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UC · Unidade de Competência · UC02124

Sebenta · Preparar produtos de acabamento (UC02124)

Constituintes, famílias técnicas, parâmetros de controlo e procedimentos de preparação para acabamento de madeira
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Marcenaria e Carpintari ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a analisar as especificações técnicas dos produtos de acabamento e a aplicar os procedimentos de preparação desses produtos, desde a leitura do rótulo até ao momento em que o produto entra no equipamento de aplicação. O acabamento é a última etapa da transformação da madeira: protege contra a humidade, os raios UV, o desgaste e os agentes biológicos, e define o aspeto final da peça.

O percurso acompanha o que um técnico faz na prática: primeiro conhece a matéria-prima, os constituintes e as famílias de produtos, depois lê a documentação técnica e de segurança, e por fim prepara o produto: pesa ou mede os componentes, mistura, mede e corrige a viscosidade, filtra, abastece os equipamentos e acondiciona o que sobra. É um trabalho que se faz em obras de carpintaria e de pavimentos, em indústrias de carpintaria e mobiliário, noutras indústrias da segunda transformação da madeira e em empresas especializadas em acabamento.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar as especificações técnicas dos produtos de acabamento; identificar a família de produtos em função do acabamento pretendido; caracterizar a relação entre suporte, produto e equipamento; identificar os constituintes dos produtos; medir e corrigir a viscosidade de acordo com as especificações técnicas; abastecer os equipamentos e acondicionar os produtos em armazém; e cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho, de proteção ambiental e da qualidade.

Como estudar esta sebenta: lê um capítulo, resolve os exemplos com papel e calculadora antes de ver a resolução, e só depois passa ao seguinte. Os capítulos 9 a 11 têm contas: faz sempre as unidades ao lado dos números.

1. O papel do acabamento na madeira

O acabamento é o conjunto de camadas aplicado sobre uma peça de madeira já preparada (lixada, montada), para lhe dar proteção e aspeto. Sem acabamento, a madeira fica exposta:

O sistema de acabamento

Um acabamento raramente é um só produto. Quase sempre é um sistema, uma sequência de produtos compatíveis entre si, cada um com a sua função:

Camada Função Exemplos
Tingimento (opcional) dar ou uniformizar a cor da madeira, sem a cobrir velatura ou tinta de tingir aquosa, alcoólica, de solvente
Fundo ou tapa-poros isolar a madeira, encher o poro, dar base lixável tapa-poros nitrocelulósico, fundo poliuretano, fundo poliéster
Acabamento dar a resistência e o aspeto final (brilho, toque) verniz ou laca poliuretano, nitrocelulose, aquoso, UV
Manutenção renovar ou reavivar o acabamento com o tempo cera, velatura de manutenção, óleo

A regra de ouro dos sistemas é a compatibilidade: o fabricante indica, na ficha técnica, que fundo vai com que acabamento. Misturar sistemas de famílias diferentes, sem essa indicação, é arriscar má aderência, enrugamento ou descasque.

Onde se aplica

O contexto de trabalho desta UC cobre várias situações profissionais:

Em qualquer destes contextos, a sequência de trabalho é sempre a mesma: analisar a especificação da peça e do produto, e só depois aplicar o procedimento de preparação. Errar a análise inicial custa caro mais tarde: uma película mal escolhida ou mal preparada obriga a lixar tudo e recomeçar.

Antes de tocar em qualquer produto, pergunta sempre: onde vai ficar esta peça, e que exigências isso traz para o acabamento?

2. Constituintes dos produtos de acabamento

Um produto de acabamento não é uma substância única, é uma formulação: uma mistura pensada de vários constituintes, cada um com uma função própria. Numa lata de verniz ou de laca encontram-se, em proporções diferentes, seis grupos:

Constituinte Função Fica na película?
Resinas (ligantes) formam a película, dão aderência, dureza e resistência sim
Pigmentos dão cor e opacidade (cobertura), alguns protegem dos UV sim
Corantes dão cor transparente, tingem sem cobrir sim
Solventes e diluentes dissolvem a resina e dão fluidez para aplicar não, evaporam
Cargas dão enchimento, corpo, facilidade de lixagem, matizam sim
Aditivos ajustam propriedades específicas (secagem, nivelamento, espuma, UV) em geral, sim

A soma do que fica na película (resina, pigmentos, corantes, cargas e a maior parte dos aditivos) é o teor em sólidos; o que evapora (solventes, água) é a parte volátil. Esta divisão é a chave para perceber as contas do capítulo 9.

2.1 Resinas ou ligantes

A resina é o constituinte principal: é ela que forma a película e que dá o nome à família do produto. Quando se diz "verniz poliuretano", "laca nitrocelulósica" ou "esmalte alquídico", está-se a nomear a resina. As mais usadas em madeira:

2.2 Pigmentos e corantes: não os confundas

A confusão mais frequente é tratar pigmento e corante como sinónimos. Não são:

Há um caso intermédio que convém conhecer: os pigmentos transparentes, como os óxidos de ferro micronizados, de partícula tão fina que quase não cobrem. São eles que dão cor às velaturas de exterior: continuam a ser pigmentos (insolúveis), por isso resistem muito melhor à luz do que os corantes e ajudam a proteger a madeira dos UV. Uma velatura incolor protege muito menos a madeira do sol do que uma velatura com cor.

Pigmento Corante
Solubilidade insolúvel, fica em suspensão solúvel no solvente
Efeito cobre (ou, se transparente, colore com pouca cobertura) tinge, o veio fica visível
Resistência à luz em geral boa (óxidos de ferro muito boa) em geral fraca, desbota ao sol
Onde aparece lacas, esmaltes, velaturas de exterior, tapa-poros pigmentados tintas de tingir, vernizes cor, velaturas de interior
Cuidado na preparação assenta no fundo da lata: agitar bem dissolvido, não assenta

Uma lata de laca ou de velatura pigmentada que esteve parada semanas tem o pigmento no fundo. Se não for bem agitada, as primeiras peças saem com pouca cor e as últimas com cor a mais. Agitar até o fundo da lata ficar limpo, com espátula ou agitador mecânico.

2.3 Solventes e diluentes

O solvente dissolve a resina e dá ao produto a fluidez necessária para ser aplicado; depois evapora e não fica na película. O diluente é o que se junta na oficina para baixar a viscosidade: deve ser sempre o diluente indicado na ficha técnica, porque cada família de produto tem a sua mistura de solventes. Solventes típicos: acetatos, cetonas, álcoois, hidrocarbonetos aromáticos e alifáticos (como o white spirit) e, nos produtos aquosos, a água.

A velocidade de evaporação do diluente também conta. Os fabricantes têm muitas vezes diluente "normal" e diluente "retardador" (de evaporação lenta), para usar com calor: se o solvente evapora demasiado depressa, a película não tem tempo de alastrar e ficam marcas de pistola, casca de laranja ou véu esbranquiçado.

O diluente de limpeza é outra coisa: um solvente barato, usado para lavar pistolas, gobelés e ferramentas. Não serve para diluir produto, porque a sua composição não é equilibrada com a resina.

2.4 Cargas

As cargas são pós minerais baratos (talco, carbonato de cálcio, sulfato de bário, sílica, estearatos) que não dão cor nem cobertura, mas:

Num verniz mate, o agente matizante assenta no fundo da lata. Se não se agitar bem, a primeira peça sai brilhante e a última muito mate: o grau de brilho depende da homogeneização.

2.5 Aditivos

Os aditivos são a menor fração do produto (em geral poucos por cento), mas fazem a diferença entre uma aplicação sem problemas e uma cheia de defeitos:

Exemplo resolvido · Identificar constituintes num rótulo

Um rótulo indica: "resina alquídica, dióxido de titânio, carbonato de cálcio, white spirit, secante de cobalto".

  1. Resina alquídica: forma a película, é a base do produto (família dos sintéticos).
  2. Dióxido de titânio: é um pigmento branco, opaco, cobre o veio.
  3. Carbonato de cálcio: é uma carga, dá corpo e enchimento.
  4. White spirit: é o solvente, evapora durante a secagem.
  5. Secante de cobalto: é um aditivo, catalisa a secagem por oxidação ao ar.

Conclusão: é um produto opaco (por causa do pigmento), da família dos sintéticos, com secagem por oxidação: um esmalte ou laca alquídica branca. Não é uma velatura nem um verniz transparente.

Bolhas depois de pistolar raramente são "defeito de fábrica". As causas mais comuns são ar a sair dos poros da madeira (sobretudo em madeiras de poro aberto sem fundo), demão demasiado espessa, diluente de evaporação demasiado rápida ou produto agitado com violência imediatamente antes de aplicar. Verifica estas causas antes de culpar o produto.

3. Formulação de produtos a partir dos constituintes

Formular é decidir que constituintes entram num produto e em que proporção. A formulação industrial é trabalho do laboratório do fabricante, mas o técnico de acabamento precisa de a perceber por duas razões: para ler uma ficha técnica e prever o comportamento do produto, e porque na oficina também se fazem pequenas formulações (tingir um verniz, preparar uma velatura de cor à medida, acertar o brilho misturando versões do mesmo produto).

O que muda quando se muda a proporção

Se se aumenta... O produto fica...
a resina com mais película, mais brilho e mais resistência, mais caro
o pigmento mais opaco e cobridor; em excesso, película fraca e farinhenta
o corante com cor mais intensa, sem perder transparência, mas menos resistente à luz
a carga com mais enchimento, mais fácil de lixar, menos brilhante e menos transparente
o agente matizante mais mate
o solvente ou diluente mais fluido, com menos sólidos: película mais fina por demão

Regras da formulação em oficina

  1. Só se misturam produtos do mesmo fabricante e da mesma família, ou os que a ficha técnica indica como compatíveis (por exemplo, pastas de cor ou concentrados de tingir próprios da gama).
  2. Tudo se pesa ou mede e se regista: uma cor à medida que não foi registada não se consegue repetir na encomenda seguinte.
  3. Faz-se sempre uma amostra em madeira igual à da peça, com o sistema completo (tingimento, fundo e acabamento), e deixa-se secar antes de aprovar: a cor em húmido engana.
  4. Brilhos intermédios obtêm-se, quando o fabricante o prevê, misturando a versão mate e a versão brilhante do mesmo verniz em proporções conhecidas.

Exemplo resolvido · Repetir uma cor de velatura à medida

Para uma amostra aprovada pelo cliente, o técnico juntou 20 g de concentrado castanho e 5 g de concentrado negro a 500 g de velatura incolor da mesma gama. A encomenda precisa de 3,0 kg de velatura cor.

  1. Proporção da receita: 500 g de base para 25 g de concentrados, 525 g no total.
  2. Fator de escala: 3000 g a dividir por 525 g = 5,714.
  3. Base: 500 g × 5,714 = 2857 g.
  4. Concentrado castanho: 20 g × 5,714 = 114,3 g.
  5. Concentrado negro: 5 g × 5,714 = 28,6 g.
  6. Verificação: 2857 + 114,3 + 28,6 = 2999,9 g, cerca de 3,0 kg.

Registo na ficha de preparação: "velatura cor X, base incolor 95,24 %, castanho 3,81 %, negro 0,95 %, em peso". Antes de produzir, faz-se nova amostra com a mistura escalada e compara-se com a aprovada.

4. Formação da película de acabamento

Depois de aplicado, o produto líquido tem de se transformar numa película sólida, contínua e aderente. A maneira como isso acontece chama-se mecanismo de formação da película, e determina quase tudo: o tempo de secagem, a resistência final, se o produto tem prazo depois de preparado, como se armazena e que cuidados exige. Há cinco mecanismos a conhecer.

4.1 Evaporação do solvente (secagem física)

O solvente evapora e a resina, que já estava formada, fica sozinha a constituir a película. Não há reação química. É o mecanismo dos nitrocelulósicos e de outros produtos de um só componente.

4.2 Coalescência (produtos aquosos)

Nos produtos aquosos, a resina não está dissolvida: está dispersa em pequenas partículas na água. Quando a água evapora, as partículas aproximam-se, deformam-se e fundem-se numa película contínua, com a ajuda dos coalescentes. Por isso:

4.3 Oxidação

As resinas alquídicas e os óleos secativos (linhaça, tungue) reagem com o oxigénio do ar: as moléculas ligam-se umas às outras e o líquido passa a sólido. É o mecanismo dos sintéticos e dos óleos.

4.4 Reação química (cura)

Dois ou mais componentes reagem entre si e formam uma rede molecular tridimensional, muito mais resistente do que a de um produto de secagem física. É o caso de:

A resistência final é maior, mas a mistura tem um tempo de vida útil limitado (em inglês, pot life): a reação começa no gobelé no momento da mistura, e passado esse prazo o produto engrossa, gelifica e deixa de poder ser aplicado. A película só atinge a dureza e a resistência química totais ao fim de vários dias de cura.

4.5 Cura por radiação ultravioleta

O produto contém fotoiniciadores que, expostos à luz ultravioleta de lâmpadas próprias, desencadeiam a reação em segundos. É típico da produção industrial em linha (painéis, portas, soalho pré-acabado).

Mecanismo Famílias Velocidade Resistência Prazo depois de preparado
Evaporação nitrocelulósicos rápida média a baixa não
Coalescência aquosos 1K média média não
Oxidação sintéticos (alquídicos), óleos lenta média não (mas forma pele na lata)
Reação química poliuretanos 2K, cura ácida, poliésteres, aquosos 2K média alta sim, tempo de vida útil
Radiação UV produtos de cura UV segundos alta não (proteger da luz)

Propriedades da película final

Independentemente do mecanismo, a película acabada avalia-se por:

Perceber o mecanismo explica os tempos de espera entre demãos. Num nitrocelulósico, a demão seguinte redissolve um pouco a anterior e agarra bem. Num 2K, se se espera tempo demais, a demão anterior já curou e é preciso lixar para a seguinte ter aderência mecânica. A ficha técnica indica o intervalo entre demãos e a partir de quando é obrigatório lixar.

5. Gama de produtos: velaturas, tapa-poros, vernizes, lacas e ceras

O referencial pede que se saiba identificar e caracterizar a gama de produtos de acabamento. A classificação por função (o que o produto faz na peça) é diferente da classificação por família química (de que resina é feito), que se vê no capítulo 6. Um verniz pode ser nitrocelulósico, poliuretano ou aquoso; uma velatura pode ser aquosa ou de solvente.

5.1 Velaturas

A palavra velatura usa-se em dois sentidos na profissão, e convém distingui-los:

  1. Velatura de tingimento (tinta de tingir): produto muito fluido, pouco ou nada formador de película, que dá cor à madeira mantendo o veio visível. Aplica-se antes do fundo, sobretudo em mobiliário e carpintaria de interior. Usa sobretudo corantes, por vezes com pigmentos transparentes.
  2. Velatura de exterior (lasur): produto de proteção semitransparente para madeira exterior (portas, janelas, portadas, revestimentos, vedações). Penetra na madeira e forma pouca ou nenhuma película rígida, por isso deixa passar o vapor de água e não descasca: envelhece por desgaste e renova-se com nova demão, sem decapar. A cor vem de pigmentos transparentes, que a protegem da luz.

As velaturas classificam-se pelo solvente. O referencial pede as quatro famílias:

Família Vantagens Desvantagens Cuidados na preparação
Aquosas pouco cheiro, poucos COV, não inflamáveis, limpeza com água levantam o fio da madeira (obriga a humedecer e lixar antes); secam devagar com frio e humidade; sensíveis ao gelo não deixar gelar; diluir só com água se a ficha o permitir
De solvente (orgânico) penetram bem, cor uniforme, não levantam o fio, secagem regular cheiro, COV, inflamáveis diluente próprio; ventilação; afastar de ignição
Alcoólicas secagem muito rápida, cores vivas, não levantam o fio secam tão depressa que marcam emendas e sobreposições a trincha; em geral aplicam-se à pistola; inflamáveis trabalhar depressa e com a peça toda molhada; pistola
Hidroalcoólicas compromisso: secagem mais rápida do que as aquosas, menos fio levantado, menos solvente do que as alcoólicas ainda levantam algum fio; inflamáveis conforme o teor de álcool respeitar a proporção de diluição indicada

Uma velatura de tingimento de interior não é um acabamento de exterior. Tem corantes que desbotam ao sol e não protege a madeira da água. Para exterior usa-se uma velatura de exterior, com pigmentos transparentes, fungicida de película e absorvedores UV.

5.2 Tapa-poros e fundos

O tapa-poros (ou fundo) é a primeira demão do sistema de acabamento, e não o acabamento final:

Tem de ser da mesma família do acabamento, ou compatível com ele segundo a ficha técnica: um tapa-poros nitrocelulósico debaixo de um poliuretano 2K pode ser atacado pelos solventes do acabamento e dar enrugamento ou má aderência.

Na madeira de exterior tratada com velatura não se aplica tapa-poros de interior: a velatura precisa de penetrar na madeira. Em exterior, o sistema segue a ficha do fabricante, muitas vezes com um primário impregnante por baixo da velatura.

5.3 Vernizes

O verniz é o produto de acabamento transparente que forma película. Realça o veio sem o esconder e pode ser incolor ou ligeiramente tingido. Existe em vários graus de brilho (mate, acetinado, brilhante) e em todas as famílias químicas. Aplica-se em várias demãos, com lixagem intermédia quando a ficha o pede.

5.4 Lacas e esmaltes

A laca é o produto pigmentado e opaco, que cobre totalmente o veio: mobiliário lacado, portas interiores, cozinhas. Na linguagem de oficina, "lacar" é aplicar um acabamento opaco, quase sempre sobre MDF ou sobre fundo pigmentado. Em construção civil chama-se muitas vezes esmalte ao produto opaco alquídico ou aquoso aplicado a trincha ou rolo.

5.5 Ceras e óleos

Produto Aspeto Proteção Manutenção Uso típico
Velatura de tingimento cor transparente, veio visível nenhuma sozinha não se aplica tingir antes do fundo
Velatura de exterior semitransparente, veio visível boa ao UV e à água, sem descascar renovar periodicamente caixilharia, revestimentos, vedações
Tapa-poros ou fundo incolor ou pigmentado só base não se aplica primeira demão do sistema
Verniz transparente, mate a brilhante média a muito alta, conforme a família baixa a média mobiliário, pavimentos, portas
Laca opaco média a muito alta, conforme a família baixa a média mobiliário lacado, cozinhas, portas
Cera mate, toque quente fraca alta restauro, manutenção
Óleo natural, mate média a fraca média a alta tampos, mobiliário natural

Exemplo resolvido · Escolher a família certa

Um cliente pede o acabamento de uma mesa de jantar em carvalho, para uso diário em interior, mantendo o aspeto natural da madeira.

  1. Madeira de poro aberto (carvalho): pede tapa-poros ou fundo antes do acabamento final.
  2. "Manter o aspeto natural": exclui a laca (opaca) e aponta para verniz transparente.
  3. "Uso diário": exige resistência ao risco, ao calor moderado e a produtos de limpeza, o que favorece um verniz de alta resistência (poliuretano 2K ou aquoso 2K) sobre cera ou nitrocelulose.
  4. Uso em interior: não precisa da formulação de exterior; se a mesa ficar junto a uma janela, convém um verniz com absorvedor UV para limitar o amarelecimento e o escurecimento da madeira.

Conclusão: fundo e verniz da mesma família de alta resistência, com grau de brilho acetinado ou mate, é a escolha mais adequada.

6. Famílias químicas: especificações, vantagens e desvantagens

Depois de escolhida a função (verniz, laca, fundo), escolhe-se a família química, que determina a resistência, o modo de secagem, a forma de preparar e os cuidados de segurança. O referencial nomeia sete famílias. Na linguagem das oficinas, os termos "cuba ácida" e "cuba ultravioleta" que aparecem no referencial correspondem ao que os fabricantes chamam cura ácida e cura UV (ou ultravioleta): é com estes nomes que as vais encontrar nas fichas técnicas.

Família Mecanismo Vantagens Desvantagens Uso típico
Nitrocelulósicos evaporação secagem muito rápida, fáceis de aplicar, lixar e retocar, baratos baixa resistência química e ao calor, amarelecem, muito solvente (COV), muito inflamáveis mobiliário corrente, molduras, restauro, interior
Poliuretanos (2K) reação química com endurecedor de isocianato muito resistentes ao risco, à abrasão e aos químicos, boa elasticidade, grande gama de brilhos tempo de vida útil da mistura, proporção rigorosa, isocianatos sensibilizantes (formação obrigatória), algum amarelecimento nos aromáticos cozinhas, tampos, mobiliário de alta exigência, pavimentos
Poliésteres reação química (catalisador e acelerador) grande espessura numa só demão, enchimento, brilho espelhado depois de polido frágeis a pancadas, difíceis de reparar, preparação delicada (catalisador e acelerador nunca se juntam diretamente), vida útil curta pianos, mobiliário de alto brilho, fundos de enchimento
Cura ácida reação química com catalisador ácido boa dureza e resistência química, secagem rápida, custo moderado libertam formaldeído durante a cura, exigem fundos e tingimentos compatíveis (resíduos alcalinos, por exemplo de branqueamento, perturbam a cura), catalisador corrosivo mobiliário de interior, cozinhas de gama média
Sintéticos (alquídicos) oxidação ao ar económicos, fáceis de aplicar a trincha, boa elasticidade secagem lenta, amarelecem, pó agarra-se durante a secagem, resistência química média carpintaria de construção, portas, esmaltes, exterior (versões próprias)
Cura UV radiação ultravioleta cura em segundos, muito resistentes, poucos ou nenhuns COV, linha contínua investimento elevado em equipamento, peças planas ou de forma simples, zonas de sombra não curam painéis, portas planas, soalho pré-acabado, grandes séries
Aquosos coalescência (1K) ou coalescência e reação (2K) pouco cheiro, poucos COV, não inflamáveis ou pouco inflamáveis, não amarelecem (acrílicos) levantam o fio, sensíveis ao frio, à humidade e ao gelo, secagem mais lenta, equipamento em aço inoxidável mobiliário, pavimentos, carpintaria interior e exterior, escolas e hospitais

Nitrocelulósicos

São os produtos de acabamento mais antigos da indústria moderna e ainda os mais fáceis de usar: secam em minutos, lixam bem e reparam-se com facilidade, porque cada demão redissolve a anterior. Em contrapartida, têm pouca resistência ao álcool, ao calor e à água quente, e têm teor de sólidos baixo (muito solvente para pouca película). Não servem para tampos de cozinha nem para pavimentos.

Poliuretanos

Os poliuretanos de dois componentes exigem misturar produto e endurecedor na proporção exata indicada na ficha técnica, em peso ou em volume. Uma proporção errada não se corrige depois: endurecedor a menos deixa a película mole e pegajosa; endurecedor a mais deixa-a quebradiça. A mistura tem tempo de vida útil; se não for aplicada dentro desse prazo, gelifica no gobelé e vai para o lixo (como resíduo perigoso). O endurecedor de isocianato reage com a humidade do ar: a lata tem de ficar sempre bem fechada.

Desde 24 de agosto de 2023, por restrição do Regulamento REACH, os produtos com mais de 0,1 % de diisocianatos (a maioria dos endurecedores de poliuretano) só podem ser usados por profissionais que tenham concluído com sucesso uma formação em utilização segura de diisocianatos, a renovar pelo menos de cinco em cinco anos. O rótulo destes produtos traz essa indicação.

Poliésteres

Os poliésteres permitem depositar camadas muito espessas numa só aplicação, o que dá o enchimento necessário para o alto brilho polido. A preparação pede muito rigor: a quantidade de catalisador e de acelerador condiciona o tempo de vida útil, e o catalisador (peróxido) e o acelerador nunca se misturam diretamente entre si, porque a reação pode ser violenta; cada um junta-se à resina em separado, pela ordem da ficha técnica, ou usam-se produtos em que o acelerador já vem incorporado.

Cura ácida

Os produtos de cura ácida usam resinas amínicas (de ureia ou de melamina com formaldeído) combinadas com alquídicas, e curam quando se lhes junta um catalisador ácido. Dão películas duras e resistentes a custo moderado. Durante a aplicação e a cura libertam formaldeído, uma substância classificada como cancerígena, o que obriga a boa ventilação, captação na cabine e proteção respiratória. O catalisador é ácido e corrosivo: luvas e óculos sempre.

Sintéticos

Os sintéticos, de resinas alquídicas, secam por oxidação ao ar, lentamente. São económicos, aplicam-se bem a trincha e rolo, e são muito usados em carpintaria de construção (portas, rodapés, caixilharia pintada). A secagem lenta deixa o pó colar-se à película, por isso aplicam-se em local limpo.

Cura UV e aquosos

A cura UV é tecnologia de fábrica: exige linhas com lâmpadas UV, e funciona sobretudo em peças planas. Os aquosos usam água como solvente principal (com uma pequena parte de co-solventes), com menos cheiro e muito menos COV. Evoluíram muito e os aquosos de dois componentes aproximam-se da resistência dos poliuretanos de solvente; mas exigem cuidado com a temperatura, a humidade e o gelo, e levantam o fio da madeira. A tendência da indústria é crescer nos aquosos e na cura UV, empurrada pela legislação sobre COV e pela segurança dos trabalhadores.

Nunca se usa diluente de uma família noutra. Um diluente celulósico num produto aquoso faz a resina coagular; um diluente com álcool num poliuretano reage com o endurecedor e estraga a cura. Cada produto, o seu diluente, o que está na ficha técnica.

7. Adequação dos produtos a situações específicas

Escolher o produto certo não depende só da estética pretendida. Depende sobretudo da situação de uso da peça, que é o primeiro critério de qualquer especificação técnica.

7.1 Interior e exterior

Interior Exterior
Agressões principais desgaste, riscos, manchas, calor, produtos de limpeza UV, chuva, ciclos de molhar e secar, variações de temperatura, fungos
O que se pede ao produto dureza, resistência química, aspeto, toque elasticidade, proteção UV, permeabilidade ao vapor, fungicida de película
Famílias habituais poliuretanos, aquosos, nitrocelulósicos, cura ácida, UV velaturas de exterior, vernizes e esmaltes próprios de exterior (aquosos, alquídicos, poliuretanos alifáticos)
Manutenção rara periódica, conforme a exposição

Um verniz de interior aplicado em exterior falha depressa: a película rígida não acompanha os movimentos da madeira, fissura, a água entra por baixo e o verniz descasca em placas. Os produtos de exterior são formulados para outro equilíbrio de propriedades, não são apenas "mais fortes".

7.2 Situações específicas

7.3 A relação entre suporte, produto e equipamento

Antes de escolher, respondem-se sempre quatro perguntas:

  1. Onde vai ficar a peça: interior, exterior, ambiente húmido, uso intensivo?
  2. Que suporte: madeira maciça (que espécie, poro aberto ou fechado?), contraplacado, MDF, folheado? O MDF absorve muito nos cantos e pede fundo próprio; o folheado é fino e não aguenta lixagens agressivas.
  3. Que equipamento de aplicação está disponível: trincha, rolo, pistola convencional, HVLP, airless, airmix, linha de rolos ou de cortina?
  4. Que aspeto final se pretende: mate ou brilhante, transparente ou opaco, poro aberto ou poro fechado?

A resposta à terceira pergunta condiciona diretamente a preparação: cada equipamento pede uma viscosidade de aplicação diferente, e a ficha técnica indica-a para cada um.

Equipamento Viscosidade de trabalho Nota
Trincha e rolo produto quase como vem, pouco ou nada diluído produtos formulados para trincha já trazem espessantes
Pistola convencional e HVLP baixa, diluição mais elevada o ar tem de conseguir pulverizar o produto em gotas finas
Airless e airmix média, menos diluição a pulverização faz-se pela pressão do produto no bico
Pistola de copo superior baixa, igual ou semelhante à HVLP copo pequeno, ideal para pequenas quantidades e amostras

Estas quatro perguntas são a aptidão "caracterizar a relação suporte, produto e equipamento". Escreve as respostas na ficha de preparação: se o resultado sair mal, é aí que se vai procurar a causa.

8. Fichas técnicas e fichas de dados de segurança

Analisar as especificações técnicas de um produto começa sempre por dois documentos do fabricante. São documentos distintos e complementares: a ficha técnica diz como usar bem o produto, a ficha de dados de segurança diz como usar sem perigo.

8.1 A ficha técnica

Não tem formato legal obrigatório, mas as boas fichas técnicas reúnem:

8.2 A ficha de dados de segurança (FDS)

A FDS é obrigatória por lei para as misturas perigosas: o fornecedor tem de a entregar, em português, a quem usa o produto profissionalmente. O seu conteúdo e formato estão fixados pelo Regulamento REACH (Regulamento (CE) n.º 1907/2006, Anexo II), com 16 secções numeradas sempre pela mesma ordem:

Secção Conteúdo Quando a consultas
1 identificação do produto e do fornecedor, contacto de emergência sempre
2 identificação dos perigos (classificação, pictogramas, advertências H e P) antes de abrir a lata
3 composição e ingredientes perigosos para saber o que contém
4 primeiros socorros num acidente
5 combate a incêndios ao planear o armazém, num incêndio
6 fugas acidentais (derrames) num derrame
7 manuseamento e armazenagem ao preparar e ao arrumar
8 controlo da exposição e proteção individual (EPI, filtros, valores-limite) antes de preparar
9 propriedades físicas e químicas (ponto de inflamação, por exemplo) para avaliar o risco de incêndio
10 estabilidade e reatividade (incompatibilidades) ao armazenar e misturar
11 informação toxicológica para perceber os efeitos na saúde
12 informação ecológica para o ambiente
13 eliminação (resíduos) ao deitar fora sobras e embalagens
14 transporte ao transportar
15 informação regulamentar (por exemplo, COV) para cumprir a lei
16 outras informações revisões, abreviaturas

8.3 O rótulo e os pictogramas de perigo

O rótulo segue o Regulamento CLP (Regulamento (CE) n.º 1272/2008): losangos de fundo branco com contorno vermelho, palavra-sinal ("Perigo" ou "Atenção"), advertências de perigo (frases H) e recomendações de prudência (frases P). Nos produtos de acabamento aparecem com frequência:

Pictograma Significado Onde aparece
Chama inflamável quase todos os produtos de solvente, diluentes, álcoois
Ponto de exclamação irritante, nocivo, sensibilizante cutâneo muitos vernizes e diluentes
Perigo para a saúde (silhueta com estrela no peito) sensibilizante respiratório, cancerígeno, tóxico para órgãos endurecedores de isocianato, produtos com formaldeído, alguns solventes
Corrosão queima pele e olhos catalisadores ácidos de cura ácida
Ambiente (peixe e árvore) perigoso para os organismos aquáticos alguns solventes e biocidas
Chama e corrosão, em conjunto peróxido orgânico: o calor pode decompô-lo e inflamá-lo, e queima pele e olhos catalisadores peróxidos do poliéster

Exemplo resolvido · Ler uma ficha técnica antes de trabalhar

A ficha técnica de um verniz poliuretano 2K indica: mistura 2:1 em volume com o endurecedor, diluição até 10 % sobre a mistura, viscosidade de aplicação de 16 a 20 s em copo DIN 4, aplicação à pistola HVLP, tempo de vida útil da mistura de 4 horas a 20 °C, 3 horas entre demãos, temperatura de aplicação entre 18 e 25 °C, humidade relativa máxima de 75 %.

Passos antes de aplicar:

  1. Confirmar temperatura e humidade relativa com termómetro e higrómetro: tudo dentro dos intervalos da ficha.
  2. Consultar a FDS, secções 2 e 8, e equipar-se: respirador com os filtros indicados, luvas de proteção química, óculos; confirmar que se tem a formação para diisocianatos.
  3. Calcular a quantidade necessária e misturar verniz e endurecedor na proporção 2:1 em volume (capítulo 11).
  4. Registar a hora da mistura: o tempo de vida útil conta a partir daqui (e encurta com o calor).
  5. Diluir e medir a viscosidade com o copo DIN 4, corrigindo até ficar entre 16 e 20 s.
  6. Filtrar para o copo da pistola e testar numa peça de ensaio.

Ignorar a ficha técnica é a causa mais comum de defeitos de acabamento: aplicar fora da gama de temperatura, de humidade ou de viscosidade indicada compromete a película, mesmo com um bom produto. E a ficha certa é a da versão do produto que tens na mão: os fabricantes revêm as fichas, confirma a data.

9. Parâmetros técnicos com relevo na utilização

O referencial destaca quatro parâmetros: teor em sólidos, viscosidade, densidade e brilho. Todos vêm na ficha técnica e todos têm consequências práticas na preparação.

Parâmetro O que é Unidade Instrumento
Teor em sólidos parte do produto que fica na película depois de secar % em peso ou % em volume balança e estufa
Viscosidade resistência do produto a escoar segundos num copo de escoamento (na oficina) copo de escoamento (viscosímetro) e cronómetro
Densidade massa por unidade de volume g/cm³, igual a kg/L picnómetro (copo de densidade) e balança, ou densímetro
Brilho quantidade de luz refletida pela película seca unidades de brilho (GU), a um ângulo indicado brilhómetro

9.1 Teor em sólidos

O teor em sólidos diz quanto produto "fica" na peça. Um verniz com 25 % de sólidos em peso deixa 25 g de película por cada 100 g aplicados; os outros 75 g evaporam. Há duas formas de o indicar:

Exemplo resolvido · Medir o teor em sólidos em peso

  1. Cápsula de alumínio vazia: 50,00 g.
  2. Cápsula com produto: 52,00 g. Massa de produto: 52,00 g menos 50,00 g = 2,00 g.
  3. Depois da estufa e de arrefecer: 50,70 g. Massa seca: 50,70 g menos 50,00 g = 0,70 g.
  4. Teor em sólidos: 0,70 g a dividir por 2,00 g, vezes 100 = 35 % em peso.

E se se diluir esse produto com 10 % de diluente em peso? Em 100 g de produto há 35 g de sólidos; com 10 g de diluente ficam 110 g no total. Novo teor: 35 a dividir por 110, vezes 100 = 31,8 %. A diluição não tira sólidos, espalha-os por mais massa: cada demão deixa menos película.

Espessura e rendimento

A espessura da película seca depende da espessura húmida aplicada e do teor em sólidos em volume:

espessura seca = espessura húmida × sólidos em volume (em fração)

E o rendimento teórico (sem perdas) calcula-se por:

rendimento (m²/L) = sólidos em volume (%) × 10 a dividir pela espessura seca (µm)

Exemplo resolvido · Espessura e rendimento

Um verniz tem 30 % de sólidos em volume. Aplica-se uma demão com 120 µm de espessura húmida (medida com pente de espessura húmida).

  1. Espessura seca: 120 µm × 0,30 = 36 µm.
  2. Rendimento teórico: 30 × 10 a dividir por 36 = 8,33 m²/L.
  3. Verificação por outro caminho: 1 L = 0,001 m³ espalhado com 120 µm = 0,000120 m de espessura húmida cobre 0,001 a dividir por 0,000120 = 8,33 m². Os dois caminhos dão o mesmo.

Se o mesmo verniz for diluído 10 % em volume, cada litro de produto pronto tem menos sólidos: para obter os mesmos 36 µm secos é preciso aplicar mais espessura húmida (ou mais uma demão).

9.2 Densidade

A densidade serve para converter volume em massa e vice-versa, o que é indispensável quando a ficha dá a proporção de mistura em volume e na oficina se trabalha com balança (capítulo 11). Mede-se com um picnómetro, um copo metálico de volume exato (por exemplo 100 cm³), pesado vazio e cheio.

Exemplo resolvido · Medir a densidade com picnómetro de 100 cm³

  1. Picnómetro vazio: 120,0 g.
  2. Picnómetro cheio de verniz, à temperatura indicada: 216,0 g.
  3. Massa de verniz: 216,0 g menos 120,0 g = 96,0 g.
  4. Densidade: 96,0 g a dividir por 100 cm³ = 0,960 g/cm³, ou seja 0,960 kg/L.

Uma lata de 5 L deste verniz tem 5 L × 0,960 kg/L = 4,80 kg de produto.

A densidade não tem nada a ver com a viscosidade: um diluente é pouco denso e muito fluido, mas um produto aquoso pode ser mais denso do que um de solvente e ter a mesma viscosidade. São grandezas diferentes, medidas com instrumentos diferentes.

9.3 Brilho

O brilho mede-se com um brilhómetro, que lança um feixe de luz sobre a película a um ângulo normalizado e mede a luz refletida, em unidades de brilho (GU). Os ângulos usados são 20°, 60° e 85°: mede-se primeiro a 60°; se o valor for muito alto (alto brilho) confirma-se a 20°, e se for muito baixo (mate profundo) mede-se a 85°. O "grau" que aparece na medição é o ângulo, não a unidade do brilho.

Os nomes comerciais (mate, semimate, acetinado, brilhante) correspondem a intervalos de GU que variam de fabricante para fabricante: por isso a ficha técnica indica o valor em GU e o ângulo, e é esse valor que se compara na receção e no controlo da qualidade.

9.4 Instrumentos de apoio ao ambiente de trabalho

Além dos instrumentos que medem o produto, a preparação depende de instrumentos que controlam o ambiente e o tempo:

Com humidade muito alta, os produtos aquosos secam mal e os nitrocelulósicos podem ficar com véu esbranquiçado (a evaporação rápida do solvente arrefece a superfície e condensa a humidade do ar). Quando os valores do higrómetro saem do intervalo da ficha técnica, adia-se a aplicação ou passa-se para a estufa.

10. Medir e acertar a viscosidade

Medir e acertar a viscosidade é o procedimento prático central desta UC, e um critério de desempenho explícito do referencial: "medindo e corrigindo a viscosidade de acordo com as especificações técnicas dos produtos de acabamento".

10.1 Porque importa

10.2 Os copos de escoamento

Na oficina, a viscosidade mede-se com um copo de escoamento (taça de viscosidade): um copo com um orifício calibrado no fundo. O resultado é o tempo, em segundos, que o copo cheio leva a esvaziar-se até o fio de produto se quebrar. Mais segundos, produto mais espesso.

Há vários modelos, e não são equivalentes: o mesmo verniz dá tempos diferentes num copo DIN 4, num copo Ford 4 ou num copo ISO. Os mais comuns na Europa são o copo DIN de 4 mm (100 cm³, orifício de 4 mm) e os copos ISO 2431 (orifícios de 3, 4, 5 e 6 mm). Existem também copos de imersão, com pega, que se mergulham diretamente no produto. Por isso:

10.3 A temperatura muda a viscosidade

A viscosidade desce quando a temperatura sobe. O mesmo verniz, frio, dá muitos mais segundos do que à temperatura da oficina. Por isso:

10.4 Procedimento com copo em suporte (método de referência)

  1. Homogeneizar bem o produto (e, se for 2K, misturar os componentes e deixar o tempo de indução, se a ficha o indicar).
  2. Confirmar a temperatura do produto com o termómetro.
  3. Nivelar o copo no suporte e tapar o orifício com o dedo.
  4. Encher o copo até transbordar e rasar o excesso (com uma placa de vidro ou a régua própria), sem bolhas.
  5. Destapar o orifício e iniciar o cronómetro no mesmo instante.
  6. Parar o cronómetro no primeiro corte do fio de produto (quando o fio contínuo se interrompe e começa a pingar).
  7. Repetir a medição e fazer a média; comparar com o intervalo da ficha técnica.

Com um copo de imersão, o princípio é o mesmo: mergulha-se o copo até estar cheio, levanta-se num gesto contínuo, inicia-se o cronómetro quando o bordo sai do produto e para-se no primeiro corte do fio.

10.5 Corrigir

Se o produto estiver espesso (tempo acima do intervalo):

  1. Confirmar primeiro a temperatura: se o produto estiver frio, aclimatar e medir de novo.
  2. Juntar o diluente indicado na ficha técnica, em pequenas quantidades pesadas ou medidas.
  3. Homogeneizar bem, sem incorporar ar.
  4. Medir novamente.
  5. Repetir até o tempo cair dentro do intervalo, sem ultrapassar a diluição máxima da ficha técnica.

Se o produto estiver fluido de mais (tempo abaixo do intervalo): não há diluente que "engrosse". Junta-se produto preparado da mesma lata, não diluído, na mesma proporção de componentes, e mede-se outra vez. Por isso se dilui aos poucos.

Exemplo resolvido · Corrigir uma viscosidade fora de especificação

A ficha técnica de um verniz indica 18 a 22 s em copo DIN 4, a 20 °C, com diluição máxima de 10 % em peso. Prepararam-se 1000 g de verniz. O termómetro marca 20 °C. Primeira medição: 29 s, o produto está espesso.

  1. Juntar 30 g de diluente (3 % de 1000 g), homogeneizar, medir: 24 s. Ainda acima.
  2. Juntar mais 20 g (total acumulado 50 g), homogeneizar, medir: 20 s. Dentro do intervalo.
  3. Verificar o limite: 50 g a dividir por 1000 g, vezes 100 = 5 %, abaixo dos 10 % máximos.
  4. Registar: "verniz X, lote Y, 1000 g, diluente Z 50 g (5 %), 20 s DIN 4 a 20 °C, hora".

Se, ao chegar aos 10 % de diluente, o produto ainda estivesse espesso, não se continuava a diluir: procurava-se a causa (produto frio, lote envelhecido, mistura 2K já a reagir, copo sujo) e registava-se a não conformidade.

Exemplo resolvido · O produto que veio do frio (valores ilustrativos)

Numa manhã de inverno, um verniz acabado de trazer do armazém, a 12 °C, dá 32 s no copo DIN 4. A ficha pede 18 a 22 s a 20 °C.

  1. Não se dilui ainda: o produto está fora da temperatura de referência.
  2. Deixa-se aclimatar na oficina até o termómetro marcar 20 °C no produto e mede-se outra vez: por exemplo, 24 s.
  3. Só agora se corrige com diluente, aos poucos, como no exemplo anterior.

Se se tivesse diluído a 12 °C até dar 20 s, o produto, ao aquecer, ficaria muito abaixo do intervalo, escorreria e deixaria película fina.

Diluir a mais é um erro que não se vê logo: a viscosidade pode parecer "boa para pistolar", mas o teor em sólidos baixou, a película fica mais fina e a peça precisa de mais demãos. A diluição máxima da ficha técnica é um limite, não uma sugestão.

11. Preparar misturas: proporções, quantidades e tempo de vida útil

Os produtos de dois componentes e os catalisados preparam-se sempre por conta: nada se faz "a olho". A ficha técnica dá a proporção de mistura em peso (por exemplo 100:50) ou em volume (por exemplo 2:1), e muitas vezes as duas. Atenção: as duas não são iguais, porque o verniz e o endurecedor têm densidades diferentes.

11.1 Regras da mistura

  1. Agitar cada componente em separado, até estar homogéneo.
  2. Pesar (com balança) ou medir (com gobelé graduado) cada componente, na proporção da ficha técnica.
  3. Juntar o endurecedor ou catalisador ao componente principal (nunca ao contrário, salvo indicação da ficha) e misturar bem, raspando paredes e fundo.
  4. Respeitar o tempo de indução, se a ficha o indicar (alguns minutos de repouso antes de aplicar).
  5. Só depois diluir, se preciso, e medir a viscosidade.
  6. Anotar a hora da mistura no gobelé: começa a contar o tempo de vida útil.
  7. Preparar só a quantidade que se vai gastar dentro do tempo de vida útil.

Quando a ficha diz "diluição 10 %", lê com atenção sobre quê: sobre o componente principal ou sobre a mistura já com endurecedor? Em peso ou em volume? Os resultados são diferentes. Se a ficha não disser, pergunta ao fornecedor.

Exemplo resolvido 1 · Mistura em volume com diluição sobre a mistura

Ficha técnica: verniz poliuretano, mistura 2:1 em volume (verniz : endurecedor), diluição 10 % em volume sobre a mistura. São precisos 1,65 L de produto pronto a aplicar.

  1. Seja M o volume da mistura verniz mais endurecedor. O diluente é 0,10 × M e o total é M + 0,10 × M = 1,10 × M.
  2. 1,10 × M = 1,65 L, logo M = 1,65 a dividir por 1,10 = 1,50 L.
  3. A mistura 2:1 tem 3 partes: cada parte vale 1,50 L a dividir por 3 = 0,50 L.
  4. Verniz: 2 × 0,50 = 1,00 L. Endurecedor: 1 × 0,50 = 0,50 L. Diluente: 0,10 × 1,50 = 0,15 L.
  5. Verificação: 1,00 + 0,50 + 0,15 = 1,65 L.

Exemplo resolvido 2 · Passar a proporção de volume para peso

O mesmo verniz: 2:1 em volume. Densidades medidas: verniz 0,96 kg/L, endurecedor 1,02 kg/L. Na oficina trabalha-se com balança.

  1. 2 L de verniz pesam 2 × 0,96 = 1,92 kg; 1 L de endurecedor pesa 1 × 1,02 = 1,02 kg.
  2. Proporção em peso: 1,92 : 1,02. Por cada 100 g de verniz: 1,02 a dividir por 1,92, vezes 100 = 53,1 g de endurecedor. A proporção em peso é 100 : 53,1, não 100 : 50.
  3. Para 600 g de verniz: 600 × 0,531 = 318,8 g, arredondado a 319 g de endurecedor.
  4. Verificação em volume: 600 g a dividir por 0,96 = 625 mL de verniz; 319 g a dividir por 1,02 = 312,7 mL de endurecedor; 625 a dividir por 312,7 = 2,00. Correto.

E se alguém pesasse "2:1" à letra, 600 g com 300 g? 300 g de endurecedor são 300 a dividir por 1,02 = 294,1 mL, quando eram precisos 312,5 mL: faltariam cerca de 6 % de endurecedor. A película ficaria menos curada e menos resistente, sem que ninguém percebesse porquê.

Exemplo resolvido 3 · Produto de cura ácida em peso

Ficha técnica: verniz de cura ácida, catalisador 10 % em peso sobre o verniz, diluição até 5 % em peso sobre a mistura. Pesa-se 800 g de verniz.

  1. Catalisador: 800 g × 0,10 = 80 g. Mistura: 800 + 80 = 880 g.
  2. Diluente máximo: 880 g × 0,05 = 44 g.
  3. Total máximo pronto a aplicar: 880 + 44 = 924 g.

Se só forem precisos 20 g de diluente para acertar a viscosidade, a diluição real é 20 a dividir por 880, vezes 100 = 2,3 %. Regista-se o valor real, não o máximo.

Exemplo resolvido 4 · Quanto preparar para uma encomenda

Seis portas de armário, de 0,60 m × 0,40 m, envernizadas nas duas faces (despreza-se a área dos cantos). Verniz 2K com rendimento teórico de 8 m²/L por demão (mistura verniz mais endurecedor, antes de diluir), aplicado com HVLP; admite-se, como valor de exemplo, que 35 % do produto se perde na pulverização. Duas demãos com 3 horas de intervalo; tempo de vida útil da mistura: 4 horas.

  1. Área: 6 portas × 0,60 m × 0,40 m × 2 faces = 2,88 m².
  2. Rendimento prático: 8 m²/L × (1 menos 0,35) = 8 × 0,65 = 5,2 m²/L.
  3. Mistura por demão: 2,88 m² a dividir por 5,2 m²/L = 0,554 L, arredondado a 0,60 L.
  4. Com mistura 2:1: 0,40 L de verniz e 0,20 L de endurecedor; diluente 10 % sobre a mistura: 0,06 L.
  5. Tempo de vida útil: a segunda demão faz-se 3 horas depois da primeira; a mistura teria de ser aplicada até 4 horas depois de feita. Em teoria sobrava 1 hora, mas com calor o prazo encurta e o produto vai engrossando. A boa prática é preparar uma mistura para cada demão.

Total para as duas demãos: 0,80 L de verniz, 0,40 L de endurecedor, 0,12 L de diluente.

11.2 O tempo de vida útil na prática

12. Abastecer os equipamentos de aplicação

Com o produto preparado e a viscosidade certa, segue para o equipamento. Abastecer bem é o último passo da preparação e evita estragar tudo o que se fez antes.

12.1 Antes de abastecer

12.2 Por equipamento

Equipamento Como se abastece Verificações
Trincha, rolo produto num recipiente próprio, em quantidade pequena trincha adequada ao produto (aquosos com filamento sintético); sem pelos soltos
Pistola de copo (gravidade ou sucção) encher o copo com produto filtrado, até ao nível indicado bico e agulha adequados à viscosidade; pressão de ar regulada; filtro do copo limpo
Pistola HVLP como a de copo pressão na entrada da pistola conforme o fabricante; ar seco e sem óleo
Depósito sob pressão encher o depósito, fechar, pressurizar ao valor indicado tampa e vedante em bom estado; descomprimir antes de abrir
Airless e *airmix* aspirar do recipiente ou depósito, purgar primeiro o diluente de limpeza pressão do produto, filtro da bomba, proteção do gatilho; nunca apontar a pistola a pessoas
Linha de rolos, cortina, cura UV carregar o tanque ou o rolo doseador conforme a instrução da máquina viscosidade e temperatura controladas; proteção da luz nos produtos UV

No airless, o produto sai a pressões muito elevadas. Um jato encostado à pele pode injetar produto nos tecidos: é uma lesão grave, que parece pequena à vista e exige ida imediata ao hospital. Nunca se tapa o bico com o dedo nem se limpa o bico com a máquina sob pressão.

12.3 Testar antes da peça

Aplica-se sempre primeiro numa peça de ensaio, da mesma madeira e com o mesmo sistema: confirma-se o leque da pistola, a cobertura, a ausência de escorridos, bolhas ou casca de laranja. Só então se passa à peça final.

12.4 No fim do trabalho

13. Acondicionar os produtos em armazém

O armazenamento correto conserva as propriedades do produto e evita acidentes. É uma aptidão do referencial ("acondicionar os produtos em armazém"), não um pormenor de logística.

13.1 Condições gerais

13.2 Cuidados por tipo de produto

Produto Cuidado específico
Aquosos não podem gelar: o gelo destrói a dispersão de forma irreversível
Endurecedores de isocianato lata sempre bem fechada: reagem com a humidade do ar e ficam turvos ou sólidos
Catalisadores peróxidos frescos, afastados do calor e do acelerador, na embalagem de origem
Produtos UV ao abrigo da luz
Produtos pigmentados e mate agitar antes de usar (o pigmento e o matizante assentam)
Sintéticos e óleos encher bem ou fechar logo: com ar na lata formam pele à superfície
Diluentes e produtos de solvente armário de inflamáveis; nunca junto de calor

Panos com óleo secativo podem incendiar-se sozinhos. Os óleos de linhaça, de tungue e alguns produtos à base de óleo aquecem ao oxidar; num pano amarrotado, num caixote ou num saco, o calor acumula-se e pode chegar à combustão, horas depois do trabalho acabado. Os panos usados guardam-se num recipiente metálico com tampa, cheio de água, ou estendem-se abertos, ao ar livre, a secar, antes de irem para resíduos.

14. Segurança e saúde no trabalho e equipamentos de proteção individual

14.1 Os riscos da preparação

Risco Origem Medidas coletivas
Incêndio e explosão vapores de solventes, diluentes, pó de nitrocelulose e de lixagem ventilação, ausência de fontes de ignição, equipamento elétrico adequado à zona, ligação à terra, extintores
Inalação de vapores solventes, formaldeído (cura ácida), estireno (poliésteres) preparação em local ventilado ou com exaustão, cabine com extração
Sensibilização respiratória isocianatos dos endurecedores de poliuretano extração, proteção respiratória, formação obrigatória
Contacto com a pele e os olhos solventes, catalisadores ácidos e peróxidos recipientes adequados, lava-olhos e água próximos
Pó de lixagem lixagem da madeira e entre demãos aspiração na origem, lixadoras com extração
Injeção de produto pistolas airless formação, proteção do gatilho, nunca tocar no jato

O pó de madeiras duras é classificado como agente cancerígeno. A Diretiva (UE) 2017/2398 fixou para ele um valor-limite de exposição profissional de 2 mg/m³, aplicável desde 18 de janeiro de 2023. É uma razão forte para lixar com aspiração e usar máscara de proteção contra partículas quando a captação não chega.

14.2 Hierarquia das medidas

Primeiro elimina-se ou substitui-se o perigo (por exemplo, um produto aquoso em vez de um de solvente, quando a especificação o permite), depois protege-se coletivamente (ventilação, cabine, captação), depois organiza-se o trabalho (formação, procedimentos, sinalização) e só por fim se recorre ao EPI, que protege apenas quem o usa, e só se estiver bem escolhido e bem usado.

14.3 Equipamentos de proteção individual

A escolha do EPI faz-se pela secção 8 da FDS. De forma geral:

EPI Quando Pormenores
Proteção respiratória preparação e aplicação de produtos de solvente, pulverização filtro de tipo A (identificado a castanho) para vapores orgânicos; na pulverização, combinado com filtro de partículas (por exemplo A2P2 ou A2P3); para isocianatos e formaldeído, seguir a FDS; com muita exposição, equipamento de ar assistido ou de adução de ar
Máscara de partículas lixagem FFP2 ou FFP3; não protege contra vapores
Luvas de proteção química toda a manipulação material indicado na FDS (nitrilo serve para muitos produtos, não para todos); substituir quando danificadas
Óculos ou viseira mistura, trasfega, catalisadores óculos de proteção contra salpicos
Vestuário de trabalho sempre fato ou bata, de preferência antiestático em zonas com solventes
Proteção auditiva junto de compressores, cabines e máquinas ruidosas conforme a avaliação do ruído

Uma máscara de pó (FFP2) não protege contra vapores de solvente: estes atravessam o filtro. Os filtros de gás saturam com o uso e têm de ser substituídos; e uma barba impede a vedação da máscara à cara.

14.4 Regras de oficina

15. Normas de proteção ambiental

15.1 COV

Os compostos orgânicos voláteis (COV) dos solventes contribuem para a formação de ozono ao nível do solo e para a poluição do ar. Por isso:

Na prática da oficina: preferir produtos aquosos, de alto teor em sólidos ou de cura UV quando a especificação o permite; manter as latas fechadas; não diluir para além do necessário; e recolher os diluentes de limpeza.

15.2 Resíduos

Os restos de produtos de acabamento, as embalagens contaminadas e os panos sujos são, em regra, resíduos perigosos. Nunca vão para o lixo comum, para o esgoto, para a sarjeta ou para o solo.

Resíduo Código LER (exemplo)
restos de tintas e vernizes com solventes orgânicos ou outras substâncias perigosas 08 01 11*
embalagens com resíduos de substâncias perigosas ou por elas contaminadas 15 01 10*
absorventes, panos de limpeza e vestuário de proteção contaminados 15 02 02*

O asterisco indica resíduo perigoso. Os resíduos guardam-se em recipientes fechados, identificados, na zona de resíduos, e entregam-se a um operador de gestão de resíduos licenciado, com o registo de transporte eletrónico (e-GAR). O diluente de limpeza sujo pode deixar-se decantar e usar-se a parte limpa na primeira lavagem seguinte, reduzindo o consumo; o que sobra vai também para o operador licenciado.

Preparar só o que se vai gastar é a melhor medida ambiental e económica de todas: uma mistura 2K que sobra é, ao mesmo tempo, dinheiro perdido e resíduo perigoso.

16. Normas da qualidade

Qualidade, na preparação, quer dizer resultados repetíveis: a mesma cor, o mesmo brilho e a mesma resistência de lote para lote e de operador para operador. Consegue-se com:

Modelo de ficha de preparação

Campo Exemplo
Data e operador 21/09, A. Silva
Encomenda e peças 6 portas de armário em carvalho
Produto e lote verniz PU 2K acetinado, lote 24-118
Endurecedor e lote endurecedor PU, lote 24-095
Proporção usada 2:1 em volume (100 : 53,1 em peso)
Quantidades 400 g verniz, 212 g endurecedor
Diluente e % diluente PU normal, 5 % sobre a mistura
Viscosidade 19 s DIN 4
Temperatura e HR 20 °C, 60 %
Hora da mistura e fim da vida útil 09:15, 13:15
Observações e não conformidades nenhuma

(Nesta linha, 400 g × 0,531 = 212,4 g, arredondado a 212 g de endurecedor.)

Erros comuns

Glossário

Síntese

Preparar um produto de acabamento segue sempre a mesma ordem:

  1. Conhecer os constituintes (resinas, pigmentos, corantes, solventes, cargas, aditivos) e o que cada um faz.
  2. Identificar a função (velatura, tapa-poros, verniz, laca, cera) e a família química (nitrocelulósico, poliuretano, poliéster, cura ácida, sintético, cura UV, aquoso), com as suas vantagens e desvantagens.
  3. Adequar à situação: interior ou exterior, suporte, equipamento, aspeto final.
  4. Ler a ficha técnica e a FDS: proporções, diluente, viscosidade e copo, condições, EPI, armazenamento.
  5. Preparar: agitar, pesar ou medir, misturar, anotar a hora, diluir aos poucos, medir e corrigir a viscosidade à temperatura certa.
  6. Filtrar, abastecer o equipamento e testar numa peça de ensaio.
  7. Acondicionar o que sobra e encaminhar os resíduos.
  8. Registar tudo, cumprindo as normas de segurança, ambiente e qualidade.

Domina este fluxo e sabes preparar qualquer produto de acabamento com segurança e rigor.

Exercícios resolvidos

1. Um rótulo indica "resina de poliuretano alifático, óxidos de ferro transparentes, diluente próprio, absorvedor UV, fungicida". É um produto opaco ou transparente? Para que situação é mais indicado?

Resolução: é um produto semitransparente: os óxidos de ferro transparentes são pigmentos de partícula muito fina, que dão cor sem esconder o veio. O absorvedor UV, o fungicida e os pigmentos resistentes à luz indicam um produto de exterior, do tipo velatura ou verniz de exterior.

2. Uma ficha técnica pede viscosidade entre 16 e 20 s em copo DIN 4 a 20 °C. O produto está a 20 °C e a medição dá 25 s. O que fazer?

Resolução: o produto está espesso e à temperatura certa, por isso corrige-se com o diluente da ficha técnica, em pequenas quantidades pesadas, homogeneizando e medindo depois de cada adição, até ficar entre 16 e 20 s, sem ultrapassar a diluição máxima indicada.

3. E se o produto estivesse a 10 °C?

Resolução: primeiro deixava-se aclimatar até 20 °C e media-se de novo. Diluir o produto frio até dar 16 a 20 s deixá-lo-ia demasiado fluido e com sólidos a menos quando aquecesse.

4. Porque é que um poliuretano bicomponente não pode ser preparado com muita antecedência?

Resolução: porque, depois de misturado com o endurecedor, a reação começa e a mistura tem um tempo de vida útil limitado (mais curto com calor). Passado esse prazo, o produto engrossa, gelifica e já não dá uma película com as propriedades certas.

5. Uma ficha dá a mistura 3:1 em volume. As densidades são 1,00 kg/L (verniz) e 1,10 kg/L (endurecedor). Quanto endurecedor se pesa para 450 g de verniz?

Resolução: 3 L de verniz pesam 3,00 kg; 1 L de endurecedor pesa 1,10 kg. Por cada 100 g de verniz: 1,10 a dividir por 3,00, vezes 100 = 36,7 g. Para 450 g: 450 × 0,367 = 165 g de endurecedor. Verificação: 450 mL de verniz e 165 a dividir por 1,10 = 150 mL de endurecedor; 450 a dividir por 150 = 3. Correto.

6. Um verniz tem 40 % de sólidos em volume e aplica-se com 100 µm de espessura húmida. Qual a espessura seca e o rendimento teórico?

Resolução: espessura seca = 100 × 0,40 = 40 µm. Rendimento = 40 × 10 a dividir por 40 = 10 m²/L. (Verificação: 1 L espalhado com 0,0001 m de espessura cobre 0,001 a dividir por 0,0001 = 10 m².)

7. Uma porta exterior em carvalho vai receber acabamento. Que sistema faz sentido?

Resolução: um sistema de exterior: velatura de exterior (com pigmentos transparentes, absorvedores UV e fungicida), aplicada sobre a madeira preparada, com o primário impregnante que o fabricante indicar, em duas ou três demãos. Não se usa tapa-poros de interior, que impediria a velatura de penetrar. Evita-se o contacto com ferro (palha de aço), por causa dos taninos do carvalho.

8. Que documentos consultar antes de preparar um produto novo, e o que procuras em cada um?

Resolução: a ficha técnica, para a proporção de mistura, o diluente, a viscosidade de aplicação e o copo, o tempo de vida útil, as condições e os tempos de secagem; e a FDS, sobretudo as secções 2 (perigos), 7 (manuseamento e armazenagem), 8 (EPI) e 13 (eliminação).

9. Um colega guarda um diluente junto de um radiador, e deixa num caixote os panos usados com óleo de linhaça. Que dizer?

Resolução: as duas práticas são perigosas. O diluente é inflamável e deve estar no armário de inflamáveis, ventilado e longe de fontes de calor. Os panos com óleo secativo podem autoinflamar-se: guardam-se num recipiente metálico fechado com água, ou estendidos a secar ao ar livre, antes de irem para resíduos perigosos.

10. Um verniz de cura ácida leva 8 % de catalisador em peso sobre o verniz. Para 1250 g de verniz, quanto catalisador? E se a ficha permitir 5 % de diluente sobre a mistura, qual o máximo de diluente?

Resolução: catalisador: 1250 × 0,08 = 100 g. Mistura: 1250 + 100 = 1350 g. Diluente máximo: 1350 × 0,05 = 67,5 g.