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aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC02099

Sebenta · Programar e desenhar com software de CAD-CAM em centros de trabalho CNC para o fabrico de peças de mobiliário e carpintaria (UC02099)

Do desenho técnico ao programa da máquina: CAD, CAM, código ISO, ferramentas, estratégias, furação, nesting, simulação, pós-processamento, segurança e qualidade
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Desenho de Produto em M ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a desenhar e programar peças de mobiliário e carpintaria em software de CAD-CAM, para as maquinar em centros de trabalho CNC: fresadoras (routers), multifuradoras e centros de trabalho multifunções. O percurso segue o fluxo real de uma oficina: primeiro desenha-se a peça em CAD, depois programa-se a maquinagem em CAM, simula-se e verifica-se, gera-se o programa com o pós-processador certo e só então se maquina, primeiro uma peça de teste e depois a série.

Objetivos de aprendizagem (referencial): desenhar, com software CAD-CAM, componentes e peças de carpintaria e mobiliário para centros de trabalho CNC; manipular essas peças e componentes em ambiente CAD-CAM; aplicar ferramentas de corte, percursos e estratégias de maquinagem CNC no fabrico de componentes; e garantir a correta aplicação dessas estratégias, com segurança, EPI e respeito pelas normas da qualidade.

Esta unidade trabalha para as indústrias de madeira e mobiliário e para as indústrias de carpintaria, dois setores em que o CNC substituiu grande parte do corte, da furação e da fresagem manuais. Uma cozinha por medida, uma estante em série, uma porta de carpintaria com almofada fresada ou uma letra gravada numa placa de madeira maciça passam hoje, quase sempre, por um programa CNC.

Como está organizada esta sebenta

Capítulos O que aprendes Ligação ao referencial
1 e 2 o ciclo CAD-CAM-CAE-MES e a máquina CNC (eixos, origens, fixação) tecnologias CAD-CAM-CAE e MES, integração do CAM no ciclo produtivo
3 e 4 o software, a sua estrutura e os tipos de ficheiro ambiente gráfico, organização das ferramentas, tipos de ficheiros
5 a 7 desenhar em 2D e 3D, em planos e faces, e importar geometria comandos CAD, volume de trabalho, planos e faces, ficheiros externos
8 e 9 comandos CAM e linguagem de programação CNC (código ISO) comandos CAM, programar
10 a 13 ferramentas, percursos, entradas e saídas, estratégias, furação e multifuração ferramentas, percursos, estratégias, furação
14 e 15 otimização, nesting e automatização otimização, nesting, automatismos
16 e 17 simulação, colisões, pós-processamento e maquinagem-teste simulação, colisões, pós-processamento
18 e 19 segurança, saúde, EPI e normas da qualidade EPI, segurança e saúde, qualidade

Cada capítulo tem pelo menos um exemplo resolvido passo a passo. Refaz as contas com a calculadora antes de leres a solução: é assim que se ganha confiança para programar uma máquina a sério.

1. O ciclo CAD-CAM-CAE-MES e a integração do CAM no ciclo produtivo

O fabrico assistido por computador assenta em quatro tecnologias complementares, cada uma com um papel próprio na cadeia produtiva:

Sigla Nome (inglês) Em português Papel
CAD Computer Aided Design desenho assistido por computador desenhar a geometria da peça, em 2D ou 3D
CAM Computer Aided Manufacturing fabrico assistido por computador definir ferramentas, percursos e estratégias e gerar o programa da máquina
CAE Computer Aided Engineering engenharia assistida por computador simular e validar o comportamento da peça (resistência, deformação, montagem)
MES Manufacturing Execution System sistema de execução da produção gerir e acompanhar a produção na fábrica, entre a gestão (ERP) e as máquinas

O que faz cada tecnologia, com exemplos do setor

O ERP (Enterprise Resource Planning, sistema de gestão integrada) trata de encomendas, compras, stocks e faturação. O MES fica entre o ERP e a máquina: traduz "produzir 40 cozinhas esta semana" em "cortar estes 312 painéis, nesta máquina, por esta ordem". O CNC (Computer Numerical Control, comando numérico computorizado) é o controlador da máquina, que lê o programa e move os eixos.

A integração do CAM no ciclo produtivo

O CAM é o elo entre o projeto e a máquina: um desenho perfeito em CAD não corta uma única tábua enquanto não é traduzido em percursos de maquinagem e num programa. A integração do CAM no ciclo produtivo significa três coisas:

  1. Continuidade da informação: a geometria do CAD passa para o CAM sem ser redesenhada; uma alteração no desenho tem de chegar à programação e à máquina antes de o corte começar.
  2. Ligação à gestão: quantidades, prazos, lotes e materiais circulam entre o ERP, o MES e o CAM, para que cada programa corresponda a uma ordem de fabrico concreta.
  3. Retorno da produção: tempos reais de maquinagem, peças rejeitadas e desgaste de ferramentas voltam ao CAM, para otimizar os programas seguintes.
Etapa Sistema Entrada Saída
Encomenda ERP pedido do cliente ordem de fabrico
Projeto CAD (e CAE) medidas e especificações modelo e desenhos das peças
Programação CAM modelo das peças percursos, lista de ferramentas, programa NC
Planeamento e controlo MES ordens de fabrico e programas sequência de trabalho por máquina, registo da produção
Fabrico CNC programa NC peças maquinadas
Controlo qualidade peças e desenho peças aprovadas ou rejeitadas, registos

Exemplo resolvido · uma encomenda de cozinha

  1. O cliente aprova o desenho de uma cozinha, feito em CAD, com 14 módulos.
  2. O ERP cria a encomenda e a ordem de fabrico, e verifica se há painéis em stock.
  3. O programador cria, em CAM, as operações de corte, furação e ranhuras para cada painel, e faz o nesting das peças nos painéis disponíveis.
  4. O pós-processador gera o programa para o centro de trabalho CNC.
  5. O MES envia os programas para a máquina, regista os painéis consumidos e acompanha o progresso de cada módulo.
  6. Uma alteração de última hora (o cliente troca a altura dos módulos inferiores) obriga a voltar ao CAD, reprogramar o CAM, voltar a simular e só depois reenviar o programa à máquina. Se o MES não souber da alteração, a máquina corta as peças antigas.

O erro mais caro deste ciclo é a versão errada: alterar o desenho e esquecer de regenerar o programa, ou deixar na máquina um programa antigo com o mesmo nome. Por isso cada programa deve ter nome, data e revisão claros.

2. O centro de trabalho CNC: tipos, eixos, origens e fixação

Antes de desenhar para uma máquina, é preciso conhecê-la. Um programa só está certo se respeitar os eixos, os cursos, as origens e a forma de fixar a peça da máquina a que se destina.

Tipos de máquinas CNC na madeira e no mobiliário

Máquina O que faz Uso típico
Fresadora CNC (router) fresa contornos, bolsas, ranhuras e relevos com uma ou mais eletromandris peças de formato livre, gravação, relevos, carpintaria
Centro de trabalho de mesa plana (nesting) corta várias peças de um painel inteiro, com furação e ranhuras mobiliário em série a partir de painéis
Centro de trabalho de consolas (barras e ventosas) maquina peças já esquadrejadas, incluindo os topos, com brocas horizontais e agregados furação e fresagem de laterais, portas, peças de carpintaria
Multifuradora CNC fura várias posições em simultâneo com cabeças de brocas furação em série de peças de mobiliário (cavilhas, sistema 32)
Centro de 5 eixos inclina a ferramenta para maquinar em planos inclinados e superfícies 3D peças de cadeiras, escadas, esculturas, caixilharia

Um centro de trabalho multifunções junta numa só máquina a fresagem (eletromandril), a furação (grupo de furação com brocas verticais e horizontais), o corte com disco de serra e, muitas vezes, agregados: acessórios que se montam na árvore como se fossem ferramentas e que permitem, por exemplo, fresar ou furar na horizontal numa máquina de 3 eixos.

Os eixos da máquina

A nomenclatura dos eixos das máquinas de comando numérico está normalizada (norma ISO 841). A regra essencial:

Configuração Eixos que se movem de forma coordenada O que permite
3 eixos X, Y, Z contornos, bolsas, furação, relevos vistos de cima
3 eixos + agregados X, Y, Z com ferramenta inclinada ou horizontal fixa furos e fresagens nos topos da peça
4 eixos X, Y, Z + uma rotação (por exemplo C na cabeça, ou um eixo rotativo para torneados) orientar a ferramenta ou rodar a peça
5 eixos X, Y, Z + duas rotações planos inclinados e superfícies 3D numa só fixação

O sentido positivo dos eixos e a posição do zero da máquina variam de fabricante para fabricante. Antes de programar, confirma no manual da máquina onde está o zero, para onde crescem X, Y e Z e qual é o curso de cada eixo.

Origem da máquina e origem da peça

Exemplo resolvido · da coordenada da peça à coordenada da máquina

O zero peça (G54) está guardado nas coordenadas da máquina X = 250,000, Y = 120,000, Z = -85,000. O programa pede um furo em X = 100, Y = 50, Z = -12 (coordenadas da peça). Onde fica o furo em coordenadas da máquina?

  1. Em X: 250 + 100 = 350 mm.
  2. Em Y: 120 + 50 = 170 mm.
  3. Em Z: -85 + (-12) = -97 mm.

A máquina desloca-se a X350 Y170 e desce a Z-97. Se alguém mudar a peça de sítio sem atualizar o G54, todos os furos saem deslocados pela mesma diferença: é o defeito típico de uma origem mal confirmada.

Volume de trabalho

O volume de trabalho é o espaço em X, Y e Z que a máquina consegue efetivamente maquinar. Depende do curso dos eixos, do comprimento da ferramenta, da altura máxima de peça que passa sob a cabeça e do sistema de fixação (as ventosas, por exemplo, elevam a peça e roubam curso em Z).

Uma peça maior do que o volume de trabalho não se resolve "no programa": ou se divide a peça (e se une depois), ou se maquina em duas fixações com referências precisas, ou se usa outra máquina.

Fixação da peça

Sistema Como funciona Cuidados
Mesa de vácuo (nesting) o painel assenta numa placa de sacrifício (de MDF, porosa ao ar) e o vácuo segura-o por baixo peças pequenas perdem sucção no fim do corte; a placa vai sendo fresada e tem de ser aplainada ou substituída
Ventosas em barras (consolas) cada peça assenta em ventosas posicionadas por baixo, deixando os bordos livres as ventosas não podem ficar debaixo de furos passantes nem de percursos da ferramenta
Grampos pneumáticos ou mecânicos apertam peças maciças ou estreitas contra batentes são causa frequente de colisões com a ferramenta ou o porta-ferramentas
Batentes de referência pinos que sobem da mesa para encostar a peça sempre na mesma posição a peça tem de encostar aos batentes antes de ligar o vácuo

Numa oficina de carpintaria que faz portas interiores, as peças maciças são fixadas em ventosas numa máquina de consolas e encostadas a batentes. O programador verifica, na simulação, que nenhuma ventosa fica sob a zona onde a fresa vai abrir o rebaixo da fechadura, porque uma ventosa fresada deixa de vedar e a peça solta-se.

3. O ambiente de trabalho do software de CAD-CAM

O software de CAD-CAM organiza o trabalho num ambiente gráfico próprio, com uma filosofia comum à maioria dos programas do setor: desenhar primeiro, depois associar operações de maquinagem à geometria, simular e só no fim gerar o programa.

Os elementos do ambiente gráfico

Estrutura do software e organização das ferramentas

Independentemente do fabricante, as ferramentas do programa organizam-se em grupos:

Grupo Exemplos de comandos Para que serve
CAD de desenho linha, arco, círculo, retângulo, polilinha, spline, texto criar a geometria
CAD de edição deslocar, copiar, rodar, espelhar, escalar, aparar, prolongar, equidistante (offset), concordância alterar a geometria
CAD de modelação 3D extrusão, revolução, operações booleanas criar sólidos
CAM de preparação definir o bruto (painel), a origem, a fixação descrever o material e a máquina
CAM de operações contorno, bolsa, furação, gravação, desbaste e acabamento 3D criar percursos
CAM de verificação simulação, deteção de colisões, cálculo de tempo validar antes de maquinar
CAM de saída pós-processamento, relatórios, listas de ferramentas gerar o programa e a documentação

Software usado no setor

Há dois grandes tipos de programas:

  1. Ambientes de programação dos fabricantes de máquinas, gráficos e paramétricos: é o caso do woodWOP, da HOMAG, e do bSolid, da Biesse. Nestes ambientes não se escreve código linha a linha: desenham-se as peças e escolhem-se operações em janelas próprias, e o programa é guardado num formato do próprio fabricante.
  2. Programas de CAD-CAM independentes, que servem várias marcas de máquinas através de pós-processadores: por exemplo o Alphacam, o Cabinet Vision, o TopSolid'Wood, o SWOOD (integrado no SOLIDWORKS) e, em trabalhos de gravação e relevo, os programas da Vectric (VCarve e Aspire).

Mudam os botões e os menus, mas a lógica de trabalho é a mesma em todos. Quando esta sebenta nomear um comando de um programa concreto, di-lo expressamente; no resto, usa nomes genéricos que encontras, com pequenas variações, em qualquer software.

Ao mudar de software ao longo da carreira, o que se transfere não é o local exato de cada botão, mas o raciocínio: geometria limpa, depois ferramenta, depois estratégia, depois simulação, depois pós-processador.

4. Tipos de ficheiros CAD e CAM

Um técnico de CAD-CAM lida com ficheiros que entram (geometria), ficheiros de trabalho (o projeto) e ficheiros que saem (o programa da máquina).

Ficheiros de geometria (entrada)

Formato Tipo Uso típico Cuidados
DXF vetorial, sobretudo 2D contornos, perfis, plantas trocados entre programas CAD diferentes confirmar unidades; curvas podem chegar partidas em muitos segmentos
DWG formato nativo do AutoCAD desenhos vindos de gabinetes de arquitetura e projeto nem todos os programas CAM leem todas as versões
STEP (.stp, .step) sólido 3D neutro, normalizado (ISO 10303) troca de sólidos entre CAD diferentes, modelos de ferragens é o formato de sólidos mais fiável para trocar entre programas
IGES (.igs) superfícies e sólidos 3D, formato neutro mais antigo modelos de superfícies antigas pode perder faces ou chegar com superfícies abertas
STL malha de triângulos relevos esculpidos, modelos digitalizados por scanner 3D é uma aproximação: não tem arcos nem faces exatas
Imagens (.jpg, .png, .bmp) raster (píxeis) logótipos e desenhos para gravação têm de ser vetorizadas antes de se poderem maquinar como contorno

Ficheiros de projeto (trabalho)

Cada programa guarda o projeto completo, com geometria, ferramentas e operações CAM, no seu formato nativo. Por exemplo, o VCarve usa ficheiros .crv e o Aspire .crv3d. Estes ficheiros só se abrem no próprio programa (ou em versões compatíveis): servem para continuar o trabalho, não para trocar geometria com outras empresas.

Ficheiros de saída (programa NC)

No fim do processo, o software gera o programa de maquinagem, o ficheiro que a máquina efetivamente executa:

O ficheiro NC é específico da máquina: um programa feito para uma máquina não deve ser enviado para outra, mesmo que pareça "compatível".

Unidades: o erro de 25,4

Uma polegada mede 25,4 mm. Se um ficheiro for lido com a unidade errada, todas as medidas ficam multiplicadas ou divididas por 25,4:

Exemplo resolvido · corrediça importada de um catálogo americano

Um técnico importa o STEP de uma corrediça de 450 mm e, no ecrã, a peça mede 17,7 unidades de comprimento.

  1. Razão entre o esperado e o lido: 450 ÷ 17,7 ≈ 25,4. É o fator polegada-milímetro.
  2. Conclusão: o ficheiro está em polegadas (17,7 in) e foi lido como se estivesse em milímetros.
  3. Conferência: 17,7 × 25,4 = 449,6 mm, cerca de 450 mm (a diferença vem do arredondamento de 17,7).
  4. Correção: reimportar indicando a unidade polegadas, ou escalar a geometria pelo fator 25,4, e voltar a medir uma cota conhecida.

Depois de qualquer importação, mede uma cota que conheces (o comprimento total, o diâmetro de um furo) antes de continuar. É a verificação mais barata de todo o processo.

5. Comandos CAD: desenhar a peça

Os comandos CAD constroem a geometria da peça, elemento a elemento, antes de qualquer maquinagem ser programada. Num software de CAD-CAM para madeira, o desenho não é uma ilustração: cada linha vai ser seguida por uma ferramenta, por isso tem de ser exata.

Formas de introduzir coordenadas

Tipo Como se lê Exemplo
Absolutas medidas a partir da origem do desenho ponto (400, 300)
Relativas medidas a partir do último ponto +400 em X, +0 em Y
Polares distância e ângulo a partir do último ponto 200 mm a 45°

As referências a objetos (em alguns programas chamadas snaps: extremo, ponto médio, centro, interseção, perpendicular, tangente) garantem que uma linha começa exatamente no fim de outra. Um desenho feito "a olho", sem referências, tem folgas de centésimas que o CAM não perdoa.

Primitivas e edição

Para dar um exemplo com um programa concreto: no AutoCAD, os comandos equidistante, aparar e concordância chamam-se, na versão inglesa, OFFSET, TRIM e FILLET. Noutros programas o nome muda, mas a função existe.

Camadas e organização

O desenho CAD-CAM organiza-se em camadas (layers), tal como o desenho técnico em geral:

Em muitos softwares de mobiliário, o nome ou a cor da camada decide automaticamente que operação CAM lhe corresponde. Uma convenção de oficina pode ser, por exemplo: camada FURO_5_D12 = furos de 5 mm com 12 mm de profundidade; camada CONTORNO_PASSANTE = contorno exterior passante.

Geometria limpa

Um desenho limpo é a condição de partida de um bom percurso CAM:

Exemplo resolvido · porta com cantos arredondados

Desenhar a porta de um móvel com 596 × 396 mm e cantos arredondados com raio 20 mm.

  1. Desenhar um retângulo a partir da origem (0, 0) até (596, 396), em coordenadas absolutas.
  2. Aplicar concordância de raio 20 mm aos quatro cantos: cada canto passa a ser um arco de 90° com centro a 20 mm de cada aresta, por exemplo o canto inferior esquerdo tem centro em (20, 20).
  3. Confirmar que o resultado é uma só polilinha fechada (quatro linhas e quatro arcos).
  4. Conferir com a cotagem: comprimento das arestas retas horizontais = 596 - 2 × 20 = 556 mm; verticais = 396 - 2 × 20 = 356 mm.
  5. Colocar a polilinha na camada do contorno exterior.

6. Desenho de geometrias 2D e 3D em diferentes planos e no espaço

Volume de trabalho, planos e faces

Antes de desenhar, define-se o bruto (o painel ou a peça de partida, com comprimento, largura e espessura) e confirma-se que cabe no volume de trabalho da máquina (capítulo 2).

Geometrias 2D, 2,5D e 3D

Criar sólidos

Comando O que faz Exemplo em mobiliário
Extrusão dá espessura a um contorno 2D uma lateral de 18 mm a partir do seu contorno
Revolução roda um perfil em torno de um eixo um pé torneado
União, subtração, interseção combina sólidos (operações booleanas) subtrair o volume de um rebaixo a uma travessa
Varrimento desloca um perfil ao longo de um caminho um corrimão ou uma moldura curva

Exemplo resolvido · lateral com furação do sistema 32

O sistema 32 é uma convenção de mobiliário por módulos em que as filas de furos de 5 mm têm os centros afastados 32 mm entre si, e a fila da frente fica a 37 mm do bordo da frente. Vamos desenhar a fila da frente numa lateral com 720 mm de altura (eixo Y), deixando pelo menos 96 mm livres em cima e em baixo.

  1. Primeiro furo: Y = 96 mm.
  2. Último furo possível: tem de ficar a Y ≤ 720 - 96 = 624 mm.
  3. Número de intervalos de 32 mm que cabem entre 96 e 624: (624 - 96) ÷ 32 = 528 ÷ 32 = 16,5, arredonda-se para baixo, 16 intervalos.
  4. Número de furos = 16 + 1 = 17 furos, o último em Y = 96 + 16 × 32 = 608 mm.
  5. Desenhar o primeiro círculo de Ø5 em (37, 96) e usar uma matriz linear de 17 elementos, passo 32 mm em Y, na camada de furação.

Fórmula geral para uma lateral de altura H, com margem a em cima e em baixo: número de furos = parte inteira de ((H - 2a) ÷ 32) + 1.

7. Importar geometrias e sólidos de ficheiros externos

Nem toda a geometria nasce no próprio software: chega frequentemente de um gabinete de arquitetura, de um cliente, de um catálogo de ferragens ou de outro colega.

Checklist de importação

Passo O que verificar Porquê
1. Unidade milímetros ou polegadas o erro de 25,4 (capítulo 4)
2. Escala medir uma cota conhecida o desenho pode vir numa escala de papel
3. Contornos fechados juntar extremos com uma tolerância pequena bolsas e nesting exigem contornos fechados
4. Duplicados eliminar linhas sobrepostas geram percursos repetidos
5. Camadas reatribuir à convenção da oficina as operações automáticas dependem delas
6. Origem e orientação colocar a peça no canto e no sentido certos a origem do ficheiro raramente é a da máquina
7. Texto e cotas apagar o que não é para maquinar cotas e textos importados podem ser lidos como geometria

Reparar geometria importada

Passar diretamente ao CAM sobre geometria importada, sem a rever, é uma das causas mais frequentes de percursos com falhas.

Exemplo resolvido · planta de um balcão enviada por um arquiteto

Chega um DXF com o tampo de um balcão curvo. Ao abrir, o contorno mede 2,35 de comprimento e o desenho tem cotas, texto e linhas de eixo.

  1. A medida de 2,35 sugere que o desenho foi feito em metros: 2,35 m = 2350 mm. Confirma-se com o arquiteto e escala-se por 1000.
  2. Apagam-se cotas, textos e linhas de eixo, que não são para maquinar.
  3. Juntam-se os segmentos do contorno numa polilinha fechada, com tolerância de 0,01 mm, e verifica-se que o programa a reconhece como fechada.
  4. A curva frontal chegou como 180 pequenos segmentos: converte-se em arcos para um corte suave.
  5. Move-se o contorno para que o canto de referência fique na origem da peça, e coloca-se na camada do contorno exterior.

8. Comandos CAM: preparar a maquinagem

Com a geometria pronta, o CAM associa-lhe as operações de maquinagem, uma a uma.

A sequência de trabalho

  1. Definir o bruto: dimensões e material do painel ou peça de partida.
  2. Definir a origem e a fixação: zero peça e posição de ventosas, grampos ou mesa de vácuo.
  3. Selecionar geometria: escolher os contornos, pontos ou faces a maquinar.
  4. Criar operação: contorno (perfil), bolsa (cavidade), furação, ranhura, gravação, desbaste ou acabamento 3D.
  5. Associar ferramenta: escolher a ferramenta de corte da biblioteca.
  6. Definir parâmetros: profundidade, número de passagens, lado da ferramenta, sentido de corte, entradas e saídas, avanço e rotação.
  7. Ordenar operações: a sequência na árvore de operações é a sequência de maquinagem real.
  8. Simular, pós-processar e documentar.

Cada operação CAM liga sempre três coisas, geometria, ferramenta e parâmetros, e verificar essa tríade antes de simular evita a maioria dos erros.

Principais comandos CAM e o que pedem

Operação Geometria Parâmetros essenciais
Contorno (perfil) polilinha aberta ou fechada lado da ferramenta (fora, dentro, sobre a linha), profundidade, passagens, sentido
Bolsa contorno fechado (e ilhas, se houver) profundidade, estratégia de enchimento, sobreposição entre passagens
Furação pontos ou círculos diâmetro, profundidade, tipo de broca (cega ou passante)
Ranhura linha largura, profundidade, ferramenta (fresa ou disco de serra)
Gravação texto ou linhas profundidade, ferramenta em V ou de ponta fina
Desbaste 3D superfície ou sólido sobre-espessura, passo em Z, passo lateral
Acabamento 3D superfície ou sólido passo lateral, ferramenta esférica, direção

A ordem das operações

A ordem típica numa peça de painel é: furação → ranhuras e bolsas → contornos interiores → contorno exterior. O contorno exterior costuma ser a última operação, porque é ele que separa a peça do resto do painel: se fosse feito primeiro, a peça, já solta e menor, perderia fixação e apoio antes de as restantes operações estarem concluídas, e poderia deslocar-se.

Dentro da mesma lógica, agrupam-se as operações pela mesma ferramenta, para reduzir trocas (capítulo 14).

Exemplo resolvido · furação de cavilhas numa lateral

  1. Selecionar os círculos de furação desenhados na camada correspondente (quatro furos de Ø8).
  2. Criar a operação Furação, associando uma broca cega de Ø8 (broca com ponta de centragem, própria para furos não passantes).
  3. Definir a profundidade: 12 mm num painel de 18 mm, deixando 6 mm de material por baixo. Com o zero peça na face superior, a cota final é Z = -12.
  4. Confirmar que nenhuma ventosa fica por baixo destes furos e que a operação aparece na árvore antes do contorno exterior.

Antes de simular, lê cada operação da árvore em voz alta: "furar com a broca de 8, a 12 de profundidade, nos quatro círculos da camada FURO_8". Se uma das três partes da frase falhar, a operação está errada.

9. Programar a máquina: a linguagem CNC (código ISO)

Programar uma máquina CNC é escrever, ou gerar, a sequência de instruções que ela executa. Na maior parte dos casos o programa é gerado pelo CAM, mas o técnico tem de o saber ler, para confirmar o que a máquina vai fazer, detetar erros e fazer pequenas correções junto à máquina.

A linguagem mais difundida é o código ISO, também chamado código G (norma ISO 6983). Atenção a duas coisas:

Estrutura de um programa

Um programa é uma sequência de blocos (linhas). Cada bloco tem palavras: uma letra seguida de um número.

Letra Significado Exemplo
N número do bloco N10
G função preparatória (tipo de movimento, plano, modo) G01
X, Y, Z coordenadas de destino X400 Y300 Z-18.5
I, J, K posição do centro de um arco, em relação ao ponto de partida I20 J0
R raio de um arco R20
F avanço (velocidade de avanço), em mm/min F5400
S velocidade de rotação da árvore, em rpm S18000
T número da ferramenta T1
D corretor (raio) da ferramenta D1
M função auxiliar (árvore, troca de ferramenta, fim de programa) M03

Muitas funções são modais: uma vez ativadas, ficam ativas até serem substituídas. Depois de um G01, os blocos seguintes continuam a ser movimentos lineares até aparecer outro G00, G02 ou G03.

As funções mais usadas

Código Função
G00 posicionamento rápido (sem corte, à velocidade máxima da máquina)
G01 interpolação linear (movimento em linha reta, a cortar, ao avanço F)
G02 interpolação circular no sentido horário
G03 interpolação circular no sentido anti-horário
G17 / G18 / G19 seleção do plano XY / XZ / YZ
G40 anula a compensação do raio da ferramenta
G41 compensação do raio com a ferramenta à esquerda da trajetória, no sentido do avanço
G42 compensação do raio com a ferramenta à direita da trajetória, no sentido do avanço
G54 ativa a origem da peça guardada na primeira posição de origens
G90 coordenadas absolutas (em relação à origem da peça)
G91 coordenadas incrementais (em relação ao ponto atual)
M03 / M04 / M05 árvore a rodar no sentido horário / anti-horário / árvore parada
M06 troca de ferramenta
M30 fim de programa (com regresso ao início)

A seleção de milímetros ou polegadas também se faz por código, mas o código muda de comando para comando (por exemplo G21/G20 nuns, G71/G70 noutros): confirma no manual.

Exemplo resolvido · ler e conferir o programa de uma prateleira

Prateleira de 400 × 300 mm em painel de 18 mm, cortada numa mesa de vácuo com placa de sacrifício. Fresa de topo reto Ø8 (raio 4 mm). Zero peça no canto inferior esquerdo, Z0 na face superior do painel. O programa descreve o centro da ferramenta, por isso o percurso fica afastado 4 mm do contorno da peça.

%
O1001 (PRATELEIRA 400X300X18 CONTORNO EXTERIOR)
N10 G21 G17 G90 G40 G54
N20 T1 M06 (FRESA TOPO RETO D8 Z2)
N30 S18000 M03
N40 G00 X-4 Y-20
N50 G00 Z5
N60 G01 Z-18.5 F1500
N70 G01 Y304 F5400
N80 X404
N90 Y-4
N100 X-4
N110 X-20
N120 G00 Z20
N130 M05
N140 M30
%

Conferência, bloco a bloco:

  1. N10: milímetros (neste comando, G21), plano XY, coordenadas absolutas, sem compensação, origem G54.
  2. N20 e N30: carrega a ferramenta 1 e põe a árvore a 18 000 rpm no sentido horário.
  3. N40 e N50: desloca-se em rápido para fora da peça (X-4, Y-20) e desce em rápido só até 5 mm acima do painel. Nunca se desce em G00 para dentro do material.
  4. N60: mergulha a cortar até Z-18,5, ou seja, atravessa os 18 mm do painel e entra 0,5 mm na placa de sacrifício, para o corte ficar limpo por baixo.
  5. N70 a N100: percorre o retângulo afastado 4 mm da peça: de X-4 a X404 são 408 mm, ou seja, 400 mm de peça + 2 × 4 mm de raio. O mesmo em Y: de -4 a 304 são 308 = 300 + 2 × 4. O percurso é feito no sentido horário à volta da peça.
  6. N110: afasta-se da peça antes de subir, para não deixar marca no bordo.
  7. N120 a N140: sobe em rápido, para a árvore e termina o programa.

Tempo de corte (aproximado). Comprimento percorrido ao avanço de 5400 mm/min: de Y-20 a Y304 = 324 mm; depois 408 + 308 + 408 mm; e a saída de X-4 a X-20 = 16 mm. Total: 324 + 408 + 308 + 408 + 16 = 1464 mm. Tempo: 1464 ÷ 5400 = 0,271 min ≈ 16,3 s. O mergulho de 23,5 mm (de Z5 a Z-18,5) a 1500 mm/min demora 23,5 ÷ 1500 = 0,0157 min ≈ 0,9 s.

Neste exemplo o painel é atravessado numa só passagem para o programa ficar curto. Na prática, a profundidade por passagem depende da ferramenta, do material e da potência da máquina, e muitas vezes o corte é dividido em várias passagens (capítulo 11).

Absoluto e incremental

O bloco N70 em absoluto (G90) diz "vai para Y = 304". O mesmo movimento em incremental (G91), partindo de Y-20, seria Y324: "anda 324 mm em Y a partir de onde estás". Misturar os dois modos é um erro clássico: um programa pensado em absoluto, executado em incremental, leva a ferramenta para fora da peça.

Arcos: G02 e G03

Para fazer um canto arredondado de raio 20 mm, do ponto (0, 280) ao ponto (20, 300), com centro em (20, 280):

Compensação do raio: G41 e G42

Em vez de o programa descrever o centro da ferramenta, pode descrever o contorno real da peça, e o comando afasta a ferramenta do raio guardado no corretor (por exemplo D1 = 4 mm):

No exemplo da prateleira, percorrendo o contorno no sentido horário, a ferramenta fica do lado de fora, que é o lado esquerdo da trajetória: seria G41. A vantagem é que, se a fresa for afiada e o diâmetro mudar, basta atualizar o corretor, sem regenerar o programa. A forma exata de ativar e anular a compensação (movimento de aproximação, comprimento mínimo) está no manual do comando.

Tipos de ferramentas para CNC de madeira

Ferramenta Descrição Uso
Fresa de topo reto (cilíndrica) arestas de corte na lateral e no topo contornos, ranhuras, bolsas
Fresa helicoidal positiva (up-cut) a hélice puxa a apara para cima boa evacuação da apara; pode lascar a face de cima
Fresa helicoidal negativa (down-cut) a hélice empurra para baixo face de cima limpa; a apara fica no corte
Fresa de compressão hélice positiva numa zona e negativa na outra corte limpo nas duas faces de painéis revestidos (melamina)
Fresa de topo esférico ponta em meia esfera acabamento 3D de relevos
Fresa em V ponta cónica com ângulo definido (60°, 90°, entre outros) gravação, chanfros, letras
Fresa de perfil forma do perfil gravada na ferramenta molduras, bordos boleados, perfis de portas
Broca cega (com ponta de centragem) fundo praticamente plano furos não passantes: cavilhas, sistema 32
Broca passante (ponta cónica) sai limpa do outro lado furos que atravessam o painel
Broca de dobradiças (Ø35) broca de grande diâmetro e fundo plano copo das dobradiças de encastrar
Disco de serra serra montada na árvore ou num grupo próprio ranhuras retas, cortes retos

Quanto ao material de corte, as ferramentas de metal duro são as mais comuns; em séries grandes de painéis abrasivos (aglomerado e MDF, sobretudo revestidos), usa-se também diamante policristalino (PCD), mais caro mas muito mais duradouro.

O que se configura na biblioteca

Cada ferramenta tem de estar definida na biblioteca do software (e, com o mesmo número, no magazine da máquina) antes de ser usada:

O catálogo de ferramentas do fabricante, específico para madeira, derivados e outros materiais de mobiliário e carpintaria, é a referência para estes valores; não se inventam nem se copiam de outro material sem confirmar.

Velocidade de corte e velocidade de avanço

Duas fórmulas fazem a ponte entre o catálogo e o programa.

Velocidade de corte (a velocidade a que a aresta passa pela madeira):

Vc = π × D × n ÷ 1000

com Vc em m/min, D (diâmetro da ferramenta) em mm e n (rotação) em rpm. O ÷ 1000 converte milímetros em metros.

Velocidade de avanço (a velocidade a que a ferramenta avança ao longo do percurso, o F do programa):

Vf = n × z × fz

com Vf em mm/min, z o número de arestas de corte e fz o avanço por dente (a espessura de material que cada aresta tira em cada volta), em mm.

Nas fresadoras de madeira, as eletromandris trabalham tipicamente na ordem das dezenas de milhares de rpm: valores entre 12 000 e 24 000 rpm são habituais. São rotações muito acima das usadas na fresagem de metais, e os valores de um material não servem para o outro.

Exemplo resolvido 1 · velocidade de corte

Fresa de Ø8 mm a 18 000 rpm. Qual é a velocidade de corte?

Vc = π × 8 × 18 000 ÷ 1000 = 3,1416 × 144 = 452 m/min (arredondado).

Exemplo resolvido 2 · configurar uma fresa de topo reto

  1. Abrir a biblioteca de ferramentas e criar uma nova ferramenta.
  2. Escolher o tipo fresa de topo reto, diâmetro 8 mm, 2 arestas de corte.
  3. Introduzir a velocidade de rotação (por exemplo, 18 000 rpm) e o avanço por dente indicado no catálogo para o material (neste exemplo, 0,15 mm).
  4. Calcular a velocidade de avanço: Vf = n × z × fz = 18 000 × 2 × 0,15 = 5400 mm/min.
  5. Guardar a ferramenta na biblioteca, associada ao material, para a reutilizar noutras peças.

Exemplo resolvido 3 · da velocidade de corte à rotação

O catálogo (valor de exemplo) recomenda Vc = 500 m/min para uma fresa de Ø10 mm. Que rotação programar?

  1. Isolar n: n = Vc × 1000 ÷ (π × D).
  2. n = 500 × 1000 ÷ (3,1416 × 10) = 500 000 ÷ 31,416 = 15 915 rpm.
  3. Arredonda-se para um valor que a máquina aceite, por exemplo 16 000 rpm, e recalcula-se o avanço com essa rotação.

Exemplo resolvido 4 · o que muda se trocar a ferramenta

A mesma operação passa de uma fresa de 2 arestas para uma de 3 arestas, mantendo n = 20 000 rpm e fz = 0,10 mm.

Mais arestas permitem avançar mais depressa com a mesma carga por aresta; se se mantiver o avanço de 4000 mm/min com 3 arestas, cada aresta passa a tirar só 0,067 mm (4000 ÷ 60 000), o que pode ser pouco.

Avanço a mais e avanço a menos

Sintoma Causa provável Correção
Bordo queimado, ferramenta muito quente avanço por dente demasiado baixo: a aresta raspa em vez de cortar aumentar o avanço ou baixar a rotação
Bordo áspero ou lascado, ruído forte, ferramenta a fletir avanço por dente demasiado alto ou passagem demasiado funda baixar o avanço ou dividir em mais passagens
Lascas na melamina de cima fresa positiva numa face revestida fresa negativa ou de compressão
Desgaste muito rápido material abrasivo ou rotação excessiva rever os valores do catálogo; considerar PCD em séries grandes

Uma ferramenta mal apertada, desequilibrada ou com comprimento em balanço excessivo pode partir-se a milhares de rotações por minuto. Confirma o aperto, o estado das arestas e o comprimento em balanço sempre que montas uma ferramenta.

11. Percursos de maquinagem, entradas e saídas da ferramenta

O percurso de maquinagem

O percurso de maquinagem é a trajetória que o centro da ferramenta descreve, gerada pelo CAM a partir da geometria e dos parâmetros. Tem partes distintas:

Parte O que é Velocidade
Aproximação deslocação em rápido até à vertical do ponto de entrada, a uma altura de segurança rápido (G00)
Entrada descida e aproximação ao material avanço de penetração
Corte percurso ao longo da geometria avanço de trabalho (F)
Saída afastamento do material avanço
Retração subida até à altura de segurança e deslocação para a operação seguinte rápido

Rever visualmente o percurso antes de simular permite detetar, cedo, zonas que a ferramenta não alcança, entradas em sítios visíveis ou deslocações em vazio desnecessárias.

Lado da ferramenta

Num contorno, escolhe-se se a ferramenta corta por fora da linha (contorno exterior: a peça fica com a medida desenhada), por dentro (furos e recortes interiores) ou sobre a linha (ranhuras em que a largura é a da própria fresa). Escolher mal o lado desloca cada aresta da peça: com uma fresa de 8 mm, uma prateleira de 400 mm cortada sobre a linha sairia com 400 - 8 = 392 mm (meio diâmetro a menos em cada lado) e cortada por dentro sairia com 400 - 2 × 8 = 384 mm (um diâmetro a menos em cada lado).

Profundidade e número de passagens

Quando a profundidade total é maior do que a que a ferramenta pode cortar de uma vez, divide-se em passagens:

número de passagens = profundidade total ÷ profundidade por passagem, arredondado para cima.

Exemplo: contorno passante num painel de 18 mm, atravessando 0,5 mm na placa de sacrifício (profundidade total 18,5 mm), com um máximo de 6 mm por passagem: 18,5 ÷ 6 = 3,08, arredonda-se para cima, 4 passagens. O CAM pode distribuí-las por igual: 18,5 ÷ 4 = 4,625 mm cada.

Entradas e saídas da ferramenta

A forma como a ferramenta entra e sai do material afeta o acabamento, a vida da ferramenta e a segurança do corte:

Exemplo resolvido · comprimento de uma rampa. Para descer 6 mm numa rampa de 5°, que comprimento de percurso é preciso?

L = profundidade ÷ tan(ângulo) = 6 ÷ tan 5° = 6 ÷ 0,0875 = 68,6 mm. Com uma rampa de 3° (tan 3° = 0,0524), seriam 6 ÷ 0,0524 = 114,5 mm. Rampas mais suaves poupam a ferramenta mas precisam de mais espaço.

Fresagem concordante e discordante

Com a árvore a rodar no sentido horário (M03), um contorno exterior percorrido no sentido horário à volta da peça, ou seja com a ferramenta à esquerda (G41), é fresado em concordante; percorrido no sentido contrário, é discordante. Qual dá melhor resultado depende do material, da direção do fio, da fixação e da ferramenta: é uma escolha que se testa em amostra e se regista para as peças seguintes.

Pontes e peças pequenas

No nesting, uma peça pequena pode soltar-se do vácuo no fim do corte e ser atirada pela ferramenta. Duas soluções frequentes:

12. Estratégias de maquinagem

Corte, acabamento e gravação

Usar os parâmetros de um desbaste numa passagem de acabamento (muito material, avanço alto) deixa marcas visíveis no bordo da peça.

Gravação com fresa em V

Numa fresa em V, a largura do traço depende da profundidade:

largura = 2 × profundidade × tan(ângulo da ponta ÷ 2)

Exemplo: com uma fresa em V de 90°, tan 45° = 1, logo largura = 2 × profundidade. Para um traço de 6 mm de largura, grava-se a 3 mm de profundidade. Com uma fresa de 60° (tan 30° = 0,577), largura = 1,155 × profundidade: para os mesmos 6 mm é preciso ir a 6 ÷ 1,155 = 5,2 mm.

Pré-desbaste e abertura de cavidades

Exemplo resolvido · passagens numa bolsa. Bolsa com 60 mm de largura, fresa de Ø12 e passo lateral de 50 % (6 mm). O centro da fresa pode andar entre 6 mm de uma parede e 6 mm da outra, ou seja numa faixa de 60 - 12 = 48 mm. Número de passagens paralelas = 48 ÷ 6 + 1 = 9 passagens.

Os cantos interiores de uma bolsa ficam sempre com um raio igual ao raio da fresa: uma fresa de Ø12 deixa cantos com raio 6 mm. Se a peça que encaixa tem cantos vivos, é preciso uma fresa mais pequena no acabamento dos cantos ou arredondar a peça.

Desbaste e acabamento 3D

Em relevos e superfícies (capítulo 6), o desbaste 3D tira o material em patamares de Z com uma fresa de topo reto, e o acabamento 3D passa uma fresa esférica em passagens paralelas muito próximas. Entre duas passagens de uma fresa esférica fica uma pequena crista, cuja altura h se calcula por:

h = R - √(R² - (s ÷ 2)²)

com R o raio da fresa e s o passo lateral. Exemplo: fresa esférica de Ø6 (R = 3 mm), passo de 1 mm: h = 3 - √(9 - 0,25) = 3 - 2,958 = 0,042 mm. Com passo de 2 mm: h = 3 - √(9 - 1) = 3 - 2,828 = 0,172 mm, cerca de quatro vezes mais. Um passo menor dá melhor acabamento mas multiplica o tempo.

Exemplo resolvido · bolsa para o copo de uma dobradiça

As dobradiças de encastrar mais comuns em mobiliário têm um copo de 35 mm de diâmetro, encastrado na porta. A profundidade do furo e a distância ao bordo vêm da ficha técnica do fabricante (num modelo corrente, 13 mm de profundidade e 3 a 7 mm entre o bordo da porta e o furo).

  1. Em série, o copo faz-se normalmente com uma broca de dobradiças Ø35, de uma só vez. Se a máquina não a tiver, faz-se como bolsa circular com uma fresa mais pequena.
  2. Desenhar o círculo de Ø35 na posição indicada pelo fabricante, na camada das bolsas.
  3. Criar a operação de bolsa com estratégia em espiral, entrada em hélice e profundidade igual à indicada na ficha técnica.
  4. Definir um pré-desbaste com sobre-espessura nas paredes e uma passagem de acabamento nas paredes.
  5. Simular e confirmar que a profundidade final e o diâmetro correspondem à ficha técnica da ferragem.

13. Furação e multifuração de peças

A furação é a operação mais repetida no mobiliário de painel: cavilhas, sistema 32 para suportes de prateleira, dobradiças, excêntricos de união, puxadores. O CAM tem comandos próprios para ela.

Furação vertical e horizontal

Multifuração

Um grupo (cabeça) de furação tem várias brocas montadas a um passo fixo, normalmente de 32 mm, que podem descer uma a uma ou várias ao mesmo tempo. O CAM (ou o próprio comando) agrupa os furos que coincidem com o passo das brocas, para os fazer numa só descida. É isto que torna o sistema 32 tão eficiente em série: uma fila de furos a passo de 32 mm corresponde exatamente à geometria da cabeça.

Comandos CAM de furação

Comando O que pede Nota
Furo simples posição, diâmetro, profundidade com broca ou fresa
Fila de furos ponto inicial, passo, número de furos, direção sistema 32, fila de suportes de prateleira
Furação por padrão um padrão guardado (por exemplo, "dobradiça Ø35 + 2 furos de fixação") aplicado com um clique em cada porta
Furação horizontal face (topo), posição, diâmetro, profundidade cavilhas nos topos
Furação múltipla conjunto de furos a passo fixo o sistema escolhe que brocas descem juntas

Exemplo resolvido · poupar descidas com multifuração

A fila de 17 furos do exemplo do capítulo 6 (Ø5, passo 32 mm) vai ser feita numa máquina cuja cabeça tem, nessa direção, 6 brocas de Ø5 a passo de 32 mm que podem descer em simultâneo.

  1. Furo a furo: 17 descidas.
  2. Com multifuração: 17 ÷ 6 = 2,83, arredonda-se para cima, 3 descidas (6 + 6 + 5 furos).
  3. Poupam-se 14 descidas por fila. Numa lateral com duas filas (frente e trás), são 28 descidas a menos por peça; num lote de 100 laterais, 2800 descidas a menos.

Na multifuração, cada broca da cabeça tem o seu sentido de rotação e a sua posição. Se se montar uma broca de rotação à esquerda numa posição de rotação à direita, ou uma broca passante no lugar de uma cega, os furos saem queimados ou atravessam o painel. A tabela de brocas do CAM tem de corresponder, posição a posição, à cabeça real.

14. Otimização de percursos, nesting e aproveitamento do material

Otimizar os percursos de maquinagem

Um percurso bem gerado não é só correto, é também eficiente. O tempo de máquina é um custo direto de produção, e em série cada segundo multiplica-se.

Exemplo resolvido · agrupar por ferramenta

Uma peça usa três ferramentas. Na ordem A, as operações seguem a sequência T1, T2, T1, T3, T2; na ordem B, T1, T1, T2, T2, T3. Cada troca de ferramenta demora 12 s.

  1. Ordem A: há ferramenta nova em cada mudança de T: T1 (carga inicial), T2, T1, T3, T2 = 5 cargas.
  2. Ordem B: T1, T2, T3 = 3 cargas.
  3. Poupança por peça: 2 cargas × 12 s = 24 s.
  4. Num lote de 200 peças: 200 × 24 = 4800 s = 80 min de máquina poupados, só por reordenar.

A reordenação só é válida se não violar a lógica da peça: o contorno exterior continua a ser o último.

O conceito de nesting

O nesting é o arranjo automático de várias peças dentro de um ou mais painéis, para aproveitar o material ao máximo e cortar tudo num só ciclo:

Há nesting retangular (peças retangulares, típico de móveis de painel) e nesting de forma livre (peças recortadas encaixadas umas nas outras).

Exemplo resolvido · quantas prateleiras cabem num painel

Painel de 2750 × 1830 mm, com o padrão de veio ao longo dos 2750 mm. Prateleiras de 600 × 300 mm, com o veio ao longo dos 600 mm. Margem de 10 mm à volta do painel e fresa de Ø12 (espaço de 12 mm entre peças).

  1. Área útil: (2750 - 2 × 10) × (1830 - 2 × 10) = 2730 × 1810 mm.
  2. Com n peças numa fila há n - 1 espaços. Truque de cálculo: soma-se um espaço à área útil e divide-se por (peça + espaço).
  3. Orientação com o veio certo (600 ao longo dos 2730): (2730 + 12) ÷ (600 + 12) = 2742 ÷ 612 = 4,48, ou seja 4 peças; (1810 + 12) ÷ (300 + 12) = 1822 ÷ 312 = 5,84, ou seja 5 peças. Total: 4 × 5 = 20 prateleiras.
  4. Orientação rodada (300 ao longo dos 2730): 2742 ÷ 312 = 8,79, ou seja 8; 1822 ÷ 612 = 2,98, ou seja 2. Total: 16, e com o veio atravessado.
  5. Aproveitamento da orientação certa: área das peças = 20 × 0,6 × 0,3 = 3,6 m²; área do painel = 2,75 × 1,83 = 5,0325 m²; aproveitamento = 3,6 ÷ 5,0325 = 71,5 %.

Neste caso, a orientação que respeita o veio é também a que aproveita melhor o painel. Nem sempre é assim: quando as duas colidem, a estética da peça visível ganha.

Na produção em série de mobiliário de painel, o nesting é feito sobre dezenas de painéis de uma vez, misturando peças de vários móveis da mesma encomenda. Um ponto percentual de aproveitamento, multiplicado por centenas de painéis por semana, é dinheiro que se vê na margem do projeto.

15. Automatização dos processos de CAM

Quando muitas peças partilham a mesma lógica de maquinagem, automatiza-se a criação das operações:

Exemplo resolvido · lateral parametrizada

Uma lateral é definida pelas variáveis H (altura) e P (profundidade). A fila de furos da frente fica a 37 mm do bordo da frente e a de trás a P - 37 mm; o primeiro furo a 96 mm da base e o número de furos é parte inteira de ((H - 192) ÷ 32) + 1.

Variante H P Furos por fila Fila de trás em
Móvel baixo 720 560 parte inteira de (528 ÷ 32) + 1 = 16 + 1 = 17 560 - 37 = 523 mm
Móvel alto 880 560 parte inteira de (688 ÷ 32) + 1 = 21 + 1 = 22 523 mm
Móvel de parede 720 320 17 320 - 37 = 283 mm

Com o modelo validado uma vez, cada nova medida gera o programa sem desenhar nada. A automatização ganha valor sobretudo na passagem da peça piloto, programada e testada com cuidado manual, para o lote de produção.

Automatizar um processo que ainda não foi testado é multiplicar um erro. A ordem é sempre: peça piloto, simulação, maquinagem-teste, correção, e só depois o modelo automático.

16. Simulação e deteção de colisões

Simular antes de maquinar

A simulação reproduz no computador o que a máquina vai fazer, antes de gastar material e tempo real. Há dois níveis:

A simulação permite ainda estimar o tempo de maquinagem e deve correr-se sempre, depois de criadas todas as operações e antes de enviar o programa para a máquina, mesmo que a peça "já se tenha feito antes".

Deteção de colisões

Colisão Exemplo Como se resolve
Ferramenta com a peça fora da zona a maquinar deslocação em rápido baixa demais que atravessa a peça subir a altura de segurança, corrigir a ligação entre operações
Porta-ferramentas com a peça fresa curta numa bolsa funda: o cone bate na parede ferramenta com maior comprimento útil, ou bolsa mais aberta
Ferramenta ou cabeça com a fixação percurso sobre uma ventosa ou um grampo reposicionar ventosas ou grampos, ou alterar a ordem
Cabeça com a estrutura agregado a rodar contra a mesa mudar a orientação do agregado ou a posição da peça
Fora do curso percurso que pede uma posição além do fim de curso de um eixo reposicionar a peça ou a origem, dividir a operação

Um alerta de colisão tem de ser resolvido antes de avançar, nunca ignorado: desligar o aviso para "a simulação correr mais depressa" não é uma opção em produção real.

Exemplo resolvido · colisão com um grampo

Numa travessa de madeira maciça fixada com grampos junto ao bordo, a simulação assinala colisão entre o porta-ferramentas e um grampo durante o perfil do bordo.

  1. Identificar o bloco e a operação da colisão (o simulador indica-os).
  2. Opção A: reposicionar o grampo para uma zona fora do percurso, confirmando que a peça continua bem presa.
  3. Opção B: dividir a operação em duas fixações (maquinar metade, mudar os grampos, maquinar o resto), com referências de posição.
  4. Opção C: usar uma ferramenta com maior comprimento útil, se a rigidez o permitir.
  5. Voltar a simular tudo, não apenas a operação alterada.

17. Pós-processamento e maquinagem-teste

O pós-processador

O pós-processador converte o percurso genérico calculado pelo CAM no código específico da máquina de destino. Cada combinação de software CAM e comando de máquina tem o seu pós-processador, que traduz:

O mesmo movimento pode sair de formas diferentes consoante o pós-processador: num comando, um arco pode ser escrito com I e J; noutro, com R; numa máquina com ambiente gráfico, a mesma operação sai como uma entrada no formato próprio do fabricante. Por isso, usar o pós-processador de outra máquina, "porque é parecida", é um erro grave: o programa pode nem abrir ou, pior, correr com movimentos errados.

Depois de gerado, o programa confere-se: primeiras linhas (unidades, origem, ferramenta), um ou dois movimentos conhecidos e o fim do programa.

Transferência

O programa chega à máquina por rede (a forma habitual numa fábrica ligada ao MES), por pen USB ou por outro suporte que a máquina aceite. O nome do ficheiro deve identificar a peça, a encomenda e a revisão.

Maquinagem-teste

Antes da série, maquina-se uma peça de teste:

  1. Simular o programa completo e resolver todos os alertas.
  2. Gerar o programa com o pós-processador correto e conferir o cabeçalho.
  3. Transferir o programa e confirmar que a máquina abriu a revisão certa.
  4. Montar e conferir as ferramentas (número, diâmetro, comprimento, aperto).
  5. Fixar a peça e confirmar a origem (zero peça) com a máquina.
  6. Primeiro ciclo controlado: com o avanço reduzido pelo seletor de avanço (override), em modo bloco a bloco quando a máquina o permite, ou com uma passagem em vazio com o Z elevado acima da peça.
  7. Maquinar a peça de teste, se possível num material de ensaio ou numa peça de refugo com a mesma espessura.
  8. Verificar a peça contra o desenho, com aparelhagem de medição (fita métrica, régua, paquímetro, esquadro), e montar com as peças que lhe correspondem.
  9. Corrigir e registar: qualquer correção passa para o CAM (não só para a máquina) e gera uma nova revisão.
  10. Só então arrancar a série.

18. Segurança, saúde no trabalho e EPI

Um centro de trabalho CNC combina ferramentas a rodar a milhares de rotações por minuto, eixos que se movem sozinhos a grande velocidade, pó fino e ruído. A segurança não é um capítulo à parte: está em cada passo do programa.

Regras de segurança junto à máquina

O enquadramento legal inclui as prescrições mínimas de segurança para a utilização de equipamentos de trabalho (Decreto-Lei n.º 50/2005) e as regras sobre a utilização de equipamentos de proteção individual (Decreto-Lei n.º 348/93). Na prática, o que conta é o manual da máquina e as instruções de segurança da empresa, que o operador tem de conhecer.

Pó de madeira

O pó de madeira é o risco para a saúde mais característico do setor. O pó de madeiras duras (folhosas) está classificado como agente cancerígeno; o regime de proteção dos trabalhadores contra agentes cancerígenos e mutagénicos (em Portugal, o Decreto-Lei n.º 301/2000, alterado pelo Decreto-Lei n.º 35/2020, que transpôs a Diretiva (UE) 2017/2398) fixou para ele um valor-limite de exposição profissional de 2 mg/m³, aplicável desde 17 de janeiro de 2023 (até essa data vigorou um valor transitório de 3 mg/m³). Quando o pó de madeiras duras está misturado com pó de outras madeiras, o valor-limite aplica-se a todo o pó de madeira presente.

As medidas, por ordem de prioridade:

  1. Captação na origem: aspiração ligada à cabeça da máquina e às condutas, com caudal adequado.
  2. Organização: limpeza por aspiração (nunca com ar comprimido, que levanta o pó), manutenção dos filtros.
  3. Proteção respiratória: máscara FFP2 ou FFP3 quando a captação não chega, por exemplo na limpeza da máquina, na troca de filtros ou no lixamento manual.

Os painéis de MDF e aglomerado produzem um pó muito fino, que fica em suspensão, e contêm resinas: são mais uma razão para não confiar só na máscara.

Ruído

O corte de madeira e derivados a alta rotação é ruidoso. A legislação sobre ruído no trabalho (Decreto-Lei n.º 182/2006) define valores de exposição diária: valor de ação inferior de 80 dB(A), valor de ação superior de 85 dB(A) e valor-limite de 87 dB(A). A partir dos valores de ação, o empregador tem de disponibilizar protetores auditivos e, a partir do superior, o seu uso é obrigatório. Os protetores são a última linha: primeiro reduz-se o ruído na fonte (cabinas, resguardos, ferramentas adequadas).

EPI no posto CNC

EPI Contra quê Quando
Proteção auditiva (tampões ou auriculares) ruído durante o funcionamento da máquina
Proteção respiratória (FFP2 ou FFP3) pó de madeira limpeza, troca de filtros, captação insuficiente
Óculos de proteção projeção de aparas junto da máquina em funcionamento
Calçado de segurança queda de painéis e ferramentas sempre na oficina
Luvas arestas dos painéis, manuseamento de ferramentas a manusear painéis e ferramentas paradas; nunca junto de ferramentas a rodar
Vestuário justo, sem adornos, cabelo apanhado arrastamento por partes móveis sempre

Ergonomia no posto de CAD-CAM

A maior parte do trabalho desta UC faz-se ao computador. O trabalho com equipamentos dotados de visor tem regras próprias (Decreto-Lei n.º 349/93, com as suas alterações, e Portaria n.º 989/93):

19. Normas da qualidade

A qualidade de uma peça CNC decide-se muito antes da máquina: no desenho, no programa e na maquinagem-teste.

Sistema de gestão da qualidade

Muitas empresas do setor têm o seu sistema de gestão da qualidade certificado pela norma NP EN ISO 9001. Para o técnico de CAD-CAM, isso traduz-se em regras concretas:

Controlo dimensional

Exemplo resolvido · verificar a esquadria de uma porta

Uma porta de 596 × 396 mm deve ter as duas diagonais iguais. Diagonal teórica = √(596² + 396²) = √(355 216 + 156 816) = √512 032 = 715,6 mm. Medem-se 715,5 mm e 716,0 mm: a diferença de 0,5 mm está dentro de uma tolerância de ± 1 mm definida pela empresa, e a porta é aceite. Uma diferença de vários milímetros indicaria uma peça mal fixada ou um erro de programa.

Defeitos típicos e causas

Defeito Causa provável no processo CAD-CAM
Peça com medida errada em múltiplos do diâmetro da fresa lado da ferramenta errado ou corretor de raio errado
Furos todos deslocados na mesma medida origem (zero peça) mal definida ou mal confirmada
Furos em espelho (do lado errado) peça fixada virada ou face de trabalho errada
Bordo lascado na melamina ferramenta inadequada, avanço excessivo, sentido de corte
Bordo queimado avanço por dente demasiado baixo, ferramenta gasta
Profundidade errada Z0 mal definido (face de cima ou mesa), espessura real do painel diferente
Peça deslocou-se durante o corte contorno exterior feito cedo demais, vácuo insuficiente, peça pequena sem pontes
Degrau no ponto de entrada entrada vertical sobre o contorno, sem sobreposição

Erros comuns

Glossário

Síntese

O fabrico de peças de mobiliário e carpintaria em CNC segue sempre a mesma ordem. Conhece-se a máquina (eixos, cursos, origens, fixação) e o ciclo em que o CAM se integra, entre o CAD, o CAE, o MES e o ERP. Desenha-se a geometria em CAD, limpa, fechada e organizada em camadas, nos planos e faces certos, ou importa-se e repara-se geometria externa, confirmando sempre a unidade. Programa-se em CAM, ligando geometria, ferramenta e parâmetros, com a ordem certa das operações, e sabe-se ler o código que sai. Configuram-se as ferramentas a partir do catálogo, com Vc = π × D × n ÷ 1000 e Vf = n × z × fz. Definem-se percursos, entradas e saídas e a estratégia certa para cada operação: corte, acabamento, gravação, pré-desbaste, abertura de cavidades, furação e multifuração. Otimiza-se o tempo, faz-se o nesting respeitando o veio e automatiza-se o que se repete. Simula-se, resolvem-se as colisões, gera-se o programa com o pós-processador da máquina certa e faz-se a maquinagem-teste antes da série. Tudo isto com segurança, EPI e controlo da qualidade. Domina este fluxo e aplica-lo-ás em qualquer software de CAD-CAM do setor.

Exercícios resolvidos

1. Uma corrediça importada de um catálogo aparece no ecrã com 17,7 mm de comprimento, quando devia ter 450 mm. Qual é a causa mais provável e como se resolve?

Resolução: 450 ÷ 17,7 ≈ 25,4, o fator entre polegada e milímetro. O ficheiro está em polegadas e foi lido como se estivesse em milímetros, por isso ficou 25,4 vezes mais pequeno. Resolve-se reimportando com a unidade polegadas (ou escalando por 25,4) e voltando a medir uma cota conhecida: 17,7 × 25,4 = 449,6 ≈ 450 mm.

2. Porque é que o contorno exterior de uma peça costuma ser a última operação da árvore CAM?

Resolução: porque é o contorno exterior que separa a peça do resto do painel. Se fosse a primeira operação, a peça, já solta e com menos área de fixação, perderia apoio antes de a furação, as ranhuras e as bolsas estarem feitas, e poderia deslocar-se ou ser projetada durante a maquinagem.

3. Uma fresa de Ø10 mm com 3 arestas roda a 20 000 rpm, com um avanço por dente de 0,10 mm. Calcula a velocidade de corte e a velocidade de avanço.

Resolução: Vc = π × D × n ÷ 1000 = 3,1416 × 10 × 20 000 ÷ 1000 = 628 m/min. Vf = n × z × fz = 20 000 × 3 × 0,10 = 6000 mm/min.

4. No programa de um contorno aparece o bloco G00 Z-18. Que problema tem?

Resolução: G00 é posicionamento rápido, sem controlo de avanço de corte. Descer em rápido até Z-18 (dentro do painel, com Z0 na face de cima) significa enterrar a ferramenta no material à velocidade máxima: parte a ferramenta ou danifica a peça. O correto é descer em rápido só até uma cota acima da peça (por exemplo Z5) e mergulhar com G01 e um avanço de penetração, ou entrar em rampa.

5. A simulação assinala uma colisão entre o porta-ferramentas e um grampo de fixação. Que soluções são possíveis?

Resolução: reposicionar o grampo para uma zona fora do percurso, garantindo que a peça continua presa; dividir a operação em duas fixações; ou usar uma ferramenta com maior comprimento útil, se a rigidez o permitir. Depois de qualquer alteração, volta a simular-se o programa completo.

6. Um colega quer abrir uma bolsa de 20 mm de profundidade de uma só vez, sem pré-desbaste, e com a fresa a mergulhar na vertical. Que lhe respondes?

Resolução: que deve entrar em hélice ou em rampa, dividir a profundidade em várias passagens e separar o pré-desbaste (remoção rápida, com sobre-espessura) do acabamento (passagem final nas paredes e no fundo). Uma única passagem funda sobrecarrega a ferramenta, pode fleti-la ou parti-la e piora o acabamento.

7. Porque é que o nesting deve respeitar a direção do veio, e não só a área a poupar?

Resolução: porque a direção do veio da madeira, do folheado ou do padrão da melamina é visível no móvel acabado. Um nesting que rode peças livremente pode aproveitar melhor o painel, mas produz portas e laterais com o veio em direções diferentes. Nas peças visíveis bloqueia-se a rotação, aceitando, se for preciso, um aproveitamento um pouco menor.

8. Com uma fresa em V de 90°, a que profundidade se grava um traço de 4 mm de largura?

Resolução: largura = 2 × profundidade × tan(45°) = 2 × profundidade. Logo profundidade = 4 ÷ 2 = 2 mm.

9. Uma fila de furos do sistema 32 começa a 96 mm da base de uma lateral com 800 mm de altura, deixando 96 mm livres em cima. Quantos furos tem e onde fica o último?

Resolução: (800 - 2 × 96) ÷ 32 = 608 ÷ 32 = 19 intervalos exatos. Número de furos = 19 + 1 = 20. Último furo: 96 + 19 × 32 = 96 + 608 = 704 mm, que coincide com 800 - 96 = 704 mm.

10. Um técnico confirma o zero peça, mas todos os furos de uma lateral saem deslocados 3 mm em X. Qual é a causa mais provável?

Resolução: um deslocamento igual em todos os furos indica um erro de origem e não de desenho: a peça foi encostada fora dos batentes, o G54 guardado não corresponde à posição real ou a peça tem 3 mm a mais do que o bruto definido no CAM. Verifica-se a posição da peça, o valor da origem e a medida real do bruto antes de corrigir o programa.