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UC · Unidade de Competência · UC02080

Sebenta · Conceber programas CNC para a maquinagem de peças de mobiliário e carpintaria

Algoritmo e programa, eixos e coordenadas, sistema ISO, ferramentas e compensação, tabela de pontos, simulação e deteção de erros em peças planas
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. CNC em Madeira e Mobili ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a conceber programas CNC para a maquinagem de peças planas de mobiliário e carpintaria, do desenho técnico da peça até ao programa verificado e pronto a aplicar numa máquina com comando numérico. Trabalha-se sobre fresadoras CNC, multifuradoras e centros de trabalho multifunções, os equipamentos comuns nas indústrias de madeira, mobiliário e carpintaria.

O título da UC diz tudo o que tens de saber fazer. Conceber é mais do que escrever código: é pensar a peça, escolher a origem, as ferramentas e a ordem das operações, e só depois traduzir essas decisões para instruções que a máquina entende. Programas CNC são essas instruções, escritas em código ISO ou no software próprio do fabricante. A maquinagem é o que a máquina faz com elas: furar, ranhurar, recortar, moldar e acabar. Peças de mobiliário e carpintaria são o teu campo: laterais, prateleiras, tampos, portas, fundos, peças de escadas, caixilhos, quase sempre peças planas feitas em painel (aglomerado, MDF, contraplacado, painel melamínico) ou em madeira maciça.

O percurso segue sempre a mesma lógica: definir as especificações técnicas da peça, preparar o programa (sistema de eixos, tabela de pontos, ferramentas), escrever o programa, simular para detetar erros e aplicar e verificar o resultado na peça maquinada. É o percurso de um técnico de CNC numa fábrica de mobiliário real.

Objetivos de aprendizagem (referencial): definir geometrias, medidas e outras especificações técnicas de uma peça para o programa de maquinagem CNC; aplicar o programa CNC para a maquinagem de peças planas; e verificar o funcionamento de programas CNC para a maquinagem de peças planas de mobiliário e carpintaria.

Como estudar com esta sebenta. Lê cada capítulo com papel quadriculado e lápis ao lado. Sempre que aparecer um exemplo resolvido, tapa a resolução e tenta fazê-lo sozinho antes de ler. Os capítulos 12 a 14 juntam tudo num programa completo: volta a eles no fim, porque é esse o tipo de trabalho que te vão pedir na avaliação e na empresa.

1. Algoritmo, programa e programa CNC

Algoritmo

Um algoritmo é uma sequência finita e ordenada de passos, sem ambiguidades, que resolve um problema. Tem um início, um fim e, pelo meio, ações e decisões. Uma receita de cozinha é um algoritmo; a folha de instruções de montagem de um móvel também.

As três características que um bom algoritmo tem de ter:

Característica O que significa Na maquinagem
Ordem os passos têm uma sequência fixa não se desce a ferramenta antes de a pôr a rodar
Precisão cada passo diz exatamente o que fazer "fura a 12 mm de profundidade", não "fura fundo"
Finitude termina ao fim de um número de passos o programa acaba e a máquina fica numa posição segura

Programa

Um programa é um algoritmo escrito numa linguagem que uma máquina consegue interpretar e executar. O algoritmo é a ideia; o programa é a ideia escrita "na língua" do executante. O mesmo algoritmo pode ser escrito em linguagens diferentes, tal como a mesma receita pode ser escrita em português ou em inglês.

Programa CNC

Um programa CNC é o algoritmo de maquinagem de uma peça escrito na linguagem do comando numérico da máquina. O comando lê o programa bloco a bloco (linha a linha) e, a cada bloco, move os eixos, liga ou desliga a rotação, troca a ferramenta, liga a aspiração ou termina o trabalho.

A máquina não pensa: faz exatamente o que o programa diz, nem mais, nem menos. Se o programa manda a ferramenta descer 30 mm numa peça de 18 mm, ela desce 30 mm e corta o que estiver por baixo. Por isso o algoritmo tem de estar certo antes de se escrever a primeira linha de código.

Exemplo resolvido: do algoritmo ao programa

Problema: fazer um furo de Ø 5 mm e 12 mm de profundidade no ponto X50 Y37 de uma prateleira de 18 mm de espessura.

Algoritmo (em português):

  1. Pôr a máquina em coordenadas absolutas e no plano XY.
  2. Chamar a broca de Ø 5 mm.
  3. Pôr a broca a rodar no sentido correto.
  4. Subir a uma altura segura e deslocar em rápido até ficar por cima do ponto X50 Y37.
  5. Descer em rápido até 2 mm acima da face da peça.
  6. Descer em avanço de trabalho até 12 mm de profundidade.
  7. Subir em rápido até à altura segura.
  8. Parar a rotação e terminar.

Programa (código ISO, zero peça no canto da prateleira e Z0 na face superior):

N10 G90 G17          (absolutas, plano XY)
N20 T1 M06           (broca de 5 mm)
N30 S4500 M03        (4500 rpm, sentido horário)
N40 G00 Z20          (altura segura)
N50 G00 X50 Y37      (por cima do furo)
N60 G00 Z2           (aproximação)
N70 G01 Z-12 F1500   (furação em avanço)
N80 G00 Z20          (saída em rápido)
N90 M05              (para a rotação)
N100 M30             (fim de programa)

Repara que cada passo do algoritmo deu um ou dois blocos. Os valores de rotação e de avanço são valores de exemplo: na prática tiram-se do catálogo do fabricante da ferramenta (capítulo 6).

Fluxograma

Para algoritmos com decisões (por exemplo, "se a peça tiver mais de 800 mm, divide o recorte em duas fixações"), desenha-se um fluxograma: retângulos para as ações, losangos para as decisões e setas para a ordem. É um bom hábito para peças com variantes: o fluxograma mostra logo os casos que o programa tem de prever.

Onde se aplica

Esta UC prepara para programar máquinas usadas nas indústrias de madeira e mobiliário e nas indústrias de carpintaria:

2. Sistema de eixos e coordenadas

O sistema cartesiano da máquina

As máquinas CNC movem-se segundo um sistema de eixos cartesiano de mão direita, definido pela norma ISO 841 (a mesma lógica usada em todas as máquinas-ferramentas). A regra da mão direita ajuda a lembrar: com a mão direita aberta, o polegar aponta no sentido positivo de X, o indicador no sentido positivo de Y e o dedo médio, dobrado, no sentido positivo de Z.

Eixo Definição Numa fresadora ou centro de trabalho de mobiliário
Z eixo da ferramenta (paralelo à árvore) vertical; Z positivo afasta a ferramenta da peça (sobe)
X eixo principal do plano de trabalho, em regra o de maior curso ao longo do comprimento da mesa
Y completa o triedro de mão direita ao longo da largura da mesa
A, B, C eixos rotativos em torno de X, Y e Z cabeças inclináveis ou rotativas de alguns centros de 5 eixos

Duas regras que evitam muitos erros:

Zero máquina, pontos de referência e zero peça

Todas as coordenadas partem de uma origem (ponto zero). Há vários "zeros" numa máquina e é essencial distingui-los:

Ponto Quem o define Para que serve
Zero máquina o fabricante, fixo origem do sistema de medida da máquina; é onde a máquina "se conhece"
Ponto de referência o fabricante posição que a máquina procura ao ligar (tomada de referências) para acertar os seus sistemas de medida
Zero peça (origem de peça) o programador origem das coordenadas do programa; normalmente um canto da peça ou o seu centro

O programa escreve-se sempre em relação ao zero peça. Na máquina, a distância entre o zero máquina e o zero peça fica guardada no comando como deslocamento de origem. Nos comandos ISO, essa origem de peça ativa-se com funções como G54 (e, em muitos comandos, G55 a G59 para outras origens). Nos centros de trabalho de mobiliário é comum a origem estar associada aos batentes (encostos) da mesa: a peça encosta aos batentes e o canto encostado é a origem.

Se o zero peça físico não coincidir com o do programa, toda a maquinagem sai deslocada da mesma quantidade: os furos, as ranhuras e o recorte ficam todos no sítio errado, mas certos entre si.

Onde fica o Z0

Em Z há duas convenções correntes:

Muitos softwares de fabricante pedem a profundidade como um valor positivo e fazem a conta sozinhos. Seja qual for a convenção, tem de estar escrita no cabeçalho do programa e na folha de preparação.

Exemplo resolvido: escolher o zero peça

Peça retangular de 400 x 300 x 18 mm, com uma fila de furos a 37 mm do bordo da frente, uma ranhura junto ao bordo de trás e o recorte do contorno.

  1. Observar o desenho: as cotas dos furos e da ranhura partem dos bordos da frente e da esquerda.
  2. Escolher um ponto fácil de localizar fisicamente e que coincida com a origem das cotas: o canto da frente, à esquerda.
  3. Fixar esse canto como X0 Y0 e a face superior como Z0.
  4. Consequência: as cotas do desenho passam diretamente para a tabela de pontos, sem contas (furo a 37 mm do bordo da frente: Y37).

Se a peça fosse simétrica (por exemplo, um tampo redondo), o centro seria melhor escolha: todos os pontos ficam simétricos em relação a X0 Y0.

Regra prática: o zero peça coloca-se onde começam as cotas do desenho e onde a peça encosta na máquina.

3. Coordenadas absolutas e incrementais

Há duas formas de dizer à máquina para onde vai a ferramenta.

Coordenadas absolutas (G90)

Cada posição refere-se sempre ao zero peça. O bloco indica o ponto de chegada, venha a ferramenta de onde vier. X100 Y50 quer dizer "vai para o ponto 100, 50 da peça".

Coordenadas incrementais (G91)

Cada posição refere-se à posição anterior da ferramenta. O bloco indica quanto a ferramenta anda, e em que sentido. X32 quer dizer "anda 32 mm no sentido positivo de X a partir de onde estás".

Característica Absolutas (G90) Incrementais (G91)
Referência zero peça posição anterior da ferramenta
Propagação de erros não sim
Leitura do desenho cotas a partir da origem (cotagem em paralelo) cotas em cadeia, de elemento para elemento
Uso típico peça em geral, contornos padrões repetidos, subprogramas

G90 e G91 são modais: ficam ativos até serem substituídos um pelo outro. O erro mais perigoso deste capítulo é passar para G91 para uma fila de furos e esquecer de voltar a G90: o bloco seguinte, pensado em absolutas, é lido como incremental e a ferramenta vai para um sítio completamente diferente.

Exemplo resolvido: três furos nos dois modos

Três furos alinhados em Y37, espaçados de 32 mm, o primeiro em X100.

Furo Absolutas (G90) Incrementais (G91), a partir do furo anterior
1 X100 Y37 (posicionamento inicial em G90: X100 Y37)
2 X132 Y37 X32 Y0
3 X164 Y37 X32 Y0

Em incrementais a mesma instrução repete-se, porque o passo é sempre igual. O primeiro furo posiciona-se em absolutas; só depois se passa a G91.

Exemplo resolvido: converter um contorno de absolutas para incrementais

Contorno de uma peça de 300 x 200 mm com os quatro cantos arredondados com raio 20 mm, percorrido no sentido horário a partir do ponto (0, 20).

Segmento Ponto final em absolutas Incremento (final menos inicial)
início X0 Y20 ·
reta X0 Y180 X0 Y160
arco X20 Y200 X20 Y20
reta X280 Y200 X260 Y0
arco X300 Y180 X20 Y-20
reta X300 Y20 X0 Y-160
arco X280 Y0 X-20 Y-20
reta X20 Y0 X-260 Y0
arco X0 Y20 X-20 Y20

Verificação: num contorno fechado, a soma dos incrementos tem de dar zero. Em X: 0 + 20 + 260 + 20 + 0 - 20 - 260 - 20 = 0. Em Y: 160 + 20 + 0 - 20 - 160 - 20 + 0 + 20 = 0. Se a soma não der zero, há um erro na tabela.

Método de conversão: incremento = coordenada final menos coordenada inicial, eixo a eixo. No sentido inverso, coordenada absoluta = coordenada absoluta anterior mais incremento.

4. Planos de trabalho-maquinagem

Um plano de trabalho-maquinagem é o plano definido por dois eixos no qual se faz a interpolação circular e a compensação do raio da ferramenta; o terceiro eixo, perpendicular a esse plano, é o eixo da ferramenta (a direção da profundidade).

Código ISO Plano Eixo perpendicular (ferramenta) Uso em mobiliário
G17 XY Z face superior das peças planas: furos, ranhuras, recortes, caixas
G18 XZ (também escrito ZX) Y trabalho nas faces laterais paralelas a X, com agregados ou cabeças inclináveis
G19 YZ X trabalho nas faces laterais paralelas a Y

G17 é o plano de arranque na maior parte dos comandos, mas escreve-se sempre no cabeçalho para não depender disso.

Porque o plano importa

Faces da peça nos centros de trabalho

Nos centros de trabalho de mobiliário, a face superior trabalha-se com a árvore vertical (G17). As faces laterais (topos e bordos) trabalham-se com unidades de furação horizontais ou com agregados (acessórios que desviam a ferramenta 90 graus), ou ainda com cabeças de 5 eixos. Nos softwares de fabricante, cada face da peça tem um número ou nome e o programador escolhe a face; o software trata do plano. Confirma sempre no manual da máquina como é feita essa escolha.

Exemplo resolvido: identificar o plano de cada operação

Lateral de roupeiro, deitada na mesa. Operações: furos de sistema na face (Ø 5 mm), furos de cavilha no topo de cima, rebaixo para uma dobradiça de livro no bordo da frente.

Operação Face Plano Eixo da ferramenta
Furos de sistema face superior XY (G17) Z
Furos de cavilha no topo (topo perpendicular a X) topo YZ (G19) X
Rebaixo no bordo da frente (bordo paralelo a X) bordo XZ (G18) Y

5. Etapas de elaboração e procedimentos preparatórios

Etapas de elaboração do programa

Escrever o programa CNC de uma peça ou componente de mobiliário ou carpintaria segue sempre as mesmas etapas:

  1. Analisar o desenho e as especificações técnicas: medidas, espessura, material, orientação do fio ou do veio decorativo, orlas, tolerâncias, quantidade.
  2. Definir o zero peça, a convenção de Z e a face de referência.
  3. Identificar os pontos notáveis e montar a tabela de pontos e coordenadas (capítulo 12).
  4. Escolher as ferramentas e os parâmetros de corte (capítulo 6).
  5. Definir a sequência de operações (capítulo 13).
  6. Escrever o programa, bloco a bloco, com comentários.
  7. Simular e corrigir (capítulo 15).
  8. Ensaiar na máquina, maquinar a primeira peça e verificar contra o desenho.

Organização da informação da programação

A informação de um programa não cabe na cabeça: organiza-se em documentos que acompanham o programa.

Documento Conteúdo
Desenho técnico (com versão) geometria e cotas da peça
Folha de preparação material, dimensões do bruto, zero peça, convenção de Z, fixação (ventosas, posição)
Tabela de pontos e coordenadas pontos notáveis e respetivas coordenadas, com a operação de cada ponto
Tabela de ferramentas número T, tipo, diâmetro, comprimento, material do cortante, rotação, avanço
Sequência de operações ordem das operações e ferramenta de cada uma
Programa nome do ficheiro, versão, data, autor

Um programa sem folha de preparação obriga o operador a adivinhar onde está o zero e como fixar a peça: é a receita de uma peça estragada.

Procedimentos preparatórios à maquinação

Antes de correr um programa numa máquina real, o técnico confirma:

Fixação por vácuo: um cálculo que deves saber fazer

Nos centros de trabalho de mobiliário, as peças fixam-se quase sempre por vácuo: ventosas ou mesa de vácuo. A força com que a peça é segura é a diferença de pressão (depressão) vezes a área útil da ventosa:

F = Δp × A

Exemplo resolvido: força de uma ventosa

Ventosa com área útil de 120 x 120 mm, depressão de 0,8 bar.

  1. Converter a depressão: 0,8 bar = 80 000 Pa = 0,08 N/mm² (1 bar = 100 000 Pa e 1 Pa = 1 N/m² = 0,000 001 N/mm²).
  2. Área útil: 120 x 120 = 14 400 mm².
  3. Força: F = 0,08 x 14 400 = 1152 N, cerca de 1150 N teóricos (o peso de uma massa de cerca de 117 kg).

Este é um valor teórico: fugas, superfícies porosas ou empenadas e juntas gastas baixam a força real. E repara no que acontece a uma peça pequena: se só couber uma ventosa de 50 x 50 mm, a área cai para 2500 mm² e a força para 0,08 x 2500 = 200 N, quase seis vezes menos. Peças pequenas seguram-se mal: pede avanços mais baixos, passagens mais leves ou deixar a peça presa ao painel por pequenas pontes até ao fim.

O ar comprimido de rede que alimenta os cilindros e as trocas de ferramenta anda tipicamente pelos 6 a 7 bar; o valor certo é o indicado pelo fabricante da máquina.

6. Ferramentas para a maquinagem com CNC

Tipos de ferramentas

Ferramenta Aplicação típica
Broca de ponta de centrar (com esporões) furos cegos de face: cavilhas, suportes de prateleira, ferragens; furo limpo, fundo plano
Broca de ponta cónica (passante) furos que atravessam a peça, com saída mais limpa na face de baixo
Broca de dobradiça (Ø 35 mm, a medida mais corrente para dobradiças de copa) caixas das dobradiças nas portas
Fresa de haste cilíndrica (reta ou helicoidal) recorte de contornos, ranhuras, rebaixos, caixas
Fresa de perfilar (fresa de forma) molduras, arredondados e chanfros de arestas
Disco de serra (num agregado ou unidade de serra) cortes retos, ranhuras estreitas e longas
Fresa de facejar / de desbaste rebaixar superfícies grandes

A escolha da ferramenta faz-se sempre no catálogo de ferramentas do fabricante, que indica o material a trabalhar, as rotações e os avanços recomendados.

Fresas helicoidais: sentido da hélice

As fresas helicoidais de haste têm arestas em hélice, e o sentido da hélice decide para onde vai a apara:

Tipo Comportamento Quando usar
Ascendente (hélice positiva) sobe a apara, boa evacuação ranhuras e furos fundos; pode lascar a face de cima
Descendente (hélice negativa) empurra a apara para baixo, bom acabamento em cima peças com acabamento só em cima; pode lascar a face de baixo e aquecer em ranhuras fundas
De compressão ascendente na zona de baixo e descendente na de cima painel melamínico ou folheado de duas faces: as duas faces saem limpas; a profundidade de corte tem de passar a zona de transição

Materiais do cortante

Material Características Uso típico
Aço rápido (HSS) afiável, barato, tenaz, dura pouco em painéis madeira maciça macia, séries curtas
Metal duro (HM) muito mais duro e resistente ao desgaste a escolha corrente em aglomerado, MDF e madeira maciça
Diamante policristalino (PCD) duração muito grande, ferramenta cara produção em série de aglomerado e MDF melamínicos, laminados

Rotação máxima admissível

As ferramentas para máquinas de trabalhar madeira trazem gravada a rotação máxima admissível (n max), exigência da norma EN 847-1. Nunca se programa uma rotação acima desse valor: a força centrífuga pode partir a ferramenta e projetar pedaços a grande velocidade.

Parâmetros de corte: velocidade de corte e avanço por dente

Dois números decidem se uma ferramenta corta bem ou mal: a velocidade de corte e o avanço por dente.

Velocidade de corte (vc) é a velocidade a que a aresta de corte passa pelo material. Em madeira dá-se normalmente em metros por segundo:

vc (m/s) = π × D × n / 60 000, com D em mm e n em rpm.

(Em m/min, a fórmula é π × D × n / 1000.)

Avanço por dente (fz) é a espessura de material que cada aresta tira a cada volta:

fz (mm) = F / (n × z), com F (avanço) em mm/min, n em rpm e z o número de arestas de corte (dentes).

E, ao contrário, para escolher o avanço a programar: F = fz × n × z.

Exemplo resolvido: velocidade de corte

Fresa de Ø 12 mm a 18 000 rpm.

  1. vc = π × 12 × 18 000 / 60 000
  2. π × 12 = 37,70; 37,70 × 18 000 = 678 584
  3. 678 584 / 60 000 = 11,3 m/s (cerca de 679 m/min)

Com a mesma rotação, uma fresa de Ø 8 mm dá π × 8 × 18 000 / 60 000 = 7,5 m/s: quanto mais pequeno o diâmetro, menor a velocidade de corte para a mesma rotação.

Exemplo resolvido: avanço por dente

Fresa de 2 arestas (z = 2) a 18 000 rpm, avanço F = 10 m/min.

  1. Converter o avanço: 10 m/min = 10 000 mm/min.
  2. fz = 10 000 / (18 000 × 2) = 10 000 / 36 000 = 0,28 mm por dente.

E ao contrário: se o catálogo recomendar fz = 0,25 mm para essa fresa, o avanço a programar é F = 0,25 × 18 000 × 2 = 9000 mm/min (9 m/min).

O que acontece quando o avanço por dente está errado

Avanço por dente Sintoma Consequência
Demasiado baixo a ferramenta "raspa" em vez de cortar, pó fino, marcas castanhas a madeira queima, a ferramenta aquece e gasta-se depressa
Adequado apara bem formada, superfície limpa boa qualidade e boa duração da ferramenta
Demasiado alto esforço excessivo, vibração, fibras arrancadas arranque de fibras, lascas, risco de partir a ferramenta e de soltar a peça

É um erro de principiante baixar o avanço "para ter cuidado": em madeira, avançar devagar demais com a ferramenta a rodar depressa queima a peça e estraga a ferramenta. Os valores certos vêm do catálogo.

7. Dimensões das ferramentas e compensação automática

As dimensões que o comando precisa de saber

Cada ferramenta tem dimensões próprias, guardadas na tabela de ferramentas do comando:

Estes valores medem-se num banco de pré-ajuste ou num apalpador da máquina, e registam-se no comando. Se a ferramenta for trocada por outra, as medidas têm de ser atualizadas.

Compensação do comprimento da ferramenta

Uma broca de 70 mm e uma fresa de 90 mm montadas na mesma máquina não ficam com a ponta à mesma altura. A compensação do comprimento faz com que Z-12 queira dizer "ponta da ferramenta 12 mm abaixo de Z0", seja qual for a ferramenta. Nos comandos ISO ativa-se com G43 (com o número do corretor, por exemplo G43 H1) e anula-se com G49; em muitos centros de trabalho de mobiliário é aplicada automaticamente na chamada da ferramenta. Confirma no manual.

Se o comprimento registado estiver errado, todas as profundidades saem erradas da mesma quantidade: 2 mm a mais no comprimento registado dão furos 2 mm menos fundos, 2 mm a menos dão furos 2 mm mais fundos (e, numa peça de 18 mm, podem furar de lado a lado).

Compensação do raio da ferramenta

O programador quer escrever o contorno da peça tal como está no desenho, e não o percurso do centro da ferramenta. A compensação automática do raio faz a conta: o comando desloca o centro da ferramenta, paralelamente ao contorno, a uma distância igual ao raio registado na tabela.

Código Função
G40 anula a compensação de raio (o centro da ferramenta segue o percurso programado)
G41 ferramenta à esquerda do percurso, olhando no sentido do movimento
G42 ferramenta à direita do percurso, olhando no sentido do movimento

Regras de uso:

Esquerda ou direita: fresagem concordante e discordante

Com a ferramenta a rodar no sentido horário (M03, o sentido das fresas de corte à direita):

A escolha entre concordante e discordante depende do material, da fixação e da ferramenta: segue a recomendação do fabricante. O importante é saber que trocar G41 por G42 põe a ferramenta do lado errado da linha, a cortar por dentro da peça.

Exemplo resolvido: ferramenta montada diferente da tabela

Contorno exterior de uma peça de 200 x 100 mm, programado com compensação de raio. Na tabela está registada uma fresa de Ø 6 mm (raio 3 mm), mas foi montada por engano uma fresa de Ø 8 mm (raio 4 mm), sem atualizar a tabela.

  1. O comando desloca o centro da ferramenta 3 mm para fora do contorno, porque é o raio que conhece.
  2. A fresa real tem 4 mm de raio: a aresta corta 4 - 3 = 1 mm para dentro do contorno, em todos os lados.
  3. Cada dimensão perde 1 mm de cada lado: a peça sai com 198 x 98 mm, mais pequena do que o desenho.
  4. Numa caixa interior, o mesmo erro fazia a caixa sair 2 mm maior em cada dimensão.
  5. No caso contrário (fresa real mais pequena do que a registada), a peça exterior sai maior e fica com material a mais.

Conclusão: a tabela de ferramentas do comando tem sempre de bater certo com as ferramentas realmente montadas. É também por isso que a compensação de raio é útil: com uma fresa afiada que perdeu 0,1 mm de diâmetro, corrige-se o raio na tabela e o programa fica igual.

8. Estrutura de um programa CNC e de um bloco

As partes de um programa

Um programa CNC bem organizado tem sempre as mesmas partes, pela mesma ordem:

Parte O que contém Exemplo
Cabeçalho identificação (nome, peça, versão, autor), unidades, modo de coordenadas, plano, origem de peça (LATERAL 400X300 V2) G90 G17 G54
Chamada de ferramenta seleção e troca da ferramenta, compensação do comprimento T1 M06
Rotação velocidade e sentido S4500 M03
Aproximação subida à altura segura, posicionamento em rápido, descida até perto da peça G00 Z20 G00 X136 Y37 G00 Z2
Maquinagem os movimentos de corte, em avanço G01 Z-12 F1500
Afastamento saída da peça em rápido até à altura segura G00 Z20
(repete-se chamada, rotação, aproximação, maquinagem e afastamento para cada ferramenta)
Fim paragem da rotação, recolha a posição segura, fim de programa M05 M30

Um programa com esta estrutura lê-se, revê-se e corrige-se muito mais depressa, por ti ou por um colega.

Estrutura de um bloco

Um bloco é uma linha do programa. É formado por palavras, cada uma com uma letra de endereço seguida de um número. A norma ISO 6983 define o formato; a ordem habitual das palavras num bloco é:

N40 G01 X50 Y30 Z-5 F3000
Palavra Significado
N número do bloco (sequência, normalmente de 10 em 10 para deixar espaço a blocos novos)
G função preparatória: tipo de movimento, plano, coordenadas, compensação
X, Y, Z coordenadas do ponto de chegada
I, J, K coordenadas do centro de um arco (segundo X, Y e Z)
R raio de um arco
F avanço (em mm/min, nas máquinas de mobiliário)
S rotação da árvore (rpm)
T número da ferramenta
M função auxiliar (rotação, troca de ferramenta, aspiração, fim)

Os comentários escrevem-se entre parênteses, na maior parte dos comandos ISO, e o comando ignora-os. Um bom programa tem comentários em cada mudança de ferramenta e de operação.

Na maior parte dos comandos a ordem das palavras dentro do bloco não altera o resultado, mas seguir a ordem habitual (N, G, coordenadas, F, S, T, M) torna o programa legível para todos. Alguns comandos limitam o número de funções G ou M de cada grupo por bloco: confirma no manual.

Instruções modais e não modais

Exemplo resolvido: ler um programa com instruções modais

N10 G90 G17
N20 G00 X100 Y50
N30 Z2
N40 G01 Z-5 F1500
N50 X200
N60 Y100 F3000
N70 G00 Z20
Bloco Movimento ativo Modo O que a máquina faz
N20 G00 G90 rápido até X100 Y50
N30 G00 (modal, vem de N20) G90 rápido até Z2
N40 G01 G90 desce a Z-5 a 1500 mm/min
N50 G01 (modal) G90 anda até X200, ainda a 1500 mm/min
N60 G01 (modal) G90 anda até Y100 a 3000 mm/min (novo F, também modal)
N70 G00 G90 sobe em rápido a Z20

Repara no bloco N30: não tem G, mas o movimento é em rápido, porque G00 continua ativo desde N20. Se o programador pensava que ia descer "com cuidado", enganou-se: é por isso que se escreve G00 ou G01 sempre que o tipo de movimento muda, e se confirma que nenhum movimento em rápido entra no material.

9. Sistema ISO: principais códigos G e M

Funções G (preparatórias)

Código Função Modal
G00 deslocamento rápido (posicionamento, sem corte) sim
G01 interpolação linear, em avanço de trabalho sim
G02 interpolação circular no sentido horário sim
G03 interpolação circular no sentido anti-horário sim
G04 pausa temporizada não
G17 / G18 / G19 plano XY / XZ / YZ sim
G40 / G41 / G42 compensação de raio anulada / à esquerda / à direita sim
G43 / G49 compensação do comprimento ativa / anulada (comandos tipo ISO) sim
G54 (a G59) origem de peça sim
G81 e seguintes ciclos fixos de furação (a sintaxe varia de comando para comando) sim
G90 / G91 coordenadas absolutas / incrementais sim

Funções M (auxiliares)

Código Função
M03 rotação da árvore no sentido horário (visto da árvore para a peça)
M04 rotação no sentido anti-horário
M05 paragem da rotação
M06 troca de ferramenta
M30 fim de programa, com regresso ao início do programa

No ISO, M08 e M09 ligam e desligam o refrigerante. Em madeira não se usa refrigerante: a aspiração e outras funções próprias da máquina (vácuo, batentes, cilindros) têm códigos M definidos pelo fabricante, que se consultam no manual.

O sentido de rotação tem de corresponder ao da ferramenta: uma fresa de corte à direita roda com M03; montada numa árvore a rodar com M04, não corta, queima e pode partir.

Interpolação circular: G02 e G03 com I, J ou R

Para programar um arco, o bloco indica o ponto final do arco e o centro (ou o raio):

O sentido horário (G02) ou anti-horário (G03) vê-se a partir do lado positivo do eixo perpendicular ao plano: em G17, olhando de cima para a mesa.

Verificação obrigatória de qualquer arco: a distância do centro ao ponto inicial tem de ser igual à distância do centro ao ponto final (é o raio). Se não for, o comando dá erro ou faz um arco diferente do desenhado.

Exemplo resolvido: os quatro cantos arredondados

Peça de 300 x 200 mm, cantos com raio 20 mm, zero no canto inferior esquerdo, contorno percorrido no sentido horário a partir de (0, 20), coordenadas absolutas.

Bloco Ponto inicial Ponto final Centro I J Verificação do raio
G02 X20 Y200 I20 J0 (0, 180) (20, 200) (20, 180) 20 - 0 = 20 180 - 180 = 0 centro-início 20; centro-fim 20
G02 X300 Y180 I0 J-20 (280, 200) (300, 180) (280, 180) 280 - 280 = 0 180 - 200 = -20 20 e 20
G02 X280 Y0 I-20 J0 (300, 20) (280, 0) (280, 20) 280 - 300 = -20 20 - 20 = 0 20 e 20
G02 X0 Y20 I0 J20 (20, 0) (0, 20) (20, 20) 20 - 20 = 0 20 - 0 = 20 20 e 20

Os quatro são G02 porque, percorrendo o exterior no sentido horário, cada canto também roda no sentido horário. Confirmação para o primeiro: o ponto inicial (0, 180) está à esquerda do centro (ângulo de 180 graus) e o final (20, 200) está por cima (90 graus); o ângulo diminui, logo o sentido é horário. Com raio, o primeiro bloco seria G02 X20 Y200 R20.

Se o mesmo contorno fosse percorrido no sentido anti-horário, todos os cantos passavam a G03 e a compensação de raio para o exterior passava de G41 para G42.

10. Controladores CNC e sistemas de fabricante

O ISO como base comum

O código ISO (norma ISO 6983, conhecido na oficina como "código G") é a base comum da programação CNC e o que se ensina primeiro, porque todos os sistemas assentam nas mesmas ideias: eixos, origem, ferramenta, rotação, avanço, movimentos rápidos e de trabalho. Os comandos numéricos de uso geral (há vários fabricantes internacionais de comandos) aceitam ISO com variantes próprias: ciclos fixos, parâmetros, subprogramas e funções M específicas mudam de comando para comando.

Sistemas próprios dos fabricantes do setor

Nos centros de trabalho para mobiliário e carpintaria, muitas máquinas não se programam em ISO puro. Os fabricantes de referência do setor fornecem software próprio, gráfico e paramétrico, em que o programador escolhe a face da peça, desenha ou indica as operações (furo, fresagem, corte com serra, caixa) numa lista ou numa janela, e o software gera o programa para a máquina. São exemplos conhecidos o woodWOP (HOMAG), o bSolid (Biesse) e o Maestro (SCM). Cada um tem a sua lógica de faces, de variáveis e de macros, que se aprende com o manual e a formação do fabricante.

Estes sistemas têm vantagens claras em mobiliário:

O pós-processador

Quando o programa sai de um CAD/CAM, é o pós-processador que o traduz para o dialeto exato daquele comando. Um pós-processador errado ou mal configurado produz um programa com códigos que a máquina interpreta de outra maneira: mais uma razão para simular sempre e para saber ler o código gerado.

O que se transfere entre sistemas

A competência que passa de uma máquina para outra é o raciocínio: zero peça, convenção de Z, tabela de pontos, escolha de ferramenta, sentido de fresagem, sequência de operações, verificação. A sintaxe aprende-se no manual de cada máquina. Quem só sabe carregar em botões num software gráfico, sem perceber o que ele gera, não consegue corrigir um erro quando ele aparece.

11. Instruções para as etapas do programa e da maquinagem

Cada etapa da maquinagem tem instruções próprias, e a ordem entre elas não é arbitrária: cada uma prepara a seguinte.

Etapa Instruções ISO Cuidados
Chamada ou troca de ferramenta T + M06 (compensação do comprimento, G43, onde for preciso) a árvore sobe a uma posição segura antes da troca
Rotação da ferramenta S + M03 (ou M04) S nunca acima da rotação máxima gravada; sentido certo para a ferramenta
Posicionamento G00 X Y a uma altura segura a altura segura passa acima de ventosas, grampos e batentes
Entrada da ferramenta G00 até perto da peça (Z2, por exemplo), depois G01 em Z nunca entrar no material em G00
Compensação do raio G41 ou G42 num movimento linear de entrada fora da peça, movimento maior do que o raio
Movimentos de corte G01, G02, G03 com F avanço tirado do catálogo
Saída G40 num movimento linear de saída; G00 em Z até à altura segura nunca deslocar em XY com a ferramenta dentro do material

Formas de entrar no material

Nunca deslocar em rápido (G00) com a ferramenta dentro do material, nem descer em G00 até à peça: é a causa mais comum de colisões, peças estragadas e ferramentas partidas.

Furação

A furação é a operação mais frequente no mobiliário de painel: furos de cavilha, de suportes de prateleira, de ferragens, de dobradiças.

Multifuração em pente e sistema 32

As multifuradoras e os centros de trabalho têm cabeças de furação múltiplas, com várias brocas verticais e horizontais montadas em linha (em "pente"), com os eixos espaçados de 32 mm. O programa escolhe que brocas descem, e a cabeça faz vários furos de uma só vez.

O sistema 32 é a convenção de construção de móveis de painel que tira partido destas cabeças:

Não é uma norma oficial de um organismo de normalização, mas é uma convenção muito usada na indústria mundial do mobiliário, e as ferragens de uso corrente estão preparadas para ela. Confirma sempre as medidas no catálogo da ferragem que vais usar.

Exemplo resolvido: fila de furos de sistema 32

Lateral de 400 mm de comprimento (em X). Pretende-se uma fila de furos de Ø 5 mm em Y37, centrada no comprimento, com 5 furos.

  1. Com 5 furos há 4 intervalos: 4 x 32 = 128 mm entre o primeiro e o último furo.
  2. Centrar no comprimento: o centro da peça é X200; o primeiro furo fica em 200 - 64 = X136 e o último em 200 + 64 = X264.
  3. Coordenadas: X136, X168, X200, X232, X264 (todas em Y37).
  4. Verificação: 264 - 136 = 128 = 4 x 32. Distância do primeiro furo ao topo esquerdo: 136 mm; do último ao topo direito: 400 - 264 = 136 mm. Simétrico.

12. Pontos notáveis e tabela de pontos e coordenadas

Pontos notáveis

Os pontos notáveis são os pontos de que o programa precisa para descrever a geometria e os movimentos:

Um contorno de peça em L tem 6 vértices; se os cantos forem arredondados, cada canto passa a ter dois pontos de tangência e um centro.

A tabela de pontos, coordenadas e instruções

A tabela é a ponte entre o desenho e o código. Para cada ponto indica as coordenadas e a instrução que o leva lá.

Exemplo resolvido: tabela de uma peça com cantos arredondados

Peça de 300 x 200 x 18 mm, cantos com raio 20, um furo passante de Ø 8 mm no centro. Zero no canto inferior esquerdo, Z0 na face superior.

Ponto X Y Z Instrução Observação
P0 -20 0 · G00, depois G01 com G41 até P1 ponto de entrada, fora da peça
P1 0 20 -18,5 G01 tangência, início do lado esquerdo
P2 0 180 -18,5 G01 tangência, fim do lado esquerdo
P3 20 200 -18,5 G02 I20 J0 tangência, fim do arco; centro C1 (20, 180)
P4 280 200 -18,5 G01 tangência
P5 300 180 -18,5 G02 I0 J-20 centro C2 (280, 180)
P6 300 20 -18,5 G01 tangência
P7 280 0 -18,5 G02 I-20 J0 centro C3 (280, 20)
P8 20 0 -18,5 G01 tangência
P9 0 20 -18,5 G02 I0 J20 centro C4 (20, 20); fecha em P1
P10 -20 40 · G01 com G40 ponto de saída, fora da peça
F1 150 100 -19 G01 (furo) centro do furo passante

A profundidade de -18,5 no contorno (e -19 no furo) assume que a peça está elevada sobre ventosas e que a ferramenta passa meio milímetro a um milímetro abaixo da face inferior sem tocar em nada; a posição das ventosas tem de estar longe do contorno e do furo. O centro do furo é o centro da peça: (300 / 2, 200 / 2) = (150, 100).

A entrada vem de P0 (-20, 0) para P1 (0, 20) com um movimento em diagonal de √(20² + 20²) ≈ 28 mm, maior do que o raio de uma fresa de Ø 12 mm (6 mm), como a compensação exige.

Alterações da tabela de pontos e coordenadas

A tabela raramente fica fechada à primeira. As alterações mais frequentes e o que fazer em cada uma:

Alteração Efeito na tabela Como fazer
Mudança do zero peça todas as coordenadas mudam, na mesma quantidade subtrair o deslocamento do zero a todas as coordenadas do eixo afetado
Mudança de uma medida da peça mudam os pontos que dependem dessa medida recalcular os pontos cotados a partir do lado que mudou
Operação nova (mais um furo) acrescentam-se pontos os existentes ficam iguais
Mudança de ferramenta com outro diâmetro com compensação de raio, a tabela fica igual; sem compensação (percurso do centro), muda tudo por isso se programa o contorno com compensação
Peça espelhada (lateral esquerda e direita) as coordenadas de um eixo trocam de sinal ou passam a "medida menos coordenada" X' = comprimento - X, e trocam o sentido dos arcos e a compensação

Cada alteração gera uma nova versão da tabela e do programa (V1, V2...), com data e motivo. Programar com uma tabela desatualizada é um erro difícil de ver só a olhar para o código.

Exemplo resolvido: mudança do zero peça

Na peça de 300 x 200 mm do exemplo anterior, o zero passa do canto inferior esquerdo para o centro da peça, (150, 100) no sistema antigo.

Regra: coordenada nova = coordenada antiga - coordenada do novo zero no sistema antigo.

Ponto Antigo (X, Y) Novo (X, Y)
P1 (0, 20) (0 - 150, 20 - 100) = (-150, -80)
P3 (20, 200) (-130, 100)
P5 (300, 180) (150, 80)
F1 (furo) (150, 100) (0, 0)

Nos arcos, I e J não mudam, porque são distâncias do ponto inicial ao centro, e essas distâncias não dependem de onde está o zero.

Exemplo resolvido: mudança de uma medida

A peça passa de 300 para 320 mm de comprimento, mantendo o zero no canto inferior esquerdo. Os pontos do lado direito (P4 a P7) e os centros C2 e C3 deslocam-se 20 mm em X: P4 passa a (300, 200), P5 a (320, 180), P6 a (320, 20), P7 a (300, 0). O furo central passa para X160 (320 / 2). Os pontos do lado esquerdo não mudam. Se o furo estivesse cotado a 150 mm do lado esquerdo, e não "ao centro", ficava em X150: por isso a alteração tem de ser lida no desenho, e não adivinhada.

13. Sequência de operações: furação, ranhuração, recorte, molde e acabamento

A ordem habitual

Numa peça plana de mobiliário e carpintaria, a ordem habitual das operações é:

  1. Furação (face e topos): furos de cavilha, de sistema, de ferragens, de dobradiças.
  2. Ranhuração: ranhuras de fundo, rebaixos, caixas.
  3. Recorte do contorno: primeiro um desbaste, se houver muito material, e depois a passagem de contorno.
  4. Molde (perfilagem): arredondados, chanfros, molduras nas arestas.
  5. Acabamento: passagem final leve de contorno ou de perfil, para a qualidade da superfície e das medidas.

Porque esta ordem

Exemplos de blocos por operação

Ranhura para o fundo (fresa de Ø 8 mm, ranhura de 8 mm de largura, 8 mm de fundo, em duas passagens de 4 mm, eixo em Y286, a atravessar a peça de 400 mm):

G00 X-10 Y286        (fora da peça, no eixo da ranhura)
G00 Z2
G01 Z-4 F2000        (1 passagem: desce fora da peça)
G01 X410 F6000       (atravessa a peça)
G01 Z-8 F2000        (2 passagem: desce do outro lado)
G01 X-10 F6000       (volta, agora a 8 mm)
G00 Z20

Sem compensação (G40), porque a largura da ranhura é o diâmetro da fresa: programa-se o eixo da ranhura. A ranhura fica entre Y282 e Y290 (286 - 4 e 286 + 4).

Recorte de um contorno exterior: entrada fora da peça, compensação G41, contorno completo, saída com G40 (ver o programa completo no capítulo 14). Em peças grossas ou madeira maciça dura faz-se em várias passagens de profundidade.

Molde de uma aresta com uma fresa de perfilar com rolamento guia ou com o perfil programado: percorre-se o contorno já recortado, à profundidade que dá o perfil desejado, com compensação conforme a ferramenta.

Acabamento: passagem final do contorno a toda a profundidade, deixando no desbaste uma sobre-espessura pequena (por exemplo, 0,5 mm) para esta passagem. Na compensação, a sobre-espessura consegue-se somando-a ao raio registado para o desbaste, sem mexer no programa.

Pontes e peças pequenas

No recorte em mesa de vácuo (nesting), as peças pequenas podem soltar-se no fim do corte e ser atiradas pela ferramenta. Soluções: recortar primeiro as peças pequenas e depois as grandes, deixar pequenas pontes de material (poucos milímetros de espessura) que se partem à mão no fim, ou fazer o recorte em duas passagens, com a última muito leve.

14. Programa completo de uma peça plana

Este capítulo junta tudo num caso completo, do desenho ao programa.

A peça

Lateral de um módulo de estante em aglomerado melamínico de 18 mm, acabada com 400 x 300 mm.

Folha de preparação

Item Decisão
Zero peça canto da frente, à esquerda, da peça acabada (o bruto vai de X-5 a X405 e de Y-5 a Y305)
Z0 face superior da peça
Fixação ventosas afastadas pelo menos 30 mm dos furos, da ranhura e do contorno
Altura segura Z20 (acima de tudo o que está na mesa)
Plano e coordenadas G17, G90 (com um troço em G91 na fila de trás, para treino)

Tabela de ferramentas

T Ferramenta Ø (mm) z n (rpm) F (mm/min) vc (m/s) fz (mm)
T1 broca de ponta de centrar, HM 5 2 4500 1500 1,2 ·
T2 fresa helicoidal ascendente, HM 8 2 18 000 6000 7,5 0,17
T3 fresa de compressão, HM 12 2 18 000 9000 11,3 0,25

Contas: vc(T1) = π x 5 x 4500 / 60 000 = 1,18 m/s; vc(T2) = π x 8 x 18 000 / 60 000 = 7,54 m/s; vc(T3) = π x 12 x 18 000 / 60 000 = 11,31 m/s; fz(T2) = 6000 / (18 000 x 2) = 0,167 mm; fz(T3) = 9000 / (18 000 x 2) = 0,25 mm. São valores de exemplo, dentro do habitual para estas ferramentas; na máquina seguem-se o catálogo e a rotação máxima gravada.

O programa

N10 (LATERAL 400X300X18 V1 - ZERO CANTO FRENTE ESQ - Z0 FACE SUP)
N20 G90 G17 G54 G40
N30 (FURACAO SISTEMA 32 - BROCA D5)
N40 T1 M06
N50 S4500 M03
N60 G00 Z20
N70 G00 X136 Y37
N80 G00 Z2
N90 G01 Z-12 F1500
N100 G00 Z2
N110 X168
N120 G01 Z-12
N130 G00 Z2
N140 X200
N150 G01 Z-12
N160 G00 Z2
N170 X232
N180 G01 Z-12
N190 G00 Z2
N200 X264
N210 G01 Z-12
N220 G00 Z2
N230 (FILA DE TRAS EM INCREMENTAIS)
N240 G00 Y263
N250 G91 G01 Z-14
N260 G00 Z14
N270 X-32
N280 G01 Z-14
N290 G00 Z14
N300 X-32
N310 G01 Z-14
N320 G00 Z14
N330 X-32
N340 G01 Z-14
N350 G00 Z14
N360 X-32
N370 G01 Z-14
N380 G00 Z14
N390 G90
N400 G00 Z20
N410 (RANHURA DO FUNDO - FRESA D8)
N420 T2 M06
N430 S18000 M03
N440 G00 X-10 Y286
N450 G00 Z2
N460 G01 Z-4 F2000
N470 G01 X410 F6000
N480 G01 Z-8 F2000
N490 G01 X-10 F6000
N500 G00 Z20
N510 (RECORTE DO CONTORNO - FRESA COMPRESSAO D12)
N520 T3 M06
N530 S18000 M03
N540 G00 X-20 Y-20
N550 G00 Z2
N560 G01 Z-18.5 F2000
N570 G41 G01 X0 Y0 F9000
N580 Y300
N590 X400
N600 Y0
N610 X-10
N620 G40 G01 X-20 Y-20
N630 G00 Z20
N640 M05
N650 M30

Verificação do programa, bloco a bloco

Blocos Verificação Resultado
N70 a N220 furos da frente em X136, 168, 200, 232, 264, todos em Y37 passo de 32 mm, 5 furos
N240 a broca está em X264 Y37 Z2; vai a Y263 a 2 mm da face, sem obstáculos primeiro furo de trás em X264 Y263
N250 a N380 em G91: Z-14 leva de Z2 a Z-12; Z14 volta a Z2; X-32 quatro vezes: 264, 232, 200, 168, 136 5 furos de trás, iguais aos da frente
N390 volta a G90 sem isto, o Z20 de N400 seria "subir mais 20 mm" e os blocos seguintes estariam todos errados
N440 a N500 ranhura com o eixo em Y286, de X-10 a X410, duas passagens de 4 mm ranhura de 8 mm entre Y282 e Y290, 8 mm de fundo, a 10 mm do bordo de trás
N540 a N560 a fresa desce em (-20, -20): a aresta fica a 14 mm do zero, fora do bruto (que começa em -5) mergulho fora do material
N570 entrada com G41 num movimento de √(20² + 20²) ≈ 28 mm, maior do que o raio (6 mm) compensação ativada corretamente
N580 a N610 contorno no sentido horário: para cima, para a direita, para baixo, para a esquerda; peça sempre à direita, ferramenta à esquerda (G41) fresagem concordante com M03
N610 o último lado passa 10 mm para lá do canto (X-10) o canto inicial fica completamente cortado
N620 G40 num movimento linear, fora da peça compensação anulada corretamente
N560 Z-18.5 atravessa os 18 mm da peça com 0,5 mm de folga as ventosas não podem estar debaixo do percurso

Repara nos blocos N110, N140, N170 e N200: só têm X, porque G00 continua ativo desde N100 (modal). E N120 não repete o F, porque F1500 ficou ativo desde N90.

A compensação do comprimento de cada ferramenta está a cargo do comando, com a chamada T; num comando que a exija de forma explícita, acrescenta-se G43 com o corretor da ferramenta a seguir a cada troca.

15. Simulação, ensaio e deteção de erros

Ferramentas de simulação

Antes de maquinar, o programa corre num simulador, que reproduz o percurso da ferramenta sem gastar material nem arriscar a máquina. Há simuladores no próprio comando da máquina, no software do fabricante e nos programas de CAD/CAM.

O que uma boa simulação mostra:

Simula-se sempre que o programa é novo ou foi alterado, mesmo que a alteração pareça pequena.

Ferramentas de deteção de erros

Erros de programação CNC

Tipo de erro Exemplo Sintoma Correção
Coordenadas trocar X por Y; esquecer o sinal menos em Z; ler mal uma cota furo ou contorno no sítio errado; ferramenta a cortar no ar ou a furar a mesa corrigir a tabela de pontos e o bloco
Modo de coordenadas ficar em G91 depois de uma fila de furos movimentos disparatados a partir desse bloco repor G90 logo a seguir ao troço incremental
Tipo de movimento G00 em vez de G01 a entrar no material colisão, ferramenta partida escrever G01 sempre que há corte
Arcos G02 em vez de G03; I e J errados arco ao contrário ou erro de raio no comando verificar sentido e distâncias ao centro
Compensação G41 em vez de G42; ativar num arco; raio errado na tabela ferramenta do lado errado, a cortar por dentro da peça; medidas erradas rever o lado e a entrada/saída lineares; medir a ferramenta
Ferramenta e parâmetros T errado; S acima da rotação máxima; F demasiado baixo furos com o diâmetro errado; queimaduras; risco de rutura confirmar a tabela de ferramentas e o catálogo
Sequência recorte antes da furação; ferramenta trocada tarde peça solta durante a furação; operação feita com a ferramenta errada reordenar as operações
Profundidade e fixação furo cego com profundidade maior do que a espessura; percurso por cima de uma ventosa furo que atravessa; ventosa cortada, peça solta confirmar espessura, Z0 e posição das ventosas

Exemplo resolvido: encontrar o erro

Programa para um furo em X50 Y50, peça de 18 mm, Z0 na face superior:

N10 G90 G17
N20 T1 M06
N30 S4500 M03
N40 G00 X50 Y50
N50 G00 Z-12
N60 G00 Z20
N70 M05
N80 M30
  1. N40: posiciona em rápido sem ter subido antes a uma altura segura; se a ferramenta estiver baixa, pode colidir. Falta um G00 Z20 antes.
  2. N50: desce até dentro da peça em rápido (G00). É o erro grave: a broca entra no material a velocidade de rápido e parte-se.
  3. Correção: N40 G00 Z20, N45 G00 X50 Y50, N50 G00 Z2, N55 G01 Z-12 F1500, e o resto igual. Repara que se usaram blocos intermédios (N45, N55): é para isso que se numera de 10 em 10.

Prevenir os erros

Os erros evitam-se antes de aparecerem: tabela de pontos completa e verificada, programa com estrutura fixa e comentários, compensação de raio em vez de contas à mão, altura segura sempre igual, G90 como regra e G91 só em troços curtos e fechados, simulação e ensaio sempre. Quando um erro aparece na máquina, corrige-se no programa, não "à mão" na peça, e regista-se a correção na nova versão.

16. Segurança, saúde no trabalho e normas da qualidade

Riscos principais e medidas

Risco Medidas
Contacto com a ferramenta em rotação ou com as partes móveis nunca entrar na área de trabalho com a máquina em ciclo; proteções (tapetes sensíveis, barreiras, cortinas de luz, para-choques) sempre ativas e nunca anuladas; botão de paragem de emergência à mão
Projeção de peças, de lascas ou de pedaços de ferramenta fixação verificada, ferramentas em bom estado, rotação dentro do máximo gravado, proteções no lugar
Pó de madeira captação na origem (aspiração ligada em todas as operações); máscara FFP2 ou FFP3 quando a aspiração não chega (limpezas, manutenção)
Ruído proteção auditiva junto das máquinas de corte
Enrolamento nada de luvas soltas, adornos, cabelo solto ou roupa larga junto de ferramentas em rotação
Manuseamento de painéis técnica correta de levantamento, ajuda de colegas ou equipamentos de elevação para painéis grandes

Equipamentos de proteção individual (EPI)

Óculos ou viseira de proteção, proteção auditiva, calçado de segurança, máscara de proteção respiratória quando indicada, e luvas apenas para manusear painéis com a máquina parada (nunca junto de ferramentas em rotação). O EPI não substitui as proteções da máquina: completa-as.

O pó de madeira

O pó de madeiras duras é um agente cancerígeno reconhecido. A Diretiva (UE) 2017/2398 fixou para o pó de madeira de folhosas (madeiras duras) um valor-limite de exposição profissional de 2 mg/m³ (média ponderada de 8 horas), aplicável a partir de 18 de janeiro de 2023; até essa data o valor era de 3 mg/m³. A melhor proteção é não deixar o pó chegar ao ar: aspiração bem dimensionada, ligada em todas as operações, e limpeza por aspiração, nunca com ar comprimido.

Legislação a conhecer

O manual de instruções da máquina é de leitura obrigatória antes de a operar e é a fonte certa para as regras de segurança de cada modelo.

Normas da qualidade

Qualidade, numa peça maquinada em CNC, é a peça corresponder ao desenho e às especificações, sempre, na série inteira. Na prática:

Erros comuns

Glossário

Síntese

Conceber um programa CNC para uma peça plana de mobiliário ou carpintaria segue sempre a mesma ordem: analisar a peça (geometrias, medidas, material, especificações) → escolher o zero peça, a convenção de Z, o plano e o modo de coordenadas → identificar os pontos notáveis e montar a tabela de pontos e coordenadasselecionar as ferramentas, com diâmetros, comprimentos e parâmetros de corte (vc, fz) → definir a sequência (furação, ranhuração, recorte, molde, acabamento) → escrever o programa com a estrutura cabeçalho, chamada de ferramenta, rotação, aproximação, maquinagem, afastamento e fim, usando os códigos G e M do ISO ou o software do fabricante → simular, detetar e corrigir erros → ensaiar, maquinar a primeira peça e verificar contra o desenho e as normas da qualidade, com segurança em todas as etapas. Domina este raciocínio e adaptas-te a qualquer comando ou software de fabricante.

Exercícios resolvidos

1. Distingue zero máquina de zero peça e explica em relação a qual deles se escreve o programa.

Resolução: o zero máquina é a origem fixa do sistema de medida da máquina, definida pelo fabricante; o zero peça é escolhido pelo programador para cada peça. O programa escreve-se sempre em relação ao zero peça, porque as cotas do desenho partem de um ponto da peça; o comando guarda a distância entre os dois (origem de peça, G54 nos comandos ISO).

2. Uma peça tem 4 furos em linha, espaçados de 32 mm. O primeiro está em X100 Y37. Escreve as posições em absolutas e em incrementais.

Resolução: absolutas: X100, X132, X164, X196 (todas em Y37). Incrementais: posiciona-se o primeiro em absolutas (X100 Y37) e depois, em G91, X32 três vezes. Verificação: 196 - 100 = 96 = 3 x 32. No fim, volta-se a G90.

3. Uma fresa de Ø 6 mm está registada na tabela, mas foi montada uma de Ø 8 mm, sem atualizar a tabela. O programa faz o contorno exterior de uma peça de 200 x 100 mm com compensação de raio. Com que medidas sai a peça?

Resolução: o comando afasta o centro 3 mm do contorno, mas a fresa tem 4 mm de raio: corta 1 mm a mais de cada lado. A peça sai com 198 x 98 mm, mais pequena do que o desenho. Numa caixa interior, o mesmo erro dava uma caixa 2 mm maior em cada dimensão.

4. Ordena as operações de uma peça com furos de cavilha, uma ranhura e contorno exterior: (a) recorte do contorno, (b) furação, (c) ranhuração.

Resolução: b, c, a: furação, ranhuração e, por fim, recorte. O recorte solta a peça e reduz a área de fixação, por isso vem depois das operações que precisam da peça bem presa.

5. Calcula a velocidade de corte de uma fresa de Ø 10 mm a 18 000 rpm, em m/s.

Resolução: vc = π x 10 x 18 000 / 60 000 = 565 487 / 60 000 = 9,4 m/s.

6. Uma fresa de 3 arestas roda a 16 000 rpm e o catálogo recomenda fz = 0,2 mm. Que avanço programas?

Resolução: F = fz x n x z = 0,2 x 16 000 x 3 = 9600 mm/min (9,6 m/min).

7. Um arco vai de (0, 180) a (20, 200), com centro em (20, 180). Escreve o bloco com I e J e confirma que o arco é possível.

Resolução: I = 20 - 0 = 20; J = 180 - 180 = 0. Distância do centro ao início: 20; do centro ao fim: 200 - 180 = 20. Iguais, o arco é possível. O ângulo passa de 180 para 90 graus (diminui), logo é horário: G02 X20 Y200 I20 J0 (ou G02 X20 Y200 R20).

8. Calcula a força teórica de uma ventosa de 140 x 115 mm com 0,7 bar de depressão.

Resolução: 0,7 bar = 70 000 Pa = 0,07 N/mm². Área: 140 x 115 = 16 100 mm². F = 0,07 x 16 100 = 1127 N.

9. O zero de uma peça muda do canto inferior esquerdo para um ponto 10 mm à direita (X10 no sistema antigo). O ponto P5 estava em X30 Y40. Onde fica agora?

Resolução: X novo = 30 - 10 = X20; Y não muda: Y40. Todos os pontos da tabela mudam da mesma quantidade em X.

10. Um programa tem G90 no bloco N10 e nunca mais repete essa função. As linhas seguintes continuam em absolutas?

Resolução: sim. G90 é modal: fica ativo até ser substituído por G91. Por isso é tão perigoso esquecer um G91 ativo: também ele continua até ser substituído.

11. Numa peça de 18 mm, com Z0 na face superior, qual a coordenada Z do fundo de um furo de 12 mm? E se Z0 estiver na face inferior?

Resolução: com Z0 em cima, Z-12. Com Z0 em baixo, a face superior está em Z18 e o fundo do furo em 18 - 12 = Z6.

12. Porque é obrigatório simular um programa CNC antes de o correr numa máquina real, e o que se faz a seguir à simulação?

Resolução: a simulação deteta colisões, percursos fora da peça ou dos limites e erros de coordenadas, de arcos e de compensação, sem gastar material nem arriscar a máquina. A seguir faz-se o ensaio na máquina com precaução (bloco a bloco, avanço reduzido ou em vazio) e mede-se a primeira peça antes de lançar a série.