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UC · Unidade de Competência · UC02103

Sebenta · Elaborar um dossier técnico de um produto de mobiliário (UC02103)

Da memória descritiva à gama operatória, passando pelos desenhos, materiais, ferragens e segurança
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Desenho de Produto em M ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a construir o dossier técnico completo de um produto de mobiliário, o conjunto de documentos de que uma fábrica precisa para produzir, orçamentar, controlar e montar uma peça com rigor. Um bom móvel não nasce de um desenho bonito isolado: nasce de um dossier onde a memória descritiva, os desenhos técnicos, as listas de materiais e de ferragens, as gamas operatórias, as instruções de montagem e as notas de segurança formam um conjunto coerente, em que cada número aparece com o mesmo valor em todos os documentos.

O percurso segue a ordem em que um técnico de desenho de produto monta um dossier na indústria: primeiro descreve o produto por palavras (memória descritiva) e por números (dimensões, massa, materiais, acabamentos), depois codifica as peças, desenha o conjunto até ao último componente, cota tudo com rigor, lista matérias-primas, auxiliares, ferragens e acessórios, determina as gamas operatórias de fabrico, escreve as instruções de montagem e fecha com as normas de segurança e saúde no trabalho aplicáveis a cada operação e ao próprio produto.

Objetivos de aprendizagem (referencial): preparar a memória descritiva do produto de mobiliário; compilar os desenhos técnicos de conjunto, subconjuntos e componentes; listar as gamas operatórias; identificar as especificações técnicas de um produto; especificar dimensões e peso; caracterizar os materiais utilizados e os acabamentos; sequenciar o tipo e o detalhe dos desenhos; determinar as gamas operatórias do processo de fabrico; enumerar as matérias-primas, auxiliares, ferragens e acessórios; aplicar as normas de segurança e saúde no trabalho.

Ao longo da sebenta vais acompanhar sempre o mesmo produto, a estante EST01, desde a memória descritiva até às instruções de montagem. No fim, terás visto um dossier inteiro, peça a peça, com todas as contas feitas. No mini-projeto aplicarás o mesmo método a uma cómoda.

1. O dossier técnico: o que é e para que serve

Um dossier técnico é o conjunto organizado de documentos que descreve por completo um produto de mobiliário, do conceito à peça embalada e pronta a entregar. Não é uma pasta de desenhos soltos: é um sistema em que cada documento remete para os outros através de códigos comuns.

A quem serve

O mesmo dossier é lido por pessoas diferentes, cada uma à procura de uma resposta diferente:

Quem lê O que procura Documentos que usa
Produção (corte, maquinação, acabamento) como fabricar cada peça desenhos de componente, lista de corte, gamas operatórias
Compras e orçamentação o que comprar, quanto e a que custo listas de matérias-primas, auxiliares, ferragens e acessórios
Montagem (fábrica ou cliente) por que ordem se monta vista explodida, instruções de montagem
Qualidade o que controlar e com que tolerância cotas, tolerâncias, pontos de controlo das gamas
Segurança e saúde no trabalho que riscos tem cada operação gamas operatórias com riscos e medidas de proteção
Comercial e logística dimensões, massa, embalagem memória descritiva, ficha de embalagem

Os documentos de um dossier técnico

N.º Documento Responde a
1 Índice e registo de revisões o que contém o dossier e em que versão está
2 Memória descritiva o que é o produto, para que serve, de que é feito
3 Especificações técnicas dimensões (A × L × P), massa, materiais, acabamentos
4 Desenhos técnicos conjunto, subconjuntos, componentes, cortes, secções, pormenores, vista explodida, todos cotados
5 Lista de peças e lista de corte que peças existem, quantas, de que material e com que medidas
6 Lista de matérias-primas e auxiliares que materiais comprar e em que quantidade
7 Lista de ferragens e acessórios com que se une, movimenta e usa o produto
8 Gamas operatórias por que ordem, em que máquina e em quanto tempo se fabrica cada peça
9 Instruções de montagem e embalagem como se monta e como se protege para o transporte
10 Segurança e saúde riscos e medidas de proteção no fabrico; avisos de segurança do produto

Um dossier técnico incompleto obriga a fábrica a "adivinhar" o que falta. É nessa lacuna que nascem os erros de fabrico mais caros, porque muitas vezes só se descobrem quando a peça já está cortada ou até lacada.

O fluxo de trabalho do técnico

A ordem de elaboração não é arbitrária: cada documento depende dos anteriores.

  1. Definir o produto: função, utilizador, contexto, dimensões gerais, materiais (memória descritiva e especificações).
  2. Decompor o produto: conjunto, subconjuntos e componentes, cada um com o seu código.
  3. Desenhar: primeiro o conjunto, depois os subconjuntos, depois cada componente; cortes, pormenores e vista explodida onde forem necessários.
  4. Listar: peças, medidas de corte, materiais, ferragens e acessórios, sempre ligados ao código.
  5. Planear o fabrico: gamas operatórias por componente e sequência de montagem.
  6. Instruir e proteger: instruções de montagem, embalagem, riscos e medidas de segurança.
  7. Verificar a coerência entre todos os documentos e registar a versão.

Se uma decisão muda a meio (por exemplo, a espessura do painel passa de 16 para 19 mm), o técnico tem de percorrer de novo os passos seguintes: mudam desenhos, lista de corte, massa, ferragens e talvez a gama operatória. É por isso que o controlo de versões (capítulo 15) é parte do dossier e não um pormenor administrativo.

Porque é que o dossier vale dinheiro

Um dossier técnico bem feito reduz erros de fabrico, acelera orçamentos, permite produzir o mesmo produto em séries repetidas com qualidade constante e deixa reproduzir o produto anos depois, mesmo que a equipa original já não esteja na empresa. Numa pequena marcenaria que produz por medida é também o que permite subcontratar uma operação (por exemplo, o lacado ou a maquinação CNC) sem ter de explicar tudo por telefone.

2. Memória descritiva

A memória descritiva é o documento escrito que apresenta o produto: a sua função, o conceito, as dimensões gerais, a massa, os materiais, os acabamentos e as ferragens principais, sem entrar no detalhe de cada peça. É o primeiro documento do dossier que qualquer pessoa deve ler para perceber o produto sem consultar um único desenho.

Estrutura de uma memória descritiva

Secção Conteúdo Exemplo de pergunta a que responde
Identificação nome, código, coleção, versão do dossier como se chama e como se referencia?
Função e utilizador para que serve, quem o usa, como se usa que problema resolve?
Conceito ideia formal, linguagem, relação com a coleção porque tem esta forma?
Dimensões gerais e massa altura × largura × profundidade, massa do produto quanto ocupa e quanto pesa?
Materiais painéis, madeira maciça, espessuras, classes de que é feito?
Acabamentos tipo, cor, brilho, faces e orlas que aspeto tem e como se protege?
Ferragens e acessórios principais ligadores, dobradiças, corrediças, puxadores, fixação à parede como se une e como funciona?
Contexto de utilização interior ou exterior, doméstico ou não doméstico onde vai ser usado?
Montagem, embalagem e manutenção montado ou em kit, número de volumes, cuidados como chega ao cliente e como se conserva?
Segurança e referências avisos (fixação à parede, carga por prateleira), normas de ensaio aplicáveis que cuidados de segurança exige?

Indica sempre a ordem das dimensões. Não há uma ordem universal: há catálogos que escrevem largura × profundidade × altura e outros altura × largura × profundidade. Escreve por extenso a ordem usada ("A × L × P = 1800 × 800 × 300 mm") ou usa as letras, e mantém a mesma ordem em todo o dossier.

Exemplo resolvido: memória descritiva da estante EST01

  1. Identificação: "Estante Linha Aveiro, código EST01, dossier versão B."
  2. Função e utilizador: "Estante de sala para arrumação de livros e objetos decorativos, uso por adultos em habitação."
  3. Conceito: "Volume simples e contínuo, laterais inteiras até ao chão, sem puxadores nem molduras; linguagem neutra para combinar com a restante Linha Aveiro."
  4. Dimensões gerais e massa: "A × L × P = 1800 × 800 × 300 mm; massa do produto ≈ 31 kg (sem embalagem)." O cálculo desta massa está resolvido no capítulo 4.
  5. Materiais: "Laterais, tampo, base e três prateleiras fixas em aglomerado de partículas revestido a melamina, 19 mm; costas em aglomerado de fibras de alta densidade (HDF) de 3 mm."
  6. Acabamentos: "Melamina branca mate nas duas faces; orla em ABS branco de 1 mm nas arestas à vista."
  7. Ferragens e acessórios: "Ligação lateral/painéis horizontais com cavilhas de madeira e ligadores excêntricos; costas aparafusadas; dois esquadros de fixação à parede incluídos."
  8. Contexto de utilização: "Interior, doméstico."
  9. Montagem, embalagem e manutenção: "Fornecida em kit, num único volume; limpar com pano húmido, sem abrasivos."
  10. Segurança: "Fixação à parede obrigatória nas instruções; carga máxima por prateleira indicada nas instruções de montagem, definida por ensaio."

Repara como cada frase é verificável: 1800 mm tem de ser a cota de altura do desenho de conjunto; "19 mm" tem de aparecer na lista de corte; "dois esquadros" tem de aparecer na lista de ferragens.

Uma memória descritiva vaga, do tipo "móvel bonito e resistente", não serve o dossier. Também não serve uma memória com números que depois não batem com os desenhos: é o erro mais frequente nos dossiers de alunos e um dos mais caros na indústria, porque a memória é o documento que chega ao cliente e ao comercial.

Como escrever: regras práticas

3. Características técnicas de diferentes tipos de produtos de mobiliário

Identificar as especificações técnicas de um produto começa por saber a que família pertence. Cada família tem dimensões de referência, esforços típicos e pontos críticos próprios, e o dossier tem de os tratar.

Famílias de produtos e o que cada uma exige

Os valores seguintes são referências correntes para mobiliário doméstico de adultos. Servem para verificar se um projeto está na ordem de grandeza certa; o valor final decide-se pela ergonomia do utilizador, pelo catálogo da empresa e pelos requisitos da norma de ensaio aplicável a esse tipo de produto.

Família Dimensões de referência correntes Pontos críticos para o dossier
Arrumação (estantes, cómodas, aparadores) estante para livros com 250 a 350 mm de profundidade; cómoda com 750 a 900 mm de altura estabilidade e risco de tombamento, flexão das prateleiras, carga das gavetas
Roupeiros profundidade da ordem dos 550 a 650 mm, para caberem cabides portas pesadas, dobradiças ou calhas de correr, fixação à parede
Cozinha bancada a cerca de 850 a 920 mm do chão; bancada com cerca de 600 mm de profundidade; armários superiores com 300 a 350 mm humidade, calor, cargas elevadas, altura regulável por pés niveladores
Mesas mesa de refeição com 720 a 760 mm de altura rigidez do conjunto tampo/pernas, movimento dos tampos maciços
Assentos (cadeiras, bancos) altura do assento entre 420 e 460 mm resistência das juntas a esforços repetidos, estabilidade para trás
Camas medidas interiores definidas pelo colchão (p. ex. 900 × 1900, 1400 × 1900, 1600 × 2000 mm) apoio do estrado, ligações desmontáveis, peças compridas para transporte
Escritório mesa de trabalho com 720 a 750 mm de altura passagem de cabos, regulação, normas próprias do mobiliário de escritório

As normas europeias de mobiliário estão organizadas por tipo de produto (arrumação, assentos, mesas, camas, mobiliário de escritório, mobiliário infantil). Antes de fechar as especificações, identifica a norma de ensaio do teu tipo de produto e confirma os requisitos que ela impõe. O capítulo 14 dá dois exemplos confirmados.

A madeira maciça: um material anisotrópico

A madeira não se comporta da mesma forma em todas as direções: é anisotrópica. Distinguem-se três direções:

Consequências diretas para o dossier:

  1. O comprimento das peças maciças segue o sentido do fio, porque é nessa direção que a madeira é mais resistente e mais estável. O desenho de componente e a lista de corte têm de indicar o sentido do fio (uma seta paralela ao fio no desenho, uma coluna "fio" na lista).
  2. A madeira de mobiliário de interior trabalha-se com um teor de água da ordem dos 8 a 12 %, próximo daquele em que vai viver dentro de casa. Madeira mais húmida retrai depois de montada e abre juntas ou empena.
  3. Um tampo maciço largo mexe na largura ao longo do ano. Não se pode prender rigidamente a uma estrutura: fixa-se com grampos de tampo, botões de madeira ou furos ovalizados que deixam o tampo dilatar e contrair.

Quanto mexe um tampo maciço? Suponhamos (valor hipotético, para o exemplo) que certa madeira varia 0,25 % na largura por cada 1 % de variação do teor de água, no sentido tangencial. Um tampo com 500 mm de largura que passa de 12 % no inverno para 8 % no verão (variação de 4 %) varia: 500 × 0,25 % × 4 = 500 × 0,0025 × 4 = 5 mm. Cinco milímetros bastam para rachar um tampo aparafusado sem folga. O valor real de cada espécie consulta-se na ficha técnica da madeira.

Os derivados de madeira

Painel Constituição Densidade indicativa Uso típico
Aglomerado de partículas partículas de madeira coladas com resina e prensadas ≈ 600 a 700 kg/m³ estruturas de móveis em série, quase sempre revestido a melamina
MDF (painel de fibras de média densidade) fibras de madeira coladas e prensadas ≈ 700 a 800 kg/m³ frentes, portas, peças fresadas ou lacadas
HDF (fibras de alta densidade) fibras, painel fino e denso ≈ 800 kg/m³ ou mais fundos de gaveta, costas de móveis
Contraplacado folhas de madeira coladas com o fio cruzado entre folhas vizinhas, em número ímpar ≈ 450 a 700 kg/m³, conforme a espécie peças que precisam de resistência com pouca espessura, curvas
OSB partículas longas orientadas em camadas ≈ 600 a 650 kg/m³ estruturas ocultas, pouco usado em mobiliário à vista
Lamelado colado / painel de lamelas réguas de madeira maciça coladas de canto a da espécie usada tampos e prateleiras com aspeto maciço

As densidades variam com o fabricante, a espessura e a classe do painel: para as contas do dossier usa sempre o valor da ficha técnica do painel que vais comprar.

Espessuras comerciais: no aglomerado melamínico e no MDF, 16 e 19 mm estão entre as mais usadas em mobiliário, mas os catálogos oferecem muitas outras (painéis finos para fundos, 25 ou 30 mm para tampos). Confirma sempre a gama do fornecedor antes de desenhar: desenhar em 18 mm e comprar 19 mm muda todas as cotas interiores. As chapas também têm formatos de catálogo (por exemplo 2750 × 1830 mm no aglomerado; confirma no fornecedor), e o formato condiciona o aproveitamento.

Emissões de formaldeído. As resinas de muitos painéis libertam formaldeído. Desde 6 de agosto de 2026, o Regulamento (UE) 2023/1464 (restrição do REACH) limita a emissão dos móveis e dos artigos à base de madeira a 0,062 mg/m³ em câmara de ensaio. No dossier, pede ao fornecedor a declaração de conformidade do painel e regista-a na lista de matérias-primas.

Revestimentos e orlas

Acabamentos

Acabamento Aspeto Proteção Notas de fabrico
Verniz transparente, realça o veio boa, conforme o tipo (poliuretano, acrílico, base aquosa) fundo, lixagem intermédia, demão final
Lacado cor opaca uniforme boa sobre MDF ou madeira; primário ou isolante, lixagem intermédia, acabamento
Óleo natural, mate moderada, exige manutenção aplica-se diretamente sobre a madeira lixada
Cera tradicional, acetinado fraca contra a água sobre madeira lixada ou sobre um fundo
Tingido ou velatura muda a cor mantendo o veio só cor, precisa de verniz por cima antes do verniz
Melamina, HPL, folheado envernizado vem do revestimento conforme o revestimento acabamento de fábrica do painel

A especificação de um acabamento no dossier inclui o tipo, a cor (referência de uma carta de cores), o brilho (mate, acetinado, brilhante), as faces onde se aplica e a ficha técnica e de dados de segurança do produto.

Compatibilidades. Não se escreve "aglomerado melamínico lacado": a melamina já é o acabamento. Quem quer uma peça lacada escolhe MDF (ou madeira) e especifica o lacado. Estas incoerências denunciam um dossier escrito sem pensar no fabrico.

4. Especificar dimensões e peso do produto

Dimensões gerais

As três dimensões gerais de uma peça de mobiliário são altura (A), largura (L) e profundidade (P). Medem-se ao produto acabado, incluindo pés, puxadores, molduras e ferragens salientes: um erro comum é medir só a "caixa" e esquecer um puxador de 30 mm que faz a cómoda deixar de caber no nicho do cliente. Quando interessa, indicam-se também dimensões funcionais (altura do tampo, vão livre entre prateleiras, profundidade útil).

Massa e peso

No dossier escreve-se "peso" em quilogramas, mas o que se calcula é a massa (kg). O peso, em rigor, é uma força (newtons): uma massa de 31 kg tem um peso de cerca de 31 × 9,8 ≈ 304 N. Para transporte, montagem e embalagem basta a massa em kg; o referencial chama-lhe peso e a sebenta segue esse uso corrente.

A massa importa para:

Método de cálculo

Massa de uma peça = volume × densidade. Massa do produto = soma das massas das peças + massa das ferragens e acessórios.

  1. Converter as medidas para metros (1800 mm = 1,800 m; 19 mm = 0,019 m).
  2. Calcular o volume de cada peça: V = C × L × E, em m³.
  3. Multiplicar pela quantidade de peças iguais.
  4. Multiplicar o volume total de cada material pela sua densidade (kg/m³, da ficha técnica).
  5. Somar as ferragens e acessórios (massa do catálogo).
  6. Arredondar com bom senso e indicar que é um valor aproximado.

Exemplo resolvido: massa da estante EST01

Dados: aglomerado melamínico 19 mm com densidade 650 kg/m³; HDF 3 mm com densidade 850 kg/m³ (valores indicativos, a confirmar na ficha técnica).

Peça Qtd. C × L × E (mm) Volume unitário (m³) Volume total (m³)
Lateral 2 1800 × 297 × 19 1,800 × 0,297 × 0,019 = 0,010157 0,020315
Tampo, base e prateleiras 5 762 × 297 × 19 0,762 × 0,297 × 0,019 = 0,004300 0,021500
Costas 1 1800 × 800 × 3 1,800 × 0,800 × 0,003 = 0,004320 0,004320
  1. Aglomerado: 0,020315 + 0,021500 = 0,041815 m³ → 0,041815 × 650 = 27,2 kg.
  2. HDF: 0,004320 × 850 = 3,7 kg.
  3. Ferragens, cavilhas e orlas (catálogo): cerca de 0,5 kg.
  4. Total: 27,2 + 3,7 + 0,5 = 31,4 kg → declara-se "massa ≈ 31 kg".

Porquê 297 e 762 mm? A profundidade total é 300 mm e as costas de 3 mm aplicam-se por trás: 300 - 3 = 297 mm. O tampo, a base e as prateleiras ficam entre as laterais: 800 - 2 × 19 = 762 mm.

Confirma a ordem de grandeza. 31 kg para uma estante de 1,8 m em aglomerado é plausível; se te der 3 kg ou 300 kg, falhaste uma conversão de unidades (quase sempre mm para m). Um cubo de aglomerado com 1 m de lado pesaria perto de 650 kg: um móvel é feito de chapas finas, por isso fica muito abaixo disso.

A massa com embalagem (massa bruta) soma o cartão, as proteções de canto e o saco de ferragens. Obtém-se melhor pesando o protótipo embalado; no primeiro dossier indica-se como estimativa e corrige-se depois.

5. Codificação dos conjuntos e componentes

Um produto de mobiliário decompõe-se numa árvore: o conjunto (o produto completo), um ou mais subconjuntos (grupos de peças montados entre si, como uma gaveta ou uma porta com as ferragens) e os componentes (peças únicas). A codificação dá a cada nó dessa árvore uma referência única, rastreável do desenho à fábrica, ao armazém e à embalagem.

Porque codificar

Sem códigos, cada peça teria de ser descrita por extenso em todos os documentos ("a prateleira do meio da estante branca de 1,8 m"): mais texto, mais tempo e mais espaço para o erro. O código é o que liga o desenho, a lista de peças, a lista de corte, a gama operatória, a etiqueta da peça na fábrica e o passo das instruções de montagem.

Um esquema coerente: produto · subconjunto · componente

Não existe um esquema universal: cada empresa define o seu. O que é obrigatório é que o esquema seja documentado uma vez e aplicado sem exceções. Nesta sebenta usamos o esquema PRODUTO.SUBCONJUNTO.COMPONENTE:

EST01 . 00 . 03
  │      │    └── componente 03 (00 = o próprio produto ou subconjunto)
  │      └────── subconjunto 00 (00 = peça ligada diretamente à estrutura)
  └───────────── produto EST01

Três regras que evitam a maior parte dos erros

  1. Peças iguais têm o mesmo código e aparecem uma só vez na lista, com a quantidade. Na EST01, a base e as três prateleiras são idênticas: são EST01.00.04 com qtd. 4, não quatro códigos diferentes. Se cada prateleira tivesse um código, o planeamento via três peças diferentes, a seccionadora recebia três ordens e o armazém três referências para a mesma peça.
  2. Peças simétricas ("de mão") têm códigos diferentes. A lateral esquerda e a lateral direita de uma estante com furação para prateleiras ou ligadores são imagens de espelho uma da outra: não se trocam. Levam códigos diferentes (ou o mesmo código com sufixo E/D), porque a furação é diferente. Se a furação for simétrica e as duas laterais forem de facto iguais, partilham o código com qtd. 2.
  3. Um código nunca se reutiliza noutro produto nem para outra peça, mesmo que a antiga tenha sido descontinuada. Quando uma peça muda de forma que deixa de ser intercambiável com a anterior, muda de código ou de índice de revisão.

Ligação entre código, posição e balão

Nos desenhos de conjunto e na vista explodida as peças são identificadas por balões numerados (1, 2, 3...). Cada número de balão é uma posição da lista de peças, e cada posição tem o código da peça. Assim, o balão 5 da vista explodida, a linha 5 da lista de peças e o desenho de componente EST01.00.05 referem-se todos à mesma prateleira. Esta correspondência é verificada linha a linha no fim do dossier (capítulo 15).

Exemplo resolvido: codificar a estante EST01

Posição (balão) Código Designação Qtd. Observação
· EST01.00.00 Estante completa 1 conjunto
1 EST01.00.01 Lateral esquerda 1 furação espelhada da 2
2 EST01.00.02 Lateral direita 1 furação espelhada da 1
3 EST01.00.03 Tampo 1 leva também os furos-guia dos esquadros de fixação à parede
4 EST01.00.04 Painel horizontal (base e prateleiras) 4 peças iguais, um só código
5 EST01.00.05 Costas 1 HDF 3 mm

Repara no raciocínio. O tampo, a base e as prateleiras têm as mesmas medidas (762 × 297 × 19) e a mesma orla. A base parece diferente, porque tem os alojamentos dos excêntricos na face de cima e as prateleiras na face de baixo, mas é a mesma peça virada ao contrário: é igual, e partilha o código. O tampo tem uma furação a mais (os furos-guia dos esquadros de fixação à parede, na face inferior junto às costas): é outra peça, com outro código. A regra é: mesma peça, mesmo código; qualquer diferença de fabrico, código diferente.

6. Desenhos técnicos: conjunto, subconjuntos e componentes

O desenho de conjunto

O desenho de conjunto representa o produto montado e completo, tal como chega ao utilizador. Mostra a relação entre subconjuntos e componentes, as dimensões gerais (A × L × P) e as cotas funcionais, e traz balões numerados que remetem para a lista de peças. Não se cotam no conjunto as medidas de cada peça: essas pertencem aos desenhos de componente.

O desenho de subconjunto

Um subconjunto é um grupo de componentes montados entre si que continua a fazer parte de um conjunto maior: a gaveta de uma cómoda, uma porta com dobradiças e puxador, uma estrutura de pernas e travessas de uma mesa. O desenho de subconjunto mostra como esses componentes encaixam, com os seus balões e a sua lista de peças, e permite fabricar e controlar o subconjunto antes de o integrar no produto.

O desenho de componente

O desenho de componente (ou desenho de fabrico) representa uma única peça com todas as medidas, furos, rasgos, rebaixos, chanfros, orlas, sentido do fio e material. Segue para a máquina ou para o operador que fabrica a peça e tem de ser completo e autónomo: quem o lê não precisa de abrir o desenho de conjunto para fabricar a peça.

A legenda

Todos os desenhos do dossier levam legenda (o quadro de identificação no canto inferior direito da folha), com o mesmo modelo em todas as folhas:

Campo da legenda Exemplo
Designação Lateral esquerda
Código EST01.00.01
Material e espessura aglomerado melamínico branco 19 mm
Escala 1:10
Unidade mm
Método de projeção símbolo do 1.º diedro
Revisão B
Desenhou / verificou / data iniciais e data
Folha 3 de 12

Os formatos de papel e a legenda seguem as normas ISO de desenho técnico (formatos da série A, de A4 a A0). Mesmo quando o dossier é digital, o desenho continua a ser pensado para uma folha de formato definido, porque é assim que chega à oficina.

Vistas e método de projeção

Em Portugal usa-se o método europeu, ou do 1.º diedro. Tomando o alçado principal (vista de frente) como referência:

A legenda indica o método com o símbolo normalizado do 1.º diedro. Quem troca a posição das vistas (hábito do método americano, do 3.º diedro) faz o operador ler o móvel ao contrário.

Quantas vistas? As estritamente necessárias para definir a forma sem ambiguidade. Uma prateleira retangular com furos numa face pode bastar-se com uma vista e a indicação da espessura; uma lateral com furação nas duas faces e um rasgo precisa de duas ou três vistas e de um corte. No conjunto, junta-se muitas vezes uma perspetiva (isométrica, por exemplo) que ajuda a ler o produto, mas que não se cota.

Tipos de linha

Linha Uso
Contínua grossa arestas e contornos visíveis
Contínua fina linhas de cota, linhas de chamada, hachuras
Tracejada arestas invisíveis (furos cegos vistos por fora, por exemplo)
Traço-ponto fina eixos de simetria, eixos de furos
Traço-ponto fina, grossa nas extremidades e nas mudanças de direção plano de corte

Escalas normalizadas

A escala é a razão entre a medida no desenho e a medida real. As escalas normalizadas são:

Escalas como 1:4, 1:8 ou 3:1 não são normalizadas e não se usam. A escala de cada vista ou pormenor que seja diferente da escala geral indica-se junto dessa vista.

Exemplo resolvido: escolher a escala do desenho de conjunto

A estante EST01 tem 1800 mm de altura e vai ser desenhada numa folha A3 (420 × 297 mm), com alçado principal, vista lateral e planta.

  1. Escala 1:5: 1800 / 5 = 360 mm de altura no papel. Com a folha A3 ao alto (420 mm), sobram 60 mm para margens, legenda e a planta por baixo, que também precisa de 300 / 5 = 60 mm. Não cabe.
  2. Escala 1:10: 1800 / 10 = 180 mm de altura; largura 800 / 10 = 80 mm; profundidade 300 / 10 = 30 mm. Alçado + planta por baixo = 180 + 30 = 210 mm, mais o espaço entre vistas e as cotas: cabe com folga numa A3.
  3. Decisão: conjunto a 1:10. O pormenor da ligação lateral/prateleira, com furos de poucos milímetros, desenha-se à parte a 1:1 ou 2:1.

Exemplo resolvido: sequenciar os desenhos de uma cómoda

Uma cómoda com três gavetas iguais precisa da seguinte sequência (do geral para o particular):

  1. Desenho de conjunto (folha 1): cómoda montada, alçado principal, vista lateral e planta, cotas gerais, balões.
  2. Vista explodida do conjunto (folha 2): estrutura e as três gavetas afastadas ao longo dos eixos de montagem, com os mesmos balões.
  3. Desenho do subconjunto "gaveta" (folha 3): um só desenho, porque as três gavetas são iguais (qtd. 3), com frente, laterais, traseira, fundo e corrediças; corte a mostrar o fundo encaixado no rasgo.
  4. Desenhos de componente da estrutura (folhas 4 em diante): laterais esquerda e direita, tampo, base, costas.
  5. Desenhos de componente da gaveta: frente, lateral de gaveta, traseira, fundo.
  6. Pormenores: ligação lateral/tampo, fixação da corrediça.

Esta sequência é o critério de desempenho "sequenciando o tipo e detalhe dos desenhos" aplicado na prática: o detalhe aumenta à medida que se avança, e cada folha só mostra o que as anteriores não mostraram.

O desenho assistido por computador

Hoje o dossier desenha-se em programas de CAD (bidimensionais ou de modelação 3D). A modelação 3D paramétrica permite gerar a partir do mesmo modelo o conjunto, os componentes, a vista explodida e até a lista de peças, o que reduz as incoerências. O programa não dispensa o conhecimento das regras: um desenho mal cotado continua mal cotado, mesmo impresso a partir de um modelo perfeito.

7. Cortes, secções, pormenores e vistas explodidas

Cortes

Um corte "abre" a peça segundo um plano imaginário para mostrar o que as vistas exteriores não revelam: furos cegos, rasgos, rebaixos, espessuras de painel, ferragens escondidas. No corte desenha-se a superfície cortada, com hachura, e tudo o que se vê para lá do plano, na direção indicada pelas setas.

O plano de corte marca-se na vista principal com uma linha de traço-ponto fina, grossa nas extremidades, com setas que indicam o sentido de observação e letras que dão o nome ao corte ("A-A"). A vista resultante tem o título "Corte A-A". Inverter as setas é mostrar o lado errado da peça.

Variantes úteis em mobiliário:

Secções

A secção mostra apenas a superfície de interseção com o plano de corte, sem nada do que está para lá. Serve para mostrar o perfil de uma peça: a moldura de uma frente, o perfil de um puxador fresado, a forma de uma perna. Pode desenhar-se rebatida sobre a própria vista ou deslocada, com o nome "Secção B-B".

Corte Secção
O que mostra a superfície cortada e o que está para lá do plano só a superfície cortada
Quando usar interior de gavetas, furação, ligações perfis, molduras, secção de pernas e travessas
Identificação "Corte A-A" "Secção B-B"

Hachuras

A superfície atravessada pelo plano de corte preenche-se com hachura: linhas contínuas finas, paralelas, em regra a 45°. Peças diferentes em contacto hachuram-se com inclinações ou espaçamentos diferentes, para se distinguirem. Algumas empresas usam hachuras diferentes para madeira maciça (desenhada com o sentido do fio) e para painéis; se o fizeres, coloca uma legenda de materiais na folha. Peças finas (um fundo de 3 mm) podem ser preenchidas a cheio. Parafusos, cavilhas e veios cortados longitudinalmente não se hachuram.

Pormenores

O pormenor amplia uma zona pequena e complexa, numa escala maior que a da vista geral, para a representar e cotar com rigor. Na vista geral envolve-se a zona com um círculo de linha fina e uma letra maiúscula; o pormenor desenha-se noutro local da folha com o título e a escala, por exemplo "Pormenor C (2:1)".

Exemplo resolvido: pormenor da ligação lateral/prateleira

  1. No desenho de conjunto (escala 1:10), a ligação entre a lateral e a prateleira mede, no papel, menos de 2 mm: nenhuma cota caberia ali.
  2. Envolve-se a zona com um círculo e a letra "C".
  3. Desenha-se o "Pormenor C (1:1)" em corte, com a lateral, a prateleira, a cavilha e o ligador excêntrico.
  4. Cotam-se no pormenor o diâmetro e a profundidade dos furos da cavilha e do excêntrico e a distância do eixo do furo à face.
  5. Os balões do pormenor usam as mesmas posições da lista de peças (a cavilha é a posição da cavilha na lista de ferragens).

Vistas explodidas

A vista explodida mostra os componentes afastados uns dos outros ao longo dos eixos de montagem, na posição relativa em que se montam, geralmente em perspetiva. Regras:

Uma vista explodida em que os balões não batem com a lista de peças é pior do que não ter vista explodida: quem monta confia no número e usa a peça errada.

8. Cotagem dos desenhos técnicos

Cotar é indicar as medidas no desenho com linhas de cota, linhas de chamada, setas (ou traços oblíquos) e o valor numérico.

Regras essenciais

Cotagem em série, em paralelo e por coordenadas

Tipo Como é Vantagem Risco
Em série (em cadeia) cada cota parte do fim da anterior lê-se o espaço entre elementos os erros acumulam-se
Em paralelo todas as cotas partem da mesma referência cada posição é independente ocupa mais espaço
Por coordenadas (em tabela) cada furo tem X e Y a partir de uma origem ideal para furadoras e CNC exige origem bem definida

Na furação de mobiliário usa-se quase sempre a cotagem a partir de referências (em paralelo ou por coordenadas), com a origem numa aresta que a máquina usa como encosto.

Exemplo resolvido: acumulação de erro

Quatro furos devem ficar a 445 mm uns dos outros. Cada cota é executada com uma tolerância de ±0,3 mm (valor hipotético).

  1. Em série: o último furo resulta de quatro medidas sucessivas. No pior caso, o erro soma-se: 4 × 0,3 = ±1,2 mm.
  2. Em paralelo (445, 890, 1335, 1780 a partir da mesma aresta): cada furo tem só o seu erro, ±0,3 mm.
  3. Conclusão: numa furação de ligadores, 1,2 mm de erro basta para a cavilha não entrar. Cota-se a partir de uma referência.

Sistema 32

Na indústria do mobiliário de painel, a furação de laterais para prateleiras, dobradiças, corrediças e ligadores segue muitas vezes o sistema 32: furos em linha com 32 mm entre eixos, a uma distância fixa da aresta da frente (37 mm é a distância mais corrente), feitos numa só passagem pela furadora múltipla. Desenhar a furação "à medida" de cada peça, fora desta grelha, obriga a mudar a máquina de cada vez; desenhar dentro dela deixa usar as ferragens do mercado sem adaptações. Confirma sempre na ficha técnica de cada ferragem as distâncias que ela exige.

Tolerâncias

A tolerância é a variação admissível de uma medida. Em mobiliário, as medidas gerais toleram alguns décimos de milímetro, mas a furação para ferragens exige precisão de décimas de milímetro: um furo de dobradiça fora do sítio desalinha a porta. Indica na legenda as tolerâncias gerais da empresa e, junto das cotas críticas, a tolerância específica.

Exemplo resolvido: cotar a lateral esquerda EST01.00.01

Dados: lateral 1800 × 297 × 19; base e tampo à face das extremidades; três prateleiras com a face inferior a 445, 890 e 1335 mm do chão; duas cavilhas Ø8 em cada ligação, a 50 mm da frente e a 50 mm de trás.

  1. Contorno: comprimento 1800, largura 297 (vista principal), espessura 19 (vista lateral ou corte).
  2. Referências: aresta inferior (assenta no chão) para as alturas; aresta da frente para as profundidades.
  3. Alturas dos eixos dos furos (eixo a meio da espessura de 19 mm da peça horizontal, 9,5 mm acima da sua face inferior), cotadas em paralelo a partir da aresta inferior:
  4. base: 0 + 9,5 = 9,5
  5. prateleiras: 445 + 9,5 = 454,5; 890 + 9,5 = 899,5; 1335 + 9,5 = 1344,5
  6. tampo: 1800 - 19 + 9,5 = 1790,5
  7. Profundidades: 50 a partir da frente; 297 - 50 = 247 a partir da frente para o segundo furo (cota em paralelo, da mesma referência).
  8. Furos: "10 × Ø8 prof. 12" numa nota, em vez de repetir dez vezes. A furação dos ligadores excêntricos cota-se da mesma maneira, a partir das mesmas referências (omitida aqui para simplificar).
  9. Verificação dos vãos: base (topo a 19) até à 1.ª prateleira (445): 426; 1.ª (topo a 464) até à 2.ª (890): 426; 2.ª (topo a 909) até à 3.ª (1335): 426; 3.ª (topo a 1354) até ao tampo (face inferior a 1781): 427. Os vãos batem com a memória descritiva.
  10. Legenda: escala 1:10, unidade mm, material, código, mão (esquerda), revisão.

A lateral direita EST01.00.02 tem a mesma furação em espelho: por isso tem outro código (capítulo 5).

9. Lista de peças, lista de corte e matérias-primas

Três listas, três funções

Lista Para quem Conteúdo mínimo
Lista de peças (nomenclatura) todos posição, código, designação, quantidade, material, referência ao desenho
Lista de corte seccionadora, orladora código, qtd., material e espessura, C × L × E, sentido do fio ou do veio, orlas por aresta, se as medidas são finais ou de corte
Lista de matérias-primas e auxiliares compras material, especificação, quantidade por produto, unidade, fornecedor, ficha técnica

As três ligam-se pelo código da peça e do material.

Sentido do fio e orlas na lista de corte

Exemplo resolvido: lista de corte da estante EST01

Medidas finais; orla ABS 1 mm; melamina branca lisa (sem veio).

Pos. Código Designação Qtd. Material C × L × E (mm) Fio Orlas
1 EST01.00.01 Lateral esquerda 1 aglomerado mel. branco 1800 × 297 × 19 sem veio 1C (frente) + 1L (topo)
2 EST01.00.02 Lateral direita 1 aglomerado mel. branco 1800 × 297 × 19 sem veio 1C (frente) + 1L (topo)
3 EST01.00.03 Tampo 1 aglomerado mel. branco 762 × 297 × 19 sem veio 1C (frente)
4 EST01.00.04 Painel horizontal (base e prateleiras) 4 aglomerado mel. branco 762 × 297 × 19 sem veio 1C (frente)
5 EST01.00.05 Costas 1 HDF branco 1800 × 800 × 3 sem veio sem orla

Metros de orla por estante:

  1. Frentes das laterais: 2 × 1800 = 3600 mm.
  2. Topos superiores das laterais (ficam à vista, porque o tampo está entre as laterais): 2 × 297 = 594 mm.
  3. Frentes de tampo, base e prateleiras: 5 × 762 = 3810 mm.
  4. Total: 3600 + 594 + 3810 = 8004 mm ≈ 8,0 m; com uma margem de 10 % para as pontas cortadas na orladora: 8,0 × 1,10 ≈ 8,8 m.

Exemplo resolvido: aproveitamento da chapa

Chapa de aglomerado melamínico de 2750 × 1830 mm (formato a confirmar no fornecedor); refilam-se 10 mm em cada aresta, o que deixa 2730 × 1810 mm úteis; a serra tira 4 mm por corte (valor indicativo).

  1. Tiras de 297 mm no sentido dos 1810 mm: 6 tiras ocupam 6 × 297 + 5 × 4 = 1782 + 20 = 1802 mm ≤ 1810. Cabem 6 tiras de 2730 mm.
  2. Tira tipo A: 1 lateral + 1 peça de 762 = 1800 + 4 + 762 = 2566 mm ≤ 2730. Serve.
  3. Tira tipo B: 3 peças de 762 = 3 × 762 + 2 × 4 = 2294 mm ≤ 2730. Serve.
  4. Uma estante precisa de 2 tiras A (2 laterais + 2 peças de 762) e 1 tira B (3 peças de 762): ao todo 2 laterais e 5 peças horizontais. Três tiras por estante: uma chapa dá duas estantes.
  5. Área de peças por estante: 2 × (1,800 × 0,297) + 5 × (0,762 × 0,297) = 1,0692 + 1,1316 = 2,20 m².
  6. Área da chapa: 2,750 × 1,830 = 5,03 m². Aproveitamento: 2 × 2,20 / 5,03 = 4,40 / 5,03 ≈ 87 %.

Por estante compra-se, portanto, meia chapa de aglomerado. Se o decor tivesse veio (imitação de carvalho, por exemplo), as peças não podiam rodar e o plano de corte teria de respeitar o sentido do veio: o aproveitamento podia baixar.

Materiais auxiliares

Os materiais auxiliares (ou subsidiários) são indispensáveis ao fabrico mas não são o corpo da peça: uns ficam incorporados em pequena quantidade (colas, vernizes, tintas), outros consomem-se no processo (abrasivos, solventes de limpeza). Listam-se por unidade de produto, com a respetiva ficha técnica e, quando são perigosos, a ficha de dados de segurança.

Exemplo resolvido: lista de matérias-primas e auxiliares da EST01

Código do material Designação Especificação Qtd. por estante Unidade
MP-AGL19-BR Aglomerado melamínico branco mate 19 mm, chapa 2750 × 1830, emissões de formaldeído conformes 2,20 (meia chapa)
MP-HDF3-BR HDF branco numa face 3 mm 1,44
MP-ORL1-BR Orla ABS branca 1 mm de espessura, largura superior à do painel 8,8 m
AUX-COL-TF Cola termofusível para orlas conforme a orladora a determinar em produção kg
AUX-COL-PVA Cola vinílica (PVAc) colagem das cavilhas a determinar em produção kg
AUX-EMB Cartão canelado, cantoneiras, filme embalagem de 1 volume 1 conj.

Área das costas: 1,800 × 0,800 = 1,44 m². As quantidades de cola "a determinar em produção" não são uma falha: é mais honesto medir no protótipo do que inventar um número.

10. Ferragens e acessórios

Tipos de ferragens e acessórios

Família Exemplos Função O que confirmar na ficha técnica
Ligação e montagem cavilhas (em regra de madeira de faia), ligadores excêntricos, parafusos para aglomerado, cantoneiras unir componentes, montáveis e desmontáveis diâmetros e profundidades de furação, espessura de painel admitida
Movimento dobradiças de caneco, corrediças de gaveta, calhas de portas de correr, compassos abrir, fechar, deslizar carga, espessura da porta ou da lateral, folgas exigidas, número de ferragens por peça
Amortecimento e fecho amortecedores, fechos de pressão, batentes fechar sem pancada, manter fechado compatibilidade com a dobradiça ou corrediça
Suporte suportes de prateleira, varões de roupeiro, suportes de armário suspenso apoiar cargas carga por suporte, furação
Uso puxadores, pés, niveladores, rodízios, fechaduras manusear, apoiar, fechar à chave entre-eixos dos furos do puxador, carga dos pés
Segurança esquadros ou fitas de fixação à parede impedir o tombamento carga, tipo de fixação ao móvel

Nota de vocabulário: os ligadores excêntricos são muitas vezes chamados pelo nome comercial de um fabricante (por exemplo "Minifix", da Häfele). No dossier usa-se o nome genérico e, na lista de ferragens, a referência exata do catálogo.

A ficha técnica é a fonte

Cada ferragem tem uma ficha técnica do fabricante com referência, dimensões, material e acabamento, cargas, espessuras de painel admitidas, esquema de furação e instruções de montagem. O dossier cita a referência exata e usa os valores da ficha, nunca os de uma peça "parecida": duas dobradiças com o mesmo aspeto podem ter aberturas, sobreposições e furações diferentes.

Exemplo resolvido: ferragens de uma porta de armário

  1. No desenho do subconjunto "porta", identificar cada ferragem: dobradiças de caneco, puxador, amortecedor.
  2. Escolher a dobradiça no catálogo em função do tipo de porta (sobreposta, meio-sobreposta ou embutida em relação à lateral) e anotar a referência exata.
  3. Confirmar na ficha técnica a espessura de porta admitida e a posição e profundidade do furo do caneco; passar esses valores para o desenho de componente da porta.
  4. Determinar quantas dobradiças a porta leva: os catálogos têm uma tabela que dá o número de dobradiças em função da altura e da massa da porta. Calcula a massa da porta (capítulo 4) antes de consultar a tabela.
  5. Registar na lista de ferragens a quantidade por produto (por exemplo, 2 dobradiças por porta × 2 portas = 4 dobradiças por armário).

Exemplo resolvido: lista de ferragens e acessórios da EST01

Pos. Designação Referência Qtd. por estante Onde se usa
6 Cavilha de faia estriada Ø8 × 35 ref. do fornecedor 20 2 por ligação × 5 ligações × 2 laterais
7 Ligador excêntrico (corpo + tirante) ref. do fornecedor 10 1 por ligação × 5 ligações × 2 laterais
8 Parafuso para aglomerado 3,5 × 16 ref. do fornecedor 24 fixação das costas
9 Esquadro de fixação à parede ref. do fornecedor 2 face inferior do tampo, junto às costas
10 Parafuso de fixação do esquadro ao móvel ref. do fornecedor 4 2 por esquadro

Repara nas contas: as quantidades saem do desenho, não da memória. E repara no que não está na lista: as buchas e parafusos de parede. O fabricante não sabe se a parede é de tijolo, de betão ou de gesso cartonado; por isso as instruções dizem "use buchas e parafusos adequados ao tipo de parede (não incluídos)". Essa frase é uma decisão técnica, e o dossier regista-a.

Uma corrediça de gaveta errada compromete toda a gaveta, mesmo que a caixa esteja perfeitamente desenhada: a corrediça define a folga lateral entre a gaveta e o corpo, a espessura das laterais da gaveta e a carga. Desenha a gaveta depois de escolher a corrediça, nunca antes.

11. Processos de fabrico: equipamentos e detalhes de construção

Equipamentos por fase

Fase Equipamentos Para quê
Preparação da madeira maciça serra de fita, traçadeira, garlopa (desempenadeira), desengrossadeira traçar, abrir, desempenar e desengrossar
Corte de painéis seccionadora, esquadrejadora cortar chapas a medida com esquadria
Orlagem orladora colar, refilar e acabar orlas
Maquinação furadora múltipla, tupia, respigadora, mortagem, centro de maquinação CNC furar, fresar, abrir rasgos, respigas e encaixes
Lixagem lixadora de rolos ou de banda larga, lixadoras manuais preparar superfícies
Acabamento cabine de pintura com aspiração, pistola, estufa ou zona de secagem aplicar e secar vernizes e lacas
Montagem e embalagem prensa de montagem (carcaça), bancada, linha de embalagem montar, controlar, embalar

Cada equipamento tem limites (dimensões máximas e mínimas de peça, espessuras, diâmetros de broca) que condicionam o desenho. Um componente desenhado sem pensar na máquina disponível pode ser impossível de fabricar na empresa em causa.

Desempenar não é desengrossar

Na madeira maciça, a sequência começa sempre por criar referências:

  1. Desempenar (na garlopa): acertar uma face plana e um canto a 90° com essa face. São as referências de todas as operações seguintes.
  2. Desengrossar (na desengrossadeira): dar a espessura final, em paralelo à face de referência; e depois a largura final, em paralelo ao canto de referência.
  3. Traçar à medida final de comprimento, em esquadria.

Trocar a ordem (desengrossar sem ter desempenado) dá peças com a espessura certa mas empenadas, porque a desengrossadeira copia a face que assenta na mesa.

Detalhes de construção

Ligação Uso típico Notas
Cavilha painéis e maciço, em série rápida em furadora múltipla; exige furação precisa nas duas peças
Ligador excêntrico mobiliário em kit desmontável; exige furação de face e de topo
Rasgo (ranhura) e lingueta fundos, costas, tampos colados o fundo de gaveta encaixa num rasgo nas laterais
Meia-madeira cruzamentos e cantos de maciço cada peça perde metade da espessura na zona da ligação
Respiga e mecha estruturas de cadeiras e mesas em maciço ligação muito resistente, colada
Rabo de andorinha (cauda de andorinha) gavetas de qualidade em maciço resiste ao arrancamento no sentido de abrir a gaveta

O detalhe escolhido condiciona a resistência, o custo, o tempo de fabrico e a máquina necessária, e tem de aparecer no desenho (pormenor ou corte) e na gama operatória.

Sequências de acabamento

Os tempos de secagem, as gramagens e as diluições não se inventam: vêm da ficha técnica do produto de acabamento e entram na gama operatória como parâmetros.

12. Gamas operatórias

A gama operatória (ou gama de fabrico) é a sequência ordenada das operações necessárias para transformar a matéria-prima num componente acabado, ou os componentes num produto montado. Há uma gama por componente (ou por família de componentes iguais) e uma gama de montagem por conjunto ou subconjunto.

O que leva uma gama

Cabeçalho: código e designação da peça, material e espessura, medidas finais, quantidade por produto, desenho de referência, revisão.

Uma linha por operação, com:

Coluna O que se escreve
N.º numeração de 10 em 10 (10, 20, 30...), para poder inserir operações novas sem renumerar
Operação verbo e objeto: "Orlar aresta da frente", "Furar topos"
Posto / máquina onde se faz
Ferramenta disco, broca, fresa, abrasivo, pistola
Parâmetros o que é preciso regular: medidas, diâmetros, profundidades, grão, produto e gramagem, tempos de secagem (da ficha técnica)
Tempo tempo de preparação (tp, por lote) e tempo unitário (tu, por peça)
Controlo o que se verifica, com que instrumento e contra que valor
Segurança riscos principais e medidas de proteção dessa operação

Lógica da sequência

  1. Primeiro criam-se as referências (desempeno, esquadrejamento).
  2. Depois dá-se a medida final (desengrosso, corte à medida).
  3. Depois fazem-se as operações que removem material a partir dessas referências: orlar, furar, fresar, abrir rasgos.
  4. Só depois se prepara a superfície (lixagem) e se acaba (verniz, laca).
  5. No fim, controlo e embalagem ou passagem à montagem.

Furar antes de cortar à medida final desloca os furos em relação às arestas; lixar depois de acabar estraga o acabamento; orlar depois de furar os topos obriga a furar através da orla. Cada inversão custa uma peça ou uma operação repetida.

Exemplo resolvido: gama do painel horizontal EST01.00.04

Cabeçalho: painel horizontal (base e prateleiras fixas), aglomerado melamínico branco 19 mm, 762 × 297 × 19, qtd. 4 por estante, desenho EST01.00.04 rev. B. Os tempos são valores de exemplo; numa empresa medem-se por cronometragem ou vêm do histórico de produção.

N.º Operação Posto / máquina Ferramenta Parâmetros Tempo Controlo Segurança
10 Cortar a 762 × 297 seccionadora disco de metal duro com incisor plano de corte da chapa (capítulo 9) tp 15 min; tu 0,5 min medidas e esquadria; melamina sem lascas ruído, corte: resguardos, protetores auriculares
20 Orlar aresta da frente (1C) orladora refiladores e raspadores da máquina orla ABS 1 mm; cola termofusível à temperatura da ficha técnica tp 10 min; tu 0,3 min aderência, refilado à face, sem cola à vista superfícies quentes: luvas na troca de rolo
30 Furar topos (cavilhas) e face (excêntricos) furadora múltipla brocas Ø8 e broca do alojamento do excêntrico posições e profundidades do desenho e da ficha do ligador tp 20 min; tu 0,4 min primeira peça medida com paquímetro; depois 1 em cada 20 partes móveis: resguardos, sem luvas junto às brocas
40 Limpar e controlar bancada de controlo pano, paquímetro, fita métrica desenho EST01.00.04 tu 0,2 min aspeto, medidas, furação manuseamento: luvas
50 Separar por produto e passar à embalagem embalagem · kit EST01 tu 0,1 min quantidade (4 por kit) movimentação de cargas

Um painel em melamina não se lixa nem se acaba: o revestimento é o acabamento. Numa peça de MDF lacado, entre as operações 30 e 50 entrariam lixagem, primário, lixagem intermédia e laca.

Exemplo resolvido: tempo de uma operação por lote

Tempo de uma operação para um lote de n peças: T = tp + n × tu.

Operação 30 (furação), lote de 40 estantes, logo 40 × 4 = 160 painéis:

  1. T = 20 + 160 × 0,4 = 20 + 64 = 84 min.
  2. Tempo por peça nesse lote: 84 / 160 ≈ 0,53 min.

Mesma operação, lote de 10 estantes (40 painéis):

  1. T = 20 + 40 × 0,4 = 20 + 16 = 36 min.
  2. Tempo por peça: 36 / 40 = 0,90 min.

Conclusão: em lotes pequenos, a preparação da máquina pesa quase tanto como o trabalho em si. É por isso que o custo por peça de um móvel por medida é muito maior do que o de um móvel de série com o mesmo desenho.

Exemplo resolvido: gama de uma perna de mesa em faia maciça

Peça: perna, faia maciça, final 720 × 45 × 45, fio no comprimento, verniz aquoso mate.

N.º Operação Posto / máquina Parâmetros Controlo
10 Verificar o teor de água da madeira receção aceitar entre 8 e 12 % humidímetro
20 Traçar em bruto com sobremedida traçadeira comprimento 740 (720 + 20 mm de sobremedida) fita métrica
30 Abrir em réguas com sobremedida serra de fita ou serra circular largura bruta com alguns mm de sobremedida visual, sem nós nas zonas das ligações
40 Desempenar face e canto de referência garlopa face plana e canto a 90° esquadro
50 Desengrossar a 45 × 45 desengrossadeira espessura e largura a 45 mm, a partir das referências paquímetro
60 Traçar a 720 em esquadria esquadrejadora comprimento final 720 fita métrica, esquadro
70 Abrir mechas para as respigas das travessas mortagem ou CNC posição e medidas do desenho calibre ou paquímetro
80 Lixar lixadora grão progressivo ao toque e à luz rasante
90 Envernizar cabine de pintura fundo, lixagem intermédia, demão final, conforme ficha técnica aspeto, espessura de película se exigida

Repara nas duas regras do capítulo 11 aplicadas: o fio no comprimento da peça (no cabeçalho) e o desempeno antes do desengrosso (operações 40 e 50).

13. Instruções de montagem e embalagem

Quando são necessárias

As instruções de montagem são necessárias sempre que o produto chega ao cliente por montar (mobiliário em kit) ou quando a montagem final acontece fora da fábrica (montadores próprios ou subcontratados). O referencial diz "se necessário": um móvel entregue montado dispensa-as, mas continua a precisar de uma gama de montagem interna e, se for alto, das instruções de fixação à parede.

Como construir instruções claras

  1. Lista de verificação inicial: todas as peças (com o número da posição e um desenho pequeno) e todas as ferragens (em tamanho real ou com a quantidade), para o cliente confirmar que nada falta antes de começar.
  2. Ferramentas necessárias: chave de fendas, chave sextavada, martelo de borracha, aparafusadora (se aplicável).
  3. Passos numerados pela ordem real de montagem, cada um com um desenho baseado na vista explodida, mostrando as peças e ferragens desse passo, identificadas pelos mesmos números da lista de peças.
  4. Pouco texto: o desenho é a linguagem principal; o texto serve para avisos e para o que o desenho não mostra.
  5. Avisos de segurança no passo onde se aplicam, e repetidos no início.
  6. Informação do fabricante e do produto: nome e contacto do fabricante, código e lote do produto.

Exemplo resolvido: instruções da estante EST01

Passo 0: verificar peças (1 a 5) e ferragens (6 a 10). Montar deitado no chão, sobre o cartão da embalagem, para não riscar.

  1. Passo 1: nas laterais (1, 2), apertar os tirantes dos ligadores excêntricos (7) nos furos indicados.
  2. Passo 2: introduzir as cavilhas (6) nos topos dos quatro painéis horizontais (4) e do tampo (3). Na fábrica as cavilhas podem já vir coladas de um dos lados; nesse caso este passo desaparece das instruções.
  3. Passo 3: encaixar os painéis horizontais (4), um em baixo e três nas posições das prateleiras, e o tampo (3) na lateral esquerda (1), e rodar os excêntricos (7) até apertar.
  4. Passo 4: colocar a lateral direita (2) e apertar os excêntricos (7).
  5. Passo 5: medir as duas diagonais da traseira: se forem iguais, a estrutura está em esquadria. Aparafusar as costas (5) com os parafusos (8).
  6. Passo 6: aparafusar os esquadros (9) à face inferior do tampo, junto às costas, com os parafusos (10). Levantar a estante com duas pessoas e fixar à parede com buchas e parafusos adequados ao tipo de parede (não incluídos).

Aviso de tombamento. Móveis altos e móveis com gavetas podem tombar quando alguém se apoia, sobe ou abre várias gavetas ao mesmo tempo, com risco grave sobretudo para crianças. As instruções devem tornar a fixação à parede um passo obrigatório, com o aviso em destaque, e o kit deve incluir o dispositivo de fixação ao móvel. Os requisitos de estabilidade e os ensaios dependem do tipo de móvel e da norma aplicável (capítulo 14).

Repara que a verificação da esquadria pelas diagonais é o controlo que em fábrica se faz na prensa de montagem, aqui transferido para o cliente.

Embalagem

A embalagem também se especifica no dossier:

14. Segurança e saúde no trabalho, e segurança do produto

O referencial pede que o técnico aplique as normas de segurança e saúde no trabalho. No dossier isto tem duas faces: a segurança de quem fabrica (identificar riscos e medidas em cada operação da gama) e a segurança de quem usa o produto (avisos, instruções, requisitos de estabilidade). Há ainda a segurança do próprio técnico no posto de desenho.

Riscos no fabrico de mobiliário

Família de risco Onde aparece Medidas de prevenção (por esta ordem de prioridade)
Mecânico: corte, projeção, arrastamento serras, garlopa, tupia, furadora, CNC máquinas conformes, resguardos e dispositivos de proteção sempre montados, empurradores, formação; óculos
Pó de madeira corte, fresagem, lixagem aspiração localizada na origem, limpeza por aspiração (nunca com ar comprimido); proteção respiratória quando a captação não chega
Químico colas, vernizes, lacas, solventes produtos menos perigosos, cabine com extração, ficha de dados de segurança, luvas e proteção respiratória adequadas
Ruído seccionadora, garlopa, desengrossadeira, tupia máquinas e ferramentas menos ruidosas, encapsulamento, protetores auriculares
Incêndio e explosão pó fino acumulado, solventes limpeza, aspiração, armazenamento separado dos inflamáveis
Ergonómico manuseamento de chapas e móveis montados mesas elevatórias, ventosas, transporte a dois, pausas

A ordem da última coluna não é arbitrária: primeiro elimina-se ou reduz-se o risco na origem (proteção coletiva), e só depois se recorre ao equipamento de proteção individual (EPI).

O pó de madeira

O pó de madeira dura (de folhosas como carvalho ou faia) é classificado na legislação europeia como agente cancerígeno. A Diretiva (UE) 2017/2398, transposta em Portugal pelo Decreto-Lei n.º 35/2020, de 13 de julho, fixou para ele um valor-limite de exposição profissional de 2 mg/m³ (fração inalável, média ponderada de 8 horas), aplicável desde 17 de janeiro de 2023. Quando o pó de madeira dura está misturado com pó de outras madeiras, o valor-limite aplica-se a todo o pó da mistura.

Consequências práticas: aspiração ligada a todas as máquinas que produzem pó, limpeza por aspiração, e máscara de proteção respiratória (FFP2 ou FFP3) quando a captação na origem não chega para ficar abaixo do limite. O MDF produz um pó muito fino e, se tiver fibras de folhosas, entra nesta regra.

O ruído

O Decreto-Lei n.º 182/2006 fixa, para a exposição pessoal diária ao ruído, valores de ação de 80 dB(A) (inferior) e 85 dB(A) (superior) e um valor-limite de 87 dB(A). A partir do valor de ação inferior o empregador tem de disponibilizar protetores auriculares; a partir do superior, o seu uso é obrigatório e a zona deve ser sinalizada. Muitas máquinas de trabalhar madeira ultrapassam estes valores quando estão a cortar.

Segurança em cada operação da gama

O dossier não se limita a um capítulo genérico de segurança no fim: cada operação da gama operatória tem a sua coluna de riscos e medidas, como no exemplo do capítulo 12.

Lixagem de um painel de MDF. Riscos: pó muito fino (respiratório), ruído, abrasão das mãos, incêndio por acumulação de pó. Medidas: aspiração da lixadora ligada e verificada antes de começar; limpeza do posto por aspiração; óculos de proteção; máscara FFP2 ou FFP3 se a captação não for suficiente; protetores auriculares se a avaliação de ruído o indicar.

O posto de desenho (CAD)

O técnico de desenho passa o dia num posto com equipamento dotado de visor, matéria regulada pelo Decreto-Lei n.º 349/93, de 1 de outubro, e pela Portaria n.º 989/93, de 6 de outubro. Boas práticas: ecrã à altura dos olhos ou ligeiramente abaixo e à distância de um braço, sem reflexos de janelas ou luminárias; cadeira regulável com apoio lombar; antebraços apoiados; pausas ou mudanças de atividade ao longo do dia.

A segurança do produto

15. Compilar e organizar o dossier técnico

Compilar é reunir num só conjunto, revisto e coerente, tudo o que foi produzido nos capítulos anteriores. A organização final segue três regras: os mesmos códigos em todos os documentos, um índice que localize cada documento e um registo de revisões.

Índice tipo

  1. Índice e registo de revisões
  2. Memória descritiva e especificações técnicas
  3. Desenho de conjunto e vista explodida
  4. Desenhos de subconjunto
  5. Desenhos de componente (pela ordem dos códigos), cortes, secções e pormenores
  6. Lista de peças e lista de corte
  7. Lista de matérias-primas e auxiliares
  8. Lista de ferragens e acessórios
  9. Gamas operatórias (componentes e montagem)
  10. Instruções de montagem e especificação de embalagem
  11. Segurança: riscos por operação, fichas de dados de segurança, avisos do produto, normas e relatórios de ensaio

Registo de revisões

Revisão Data Alteração Documentos afetados
A primeira emissão · todos
B data da alteração laterais passam de 16 para 19 mm memória (massa), desenhos 1 a 12, lista de corte, lista de matérias-primas, gamas 10 e 30

Cada folha de desenho mostra a sua revisão na legenda. Uma folha na revisão A num dossier na revisão B é um erro à espera de acontecer.

Lista de verificação da coerência

Exemplo resolvido: encontrar as incoerências

Um colega entrega um dossier com: memória "A × L × P = 1800 × 900 × 300 mm"; desenho de conjunto com largura 800; lista de corte com prateleiras de 862 mm; três códigos diferentes para as três prateleiras iguais.

  1. Largura: a memória diz 900, o desenho diz 800. Há que decidir qual está certa e corrigir o outro documento.
  2. Prateleiras: 862 = 900 - 2 × 19, portanto a lista de corte foi feita para 900 mm. Se a largura certa é 800, as prateleiras são 762 e a lista, o plano de corte, a massa e os metros de orla têm de ser refeitos.
  3. Códigos: três prateleiras iguais passam a um código com qtd. 3.
  4. Revisão: tudo isto é registado como nova revisão, com os documentos afetados.

Um dossier técnico bem organizado permite a uma pessoa nova na empresa perceber e reproduzir o produto sem perguntar nada a ninguém. É esse o verdadeiro teste de qualidade.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Um dossier técnico de mobiliário constrói-se sempre pela mesma ordem: memória descritiva (o que é o produto) → especificações (dimensões A × L × P, massa calculada peça a peça, materiais e acabamentos compatíveis) → codificação da árvore do produto (peças iguais com o mesmo código, peças de mão com códigos diferentes) → desenhos do conjunto ao componente, no método europeu, em escalas normalizadas, cotados com medidas reais a partir de referências, com cortes, secções, pormenores e vista explodida cujos balões batem com a lista de peças → listas de peças, de corte (fio e orlas), de matérias-primas e auxiliares e de ferragens e acessórios → gamas operatórias com posto, ferramenta, parâmetros, tempos, controlos e segurança → instruções de montagem e embalagemsegurança de quem fabrica e de quem usa → verificação de coerência e registo de revisões.

Exercícios resolvidos

1. Num desenho à escala 1:5, a linha de cota do comprimento de uma prateleira mede 152,4 mm no papel. Qual é o comprimento real da prateleira e que valor se escreve na cota?

Resolução: à escala 1:5, 1 mm no papel representa 5 mm reais: 152,4 × 5 = 762 mm. Na cota escreve-se 762, sem unidade: o valor inscrito é sempre a medida real, nunca a medida no papel.

2. Uma porta em MDF lacado mede 700 × 396 × 19 mm. Com uma densidade de 750 kg/m³ (valor indicativo), qual é a sua massa? Para que serve este número no dossier?

Resolução: 1. Converter para metros: 0,700 × 0,396 × 0,019. 2. Volume: 0,700 × 0,396 = 0,2772 m²; × 0,019 = 0,005267 m³. 3. Massa: 0,005267 × 750 ≈ 3,95 kg ≈ 4,0 kg.

Serve para duas coisas: entra na massa total do produto e é o dado de entrada da tabela do fabricante que diz quantas dobradiças a porta precisa.

3. Na lista de peças de uma mesa aparecem as pernas com os códigos MES02.00.02, MES02.00.03, MES02.00.04 e MES02.00.05, todas com qtd. 1. As quatro pernas são iguais. O que está errado e como se corrige?

Resolução: peças iguais têm um só código com a quantidade: fica MES02.00.02 · Perna · qtd. 4. Com quatro códigos, a fábrica teria quatro ordens de fabrico e o armazém quatro referências para a mesma peça. Só se justificariam códigos diferentes se as pernas tivessem maquinações diferentes (por exemplo, pernas "de mão" com furação em espelho).

4. Uma lateral tem cinco furos para suportes de prateleira em sistema 32, sendo o primeiro a 100 mm da aresta inferior. Dá as cotas em paralelo a partir dessa aresta e explica porque não se cotam em série.

Resolução: com 32 mm entre eixos: 100; 100 + 32 = 132; 132 + 32 = 164; 164 + 32 = 196; 196 + 32 = 228. Cotam-se as cinco a partir da aresta inferior (100, 132, 164, 196, 228) porque, em série, os erros de cada cota somar-se-iam e o último furo poderia ficar desalinhado em relação à grelha das ferragens.

5. No método europeu, onde se desenham a planta e a vista lateral esquerda de um móvel?

Resolução: a planta fica por baixo do alçado principal; a vista lateral esquerda (o móvel visto do seu lado esquerdo) fica à direita do alçado principal. A legenda indica o método com o símbolo do 1.º diedro.

6. Uma gama operatória para uma prateleira em aglomerado melamínico tem esta ordem: 10 furar topos; 20 cortar à medida; 30 orlar a frente; 40 lixar; 50 envernizar. Corrige-a e justifica.

Resolução: ordem correta: 10 cortar à medida → 20 orlar a frente → 30 furar topos e face → 40 controlar. Os furos têm de ser feitos depois do corte, porque se posicionam a partir das arestas finais; a orla vem antes da furação, para não ter de furar através dela nem orlar uma aresta já furada. As operações 40 e 50 desaparecem: a melamina é o acabamento, não se lixa nem se enverniza.

7. Um tampo de cómoda tem medida final 800 × 450 mm e leva orla ABS de 2 mm nas quatro arestas. Qual é a medida de corte e quantos metros de orla se pedem, com 10 % de margem?

Resolução: 1. A orla acrescenta 2 mm em cada aresta, ou seja, 4 mm em cada dimensão: corte a 800 - 4 = 796 por 450 - 4 = 446 mm. 2. Perímetro orlado: 2 × (800 + 450) = 2500 mm = 2,5 m. 3. Com margem: 2,5 × 1,10 = 2,75 m.

8. A operação de orlagem de uma peça tem tp = 12 min e tu = 0,6 min. Quanto tempo leva um lote de 50 peças, e qual é o tempo por peça?

Resolução: T = tp + n × tu = 12 + 50 × 0,6 = 12 + 30 = 42 min. Por peça: 42 / 50 = 0,84 min, mais do que os 0,6 min de trabalho efetivo, por causa da preparação.

9. Uma memória descritiva diz: "estrutura em aglomerado melamínico, acabamento lacado branco". Que problema técnico tem esta frase e como se corrige?

Resolução: a melamina já é o acabamento do painel e não se laca sem uma preparação específica. Há duas correções coerentes: "estrutura em aglomerado revestido a melamina branca mate" (se o objetivo for economia) ou "estrutura em MDF lacado branco mate" (se o objetivo for o aspeto lacado). A escolha muda a lista de matérias-primas e a gama operatória (o MDF lacado leva primário, lixagem e laca).

10. Numa oficina lixa-se carvalho e MDF, e a aspiração da lixadora está avariada. Que regra se aplica ao pó e que medidas deve indicar o dossier para esta operação?

Resolução: o pó de madeira dura é cancerígeno, com um valor-limite de exposição de 2 mg/m³ (fração inalável, 8 horas), aplicável desde 17 de janeiro de 2023; misturado com outros pós de madeira, o limite aplica-se à mistura toda. A primeira medida é não trabalhar sem aspiração: repara-se a captação na origem antes de lixar. A máscara FFP2 ou FFP3 complementa a aspiração, não a substitui. O dossier indica, na linha da operação de lixagem, aspiração ligada, óculos, proteção respiratória e protetores auriculares conforme a avaliação de ruído.

11. Uma estante de 1,8 m vai ser vendida em kit. Que dois elementos de segurança têm de existir no dossier, e em que documentos?

Resolução: (1) na lista de ferragens, o dispositivo de fixação à parede (esquadros e parafusos para o móvel), e (2) nas instruções de montagem, o passo obrigatório de fixação à parede, com o aviso de tombamento em destaque e a indicação de usar buchas adequadas ao tipo de parede. A memória descritiva refere ambos, e a embalagem inclui o dispositivo.