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UC · Unidade de Competência · UC02081

Sebenta · Desenhar em CAD-CAM peças planas de mobiliário e carpintaria, para maquinagem com CNC (UC02081)

Do ambiente gráfico do software à peça pronta para a máquina, comandos, camadas, formatos e segurança
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. CNC em Madeira e Mobili ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a desenhar peças planas de mobiliário e carpintaria em software de CAD-CAM, com o rigor que uma máquina CNC exige. Uma fresadora CNC não interpreta intenções, executa exatamente o que o desenho diz: se uma cota está errada, a peça sai errada; se um furo está na camada errada, pode ser cortado a toda a profundidade em vez de furado.

O percurso desta UC segue a lógica de uma oficina real: primeiro conhece-se e personaliza-se o ambiente gráfico do software, depois aprende-se a organizar o espaço de desenho com eixos e coordenadas, a seguir dominam-se os comandos de desenho e de edição que constroem qualquer geometria, organiza-se tudo em camadas, e por fim trata-se de importar, converter e exportar ficheiros com segurança, sempre com as normas e o EPI presentes.

Objetivos de aprendizagem (referencial): personalizar o ambiente gráfico e as ferramentas de CAD do software, de acordo com as características técnicas das peças; e manipular, em ambiente CAD-CAM, as geometrias de componentes e peças planas de mobiliário e carpintaria, utilizando geometrias e peças provenientes de ficheiros CAD ou CAD-CAM de diferentes formatos de dados.

1. CAD-CAM: do desenho à máquina CNC

O que é CAD-CAM

CAD (Computer-Aided Design, desenho assistido por computador) e CAM (Computer-Aided Manufacturing, fabrico assistido por computador) são duas fases do mesmo processo:

Muitos softwares fazem as duas coisas no mesmo pacote; outros separam-nas em programas distintos que trocam ficheiros entre si. Nesta UC o foco é a primeira fase, o desenho CAD de peças planas.

Peças planas nas indústrias de madeira e mobiliário e de carpintaria

Uma peça plana é um componente cortado ou maquinado a partir de um painel de espessura constante: um painel de MDF, contraplacado, aglomerado revestido ou madeira maciça, do qual se recorta um contorno e se abrem furos, rebaixos ou encaixes.

Este tipo de peça aparece em toda a produção de mobiliário e carpintaria com CNC:

O fluxo de trabalho completo

O percurso de uma peça, da ideia à máquina, segue sempre a mesma sequência lógica:

Desenho CAD (geometria 2D) → CAM (trajetórias de corte) → pós-processador → código CNC → máquina
  1. O desenho CAD fixa a forma e as cotas da peça, à escala real.
  2. O CAM decide as trajetórias da ferramenta a partir dessa geometria.
  3. O pós-processador traduz essas trajetórias para o código que a máquina em concreto entende.
  4. A CNC executa o código, corta e maquina a peça física.

Exemplo resolvido · seguir uma peça do desenho à máquina

Uma oficina precisa de cortar uma prateleira de 600 x 300 mm em MDF de 18 mm, com dois furos de cavilha em cada extremidade.

  1. Desenhar o contorno retangular da prateleira em CAD, à escala 1:1, com origem no canto inferior esquerdo.
  2. Marcar os quatro furos de cavilha, com as coordenadas exatas de cada centro.
  3. Colocar o contorno numa camada e os furos noutra, para o CAM os poder tratar de forma diferente.
  4. Exportar o desenho num formato compatível com o software CAM da oficina, por exemplo DXF.
  5. No CAM, associar a cada camada a operação certa: corte a toda a espessura no contorno, furação a uma profundidade menor nos furos.

Cada etapa depende da anterior ter sido feita com rigor: um erro no passo 1 chega inteiro ao passo 5.

Que software se encontra nas empresas

Nas empresas portuguesas de mobiliário e carpintaria encontram-se, grosso modo, três situações:

Situação Como se trabalha O que muda para quem desenha
CAD genérico + CAM separado desenha-se num programa de CAD 2D (por exemplo, o AutoCAD ou um equivalente) e exporta-se DXF para o CAM a organização por camadas e a limpeza do DXF são decisivas
CAD-CAM integrado o mesmo programa desenha e gera as trajetórias a geometria e as operações ficam no mesmo ficheiro, mas as regras de desenho são as mesmas
Software do fabricante da máquina muitos centros de maquinagem de mobiliário (Biesse, SCM, Homag, entre outros) programam-se em software próprio, com menus e formatos próprios, e não em código ISO escrito à mão quase todos importam DXF; o que se aprende aqui transfere-se para qualquer um deles

Esta sebenta não ensina os menus de um programa concreto, porque cada escola e cada empresa usa o seu. Ensina os conceitos e os comandos que existem em todos, com os nomes mais correntes em português. Quando um exemplo usa a sintaxe de um programa em particular, isso é dito expressamente.

Ao chegar a um software novo, a primeira tarefa é sempre a mesma: descobrir onde estão as unidades, as camadas, os snaps e a exportação DXF. Com estas quatro coisas encontradas, o resto aprende-se a trabalhar.

2. O ambiente gráfico e a configuração do software

Elementos do ambiente gráfico

O ambiente gráfico do software de CAD-CAM organiza-se sempre em torno dos mesmos elementos, ainda que o vocabulário mude de programa para programa:

Organização das ferramentas de CAD

As ferramentas de CAD organizam-se por função, o que ajuda a encontrá-las rapidamente:

Família Exemplos Propósito
Desenho linha, polilinha, circunferência criar geometria nova
Edição mover, rodar, cortar alterar geometria existente
Medição e cotagem distância, ângulo, área verificar e anotar a geometria
Organização camadas, agrupar, filtrar arrumar o desenho

Personalizar o software às características da peça

Personalizar o ambiente gráfico e as ferramentas de CAD do software, de acordo com as características técnicas das peças, é um critério de desempenho explícito desta UC, não um detalhe estético.

Precisão, tolerância e casas decimais

A precisão visível tem de ser mais fina do que a tolerância da peça, senão o ecrã arredonda e esconde o erro:

Tolerância da peça Casas decimais mínimas a mostrar Exemplo
± 1 mm 0 (mas 1 é mais seguro) contorno de um painel de fundo
± 0,5 mm ou ± 0,1 mm 1 largura de uma prateleira, posição de um furo
± 0,05 mm 2 encaixe justo, ranhura para uma ferragem

Atenção: mostrar menos casas decimais não altera a geometria, só o que se vê. Uma linha com 599,96 mm aparece como "600" se a precisão estiver a zero casas, e o erro passa despercebido até à máquina.

Ferramentas de desenho de precisão: snaps, orto e rastreio

Nenhuma peça para CNC se desenha "a olho". Os programas de CAD oferecem ajudas que prendem o cursor a pontos exatos:

Ajuda Quando ativar Risco se mal usada
Extremidade e interseção ligar segmentos de um contorno ligar ao ponto errado quando há linhas sobrepostas
Centro colocar furos concêntricos, medir entre centros nenhum de relevo
Ponto médio eixo de simetria de uma peça confundir o meio da linha com o meio da peça
Orto contornos retangulares impede linhas inclinadas que se queriam
Grelha esboço rápido pontos que parecem certos e estão 0,5 mm ao lado

Para colocar um furo exatamente no meio do topo de uma prateleira, liga-se o snap de ponto médio, clica-se na aresta do topo e depois desloca-se o centro para dentro com uma coordenada relativa. O resultado é exato à primeira, sem medir nem calcular metades à mão.

Configuração global e bibliotecas de materiais

Além do ambiente visível, o software guarda definições globais que convém rever no início de cada projeto:

Exemplo resolvido · configurar um novo projeto de painel de 18 mm

Antes de desenhar uma coleção de peças de um armário, a oficina configura um template:

  1. Definir a unidade como milímetro e a precisão a 1 casa decimal.
  2. Criar as camadas: contorno, furacao_cavilha, furacao_dobradica, gravacao, cotas.
  3. Associar a cada camada uma cor distinta, para as distinguir rapidamente na área de desenho.
  4. Guardar este ficheiro como template, para reutilizar em todas as peças de 18 mm do mesmo projeto.

Este template poupa minutos em cada peça nova e garante que todas seguem a mesma convenção.

3. Tipos de ficheiros CAD e CAM

Três níveis: CAD, CAM, código de máquina

É frequente confundir três níveis diferentes de ficheiro, que representam a peça em fases distintas:

Nível O que contém Exemplo de extensão
CAD geometria da peça: linhas, curvas, cotas .dwg, .dxf
CAM trajetórias de ferramenta já calculadas ficheiro próprio do software CAM
Código de máquina instruções finais para a CNC .nc, .cnc, .tap, ou formato próprio do fabricante da máquina

Um ficheiro CAD ainda não sabe como a peça vai ser cortada, só descreve a forma. Um ficheiro CAM já tem as trajetórias definidas, mas ainda depende do pós-processador da máquina. O ficheiro de código de máquina é o único que a CNC lê diretamente. As extensões .nc, .cnc e .tap são convenções: por dentro são texto com código G (norma ISO 6983) ou com a linguagem própria do comando da máquina, e a extensão não garante que o programa sirva numa máquina diferente.

Formatos comuns e quando usar cada um

Tabela comparativa

Formato Tipo Quem o define Uso típico em peças planas
DWG CAD 2D/3D Autodesk, fechado desenho nativo do AutoCAD
DXF CAD 2D/3D Autodesk, especificação pública troca entre programas; entrada da maioria dos CAM
STEP CAD 3D norma ISO 10303 modelos 3D de ferragens, peças vindas de outro projetista
IGES CAD 3D norma norte-americana idem, em programas mais antigos
STL malha 3D formato aberto relevos, esculturas; nunca para contornos rigorosos
SVG vetorial 2D W3C, aberto gravação, corte simples
PDF documento norma ISO 32000 consulta e impressão; maquinar a partir dele é arriscado
.nc, .cnc, formato do fabricante programa da máquina fabricante do comando o que a CNC lê

Sempre que um ficheiro vai sair da oficina, para um cliente ou um subcontratado, gravar também numa cópia em DXF. É o formato com mais garantia de abrir do outro lado.

Versões do DXF e compatibilidade

Cada versão do AutoCAD trouxe uma versão do DXF, e o programa pergunta qual se quer ao exportar. Um CAM mais antigo ou mais simples pode não ler uma versão recente. Na prática:

Exemplo resolvido · que formato para cada situação

Situação Formato a usar Porquê
Enviar a lateral de um roupeiro ao subcontratado que corta em CNC DXF, 1:1, em mm lido por quase todos os CAM; contornos e camadas passam
Receber do fabricante o modelo 3D de uma dobradiça STEP geometria 3D exata e neutra
Guardar o trabalho do dia formato nativo do programa guarda tudo, incluindo o que o DXF perde
Mostrar ao cliente para aprovação PDF abre em qualquer computador; não serve para maquinar
Maquinar um relevo decorativo numa porta STL (ou o formato 3D do CAM) superfície livre, sem arestas retas

4. Eixos, coordenadas e o espaço de desenho

O sistema de eixos X, Y, Z

Todo o desenho em CAD-CAM assenta num sistema de eixos:

A escolha da origem não é arbitrária: tem impacto direto na maquinagem, porque a CNC referencia a peça a partir dela.

O sistema é cartesiano e de mão direita: com o polegar a apontar para X positivo e o indicador para Y positivo, o dedo médio aponta para Z positivo. No ecrã, com X para a direita e Y para cima, o Z positivo sai do ecrã na direção de quem olha. Nas máquinas CNC segue-se a mesma regra (norma ISO 841): o Z é o eixo da ferramenta e o Z positivo afasta a ferramenta da peça.

Coordenadas absolutas, relativas e polares

As absolutas são úteis para colocar furos num sítio exato da peça; as relativas são rápidas para desenhar contornos passo a passo; as polares ajudam em geometrias com ângulos definidos, como chanfros ou nervuras.

Como se escrevem as coordenadas (convenção do AutoCAD)

Cada programa tem a sua sintaxe, mas a do AutoCAD é a mais conhecida e muitos outros copiam-na:

Tipo Sintaxe Exemplo Significado
Absoluta cartesiana x,y 150,80 ponto a 150 mm em X e 80 mm em Y da origem
Relativa cartesiana @dx,dy @50,0 50 mm para a direita do último ponto
Relativa polar @distância<ângulo @100<45 100 mm do último ponto, a 45°
Absoluta polar distância<ângulo 100<30 100 mm da origem, a 30°

A convenção dos ângulos, por omissão, é: 0° aponta para a direita (sentido positivo do eixo X, "a leste" ou "às 3 horas"), e os ângulos crescem no sentido anti-horário. Assim, 90° aponta para cima, 180° para a esquerda e 270° (ou -90°) para baixo. A convenção pode ser alterada nas definições de unidades do desenho, por isso, num computador partilhado, vale a pena confirmá-la.

Com a entrada dinâmica ligada (o campo que aparece junto ao cursor), o AutoCAD assume por omissão que o segundo ponto e os seguintes são relativos, mesmo sem escrever o @. É uma fonte frequente de confusão: quem escreve 600,0 a pensar num ponto absoluto obtém um ponto a 600 mm do anterior. Para forçar o absoluto nesse modo, escreve-se #600,0.

Exemplo resolvido · contorno com um canto chanfrado, em três modos

Uma peça de 400 x 250 mm tem o canto superior direito cortado por um chanfro que desce 50 mm na vertical e recua 50 mm na horizontal. Origem no canto inferior esquerdo.

  1. Pontos absolutos: (0,0) → (400,0) → (400,200) → (350,250) → (0,250) → fechar.
  2. Os mesmos pontos em relativas: 0,0@400,0@0,200@-50,50@-350,0 → fechar.
  3. O chanfro em polares: o segmento de (400,200) a (350,250) tem comprimento √(50² + 50²) = √5000 ≈ 70,71 mm e aponta para cima e para a esquerda, a 135°. Em polar: @70.71<135.

Verificação: a soma dos deslocamentos em X é 400 - 50 - 350 = 0 e em Y é 200 + 50 = 250, e o contorno fecha no ponto de partida. Repara que escrever @70.71<135 introduz um arredondamento (70,71 em vez de 70,7107...): para geometria exata, as relativas cartesianas (@-50,50) são preferíveis sempre que as duas componentes são conhecidas. É uma boa regra: polares quando se conhece o ângulo, cartesianas quando se conhecem as cotas.

(Nota: o separador decimal na linha de comando do AutoCAD é o ponto, porque a vírgula separa X de Y. No texto desta sebenta usa-se a vírgula decimal portuguesa.)

Planos de trabalho

Uma peça plana tem seis faces: a face superior, a face inferior e quatro topos (orlas). A CNC trabalha em várias delas: furos verticais na face, furos horizontais nos topos para cavilhas e excêntricos, ranhuras de fundo, orlas fresadas. Por isso, selecionar o plano de trabalho é uma aptidão do referencial.

Plano Eixos Na peça plana deitada na mesa Código ISO equivalente
XY X e Y face superior (ou inferior): contornos, furos verticais, rebaixos G17
XZ X e Z topo da frente ou de trás: furos horizontais G18
YZ Y e Z topos laterais: furos horizontais G19

No CAD 2D o plano de desenho por omissão é o XY. Para desenhar a furação de um topo há duas práticas correntes:

Uma lateral de 720 x 560 x 18 mm leva dois furos de cavilha de 8 mm no topo de cima. Desenha-se a vista desse topo como um retângulo de 560 x 18 mm; os furos ficam a meia espessura (Y = 9 mm) e a 37 mm e 523 mm de uma das pontas. O furo tem 8 mm de diâmetro e fica centrado nos 18 mm, restando 5 mm de material de cada lado: 9 - 4 = 5 mm. Se a espessura fosse 16 mm, restariam 4 mm, e já seria prudente confirmar com o fornecedor da cavilha.

O espaço de modelo e o espaço de papel

Muitos programas de CAD separam dois espaços:

Para a CNC só interessa o espaço de modelo. Uma folha impressa a 1:10 é para o operador ler, não para a máquina.

Organizar o espaço de desenho

Exemplo resolvido · coordenadas dos cantos de um painel

Um painel retangular mede 600 mm de largura por 400 mm de altura, com origem no canto inferior esquerdo.

Se a origem estivesse no centro do painel, as mesmas coordenadas passariam a (-300, -200), (300, -200), (300, 200) e (-300, 200). A forma da peça não muda, mas todas as coordenadas mudam com a origem: por isso a origem tem de estar sempre clara e documentada.

5. Geometrias, dimensões e comandos de desenho

Determinar geometrias e dimensões

Antes de desenhar, determina-se com rigor a geometria e as dimensões do componente:

Os seis comandos de desenho de base

Os comandos CAD-CAM de desenho de geometrias no plano criam a geometria de raiz:

Comando Definição
Linha segmento reto entre dois pontos
Polilinha sequência de segmentos ligados, um único elemento
Polígono regular lados e ângulos iguais, definido pelo número de lados
Circunferência centro e raio ou diâmetro
Elipse dois eixos, maior e menor
Arco porção de circunferência, centro, raio e ângulos

Um hexágono regular de 200 mm de diâmetro circunscrito, usado como tampo de uma mesa auxiliar, desenha-se com um único comando de polígono regular a 6 lados, em vez de seis linhas soltas ligadas à mão. Além de mais rápido, garante que os lados e os ângulos ficam exatamente iguais.

Cada comando de desenho em pormenor

Linha. Pede um ponto inicial e um ponto final, e continua a pedir pontos até se terminar o comando. Cada troço é um elemento independente. Exemplo: a linha de eixo de simetria de uma porta, de (250,0) a (250,700), numa camada de construção que não se maquina.

Polilinha. Igual à linha na forma de desenhar, mas o resultado é um único elemento, que pode misturar troços retos e arcos. É o comando certo para contornos de corte, porque o CAM reconhece de imediato um contorno fechado. Exemplo: o contorno em L de uma prateleira de canto, de (0,0) a (600,0), (600,300), (300,300), (300,600), (0,600) e fechar.

Retângulo. Muitos programas têm um comando próprio que desenha uma polilinha fechada de quatro lados a partir de dois cantos opostos. Exemplo: canto em (0,0) e canto oposto em @600,300 dá uma prateleira de 600 x 300 mm já fechada.

Polígono regular. Pede o número de lados, o centro e o raio, e pergunta se o polígono fica inscrito na circunferência (os vértices tocam-na) ou circunscrito (os lados tocam-na). Exemplo: no hexágono de 200 mm de diâmetro com os vértices sobre a circunferência, cada lado mede 100 mm (no hexágono regular, o lado é igual ao raio) e a distância entre lados opostos é 200 x cos 30° ≈ 173,2 mm. Se o hexágono for desenhado com os lados tangentes a essa circunferência, a distância entre lados opostos passa a ser 200 mm e o lado passa a ser 200 x tan 30° ≈ 115,5 mm. É uma diferença de 27 mm na peça final: convém ler bem a pergunta do programa.

Circunferência. Por centro e raio, centro e diâmetro, dois pontos (extremos de um diâmetro), três pontos, ou tangente a dois elementos com um raio dado. Exemplo: furo de 35 mm para a copa de uma dobradiça de copo, com o centro a 22,5 mm do bordo da porta (confirmar sempre na ficha técnica da dobradiça, porque varia com o modelo).

Elipse. Por centro e extremidades dos dois semieixos, ou por um eixo e a extremidade do outro. Exemplo: tampo de mesa oval de 1200 x 800 mm: centro em (600,400), semieixo maior 600 mm, semieixo menor 400 mm. Nota importante para CNC: muitos comandos de máquina só interpolam retas e arcos; o CAM converte a elipse numa sequência de arcos ou de pequenos segmentos, com uma tolerância que se escolhe. Se a elipse chegar ao CAM partida em centenas de segmentos minúsculos, o movimento da máquina pode ficar aos solavancos.

Arco. Por três pontos; por centro, ponto inicial e ponto final; por ponto inicial, ponto final e raio; entre outras variantes. Por omissão, o arco é traçado no sentido anti-horário do ponto inicial para o final, por isso trocar os dois pontos dá o arco complementar. Exemplo: o topo curvo de uma cabeceira de cama com 1600 mm de largura e 150 mm de flecha desenha-se por três pontos: (0,0), (800,150) e (1600,0).

Conta do arco da cabeceira. Para uma corda c = 1600 mm e uma flecha f = 150 mm, o raio vale R = (c²/4 + f²) / (2f) = (640 000 + 22 500) / 300 = 662 500 / 300 ≈ 2208,3 mm. É o valor que o programa deve mostrar nas propriedades do arco; se mostrar outro, um dos três pontos está errado.

Exemplo resolvido · desenhar o contorno de uma prateleira

Contorno de uma prateleira de 500 x 250 mm, com cantos arredondados de raio 10 mm e dois furos de cavilha de 8 mm de diâmetro em cada topo (os furos de cavilha dos topos desenham-se na vista do topo, ver "Planos de trabalho"; aqui marca-se a sua posição na face).

  1. Desenhar o retângulo base com polilinha: (0,0) → (500,0) → (500,250) → (0,250) → fechar.
  2. Aplicar bolear (arredondar) com raio de 10 mm aos quatro cantos, que substitui cada canto vivo por um arco tangente aos dois lados.
  3. Em cada topo (X = 0 e X = 500), colocar os centros dos dois furos a 32 mm de cada face lateral da prateleira: Y = 32 e Y = 250 - 32 = 218.
  4. Desenhar cada furo como uma circunferência de 8 mm de diâmetro na vista do topo correspondente, a meia espessura.
  5. Colocar o contorno numa camada e os furos noutra.

A distância de 32 mm é aqui uma escolha de projeto. Não confundir com o sistema 32, a convenção europeia de furação modular de móveis: colunas de furos de 5 mm de diâmetro, com os centros espaçados 32 mm entre si, sendo a primeira coluna tipicamente a 37 mm do bordo da frente. É o sistema 32 que permite pôr prateleiras reguláveis, dobradiças e corrediças em posições padronizadas.

6. Comandos de edição e modificação de geometrias

A família de comandos de edição

Os comandos de edição alteram geometria já existente, sem a redesenhar de raiz:

Comando Efeito
Apagar remove o elemento selecionado
Copiar / Mover duplica ou desloca sem alterar a forma
Rodar roda em torno de um ponto e um ângulo
Espelhar cria a imagem em espelho, útil em peças simétricas
Cortar apara a parte de um elemento que ultrapassa uma aresta de corte
Quebrar divide um elemento num ponto, ou remove o troço entre dois pontos
Estender prolonga um elemento até encontrar outro
Unir junta elementos contíguos num só (por exemplo, linhas e arcos numa polilinha)

Editar em vez de redesenhar poupa tempo e evita introduzir novos erros de cota: o elemento original mantém a informação já validada.

Cada comando de edição com um exemplo de oficina

Comando O que pede Exemplo em peça plana
Apagar os elementos a remover eliminar as linhas de construção antes de exportar para o CAM
Copiar elementos, ponto base e destino copiar o par de furos de uma dobradiça 500 mm acima: ponto base no centro de um furo, destino @0,500
Mover elementos, ponto base e destino deslocar todos os furos de uma lateral 5 mm para a esquerda: destino @-5,0
Rodar elementos, ponto de rotação e ângulo (positivo = anti-horário) rodar 90° um puxador embutido para passar de horizontal a vertical
Espelhar elementos e dois pontos da linha de espelho; pergunta se apaga o original obter a lateral direita a partir da esquerda, com a furação na face certa
Cortar arestas de corte e a parte a remover limpar os cruzamentos de duas linhas que formam um canto
Quebrar o elemento e um ou dois pontos abrir uma passagem de 60 mm num contorno para depois desenhar o recorte de um cabo
Estender a aresta limite e o elemento a prolongar prolongar a linha de uma ranhura até ao bordo da peça
Unir os elementos contíguos transformar quatro linhas e quatro arcos soltos num contorno fechado único
Chanfrar duas distâncias, ou uma distância e um ângulo canto de um tampo cortado a 20 x 20 mm
Bolear o raio e os dois elementos cantos de um tampo com raio de 50 mm
Matriz linear número de linhas e colunas e espaçamento coluna de furos para suportes de prateleira
Matriz circular centro, número de cópias e ângulo total furos num tampo redondo

Espelhar em mobiliário exige cuidado. Uma lateral esquerda espelhada dá a lateral direita com a furação do lado de dentro, como deve ser. Mas espelhar texto ou gravações dá letras ao contrário: muitos programas têm uma definição para o texto não ser espelhado, e convém confirmá-la.

Exemplo resolvido · cortar, estender e unir num canto

Duas linhas que deviam formar o canto de uma peça ficaram mal: a horizontal ultrapassa o canto em 12 mm e a vertical fica 8 mm aquém.

  1. Cortar o excesso da horizontal usando a vertical como aresta de corte. Mas a vertical ainda não chega à horizontal, por isso primeiro:
  2. Estender a vertical até à horizontal (8 mm).
  3. Agora cortar os 12 mm em excesso da horizontal, com a vertical como aresta.
  4. Unir as duas linhas numa polilinha, para o canto ficar fechado sem folga.

Uma alternativa num único passo é o comando bolear com raio zero (ou chanfrar com distâncias zero), que em muitos programas estende ou corta as duas linhas até se encontrarem num canto vivo. Vale a pena experimentar, porque poupa três comandos.

Chanfrar, bolear e matrizes

Um único ajuste no elemento original de uma matriz propaga-se a todas as cópias, o que garante rigor no espaçamento e poupa tempo.

Exemplo resolvido · matriz linear de furos de cavilha

Uma lateral de armário de 720 x 560 mm (altura x profundidade) precisa de uma coluna de 8 furos para suportes de prateleira, de 5 mm de diâmetro, espaçados 32 mm entre si (sistema 32), com o primeiro furo a 37 mm do bordo da frente e a 200 mm da base. A lateral desenha-se deitada: X ao longo da profundidade (bordo da frente em X = 0) e Y ao longo da altura (base em Y = 0).

  1. Desenhar o primeiro furo (circunferência de 5 mm de diâmetro) com o centro em (37, 200).
  2. Selecionar o furo e aplicar uma matriz linear: 8 linhas, 1 coluna, espaçamento de 32 mm na direção Y positiva.
  3. O software gera os 8 furos, todos com o mesmo diâmetro e o espaçamento exato.
  4. Verificar o último furo: são 8 furos, logo 7 intervalos; 200 + 7 x 32 = 200 + 224 = 424 mm da base, isto é, 720 - 424 = 296 mm abaixo do topo. Fica dentro da altura útil.
  5. Para a coluna de trás, copiar a coluna com uma matriz de 2 colunas: a 37 + 14 x 32 = 37 + 448 = 485 mm do bordo da frente. Com 560 mm de profundidade, sobram 75 mm até ao bordo de trás, espaço suficiente para um rebaixo do painel de fundo.

Se mais tarde o diâmetro do furo mudar, basta editar o furo original e, nos programas em que a matriz fica associativa, as cópias atualizam-se; noutros programas é preciso apagar as cópias e refazer a matriz, que demora segundos.

Exemplo resolvido · matriz circular num tampo redondo

Um tampo redondo de 600 mm de diâmetro leva 6 furos de fixação de 8 mm, igualmente espaçados sobre uma circunferência de 450 mm de diâmetro (raio 225 mm), para o prender a uma base. Centro do tampo em (0,0).

  1. Desenhar o primeiro furo a 0°: centro em (225, 0).
  2. Aplicar uma matriz circular com centro em (0,0), 6 elementos e ângulo total de 360°: o ângulo entre furos é 360 ÷ 6 = 60°.
  3. Conferir as coordenadas do segundo furo, a 60°: X = 225 x cos 60° = 225 x 0,5 = 112,5 mm; Y = 225 x sen 60° = 225 x 0,866 ≈ 194,9 mm.
  4. Conferir a distância entre dois furos vizinhos: numa circunferência dividida em 6, a corda é igual ao raio, 225 mm. Medir com o comando de distância: se der 225,0, a matriz está certa.

Se os furos tiverem de manter a mesma orientação (por exemplo, uma ranhura oblonga que deve ficar sempre na horizontal), a matriz circular tem uma opção para não rodar as cópias.

7. Camadas (layers) e controlo da visualização

Porque organizar em camadas

As camadas organizam o desenho da organização do desenho em camadas em níveis independentes, cada um com um propósito próprio:

Cada camada tem cor, espessura de linha e visibilidade próprias, e edita-se sem afetar as outras.

Convenção de camadas para peças planas

Uma convenção útil, comum em oficinas de mobiliário:

Camada Cor sugerida Operação no CAM
contorno preto corte a toda a espessura
furacao_cavilha azul furação parcial
furacao_dobradica vermelho furação parcial ou passante
rebaixo verde fresagem a meia espessura
cotas cinzento não maquinado, só referência

Fixar esta convenção no início do projeto e mantê-la em todas as peças evita confusões quando o ficheiro passa para o CAM.

Propriedades e estados de uma camada

Propriedade ou estado Para que serve Exemplo
Nome identificar a camada; em muitos CAM é por ele que se atribui a operação rebaixo_9
Cor leitura rápida no ecrã azul para furação
Tipo e espessura de linha distinguir construção, eixos e contornos traço-ponto nos eixos de simetria
Ligada / desligada mostrar ou esconder esconder as cotas para ver só o que se maquina
Bloqueada ver sem poder alterar bloquear o contorno enquanto se acerta a furação
Não imprimir / não exportar camadas de apoio linhas de construção
Camada atual onde vai parar o próximo elemento desenhado trocar para furacao antes de desenhar os furos

Camadas que "falam" com o CAM

Em muitos programas de CAM, e nos programas de muitos fabricantes de centros de maquinagem, é prática corrente (não uma regra universal) usar o nome da camada para dizer ao CAM que operação fazer e a que profundidade. Por exemplo, uma oficina pode convencionar que a camada furo_5_12 significa "furar com broca de 5 mm a 12 mm de profundidade" e que contorno_passante significa "cortar toda a espessura". O CAM, configurado uma vez, lê o DXF e aplica as operações sozinho.

As regras exatas mudam de programa para programa e de oficina para oficina: é o responsável da CNC quem define a convenção, e quem desenha tem de a seguir à letra, incluindo maiúsculas, underscores e acentos (é boa prática não usar acentos nem espaços em nomes de camadas, porque alguns programas os leem mal).

Numa oficina, uma lateral chegou à CNC com a furação para suportes na camada Furação em vez de furacao_5_12. O CAM não reconheceu a camada, ignorou os furos e a peça saiu lisa. Ninguém reparou até à montagem. O erro custou uma peça de 18 mm e uma hora de trabalho, e resolvia-se no desenho com dois cliques.

Exemplo resolvido · passar uma peça de uma camada única para a convenção

Um ficheiro recebido tem tudo na camada 0: contorno, 12 furos de 5 mm, 2 furos de 35 mm e as cotas.

  1. Criar as camadas da convenção (se o template não as tiver).
  2. Selecionar por filtro: todas as circunferências com diâmetro 5 → mudar para furacao_cavilha.
  3. Repetir para as circunferências de diâmetro 35 → furacao_dobradica.
  4. Selecionar as cotas → cotas.
  5. O que fica na camada 0 deve ser só o contorno: confirmar que é uma polilinha fechada e passá-la para contorno.
  6. Desligar camada a camada e confirmar que nada ficou esquecido na 0.

Controlo da visualização

Ampliar ao máximo os cantos e os furos antes de dar o desenho por terminado é uma verificação simples, mas é precisamente a que costuma ser saltada quando há pressa. É também a que mais erros evita antes de exportar para o CAM.

8. Dimensões, espessura e manipulação da peça

Manipular dimensões de um elemento

Manipular dimensões é ajustar o comprimento e a largura de um elemento já desenhado, mantendo a sua forma geral: alargar uma prateleira 20 mm, encurtar um painel para caber num vão.

As ferramentas mais usadas para isso:

Determinar as dimensões das geometrias no CAD

Depois de desenhar, mede-se sempre no próprio programa, com os comandos de medição:

O que medir Comando típico Para quê
Distância entre dois pontos distância (com snap de centro ou extremidade) confirmar entre-eixos de furos
Raio ou diâmetro propriedades do elemento confirmar furos e boleados
Ângulo ângulo entre duas linhas confirmar chanfros e meias-esquadrias
Área e perímetro área (de uma polilinha fechada) orçamento de painel, comprimento de orla
Caixa envolvente propriedades ou limites confirmar que a peça cabe no painel e na mesa

Uma prateleira de 600 x 300 mm com os quatro cantos boleados a raio 20 mm. O perímetro da polilinha já não é 2 x (600 + 300) = 1800 mm: cada canto troca dois troços retos de 20 mm (40 mm) por um quarto de circunferência de 2 x π x 20 ÷ 4 ≈ 31,4 mm. Perímetro = 1800 - 4 x 40 + 4 x 31,4 = 1800 - 160 + 125,7 ≈ 1765,7 mm. É este o comprimento de orla a encomendar (mais a sobra de corte). O comando de área do programa deve dar o mesmo valor.

Reposicionar geometrias no plano

Reposicionar é mudar o sítio de uma peça (ou de um grupo de elementos) sem mudar as posições relativas entre eles. Casos típicos:

Conta de afastamento no nesting. Com uma fresa de 12 mm de diâmetro a cortar o contorno pelo lado de fora, cada peça precisa de 12 mm à volta para a passagem da ferramenta. Duas peças vizinhas partilham o mesmo corredor, por isso o afastamento mínimo entre contornos é 12 mm (mais uma pequena margem de segurança, que a oficina define). Numa fila de 5 prateleiras de 300 mm de largura, lado a lado, ocupam-se 5 x 300 + 4 x 12 = 1500 + 48 = 1548 mm, mais a margem ao bordo do painel.

Regras de geometria para a peça seguir para CNC

Um desenho pode estar bonito no ecrã e ser inutilizável pela máquina. Antes de exportar, confirmar:

  1. Contornos fechados: cada contorno de corte é uma polilinha fechada (o início coincide com o fim). Um intervalo de 0,01 mm invisível no ecrã chega para o CAM recusar o contorno ou tratá-lo como linha aberta.
  2. Sem linhas duplicadas nem sobrepostas: duas linhas iguais uma em cima da outra fazem a máquina passar duas vezes, ou confundem a deteção do contorno. Muitos programas têm um comando para eliminar duplicados (confirmar o nome no programa usado).
  3. Escala 1:1 e milímetros.
  4. Tudo no plano Z = 0: uma linha com a ponta em Z = 0,5 pode não ser reconhecida como parte do contorno.
  5. Cantos interiores compatíveis com a ferramenta: uma fresa redonda não consegue fazer um canto interior vivo. Num rasgo ou recorte interior, o canto fica sempre com um raio igual, pelo menos, ao raio da fresa.
  6. Sem pontas soltas nem pontos isolados, que alargam os limites do desenho.
  7. Camadas certas segundo a convenção da oficina.

Canto interior e raio da fresa. Um recorte retangular de 100 x 60 mm para embutir uma tomada numa bancada é fresado com uma fresa de 8 mm de diâmetro. O raio mínimo dos cantos interiores é 8 ÷ 2 = 4 mm. Se a peça que vai encaixar tiver cantos vivos, há duas soluções: arredondar os cantos da peça que encaixa, ou desenhar no recorte uma folga de canto (em inglês, dog-bone): um furo circular com o diâmetro da fresa, centrado de forma a que a fresa limpe o vértice. Com fresa de 6 mm o raio mínimo seria 3 mm, mas a fresa mais fina é mais frágil e trabalha mais devagar: é uma decisão de produção, não só de desenho.

Definir a espessura a partir da geometria 2D

O desenho de uma peça plana é feito a 2D, mas representa sempre um objeto com espessura. A espessura normalmente não se desenha como uma linha extra: associa-se à peça como uma propriedade, ligada ao painel escolhido na biblioteca de materiais, e é o CAM que a usa depois para calcular profundidades de corte.

Confundir a espessura, que é uma propriedade do material, com uma dimensão desenhada no plano é um erro típico de quem começa em CAD-CAM.

Conforme o programa, a espessura define-se de uma destas formas:

A espessura nominal de um painel nem sempre é a real: um MDF "de 18" pode ter umas décimas a mais ou a menos. Para rebaixos e ranhuras que recebem outra peça, mede-se o painel real com o paquímetro antes de fechar as cotas.

Exemplo resolvido · rebaixo a meia espessura

Uma lateral em MDF de 18 mm precisa de um rebaixo no bordo de trás, na face interior, onde vai encaixar o painel de fundo, a meia espessura do painel.

Um erro comum é indicar 18 mm de profundidade por engano, o que atravessaria a peça toda em vez de a rebaixar a meio.

9. Importação, formatos neutros e conversão entre CAD-CAM

Importar geometrias de ficheiros externos

Nem toda a peça nasce do zero no software: chega muitas vezes um ficheiro de outra origem, de um cliente, de um fornecedor de ferragens ou de outro departamento.

Depois de importar, é preciso:

O que costuma correr mal numa importação

Sintoma ao abrir Causa provável Correção
Peça minúscula ou gigante unidades diferentes (polegadas, centímetros, metros) reimportar indicando a unidade certa, ou escalar pelo fator exato (25,4; 10; 1000)
A peça está a quilómetros da origem desenho feito com coordenadas de obra ou de outro projeto mover a peça para a origem
Contorno partido em centenas de segmentos splines convertidas por uma versão antiga do DXF substituir por arcos e retas, ou unir e simplificar
Tudo agrupado num só bloco o autor usou blocos (conjuntos de elementos reutilizáveis) explodir (desagrupar) o bloco para editar os elementos
Letras ou símbolos estranhos tipo de letra inexistente no computador trocar o tipo de letra ou converter o texto em contornos
Cotas com valores que não batem com a geometria cota escrita à mão por cima de uma geometria errada confiar na geometria medida, não no texto da cota, e perguntar ao autor

Formatos neutros ou livres

Um formato neutro (ou livre, não proprietário) é um formato de especificação publicada, que qualquer software pode ler e escrever, sem depender de um único fabricante. Exemplos: STEP (norma ISO 10303) e IGES para 3D. O DXF, embora a especificação seja da Autodesk, é publicado e de uso livre, e por isso é tratado na prática como o formato de troca 2D por excelência.

A vantagem é clara: a peça circula entre CAD, CAM e diferentes oficinas sem depender de um único fornecedor de software. Um formato proprietário pode não abrir noutro programa, ou perder informação na conversão.

Converter entre formatos, com verificação

A conversão de dados entre diferentes formatos de ficheiros CAD-CAM segue sempre os mesmos passos:

  1. Abrir o ficheiro de origem no software.
  2. Verificar a integridade da geometria: linhas fechadas, sem duplicações.
  3. Exportar no formato de destino.
  4. Reabrir o ficheiro exportado e confirmar que geometria e cotas se mantiveram.

O último passo, confirmar depois de converter, é o que separa um fluxo de trabalho fiável de um cheio de surpresas.

Exemplo resolvido · importar um DXF e confirmar a escala

Chega à oficina um ficheiro DXF de um fornecedor de ferragens com o desenho de uma dobradiça a incluir na peça.

  1. Importar o DXF para o desenho da peça, numa camada temporária.
  2. Medir uma cota conhecida do ficheiro importado, por exemplo o diâmetro de um furo indicado como 35 mm no catálogo do fornecedor.
  3. Se o software mostrar 35 mm, a escala está correta; se mostrar 0,35 ou 350, há um erro de unidades a corrigir antes de continuar.
  4. Só depois de confirmada a escala se copia a geometria da dobradiça para a camada furacao_dobradica da peça final.

O que se perde (e o que se ganha) em cada conversão

Conversão O que passa O que se pode perder
Nativo → DXF geometria 2D, camadas, cores, textos parâmetros, restrições, ligações a bibliotecas; splines em versões antigas
DXF → CAM contornos, camadas (que o CAM usa para operações) cotas e textos (normalmente ignorados); elementos fora do plano Z = 0
3D (STEP) → 2D (DXF) a vista plana da peça profundidades e faces laterais, que têm de ser indicadas de outra forma
DXF → SVG contornos a unidade (o SVG pode ser lido a outra escala)
Qualquer → PDF aspeto do desenho a precisão: não se maquina a partir de um PDF

Gravar em formato livre, passo a passo

A aptidão "efetuar a gravação de ficheiros CAD-CAM em formatos livres" pratica-se sempre com a mesma sequência:

  1. Limpar o desenho: apagar linhas de construção, camadas vazias e elementos perdidos (o comando de purgar ou limpar, que existe na maior parte dos programas).
  2. Confirmar unidade (mm) e escala (1:1).
  3. Confirmar que os contornos estão fechados e sem duplicados.
  4. Gravar como (ou Exportar) → escolher o formato (DXF) e a versão pedida pelo destinatário.
  5. Dar um nome claro: armario-A_lateral-esq_MDF18.dxf diz o projeto, a peça e o material; desenho1-final-final2.dxf não diz nada.
  6. Reabrir o ficheiro gravado e medir uma cota conhecida.

Exemplo resolvido · converter um STEP de ferragem em furação 2D

O fabricante de uma corrediça envia o modelo em STEP. A lateral só precisa da posição dos furos de fixação.

  1. Abrir o STEP num programa que leia 3D e escolher a vista da face que encosta à lateral.
  2. Exportar essa vista para DXF, ou projetar as arestas no plano XY.
  3. Importar o DXF numa camada temporária da lateral; medir o entre-eixos de dois furos e comparar com o catálogo (por exemplo, 32 mm ou múltiplos).
  4. Desenhar por cima apenas os centros e os diâmetros que interessam, na camada de furação, e apagar a camada temporária.

O modelo 3D do fabricante traz arestas, chanfros e parafusos que não interessam à CNC; copiar tudo para a peça seria encher o desenho de lixo.

10. Segurança, EPI e normas da qualidade

Equipamentos de proteção individual

O desenho em CAD-CAM prepara peças que depois são maquinadas numa CNC real, com riscos próprios da oficina de madeira:

O EPI é a última linha de defesa. Primeiro vêm as medidas coletivas: a aspiração localizada, as proteções da máquina e a organização do trabalho. A máscara só entra quando estas não chegam.

O pó de madeira

O pó de madeiras duras (carvalho, faia, castanho, entre outras) é um agente cancerígeno reconhecido, sobretudo para as fossas nasais. A Diretiva (UE) 2017/2398 fixou para o pó de madeira dura um valor-limite de exposição profissional de 2 mg/m³ (média de 8 horas), em vigor desde 18 de janeiro de 2023; até essa data vigorou um valor transitório de 3 mg/m³. Os painéis derivados (MDF, aglomerado) produzem pó fino que também exige captação eficaz.

As medidas, por ordem:

  1. Captação na origem: aspiração ligada à CNC, com a coifa de aspiração da ferramenta bem regulada.
  2. Limpeza por aspiração, nunca com ar comprimido, que levanta o pó fino.
  3. Máscara FFP2 ou FFP3 quando a captação não chega, por exemplo em limpezas e na manutenção do filtro.

O posto de trabalho do desenhador

Quem passa horas em frente a um ecrã também tem riscos próprios: fadiga visual, dores nas costas, no pescoço e nos pulsos. Em Portugal, o trabalho com equipamentos dotados de visor está regulado pelo Decreto-Lei n.º 349/93 (que transpôs a Diretiva 90/270/CEE). Os princípios são simples:

Normas de saúde e segurança no trabalho

As normas de saúde e segurança definem regras gerais de prevenção de acidentes, sinalização de risco e procedimentos de emergência na oficina. Aplicam-se antes, durante e depois da maquinagem, mas nascem muitas vezes de uma decisão tomada ainda no desenho, por exemplo evitar trajetórias de corte que exponham desnecessariamente a ferramenta.

O enquadramento principal em Portugal:

Diploma O que trata
Lei n.º 102/2009 regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho: obrigações do empregador e do trabalhador
Decreto-Lei n.º 50/2005 requisitos mínimos de segurança dos equipamentos de trabalho, incluindo as máquinas CNC em uso na empresa
Decreto-Lei n.º 103/2008 transpõe a Diretiva Máquinas (2006/42/CE): requisitos das máquinas colocadas no mercado
Regulamento (UE) 2023/1230 substitui a Diretiva Máquinas; aplica-se a partir de 20 de janeiro de 2027
Decreto-Lei n.º 349/93 trabalho com equipamentos dotados de visor (o posto de CAD)

Regras de segurança da CNC que quem desenha deve conhecer, porque a peça vai lá parar:

Normas da qualidade e o desenho rigoroso

As normas da qualidade garantem que a peça final corresponde ao desenho, dentro da tolerância definida. O desenho rigoroso, com cotas corretas, geometrias fechadas e camadas organizadas, é já uma contribuição direta para essa qualidade: um erro no CAD é sempre mais barato de corrigir do que um erro já cortado numa peça de MDF.

Muitas empresas têm um sistema de gestão da qualidade certificado pela norma NP EN ISO 9001. Para quem desenha, isso traduz-se em regras concretas:

Lista de verificação antes de enviar para a CNC

# Verificar Como
1 Unidade em mm e escala 1:1 medir uma cota conhecida
2 Origem no sítio combinado coordenadas do canto de referência
3 Contornos fechados, sem duplicados propriedades da polilinha; comando de limpar duplicados
4 Elementos todos em Z = 0 propriedades
5 Camadas segundo a convenção desligar camada a camada
6 Profundidades menores do que a espessura, salvo cortes passantes rever a camada de cada operação
7 Cantos interiores compatíveis com o raio da fresa medir os raios
8 Nada perdido fora da peça enquadrar tudo
9 Nome do ficheiro e revisão corretos pasta do projeto
10 Ficheiro exportado reaberto e conferido reabrir e medir

Responsabilidade e respeito pelas regras e normas definidas são atitudes centrais desta UC. Um desenho descuidado transfere o risco, de retrabalho ou de segurança, para quem maquina a peça a seguir.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Desenhar em CAD-CAM peças planas de mobiliário e carpintaria segue sempre a mesma ordem: conhecer e personalizar o ambiente gráfico do software às características da peça, organizar o espaço de desenho com eixos, coordenadas e escala real, desenhar com os comandos certos, linha, polilinha, polígono, circunferência, elipse e arco, editar sem redesenhar, mover, rodar, espelhar, chanfrar, bolear e matrizes, organizar tudo em camadas e controlar a visualização em cada etapa, e por fim importar, converter e exportar ficheiros com verificação, sempre com o EPI, as normas de segurança e as normas da qualidade presentes do primeiro ao último clique. Domina este fluxo e qualquer peça plana, de qualquer software de CAD-CAM, se torna um desenho previsível e pronto para a máquina.

Exercícios resolvidos

1. Um painel mede 800 x 500 mm, com origem no canto inferior esquerdo. Quais as coordenadas dos quatro cantos?

Resolução: (0,0), (800,0), (800,500) e (0,500), seguindo a ordem inferior esquerdo, inferior direito, superior direito, superior esquerdo.

2. Uma fila de 6 furos para suportes de prateleira, espaçados 32 mm, começa a 40 mm do topo. A que distância do topo fica o último furo?

Resolução: 40 + 5 × 32 = 40 + 160 = 200 mm do topo. Usam-se 5 intervalos, não 6, porque o primeiro furo já está no ponto de partida.

3. Uma peça de 22 mm de espessura precisa de um rebaixo a meia espessura. Que profundidade se indica no desenho?

Resolução: 22 ÷ 2 = 11 mm. A espessura é uma propriedade da peça, associada ao painel escolhido, e a profundidade do rebaixo é uma cota ou propriedade à parte, nunca uma segunda linha de contorno sobreposta.

4. Um colega desenha todo o contorno de uma porta só com segmentos de linha soltos, em vez de uma polilinha. Porque é um problema?

Resolução: segmentos soltos dificultam a edição, porque cada um se move de forma independente, e podem impedir operações que exigem um contorno fechado e contínuo, como o preenchimento ou certas trajetórias de corte no CAM. Uma polilinha trata o contorno como um único elemento, coerente do início ao fim.

5. Chega à oficina um ficheiro DXF de um fornecedor. Como confirmar que a escala está correta antes de o usar?

Resolução: medir, dentro do software, uma cota conhecida do ficheiro importado, por exemplo um diâmetro de furo indicado no catálogo do fornecedor, e comparar com o valor esperado. Se baterem certo, a escala está correta; se aparecer um valor 10 vezes maior, menor, ou multiplicado por 25,4, há um erro de unidades a corrigir antes de continuar.

6. Porque é que exportar em DXF, em vez de gravar só no formato nativo do software, é geralmente boa prática?

Resolução: o DXF tem especificação publicada e de uso livre e é lido por praticamente todo o software de CAD-CAM, ao contrário de um formato proprietário que pode não abrir noutro programa. Sempre que o ficheiro vai sair da oficina, para um cliente, um subcontratado ou outra etapa da cadeia, o DXF reduz o risco de incompatibilidade. Grava-se também o nativo, porque guarda informação que o DXF perde.

7. A partir do ponto (100,100), que ponto se obtém com @80<90? E com @80<180?

Resolução: 0° aponta para a direita e os ângulos crescem no sentido anti-horário. A 90° o ponto sobe 80 mm: (100,180). A 180° o ponto vai 80 mm para a esquerda: (20,100).

8. Um recorte interior é fresado com uma fresa de 10 mm. Qual o menor raio possível nos cantos interiores?

Resolução: o raio da fresa, 10 ÷ 2 = 5 mm. Para cantos mais vivos é preciso uma fresa mais fina ou uma folga de canto (dog-bone) no desenho.

9. Um hexágono regular é desenhado inscrito numa circunferência de 300 mm de diâmetro. Quanto mede cada lado e qual a distância entre lados opostos?

Resolução: no hexágono regular inscrito, o lado é igual ao raio: 150 mm. A distância entre lados opostos é 300 x cos 30° = 300 x 0,866 ≈ 259,8 mm.

10. Seis furos são distribuídos por uma matriz circular de raio 120 mm, com o primeiro a 0°. Quais as coordenadas do terceiro furo, com o centro em (0,0)?

Resolução: o ângulo entre furos é 360 ÷ 6 = 60°; o terceiro furo está a 2 x 60° = 120°. X = 120 x cos 120° = 120 x (-0,5) = -60 mm; Y = 120 x sen 120° = 120 x 0,866 ≈ 103,9 mm.

11. Que plano de trabalho escolhes para desenhar dois furos de cavilha no topo da frente de uma prateleira deitada na mesa (X ao comprimento, Y à profundidade)?

Resolução: o topo da frente é perpendicular a Y e contém as direções X e Z: é o plano XZ (G18, em código ISO). No CAD 2D desenha-se a vista desse topo à parte, ou muda-se o sistema de coordenadas do utilizador.

12. Uma prateleira de 800 x 250 mm tem os quatro cantos boleados a raio 10 mm. Que comprimento de orla é preciso para a contornar toda?

Resolução: perímetro sem boleado: 2 x (800 + 250) = 2100 mm. Cada canto perde 2 x 10 = 20 mm de reta e ganha 2 x π x 10 ÷ 4 ≈ 15,7 mm de arco. Perímetro = 2100 - 4 x 20 + 4 x 15,7 = 2100 - 80 + 62,8 ≈ 2082,8 mm (mais a sobra de corte da orladora).