. Solução 1: rótulo de texto em cada barra ("Concluído", "Em curso", "Atrasado").
  3. Solução 2: padrões diferentes por estado (cheio, riscado, ponteado).
  4. Solução 3: paleta com diferença de luminosidade (verde-escuro, amarelo-claro, vermelho-médio), que se distingue em cinzentos.
  5. Verificação: simular deuteranopia e converter para cinzentos; as três categorias distinguem-se por padrão, texto e luminosidade.

Conclusão: redundância (cor mais texto mais forma) é a regra do design inclusivo.

19. Pesquisa de referências e tendências estéticas e criativas

Nenhum designer trabalha no vazio. A pesquisa de referências e tendências alimenta o conceito, evita repetir o que já existe e dá argumentos ao cliente. Um técnico sabe procurar, avaliar e registar.

Referência e tendência

Uma referência é uma peça, imagem ou projeto existente que inspira ou fundamenta uma decisão (uma paleta, uma composição, um acabamento). Uma tendência é uma direção estética que se vai afirmando num certo período, e pode ser efémera (moda de uma estação) ou duradoura (mudança de gosto de uma década).

Fontes e recursos

Fonte Para que serve Cuidado
Websites especializados (galerias de design, plataformas de portefólios, blogues de branding) exemplos atuais e casos de estudo avaliar a qualidade e a data
Revistas, livros e publicações especializadas profundidade, história e crítica acesso e custo
Conferências e eventos da indústria direções do setor, contacto com profissionais presença e custo
Redes sociais e comunidades online sinais rápidos e tendências emergentes ruído e efemeridade
Previsões de cor (institutos de cor, marcas de tintas) cores do ano, famílias de cor são apostas, não regras
Observação do real (rua, lojas, embalagens, sinalética) referências do público-alvo registar com fotografia

Método de pesquisa

  1. Formular a pergunta: o que quero resolver? (por exemplo, "paletas para marcas de cerâmica artesanal").
  2. Recolher uma amostra alargada (15 a 30 referências) de fontes variadas.
  3. Registar em cada item a fonte, o autor, a data e a ligação.
  4. Agrupar por temas (cor, tipografia, textura, composição).
  5. Extrair as paletas dominantes e compará-las.
  6. Distinguir o que é tendência efémera do que é duradouro.
  7. Decidir o que serve a marca, e justificar.

Moodboard

O moodboard é um painel de referências que traduz visualmente o conceito: imagens, cores, texturas e palavras-chave. Serve para alinhar a equipa e o cliente antes de se investir no desenho final. Deve ser curto (uma página) e organizado (tema e paleta à vista).

Ética: inspirar-se sem copiar

Inspirar-se é analisar um princípio (equilíbrio, proporção, atmosfera) e reinterpretá-lo; copiar é reproduzir o trabalho de outra pessoa. O trabalho de outros está protegido por direitos de autor, e as imagens de bancos de imagens têm licenças com condições de uso. Regista-se sempre a origem.

Exemplo resolvido · da pesquisa à decisão de cor

Um estúdio vai criar a identidade de uma marca de chá artesanal.

  1. Pergunta: que cores usam as marcas de chá, e onde há espaço para diferenciar?
  2. Recolha: 24 embalagens de chá, de lojas físicas e online, de 8 países.
  3. Análise: 15 usam verde e castanho; 6 usam tons escuros e dourado; 3 usam cores vibrantes.
  4. Tendência: o uso de cores vibrantes em embalagens de infusões é recente e ainda raro, mas pode ser moda passageira.
  5. Decisão: manter uma base duradoura (neutros quentes e um verde-sálvia) para a identidade e usar um acento vibrante (terracota) que pode ser renovado sem refazer a marca.
  6. Registo: lista de referências com fonte e data, moodboard e justificação escrita.

Conclusão: a tendência é matéria-prima, e o filtro é a marca.

20. Gestão de ficheiros digitais e arquivo

Num projeto de cor há muitos ficheiros: briefings, referências, originais, versões de trabalho, ficheiros de entrega. Sem método, perdem-se versões, entregam-se ficheiros errados e repetem-se trabalhos. A gestão de ficheiros é parte do ofício.

Arquitetura de pastas

Uma estrutura simples e previsível, igual em todos os projetos, permite a qualquer colega encontrar tudo:

Cliente/
  Projeto/
    01_Briefing/
    02_Referencias/
    03_Trabalho/
      imagens/
      vetores/
      paletas/
    04_Entrega/
      impressao/
      web/
    05_Arquivo/

Nomenclatura

Um bom nome diz o quê, de quem, de que versão e quando. Um padrão possível: projeto_peca_versao_data.formato, por exemplo cobre-sal_cartaz_v03_2026-10-17.pdf.

Formatos

Tipo Formatos Notas
Trabalho PSD, AI, INDD, SVG, fontes e ligações manter camadas e ligações
Entrega para impressão PDF com perfil e cores diretas incorporar fontes, incluir sangrias
Entrega para web SVG, PNG, JPG, WEBP otimizar peso, sRGB
Arquivo TIFF, PDF, originais formatos abertos e duradouros
Paleta ficheiro de amostras (swatches) e PDF de referência partilhável e legível

Versões, cópias de segurança e arquivo

Exemplo resolvido · preparar a entrega e o arquivo

Concluído o cartaz da feira, preparar a entrega e o arquivo.

  1. Entrega à gráfica: cobre-sal_cartaz_v05_A3_cmyk_2026-10-17.pdf, com perfil de impressão, fontes incorporadas, sangria de 3 mm e marcas de corte; e um segundo PDF de prova ..._prova.pdf.
  2. Entrega ao cliente (web): cobre-sal_cartaz_v05_web_srgb.jpg e o logótipo em cobre-sal_logo_cor.svg.
  3. Arquivo: copiar para 05_Arquivo o ficheiro de trabalho (.ai com ligações), o .psd, as fontes, o guia de cor e o PDF final.
  4. Verificação: abrir o PDF numa máquina limpa e confirmar fontes, imagens e cores.
  5. Cópias: duplicar a pasta em dois suportes e uma cópia fora do estúdio.

21. Normas de segurança e saúde no trabalho e de proteção ambiental

O trabalho do designer parece seguro, mas tem riscos próprios, sobretudo ligados ao ecrã e à produção gráfica. A atitude profissional inclui cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho (SST) e as de proteção ambiental, nas redações em vigor.

Posto de trabalho com ecrã

Aspeto Boa prática
Ecrã topo ao nível dos olhos ou ligeiramente abaixo; distância à vista de cerca de um braço
Cadeira e mesa altura que permita antebraços apoiados e pés no chão; costas apoiadas
Iluminação sem reflexos no ecrã; luz natural lateral; luz de trabalho suficiente
Pausas pausas curtas e regulares; mudar a distância focal; alternar tarefas
Ecrã e cor brilho adequado à sala; modo escuro quando útil; calibração para evitar esforço
Postura e movimento levantar-se, alongar, evitar posições fixas prolongadas

A fadiga visual (olhos secos, dores de cabeça, visão desfocada) e as lesões musculoesqueléticas (pescoço, ombros, pulsos) são os riscos principais, e previnem-se com um posto bem regulado e com pausas.

Produção gráfica e prova

Em contacto com tintas, solventes, produtos de limpeza e equipamentos de impressão:

Proteção ambiental

Área Prática
Papel preferir papéis com certificação florestal (por exemplo, FSC ou PEFC) ou reciclados
Tintas considerar tintas de base vegetal e processos com menos solventes
Provas e desperdício reduzir o número de provas impressas; usar prova de ecrã sempre que possível; imprimir à frente e verso
Resíduos separar papel, plásticos, tinteiros e toners, entregando-os em circuitos de recolha próprios
Energia desligar equipamentos, usar modo de poupança
Design menos tintas, menos acabamentos e formatos que aproveitem o papel

A escolha da paleta também tem impacto: uma peça a duas cores consome menos tinta do que uma a cinco, e grandes fundos totalmente cobertos de tinta gastam mais do que áreas de papel deixadas à vista.

Exemplo resolvido · reduzir o impacto de um projeto de impressão

Um catálogo de 200 exemplares tem a capa a quatro cores, o miolo a quatro cores e uma cor direta no logótipo.

  1. Papel: pedir papel com certificação florestal e confirmar com a gráfica as opções disponíveis.
  2. Cores: avaliar se o miolo pode ser a duas cores (preto e terracota), reservando a quadricromia para a capa.
  3. Provas: usar prova de ecrã com o perfil da gráfica e pedir uma só prova impressa.
  4. Resíduos: acertar o formato com o aproveitamento da folha para reduzir aparas.
  5. Posto: planear a revisão do ficheiro em pausas, com o ecrã calibrado e boa iluminação.
  6. Registo: anotar as decisões ambientais no guia de projeto.

22. Do briefing à entrega: o procedimento completo

Os capítulos anteriores cobrem cada ferramenta. Este capítulo junta-as num procedimento único, que serve de roteiro para qualquer projeto de design de comunicação em que a cor seja central, e para o mini-projeto desta UC.

Etapa Pergunta que responde Resultado a registar
1. Briefing para quem, onde, para quê? resumo de uma página
2. Pesquisa o que já existe e o que está a mudar? moodboard e lista de referências
3. Análise que esquemas usam as referências? fichas de análise
4. Conceito de cor que significado queremos? palavras-chave e esquema escolhido
5. Paleta que cores, com que papéis e proporções? paleta com valores e escalas
6. Verificação lê-se? é inclusiva? razões de contraste e testes de visão das cores
7. Aplicação como fica em imagem e vetor? peças com ajustes e efeitos documentados
8. Produção como se imprime ou publica? perfis, CMYK, Pantone, provas
9. Entrega e arquivo está pronto e encontra-se? ficheiros nomeados e guia de cor
10. Segurança e ambiente trabalhámos bem e com menos impacto? notas de boas práticas

Exemplo resolvido · o fluxo completo numa página

Caso fictício: a Quinta da Maré Alta quer um rótulo de azeite e uma página web.

  1. Briefing: azeite de qualidade, família, público de 30 a 55 anos, venda em lojas gourmet e online.
  2. Pesquisa: embalagens de azeite de seis países; tendência de ilustração e cores terrosas.
  3. Análise: a maioria usa verde e dourado; poucos usam azul. Oportunidade de diferenciar com azul-marinho e terracota.
  4. Conceito: mar e terra, tradição moderna. Esquema complementar suave.
  5. Paleta: azul-marinho dominante, creme neutro, terracota de acento (a variante escura em texto e botões), areia de apoio.
  6. Verificação: azul-marinho sobre creme 10,1 : 1; texto terracota só com a variante escura; simulação de deuteranopia sem confusões.
  7. Aplicação: rótulo em vetor, ilustração com duas cores, fotografia do produto com duotone para o catálogo.
  8. Produção: rótulo em papel não revestido; azul-marinho como cor direta para o rótulo (dicotomia com preto) e hexadecimal para a web.
  9. Entrega e arquivo: PDF para a gráfica com perfil, versões web, guia de cor arquivado.
  10. Segurança e ambiente: papel certificado, uma só prova impressa, posto de trabalho com pausas.

Conclusão: o fluxo é a estrutura do trabalho, e cada passo gera um registo que sustenta as decisões.

Erros comuns

Glossário

Síntese

A implementação da cor começa na teoria: a cor resulta de luz, superfície e observador, classifica-se em primárias, secundárias, terciárias e complementares, e produz-se por síntese aditiva (RGB, luz) ou subtrativa (CMY mais K, tinta). Descreve-se pelo matiz, pela saturação e pela luminosidade, e a temperatura dá-lhe calor ou frio. Os modelos planos e volumétricos mostram as relações entre estes atributos, e os contrastes e as harmonias (monocromática, análoga, complementar, dividida, triádica, tetrádica) dão o vocabulário para analisar peças e construir esquemas, com proporções de dominante, secundária e acento. A seleção da cor decide-se pelo público, pela cultura, pela mensagem, pelo estilo e pelo suporte, e não por gosto. As técnicas de utilização passam pelo RGB e hexadecimal no ecrã, pela quadricromia CMYK, pela monotonia e pela dicotomia, pelos catálogos Pantone, pelas tramas e pela gestão de cor com perfis. Opera-se em aplicações de imagem e de vetores, com ajustes de matiz, saturação e luminosidade, camadas de ajuste e efeitos. A paleta constrói-se com papéis, escalas e documentação, e mede-se: o texto cumpre os mínimos de contraste das WCAG. O design inclusivo acrescenta redundância (cor, texto e forma), sensibilidade cultural e testes de visão das cores. A pesquisa de referências é feita com método e ética, os ficheiros arquivam-se com estrutura e nomenclatura, e tudo se faz com segurança e saúde no trabalho e proteção ambiental.

Exercícios resolvidos

1. Identifica a classe de cada cor no modelo tradicional: laranja, azul, verde-azulado, violeta.

Resolução: o azul é primária; laranja e violeta são secundárias (amarelo mais vermelho, vermelho mais azul); verde-azulado é terciária (verde mais azul).

2. Qual é o complementar do vermelho puro no círculo RGB e no círculo RYB?

Resolução: no círculo RGB, o complementar do vermelho é o ciano (#00FFFF); no RYB, é o verde. A resposta depende do círculo usado.

3. Converte #1F3A5F em RGB e rgb(244, 241, 222) em hexadecimal.

Resolução: 1F = 31, 3A = 58, 5F = 95: rgb(31, 58, 95). 244 = F4, 241 = F1, 222 = DE: #F4F1DE.

4. Um esquema usa os matizes 20°, 140° e 260°. Como se classifica?

Resolução: as diferenças são de 120° entre cada par: esquema triádico.

5. Calcula o matiz complementar de 200° e o complementar dividido.

Resolução: complementar = 200° + 180° = 20° (380° menos 360°). Complementar dividido: 200°, 200° + 150° = 350° e 200° + 210° = 50°.

6. Um texto tem razão de contraste de 4,2 : 1. Cumpre o nível AA para texto normal? E para texto grande?

Resolução: para texto normal o mínimo é 4,5 : 1, logo não cumpre. Para texto grande o mínimo é 3 : 1, logo cumpre.

7. Calcula a razão de contraste entre uma cor de luminância 0,64 e outra de luminância 0,04.

Resolução: (0,64 + 0,05) ÷ (0,04 + 0,05) = 0,69 ÷ 0,09 ≈ 7,7 : 1. Cumpre AA e AAA para texto normal.

8. Para imprimir um logótipo laranja fluorescente em 500 etiquetas a duas cores, que técnica de cor usar?

Resolução: dicotomia com uma tinta preta e uma cor direta fluorescente, porque o CMYK não reproduz fluorescentes.

9. Qual é o tamanho em píxeis de uma imagem A4 a 300 ppi?

Resolução: 210 ÷ 25,4 × 300 ≈ 2480 píxeis; 297 ÷ 25,4 × 300 ≈ 3508 píxeis. Tamanho: cerca de 2480 × 3508 píxeis.

10. Um gráfico usa só verde e vermelho para dois estados. Como o tornar inclusivo?

Resolução: acrescentar rótulos de texto, padrões ou ícones, e garantir diferença de luminosidade entre as duas cores, além de testar com simulação de daltonismo.

11. Dá um nome adequado a uma versão final do cartaz da Quinta da Maré Alta, de dia 17 de outubro de 2026, versão 4, em CMYK.

Resolução: por exemplo, quinta-mare-alta_cartaz_v04_cmyk_2026-10-17.pdf: sem espaços nem acentos, com versão, modo de cor e data.

12. Porque é que um texto fino de uma só cor se imprime só na chapa preta, e não com os quatro?

Resolução: porque o desregisto entre chapas criaria contornos coloridos e dificultaria a leitura; a uma só chapa de K, o texto mantém-se nítido.