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UC · Unidade de Competência · UC02079

Sebenta · Montar e configurar ferramentas dos centros de trabalho CNC para mobiliário e carpintaria

Seleção, medição, montagem e configuração de ferramentas em fresadoras e multifuradoras CNC para mobiliário e carpintaria
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. CNC em Madeira e Mobili ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta prepara-te para selecionar, medir, montar e configurar as ferramentas de um centro de trabalho CNC (fresadora, multifuradora ou centro multifunções) dedicado a mobiliário e carpintaria. É um trabalho de precisão: a peça final só sai com a geometria e as medidas do desenho técnico se a ferramenta certa estiver bem escolhida, corretamente medida, montada com rigor e configurada no comando da máquina com os valores reais.

O percurso desta UC segue sempre a mesma lógica, dos catálogos de ferramentas até à peça acabada: selecionar de acordo com o material e o acabamento, medir com paquímetro, graminho, comparador (e, quando existe, banco de pré-afinação), montar com o sistema de aperto correto e, por fim, configurar a máquina, preenchendo a tabela de ferramentas e, quando aplicável, preparando a cabeça de furação do Sistema 32.

Objetivos de aprendizagem (referencial): selecionar as ferramentas para as operações de maquinagem CNC de componentes de mobiliário e carpintaria; medir essas ferramentas; montá-las nos centros de trabalho CNC; e configurá-las, incluindo o preenchimento das tabelas de ferramentas da máquina.

Como estudar com esta sebenta. Cada capítulo corresponde a um tema do referencial e termina com, pelo menos, um exemplo resolvido. Refaz as contas com a calculadora, sem olhar para a resolução, e só depois confirma. No fim há um glossário, uma síntese e exercícios resolvidos para autoavaliação.

1. Da matéria-prima à peça maquinada

Um centro de trabalho CNC para mobiliário e carpintaria trabalha sobre madeira maciça e derivados (aglomerado de partículas, MDF, contraplacado, painéis melamínicos, OSB), transformando-os em componentes com a geometria exata do desenho técnico. Este desenho é o ponto de partida: indica cotas, furos, ranhuras, contornos, perfis e acabamentos pretendidos.

O percurso do desenho até à peça acabada passa por quatro etapas, que são as quatro realizações desta UC:

  1. Selecionar as ferramentas certas para cada operação, de acordo com o material e o acabamento.
  2. Medir as ferramentas antes de as levar à máquina.
  3. Montar as ferramentas no centro de trabalho, com o sistema de aperto correto.
  4. Configurar as ferramentas no comando, preenchendo a tabela de ferramentas da máquina.

Máquinas com CNC no setor

Máquina O que faz Ferramentas típicas
Fresadora CNC (router) contornos, rebaixos, ranhuras, perfis, gravação, esvaziamentos fresas de haste, porta-lâminas, brocas
Multifuradora CNC furação vertical e horizontal em série, ranhuras brocas em cabeça de furação, discos de ranhurar
Centro de trabalho multifunções junta fresagem, furação, corte com serra e, por vezes, orlagem árvore principal com magazine, cabeça de furação, agregados

Nas máquinas com mesa de ventosas ou de consola, a peça fica fixa por vácuo e a ferramenta desloca-se nos eixos X, Y e Z. O eixo Z é o eixo da ferramenta: nas máquinas de mobiliário é vertical, e o sentido positivo de Z afasta a ferramenta da peça. Por isso, o comprimento da ferramenta é tão importante: é com ele que o comando sabe onde está a ponta da ferramenta em Z.

Onde se aplica

Este conjunto de competências aplica-se em dois contextos do setor:

Em ambos os contextos, o mesmo princípio aplica-se: sem ferramenta certa, bem medida, bem montada e bem configurada, não há peça correta.

Exemplo · uma porta de armário. Uma porta de cozinha em MDF lacado de 19 mm pede: contorno exterior com canto arredondado, dois furos de copa de dobradiça de 35 mm e um perfil decorativo na face. São três operações e, no mínimo, três ferramentas: uma fresa de haste para o contorno, uma broca de dobradiça de 35 mm e uma fresa de perfil. Cada uma tem de ser escolhida, medida, montada e registada na tabela antes de a primeira porta sair.

2. Tipos de ferramentas e operações de maquinagem

Famílias de ferramentas e a sua função

Família Operação típica Observações
Broca furação de cavilhas, suportes de prateleira, ferragens passante ou de furo cego; rotação direita ou esquerda
Broca de dobradiça (copa) furo de fundo plano para a copa da dobradiça (tipicamente 35 mm) tem ponta centradora e fundo plano
Escareador cone de entrada para a cabeça de um parafuso escareado montado sobre a broca ou em mandril próprio
Fresa de haste contorno, rebaixo, ranhura, esvaziamento, entalhe cilíndrica, de topo, helicoidal
Fresa de perfil molduras, bordos arredondados, chanfros o perfil está na própria ferramenta
Porta-lâminas + lâminas aplanar, perfilar ou contornar com lâminas intercambiáveis troca-se a lâmina gasta, não a ferramenta
Disco de ranhurar ranhuras retas de largura constante (fundos de gaveta, costas) trabalha pela periferia
Serra circular (agregado) corte reto de painéis, esquadrejamento disco de dentes, grande diâmetro

Ferramentas de corte, desbaste e acabamento

Dentro de cada operação, distinguem-se ainda ferramentas pela função no processo:

A mesma geometria pode passar por uma ferramenta de desbaste e, depois, por uma de acabamento. Numa porta de maciço com perfil, por exemplo, uma fresa helicoidal esvazia o grosso do material e uma fresa de perfil faz a passagem final.

Fresas helicoidais: o sentido da hélice

As fresas de haste em metal duro são muitas vezes helicoidais. O sentido da hélice decide para onde vai a apara, e com isso onde a peça pode lascar:

Hélice Efeito Uso típico
Ascendente (corte para cima) sobe a apara, boa evacuação ranhuras e furos fundos; pode lascar a face de cima
Descendente (corte para baixo) empurra a apara para baixo, bom acabamento em cima faces visíveis de cima; pode lascar a face de baixo e evacua mal
De compressão ascendente na zona de baixo e descendente na de cima cortes passantes em painéis melamínicos de duas faces
Reta (dentes retos) sem componente axial usos gerais, contornos em maciço

Uma fresa de compressão só funciona se a profundidade de passagem cobrir a zona de transição entre as duas hélices, como indicado pelo fabricante. Com uma passagem demasiado baixa, só trabalha a parte ascendente e a face de cima do melamínico lasca.

Brocas para mobiliário

Exemplo resolvido · associar ferramentas a operações. Lateral de roupeiro em aglomerado melamínico de 18 mm: (1) furos de cavilha de 8 mm no topo (orla); (2) fila de furos de 5 mm para suportes de prateleira na face; (3) ranhura de 8 mm para as costas; (4) contorno passante com canto recortado.

  1. Furos no topo: broca de furo cego de 8 mm, em mandril horizontal da cabeça de furação.
  2. Fila de furos de 5 mm: broca de furo cego de 5 mm, em mandril vertical (Sistema 32, capítulo 10).
  3. Ranhura: disco de ranhurar com a espessura da ranhura, ou fresa de haste de 8 mm se a máquina não tiver disco.
  4. Contorno passante em melamínico de duas faces: fresa de compressão em metal duro, que evita lascar as duas faces.

3. Elementos e medidas das ferramentas

Toda a ferramenta de maquinagem CNC tem elementos que é preciso identificar antes de a selecionar, medir ou montar. O referencial pede: altura e diâmetro, encabadouro, comprimento útil, diâmetro de corte/furo, geometria do perfil de corte e dos cortantes, número de cortantes e sentido de rotação/corte.

Elementos constituintes

Elemento Definição
Encabadouro (haste) parte que fica presa no porta-ferramentas: cilíndrica (fresas e brocas de haste) ou com furo/cubo (discos, porta-lâminas)
Diâmetro do encabadouro medida da haste, que define a pinça ou o mandril a usar (por exemplo, 10, 12, 20 mm)
Altura / comprimento total dimensão da ferramenta de ponta a ponta
Comprimento útil (de corte) comprimento da zona com cortantes, que limita a profundidade de passagem
Diâmetro de corte/furo diâmetro que a ferramenta produz na peça
Cortantes (Z) arestas que retiram o material, em número variável (1, 2, 3, 4 ou mais)
Perfil de corte forma que a ferramenta deixa na peça: reto, raio, chanfro, moldura
Sentido de rotação/corte direita (horário, visto do lado da árvore para a ponta) ou esquerda

Não confundas diâmetro de corte com diâmetro do encabadouro: uma fresa de 6 mm pode ter haste de 8 mm, e um disco de ranhurar de 120 mm monta num veio muito mais fino.

Medidas a registar por ferramenta

Antes de montar qualquer ferramenta, registam-se sempre: o diâmetro de corte e a sua tolerância, o comprimento útil, o comprimento total (e, depois de montada, o comprimento da ferramenta no porta-ferramentas), o diâmetro e o tipo de encabadouro, o número de cortantes, o sentido de rotação e a rotação máxima admissível (n max) gravada na ferramenta. Este conjunto de dados é o que, mais tarde, entra na tabela de ferramentas do comando da máquina.

Comprimento útil não é comprimento de ferramenta. O comprimento útil diz até que profundidade a ferramenta consegue cortar. O comprimento que o comando usa para saber onde está a ponta da ferramenta em Z é medido a partir da referência do porta-ferramentas (face de encosto do cone) até à ponta, com a ferramenta já montada. Trocar um pelo outro na tabela dá corte à profundidade errada ou colisão.

Exemplo resolvido · ler a ficha de uma ferramenta

Uma fresa helicoidal do catálogo traz: diâmetro de corte 10 mm, comprimento útil 32 mm, comprimento total 80 mm, haste cilíndrica de 10 mm, Z = 2, hélice ascendente, rotação à direita, metal duro inteiriço, n max 24 000 rpm.

  1. Encabadouro: haste de 10 mm, logo pinça de 10 mm.
  2. Profundidade máxima: 32 mm de comprimento útil. Num painel de 19 mm, um corte passante numa só passagem cabe; num maciço de 40 mm, não.
  3. Rotação: à direita, a máquina tem de rodar no sentido horário (M03 em linguagem ISO).
  4. Limite: nunca programar mais do que 24 000 rpm, mesmo que a árvore o permita.
  5. Na bancada: confirma-se o diâmetro real, porque a ferramenta pode já ter sido afiada e ter um diâmetro ligeiramente inferior ao de catálogo.

4. Planos (superfícies) de maquinagem das ferramentas

Identificar os planos de maquinagem é saber, para cada ferramenta, com que parte corta e que superfície da peça consegue trabalhar. Há duas maneiras de olhar para isto.

Pela ferramenta: topo e periferia

Ferramenta Corta pelo topo Corta pela periferia Consequência
Broca sim não (só guia) só faz furos no sentido do seu eixo; não se desloca de lado
Fresa de topo sim sim pode entrar em profundidade (mergulho) e depois contornar
Fresa cilíndrica sem corte ao centro não sim não pode mergulhar a direito; entra pela borda ou em rampa
Disco de ranhurar / serra não sim trabalha num plano perpendicular ao seu eixo
Fresa de perfil depende sim o perfil forma-se na aresta ou na face da peça

Uma fresa que não corta ao centro, obrigada a mergulhar a direito, esmaga a madeira, aquece e pode partir. O catálogo indica se a fresa permite mergulho (entrada vertical).

Pela peça: face, orlas e ângulos

Exemplo resolvido · que ferramenta, que plano? Numa prateleira de 18 mm, é preciso: um furo de cavilha de 8 mm no topo e um rebaixo de 5 mm de fundo na face, a 20 mm da borda.

5. Materiais dos cortantes e comportamento nos materiais

Materiais dos cortantes

O material do cortante determina a performance e as aplicações recomendadas de cada ferramenta:

Material do cortante Característica Aplicação típica Manutenção
Aço rápido (HSS) tenaz, afia muito bem, desgasta-se depressa madeira maciça macia, perfis especiais, séries curtas afia-se com facilidade
Metal duro (HM) muito mais duro e resistente ao desgaste, mais frágil ao choque madeira maciça e derivados (MDF, aglomerado, contraplacado, melamínicos) afiação com mó de diamante, em serviço de afiação
Diamante policristalino (PCD) dureza muito elevada, duração muito longa em materiais abrasivos painéis melamínicos, MDF, aglomerado, em produção de grande volume afiação ou reconstrução só em serviço especializado

Na oficina, o metal duro é muitas vezes chamado "widia", que é, na origem, um nome de marca. Nos catálogos aparece como HM (do alemão Hartmetall) ou carboneto de tungsténio.

Comportamento das ferramentas nos diferentes materiais

Material a maquinar O que desgasta ou estraga Escolha habitual
Madeira maciça macia (pinho) fibras levantadas, resina que empasta HSS ou HM afiado, ângulo de saída grande
Madeira maciça dura (carvalho, faia) desgaste maior, risco de queimar em avanços baixos HM
MDF fibras e cola abrasivas, pó muito fino HM ou PCD
Aglomerado partículas e cola abrasivas, por vezes areia ou impurezas HM ou PCD
Melamínico revestimento duro e frágil, lasca nas bordas HM ou PCD, hélice de compressão
Contraplacado camadas com fio cruzado e cola, lasca à saída HM, hélice adequada à face visível

Verificar este comportamento é um dos critérios de desempenho da UC. Os sinais a observar são sempre os mesmos:

Sinal Causa provável Primeira verificação
Madeira queimada, cheiro a queimado avanço por dente muito baixo, ferramenta gasta avanço por dente; estado do gume
Lascas na face de cima ou de baixo hélice errada, gume gasto, avanço alto tipo de hélice; gume
Superfície ondulada, marcas regulares batimento (ferramenta descentrada), aperto fraco batimento com comparador
Vibração e ruído anormal aperto fraco, ferramenta desequilibrada, ferramenta demasiado saliente aperto e comprimento em balanço
Fibras arrancadas gume gasto, corte contra o fio, avanço por dente alto gume; sentido de passagem

Exemplo resolvido · escolher o material do cortante

Produção: 500 painéis melamínicos por semana, com contorno e ranhura.

  1. O revestimento melamínico e a cola do aglomerado são abrasivos: o HSS gastava-se depressa e obrigava a paragens frequentes para trocar e afiar.
  2. O metal duro aguenta bem este trabalho e é a escolha mínima.
  3. Se a produção for contínua, em vários turnos, compensa comparar com PCD: custa mais à compra, mas dura muito mais entre afiações. A decisão faz-se com o custo por metro cortado, a partir dos dados do fornecedor, e não pelo preço da ferramenta.

6. Selecionar e encomendar ferramentas

Selecionar a ferramenta certa é o primeiro critério de desempenho da UC: fazê-lo de acordo com os materiais a maquinar e o acabamento requerido.

O catálogo de ferramentas

O catálogo de ferramentas de um fabricante organiza a oferta por família (brocas, fresas, discos, serras, porta-lâminas), diâmetro, comprimento útil, tipo de encabadouro, material do cortante e aplicação recomendada. Cada ferramenta tem uma referência única. Os catálogos trazem, em regra, pictogramas dos materiais recomendados, a rotação máxima e uma tabela de parâmetros de corte recomendados.

Para selecionar corretamente, cruzam-se sempre estas informações:

Informação Onde se obtém
Operação pedida (furo, contorno, ranhura, perfil) desenho técnico da peça
Material a maquinar especificação da peça (maciço, MDF, aglomerado, melamínico)
Acabamento requerido desenho técnico ou caderno de encargos (face visível, orla a orlar, peça oculta)
Dimensões (diâmetro, profundidade, raios) cotas do desenho
Máquina disponível manual da máquina: encabadouro aceite, rotação máxima da árvore, potência, cabeça de furação

Critérios de decisão

  1. A operação define a família (capítulo 2).
  2. As cotas definem o diâmetro e o comprimento útil. Para uma ranhura de 8 mm usa-se uma fresa de 8 mm (ou menor, em várias passagens); para um canto interior com raio de 6 mm, uma fresa de diâmetro igual ou inferior a 12 mm.
  3. O material define o material do cortante e a hélice.
  4. O acabamento define se basta uma passagem ou se é preciso desbaste mais acabamento.
  5. A máquina confirma se a ferramenta pode ser montada: haste compatível com as pinças, rotação da árvore dentro da n max da ferramenta, espaço no magazine.

Exemplo resolvido · selecionar para uma porta de armário em MDF. Peça: porta em MDF de 19 mm, a lacar, com furos de copa de dobradiça de 35 mm, contorno exterior e bordo arredondado com raio de 3 mm.

  1. Furos de copa: furação de fundo plano; seleciona-se uma broca de dobradiça de 35 mm em metal duro, adequada a derivados.
  2. Contorno: corte passante em MDF; seleciona-se uma fresa helicoidal de metal duro, com comprimento útil superior a 19 mm.
  3. Bordo arredondado: seleciona-se uma fresa de perfil de raio 3 mm, com rolamento-guia ou programada pelo contorno.
  4. Confirma-se no catálogo que todas as referências são recomendadas para MDF e que a rotação máxima de cada uma é compatível com a da máquina.

Elaborar a encomenda de ferramentas

Quando uma ferramenta não está disponível, elabora-se a encomenda com rigor. Uma encomenda que só diz "uma fresa de 8" pode chegar com a haste errada, o material errado ou a hélice errada.

Campo da encomenda Exemplo
Fornecedor e referência do catálogo referência exata, copiada do catálogo em vigor
Designação fresa helicoidal de compressão, metal duro inteiriço
Diâmetro de corte × comprimento útil × comprimento total 12 × 42 × 100 mm
Encabadouro haste cilíndrica de 12 mm
Número de cortantes e sentido de rotação Z = 2 + 2, rotação à direita
Material a maquinar aglomerado melamínico de duas faces, 18 a 25 mm
Quantidade 2 (uma em uso e uma suplementar)
Prazo necessário data a partir da qual a produção precisa dela
Máquina e posição de destino centro de trabalho X, posição do magazine

Uma encomenda com a referência errada atrasa a produção e pode obrigar a refazer peças já iniciadas. Antes de enviar, confirma-se com o responsável e guarda-se cópia no registo de ferramentas.

7. Avanços e rotações das ferramentas

As grandezas

Três grandezas definem como a ferramenta trabalha:

Valores nominais e recomendados

As fórmulas

Velocidade de corte, com D em mm e n em rpm:

vc (m/s)   = π × D × n / 60 000
vc (m/min) = π × D × n / 1000

Rotação necessária para uma dada velocidade de corte:

n = vc (m/s) × 60 000 / (π × D)

Avanço por dente (ou por cortante), com Vf em mm/min:

fz (mm) = Vf / (n × Z)
Vf (mm/min) = fz × n × Z

Exemplos resolvidos · velocidade de corte

a) Fresa de 12 mm a 18 000 rpm.

vc = π × 12 × 18 000 / 60 000 ≈ 11,3 m/s   (≈ 679 m/min)

b) Fresa de 10 mm a 18 000 rpm.

vc = π × 10 × 18 000 / 60 000 ≈ 9,4 m/s   (≈ 565 m/min)

c) Disco de ranhurar de 120 mm a 6000 rpm.

vc = π × 120 × 6000 / 60 000 ≈ 37,7 m/s

Repara: o disco roda três vezes mais devagar do que a fresa e, mesmo assim, tem uma velocidade de corte três a quatro vezes maior. A velocidade de corte cresce com o diâmetro. É por isso que as ferramentas de grande diâmetro têm uma rotação máxima muito mais baixa.

d) Que rotação dá 20 m/s com uma fresa de 20 mm?

n = 20 × 60 000 / (π × 20) ≈ 19 100 rpm

Antes de programar, confirma-se que 19 100 rpm está abaixo do n max gravado na fresa e da rotação máxima da árvore.

A relação entre avanço e rotação

O que determina a qualidade do corte não é a rotação nem o avanço isoladamente, mas o avanço por dente (fz): a espessura de apara que cada cortante tira em cada volta.

Exemplo resolvido · calcular o avanço por dente. Uma fresa de 2 cortantes roda a 18 000 rpm e avança a 10 m/min (10 000 mm/min).

fz = 10 000 / (18 000 × 2) ≈ 0,28 mm por dente

Com a mesma fresa a 5 m/min, o fz cai para metade:

fz = 5000 / (18 000 × 2) ≈ 0,14 mm por dente

Se a fresa tivesse 3 cortantes, a 5 m/min, o fz descia para 5000 / (18 000 × 3) ≈ 0,09 mm. Para voltar aos 0,14 mm por dente seria preciso subir o avanço para 0,14 × 18 000 × 3 ≈ 7560 mm/min, cerca de 7,6 m/min.

Exemplo resolvido · definir o avanço a partir do catálogo. O catálogo de uma fresa de 2 cortantes para aglomerado melamínico indica, como exemplo de trabalho, fz entre 0,20 e 0,30 mm e rotação de 18 000 rpm. Que avanço programar?

Vf mínimo = 0,20 × 18 000 × 2 = 7200 mm/min  (7,2 m/min)
Vf máximo = 0,30 × 18 000 × 2 = 10 800 mm/min (10,8 m/min)

Começa-se no meio da gama (por exemplo 9 m/min, que dá fz = 0,25 mm), observa-se a peça e o comportamento da ferramenta, e ajusta-se. Se a máquina não consegue manter o avanço nos cantos, o fz real desce e pode aparecer queimado nessa zona.

Tabela de diagnóstico rápido

Sintoma Ajuste provável
Queimado, gume a aquecer subir o avanço ou descer a rotação (subir o fz); verificar o gume
Fibras arrancadas, bordos lascados descer o avanço ou subir a rotação (baixar o fz); verificar a hélice e o gume
Marcas onduladas regulares verificar batimento e aperto antes de mexer nos parâmetros
Máquina não atinge o avanço programado rever a potência disponível e a profundidade de passagem

8. Sistemas de aperto e porta-pinças de precisão

A ferramenta não trabalha sozinha: precisa de um sistema de aperto que a prenda com rigidez e concentricidade à árvore da máquina. O conjunto tem duas partes:

  1. A interface com a árvore (o cone do porta-ferramentas), que tem de ser igual à da máquina.
  2. O aperto da ferramenta dentro do porta-ferramentas (pinça, mandril hidráulico, aperto térmico, flange).

Interfaces com a árvore

Interface Como funciona Onde aparece
HSK (em madeira, muito usada a versão HSK-F63) cone oco curto; a árvore puxa-o por dentro e ele encosta no cone e na face ao mesmo tempo centros de trabalho de mobiliário com troca automática; boa rigidez e boa repetibilidade a rotações altas
ISO 30 cone longo, preso por um tirante (pino de retenção) aparafusado na cauda máquinas mais antigas e muitas fresadoras de gama média
Aperto direto da árvore a árvore recebe diretamente uma pinça ou a haste da broca eletromandris de fresadoras simples; mandris da cabeça de furação

O manual da máquina diz qual é a interface. Um cone de outra norma ou de outro tamanho não monta, e nunca se força.

Sistemas de aperto da ferramenta

Porta-pinças de precisão

Os porta-pinças de precisão garantem que a ferramenta fica centrada com erro mínimo (batimento baixo), o que é essencial em acabamentos finos e em ferramentas pequenas. Um batimento alto faz com que só um dos cortantes trabalhe de verdade: o acabamento piora, o furo ou a ranhura saem mais largos e a ferramenta gasta-se de um lado só.

Cuidados que se repetem sempre:

Exemplo resolvido · escolher o aperto certo. Ferramenta: fresa de acabamento com haste cilíndrica de 8 mm, para perfil numa face visível. Máquina: centro de trabalho com árvore HSK-F63.

  1. Seleciona-se um porta-pinças HSK-F63 com porca ER compatível.
  2. Escolhe-se uma pinça de 8 mm, limpa, sem marcas de desgaste.
  3. Insere-se a haste até ao comprimento mínimo indicado e aperta-se com a chave dinamométrica ao binário do fabricante.
  4. Verifica-se o batimento com o comparador: se passar a tolerância definida para o trabalho, desmonta-se, limpa-se de novo e, se persistir, troca-se a pinça antes de iniciar a produção.

9. Medir as ferramentas

Instrumentos de medição

A bancada de montagem e medição reúne os instrumentos que confirmam as medidas de uma ferramenta antes de esta ir para a máquina:

Instrumento Mede Cuidados
Paquímetro diâmetros, comprimentos, profundidades medir sobre cortantes opostos; com número ímpar de cortantes não dá o diâmetro diretamente
Graminho (de alturas) alturas e comprimentos a partir de uma superfície de referência usar sobre o desempeno, com a ferramenta montada em suporte
Comparador pequenos desvios: batimento radial e axial apoiar em suporte magnético; rodar a ferramenta devagar, à mão
Banco de pré-afinação (quando existe) comprimento e diâmetro da ferramenta já montada no porta-ferramentas mede fora da máquina e pode enviar os valores para o comando

Juntam-se ainda as ferramentas manuais de apoio (chaves de porca, chave dinamométrica, suporte de aperto para o porta-ferramentas) e o manual da máquina, com os procedimentos específicos de cada modelo. Muitas máquinas têm também um sensor de medição de ferramenta (de contacto ou laser) que mede o comprimento na própria máquina; nesse caso segue-se o procedimento do manual.

O que se mede, e com quê

Medida Instrumento Porque interessa
Diâmetro de corte paquímetro (ou pré-afinador) entra na compensação do raio; define a largura da ranhura
Comprimento útil paquímetro limita a profundidade de passagem
Comprimento da ferramenta montada graminho, pré-afinador ou sensor da máquina é o valor que o comando usa para saber onde está a ponta em Z
Batimento comparador define a qualidade do corte e a vida da ferramenta
Diâmetro da haste paquímetro escolha da pinça
Estado dos gumes inspeção visual, lupa gumes lascados ou gastos não se montam

Exemplo resolvido · medir e registar uma fresa.

  1. Limpar a ferramenta, o porta-ferramentas e os instrumentos.
  2. Medir o diâmetro de corte com o paquímetro, sobre cortantes opostos, em dois pontos ao longo do comprimento útil. Resultado: 11,96 mm (catálogo: 12 mm).
  3. Medir o comprimento útil: 42 mm.
  4. Montar no porta-ferramentas e medir o comprimento da ferramenta montada, da face de referência do cone até à ponta: 118,4 mm.
  5. Verificar o batimento com o comparador, rodando devagar: variação total de 0,01 mm, dentro da tolerância de 0,02 mm definida na ficha de trabalho.
  6. Registar: D = 11,96 mm; L = 118,4 mm. São estes valores, e não os do catálogo, que vão para a tabela de ferramentas.

Exemplo resolvido · medir o comprimento com o graminho. O porta-ferramentas está num suporte, com a face de referência do cone encostada a um bloco de 50,0 mm de altura sobre o desempeno. O graminho, levado à ponta da fresa, marca 168,4 mm a partir do desempeno.

comprimento da ferramenta = 168,4 - 50,0 = 118,4 mm

O resultado bate com o do exemplo anterior. Se não batesse, repetia-se a medição antes de registar.

10. Sistema 32 de multifuração CNC

O que é

O Sistema 32 é o padrão de furação mais usado no mobiliário de painel: os furos de montagem ficam alinhados em filas, com 32 mm de distância entre centros. A medida vem das primeiras máquinas de furação em linha, em que 32 mm era a distância mínima possível entre brocas vizinhas, acionadas por engrenagens. Com o tempo, as ferragens (dobradiças, calhas, suportes de prateleira, uniões) passaram a ser desenhadas para esta grelha, e a compatibilidade entre painéis, ferragens e máquinas de fabricantes diferentes tornou-se a grande vantagem do sistema.

Valores habituais (confirmar sempre no desenho e no catálogo das ferragens):

A cabeça de furação

As multifuradoras e os centros de trabalho de mobiliário têm uma cabeça de furação com vários mandris independentes, afastados de 32 mm:

Em muitas cabeças, os mandris são acionados por engrenagens e mandris vizinhos rodam em sentidos opostos. Por isso existem brocas de rotação direita e de rotação esquerda, com a marcação indicada pelo fabricante (muitas vezes por cor ou por letra). Uma broca de rotação direita montada num mandril que roda à esquerda não corta: aquece, queima o furo e estraga-se. Montar a broca no mandril com o sentido certo é parte essencial da configuração.

Montar brocas, escareadores e discos de ranhurar

  1. Ler o plano de furação e a configuração da cabeça no manual (que mandril roda em que sentido, que comprimento de broca aceita).
  2. Escolher as brocas pelo diâmetro, pelo tipo (furo cego ou passante) e pelo sentido de rotação de cada mandril.
  3. Montar cada broca até ao batente do mandril e apertar o parafuso de fixação.
  4. Se o furo leva escareador, montá-lo na broca à cota indicada (define a profundidade do cone de entrada).
  5. Montar o disco de ranhurar no seu veio, com o sentido de rotação e a espessura do disco confirmados, e apertar a porca.
  6. Registar na configuração da cabeça (no comando) o diâmetro, o tipo e o comprimento de cada broca, mandril a mandril.
  7. Fazer uma peça de ensaio e medir a posição, o diâmetro e a profundidade dos furos.

Exemplo resolvido · contar os furos de uma fila. Uma lateral de armário leva uma fila de furos de 5 mm para suportes de prateleira, do primeiro furo a 64 mm do topo até ao último a 640 mm do topo, com passo de 32 mm.

número de intervalos = (640 - 64) / 32 = 18
número de furos = 18 + 1 = 19

Se a cabeça tiver, por exemplo, 9 mandris verticais em linha a 32 mm, a fila de 19 furos faz-se em três descidas (9 + 9 + 1), com o programa a deslocar a cabeça entre elas. Com os mandris certos ativos, as três descidas fazem os 19 furos sem repetir nenhum.

Exemplo resolvido · preparar a cabeça para um plano de furação. Lateral de móvel com: furos de cavilha de 8 mm nos topos, fila de furos de 5 mm na face e ranhura para as costas.

  1. Mandris horizontais destinados aos topos: brocas de furo cego de 8 mm, cada uma com o sentido de rotação do seu mandril.
  2. Mandris verticais da fila: brocas de furo cego de 5 mm, alternando direita e esquerda conforme o mandril.
  3. Unidade de ranhurar: disco com a espessura da ranhura das costas.
  4. No comando, confirma-se que cada mandril tem registada a broca certa (diâmetro, tipo, comprimento) antes de correr o programa.

11. Ferramentas internas e externas, em magazine e suplementares

Ferramentas internas e externas

Nas fresadoras e multifuradoras CNC, distingue-se entre:

A gestão eficiente de um centro de trabalho passa por decidir que ferramentas devem estar sempre internas (uso frequente) e quais ficam externas (uso pontual). A designação exata pode variar de fabricante para fabricante; confirma sempre no manual da máquina.

O magazine

O magazine (ou armazém de ferramentas) guarda as ferramentas já montadas nos porta-ferramentas, para que a máquina as troque automaticamente durante o programa. Os tipos mais comuns são:

Tipo Como funciona
Revólver ou carrossel disco com posições, que roda até levar a ferramenta pedida ao ponto de troca; muitas vezes acompanha a cabeça
Linear posições em fila, geralmente na lateral ou na traseira da mesa; a árvore vai lá buscar a ferramenta
De cadeia muitas posições numa corrente, para máquinas com grande número de ferramentas

Cada posição do magazine tem um número. A tabela de ferramentas liga o número da ferramenta à posição onde ela está. Se a ferramenta for trocada de posição à mão e a tabela não for corrigida, a máquina vai buscar a ferramenta errada.

Ferramentas suplementares

Ferramentas suplementares são as de reserva: um segundo exemplar, medido e pronto, de uma ferramenta crítica, para repor uma posição gasta ou partida sem parar a produção. Boas práticas:

Exemplo resolvido · organizar um magazine de 8 posições. Produção semanal de cozinhas em melamínico. Ferramentas usadas todos os dias: fresa de compressão de 12 mm (contorno), fresa de 8 mm (ranhuras e esvaziamentos), broca de dobradiça de 35 mm. Uso semanal: fresa de perfil de raio 3 mm. Uso ocasional: fresa de gravar em V, porta-lâminas de aplanar.

12. A tabela de ferramentas do centro de trabalho CNC

Para que serve

A tabela de ferramentas é o registo no comando da máquina que liga cada ferramenta (e a sua posição física, na árvore, no magazine ou na cabeça de furação) aos seus dados reais. O programa diz "ferramenta 5, contornar esta geometria"; é a tabela que diz ao comando qual é o diâmetro e o comprimento da ferramenta 5, a que rotação pode rodar e em que sentido.

Muitos centros de trabalho de mobiliário (de fabricantes como Biesse, SCM ou Homag) programam-se em software próprio do fabricante e não em código ISO puro. Os nomes dos campos e dos menus mudam de máquina para máquina, mas a informação é a mesma. Aprende a lê-la no manual da tua máquina.

Campos habituais

Campo Conteúdo Se estiver errado
Número da ferramenta (T) identificação usada pelo programa a máquina chama outra ferramenta
Posição lugar no magazine ou mandril da cabeça vai buscar a ferramenta ao sítio errado
Tipo fresa, broca (cega ou passante), disco, serra, porta-lâminas o comando pode recusar ou usar a ferramenta numa operação para que não serve
Diâmetro diâmetro de corte real, medido peças maiores ou menores (compensação do raio errada)
Comprimento comprimento da ferramenta montada, medido desde a referência do cone até à ponta profundidade errada, corte em vazio ou colisão
Comprimento útil profundidade máxima de corte o comando não avisa se a passagem for mais funda do que a ferramenta aguenta
Sentido de rotação direita ou esquerda a ferramenta não corta, queima e pode partir
Rotação máxima n max da ferramenta a máquina pode rodar acima do admissível
Rotação e avanço de trabalho valores recomendados para o material queimado ou arranque de fibras
Desgaste / correções pequenas correções de diâmetro e comprimento após afiação acumula erro de peça para peça
Vida útil metros de corte ou tempo entre afiações a ferramenta é usada gasta

Porque é que o diâmetro conta: compensação do raio

Quando o programa manda contornar uma peça, o comando desloca o centro da fresa, afastado do contorno de metade do diâmetro registado na tabela (em ISO, com G41 ou G42). Se o diâmetro da tabela não for o diâmetro real, a peça sai errada.

Exemplo resolvido · diâmetro desatualizado. Uma fresa de acabamento foi afiada e passou de 10,00 mm para 9,92 mm, mas a tabela continua com 10,00 mm. Contorno exterior de uma peça de 400 × 300 mm.

  1. O comando afasta o centro da fresa 10,00 / 2 = 5,00 mm do contorno.
  2. O raio real da fresa é 9,92 / 2 = 4,96 mm.
  3. A aresta de corte fica 5,00 - 4,96 = 0,04 mm para fora do contorno, em cada lado.
  4. A peça sai com 400 + 2 × 0,04 = 400,08 mm por 300 + 2 × 0,04 = 300,08 mm.

Correção: medir, gravar 9,92 mm na tabela e fazer uma peça de ensaio. Num contorno interior (um recorte), o erro seria o contrário: o recorte sairia 0,08 mm mais pequeno.

Porque é que o comprimento conta

O comando usa o comprimento para saber onde está a ponta da ferramenta em Z. Um comprimento mal registado dá colisão (ferramenta mais comprida do que a tabela diz) ou corte em vazio / profundidade insuficiente (ferramenta mais curta do que a tabela diz).

Exemplo resolvido · comprimento errado. A tabela diz L = 120,0 mm; a fresa, remontada na pinça, mede afinal 118,5 mm. O programa pede um rebaixo de 8,0 mm de profundidade.

  1. A ferramenta real é 120,0 - 118,5 = 1,5 mm mais curta do que o comando pensa.
  2. A ponta fica 1,5 mm acima do previsto: o rebaixo sai com 8,0 - 1,5 = 6,5 mm.
  3. Num contorno passante de um painel de 19 mm, a fresa não atravessa: a peça fica presa ao painel por uma película de 1,5 mm.

Ao contrário, se a ferramenta fosse 1,5 mm mais comprida do que a tabela diz, desceria 1,5 mm mais: num corte passante isso é absorvido pelo painel de sacrifício, mas num rebaixo estraga a peça e, perto de ventosas ou de fixações, pode dar colisão.

Preencher a tabela: procedimento

  1. Medir a ferramenta montada (capítulo 9).
  2. Abrir a tabela de ferramentas no ecrã do comando, com a máquina em modo seguro.
  3. Criar ou abrir a ferramenta com o número (T) previsto no programa.
  4. Preencher tipo, diâmetro, comprimento, comprimento útil, sentido de rotação, rotação máxima e parâmetros de trabalho.
  5. Associar a ferramenta à posição do magazine onde foi colocada.
  6. Gravar e, se o comando permitir, fazer cópia da tabela.
  7. Correr o programa em simulação ou em vazio, se o procedimento da oficina o prever, e depois uma peça de ensaio.

13. Montar, carregar e descarregar ferramentas na árvore

A realização "montar as ferramentas nos centros de trabalho CNC" segue sempre a mesma sequência, com a máquina parada e em segurança.

Passo a passo da montagem no porta-ferramentas

  1. Confirmar que a ferramenta foi medida e está aprovada (gumes, diâmetro, batimento).
  2. Colocar o porta-ferramentas no suporte de aperto da bancada (nunca apertar com o cone preso na árvore da máquina, se o manual não o prever).
  3. Limpar o cone, o interior do porta-ferramentas, a pinça e a haste.
  4. Encaixar a pinça na porca e a porca no porta-pinças, como indica o fabricante.
  5. Inserir a haste até ao comprimento mínimo de aperto, sem encostar os cortantes à pinça.
  6. Apertar com a chave dinamométrica ao binário indicado pelo fabricante do porta-pinças.
  7. Medir o comprimento e o batimento, e registar.

Carga e descarga na árvore principal

A carga e descarga da ferramenta na árvore principal pode ser:

Nunca se carrega nem se descarrega uma ferramenta com a árvore em rotação, nem com a máquina em ciclo automático. Espera-se a paragem completa: as árvores de alta rotação continuam a rodar por inércia depois de desligadas. Mãos fora da área de trabalho enquanto a máquina estiver em ciclo.

Depois de carregar

Exemplo resolvido · montar e carregar uma fresa depois de medida. Fresa medida: D = 11,96 mm; haste de 12 mm; L montada = 118,4 mm. Máquina com HSK-F63 e magazine linear.

  1. Porta-pinças HSK-F63 limpo, no suporte de aperto; pinça de 12 mm limpa.
  2. Haste inserida ao comprimento mínimo de aperto, porca apertada com a chave dinamométrica ao binário do fabricante.
  3. Batimento verificado: dentro da tolerância.
  4. Tabela: ferramenta T5, fresa, D = 11,96, L = 118,4, rotação à direita, n max da ferramenta.
  5. Cone colocado na posição 5 do magazine, com a máquina no modo de carga previsto no manual.
  6. Primeira chamada da T5: confirmação no ecrã, rotação em vazio, peça de ensaio medida.

14. Segurança e saúde no trabalho, EPI

Riscos principais

Risco Onde aparece Prevenção
Corte manuseamento de ferramentas afiadas na bancada luvas de proteção contra corte com a máquina parada; segurar pelo porta-ferramentas, não pelos gumes
Arrastamento e entalamento árvore em rotação, cabeça em movimento proteções fechadas, nunca entrar na área de trabalho em ciclo; sem luvas, adornos, roupa larga ou cabelo solto junto de ferramentas em rotação
Projeção ferramenta partida ou mal apertada, peça que se solta aperto correto, n max respeitada, proteções e cortinas no lugar, óculos de proteção
Ruído fresagem e corte de painéis proteção auditiva
Pó de madeira toda a maquinagem, sobretudo MDF e madeiras duras aspiração na origem ligada e a funcionar; máscara FFP2 ou FFP3 quando a aspiração não chega

O que diz a lei (os pontos essenciais)

Regras da UC, na prática

  1. Máquina parada, e em modo seguro, antes de qualquer montagem, medição, limpeza ou troca.
  2. Esperar a paragem completa da árvore.
  3. Nunca desativar proteções, tapetes sensíveis, barreiras ou cortinas de luz "só por um bocadinho".
  4. Conhecer a localização dos botões de emergência antes de começar.
  5. Usar os EPI indicados para cada tarefa: óculos, proteção auditiva, calçado de segurança, máscara quando necessário, luvas contra corte apenas no manuseamento de ferramentas com a máquina parada.
  6. Nunca exceder a n max da ferramenta nem a do porta-ferramentas.
  7. Ferramentas partidas, lascadas ou fissuradas não se montam: separam-se e identificam-se.

15. Normas da qualidade

O ciclo de trabalho só está completo quando se aplicam as normas da qualidade. Nas empresas certificadas segundo a NP EN ISO 9001, isto aparece em procedimentos escritos; nas outras, é boa prática de oficina. Os pontos-chave:

Exemplo resolvido · um furo que sai 0,2 mm maior. Numa série de laterais, os furos de cavilha de 8 mm saem com 8,2 mm.

  1. O diâmetro de um furo feito por broca depende da própria broca, não da compensação de raio da tabela. Por isso, verifica-se primeiro a broca: diâmetro real e estado dos gumes.
  2. Se a broca mede 8,00 mm, verifica-se o batimento da broca no mandril: uma broca descentrada ou empenada abre o furo.
  3. Se a broca e o batimento estão bem, verifica-se se a peça está bem fixa (uma peça que se move durante a furação ovaliza o furo).
  4. Só se o furo for feito por fresa, em interpolação (a fresa descreve o círculo), é que o diâmetro na tabela entra no resultado.

Erros comuns

Glossário

Síntese

O trabalho com ferramentas de centros de trabalho CNC para mobiliário e carpintaria segue sempre a mesma ordem:

  1. Selecionar no catálogo, cruzando a operação, o material, o acabamento e a máquina; escolher família, diâmetro, comprimento útil, hélice e material do cortante (HSS, HM, PCD); encomendar com a referência exata e todos os dados quando falta uma ferramenta.
  2. Definir avanços e rotações: vc = π × D × n / 60 000 (m/s), fz = Vf / (n × Z), sempre abaixo da n max e dentro da gama recomendada.
  3. Medir com paquímetro, graminho, comparador ou pré-afinador: diâmetro real, comprimento montado, comprimento útil, batimento.
  4. Montar com o cone e a pinça certos, limpos, ao binário do fabricante; carregar e descarregar a árvore só com ela parada e segundo o manual.
  5. Configurar a máquina: tabela de ferramentas com os valores medidos, posições do magazine, internas e externas, suplementares, e a cabeça de furação do Sistema 32 com cada broca no mandril do seu sentido.
  6. Verificar: peça de ensaio, registo, verificação periódica, sob as normas de segurança e saúde no trabalho e as normas da qualidade.

Exercícios resolvidos

1. Uma lateral em aglomerado melamínico precisa de furos de cavilha de 8 mm no topo. Que ferramenta, que mandril e que material de cortante?

Resolução: uma broca de furo cego de 8 mm, montada num mandril horizontal da cabeça de furação (o furo é na orla), com o sentido de rotação desse mandril. Como o aglomerado melamínico é abrasivo, o cortante é, no mínimo, de metal duro.

2. Uma fresa de 3 cortantes roda a 18 000 rpm e avança a 6 m/min. Calcula o avanço por dente.

Resolução: fz = 6000 / (18 000 × 3) ≈ 0,11 mm por dente. Compara-se com a gama recomendada no catálogo para o material: se ficar abaixo, o risco é queimar; sobe-se o avanço ou desce-se a rotação.

3. Calcula a velocidade de corte, em m/s, de uma fresa de 16 mm a 18 000 rpm.

Resolução: vc = π × 16 × 18 000 / 60 000 ≈ 15,1 m/s (cerca de 905 m/min).

4. Que avanço programar para uma fresa de 2 cortantes a 20 000 rpm, se queres fz = 0,25 mm?

Resolução: Vf = 0,25 × 20 000 × 2 = 10 000 mm/min = 10 m/min.

5. Uma fresa de contorno foi afiada de 12,00 para 11,90 mm e a tabela não foi atualizada. Uma prateleira de 800 × 300 mm é contornada por fora. Com que medidas sai?

Resolução: o comando afasta o centro 6,00 mm; o raio real é 5,95 mm. Sobram 0,05 mm por lado: a prateleira sai com 800,10 × 300,10 mm. Corrige-se o diâmetro na tabela para 11,90 mm e faz-se peça de ensaio.

6. A tabela diz que a fresa tem 125,0 mm de comprimento; o pré-afinador mede 126,2 mm. O que acontece num rebaixo de 6 mm?

Resolução: a ferramenta é 1,2 mm mais comprida do que o comando pensa, por isso desce 1,2 mm a mais: o rebaixo sai com 7,2 mm. Corrige-se o comprimento para 126,2 mm antes de continuar.

7. Uma broca de 8 mm foi afiada. Que dados mudam e o que se faz?

Resolução: a afiação da ponta encurta a broca, por isso muda sobretudo o comprimento: os furos cegos saem menos fundos se a tabela (ou o batente do mandril) não for corrigida. Mede-se o comprimento e o diâmetro, corrige-se a configuração e faz-se peça de ensaio. Se o diâmetro tiver ficado fora da tolerância da cavilha, a broca é substituída, porque o diâmetro do furo é o da própria broca.

8. Uma fila de furos de 5 mm vai de 96 mm a 704 mm do topo, com passo de 32 mm. Quantos furos tem?

Resolução: (704 - 96) / 32 = 19 intervalos, logo 20 furos.

9. Um disco de ranhurar de 125 mm tem gravado n max = 8000 rpm. A máquina propõe 9000 rpm. Que fazes?

Resolução: nunca se excede a n max: programa-se 8000 rpm ou menos. A 8000 rpm, vc = π × 125 × 8000 / 60 000 ≈ 52,4 m/s, e ajusta-se o avanço para manter o avanço por dente recomendado.

10. Um colega quer usar luvas para trocar a fresa "mais depressa", com a árvore ainda a rodar devagar. O que lhe dizes?

Resolução: duas regras violadas: nunca se toca na ferramenta com a árvore em rotação (espera-se a paragem completa, em modo seguro) e nunca se usam luvas junto de ferramentas em rotação, porque podem ser agarradas. As luvas contra corte usam-se só a manusear a ferramenta com a máquina parada.