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UC · Unidade de Competência · UC02083

Sebenta · Executar fresagem e multifuração com CNC para mobiliário e carpintaria (UC02083)

Do desenho técnico ao programa CNC, ferramentas de corte, fixação, fresagem e multifuração pelo Sistema 32
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. CNC em Madeira e Mobili ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a programar e operar fresadoras e multifuradoras com CNC na produção de componentes para mobiliário e carpintaria, do desenho técnico até à peça pronta e verificada. É uma UC de execução: o técnico lê o desenho, escolhe e prepara as ferramentas, define as dimensões em bruto, programa a máquina (em linguagem ISO, no software próprio da máquina ou por CAD-CAM), simula, fixa a peça, corre o ciclo e confirma o resultado.

O percurso segue sempre a mesma lógica industrial: interpretar o desenho técnico, caracterizar o material, escolher, montar e medir as ferramentas de corte, programar, simular e testar, fixar a peça e só então executar a fresagem e a multifuração. No fim, verifica-se sempre a peça contra o desenho.

Objetivos de aprendizagem (referencial): programar fresadoras e multifuradoras com CNC para maquinagem de componentes para carpintaria e mobiliário; executar operações de fresagem; executar operações de multifuração CNC; verificar o funcionamento dos programas; operar as máquinas de acordo com as especificidades do fabrico; e aplicar as normas de segurança e saúde no trabalho.

Esta UC junta três competências: programar (linguagem ISO, software da máquina, CAD-CAM), maquinar (fresagem e multifuração) e verificar (medição, segurança, qualidade). As três aparecem juntas nos critérios de desempenho, nas fichas e no projeto.

Como estudar com esta sebenta

1. Desenho técnico: fundamentos, normalização e leitura para CNC

Nenhum programa CNC nasce do nada. Nasce de um desenho técnico da peça, feito segundo normas que garantem que quem desenha e quem maquina leem a mesma coisa. Interpretar os desenhos técnicos das peças é a primeira aptidão do referencial.

Normas gerais que deves reconhecer

Assunto O que define Norma de referência
Formatos de folha série A (A4 = 210×297 mm, A3 = 297×420 mm, ...) ISO 5457
Legenda quadro com título, número do desenho, escala, material, autor, data ISO 7200
Escalas redução (1:2, 1:5, 1:10), tamanho real (1:1), ampliação (2:1) ISO 5455
Tipos de linha contínua grossa (arestas visíveis), tracejada (arestas ocultas), traço-ponto fina (eixos) ISO 128
Cotagem linhas de cota e de chamada, valores em mm sem unidade escrita ISO 129-1
Projeções em Portugal e na Europa usa-se o método europeu (1.º diedro) ISO 5456-2

No método europeu, a vista de cima fica por baixo da vista de frente e a vista da esquerda fica à direita da vista de frente. Trocar o método leva a furar a face errada da peça.

Cotagem pensada para CNC

Tolerâncias

A cota nominal nunca é exata na peça real. A tolerância diz quanto a cota pode variar sem a peça ser rejeitada (por exemplo, 37 ±0,2 mm aceita valores entre 36,8 e 37,2 mm). Quando uma cota não traz tolerância própria, aplica-se a tolerância geral indicada na legenda ou nas instruções de trabalho da empresa. Nunca se assume uma tolerância "a olho".

Símbolos e indicações frequentes em mobiliário

Exemplo resolvido · ler o desenho de uma porta de armário. O desenho indica: porta em MDF de 18 mm, 700×450 mm, tolerância geral ±0,5 mm; rebaixo periférico no tardoz com 10 mm de largura e 8 mm de profundidade; duas copas de dobradiça Ø35 × 13 mm, com centro a 22,5 mm do bordo vertical e a 100 mm dos topos.

  1. Dimensões finais: 700×450×18 mm.
  2. Operações de fresagem: contorno exterior e rebaixo (10 mm de largura, 8 mm de fundo; sobram 18 menos 8 = 10 mm de material no fundo do rebaixo).
  3. Operações de furação: 2 furos cegos Ø35 com 13 mm de profundidade (sobram 5 mm de material, a peça não é atravessada).
  4. Posições dos furos, a partir da origem no canto inferior esquerdo: X = 22,5 mm; Y = 100 mm e Y = 700 menos 100 = 600 mm.
  5. Distância de furação (do bordo da porta até à aresta da copa): 22,5 menos 35/2 = 22,5 menos 17,5 = 5 mm, valor dentro do intervalo que os fabricantes de dobradiças costumam indicar. Confirma sempre no catálogo da dobradiça.

2. Materiais a maquinar: características e comportamento ao corte

Caracterizar os materiais a maquinar é uma aptidão explícita do referencial: cada material comporta-se de forma diferente à passagem da ferramenta, e isso dita a ferramenta, a rotação, o avanço e a fixação.

Madeira maciça

Exemplo resolvido · teor de água. Uma amostra de pinho pesa 540 g; depois de seca em estufa até massa constante pesa 480 g.

Teor de água = (540 menos 480) ÷ 480 × 100 = 60 ÷ 480 × 100 = 12,5 %.

Está ligeiramente acima do intervalo usual para mobiliário de interior: convém deixar a madeira estabilizar antes de maquinar peças de precisão.

Derivados de madeira

Material Constituição Comportamento ao corte
Aglomerado partículas de madeira coladas com resina e prensadas abrasivo, gasta a aresta depressa; o miolo é menos denso e o furo "esfarela" se a broca estiver romba
MDF fibras de madeira coladas e prensadas, densidade uniforme corte e acabamento muito regulares; bom para fresar perfis e rebaixos; produz pó muito fino
Contraplacado folhas de madeira coladas com o fio cruzado, em número ímpar estável; pode lascar a folha exterior à saída da ferramenta
OSB partículas longas orientadas, em camadas acabamento mais grosseiro, arestas irregulares
Painel melamínico aglomerado ou MDF revestido com papel impregnado de resina melamínica, prensado a quente o revestimento é duro e quebradiço: estala nas arestas se a ferramenta não for adequada
Laminado de alta pressão (HPL) camadas de papel e resina prensadas a alta pressão, coladas sobre o painel muito abrasivo e duro; pede ferramentas de metal duro ou diamante

O que o material decide na maquinagem

Usar os mesmos parâmetros de corte para MDF, aglomerado melamínico e madeira maciça é um erro frequente. Cada material tem os seus valores no catálogo da ferramenta.

3. Fresadoras e multifuradoras CNC: características técnicas

Identificar as características técnicas das fresadoras e/ou multifuradoras com CNC é condição para escolher a máquina certa para cada peça e para a operar em segurança.

Tipos de máquina no mobiliário e na carpintaria

Máquina Como trabalha Uso típico
Fresadora CNC de mesa plana (nesting) o painel inteiro é fixado por vácuo sobre uma placa de sacrifício; a fresa recorta as peças e faz furos e rebaixos painéis de móveis por medida, recorte de peças de formas variadas
Centro de trabalho com mesa de barras e ventosas a peça, já cortada à medida, assenta em ventosas montadas em barras móveis fresagem de contornos, rebaixos, furação e orlagem de peças individuais
Multifuradora (furadora) CNC grupos de brocas verticais e horizontais furam várias posições de uma vez; muitas trabalham em passagem, com a peça a avançar furação de laterais, fundos e prateleiras em série
Centro de trabalho multifunções junta eletrofuso de fresagem, cabeça de furação, serra e agregados peças com fresagem e furação na mesma fixação

Elementos principais e o que olhar na ficha técnica

Eixos e referenciais da máquina

Os eixos seguem o sistema cartesiano de mão direita (ISO 841):

Há dois pontos de referência que não se confundem:

Exemplo resolvido · a peça cabe na máquina? Um centro de trabalho tem cursos úteis de 3100 mm em X, 1300 mm em Y e 150 mm em Z. Pede-se para maquinar uma lateral de roupeiro de 2400×580×18 mm.

X: 2400 ≤ 3100, cabe. Y: 580 ≤ 1300, cabe. Z: a espessura (18 mm) e o comprimento das ferramentas cabem no curso. A peça pode ser maquinada numa só fixação. Para uma lateral de 3300 mm já seria preciso reposicionar a peça ou mudar de máquina.

4. Brocas, fresas e porta-lâminas

Selecionar as brocas, fresas e porta-lâminas necessários à maquinagem é uma aptidão central desta UC. A ferramenta certa decide o acabamento, a precisão e a vida útil do corte.

Materiais do cortante

Material Características Onde se usa
Aço rápido (HSS) afia-se bem, gume muito vivo, gasta-se depressa madeira maciça macia, séries curtas
Metal duro (HM) muito mais resistente ao desgaste aglomerado, MDF, melamínicos; o mais comum em CNC
Diamante policristalino (PCD) duração muito grande em materiais abrasivos, ferramenta cara produção em série de aglomerado e MDF melamínicos, HPL

Fresas

Tipo Descrição Uso típico
Helicoidal de corte ascendente a hélice sobe a apara boa evacuação da apara em ranhuras e furos fresados; pode lascar a face de cima
Helicoidal de corte descendente a hélice empurra a apara para baixo bom acabamento na face de cima; pode lascar a face de baixo; pior evacuação
De compressão parte de baixo ascendente, parte de cima descendente recorte de painéis melamínicos de duas faces, sem lascar nenhuma
De gumes direitos (pastilhas soldadas ou intercambiáveis) gumes paralelos ao eixo contornos e rebaixos em madeira e derivados
De perfil forma do gume dá o perfil molduras, arestas arredondadas, perfis de portas
Disco de serra (em agregado ou eletrofuso próprio) corte reto cortes retos e ranhuras finas

Em fresagem com fresas de topo, os cantos interiores ficam sempre com o raio da fresa: uma caixa fresada com uma fresa Ø10 tem cantos com raio 5 mm. Se o desenho pedir cantos vivos, é preciso outra operação ou outra ferragem.

Brocas

Nas cabeças de multifuração, os mandris vizinhos rodam em sentidos opostos. Por isso existem brocas de rotação à direita e brocas de rotação à esquerda, normalmente distinguidas por cores ou marcas diferentes no encabadouro. Montar uma broca no mandril do sentido errado faz com que ela não corte: aquece, queima o furo e estraga-se. O encabadouro destas brocas é normalizado (em regra Ø10 mm, com uma zona plana para o parafuso de aperto).

Porta-lâminas

O porta-lâminas (cabeça porta-lâminas) é um corpo de aço ou alumínio onde se montam lâminas substituíveis, muitas vezes reversíveis (duas arestas de corte), de metal duro. Quando a lâmina perde o fio, troca-se ou vira-se a lâmina, não a ferramenta toda, e o diâmetro mantém-se, o que evita reajustar o programa. Usa-se em fresas de maior diâmetro, cabeças de aplainar e fresas de perfil com lâminas de perfil intercambiáveis.

Rotação máxima: nunca se excede

As ferramentas para máquinas de madeira trazem gravada a rotação máxima admissível (n max), exigida pela norma EN 847-1. Nunca se programa uma rotação acima desse valor, mesmo que o eletrofuso a permita: a ferramenta pode desintegrar-se.

Exemplo resolvido · escolher ferramentas para uma lateral melamínica. Peça: lateral em aglomerado melamínico branco de duas faces, 18 mm, recortada em nesting, com furos de sistema Ø5, furos de cavilha Ø8 e um furo passante Ø10 para um passa-cabos.

5. Ferramentas de corte: montagem, medição e configuração

Montar, medir e configurar as ferramentas de corte nas máquinas é uma aptidão explícita do referencial, com efeito direto na segurança e na qualidade.

Montagem no porta-ferramenta

  1. Com a máquina parada e bloqueada, limpar o cone do porta-ferramenta, a pinça e o encabadouro: uma apara presa provoca batimento.
  2. Escolher a pinça (em muitas máquinas, pinças do tipo ER) com o diâmetro exato do encabadouro da ferramenta.
  3. Introduzir a ferramenta até ao comprimento de saída indicado nas instruções de trabalho: o mínimo necessário para a profundidade de corte. Saída a mais aumenta a vibração e o risco de rotura.
  4. Apertar com o binário indicado pelo fabricante, com chave dinamométrica sempre que exista. Folgado, a ferramenta escorrega e vibra; em excesso, danifica a pinça.
  5. Colocar o porta-ferramenta no lugar certo do armazém, com o número que o programa vai chamar (T1, T2, ...).
  6. Nas cabeças de multifuração, montar cada broca no mandril certo (sentido de rotação e diâmetro), apertar o parafuso sobre a zona plana e confirmar o comprimento.

Para manusear ferramentas afiadas com a máquina parada usam-se luvas de proteção contra cortes; nunca se usam luvas junto de ferramentas em rotação.

Medição

Configuração: a tabela de ferramentas

Cada ferramenta tem uma linha na tabela de ferramentas do comando ou do software:

Campo Exemplo Para que serve
Número T3 a chamada no programa
Tipo fresa de compressão escolha em CAM e simulação
Diâmetro 12 mm compensação de raio (G41/G42)
Comprimento 118,40 mm compensação de comprimento (G43), profundidade correta
Número de dentes (z) 2 cálculo do avanço por dente
Rotação máxima gravada na ferramenta limite que o programa nunca ultrapassa
Sentido de rotação direita brocas de multifuração

Trocar de ferramenta e não atualizar o corretor de comprimento é um erro grave: a máquina corta fundo a mais (pode furar a peça ou a mesa) ou a menos (a peça sai fora de cota). O mesmo acontece com uma fresa afiada, que fica mais curta e com diâmetro menor.

Parâmetros de corte: velocidade de corte e avanço por dente

Em madeira, a velocidade de corte (vc) dá-se normalmente em metros por segundo:

vc = π × D × n ÷ 60 000 (D em mm, n em rpm, vc em m/s)

Para ter vc em m/min, divide-se π × D × n por 1000 em vez de 60 000.

O avanço por dente (fz) é a espessura de madeira que cada gume corta em cada volta:

fz = F ÷ (n × z) (F avanço em mm/min, n em rpm, z número de gumes, fz em mm)

Exemplo resolvido 1 · velocidade de corte. Fresa Ø12 mm a 18 000 rpm.

vc = π × 12 × 18 000 ÷ 60 000 = 678 584 ÷ 60 000 ≈ 11,3 m/s (cerca de 679 m/min).

Exemplo resolvido 2 · avanço por dente. A mesma fresa, com z = 2, a F = 10 m/min.

F = 10 m/min = 10 000 mm/min. fz = 10 000 ÷ (18 000 × 2) = 10 000 ÷ 36 000 ≈ 0,28 mm por dente.

Exemplo resolvido 3 · calcular o avanço a partir do fz desejado. O catálogo recomenda fz = 0,20 mm para uma fresa Ø20, z = 3, a 18 000 rpm.

F = fz × n × z = 0,20 × 18 000 × 3 = 10 800 mm/min = 10,8 m/min. E vc = π × 20 × 18 000 ÷ 60 000 ≈ 18,8 m/s.

Exemplo resolvido 4 · o que acontece se se baixar o avanço. Com a fresa do exemplo 2, alguém reduz o avanço para 3 m/min "para ficar melhor". fz = 3000 ÷ 36 000 ≈ 0,08 mm: o avanço por dente caiu para menos de um terço, o gume esfrega e a aresta do MDF queima. Baixar o avanço sem mexer na rotação nem sempre melhora o acabamento.

6. Dimensões em bruto e preparação da peça

Definir as dimensões em bruto dos componentes a maquinar é outra aptidão do referencial. Se a peça vai ser fresada no contorno, a peça em bruto tem de ser maior do que a peça final; se chega já cortada à medida (por exemplo, da seccionadora) e só vai ser furada, a medida de corte é a medida final.

A diferença entre a peça em bruto e a peça final chama-se sobremedida: é a margem que a ferramenta retira para deixar as arestas direitas, limpas e à cota. Depende:

Casos típicos

Exemplo resolvido 1 · sobremedida por lado. Peça final 600×400 mm, fresada no contorno, sobremedida de 5 mm por lado.

Comprimento em bruto = 600 + 5 + 5 = 610 mm; largura em bruto = 400 + 5 + 5 = 410 mm. A peça sai da seccionadora com 610×410 mm.

Exemplo resolvido 2 · peça maciça. Travessa final 800×60×20 mm em carvalho. A empresa usa 20 mm no comprimento, 5 mm na largura e 3 mm na espessura (valores totais).

Bruto = (800 + 20) × (60 + 5) × (20 + 3) = 820×65×23 mm, com o comprimento ao longo do fio.

Exemplo resolvido 3 · desconto da orla. Porta final 700×450 mm, orla de 2 mm nos quatro bordos, aplicada depois do corte e sem retificação.

Corte = (700 menos 2 × 2) × (450 menos 2 × 2) = 696×446 mm.

Exemplo resolvido 4 · quantas peças cabem em nesting? Painel de 2440×1220 mm (confirma a medida do teu fornecedor); peças de 600×400 mm; fresa Ø12 (12 mm entre peças); margem de 10 mm a toda a volta.

Área útil: 2440 menos 20 = 2420 mm; 1220 menos 20 = 1200 mm. Para n peças numa fila: n × comprimento + (n menos 1) × 12 ≤ medida útil.

A orientação A dá mais peças: 6 por painel. Em painéis com veio ou decorativo, a orientação pode ser imposta pelo desenho, e aí manda o desenho.

Preparar a peça antes de maquinar

Dimensões em bruto mal definidas desperdiçam material, num extremo, ou deixam a peça abaixo da medida final, no outro.

7. Sistemas de fixação de peças

Utilizar diferentes sistemas de fixação de peças em fresadoras e/ou multifuradoras com CNC é uma aptidão do referencial e uma condição de segurança: uma peça que se desloca durante o corte estraga-se e pode ser projetada.

Sistema Funcionamento Quando usar Cuidados
Mesa plana de vácuo com placa de sacrifício o vácuo atravessa uma placa porosa (em geral MDF) e segura o painel inteiro nesting de painéis a fresa atravessa a peça e entra ligeiramente na placa; a placa gasta-se e tem de ser facejada ou trocada
Ventosas em barras cada ventosa segura a peça pela face de baixo peças já cortadas à medida, centros de trabalho a ventosa tem de ficar fora dos percursos da ferramenta e dos furos passantes
Grampos pneumáticos ou mecânicos apertam a peça pelos bordos ou por cima peças estreitas, maciças, empenadas ou com pouca área o grampo tem de estar fora dos percursos; confirmar na simulação
Batentes (fixos ou pneumáticos escamoteáveis) posicionam a peça sempre no mesmo sítio toda a produção em série, origem da peça os batentes escamoteáveis baixam antes de a ferramenta passar
Gabaritos e berços suportes à medida da forma da peça peças curvas ou de forma irregular fabricados e verificados para cada referência

Quanto segura uma ventosa?

A força de fixação teórica é a depressão vezes a área útil da ventosa:

F = Δp × A (Δp em pascal, A em m², F em newton)

Exemplo resolvido 1. Depressão de 0,8 bar (0,8 bar = 80 kPa = 80 000 Pa); ventosa com área útil de 120×120 mm.

A = 0,120 × 0,120 = 0,0144 m². F = 80 000 × 0,0144 = 1152 N teóricos (cerca de 1150 N).

Exemplo resolvido 2 · peça pequena. A mesma depressão numa peça que só permite uma ventosa de 60×60 mm: A = 0,06 × 0,06 = 0,0036 m²; F = 80 000 × 0,0036 = 288 N, quatro vezes menos, porque a área é quatro vezes menor.

Estes valores são teóricos: fugas, faces rugosas ou porosas e juntas gastas reduzem-nos. E o que impede a peça de escorregar para o lado sob o esforço da fresa é o atrito, uma fração da força de aperto. Por isso as peças pequenas são as mais difíceis de fixar e as que mais vezes saltam.

Boas práticas

Correr um programa sem confirmar visualmente a fixação da peça é um dos erros mais graves nesta UC: uma peça mal presa pode ser projetada durante o ciclo automático.

8. Do ficheiro CAD ao pré-código CNC

O desenho da peça, feito em CAD (desenho assistido por computador), é a base digital da programação. Obter pré-código a partir de ficheiro CAD (dxf) é um conhecimento explícito do referencial.

O formato DXF

O DXF é um formato de troca de desenhos entre programas de CAD e de CAM. Contém entidades geométricas (linhas, arcos, círculos, polilinhas) organizadas em layers (camadas). Não contém, por si, informação de máquina (ferramenta, rotação, avanço); essa informação acrescenta-se no software de programação.

Preparar um DXF que se possa programar

Obter o pré-código

  1. Importar o DXF para o software de programação da máquina ou para o CAM.
  2. Confirmar escala, unidades e origem (medir uma cota conhecida).
  3. Corrigir a geometria: fechar contornos, apagar duplicados.
  4. O software gera um pré-código: a estrutura do programa com as trajetórias e os furos já posicionados.
  5. Completa-se com ferramentas, profundidades, rotação, avanço, entradas e saídas, e simula-se.

Exemplo resolvido · um DXF que "sai grande". Um técnico importa o DXF de uma prateleira de 800×300 mm e o software mostra 31,5×11,8. Dividindo: 800 ÷ 31,5 ≈ 25,4 e 300 ÷ 11,8 ≈ 25,4. O desenho foi feito em polegadas (1 polegada = 25,4 mm). Solução: importar indicando polegadas, ou pedir o DXF em mm. Uma verificação de uma só cota evitou um programa inteiro errado.

Um DXF limpo, com layers bem separados, poupa horas de correção. Verificar a geometria antes de gerar trajetórias evita erros que só apareceriam na simulação ou, pior, na peça.

9. Programação CNC em linguagem ISO e nos sistemas próprios das máquinas

Elaborar programas em linguagem CNC ISO ou código específico do sistema de programação da máquina é uma das aptidões centrais desta UC.

Estrutura de um programa ISO

A linguagem ISO (ISO 6983) organiza o programa em blocos (linhas), cada um com palavras: uma letra e um número.

Código Função
G00 deslocação rápida, sem cortar
G01 interpolação linear, a cortar, com o avanço F
G02 interpolação circular no sentido horário
G03 interpolação circular no sentido anti-horário
G17 / G18 / G19 plano de trabalho XY / XZ / YZ
G21 unidades em milímetros (em alguns comandos, G71)
G40 anula a compensação do raio
G41 / G42 compensação do raio com a ferramenta à esquerda / à direita do percurso
G43 compensação do comprimento da ferramenta
G54 origem da peça
G90 / G91 coordenadas absolutas / incrementais
M03 / M04 / M05 rotação horária / anti-horária / paragem da rotação
M06 troca de ferramenta
M30 fim de programa

O sentido horário e anti-horário de G02/G03 vê-se do lado positivo do eixo perpendicular ao plano (em G17, olhando de cima, de Z positivo para baixo). Os códigos exatos variam de comando para comando: confirma sempre no manual de programação da máquina.

Absoluto e incremental

Contorno de um retângulo 100×60 a partir de X0 Y0:

Lado Em G90 Em G91
1 X100 X100
2 Y60 Y60
3 X0 X-100
4 Y0 Y-60

Exemplo resolvido 1: ranhura retangular em duas passagens

Pede-se uma ranhura de 8 mm de largura, cujo eixo é um retângulo de 100×60 mm, com 10 mm de profundidade, numa peça de MDF de 18 mm. Fresa helicoidal Ø8, z = 2, T1. Origem G54 no canto de partida do retângulo, Z0 na face de cima. Duas passagens de 5 mm.

%
O1001 (RANHURA 100X60 PROF 10)
N10 G17 G21 G40 G90
N20 G54
N30 T1 M06
N40 S18000 M03
N50 G00 X0 Y0
N60 G43 H1 Z20
N70 G00 Z5
N80 G01 Z-5 F1500
N90 G01 X100 F6000
N100 Y60
N110 X0
N120 Y0
N130 G01 Z-10 F1500
N140 X100 F6000
N150 Y60
N160 X0
N170 Y0
N180 G00 Z20
N190 M05
N200 M30
%

Verificação das contas:

Exemplo resolvido 2: contorno exterior com compensação do raio

Recortar uma peça de 300×200 mm num painel de 18 mm, com fresa de compressão Ø12 (T2), atravessando a peça (Z-18.3, entrando 0,3 mm na placa de sacrifício). Com G41, programa-se a geometria da peça e o comando desvia a ferramenta 6 mm (o raio) para fora.

N10 G17 G21 G40 G90 G54
N20 T2 M06
N30 S18000 M03
N40 G00 X0 Y-20
N50 G43 H2 Z20
N60 G00 Z5
N70 G01 Z-18.3 F2000
N80 G41 D2 G01 X0 Y0 F8000
N90 Y200
N100 X300
N110 Y0
N120 X0
N130 G40 G01 X-20 Y0
N140 G00 Z20
N150 M05
N160 M30

Verificação: o percurso sobe pelo lado esquerdo (X0), segue pelo topo (Y200), desce pelo lado direito (X300) e volta pela base (Y0). É o sentido horário à volta da peça: a peça fica sempre à direita do percurso e a ferramenta à esquerda (G41), portanto do lado de fora. Com rotação horária (M03) e G41 num contorno exterior, a fresagem é concordante. A descida (N70) é feita em X0 Y-20, fora da peça, e a compensação ativa-se numa linha de entrada (N80), como os comandos exigem.

Exemplo resolvido 3: um canto arredondado com G02

Canto superior direito da mesma peça com raio 20 mm: vindo pelo topo, a ferramenta chega a X280 Y200 e tem de acabar em X300 Y180; o centro do arco é X280 Y180.

N100 X280
N101 G02 X300 Y180 I0 J-20
N102 G01 Y0

I = 280 menos 280 = 0; J = 180 menos 200 = -20 (distância do ponto de partida ao centro). O arco vai de cima para a direita à volta do centro: sentido horário, G02.

Os sistemas próprios das máquinas

Muitos centros de trabalho para mobiliário (Biesse, SCM, Homag e outros) programam-se sobretudo no software próprio do fabricante, em ambiente gráfico: o técnico define a peça (comprimento, largura, espessura), escolhe operações de uma biblioteca (furar, fresar, serrar) e a máquina gera o código internamente. Estes sistemas permitem programação paramétrica: as cotas escrevem-se em função das medidas da peça (por exemplo, "comprimento menos 37"), e o mesmo programa serve para laterais de alturas diferentes. A lógica de fundo é a do ISO (origem, eixos, ferramentas, profundidades), mas os nomes das funções e os menus são os de cada software: aprendem-se no manual da máquina.

Confundir G00 (rápido, sem corte) com G01 (a cortar) é um erro grave: a ferramenta entra no material à velocidade máxima da máquina. Outro erro frequente é esquecer G43 (ou o corretor de comprimento) depois de uma troca de ferramenta.

10. Programação CNC com CAD-CAM

Programar à mão em ISO é lento e arriscado em peças com dezenas de contornos e furos. Elaborar programas CNC para fresadoras e multifuradoras com CAD-CAM automatiza essa tarefa.

Desenho CAD → operações e ferramentas (CAM) → trajetórias → simulação → pós-processador → programa da máquina

Passo a passo

  1. Geometria: importar o DXF ou desenhar diretamente no CAD-CAM.
  2. Material bruto: indicar as dimensões e a espessura do bruto e a origem.
  3. Biblioteca de ferramentas: as mesmas ferramentas (diâmetro, comprimento, z, n max) que estão na máquina.
  4. Operações: a cada contorno ou furo associa-se uma operação: contorno, caixa (esvaziamento), ranhura, furação, gravação.
  5. Parâmetros: profundidade total e de cada passagem, lado de corte (dentro, fora, sobre a linha), sentido (concordante ou discordante), entrada e saída (em rampa, em arco), rotação e avanço.
  6. Trajetórias: o CAM calcula-as e mostra-as.
  7. Simulação no próprio CAM.
  8. Pós-processador: traduz as trajetórias para o código que a máquina de destino entende.

Parâmetros de maquinagem no CAM

Exemplo resolvido · passagens de um rebaixo. Rebaixo de 8 mm de fundo numa porta de MDF; o catálogo aconselha, para aquela fresa, passagens até 5 mm.

8 ÷ 5 = 1,6, logo são precisas 2 passagens. Em vez de 5 + 3, o CAM pode repartir por igual: 2 × 4 mm, com um esforço igual nas duas. Se se quiser uma passagem de acabamento de 0,5 mm na parede, programa-se o desbaste com 0,5 mm de sobremedida lateral e uma última volta à cota final.

Escolher o pós-processador errado dá um programa que não corre, ou pior, que corre com movimentos diferentes dos simulados. Cada máquina tem o seu pós-processador.

11. Simulação e teste de programas

Aplicar ferramentas de simulação de funcionamento e teste de programas para fresadoras e multifuradoras CNC é passo obrigatório antes de qualquer programa novo correr sobre material real.

O que a simulação deteta

Tipos de simulação

Testar na máquina real

  1. Corrida em vazio: correr o programa com a origem Z deslocada para cima, de forma que a ferramenta passe acima da peça, confirmando o percurso sem cortar.
  2. Execução com redução do avanço (no potenciómetro do comando) na primeira peça, com a mão perto da paragem.
  3. Modo bloco a bloco nas zonas críticas (entradas, mudanças de ferramenta).
  4. Primeira peça medida com cuidado nas cotas críticas.
  5. Só depois de validado, o programa passa à produção e fica registado nas instruções de trabalho.

A simulação não substitui a confirmação física: a origem medida, o comprimento real da ferramenta e a posição real das ventosas só se confirmam na máquina.

12. Executar operações de fresagem

Executar operações de fresagem de componentes para carpintaria e mobiliário é uma das três realizações desta UC.

Operações típicas

Operação Exemplo em mobiliário e carpintaria
Contorno (recorte) recorte de peças em nesting, arredondar cantos
Rebaixo encaixe de vidro, de costas ou de painel numa porta
Ranhura ranhura para costas ou fundos de gaveta
Caixa (esvaziamento) caixas para fechaduras, puxadores embutidos
Fura e respiga a respiga fresada no topo de uma travessa e o furo (mecha) fresado no montante, com os cantos arredondados pelo raio da fresa
Perfil molduras e arestas de portas e tampos
Gravação letras e desenhos decorativos

Concordante e discordante

Evitar lascas e queimaduras

Sequência de execução

  1. Confirmar programa, peça, material e desenho (a versão certa).
  2. Confirmar ferramentas no armazém e corretores atualizados.
  3. Confirmar a fixação (vácuo no valor normal) e a origem.
  4. Fechar as proteções, afastar pessoas da zona de trabalho e usar o EPI previsto.
  5. Arrancar o ciclo com o avanço reduzido e acompanhar os primeiros segundos.
  6. No fim, limpar a peça e verificar contra o desenho.

Exemplo resolvido · caixa para uma fechadura. Caixa de 60×20 mm, 15 mm de fundo, com fresa Ø10. Os cantos interiores ficam com raio 5 mm (metade do diâmetro). Se a testa da fechadura tiver cantos vivos, é preciso arredondá-los, escolher uma fechadura de testa arredondada ou esquadrar os cantos à mão. A largura de 20 mm é o dobro do diâmetro: a fresa faz a caixa em duas voltas ou num percurso de esvaziamento.

13. O Sistema 32

Utilizar o sistema 32 de multifuração com CNC é uma aptidão explícita do referencial e a base da furação normalizada do mobiliário de painel.

Os valores de base

O passo de 32 mm e os 37 mm permitem que a mesma lateral, furada sempre da mesma maneira, receba ferragens diferentes, e que as ferragens de muitos fabricantes caibam nos mesmos furos. Manda sempre o catálogo do fabricante da ferragem: há bases, corrediças e dobradiças com cotas próprias.

Outras furações que se cruzam com o Sistema 32

Furação Valor típico Onde
Copa de dobradiça Ø35 mm, cerca de 11,5 a 13 mm de fundo na porta, a poucos milímetros do bordo (distância de furação indicada pelo fabricante)
Cavilha Ø8 mm (por exemplo, cavilha 8×35) na face de uma peça e no topo da outra
Excêntrico (tipo minifix) caixa Ø15 mm na face; o centro fica a uma distância do bordo que depende do comprimento do perno (por exemplo, 24 ou 34 mm) numa peça o excêntrico, na outra o perno
Furo de sistema Ø5 mm, pouco fundo (cerca de 10 a 13 mm, conforme a ferragem) filas da frente e de trás das laterais

Regra das profundidades das cavilhas

Numa ligação por cavilha, profundidade na face + profundidade no topo = comprimento da cavilha + 1 a 2 mm de folga. Na face, a profundidade tem de deixar material por baixo: num painel de 18 mm, nunca se atravessa.

Exemplo resolvido 1 · cavilha 8×35. Furo na face da lateral com 12 mm (sobram 18 menos 12 = 6 mm). Topo da prateleira: 35 menos 12 + 2 = 25 mm. Total 12 + 25 = 37 mm, 2 mm mais do que a cavilha: há espaço para a cola e a peça fecha.

Exemplo resolvido 2 · fila de trás. Lateral com 560 mm de profundidade; fila da frente a 37 mm. A fila de trás tem de estar em 37 + 32 × n e deixar pelo menos 37 mm até ao bordo de trás, ou seja, 37 + 32 × n ≤ 560 menos 37 = 523.

32 × n ≤ 486, n ≤ 15,2, logo n = 15. Fila de trás a 37 + 480 = 517 mm do bordo da frente, isto é, a 560 menos 517 = 43 mm do bordo de trás. Distância entre filas: 480 mm, múltiplo de 32 (15 × 32).

Exemplo resolvido 3 · furos numa fila vertical. Lateral com 720 mm de altura; primeiro furo a 50 mm da base e nenhum furo a menos de 50 mm do topo. Posições: 50 + 32 × k ≤ 720 menos 50 = 670, 32 × k ≤ 620, k ≤ 19,4, logo k = 19. Último furo a 50 + 608 = 658 mm; total de 20 furos (k de 0 a 19) por fila.

14. Executar operações de multifuração

Executar operações de multifuração CNC para mobiliário e carpintaria é a terceira realização da UC.

A cabeça de multifuração

Preparar a multifuração

  1. Ler o desenho e listar os furos: diâmetro, profundidade, cego ou passante, face ou topo.
  2. Montar em cada mandril a broca certa: diâmetro, tipo (cego ou de passagem) e sentido de rotação.
  3. Medir e registar o comprimento de cada broca: uma broca mais curta dá furos menos fundos.
  4. Fixar a peça encostada aos batentes que definem a origem.
  5. Carregar o programa e simular, confirmando que nenhuma broca desce sobre uma ventosa ou um grampo.
  6. Fazer a primeira peça e verificá-la.

Exemplo resolvido · uma descida, cinco furos. Uma fila de furos de sistema Ø5 a 37 mm do bordo, com o primeiro furo em Y = 50 mm e passo 32. Com cinco mandris vizinhos equipados com brocas Ø5 (direita e esquerda alternadas), uma só descida fura Y = 50, 82, 114, 146 e 178 mm (cada um soma 32). Para os 20 furos do exemplo do capítulo 13 bastam 4 descidas, com a cabeça a deslocar-se 5 × 32 = 160 mm entre descidas. Se no mandril do meio estiver uma broca de rotação errada, é o terceiro furo de cada grupo que sai queimado: o padrão do defeito denuncia o mandril.

Defeitos da furação e causas prováveis

Defeito Causas prováveis O que fazer
Furo queimado broca no sentido de rotação errado, broca romba, avanço demasiado lento trocar ou montar certa, afiar, corrigir o avanço
Lasca à saída de um furo passante broca de furo cego usada em passagem, peça sem apoio por baixo broca de passagem, apoio, reduzir o avanço à saída
Furo mais fundo ou mais raso comprimento da broca não atualizado, Z de origem errado medir a broca, atualizar o corretor
Furo fora de posição peça mal encostada ao batente, origem errada confirmar batentes e origem
Furo ovalizado broca empenada ou com batimento, peça solta trocar a broca, melhorar a fixação
Furo atravessado num furo cego profundidade maior do que a espessura menos a margem corrigir o programa e rever a simulação

Correr e verificar

Aceitar uma peça com um furo mais fundo do que o previsto, "porque a ferragem ainda encaixa", é um erro grave: o lote inteiro sai com o mesmo desvio e, num painel fino, o furo pode atravessar a face à vista.

15. Verificar o funcionamento dos programas e as peças

Verificar o funcionamento dos programas CNC para a fresagem e multifuração é um critério de desempenho explícito, não uma etapa opcional.

Aparelhagem de medição

Instrumento O que mede Nota
Fita métrica medidas gerais de painéis leitura ao milímetro
Paquímetro exteriores, interiores e profundidades resolução de 0,05 ou 0,02 mm, conforme o modelo
Sonda de profundidade (do paquímetro ou própria) fundo de furos e rebaixos encostar a base na face de referência
Esquadro ângulos retos entre bordos confirma o esquadro do contorno
Calibre de verificação (tampão, gabarito) "passa / não passa" rápido em série
Medida das diagonais esquadro de peças retangulares diagonais iguais = peça esquadrada

Método da primeira peça

  1. Medir todas as cotas críticas da primeira peça e registá-las numa ficha.
  2. Comparar cada valor com a cota nominal e a tolerância.
  3. Se houver desvios, corrigir a causa (programa, corretor, origem, fixação) e repetir.
  4. Durante a série, medir peças de amostra com uma frequência definida, não só a primeira.

Exemplo resolvido · dentro ou fora da tolerância? Fila de furos com cota nominal 37 ±0,2 mm. Medições: 37,1 / 36,9 / 37,3.

Limites: 37 menos 0,2 = 36,8 e 37 + 0,2 = 37,2. As duas primeiras estão dentro; 37,3 está fora (0,1 mm acima do limite). Pára-se, procura-se a causa (peça mal encostada ao batente? batente sujo?) e corrige-se antes de continuar.

Esquadro pelas diagonais. Porta de 700×450 mm: diagonal teórica = √(700² + 450²) = √(490 000 + 202 500) = √692 500 ≈ 832,2 mm. Se as duas diagonais medirem 832 e 836 mm, a diferença de 4 mm mostra que a peça não está esquadrada.

16. Segurança, saúde no trabalho e EPI

Aplicar as normas de segurança e saúde no trabalho e utilizar os equipamentos de proteção individual são aptidões do referencial e critério de desempenho da UC.

Proteções das máquinas CNC

EPI na operação CNC

EPI Quando
Óculos de proteção sempre junto da máquina e na limpeza com ar comprimido
Proteção auditiva ruído a partir dos valores de ação; sempre acima de 85 dB(A)
Máscara FFP2 ou FFP3 quando a captação na origem não chega: limpeza, descarga de peças, MDF, madeiras duras
Calçado de segurança manuseamento de painéis pesados
Luvas contra cortes só para manusear ferramentas e painéis com a máquina parada; nunca junto de ferramentas em rotação
Vestuário ajustado sem mangas soltas, adornos, fios ou cabelo solto junto de partes em rotação

Soprar o pó da roupa ou da máquina com ar comprimido espalha precisamente a fração fina que se respira. Usa-se aspiração, e o ar comprimido só com óculos e máscara, nunca apontado ao corpo.

17. Normas da qualidade

Aplicar as normas da qualidade quer dizer produzir peças conformes de forma repetível e registada.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Fresar e multifurar com CNC segue sempre a mesma cadeia: interpretar o desenho técnico (normas, vistas, cotas, tolerâncias) → caracterizar o materialselecionar, montar, medir e configurar brocas, fresas e porta-lâminas (vc, fz, n max, sentido de rotação) → definir as dimensões em brutoprogramar (ISO, software próprio da máquina ou CAD-CAM, a partir do DXF e do pré-código) → simular e testarfixar a peça (vácuo, ventosas, grampos, batentes) → fresar e multifurarverificar e registar. A multifuração de mobiliário assenta no Sistema 32 (Ø5, passo 32, primeira fila a 37 mm). Em todo o processo aplicam-se as normas de segurança e saúde, o EPI e as normas da qualidade. Na dúvida sobre um valor, manda o catálogo do fabricante e o manual da máquina.

Exercícios resolvidos

1. Ordena: (a) simular o programa no software; (b) montar e medir a ferramenta na máquina; (c) interpretar o desenho técnico; (d) fixar a peça e fazer a corrida em vazio; (e) executar a fresagem.

Resolução: c → a → b → d → e. Sem desenho interpretado não há programa; o programa simula-se no software com os dados da biblioteca de ferramentas; a ferramenta real é montada e medida antes da corrida em vazio, que já exige a peça fixada; só então se maquina. (a) e (b) podem trocar entre si, desde que a simulação use os dados reais da ferramenta.

2. Peça final 600×400 mm, sobremedida de 5 mm por lado. Qual o bruto?

Resolução: 600 + 5 + 5 = 610 mm; 400 + 5 + 5 = 410 mm. Bruto: 610×410 mm.

3. O que faz o bloco N30 G01 X100 F800?

Resolução: N30 é o rótulo do bloco; G01 manda deslocar em linha reta a cortar; X100 é o destino em X (100 mm da origem, em G90); F800 é o avanço (em regra mm/min). A ferramenta desloca-se a cortar até X100, a 800 mm/min.

4. Fresa Ø10 mm, z = 2, a 20 000 rpm e F = 8 m/min. Calcula vc e fz.

Resolução: vc = π × 10 × 20 000 ÷ 60 000 ≈ 10,5 m/s. fz = 8000 ÷ (20 000 × 2) = 0,2 mm por dente.

5. Uma ventosa de 140×140 mm trabalha com 0,7 bar de depressão. Que força teórica faz?

Resolução: 0,7 bar = 70 000 Pa; A = 0,14 × 0,14 = 0,0196 m²; F = 70 000 × 0,0196 = 1372 N.

6. Explica o Sistema 32 e porque interessa à multifuração.

Resolução: furos de sistema Ø5 em filas com passo de 32 mm, a fila da frente habitualmente a 37 mm do bordo da frente e a de trás a um múltiplo de 32 mm. A cabeça de multifuração tem os mandris com o mesmo passo, por isso fura vários furos numa descida, e as ferragens de fabricantes diferentes aproveitam os mesmos furos.

7. Numa lateral de 18 mm liga-se uma prateleira com cavilhas 8×35; o furo na face tem 12 mm. Que profundidade no topo da prateleira, com 2 mm de folga?

Resolução: 35 menos 12 + 2 = 25 mm. Na face sobram 18 menos 12 = 6 mm de material.

8. Um contorno exterior foi programado com G42 em vez de G41, com M03. Que muda?

Resolução: a ferramenta continua do lado de fora só se o percurso também inverter o sentido; se o percurso se mantiver no sentido horário, com G42 a ferramenta passa para dentro da peça e o corte (12 mm de largura) fica todo por dentro da linha e a peça sai 24 mm mais pequena em cada medida (276×176 mm em vez de 300×200 mm: o diâmetro da fresa a menos em cada lado). Se se inverter o sentido para manter a ferramenta de fora, a fresagem passa a discordante. A simulação mostra logo o erro.

9. Numa série de laterais, o terceiro furo de cada grupo de cinco sai queimado. Qual a causa provável?

Resolução: a broca do terceiro mandril está no sentido de rotação errado (ou romba). Confirma-se a cor/marca da broca e o sentido do mandril, troca-se, e verifica-se a primeira peça seguinte.

10. Um colega diz "já simulei, posso correr logo em produção". Que lhe respondes?

Resolução: a simulação não confirma a origem medida, o comprimento real das ferramentas nem a posição real das ventosas. Faz-se a corrida em vazio, a primeira peça com avanço reduzido e mede-se antes de libertar a série.