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aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC02088

Sebenta · Modelar peças e componentes com superfícies tridimensionais, para maquinagem CNC (UC02088)

Do desenho ao modelo pronto para CAM, com exequibilidade, sólidos, superfícies, volumes de trabalho e fixação
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. CNC em Madeira e Mobili ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a construir o modelo digital de uma peça de mobiliário, do primeiro esboço até um sólido com superfícies tridimensionais pronto para seguir para o CAM e ser maquinado num centro de trabalho CNC. O modelo 3D não é um desenho bonito: é a informação exata que a máquina vai seguir. Um erro no modelo é um erro na peça, e um erro que só se descobre com a fresa a cortar custa material, tempo de máquina e, por vezes, a própria ferramenta.

O percurso segue a lógica de um posto de trabalho real:

  1. ler e analisar o desenho técnico e as especificações da peça;
  2. avaliar a exequibilidade da maquinagem CNC e resolver os constrangimentos encontrados;
  3. construir o modelo no software de modelação (eixos e planos, sketch, sólidos, superfícies, manipulação 3D);
  4. integrar elementos facilitadores da maquinagem e criar o volume de trabalho (o bloco de material em bruto);
  5. prever a fixação da peça, desenvolvendo o molde ou gabarito que a segura na máquina;
  6. exportar no formato certo e verificar o modelo antes de o entregar ao CAM.

No fim, deves conseguir modelar uma peça ou componente de mobiliário completo, com superfícies tridimensionais, e justificar cada decisão que tomaste.

Objetivos de aprendizagem (referencial): verificar a exequibilidade técnica da maquinagem com CNC das peças a fabricar; integrar na modelação dos componentes e peças elementos facilitadores da maquinagem CNC; aplicar ferramentas CAD-CAM no desenvolvimento de modelos digitais com superfícies tridimensionais, de peças e componentes.

Como estudar com esta sebenta. Cada capítulo tem uma parte de conceitos, uma ou mais tabelas de consulta e pelo menos um exemplo resolvido passo a passo. Lê o capítulo com o software aberto e repete os exemplos. Os comandos têm nomes ligeiramente diferentes de programa para programa: aqui usamos os nomes genéricos (extrusão, rotação, varrimento, loft, boleado, chanfro). O que muda é o menu; a lógica mantém-se.

1. Da peça ao modelo digital: o papel do CAD-CAM

Uma peça de mobiliário maquinada em CNC percorre um caminho que começa muito antes de a máquina ligar:

Desenho técnico → Modelo 3D (CAD) → Trajetórias e programa (CAM) → Maquinagem (CNC) → Controlo da peça

Muitos programas juntam CAD e CAM no mesmo ambiente (daí o termo "software CAD-CAM"); noutros casos, modela-se num programa de CAD e exporta-se para um CAM separado. Nos centros de trabalho de mobiliário, os fabricantes das máquinas fornecem muitas vezes software próprio de programação, que importa geometria 2D e 3D vinda de CAD. Os nomes dos comandos variam; o que o CAM precisa do modelo é sempre o mesmo.

O que o CAM precisa de receber do modelo

O CAM precisa de Porquê Onde se garante no CAD
Geometria exata e fechada calcular trajetórias sem buracos nem faces soltas sólidos bem construídos, superfícies cosidas
Unidades e escala certas uma peça 25,4 vezes maior ou menor é um erro clássico unidades do ficheiro conferidas ao exportar e importar
Orientação coerente com a máquina o eixo Z da máquina é o eixo da ferramenta peça modelada, ou reposicionada, com a espessura segundo Z
Origem de peça conhecida todas as cotas do programa partem dela origem num canto ou num ponto de referência fácil de encontrar na peça
Geometria que as ferramentas conseguem fazer a fresa é redonda e tem comprimento limitado exequibilidade verificada e elementos facilitadores integrados
Volume de trabalho (bloco em bruto) saber de onde parte o material e quanto há a remover bloco modelado com o sobrematerial definido

Máquinas: 3 eixos, 4 eixos, 5 eixos e agregados

A exequibilidade depende da máquina que a oficina tem. Convém saber distinguir:

Os centros de trabalho para mobiliário têm também grupos de furação (várias brocas verticais e horizontais) e, muitas vezes, uma serra montada na cabeça. Um furo de cavilha ou de dobradiça faz-se normalmente com broca do grupo de furação, e não com fresa.

O modelo como primeiro controlo de qualidade

Um modelo com uma cota errada, uma geometria impossível de maquinar ou uma aresta mal definida propaga-se a todas as etapas seguintes. Por isso, as três realizações centrais desta UC organizam o programa inteiro: verificar a exequibilidade, integrar elementos facilitadores e aplicar ferramentas CAD-CAM para desenvolver o modelo.

2. Ler desenhos e especificações técnicas

Antes de abrir o software de modelação, analisa-se o desenho técnico e todas as especificações da peça. Esta análise responde a duas perguntas: o que exatamente tenho de modelar? e esta peça é exequível em maquinagem CNC, tal como está desenhada?

O que se lê num desenho de peça

Elemento O que procurar Exemplo em mobiliário
Vistas e cortes quantas faces têm geometria, onde há cavidades, rebaixos e furos corte de um tampo com rebaixo para vidro
Cotas dimensões gerais, posições de furos e rasgos, raios furos para suportes de prateleira espaçados de 32 mm
Tolerâncias quanto pode variar cada cota encaixe de uma travessa num rasgo
Material e espessura maciço, MDF, contraplacado, aglomerado; espessura do painel MDF de 19 mm, carvalho de 40 mm
Sentido do fio direção das fibras na madeira maciça e nos folheados comprimento de uma perna segundo o fio
Acabamentos lixagem, orla, lacado, envernizado aresta boleada antes de lacar
Quantidade peça única ou série uma série justifica um molde de fixação dedicado
Legenda e revisão número do desenho, data, versão modelar sempre a revisão em vigor

O material também é uma especificação técnica

A mesma geometria comporta-se de maneira diferente conforme o material:

Exemplo resolvido: ficha de análise de um desenho

Desenho recebido: frente de gaveta em MDF de 22 mm, 500 x 180 mm, com um puxador escavado (cavidade côncava) de 120 x 40 mm e 12 mm de profundidade máxima, cantos da cavidade vivos, e aresta exterior boleada R3.

  1. Geometria a modelar: um painel retangular (extrusão), uma cavidade de fundo curvo (superfície 3D) e um boleado exterior.
  2. Material: MDF, adequado a superfícies 3D; espessura 22 mm, cavidade de 12 mm, fica um fundo de 22 menos 12 = 10 mm, aceitável.
  3. Constrangimento 1: cantos vivos na cavidade. Uma fresa não faz cantos interiores vivos na vertical; é preciso um raio.
  4. Constrangimento 2: a aresta exterior boleada R3 exige uma fresa de perfil de raio 3 mm ou uma passagem de acabamento 3D.
  5. Decisão a propor: raio vertical nos cantos da cavidade compatível com a fresa de acabamento; confirmar a fresa de perfil R3 no armazém de ferramentas.
  6. Registar as decisões na ficha do modelo, com data e nome de quem as validou.

3. Constrangimentos e exequibilidade técnica da maquinagem CNC

Avaliar a exequibilidade é perguntar, face a face e aresta a aresta: uma ferramenta que existe na oficina consegue chegar aqui, na posição certa, e cortar isto sem partir nem vibrar? Os constrangimentos vêm de três fontes: a ferramenta (forma, diâmetro, comprimento), a máquina (número de eixos, curso, agregados) e a peça (material, espessura, dimensão, fixação).

Tabela de constrangimentos típicos

Constrangimento Porque é um problema Solução comum
Canto interior vertical vivo (90°) a fresa é redonda: deixa sempre um raio igual, no mínimo, ao seu raio prever um raio de canto igual ou, melhor, um pouco maior que o raio da fresa
Contrassaída (zona escondida por baixo de uma saliência) numa máquina de 3 eixos a ferramenta está sempre na vertical e não lá chega 5 eixos, agregado, fresa especial, ou dividir a peça
Cavidade mais funda que o comprimento útil da ferramenta a fresa não chega ao fundo, ou o suporte bate na peça reduzir a profundidade, alargar a cavidade, ou maquinar por duas faces
Fresa muito comprida para o diâmetro a ferramenta flete e vibra; o acabamento piora e pode partir usar a ferramenta mais curta e mais grossa que a geometria permitir
Parede ou nervura fina vibra, parte ou empena durante o corte aumentar a espessura, reforçar, ou deixar a parede para o fim da maquinagem
Peça muito pequena pouca área para a fixar (sobretudo por vácuo) e risco de ser projetada maquinar dentro de um painel maior e separar no fim, com pontes
Superfície 3D contra o fio (maciço) arranque de fibras orientar a peça, ou escolher o sentido das passagens de acabamento
Superfície 3D em aglomerado ou melamínico interior grosseiro ou face que lasca mudar para MDF ou maciço
Faces nas duas faces da peça a máquina só vê a face de cima virar a peça com furos de referência, ou molde com posição definida

O canto interior: o constrangimento que aparece em quase todas as peças

Uma fresa de topo roda em torno do seu eixo. Quando contorna um canto interior de uma cavidade, o centro da fresa não pode aproximar-se das paredes mais do que o seu raio. O resultado é um canto com raio igual ao raio da fresa, nunca menor.

Na prática, desenha-se o raio de canto um pouco maior que o raio da fresa. Se o raio do canto for exatamente igual ao da fresa, a ferramenta "abraça" o canto com todo o seu perímetro de corte, o esforço sobe de repente e aparecem marcas de vibração. Um pouco de folga deixa a fresa descrever uma curva em vez de parar no canto.

Atenção a um pormenor: este problema é dos cantos interiores verticais (paralelos ao eixo da ferramenta). O canto entre a parede e o fundo de uma cavidade depende da ponta da fresa: com fresa de topo plano sai vivo; com fresa esférica sai com o raio da esfera; com fresa de ponta arredondada (tórica) sai com o raio da ponta.

Exemplo resolvido 1: canto interior de um rasgo

Uma peça tem um rasgo retangular de 60 x 30 mm com cantos interiores a 90 graus. A oficina dispõe de fresas de topo com 6 mm e 12 mm de diâmetro (raios de 3 mm e 6 mm).

  1. Raio mínimo possível com a fresa mais pequena: 6 / 2 = 3 mm.
  2. A fresa de 12 mm também não serve para cantos mais apertados que R6, e o rasgo tem 30 mm de largura, por isso ambas cabem.
  3. Verificar se o desenho aceita um raio de canto de 3 mm sem comprometer a função (por exemplo, se entra ali uma peça de cantos vivos).
  4. Se aceitar, modelar com um raio um pouco maior que 3 mm (por exemplo R3,5) e maquinar o acabamento com a fresa de 6 mm; o desbaste pode fazer-se com a de 12 mm.
  5. Se não aceitar (entra lá uma peça retangular de cantos vivos), usar um alívio de canto (capítulo 4) ou fazer o canto por outro processo.
  6. Registar a decisão junto do modelo.

Profundidade, comprimento útil e flexão da ferramenta

Cada fresa tem um comprimento útil de corte (a zona com arestas cortantes) e um comprimento total que sai do porta-ferramentas. Uma cavidade só é exequível se a fresa lhe chegar ao fundo sem que a haste lisa, a pinça ou o porta-ferramentas batam nas paredes.

Quanto mais comprida e fina é a ferramenta, mais flete sob o esforço de corte, e a flexão cresce muito depressa com o comprimento. Por isso, a regra de oficina é usar sempre a ferramenta mais curta e mais grossa que a geometria permitir, e reservar as fresas longas e finas para passagens leves de acabamento.

Exemplo resolvido 2: uma cavidade funda demais

Um móvel de entrada tem uma cavidade de 70 mm de profundidade para uma caixa de chaves, com 40 mm de largura. A fresa disponível tem 12 mm de diâmetro e 40 mm de comprimento útil.

  1. Profundidade pedida: 70 mm. Alcance útil da fresa: 40 mm. 70 > 40: não é exequível numa só face com esta ferramenta.
  2. Opção A: pedir uma fresa mais comprida (confirmar se existe e se a relação comprimento/diâmetro é aceitável).
  3. Opção B: construir o móvel em duas camadas coladas, cada uma com uma parte da cavidade (por exemplo, 35 + 35 mm).
  4. Opção C: maquinar a cavidade por duas faces, se for passante.
  5. Escolher com quem projetou a peça e registar a decisão.

Superfícies 3D: fresa esférica, passo e altura de crista

As superfícies curvas maquinam-se, no acabamento, com fresas esféricas (ponta em meia esfera) que percorrem a superfície em passagens paralelas. Entre duas passagens fica sempre uma pequena ondulação, a altura de crista (scallop). Depende do raio da esfera R e do passo lateral p entre passagens:

h = R - √(R² - (p/2)²)

(numa superfície plana ou pouco inclinada; em zonas muito inclinadas a crista real muda).

Exemplo resolvido 3: altura de crista

Fresa esférica de 12 mm de diâmetro (R = 6 mm).

Duplicar o passo reduz para metade o número de passagens (e o tempo), mas a crista fica cerca de quatro vezes maior. Isto importa na modelação: uma superfície muito grande, com curvaturas apertadas, obriga a passos pequenos e a tempos de máquina longos. Quem modela deve saber o custo das superfícies que desenha.

Nota: o raio da esfera também limita a geometria. Uma concavidade com raio de curvatura menor que o raio da esfera não pode ser copiada pela fresa: fica com o raio da esfera.

4. Soluções para os constrangimentos colocados pela peça

Identificar o constrangimento é metade do trabalho; a outra metade é propor uma solução que mantenha a função da peça. As soluções agrupam-se em cinco famílias.

1) Alterar a geometria sem mudar a função

2) Dividir a peça em componentes

Uma peça impossível de maquinar inteira pode ser feita em dois ou mais componentes maquináveis, depois colados ou montados. Exemplo: uma prateleira com uma contrassaída faz-se em duas lâminas coladas; uma perna com um rebaixo por baixo faz-se com uma peça postiça.

3) Mudar a orientação ou a fixação

4) Mudar de ferramenta ou de máquina

5) Deixar trabalho para uma operação complementar

Exemplo resolvido: rasgo em cauda de andorinha

Um desenho pede um rasgo em cauda de andorinha, com 10 mm de profundidade, na face de uma prateleira, para receber uma travessa deslizante.

  1. Constrangimento: as paredes do rasgo abrem para dentro. É uma contrassaída: uma fresa cilíndrica vertical não consegue cortar essas paredes inclinadas.
  2. Solução: usar uma fresa em cauda de andorinha, com o ângulo do rasgo. Esta fresa entra pelo topo da peça (o rasgo tem de ser aberto num dos extremos) ou depois de um primeiro rasgo reto aberto com fresa cilíndrica.
  3. Consequência no modelo: o ângulo do rasgo passa a ser o ângulo da fresa existente; a largura do fundo e a profundidade ajustam-se às dimensões da fresa.
  4. Registo: indicar no modelo a ferramenta prevista para esse rasgo.

5. O ambiente gráfico do software de modelação sólida

Independentemente do programa, a estrutura do ambiente de modelação sólida repete-se:

Zona do ecrã Para que serve Cuidados
Área gráfica construir e ver o modelo a vista roda, o modelo não
Árvore de construção (histórico) lista, por ordem, cada operação aplicada dar nomes descritivos às operações
Barras, separadores ou painéis de comandos comandos agrupados por família saber em que família procurar
Painel de propriedades parâmetros da operação em curso (distância, ângulo, direção) confirmar sempre antes de aceitar
Tríade de eixos e cubo de vistas orientação no espaço e vistas normalizadas usar as vistas padrão para confirmar a geometria
Barra de estado unidades, coordenadas do cursor, mensagens confirmar as unidades do documento (mm)

Organizar as ferramentas de modelação

Organizar no software as ferramentas de modelação é uma aptidão do referencial. Em termos práticos, significa:

Medir e analisar

Antes de exportar, mede-se: distâncias, espessuras mínimas, raios e ângulos. Muitos programas têm também análise de curvatura e análise de espessura, úteis para saber qual o raio mais apertado de uma superfície (que decide a fresa esférica) e onde a peça fica mais fina.

6. Tipos de ficheiros de sólidos e de superfícies

Um modelo pode ser guardado em formatos diferentes, consoante o que se pretende fazer com ele. Identificar o tipo de ficheiro é saber o que se ganha e o que se perde ao exportar.

Ficheiro Tipo de geometria Guarda o histórico? Usar quando
Nativo do programa sólidos, superfícies, esboços, conjuntos sim continuar a trabalhar no modelo
STEP (.step, .stp) sólidos e superfícies exatos, também conjuntos não trocar com outro CAD ou enviar ao CAM; formato neutro normalizado (ISO 10303)
IGES (.igs, .iges) sobretudo superfícies e curvas não trocar superfícies com sistemas mais antigos; os sólidos chegam muitas vezes como superfícies soltas que é preciso coser
Parasolid (.x_t) e ACIS (.sat) sólidos e superfícies exatos não trocar entre programas que usam esses núcleos geométricos
STL (.stl) malha de triângulos não impressão 3D, visualização, relevos 3D em alguns CAM
OBJ, 3MF malha (com cor ou textura) não visualização, impressão 3D
DXF / DWG sobretudo geometria 2D (linhas, arcos, polilinhas) não contornos e furações para o CAM 2D e para o software das máquinas de painel

O que se perde em cada exportação

Exemplo resolvido: um modelo que chega 25,4 vezes pequeno

Um cliente envia um tampo de mesa desenhado noutro país. Ao importar, a peça mede 23,62 x 15,75 x 1,18, e o programa assume milímetros.

  1. Ninguém faz um tampo de 23 mm: há um problema de unidades.
  2. Hipótese: o ficheiro está em polegadas (1 polegada = 25,4 mm).
  3. Converter: 23,62 x 25,4 = 600 mm; 15,75 x 25,4 = 400 mm; 1,18 x 25,4 = 30 mm (valores arredondados).
  4. Um tampo de 600 x 400 x 30 mm faz sentido. Reimportar indicando polegadas, ou aplicar uma escala de 25,4.
  5. Confirmar duas cotas conhecidas com a ferramenta de medição antes de continuar.

Regra: ao importar, mede sempre uma cota conhecida. É a verificação mais barata de todo o processo.

Exemplo resolvido: que ficheiro enviar a quem

Destino Ficheiro Porquê
Colega com o mesmo programa, para continuar o modelo nativo mantém o histórico editável
Fornecedor com outro CAD STEP sólido exato e formato neutro
CAM da oficina para uma peça com superfícies 3D STEP (ou nativo, se o CAM for do mesmo programa) geometria exata para calcular trajetórias de acabamento
Software da máquina para uma furação e contorno de painel DXF 2D, com camadas por operação (se a oficina assim trabalhar) contornos e posições de furos
Gráfica ou impressora 3D, para uma maqueta STL ou 3MF malha aceite pelas impressoras

7. Arames, malhas, superfícies e sólidos

Um objeto tridimensional pode ser representado no computador de quatro formas, com rigor e utilidade muito diferentes.

Modelo O que guarda Vantagens Limitações
Arame (wireframe) só arestas e vértices leve; útil como geometria auxiliar ambíguo: não diz onde há material; não tem faces nem volume
Malha (mesh) faces planas (triângulos ou polígonos) que aproximam a forma vem de scanner 3D, escultura digital, bibliotecas de objetos aproximada; difícil de editar com rigor; sem histórico
Superfície faces exatas, sem espessura (muitas vezes NURBS) descreve formas livres e curvas complexas não tem volume; pode ter buracos entre faces
Sólido conjunto fechado de superfícies que delimita um volume sabe onde há material; calcula massa e volume; ideal para CAM formas muito livres podem exigir passar por superfícies

Superfícies NURBS

A maior parte dos programas de CAD descreve as curvas e superfícies livres com NURBS (Non-Uniform Rational B-Splines): curvas e superfícies definidas por pontos de controlo, cujo desenho se ajusta suavemente quando se mexe num ponto. O que interessa ao aluno é saber que uma superfície NURBS é exata: o computador calcula qualquer ponto da superfície sem aproximação, ao contrário da malha.

Sólidos: fronteira fechada

Um sólido é definido pelas faces que o fecham (representação por fronteira, B-rep). Se faltar uma face, ou se duas faces vizinhas não se tocarem, o modelo deixa de ser um sólido e passa a ser um conjunto de superfícies abertas. Muitos CAM precisam de sólidos fechados para calcular o material a remover.

Modelação paramétrica e modelação direta

Da malha ao sólido

Uma malha vinda de um scanner 3D (por exemplo, o levantamento de uma talha antiga a reproduzir) não é um sólido editável. Pode ser:

Exemplo resolvido: qual o modelo certo?

Situação Modelo Justificação
Linhas de construção de um perfil de moldura arame é só geometria auxiliar
Levantamento de uma talha antiga com scanner malha é o que o scanner produz
Assento de cadeira com dupla curvatura superfícies fechadas num sólido forma livre, mas o CAM precisa de volume
Prateleira com furos e rebaixo sólido paramétrico geometria prismática, cotas editáveis

8. Eixos, coordenadas e planos do espaço de modelação

O sistema de eixos

O espaço 3D do software assenta num sistema cartesiano de três eixos, X, Y e Z, perpendiculares entre si, com origem no ponto (0, 0, 0). Os programas de CAD e as máquinas CNC usam o sistema de mão direita: com a mão direita, o polegar aponta para X positivo, o indicador para Y positivo e o dedo médio para Z positivo.

Cada ponto do modelo tem uma posição única (x, y, z) relativa à origem.

Z no CAD e Z na máquina

Na máquina CNC, o eixo Z é o eixo da ferramenta: nos centros de trabalho de mobiliário é vertical, e o Z positivo afasta a ferramenta da peça (sobe). X e Y definem o plano da mesa.

No CAD, a convenção varia: há programas em que o "para cima" do ecrã é Y e outros em que é Z. Não há problema nenhum, desde que, ao passar para o CAM, a peça fique orientada com a espessura segundo Z e a face a maquinar virada para Z positivo. Decide-se isso logo no início: modelar a peça já deitada, como vai ficar na mesa, poupa confusões.

Coordenadas absolutas, relativas e polares

Tipo Referência Exemplo
Absolutas a origem do sistema furo em (100, 50)
Relativas o último ponto introduzido "avançar 32 mm em X"
Polares distância e ângulo a partir de um ponto 150 mm a 30 graus

Exemplo resolvido: coordenadas de furos numa lateral

Uma lateral de móvel com 560 mm de profundidade (segundo X) e 720 mm de altura (segundo Y) tem a origem no canto inferior da frente. Precisa de uma fila de furos para suportes de prateleira a 37 mm da aresta da frente (lado esquerdo, X = 0), com o primeiro furo a 96 mm do fundo e os seguintes a cada 32 mm, até 5 furos.

  1. X é constante: 37 mm.
  2. Y do primeiro furo: 96 mm.
  3. Y dos seguintes: 96 + 32 = 128; 128 + 32 = 160; 160 + 32 = 192; 192 + 32 = 224 mm.
  4. Coordenadas absolutas: (37, 96), (37, 128), (37, 160), (37, 192), (37, 224).
  5. No CAD faz-se um furo e uma matriz linear de 5 elementos com espaçamento de 32 mm (capítulo 12), em vez de desenhar os cinco um a um.

Planos predefinidos

Os programas criam três planos predefinidos, perpendiculares entre si, que se cruzam na origem: o plano XY, o plano XZ e o plano YZ (com nomes como "frente", "cima" e "direita", conforme o programa). São o ponto de partida do primeiro esboço.

Planos auxiliares

Cria-se um plano auxiliar (plano de referência, plano de construção) quando nenhum dos predefinidos serve. As formas mais comuns:

Plano auxiliar criado Exemplo em mobiliário
paralelo a outro, a uma distância (desvio) secções de um assento, a cada 100 mm, para um loft
por uma aresta, com um ângulo corte inclinado no topo de uma perna
por três pontos face inclinada de um tampo de estirador
tangente a uma face curva desenhar um logótipo sobre uma face cilíndrica
perpendicular a uma curva num ponto perfil de uma moldura no início da trajetória de varrimento
a meia distância entre duas faces plano de simetria de uma peça

Selecionar o plano de modelação

Selecionar o plano de modelação correto significa escolher o plano onde a geometria existe de facto na peça. Um rasgo na frente de uma gaveta desenha-se num plano paralelo à frente; um perfil de varrimento desenha-se num plano perpendicular à trajetória. Um sketch no plano errado dá um sólido no sítio errado, e só se percebe depois de extrudir.

9. A geometria-base: o sketch

O sketch (esboço 2D) é a geometria-base de uma peça: linhas, arcos, círculos e curvas desenhados sobre um plano, que depois dão origem a sólidos ou superfícies.

Elementos do sketch

Restrições e cotas

Restrição O que impõe
Horizontal / vertical alinha uma linha com os eixos do plano
Paralela / perpendicular relação entre duas linhas
Coincidente um ponto sobre outro ponto ou sobre uma linha
Tangente continuidade suave entre linha e arco, ou entre arcos
Concêntrica dois círculos ou arcos com o mesmo centro
Igual dois segmentos ou raios com o mesmo valor
Simétrica dois elementos simétricos em relação a uma linha
Fixa prende um elemento no sítio

As cotas fixam as dimensões exatas, copiadas do desenho técnico. Um sketch totalmente definido não tem graus de liberdade soltos: nada se mexe se o arrastarmos. Muitos programas mostram por cores diferentes a geometria subdefinida e a totalmente definida (a convenção de cores varia de programa para programa).

Graus de liberdade

Cada elemento do sketch tem graus de liberdade: um ponto livre num plano tem 2 (x e y); uma linha livre tem 4 (os dois pontos); um círculo tem 3 (centro x, centro y e raio). Cada restrição ou cota retira um ou mais. Um retângulo desenhado com a ferramenta própria já traz restrições de horizontal e vertical; faltam-lhe as duas cotas (largura e altura) e a posição (por exemplo, um canto coincidente com a origem).

Exemplo resolvido: sketch de uma prateleira com recorte

Peça: prateleira com 400 x 250 mm e um recorte semicircular de raio 30 mm, centrado na aresta de trás, para passagem de cabos.

  1. Selecionar o plano que corresponde à face da prateleira (por exemplo XY, peça deitada).
  2. Desenhar um retângulo com um canto na origem.
  3. Cotar: 400 mm em X e 250 mm em Y.
  4. Desenhar um arco com centro na aresta de trás; restringir o centro com coincidência na aresta e ponto médio, e cotar o raio de 30 mm.
  5. Aparar o troço da aresta que fica dentro do arco.
  6. Confirmar que o sketch fica totalmente definido e fechado (um só contorno contínuo).
  7. Resultado: mudar 400 para 450 no futuro mantém o recorte centrado, porque foi definido por relação e não "a olho".

Boas práticas

10. Criar sólidos: extrusão, rotação, varrimento e loft

A partir de um sketch fechado, criam-se sólidos. As quatro operações de base:

Operação Como funciona Peças típicas Opções a conhecer
Extrusão o sketch avança em linha reta tampos, prateleiras, laterais, travessas distância, simétrica, "até à face", ângulo de inclinação das paredes
Rotação (revolução) o sketch roda em torno de um eixo pés torneados, pomos, taças ângulo (360 graus ou menos), eixo no próprio sketch
Varrimento (sweep) um perfil percorre uma trajetória molduras, corrimãos, braços curvos perfil perpendicular à trajetória, torção, escala
Loft (por secções) um sólido passa por várias secções diferentes pés que mudam de secção, braços de cadeira ordem das secções, curvas-guia, alinhamento dos pontos

Exemplo resolvido 1: tampo por extrusão

Sketch: retângulo 1200 x 800 mm com cantos boleados R50 no próprio sketch.

  1. Selecionar o sketch.
  2. Extrusão de 30 mm no sentido de Z positivo.
  3. Resultado: um tampo de 1200 x 800 x 30 mm.
  4. Volume: 1200 x 800 x 30 = 28 800 000 mm³ = 0,0288 m³ (ligeiramente menos por causa dos cantos boleados). Com carvalho a cerca de 700 kg/m³, a massa andaria pelos 0,0288 x 700 ≈ 20 kg. Muitos programas calculam isto sozinhos se lhes for atribuído o material: é uma boa verificação de ordem de grandeza.

Exemplo resolvido 2: pé de mesa por rotação

Perfil: contorno de meio pé de mesa, desenhado num plano que passa pelo eixo de simetria.

  1. Desenhar o perfil do pé, do topo à base, num sketch sobre o plano do eixo.
  2. Desenhar, no mesmo sketch, o eixo de rotação (uma linha de construção).
  3. O perfil não pode cruzar o eixo (daria um sólido que se autointerseta).
  4. Aplicar a operação de rotação a 360 graus em torno desse eixo.
  5. O resultado é um sólido de revolução: o pé completo, simétrico em torno do eixo.

Atenção à exequibilidade: modelar por rotação é fácil; maquinar é outra conversa. Um centro de trabalho de 3 eixos só vê a face de cima. Um pé de revolução completo faz-se num torno (manual ou CNC), numa máquina com eixo rotativo, ou em duas metades maquinadas por faces opostas. Quem modela tem de saber qual destas vias a oficina vai usar.

Exemplo resolvido 3: moldura por varrimento

  1. Trajetória: o retângulo interior da moldura, 500 x 400 mm, num sketch no plano XY.
  2. Perfil: a secção da moldura (40 x 20 mm com um meio-boleado), num plano perpendicular à trajetória, num dos cantos.
  3. Varrimento do perfil ao longo da trajetória: o programa faz os cantos em meia-esquadria automaticamente.
  4. Verificar os cantos: se o perfil for maior que o raio de curvatura da trajetória, o sólido autointerseta-se e falha.

Exemplo resolvido 4: pé que muda de secção por loft

Um pé de cadeira passa de um quadrado de 40 x 40 mm no topo para um círculo de 25 mm de diâmetro na base, com 450 mm de altura.

  1. Sketch 1 no plano da base: círculo de 25 mm.
  2. Plano auxiliar paralelo, a 450 mm.
  3. Sketch 2 nesse plano: quadrado de 40 x 40 mm, centrado sobre o círculo.
  4. Loft entre os dois sketches. Se a transição torcer, alinhar os pontos de ligação (ou acrescentar curvas-guia).
  5. Resultado: uma transição suave do quadrado para o círculo.

11. Subtração, bolear, chanfrar e perfilar

Operações booleanas

Depois de criado o sólido base, combinam-se volumes:

Operação Resultado Exemplo
União (adição) junta dois sólidos num só tampo mais uma saia
Subtração (corte) retira o volume de um sólido a outro furos, rasgos, cavidades, rebaixos
Interseção fica só o volume comum aos dois peça que resulta de dois perfis cruzados

A subtração mais comum faz-se com uma "extrusão de corte" a partir de um novo sketch: a mesma lógica da extrusão, mas a remover material. Também se pode subtrair um sólido auxiliar inteiro, por exemplo a forma de um puxador escavado.

Exemplo resolvido: rebaixo para vidro num tampo

Um tampo de 30 mm tem um rebaixo de 400 x 300 mm para assentar um vidro de 6 mm à face.

  1. Sketch na face de cima: retângulo 400 x 300 mm, centrado, com cantos R8 (fresa de 12 mm tem raio 6; R8 dá folga). O vidro terá os cantos arredondados em conformidade, ou o rebaixo leva alívios de canto.
  2. Subtração com profundidade 6 mm, para o vidro ficar à face.
  3. Espessura que sobra: 30 menos 6 = 24 mm, sem problema.
  4. Se o rebaixo tiver de ser passante no centro (abertura com 360 x 260 mm, deixando 20 mm de apoio a toda a volta), faz-se uma segunda subtração, passante.

Bolear, chanfrar e perfilar

Estas operações e a maquinagem

Aqui é preciso separar dois casos, porque se confundem com frequência:

Um boleado exterior justifica-se pela segurança de quem usa a peça (uma aresta viva de tampo magoa e lasca), pela durabilidade do acabamento e pela estética, não pela facilidade de maquinagem.

Operação Efeito Uso típico em mobiliário Ferramenta na CNC
Bolear aresta exterior aresta arredondada cantos de tampos, pegas, bordas de segurança fresa de boleado do raio pedido, ou fresa esférica em 3D
Raio de canto interior canto de cavidade arredondado rebaixos, rasgos, puxadores escavados a própria fresa de topo
Chanfrar face inclinada plana quebrar aresta viva, guiar encaixes fresa de chanfro (por exemplo 45 graus)
Perfilar contorno decorativo molduras, rebordos, frisos fresa de perfil com a forma pedida

A sequência das operações importa

A ordem em que se aplicam extrusões, subtrações e acabamentos altera o resultado. Boa prática:

  1. Sólido base (extrusão, rotação, varrimento, loft).
  2. Grandes subtrações (cavidades, rebaixos).
  3. Superfícies que cortam o sólido.
  4. Furos e pequenos rasgos.
  5. Boleados, chanfros e perfis, no fim.

Chanfrar uma aresta e só depois subtrair um furo que a atravessa obriga, muitas vezes, a refazer o chanfro, e os boleados aplicados cedo demais falham quando as arestas em que assentavam mudam.

12. Geometrias 3D: fundamentos e manipulação

As geometrias 3D (pontos, curvas, faces, sólidos) manipulam-se com um conjunto de transformações que existem em todos os programas:

Transformação O que faz Exemplo
Mover (translação) desloca segundo um vetor (dx, dy, dz) encostar uma peça importada à origem
Rodar roda em torno de um eixo, com um ângulo deitar uma peça modelada de pé, para ficar com a espessura segundo Z
Espelhar (simetria) cria a imagem simétrica em relação a um plano lateral esquerda a partir da direita
Matriz linear repete em fila, com espaçamento constante furos de 32 em 32 mm
Matriz circular repete à volta de um eixo ranhuras decorativas numa tampa redonda
Escala muda o tamanho por um fator corrigir um ficheiro em polegadas (fator 25,4)
Alinhar encosta faces ou eixos de dois objetos pôr o bloco de material sobre o plano da mesa

Curvas 3D

Além das curvas desenhadas num plano, há curvas que vivem no espaço: curvas 3D por pontos, hélices, curvas de interseção entre duas superfícies e curvas projetadas de um sketch sobre uma face curva. São a base das trajetórias de varrimento e das redes de curvas para superfícies.

Exemplo resolvido: pôr uma peça importada na posição de maquinagem

Um STEP chega com a peça de pé (espessura segundo Y) e afastada da origem, com o canto inferior em (250, 0, 130).

  1. Rodar 90 graus em torno de X, para a espessura ficar segundo Z (confirmar o sentido: a face a maquinar tem de ficar virada para Z positivo; se ficar para baixo, rodar mais 180 graus).
  2. Mover o canto de referência para a origem. Se, depois da rotação, o canto estiver em (250, 130, 0), o vetor de deslocação é (-250, -130, 0).
  3. Medir duas cotas conhecidas para confirmar que nada mudou de dimensão.
  4. Guardar como ficheiro de trabalho, mantendo o original intacto.

13. Superfícies 3D: criação e manipulação

Quando a forma da peça não se obtém com extrusões, rotações, varrimentos e lofts sólidos, trabalha-se com superfícies: faces sem espessura, exatas, que depois se fecham num sólido ou se usam para o cortar.

Criar superfícies

Superfície Como se cria Exemplo em mobiliário
Extrudida uma curva avança em linha reta face ondulada de uma frente de gaveta
De revolução uma curva roda em torno de um eixo interior de uma taça
Varrida um perfil percorre uma trajetória braço curvo de um cadeirão
Loft (por secções) passa por várias curvas de secção assento com dupla curvatura
Por rede de curvas (ou por limites) curvas em duas direções definem a forma concha de uma cadeira
De preenchimento tapa um buraco limitado por arestas fechar o fundo de uma cavidade orgânica
Desfasada (offset) cópia paralela de outra superfície, a uma distância face do molde de fixação, afastada da peça

Manipular superfícies

Continuidade entre superfícies

Onde duas superfícies se encontram, a qualidade da junção descreve-se por níveis de continuidade:

Nível Nome O que garante Aspeto
G0 posição as superfícies tocam-se aresta visível (um vinco)
G1 tangência tocam-se com a mesma direção junção suave, mas o reflexo "quebra"
G2 curvatura tocam-se com a mesma curvatura junção perfeitamente fluida

Para mobiliário maquinado e lixado, G1 é normalmente suficiente; G2 pede-se em peças lacadas de alto brilho, onde o reflexo denuncia qualquer quebra. A análise zebra (riscas refletidas sobre a superfície) e a análise de curvatura mostram estas junções no ecrã.

Exemplo resolvido 1: tampo com face superior curva

Um tampo de mesa de centro tem a face superior abaulada: 30 mm de espessura nas bordas e 36 mm no centro.

  1. Criar o sólido base por extrusão: 900 x 500 x 36 mm.
  2. Em dois planos auxiliares (as duas faces de topo), desenhar arcos que passam a 30 mm nas bordas e a 36 mm no centro.
  3. Criar uma superfície por loft entre os dois arcos (ou uma superfície extrudida, se a curvatura for igual em todo o comprimento).
  4. Prolongar a superfície uns milímetros para lá do sólido, para o corte ser completo.
  5. Cortar o sólido com a superfície, retirando a parte de cima.
  6. Verificar: medir 30 mm nas bordas e 36 mm no centro; confirmar que resultou um único sólido fechado.

Exemplo resolvido 2: assento de banco com concavidade

Assento de 400 x 350 x 40 mm, com uma concavidade ergonómica de 12 mm de profundidade máxima.

  1. Sólido base por extrusão: 400 x 350 x 40 mm, com a face de cima em Z = 40.
  2. Duas ou três secções transversais (arcos) em planos auxiliares, e uma secção longitudinal; profundidade máxima de 12 mm.
  3. Superfície por rede de curvas a partir dessas secções, prolongada para lá das bordas.
  4. Cortar o sólido com a superfície; boleado de transição entre a concavidade e a borda (por exemplo R20).
  5. Verificar espessura mínima: 40 menos 12 = 28 mm no ponto mais fundo.
  6. Análise de curvatura: o raio mais apertado da concavidade tem de ser maior que o raio da fresa esférica de acabamento.

14. Componentes e conjuntos: importar, posicionar, isolar e separar

Peças de mobiliário raramente existem isoladas: fazem parte de um conjunto (assembly). Uma cadeira tem pernas, travessas, assento e encosto; uma gaveta tem frente, laterais, traseira, fundo e corrediças.

Importar e posicionar

Isolar ou separar um componente

Exemplo resolvido: preparar a frente de uma gaveta para maquinar

Conjunto: gaveta com corpo, frente e corrediças. A frente precisa de um puxador escavado e de dois furos de fixação ao corpo.

  1. Abrir o conjunto e verificar interferências antes de mexer.
  2. Isolar a frente para trabalhar sem distrações.
  3. Abrir a frente como peça própria; modelar o puxador (superfície 3D) e os dois furos.
  4. Voltar ao conjunto: confirmar que os furos da frente coincidem com os pontos de fixação do corpo e que o puxador não interfere com nada.
  5. Exportar só a frente em STEP, com a origem no canto de referência, para o CAM.

15. Elementos facilitadores da maquinagem CNC

Um modelo geometricamente correto pode ainda assim ser difícil, ou impossível, de maquinar. Os elementos facilitadores são características que se acrescentam ou ajustam durante a modelação para que a peça se maquine bem, depressa e com segurança. Alguns ficam na peça final; outros são removidos depois.

Elemento facilitador Para que serve Fica na peça final?
Raios de canto interiores compatíveis com as fresas permitir que a fresa faça o canto sim
Alívios de canto ("osso de cão") permitir o encaixe de peças de cantos vivos sim (escondidos)
Sobrematerial (sobre-espessura) deixar material para acabamento posterior ou para compensar o empeno não (removido no acabamento)
Pontes (tabs) segurar peças pequenas ao painel no corte de contorno não (cortadas e lixadas)
Zonas de fixação (orelhas, talões) ter onde apertar ou onde a ventosa agarre não (cortadas no fim)
Faces planas de apoio assentar a peça de forma estável na mesa ou no molde normalmente sim
Furos de referência repetir a mesma posição ao virar a peça ou ao mudar de fixação às vezes (ficam escondidos ou são tapados)
Espessuras mínimas evitar vibração e rotura durante o corte sim
Raios e ângulos iguais às fresas de perfil existentes não inventar ferramentas sim

Exemplo resolvido: pontes numa peça pequena

Vão cortar-se, de um painel de MDF de 19 mm, vinte peças de 80 x 60 mm, com contorno completo, numa mesa de vácuo.

  1. Constrangimento: uma peça de 80 x 60 mm tem pouca área (0,08 x 0,06 = 0,0048 m²); quando o contorno fecha, a força de vácuo sobre ela é pequena e a peça pode soltar-se e ser projetada.
  2. Solução: deixar pontes de material a ligar cada peça ao painel. Por exemplo, duas a quatro pontes por peça, com poucos milímetros de largura e uma pequena altura acima do fundo do corte.
  3. No CAM, as pontes definem-se muitas vezes na própria estratégia de contorno; no modelo, marca-se onde podem ficar (em arestas retas e fáceis de lixar, nunca em zonas curvas à vista).
  4. Depois da maquinagem, as peças soltam-se e as pontes lixam-se.

Exemplo resolvido: peça trabalhada nas duas faces

Uma tábua de servir tem uma concavidade de um lado e um rebaixo de pega do outro.

  1. Modelar a peça dentro de um bloco maior, com dois furos de referência fora da peça, simétricos em relação ao eixo de viragem.
  2. Primeira fixação: maquinar a face de cima e furar os dois furos até atravessarem o bloco e entrarem na base de sacrifício.
  3. Virar o bloco em torno do eixo de simetria; encaixá-lo em dois pinos colocados nos mesmos furos da base.
  4. Segunda fixação: maquinar a outra face; a posição coincide com a primeira porque os furos são simétricos.
  5. Cortar o contorno final; os furos ficam na zona de desperdício.

16. Volumes de trabalho e sólidos em CAD-CAM

O volume de trabalho (bloco de material em bruto, stock) é o sólido que representa o material antes da maquinagem. O CAM precisa dele para saber de onde parte e quanto material tem de remover em cada passagem. Criar volumes de trabalho é uma aptidão do referencial.

Como se define

Exemplo resolvido: o bloco para o assento do capítulo 13

Assento acabado: 400 x 350 x 40 mm. A oficina vai colar tábuas de maciço e desengrossar a 42 mm, deixando 5 mm de sobrematerial por lado no contorno.

  1. Comprimento do bloco: 400 + 2 x 5 = 410 mm.
  2. Largura: 350 + 2 x 5 = 360 mm.
  3. Espessura: 42 mm, ou seja 2 mm de sobrematerial acima da face superior acabada (40 mm), que a primeira passagem de facejamento remove.
  4. Modelar o bloco de 410 x 360 x 42 mm, alinhado com a peça: a peça fica centrada em X e Y e com a face de baixo coincidente com a do bloco (Z = 0 é a face de baixo; Z = 42 a de cima).
  5. Volume de material a remover (ordem de grandeza): bloco 410 x 360 x 42 = 6 199 200 mm³, cerca de 6,2 dm³; peça sem a concavidade 400 x 350 x 40 = 5 600 000 mm³, 5,6 dm³; a concavidade retira ainda mais. Mais de 10 % do bloco vai virar apara, o que conta para a captação de pó e para o custo.

Origem de peça

Definir a origem de peça (zero de peça) num ponto que o operador encontre facilmente na máquina: um canto do bloco, o centro de um furo de referência, ou o batente da mesa. A origem do modelo, a origem do volume de trabalho e a origem no CAM têm de coincidir ou ter uma relação conhecida.

17. Moldes para fixação dos componentes a maquinar

A peça tem de ficar imóvel durante a maquinagem: se se mexer uma fração de milímetro, a peça sai errada; se se soltar, pode ser projetada. Por isso, a fixação pensa-se na modelação, e o molde (ou gabarito, ou berço) modela-se como qualquer outro componente.

Formas de fixação nos centros de trabalho de mobiliário

Fixação Como funciona Boa para Limitações
Mesa de vácuo com base de sacrifício o vácuo atravessa uma placa porosa (muitas vezes MDF) e segura o painel inteiro painéis grandes, corte de contornos (nesting) peças pequenas soltam-se; a base vai sendo cortada
Ventosas (módulos de vácuo) cada ventosa segura a peça numa zona plana peças maciças e painéis sobre as barras precisam de zonas planas e de área suficiente
Grampos pneumáticos ou mecânicos apertam a peça contra batentes peças estreitas, maciços, perfis ocupam espaço e podem colidir com a ferramenta
Molde ou berço à medida peça de MDF (ou outro) maquinada com a forma negativa da peça peças curvas, trabalho na segunda face tem de ser modelado e maquinado antes

Força de fixação por vácuo

A força teórica de uma ventosa ou de uma zona de vácuo é a depressão multiplicada pela área útil:

F = Δp x A      (Δp em pascal, A em m², F em newton)

Exemplo resolvido: ventosa e peça pequena

  1. Ventosa de 120 x 120 mm, com uma depressão de 0,8 bar = 80 000 Pa.
  2. Área: 0,12 x 0,12 = 0,0144 m².
  3. Força teórica: 80 000 x 0,0144 = 1152 N (o peso de uma massa de cerca de 117 kg).
  4. A mesma depressão sobre a peça do capítulo 15 (0,0048 m²): 80 000 x 0,0048 = 384 N, três vezes menos.
  5. A força real é menor que a teórica (fugas pelas arestas, porosidade do material, juntas gastas), e a fresa exerce esforços laterais. Conclusão: peças pequenas têm pouca área e pouca força; seguram-se com pontes, dentro de um painel maior, ou com grampos.

Molde negativo para uma peça curva

Uma peça com a face de baixo curva não assenta numa mesa plana. A solução típica é um berço: um bloco de MDF com a forma negativa da peça.

  1. Partir da superfície curva de baixo da peça.
  2. Criar uma superfície desfasada (offset) com uma pequena folga, se a peça não for perfeitamente igual ao modelo.
  3. Subtrair a peça (ou a superfície desfasada) a um bloco de MDF: fica a cavidade onde a peça encaixa.
  4. Acrescentar batentes ou furos de referência para posicionar a peça sempre na mesma posição.
  5. Se o berço trabalhar com vácuo, prever canais e junta de vedação na zona de contacto; se trabalhar com grampos, deixar zonas de aperto fora do percurso da ferramenta.
  6. Simular (no CAM ou visualmente no conjunto) o percurso da ferramenta, para confirmar que não toca no berço nem nos grampos.

Regras gerais do molde

18. Segurança, EPI e normas da qualidade

Segurança e saúde no trabalho

A modelação faz-se ao computador, mas cada decisão do modelo acaba numa máquina com ferramentas a rodar a alta velocidade. As regras aplicam-se a todo o processo:

Equipamentos de proteção individual (EPI)

Situação EPI
Junto da máquina em funcionamento proteção auditiva, óculos de proteção, calçado de segurança
Limpeza de apara e pó, troca de base de sacrifício máscara FFP2/FFP3, óculos
Manuseamento de painéis e peças maquinadas luvas de manuseamento só com a máquina parada (nunca junto de ferramentas em rotação); calçado de segurança
Troca de ferramentas luvas resistentes ao corte, com a máquina parada e bloqueada

Na zona das máquinas não se usam adornos, roupa larga nem cabelo solto, porque podem ser agarrados por peças em rotação. No posto de modelação, a ergonomia também conta: ecrã à altura dos olhos, pausas, boa iluminação.

Normas da qualidade

Lista de controlo do modelo (antes de seguir para o CAM)

  1. Unidades em milímetros e duas cotas conhecidas medidas.
  2. Sólido fechado, sem faces soltas nem interferências.
  3. Espessura segundo Z e face a maquinar virada para Z positivo.
  4. Origem de peça no ponto combinado com o operador.
  5. Raios de canto interiores maiores ou iguais ao raio das fresas previstas.
  6. Raios e ângulos de arestas iguais às fresas de perfil existentes.
  7. Profundidades dentro do comprimento útil das ferramentas.
  8. Espessuras mínimas verificadas.
  9. Volume de trabalho modelado, com o sobrematerial definido.
  10. Fixação prevista e modelada (molde, pontes, zonas de aperto).
  11. Ficheiro exportado no formato combinado, com nome e versão.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Modelar uma peça para maquinagem CNC segue sempre a mesma lógica: ler o desenho e as especificaçõesavaliar a exequibilidade (ferramenta, máquina, material, fixação) e resolver os constrangimentos → orientar-se no ambiente gráfico e escolher eixos e planos → construir sketches totalmente definidos → gerar sólidos por extrusão, rotação, varrimento ou loft → subtrair, e deixar boleados, chanfros e perfis para o fim → manipular geometrias 3D e criar superfícies quando a forma o exige, com continuidade verificada → organizar componentes e conjuntos, isolando e separando o que precisa de operações adicionais → integrar elementos facilitadores → modelar o volume de trabalho e a origem → desenvolver o molde de fixação → verificar e exportar no formato certo, respeitando sempre segurança e qualidade.

Os nomes dos comandos mudam de programa para programa. O que não muda é a lógica: pensar desde o primeiro esboço na peça física que vai sair da máquina, na ferramenta que a vai cortar e na forma de a segurar.

Exercícios resolvidos

1. Um desenho tem um canto interior vertical a 90 graus num rebaixo, e só há fresas de 8 mm de diâmetro. Como procedes?

Resolução: a fresa de 8 mm tem raio de 4 mm, e deixa sempre esse raio no canto. O canto vivo não é exequível. Propõe-se um raio de canto de pelo menos 4 mm (de preferência um pouco maior, por exemplo R5, para a fresa não "abraçar" o canto) e valida-se com quem projetou a peça. Se no rebaixo tiver de entrar uma peça de cantos vivos, usa-se um alívio de canto.

2. Que ficheiro escolhes para enviar um modelo a um fornecedor que não tem o mesmo software CAD, e porquê?

Resolução: STEP, porque é um formato neutro normalizado que transporta sólidos e superfícies exatos. O IGES é mais antigo e transporta sobretudo superfícies (o sólido pode chegar aberto); o STL é uma malha aproximada. O ficheiro nativo só serve a quem tiver o mesmo programa.

3. Distingue arame, malha, superfície e sólido, e indica qual usarias para maquinar uma peça com precisão dimensional.

Resolução: o arame tem só arestas e vértices; a malha aproxima a forma com triângulos; a superfície é uma face exata sem espessura; o sólido é um conjunto fechado de superfícies que delimita um volume. Para maquinar com precisão usa-se o sólido (construído, se preciso, a partir de superfícies exatas).

4. Um ficheiro importado mostra um tampo com 31,50 x 19,69 x 0,98. O que se passou e qual a medida real?

Resolução: o ficheiro está em polegadas e foi lido como milímetros. 31,50 x 25,4 = 800 mm; 19,69 x 25,4 ≈ 500 mm; 0,98 x 25,4 ≈ 25 mm. O tampo tem 800 x 500 x 25 mm. Reimporta-se com as unidades certas e confirma-se com a medição.

5. Que operação usarias para modelar uma perna de mesa torneada, e que cuidado tens quanto à maquinagem?

Resolução: a rotação: perfil de metade da perna num sketch, eixo de rotação como linha de construção, rotação a 360 graus. Quanto à maquinagem, uma peça de revolução completa não se faz numa CNC de 3 eixos numa só fixação: faz-se num torno, numa máquina com eixo rotativo, ou em metades por faces opostas. Confirma-se com a oficina antes de fechar o modelo.

6. Um aluno diz que boleou as arestas exteriores de um tampo "para facilitar a maquinagem". Tem razão?

Resolução: não. O boleado exterior acrescenta uma operação (fresa de boleado com o raio exato, ou acabamento 3D). O que facilita a maquinagem é o raio nos cantos interiores verticais. O boleado exterior justifica-se pela segurança, pela durabilidade e pela estética; o raio deve coincidir com uma fresa de perfil existente.

7. Calcula a altura de crista de uma fresa esférica de 10 mm de diâmetro com passo de 1 mm.

Resolução: R = 5 mm; p/2 = 0,5 mm. h = 5 menos √(25 menos 0,25) = 5 menos √24,75 = 5 menos 4,975 = 0,025 mm.

8. Uma ventosa de 140 x 115 mm trabalha com 0,7 bar de depressão. Qual a força teórica de fixação?

Resolução: área = 0,14 x 0,115 = 0,0161 m²; Δp = 0,7 bar = 70 000 Pa; F = 70 000 x 0,0161 = 1127 N teóricos. A força real é menor (fugas, porosidade), e só existe se a ventosa assentar numa zona plana da peça.

9. Uma peça com a face de baixo curva vai ser maquinada na face de cima. Como a fixas?

Resolução: com um berço (molde negativo) em MDF, obtido subtraindo a peça (ou uma superfície desfasada dela) a um bloco, com batentes ou furos de referência para a posição, e zonas de aperto ou vácuo fora do percurso da ferramenta. Verifica-se no conjunto, ou no CAM, que a ferramenta não toca no berço.

10. Explica porque se deixam quase sempre os boleados e os chanfros para o fim da árvore de construção.

Resolução: porque a forma geral do sólido ainda pode mudar (novas subtrações, superfícies que cortam, ajustes de cotas). Um acabamento aplicado cedo demais pode falhar ou ter de ser refeito quando as arestas em que assenta mudam. Aplicados no fim, ficam estáveis.

11. Uma peça acabada tem 600 x 300 x 25 mm. Quer-se um volume de trabalho com 4 mm de sobrematerial por lado no contorno e 1,5 mm acima. Que medidas tem o bloco?

Resolução: 600 + 2 x 4 = 608 mm; 300 + 2 x 4 = 308 mm; 25 + 1,5 = 26,5 mm. Bloco de 608 x 308 x 26,5 mm, com a peça centrada no plano XY e a face de baixo coincidente com a do bloco.