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UC · Unidade de Competência · UC02087

Sebenta · Programar e operar em 5 e 6 eixos centros de trabalho CNC para mobiliário e carpintaria (UC02087)

Sistemas de eixos, interpolação simultânea, fixação, ferramentas, CAD-CAM, programação ISO, simulação e segurança
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. CNC em Madeira e Mobili ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a programar e operar centros de trabalho CNC de 5 e 6 eixos para mobiliário e carpintaria: da diferença entre uma máquina de 3 eixos e um centro de 5 eixos, até à simulação, ao teste em vazio e à maquinagem de teste de uma peça real. É a UC onde se aprende a tirar partido de máquinas capazes de orientar a ferramenta no espaço, e não só de a posicionar.

O percurso segue a lógica de um técnico de CNC numa fábrica de mobiliário ou numa carpintaria:

  1. Compreender o que são os centros de 5 e 6 eixos, como se chamam e orientam os seus eixos e o que é a interpolação simultânea.
  2. Perceber porque certas peças exigem ou beneficiam de 5 eixos, e quando basta o modo 3+2.
  3. Escolher mesa, fixação e ferramentas, e montar, medir e configurar essas ferramentas.
  4. Perceber a cinemática da máquina e os esforços que ela provoca.
  5. Programar, em código ISO e em CAD-CAM, a partir de um sólido 3D.
  6. Validar antes de produzir: simular, detetar colisões, gerar o código, montar o molde, testar em vazio e maquinar a peça de teste.
  7. Fazer tudo isto com segurança, EPI e normas da qualidade.

Objetivos de aprendizagem (referencial): diferenciar os tipos de maquinagem dos centros de trabalho CNC de componentes ou peças para mobiliário e carpintaria e as vantagens da sua utilização; elaborar programas CNC para maquinagem, em 5 e 6 eixos, de componentes e peças de mobiliário ou carpintaria; cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho.

Realizações esperadas no fim da UC: elaborar programas CNC para maquinagem em 5 eixos de componentes e peças de mobiliário e carpintaria, e executar essa maquinagem num centro de trabalho CNC de 5 eixos.

Como usar esta sebenta. Cada capítulo explica a matéria, dá pelo menos um exemplo resolvido passo a passo e termina com ideias-chave. As contas (velocidade de corte, avanço por dente, força de vácuo, erros de comprimento da ferramenta) estão feitas até ao fim, com unidades, para as poderes refazer sozinho. No fim tens erros comuns, glossário, síntese e exercícios resolvidos.

Uma nota importante: cada fabricante (e cada comando numérico) tem as suas próprias funções, menus e nomes. Esta sebenta ensina os princípios comuns; para a tua máquina concreta, manda sempre o manual do fabricante.

1. Centros de trabalho CNC de 5 e 6 eixos

O que é um centro de trabalho CNC para mobiliário e carpintaria

Um centro de trabalho CNC (em inglês, CNC machining centre ou router) para mobiliário e carpintaria é uma máquina de comando numérico que maquina madeira maciça e derivados (aglomerado, MDF, contraplacado, painéis melamínicos, alguns plásticos e compósitos) com ferramentas rotativas, movendo vários eixos coordenados por um programa. Os recursos do referencial falam de fresadoras, multifuradoras e centros de trabalho multifunções: na prática, um centro de trabalho moderno junta numa só máquina:

De 3 para 5 eixos: posicionar e orientar

A diferença fundamental entre um centro de 3 eixos e um centro de 5 eixos está na capacidade de orientar a ferramenta, e não só de a posicionar:

E os "6 eixos"?

Não há uma definição única de "6 eixos": depende do fabricante. O que as fichas técnicas chamam 6.º eixo pode ser, por exemplo:

Por isso, perante uma máquina de "6 eixos", a primeira pergunta do técnico é sempre: que eixo é esse, o que move e se interpola ou não com os outros? A resposta está no manual.

Tipos de maquinagem CNC

Tipo de máquina ou modo Eixos Capacidade típica
Centro de 3 eixos X, Y, Z (eixo da ferramenta sempre vertical) faces planas, contornos, rebaixos, furação vertical; faces laterais só com agregados
Modo 3+2 (indexado) X, Y, Z + 2 rotativos posicionados e parados durante o corte faces planas inclinadas e furos inclinados, uma orientação de cada vez
5 eixos simultâneos (contínuos) X, Y, Z + 2 rotativos em movimento durante o corte superfícies curvas contínuas, ângulos que variam ao longo do percurso
"6 eixos" 5 eixos + um eixo adicional, definido pelo fabricante depende do que o 6.º eixo move

Diferenciar estes tipos de maquinagem, e as suas vantagens, é o primeiro critério de desempenho desta UC: perante uma peça, é preciso saber justificar qual o tipo de máquina e de estratégia mais adequado.

Onde se usam

Estes centros servem as indústrias de madeira e mobiliário e as indústrias de carpintaria. Exemplos típicos: pés e braços de cadeira de secção variável, costas de cadeira curvas, peças de escada (corrimãos e pernas curvas, degraus com recortes), caixilharia com ângulos compostos, portas e aros em arco, elementos decorativos em relevo, moldes para contraplacado curvado e peças para a náutica e para a construção em madeira. Em Portugal, o cluster do mobiliário concentra-se sobretudo nos concelhos de Paços de Ferreira e Paredes, onde convivem máquinas de 3 eixos para painel e centros de 5 eixos para peças de maciço.

Software próprio dos fabricantes

Muitos centros de mobiliário (de marcas como Biesse, SCM ou Homag) não se programam em ISO puro no dia a dia: usam software próprio do fabricante, com editores gráficos e macros de furação e fresagem, que depois gera o código para o comando. O código ISO continua a existir por baixo e é importante percebê-lo, mas cada marca tem a sua forma de trabalhar. Nesta sebenta não se inventam nomes de menus: segue o manual da tua máquina.

Ideias-chave: 3 eixos posicionam; 5 eixos posicionam e orientam; "6 eixos" depende do fabricante; nos centros de mobiliário, o mais comum é a cabeça birrotativa com a peça parada.

2. Sistemas de eixos

A norma: sistema cartesiano de mão direita

A designação dos eixos das máquinas de comando numérico segue a norma ISO 841: um sistema de coordenadas cartesiano de mão direita, referido à peça como se esta estivesse parada e fosse a ferramenta a mover-se.

Os eixos rotativos designam-se A, B e C e rodam, respetivamente, em torno de X, Y e Z. O sentido positivo de cada rotação dá-se pela regra da mão direita (ou do saca-rolhas): com o polegar a apontar no sentido positivo do eixo linear, os dedos fechados indicam o sentido positivo da rotação.

Eixo linear Eixo rotativo associado Exemplo em mobiliário
X (comprimento da mesa) A (roda em torno de X) basculamento da cabeça, em algumas marcas
Y (largura da mesa) B (roda em torno de Y) basculamento da cabeça, noutras marcas
Z (eixo da ferramenta) C (roda em torno de Z) rotação da cabeça em torno da vertical

Num centro de 5 eixos, aos três lineares juntam-se dois dos três rotativos. A combinação (A e C, B e C, ou outra) depende da cinemática da máquina (capítulo 10). Cuidado: em muitas cabeças de mobiliário o eixo de basculamento não é paralelo a X nem a Y quando a cabeça roda em C, e o fabricante chama-lhe A ou B de acordo com a posição de referência. Confirma sempre no manual.

Origem da máquina e origem da peça

Há dois sistemas de referência que nunca se podem confundir:

Nos centros de mobiliário, é frequente a origem da peça ser definida pelos batentes (tacos de referência que sobem da mesa): a peça encosta aos batentes e o canto de encosto é a origem daquela zona da mesa.

Os eixos rotativos também têm a sua origem angular (0°), normalmente a posição com a ferramenta vertical e a cabeça numa orientação de referência.

Um programa correto corrido sobre uma origem mal configurada maquina no sítio errado e pode colidir. Confirmar a origem é o primeiro passo antes de correr qualquer programa.

Exemplo resolvido · passar cotas do desenho para coordenadas

Um tampo de 800 x 400 mm, com 25 mm de espessura, está encostado aos batentes. A origem de trabalho (G54) é o canto esquerdo, à frente, na face de cima do tampo. É preciso um furo no centro do tampo, com 10 mm de profundidade.

  1. X: metade do comprimento, 800 / 2 = 400 mm, logo X400.
  2. Y: metade da largura, 400 / 2 = 200 mm, logo Y200.
  3. Z: a origem está na face de cima; 10 mm para dentro da peça é Z-10.
  4. Resultado: o fundo do furo é o ponto X400 Y200 Z-10. Se a origem estivesse na face de baixo, o mesmo ponto seria Z15 (25 - 10 = 15). A escolha da origem muda os números, não a peça.

Ideias-chave: ISO 841, mão direita; Z é o eixo da ferramenta e Z+ afasta-se da peça; A, B e C rodam em torno de X, Y e Z; origem da máquina ≠ origem da peça.

3. Eixos de movimento linear e eixos de movimento angular

Eixos lineares: o "onde"

Os eixos lineares (X, Y, Z) deslocam a ferramenta (ou, em algumas máquinas, a mesa) em linha reta. Programam-se em milímetros. Cada um tem um curso (distância máxima que pode percorrer) e uma velocidade máxima, indicados na ficha técnica. Combinados, posicionam a ponta da ferramenta em qualquer ponto do volume de trabalho: resolvem o onde.

Eixos angulares: o "como"

Os eixos angulares (rotativos) programam-se em graus e orientam a ferramenta ou a peça. Podem estar:

Resolvem o como: segundo que direção a ferramenta ataca a peça. Diferenças práticas em relação aos lineares:

Característica Eixo linear Eixo angular
Letras X, Y, Z A, B, C
Unidade mm graus (°)
Movimento translação rotação em torno de um eixo linear
Limites curso em mm amplitude em graus (ex.: basculamento limitado; rotação C por vezes limitada a pouco mais de uma volta, por causa dos cabos e tubos da cabeça)
Efeito de um erro desloca a ponta na mesma medida o efeito na ponta cresce com a distância ao centro de rotação

A última linha é a mais importante: um erro de 0,1° num eixo rotativo, a 200 mm do centro de rotação, desloca a ponta cerca de 200 x tan(0,1°) = 200 x 0,001745 ≈ 0,35 mm. Nos eixos lineares, 0,1 mm de erro são 0,1 mm na peça.

Exemplo resolvido · orientar a ferramenta perpendicular a uma face inclinada

Uma peça de caixilharia tem uma face plana inclinada 30° em relação à horizontal, descendo no sentido de X+. É preciso fazer um furo perpendicular a essa face.

  1. Com a ferramenta vertical (rotativos a 0°), o eixo da ferramenta está na perpendicular do plano horizontal.
  2. Para ficar perpendicular a uma face inclinada 30°, o eixo da ferramenta tem de inclinar 30° na mesma direção da inclinação da face.
  3. A cabeça roda primeiro em C para que o basculamento fique no plano da inclinação (plano XZ), e depois bascula 30°.
  4. Os valores exatos de C e de A (ou B), e o sinal, dependem da cinemática e da convenção do fabricante: o CAM e o pós-processador calculam-nos; o técnico confirma na simulação que o furo sai perpendicular à face.

Exemplo resolvido · identificar os eixos de um movimento

Um bloco manda a ferramenta de X0 Y0 Z50 A0 C0 até X50 Y30 Z5 A10 C5, em interpolação simultânea.

  1. Lineares: X (0 → 50), Y (0 → 30) e Z (50 → 5).
  2. Angulares: A (0° → 10°) e C (0° → 5°).
  3. Conclusão: mudam cinco valores ao mesmo tempo, coordenados pelo comando: é um movimento a 5 eixos simultâneos.

Ideias-chave: lineares em mm resolvem o onde; angulares em graus resolvem o como; um erro angular cresce com a distância ao centro de rotação.

4. Interpolação simultânea de 4, 5 e 6 eixos

O que é interpolar

Interpolar é o comando numérico calcular, em cada instante (milhares de vezes por segundo), a posição de todos os eixos envolvidos num movimento, para que cheguem juntos ao ponto final seguindo a trajetória pedida, e não um de cada vez.

4, 5 e 6 eixos

Interpolação Eixos em movimento simultâneo Exemplo de uso
4 eixos 3 lineares + 1 rotativo rodar a cabeça em C para manter uma serra ou uma fresa de perfil tangente a um contorno; peças cilíndricas num eixo rotativo de torno
5 eixos 3 lineares + 2 rotativos superfícies curvas contínuas, ângulos que variam ao longo do percurso (pé de cadeira curvo, corrimão)
6 eixos 5 eixos + um eixo adicional (definido pelo fabricante) depende do que o 6.º eixo move: agregado orientável, segunda cabeça, braço de robô

Atenção: uma interpolação a 4 ou 5 eixos não exige que todos os eixos da máquina se mexam. Conta-se o número de eixos que mudam de valor no mesmo bloco, coordenados.

O papel do RTCP

Quando a cabeça roda, a ponta da ferramenta descreve um arco em torno do centro de rotação da cabeça (o pivô). Se o comando se limitasse a rodar a cabeça, a ponta saía do sítio. A função RTCP (Rotation Tool Center Point, compensação do ponto central da ferramenta; outros comandos chamam-lhe TCP ou TCPM) faz o comando corrigir automaticamente X, Y e Z sempre que os eixos rotativos se mexem, de modo que as coordenadas programadas passam a ser as da ponta da ferramenta e não as do pivô.

Consequências práticas:

Exemplo resolvido · contar os eixos que interpolam

Três blocos seguidos:

Ideias-chave: interpolar é coordenar eixos no mesmo movimento; conta-se o que muda no mesmo bloco; o RTCP faz o programa falar da ponta da ferramenta.

5. Necessidade e vantagens da maquinagem CNC em 5 eixos

Peças que tornam os 5 eixos obrigatórios

Uma superfície curva, só por si, não obriga a 5 eixos: um assento esculpido ou um relevo que se vê todo de cima faz-se a 3 eixos, com fresa esférica e acabamento por varrimento ou por níveis constantes. Os 5 eixos simultâneos tornam-se obrigatórios quando a direção da ferramenta tem de mudar durante o corte porque a vertical não chega:

Peças em que os 5 eixos (ou o 3+2) são vantajosos

Quando não compensa

Exemplo resolvido · decidir o tipo de maquinagem

Uma cadeira tem: (1) assento plano em contraplacado com quatro furos verticais; (2) quatro pernas com um furo de cavilha a 12° em cada topo; (3) costas esculpidas com curvatura contínua.

  1. Assento: faces planas e furos verticais, logo 3 eixos.
  2. Pernas: furos inclinados mas retos; a ferramenta inclina-se, pára, e fura: 3+2.
  3. Costas: a direção da ferramenta tem de acompanhar a curvatura durante o corte: 5 eixos simultâneos.
  4. Conclusão: uma só máquina de 5 eixos pode fazer as três peças, mas cada uma com a estratégia mais simples que resolve o problema.

6. Máquinas CNC de 3+2 eixos e máquinas de 5 eixos

O modo 3+2 (posicionamento indexado)

Em 3+2, os dois eixos rotativos posicionam a ferramenta (ou a peça) numa orientação fixa e ficam parados durante o corte; o corte propriamente dito é feito com os três eixos lineares. Também se chama maquinagem indexada ou posicionada. É como inclinar a ferramenta, travar, e trabalhar "a 3 eixos" num plano inclinado.

Para programar em 3+2, o comando (ou o CAM) define um plano de trabalho inclinado: um novo sistema de coordenadas em que o novo Z coincide com o eixo da ferramenta inclinada. Dentro desse plano, o programa escreve-se como se fosse de 3 eixos. Cada comando tem a sua função para isto (como exemplos, G68.2 em Fanuc, CYCLE800 em Siemens, PLANE em Heidenhain); nos centros de mobiliário, o software do fabricante costuma oferecer a mesma ideia com o nome de face ou plano inclinado.

Máquinas 3+2 e máquinas de 5 eixos contínuos

Há máquinas cujos eixos rotativos só posicionam (não interpolam durante o corte): chamam-se máquinas de 3+2 eixos. E há máquinas de 5 eixos contínuos, em que o comando interpola os cinco eixos ao mesmo tempo. Uma máquina de 5 eixos contínuos também sabe trabalhar em 3+2, e muitas vezes deve: é mais rígido e mais simples.

Característica 3+2 (indexada) 5 eixos contínuos (simultânea)
Rotativos durante o corte parados em movimento
Geometrias faces planas inclinadas, furos inclinados superfícies curvas contínuas, ângulos variáveis
Rigidez maior (rotativos travados) menor, sensível a folgas e à dinâmica
Programação mais simples, pode ser manual quase sempre por CAM
Exigência ao comando plano inclinado RTCP e interpolação de 5 eixos
Risco de colisão menor maior, exige simulação completa com modelo da máquina
Custo da máquina menor maior

Exemplo resolvido · 3+2 ou 5 contínuos?

Uma peça de escada tem três rebaixos planos, cada um numa face inclinada diferente (15°, 30° e 45°), e um bordo boleado que muda de inclinação ao longo de 1,2 m.

  1. Os três rebaixos: cada face é plana, a ferramenta pode ficar parada numa orientação durante cada rebaixo, logo 3+2, três planos de trabalho.
  2. O bordo boleado que muda de inclinação: a ferramenta tem de mudar de orientação durante o corte, logo 5 eixos contínuos.
  3. Numa máquina de 5 eixos contínuos, o programa junta as duas estratégias. Numa máquina só de 3+2, o bordo teria de ser feito por pequenas facetas (pior acabamento) ou com uma fresa de perfil.

Ideias-chave: 3+2 posiciona e trava; 5 contínuos interpola; usa o modo mais simples que resolve a peça.

7. Tipos de mesa e sistemas de fixação de peças

A mesa e o sistema de fixação seguram a peça durante toda a maquinagem e decidem que faces ficam acessíveis sem a reposicionar. Em 5 eixos, a fixação tem uma exigência extra: tem de deixar espaço à cabeça inclinada.

Tipos de mesa nos centros de mobiliário e carpintaria

Tipo de mesa Como funciona Onde se usa
Mesa de consolas (barras) barras transversais móveis, com ventosas de vácuo posicionáveis e batentes de referência peças de maciço e painéis individuais; deixa a peça levantada, com acesso aos cantos e por baixo dos bordos
Mesa plana de vácuo (matricial ou alveolar) tampo com canais e zonas de vácuo; muitas vezes com um tabuleiro sacrificial poroso (MDF) por cima nesting: corte de painéis inteiros em peças; a fresa pode descer ligeiramente abaixo da peça
Mesa com moldes (gabaris) de vácuo molde à forma da peça, com junta de borracha e ligação ao vácuo peças curvas ou irregulares em série
Grampos pneumáticos ou mecânicos aperto mecânico sobre consolas ou sobre a mesa peças estreitas, maciças ou sem face plana suficiente para ventosas
Mesa rotativa ou basculante a peça roda e inclina pouco comum em mobiliário; é típica da metalomecânica

Nos centros de 5 eixos de mobiliário, a solução mais frequente é a mesa de consolas com ventosas: a peça fica levantada da mesa, o que deixa a cabeça inclinada trabalhar os bordos sem tocar na mesa. Muitas mesas estão divididas em duas zonas de trabalho, para carregar uma peça enquanto se maquina outra (trabalho pendular).

Força de fixação por vácuo

A força que uma ventosa exerce é a depressão vezes a área útil da ventosa (a área interior à junta):

F = Δp x A

Com Δp em pascal (Pa = N/m²) e A em m², ou, mais prático, Δp em N/mm² e A em mm² (1 bar = 100 000 Pa = 0,1 N/mm²).

Exemplo resolvido · força de uma ventosa

Depressão de 0,8 bar abaixo da pressão atmosférica; ventosa com área útil de 120 x 120 mm.

  1. Δp = 0,8 bar = 80 000 Pa = 0,08 N/mm².
  2. A = 120 x 120 = 14 400 mm².
  3. F = 0,08 x 14 400 = 1152 N (cerca de 1150 N teóricos).
  4. Com quatro ventosas iguais: 4 x 1152 = 4608 N.

Três avisos: (a) é um valor teórico, a força real é menor por fugas (juntas gastas, madeira porosa, superfícies empenadas ou ásperas); (b) é uma força perpendicular à peça; a resistência ao escorregamento lateral, que é a que as forças de corte tentam vencer, depende do atrito e é bastante menor; (c) peças pequenas têm pouca área e pouca força: se a peça não cobre a ventosa toda, o vácuo não se forma.

Exemplo resolvido · peça estreita

Uma travessa de 40 mm de largura precisa de ser fixada. Uma ventosa de 120 x 120 mm não fica coberta: o vácuo não se forma. Soluções: ventosas estreitas próprias (por exemplo, com área útil de 30 x 120 mm, dando 0,08 x 3600 = 288 N cada, muito menos), grampos pneumáticos, ou um molde com vários pontos de vácuo e batentes.

O molde de fixação da peça

Para peças curvas ou irregulares em série, faz-se um molde (gabari): uma base maquinada à forma da peça, com junta de vedação e furos de vácuo, ou com grampos e batentes. Montar o molde na máquina e fixar sobre ele o material são duas aptidões do referencial:

  1. Limpar a mesa e as ventosas; verificar juntas e mangueiras.
  2. Posicionar o molde nas coordenadas previstas no programa, encostado aos batentes ou medido em relação à origem.
  3. Fixar o molde (vácuo ou aperto mecânico) e verificar que não se mexe.
  4. Colocar a peça (madeira ou outro material) sobre o molde, encostada às referências, e ligar a sua fixação.
  5. Confirmar no vacuómetro que a depressão é a esperada e que nada sai do lugar ao empurrar com a mão.

Critérios de escolha

  1. Acessibilidade: que faces têm de ser maquinadas sem reposicionar? A cabeça inclinada passa?
  2. Rigidez: a fixação aguenta as forças de corte sem vibrar nem escorregar?
  3. Repetibilidade: em série, a peça encaixa sempre na mesma posição?
  4. Compatibilidade com o material: face plana e estanque? Peça já envernizada que não pode ser marcada?

Ideias-chave: no mobiliário manda o vácuo (consolas e ventosas, ou mesa plana); F = Δp x A é teórica; peças pequenas e estreitas pedem grampos ou moldes; a fixação decide-se antes de programar.

8. Ferramentas de corte para centros de 5 e 6 eixos

Tipos de ferramenta

Ferramenta Uso típico em 5 eixos
Fresa de topo cilíndrica (reta ou helicoidal) contornos, rebaixos, desbaste, acabamento de paredes; em 5 eixos, acabamento com o flanco em faces inclinadas
Fresa esférica (de ponta em bola) acabamento de superfícies curvas em duas direções
Fresa tórica (de topo com raio na ponta) desbaste e semiacabamento de superfícies, mais robusta que a esférica
Fresa de perfil molduras, boleados, perfis de caixilharia
Fresa cónica (em V) gravação, chanfros, letras
Brocas (de ponta de centragem, de fundo plano, passantes) furação vertical, horizontal ou inclinada
Serra circular (em agregado ou na cabeça) cortes retos, ranhuras, cortes inclinados
Agregados ferramentas angulares ou especiais montadas no cone; alguns são o "eixo extra" de certas máquinas

Hélice das fresas: ascendente, descendente e compressão

Materiais da parte cortante

Material Características Uso
Aço rápido (HSS) tenaz, barato, afia-se bem; desgasta depressa madeira maciça macia, séries curtas
Metal duro (HM) muito mais duro e resistente ao desgaste uso geral em maciço e derivados
Diamante policristalino (PCD) duração muito longa séries grandes em aglomerado e MDF, sobretudo melamínicos

Porta-ferramentas e rotação máxima

Nos centros de trabalho para madeira, o cone mais comum atualmente é o HSK 63F; máquinas mais antigas usam outros cones (por exemplo, ISO 30). As fresas de haste montam-se em pinças (por exemplo, ER ou pinças de aperto hidráulico ou térmico); as brocas da multifuradora têm haste própria.

As ferramentas para madeira trazem gravada a rotação máxima admissível (n max), conforme a norma EN 847-1. Nunca se excede o n max, nem que o programa o peça: uma ferramenta acima do n max pode desintegrar-se e ser projetada.

Velocidade de corte

Em madeira, a velocidade de corte dá-se normalmente em m/s:

vc = π x D x n / 60 000 (vc em m/s, D em mm, n em rpm)

Para ter em m/min: vc = π x D x n / 1000.

Exemplo resolvido · velocidade de corte

Fresa de 12 mm a 18 000 rpm.

  1. π x 12 x 18 000 = 678 584.
  2. 678 584 / 60 000 = 11,3 m/s (ou 678,6 m/min).
  3. Com uma fresa de 20 mm à mesma rotação: π x 20 x 18 000 / 60 000 = 18,8 m/s. Mesma rotação, diâmetro maior, velocidade de corte maior.

Avanço por dente

O avanço por dente (fz) é o que cada aresta de corte avança em cada volta. Controla a espessura da apara:

fz = F / (n x z) (fz em mm, F em mm/min, n em rpm, z = número de arestas)

Os valores de partida vêm do catálogo do fabricante, para cada material e diâmetro; ajustam-se na maquinagem de teste.

Exemplo resolvido · avanço por dente

Avanço F = 10 m/min, n = 18 000 rpm, fresa de 2 arestas.

  1. F = 10 m/min = 10 000 mm/min.
  2. n x z = 18 000 x 2 = 36 000.
  3. fz = 10 000 / 36 000 = 0,28 mm por dente.

Exemplo resolvido · calcular o avanço a programar

O catálogo recomenda fz = 0,20 mm para uma fresa de 3 arestas em MDF; rotação 16 000 rpm.

  1. F = fz x n x z = 0,20 x 16 000 x 3 = 9600 mm/min (9,6 m/min).
  2. Se a máquina, numa zona de 5 eixos com muitas mudanças de orientação, não conseguir manter os 9,6 m/min, o avanço real baixa e fz também: nesse caso baixa-se a rotação para manter a apara, dentro do intervalo do catálogo.

Criar ferramentas no CAD-CAM

No CAM, cada ferramenta é criada como um objeto com geometria de corte (tipo, diâmetro, raio de ponta, comprimento de corte, número de arestas), haste e porta-ferramentas (fundamentais para detetar colisões em 5 eixos), comprimento em balanço real e parâmetros de corte (n, F, fz). O número da ferramenta no CAM tem de coincidir com a posição no armazém e na tabela do comando. Criar estas ferramentas com as medidas reais é uma aptidão desta UC: uma ferramenta desenhada mais curta do que é na realidade esconde colisões na simulação.

Ideias-chave: hélice ascendente, descendente ou de compressão conforme as faces a proteger; HSS, HM, PCD; nunca exceder o n max; vc = π D n / 60 000; fz = F / (n z).

9. Montar, medir e configurar as ferramentas

Montar

  1. Verificar a ferramenta: arestas sem lascas, sem fissuras, n max compatível com a rotação prevista.
  2. Limpar o cone, a pinça e a haste (pó e resina reduzem o aperto e a concentricidade).
  3. Montar a pinça certa para o diâmetro da haste, com a haste bem metida na pinça (segue o comprimento mínimo de aperto do fabricante).
  4. Deixar o menor balanço possível que ainda permita chegar ao ponto mais fundo sem que o porta-ferramentas toque na peça. Em 5 eixos, a inclinação muitas vezes permite usar ferramentas mais curtas.
  5. Apertar com a chave e o binário indicados, no banco de aperto, nunca com a ferramenta já na máquina.
  6. Colocar o porta-ferramentas no armazém, na posição definida.

Medir

O comprimento e o diâmetro reais raramente coincidem exatamente com os nominais. Mede-se com:

Configurar

Os valores medidos introduzem-se na tabela de ferramentas do comando: número da ferramenta, comprimento (para a compensação de comprimento, G43 em ISO), raio (para a compensação de raio, G41/G42), rotação máxima, sentido de rotação e, nalgumas máquinas, a geometria para a deteção de colisões.

Exemplo resolvido · configurar uma fresa esférica nova

Fresa esférica de 10 mm nominais, vai para a posição T5.

  1. Montar na pinça com o balanço necessário.
  2. Medir no pré-ajustador: diâmetro real 9,98 mm (raio 4,99 mm), comprimento 112,40 mm.
  3. Introduzir os valores medidos (e não os nominais) na tabela, na posição T5.
  4. Confirmar no ecrã do comando que T5 mostra 112,40 mm e 4,99 mm, e que o n max registado é o gravado na ferramenta.

Porque é que isto é mais crítico em 5 eixos

Com RTCP, o comando calcula a posição da ponta a partir do pivô da cabeça e do comprimento da ferramenta. Um erro de comprimento ΔL já não é só um erro de profundidade: quando a ferramenta inclina de um ângulo θ, a ponta fica deslocada ΔL ao longo do eixo inclinado, o que dá:

Exemplo resolvido · erro de comprimento com a ferramenta inclinada

Foi introduzido o comprimento de outra ferramenta, 0,5 mm diferente do real. A cabeça trabalha inclinada 30°.

  1. Erro horizontal = 0,5 x sen 30° = 0,5 x 0,5 = 0,25 mm.
  2. Erro vertical = 0,5 x cos 30° = 0,5 x 0,866 = 0,43 mm.
  3. Em 3 eixos, o mesmo erro dava só 0,5 mm de profundidade a mais ou a menos. Em 5 eixos, desloca também o contorno para o lado: os encaixes deixam de bater.

Ideias-chave: balanço mínimo; medir sempre, nunca confiar no nominal; introduzir valores medidos; em 5 eixos, um erro de comprimento vira erro de posição.

10. Cinemática e esforços mecânicos

Cinemáticas mais comuns

A cinemática descreve que eixos move cada parte da máquina e em que ordem:

Não há uma cinemática "melhor" em absoluto: o fabricante equilibra rigidez, curso, peso da cabeça e custo.

Singularidades

Com a cabeça birrotativa, quando a ferramenta fica vertical (basculamento a 0°), a rotação C deixa de mudar a orientação da ferramenta. Perto dessa posição, pequenas mudanças de orientação pedidas pelo CAM podem obrigar o eixo C a rodar muito depressa (até meia volta), enquanto a ponta quase não se mexe. É uma singularidade: o avanço cai, a superfície fica marcada e a cabeça pode rodar para onde não se espera. O CAM e a simulação mostram estas zonas; resolve-se com uma pequena inclinação fixa da ferramenta ou mudando a estratégia.

Esforços mecânicos

Exemplo resolvido · efeito do balanço

Uma fresa trabalha com 30 mm de balanço. Para chegar a um rebaixo fundo, alguém propõe 45 mm.

  1. A flecha é proporcional a L³.
  2. (45 / 30)³ = 1,5³ = 3,375.
  3. A mesma força de corte flete a ferramenta cerca de 3,4 vezes mais. Solução em 5 eixos: inclinar a cabeça para chegar ao rebaixo com a ferramenta curta, ou baixar fz e profundidade de passagem.

Avaliar os esforços na prática

  1. Consultar os limites da máquina (rotação, binário, massa máxima de ferramenta, velocidades dos eixos).
  2. Usar ferramentas curtas e rígidas e o menor número possível de agregados pesados.
  3. Evitar mudanças bruscas de orientação e zonas de singularidade.
  4. Ouvir e observar: ruído anormal, vibração, marcas e queimaduras são sinais de esforço excessivo.

Ideias-chave: no mobiliário domina a cabeça birrotativa; atenção às singularidades perto da vertical; flecha ∝ L³; ferramenta curta, rígida e equilibrada.

11. Programação CNC ISO para maquinagem em 5 eixos

A linguagem ISO

A programação ISO (código G, norma ISO 6983) escreve o programa em blocos (linhas), normalmente numerados (N10, N20…), executados em sequência. Cada bloco tem palavras: uma letra e um número.

Código Significado
G00 movimento rápido (posicionamento, sem cortar)
G01 interpolação linear a avanço programado (corte)
G02 / G03 interpolação circular horária / anti-horária
G17 / G18 / G19 plano de trabalho XY / XZ / YZ
G40 / G41 / G42 compensação do raio anulada / ferramenta à esquerda / à direita do percurso
G43 compensação do comprimento da ferramenta
G54 origem de peça (primeira origem de trabalho)
G90 / G91 coordenadas absolutas / incrementais
M03 / M04 / M05 rotação horária / anti-horária / paragem
M06 troca de ferramenta
M30 fim de programa
F / S / T avanço / rotação / ferramenta

Em madeira não se usa fluido de corte; as funções M de refrigeração existem em muitos comandos, mas a apara sai pela aspiração, que nos centros de mobiliário se liga com a electromandril ou por função própria da máquina.

Compensação do raio e sentido de corte

Com G41 a ferramenta fica à esquerda do percurso (olhando no sentido do movimento); com G42, à direita. Com rotação horária (M03), contornar o exterior de uma peça com G41 (percurso no sentido horário à volta da peça) dá fresagem concordante: normalmente melhor acabamento e menos arranque de fibras. G42 no exterior dá fresagem discordante.

Exemplo resolvido · contorno exterior de um painel

Painel de aglomerado melamínico de 18 mm, contorno final 200 x 100 mm. Origem G54 no canto inferior esquerdo do contorno final, na face de cima do painel. Fresa de compressão de 10 mm, 2 arestas, T3. A peça está sobre ventosas dentro do contorno; nenhuma ventosa nem consola passa por baixo do percurso.

N10 G90 G17 G54           ; absolutas, plano XY, origem da peça
N20 T3 M06                ; fresa de compressão D10 (T3)
N30 S18000 M03            ; 18 000 rpm, rotação horária
N40 G00 X-20 Y-20 Z20     ; aproximação rápida fora da peça
N50 G43 H3 Z5             ; compensação do comprimento de T3, 5 mm acima da peça
N60 G01 Z-18.5 F2000      ; desce fora da peça, 0,5 mm abaixo da face de baixo
N70 G41 D3 G01 X0 Y-10 F8000 ; entrada com compensação à esquerda
N80 Y100                  ; lado esquerdo
N90 X200                  ; lado de trás
N100 Y0                   ; lado direito
N110 X-10                 ; lado da frente, fecha o canto
N120 G40 G01 X-20 Y-20    ; anula a compensação ao sair
N130 G00 Z20              ; sobe em rápido
N140 M05                  ; para a rotação
N150 M30                  ; fim de programa

Verificação passo a passo:

  1. O percurso X0 Y0 → X0 Y100 → X200 Y100 → X200 Y0 → X0 Y0 descreve o rectângulo de 200 x 100 mm, no sentido horário visto de cima.
  2. G41 põe a ferramenta à esquerda: nos quatro lados, a esquerda é o exterior da peça; com M03, é fresagem concordante.
  3. O centro da fresa passa a 5 mm (o raio) por fora da linha, pelo que a peça sai com 200 x 100 mm.
  4. Avanço por dente: fz = 8000 / (18 000 x 2) = 0,22 mm. Velocidade de corte: π x 10 x 18 000 / 60 000 = 9,4 m/s.
  5. A descida (N60) faz-se fora da peça, e o Z-18.5 só é aceitável porque não há ventosas nem consolas debaixo do percurso. Numa mesa plana com tabuleiro sacrificial, os 0,5 mm entram no tabuleiro.

As palavras H3 e D3 (números dos corretores de comprimento e raio) e a sintaxe exata variam com o comando: confirma no manual.

Exemplo resolvido · bloco a 5 eixos com RTCP

Programa ilustrativo para uma passagem com mudança de orientação, numa cabeça com eixos A e C. A ativação do RTCP está escrita de forma genérica, porque muda de comando para comando.

N10 G90 G17 G54           ; absolutas, plano XY, origem da peça
N20 T5 M06                ; fresa esférica D10 (T5)
N30 S18000 M03            ; liga a rotação
N40 (ATIVAR RTCP)         ; função própria do comando
N50 G00 X0 Y0 Z50 A0 C0   ; aproximação, ferramenta vertical
N60 G01 Z5 F3000          ; desce até 5 mm acima da peça
N70 G01 X50 Y30 Z-5 A10 C5 F4000  ; corte com mudança de orientação
N80 G01 X80 Y30 Z-5 A15 C5        ; continua, a inclinação aumenta
N90 G00 Z50               ; afasta
N100 (DESATIVAR RTCP)
N110 G00 A0 C0            ; endireita a cabeça em segurança
N120 M05
N130 M30
  1. N70-N80: interpolação simultânea de X, Y, Z, A e C; com RTCP ativo, X, Y e Z são coordenadas da ponta da ferramenta.
  2. Sem RTCP, os mesmos números seriam coordenadas do pivô da cabeça e a ponta sairia deslocada; o CAM e o pós-processador escrevem o programa de acordo com o modo escolhido.
  3. N110: a cabeça só endireita depois de subir, longe da peça.

Na prática, programas de 5 eixos contínuos têm milhares de blocos gerados por CAM; o que o técnico faz à mão é ler e verificar: origem, ferramenta, rotação, avanço, ativação do RTCP, aproximações e saídas seguras.

Elaborar programas para peças de mobiliário e carpintaria

  1. Confirmar origem e ferramentas medidas.
  2. Definir a sequência: facejar e desbastar antes de acabar; gravar depois de facejar; furar quando a peça ainda está rígida.
  3. Aproximar e sair fora da peça e longe da fixação.
  4. Usar a ferramenta mais curta que chega.
  5. Rever o programa bloco a bloco antes de simular.

12. CAD-CAM em peças sólido

Do sólido ao programa

O fluxo de trabalho para 5 eixos quase nunca escreve o código todo à mão:

  1. CAD (desenho assistido por computador): a peça é modelada como sólido 3D, com todas as faces, encaixes, furos e raios.
  2. CAM (fabrico assistido por computador): sobre o sólido, o programador define o bruto (o material de partida), a fixação, as ferramentas e as operações; o software calcula os caminhos de ferramenta (posições e orientações).
  3. Pós-processador: traduz os caminhos para o código da máquina concreta (a sua cinemática, o seu comando, o seu dialeto).
  4. Simulação e código final (capítulo 14).

O sólido é a fonte de verdade geométrica: se a peça muda, muda-se o sólido e recalculam-se os caminhos. Editar à mão o código gerado, sem atualizar o sólido e o CAM, quebra a rastreabilidade e perde-se na próxima alteração.

Preparar o sólido

Isolar ou separar os componentes de uma peça

Muitas peças de mobiliário são conjuntos (uma cadeira: pernas, travessas, assento, costas). Antes de gerar caminhos:

Exemplo resolvido · isolar os componentes de uma cadeira

Uma cadeira tem 2 pernas da frente, 2 pernas de trás curvas, 4 travessas e costas esculpidas.

  1. Pernas da frente: iguais, retas; componente isolado, 3+2 para os furos das travessas.
  2. Pernas de trás: curvas; componente isolado com molde próprio; 5 eixos contínuos no perfil, 3+2 nos furos.
  3. Travessas: retas; 3 eixos (respigas feitas com fresa ou com serra em agregado).
  4. Costas: componente isolado, molde à forma, 5 eixos contínuos no acabamento.
  5. As posições dos furos das travessas nas pernas e das respigas nas travessas saem da mesma montagem CAD, para garantir o encaixe.

Ferramentas CAM específicas para 5 eixos

Para além da biblioteca de ferramentas (capítulo 8), o CAM de 5 eixos oferece ferramentas próprias:

Escolher bem o controlo do eixo é o que separa um caminho eficiente, que tira partido dos 5 eixos, de um cheio de reorientações inúteis.

13. Operações CAM a 5 eixos

Pré-desbaste

Remove a maior parte do material com uma ferramenta robusta (fresa de topo ou tórica), deixando uma sobreespessura uniforme para o acabamento (por exemplo, 0,5 a 1 mm, conforme a peça). Em muitas peças faz-se em 3+2, por várias orientações: é mais rígido e rápido que o desbaste contínuo.

Corte e acabamento

Passagens finas que seguem a superfície final:

Abertura de cavidades, facejamento, gravação e furação

Operação Função Nota em 5 eixos
Abertura de cavidades rebaixos, caixas, encaixes em faces inclinadas, faz-se em 3+2 com plano inclinado
Facejamento aplanar uma face de referência fazer antes de gravar ou de cotar a partir dessa face
Gravação texto ou motivos, com fresa cónica projeta-se sobre superfícies curvas com a ferramenta normal à superfície
Furação furos de cavilha, de ferragens, de fixação furos inclinados em 3+2, cada um com a sua orientação

Porque se inclina a fresa esférica

No centro da ponta de uma fresa esférica, o raio efetivo é zero e, por isso, a velocidade de corte é nula: a ferramenta esmaga em vez de cortar. Inclinando a ferramenta um ângulo β em relação à normal da superfície, o ponto de contacto afasta-se do centro e o raio efetivo passa a ser R x sen β.

Exemplo resolvido · velocidade de corte efetiva de uma fresa esférica

Fresa esférica de 10 mm (R = 5 mm), 18 000 rpm, inclinada 15° em relação à normal da superfície.

  1. Raio efetivo = 5 x sen 15° = 5 x 0,259 = 1,29 mm; diâmetro efetivo ≈ 2,59 mm.
  2. vc efetiva = π x 2,59 x 18 000 / 60 000 ≈ 2,4 m/s.
  3. Sem inclinação (β = 0°), o contacto dá-se no centro: vc = 0. Com a ferramenta vertical sobre uma face horizontal, a esférica corta mal no fundo; os 5 eixos resolvem isto com uma inclinação moderada.

Exemplo resolvido · altura de crista

Fresa esférica de raio R = 5 mm, sobre uma superfície quase plana. A altura da crista h entre passagens com passo lateral p é aproximadamente:

h = R - √(R² - (p/2)²)

  1. Passo p = 1 mm: h = 5 - √(25 - 0,25) = 5 - 4,975 = 0,025 mm.
  2. Passo p = 2 mm: h = 5 - √(25 - 1) = 5 - 4,899 = 0,10 mm.
  3. Duplicar o passo reduz o tempo de acabamento para metade, mas a crista fica cerca de quatro vezes maior; decide-se pela lixagem que vem a seguir.

14. Simulação, deteção de colisões e código da máquina

Simular a maquinagem no software

Antes de ir para a máquina, o programa é simulado no CAM ou num verificador próprio. Há dois níveis:

O ideal é simular o código já pós-processado (o que vai de facto para a máquina), e não apenas os caminhos dentro do CAM: assim apanham-se também erros do pós-processador.

Detetar colisões

Em 5 eixos o risco é maior, porque a ferramenta e a cabeça mudam de orientação. As colisões mais comuns:

Colisão Exemplo
Ferramenta, haste ou porta-ferramentas com a peça haste a tocar numa parede ao inclinar a fresa num rebaixo
Cabeça com a fixação cabeça inclinada a bater numa ventosa, numa consola, num pressor ou no molde
Cabeça com a mesa ou com a estrutura posições extremas de basculamento perto da mesa
Movimentos rápidos G00 que atravessa a peça ou a fixação entre operações
Fim de curso eixo que pede mais do que o seu limite (a máquina pára a meio)

Também se verifica: cortes em rápido (G00 dentro do material), mergulhos a direito com ferramentas que não cortam ao centro, e zonas de singularidade.

Um aviso de colisão é sempre bloqueante: corrige-se o caminho (inclinação, ordem, ligações), a ferramenta (mais comprida só se não houver alternativa) ou a fixação (mudar uma ventosa ou um grampo de sítio), e volta-se a simular.

Gerar o código de programação da máquina

  1. Escolher o pós-processador certo para a máquina e para o comando.
  2. Gerar o programa, com um nome e uma versão rastreáveis (peça, operação, data, revisão).
  3. Rever o cabeçalho e o fim: origem, ferramentas, rotações, ativação do RTCP, ligação da aspiração, regresso a posição segura.
  4. Simular o código gerado.
  5. Transferir para a máquina pela rede da empresa e confirmar que é a versão certa a carregar.

Exemplo resolvido · ler um relatório de simulação

A simulação de um braço de cadeira assinala: (a) colisão do porta-ferramentas com o molde no fim do acabamento; (b) 0,3 mm de material a mais numa zona côncava; (c) movimento rápido de 12 mm abaixo do plano de segurança entre duas operações.

  1. (a) É bloqueante: aumentar a inclinação lateral nessa zona, afastar o apoio do molde ou, em último caso, usar uma ferramenta com mais balanço e parâmetros mais suaves.
  2. (b) Verificar se a fresa cabe na concavidade (raio da ferramenta menor que o raio côncavo) e se o passo é suficiente.
  3. (c) Corrigir as ligações: subir ao plano de segurança antes de reorientar.
  4. Voltar a pós-processar e a simular até não haver avisos.

15. Molde de fixação, teste em vazio e maquinagem de teste

Montar o molde e fixar o material

Com a simulação limpa, prepara-se a máquina (capítulo 7): molde montado e fixado nas coordenadas do programa, material colocado e encostado às referências, vácuo ou grampos verificados.

Teste em vazio

O teste em vazio corre o programa na máquina real sem cortar, para confirmar que a máquina faz o que a simulação mostrou. Formas habituais (depende do comando):

Durante o teste em vazio, o operador: fica fora da zona de trabalho, com a mão junto da paragem de emergência; observa as aproximações à fixação, as rotações da cabeça e os pontos onde a cabeça passa mais perto da mesa; confirma que a ferramenta chamada é a certa.

Maquinagem de teste

  1. Repor a origem real; confirmar ferramentas e origem.
  2. Maquinar a primeira peça (ou um provete do mesmo material) com o avanço reduzido nas primeiras operações e aumentando só quando tudo está normal.
  3. Observar som, apara, vibração e acabamento; parar ao menor sinal anormal.
  4. Medir a peça com os instrumentos adequados (fita métrica e régua para dimensões gerais, paquímetro para espessuras e furos, esquadro, transferidor ou goniómetro para ângulos, gabaritos de forma para curvas) e comparar com o desenho e as tolerâncias.
  5. Registar os resultados; corrigir o que for preciso (corretores de ferramenta, origem, parâmetros ou programa) e repetir até à conformidade.
  6. Só então libertar para produção.

Exemplo resolvido · corrigir depois da peça de teste

O desenho pede uma respiga de 10,0 mm (tolerância ±0,1 mm). A peça de teste mede 10,3 mm na respiga, fresada pelos dois lados com compensação de raio.

  1. Desvio = 10,3 - 10,0 = +0,3 mm no total, ou seja 0,15 mm a mais em cada lado.
  2. A fresa está a cortar menos do que devia: o raio na tabela está 0,15 mm maior do que o real (por exemplo, fresa gasta ou medida errada).
  3. Correção: medir de novo a ferramenta; se o raio real for 0,15 mm menor, atualizar a tabela.
  4. Maquinar nova peça de teste e medir; só com a respiga entre 9,9 e 10,1 mm se liberta a produção.

16. Segurança e saúde no trabalho e EPI

Cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho é um critério de desempenho explícito desta UC, tão importante como programar.

Proteções da máquina

Os centros de 5 eixos trabalham com ferramentas a milhares de rotações e cabeças que se movem depressa em qualquer direção. Por isso têm dispositivos que impedem o acesso à zona perigosa com a máquina em ciclo: resguardos e portas com encravamento, tapetes sensíveis (tapetes de segurança) na zona de carga, barreiras ou cortinas de luz, para-choques sensíveis no carro ou no pórtico, e botões de paragem de emergência em vários pontos.

Regras que não se discutem:

Equipamentos de proteção individual

Exemplo resolvido · avaliar uma situação

Durante um ciclo, uma apara fica presa junto a uma ventosa. Um colega quer passar o tapete de segurança "só um segundo" para a tirar com a mão.

  1. É proibido: o tapete existe precisamente para parar a máquina quando alguém entra.
  2. Procedimento correto: parar o ciclo (paragem normal ou, se houver perigo, de emergência), esperar que a ferramenta pare de rodar, retirar a apara com a máquina parada e com um utensílio, e retomar segundo o manual.
  3. Se a apara prende sempre no mesmo sítio, rever a aspiração e o programa (por exemplo, a hélice da fresa).

17. Normas da qualidade

A qualidade garante que a peça cumpre o desenho e que o processo é repetível e rastreável. Muitas empresas trabalham com um sistema de gestão da qualidade segundo a NP EN ISO 9001.

Exemplo resolvido · registo de não conformidade

Numa série de 40 pernas de cadeira, a peça 23 tem o furo de cavilha 1,5 mm fora de posição.

  1. Separar e identificar a peça não conforme.
  2. Verificar as peças seguintes e as anteriores até à última medição conforme.
  3. Procurar a causa (peça mal encostada ao batente, vácuo baixo, apara no molde).
  4. Registar: peça, defeito, causa, ação (limpeza do molde antes de cada peça) e responsável.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Programar e operar um centro de trabalho CNC de 5 e 6 eixos segue sempre a mesma lógica:

  1. Conhecer a máquina: eixos lineares (X, Y, Z, em mm) e angulares (A, B, C, em graus), segundo a ISO 841; a cinemática (no mobiliário, sobretudo cabeça birrotativa); o que o fabricante chama 6.º eixo.
  2. Decidir a estratégia: 3 eixos, 3+2 ou 5 contínuos, conforme a peça e o lote.
  3. Preparar: mesa e fixação (vácuo, consolas, moldes, grampos), ferramentas escolhidas no catálogo, montadas com balanço mínimo, medidas e configuradas; parâmetros com vc = π D n / 60 000 e fz = F / (n z), sem exceder o n max.
  4. Programar: ISO para perceber e verificar; CAD-CAM a partir do sólido, com componentes isolados, ferramentas criadas com as medidas reais e controlo do eixo da ferramenta adequado; RTCP ativo em 5 contínuos.
  5. Validar: simular com o modelo da máquina e da fixação, eliminar colisões, gerar e simular o código, montar o molde, testar em vazio, maquinar a peça de teste e medir.
  6. Segurança e qualidade em todas as etapas: nunca entrar na zona de trabalho em ciclo, captação de pó e EPI, registos e medição.

Exercícios resolvidos

1. Uma peça tem uma face curva contínua que muda de ângulo ao longo do percurso. Escolhes 3 eixos, 3+2 ou 5 eixos simultâneos? Porquê?

Resolução: 5 eixos simultâneos. A direção da ferramenta tem de mudar durante o corte; o 3+2 só trava a ferramenta em orientações fixas e deixaria facetas.

2. Um bloco move a ferramenta de X0 Y0 Z50 A0 C0 até X60 Y40 Z8 A15 C0. Quantos eixos interpolam em simultâneo?

Resolução: 4 eixos: X, Y e Z (lineares) e A (de 0° a 15°). C não muda de valor, por isso não interpola.

3. Calcula a velocidade de corte de uma fresa de 16 mm a 18 000 rpm, em m/s.

Resolução: vc = π x 16 x 18 000 / 60 000 = 904 779 / 60 000 ≈ 15,1 m/s.

4. Com n = 18 000 rpm e uma fresa de 3 arestas, que avanço dá fz = 0,15 mm?

Resolução: F = fz x n x z = 0,15 x 18 000 x 3 = 8100 mm/min (8,1 m/min).

5. Uma ventosa de 150 x 60 mm trabalha a 0,7 bar de depressão. Qual a força teórica?

Resolução: Δp = 0,07 N/mm²; A = 150 x 60 = 9000 mm²; F = 0,07 x 9000 = 630 N. A força real é menor (fugas) e a resistência ao escorregamento lateral é bastante inferior.

6. O comprimento de uma ferramenta está 0,4 mm errado e a cabeça trabalha a 45°. Que erro de posição resulta?

Resolução: horizontal 0,4 x sen 45° = 0,4 x 0,707 ≈ 0,28 mm; vertical 0,4 x cos 45° ≈ 0,28 mm.

7. Depois de trocar uma ferramenta, o técnico corre logo o programa de produção. Que passo saltou?

Resolução: A medição e configuração da ferramenta (comprimento e raio reais na tabela). O comando usa valores errados: profundidade errada e, em 5 eixos com RTCP, também posição errada; risco de colisão.

8. Uma travessa de 35 mm de largura não cobre as ventosas da máquina. Que soluções tens?

Resolução: ventosas estreitas próprias, grampos pneumáticos ou um molde com batentes e pontos de vácuo à medida. O vácuo só se forma se a peça cobrir toda a área útil da ventosa.

9. Um colega quer gravar um motivo antes de facejar a face. O que lhe respondes?

Resolução: Que a ordem está errada: facejar primeiro, para ter a face de referência, e gravar depois; de outro modo a profundidade da gravação fica irregular.

10. Antes da série, que passos vêm depois da simulação?

Resolução: gerar e simular o código pós-processado, montar o molde e fixar o material, teste em vazio e maquinagem de teste com medição contra o desenho; só então a série.