Sebenta · Montar e configurar ferramentas dos centros de trabalho CNC para mobiliário e carpintaria
- Introdução
- 1. Da matéria-prima à peça maquinada
- 2. Tipos de ferramentas e operações de maquinagem
- 3. Elementos e medidas das ferramentas
- 4. Planos (superfícies) de maquinagem das ferramentas
- 5. Materiais dos cortantes e comportamento nos materiais
- 6. Selecionar e encomendar ferramentas
- 7. Avanços e rotações das ferramentas
- 8. Sistemas de aperto e porta-pinças de precisão
- 9. Medir as ferramentas
- 10. Sistema 32 de multifuração CNC
- 11. Ferramentas internas e externas, em magazine e suplementares
- 12. A tabela de ferramentas do centro de trabalho CNC
- 13. Montar, carregar e descarregar ferramentas na árvore
- 14. Segurança e saúde no trabalho, EPI
- 15. Normas da qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta prepara-te para selecionar, medir, montar e configurar as ferramentas de um centro de trabalho CNC (fresadora, multifuradora ou centro multifunções) dedicado a mobiliário e carpintaria. É um trabalho de precisão: a peça final só sai com a geometria e as medidas do desenho técnico se a ferramenta certa estiver bem escolhida, corretamente medida, montada com rigor e configurada no comando da máquina com os valores reais.
O percurso desta UC segue sempre a mesma lógica, dos catálogos de ferramentas até à peça acabada: selecionar de acordo com o material e o acabamento, medir com paquímetro, graminho, comparador (e, quando existe, banco de pré-afinação), montar com o sistema de aperto correto e, por fim, configurar a máquina, preenchendo a tabela de ferramentas e, quando aplicável, preparando a cabeça de furação do Sistema 32.
Objetivos de aprendizagem (referencial): selecionar as ferramentas para as operações de maquinagem CNC de componentes de mobiliário e carpintaria; medir essas ferramentas; montá-las nos centros de trabalho CNC; e configurá-las, incluindo o preenchimento das tabelas de ferramentas da máquina.
Como estudar com esta sebenta. Cada capítulo corresponde a um tema do referencial e termina com, pelo menos, um exemplo resolvido. Refaz as contas com a calculadora, sem olhar para a resolução, e só depois confirma. No fim há um glossário, uma síntese e exercícios resolvidos para autoavaliação.
1. Da matéria-prima à peça maquinada
Um centro de trabalho CNC para mobiliário e carpintaria trabalha sobre madeira maciça e derivados (aglomerado de partículas, MDF, contraplacado, painéis melamínicos, OSB), transformando-os em componentes com a geometria exata do desenho técnico. Este desenho é o ponto de partida: indica cotas, furos, ranhuras, contornos, perfis e acabamentos pretendidos.
O percurso do desenho até à peça acabada passa por quatro etapas, que são as quatro realizações desta UC:
- Selecionar as ferramentas certas para cada operação, de acordo com o material e o acabamento.
- Medir as ferramentas antes de as levar à máquina.
- Montar as ferramentas no centro de trabalho, com o sistema de aperto correto.
- Configurar as ferramentas no comando, preenchendo a tabela de ferramentas da máquina.
Máquinas com CNC no setor
| Máquina | O que faz | Ferramentas típicas |
|---|---|---|
| Fresadora CNC (router) | contornos, rebaixos, ranhuras, perfis, gravação, esvaziamentos | fresas de haste, porta-lâminas, brocas |
| Multifuradora CNC | furação vertical e horizontal em série, ranhuras | brocas em cabeça de furação, discos de ranhurar |
| Centro de trabalho multifunções | junta fresagem, furação, corte com serra e, por vezes, orlagem | árvore principal com magazine, cabeça de furação, agregados |
Nas máquinas com mesa de ventosas ou de consola, a peça fica fixa por vácuo e a ferramenta desloca-se nos eixos X, Y e Z. O eixo Z é o eixo da ferramenta: nas máquinas de mobiliário é vertical, e o sentido positivo de Z afasta a ferramenta da peça. Por isso, o comprimento da ferramenta é tão importante: é com ele que o comando sabe onde está a ponta da ferramenta em Z.
Onde se aplica
Este conjunto de competências aplica-se em dois contextos do setor:
- Indústrias de madeira e mobiliário: produção em série de componentes de móveis (laterais, prateleiras, portas, frentes de gaveta), muitas vezes em painel melamínico.
- Indústrias de carpintaria: portas, janelas, caixilharias, escadas, revestimentos e estruturas, frequentemente em madeira maciça, em pequenas séries ou por medida.
Em ambos os contextos, o mesmo princípio aplica-se: sem ferramenta certa, bem medida, bem montada e bem configurada, não há peça correta.
Exemplo · uma porta de armário. Uma porta de cozinha em MDF lacado de 19 mm pede: contorno exterior com canto arredondado, dois furos de copa de dobradiça de 35 mm e um perfil decorativo na face. São três operações e, no mínimo, três ferramentas: uma fresa de haste para o contorno, uma broca de dobradiça de 35 mm e uma fresa de perfil. Cada uma tem de ser escolhida, medida, montada e registada na tabela antes de a primeira porta sair.
2. Tipos de ferramentas e operações de maquinagem
Famílias de ferramentas e a sua função
| Família | Operação típica | Observações |
|---|---|---|
| Broca | furação de cavilhas, suportes de prateleira, ferragens | passante ou de furo cego; rotação direita ou esquerda |
| Broca de dobradiça (copa) | furo de fundo plano para a copa da dobradiça (tipicamente 35 mm) | tem ponta centradora e fundo plano |
| Escareador | cone de entrada para a cabeça de um parafuso escareado | montado sobre a broca ou em mandril próprio |
| Fresa de haste | contorno, rebaixo, ranhura, esvaziamento, entalhe | cilíndrica, de topo, helicoidal |
| Fresa de perfil | molduras, bordos arredondados, chanfros | o perfil está na própria ferramenta |
| Porta-lâminas + lâminas | aplanar, perfilar ou contornar com lâminas intercambiáveis | troca-se a lâmina gasta, não a ferramenta |
| Disco de ranhurar | ranhuras retas de largura constante (fundos de gaveta, costas) | trabalha pela periferia |
| Serra circular (agregado) | corte reto de painéis, esquadrejamento | disco de dentes, grande diâmetro |
Ferramentas de corte, desbaste e acabamento
Dentro de cada operação, distinguem-se ainda ferramentas pela função no processo:
- Corte: separa uma peça do painel ou do maciço (por exemplo, o contorno passante de uma prateleira ou o corte com serra).
- Desbaste: remove muito material depressa, com menor exigência de acabamento. Usa cortes mais fundos e avanços por dente mais altos.
- Acabamento: dá à superfície a qualidade final. Retira pouco material (uma passagem leve) e procura marcas de corte pequenas e regulares.
A mesma geometria pode passar por uma ferramenta de desbaste e, depois, por uma de acabamento. Numa porta de maciço com perfil, por exemplo, uma fresa helicoidal esvazia o grosso do material e uma fresa de perfil faz a passagem final.
Fresas helicoidais: o sentido da hélice
As fresas de haste em metal duro são muitas vezes helicoidais. O sentido da hélice decide para onde vai a apara, e com isso onde a peça pode lascar:
| Hélice | Efeito | Uso típico |
|---|---|---|
| Ascendente (corte para cima) | sobe a apara, boa evacuação | ranhuras e furos fundos; pode lascar a face de cima |
| Descendente (corte para baixo) | empurra a apara para baixo, bom acabamento em cima | faces visíveis de cima; pode lascar a face de baixo e evacua mal |
| De compressão | ascendente na zona de baixo e descendente na de cima | cortes passantes em painéis melamínicos de duas faces |
| Reta (dentes retos) | sem componente axial | usos gerais, contornos em maciço |
Uma fresa de compressão só funciona se a profundidade de passagem cobrir a zona de transição entre as duas hélices, como indicado pelo fabricante. Com uma passagem demasiado baixa, só trabalha a parte ascendente e a face de cima do melamínico lasca.
Brocas para mobiliário
- Broca de furo cego: ponta centradora e dois esporões periféricos que cortam a fibra antes do corte principal. Dá um furo limpo, de fundo praticamente plano, para cavilhas e suportes.
- Broca passante: ponta cónica (em V), que atravessa o painel sem arrancar a face de saída. Usa-se para furos que atravessam a peça.
- Broca de dobradiça: grande diâmetro, fundo plano, para a copa da dobradiça. Nas máquinas de série é montada em mandril próprio da cabeça de furação ou trabalha na árvore principal.
Exemplo resolvido · associar ferramentas a operações. Lateral de roupeiro em aglomerado melamínico de 18 mm: (1) furos de cavilha de 8 mm no topo (orla); (2) fila de furos de 5 mm para suportes de prateleira na face; (3) ranhura de 8 mm para as costas; (4) contorno passante com canto recortado.
- Furos no topo: broca de furo cego de 8 mm, em mandril horizontal da cabeça de furação.
- Fila de furos de 5 mm: broca de furo cego de 5 mm, em mandril vertical (Sistema 32, capítulo 10).
- Ranhura: disco de ranhurar com a espessura da ranhura, ou fresa de haste de 8 mm se a máquina não tiver disco.
- Contorno passante em melamínico de duas faces: fresa de compressão em metal duro, que evita lascar as duas faces.
3. Elementos e medidas das ferramentas
Toda a ferramenta de maquinagem CNC tem elementos que é preciso identificar antes de a selecionar, medir ou montar. O referencial pede: altura e diâmetro, encabadouro, comprimento útil, diâmetro de corte/furo, geometria do perfil de corte e dos cortantes, número de cortantes e sentido de rotação/corte.
Elementos constituintes
| Elemento | Definição |
|---|---|
| Encabadouro (haste) | parte que fica presa no porta-ferramentas: cilíndrica (fresas e brocas de haste) ou com furo/cubo (discos, porta-lâminas) |
| Diâmetro do encabadouro | medida da haste, que define a pinça ou o mandril a usar (por exemplo, 10, 12, 20 mm) |
| Altura / comprimento total | dimensão da ferramenta de ponta a ponta |
| Comprimento útil (de corte) | comprimento da zona com cortantes, que limita a profundidade de passagem |
| Diâmetro de corte/furo | diâmetro que a ferramenta produz na peça |
| Cortantes (Z) | arestas que retiram o material, em número variável (1, 2, 3, 4 ou mais) |
| Perfil de corte | forma que a ferramenta deixa na peça: reto, raio, chanfro, moldura |
| Sentido de rotação/corte | direita (horário, visto do lado da árvore para a ponta) ou esquerda |
Não confundas diâmetro de corte com diâmetro do encabadouro: uma fresa de 6 mm pode ter haste de 8 mm, e um disco de ranhurar de 120 mm monta num veio muito mais fino.
Medidas a registar por ferramenta
Antes de montar qualquer ferramenta, registam-se sempre: o diâmetro de corte e a sua tolerância, o comprimento útil, o comprimento total (e, depois de montada, o comprimento da ferramenta no porta-ferramentas), o diâmetro e o tipo de encabadouro, o número de cortantes, o sentido de rotação e a rotação máxima admissível (n max) gravada na ferramenta. Este conjunto de dados é o que, mais tarde, entra na tabela de ferramentas do comando da máquina.
Comprimento útil não é comprimento de ferramenta. O comprimento útil diz até que profundidade a ferramenta consegue cortar. O comprimento que o comando usa para saber onde está a ponta da ferramenta em Z é medido a partir da referência do porta-ferramentas (face de encosto do cone) até à ponta, com a ferramenta já montada. Trocar um pelo outro na tabela dá corte à profundidade errada ou colisão.
Exemplo resolvido · ler a ficha de uma ferramenta
Uma fresa helicoidal do catálogo traz: diâmetro de corte 10 mm, comprimento útil 32 mm, comprimento total 80 mm, haste cilíndrica de 10 mm, Z = 2, hélice ascendente, rotação à direita, metal duro inteiriço, n max 24 000 rpm.
- Encabadouro: haste de 10 mm, logo pinça de 10 mm.
- Profundidade máxima: 32 mm de comprimento útil. Num painel de 19 mm, um corte passante numa só passagem cabe; num maciço de 40 mm, não.
- Rotação: à direita, a máquina tem de rodar no sentido horário (M03 em linguagem ISO).
- Limite: nunca programar mais do que 24 000 rpm, mesmo que a árvore o permita.
- Na bancada: confirma-se o diâmetro real, porque a ferramenta pode já ter sido afiada e ter um diâmetro ligeiramente inferior ao de catálogo.
4. Planos (superfícies) de maquinagem das ferramentas
Identificar os planos de maquinagem é saber, para cada ferramenta, com que parte corta e que superfície da peça consegue trabalhar. Há duas maneiras de olhar para isto.
Pela ferramenta: topo e periferia
| Ferramenta | Corta pelo topo | Corta pela periferia | Consequência |
|---|---|---|---|
| Broca | sim | não (só guia) | só faz furos no sentido do seu eixo; não se desloca de lado |
| Fresa de topo | sim | sim | pode entrar em profundidade (mergulho) e depois contornar |
| Fresa cilíndrica sem corte ao centro | não | sim | não pode mergulhar a direito; entra pela borda ou em rampa |
| Disco de ranhurar / serra | não | sim | trabalha num plano perpendicular ao seu eixo |
| Fresa de perfil | depende | sim | o perfil forma-se na aresta ou na face da peça |
Uma fresa que não corta ao centro, obrigada a mergulhar a direito, esmaga a madeira, aquece e pode partir. O catálogo indica se a fresa permite mergulho (entrada vertical).
Pela peça: face, orlas e ângulos
- Face superior do painel: furação vertical, fresagem de rebaixos, esvaziamentos e perfis.
- Orlas (topos e bordos): furação horizontal (cavilhas, excêntricos), fresagem de ranhuras laterais, contorno.
- Planos inclinados ou a ângulo: exigem agregados (cabeçotes de reenvio angular) ou máquinas de 5 eixos.
- Face inferior: normalmente não se trabalha sem virar a peça, porque está encostada às ventosas.
Exemplo resolvido · que ferramenta, que plano? Numa prateleira de 18 mm, é preciso: um furo de cavilha de 8 mm no topo e um rebaixo de 5 mm de fundo na face, a 20 mm da borda.
- O furo no topo está num plano horizontal: exige um mandril horizontal da cabeça de furação (ou um agregado); a árvore vertical não chega lá.
- O rebaixo na face é um trabalho vertical, com mergulho: exige uma fresa de topo (que corta ao centro) montada na árvore principal.
5. Materiais dos cortantes e comportamento nos materiais
Materiais dos cortantes
O material do cortante determina a performance e as aplicações recomendadas de cada ferramenta:
| Material do cortante | Característica | Aplicação típica | Manutenção |
|---|---|---|---|
| Aço rápido (HSS) | tenaz, afia muito bem, desgasta-se depressa | madeira maciça macia, perfis especiais, séries curtas | afia-se com facilidade |
| Metal duro (HM) | muito mais duro e resistente ao desgaste, mais frágil ao choque | madeira maciça e derivados (MDF, aglomerado, contraplacado, melamínicos) | afiação com mó de diamante, em serviço de afiação |
| Diamante policristalino (PCD) | dureza muito elevada, duração muito longa em materiais abrasivos | painéis melamínicos, MDF, aglomerado, em produção de grande volume | afiação ou reconstrução só em serviço especializado |
Na oficina, o metal duro é muitas vezes chamado "widia", que é, na origem, um nome de marca. Nos catálogos aparece como HM (do alemão Hartmetall) ou carboneto de tungsténio.
Comportamento das ferramentas nos diferentes materiais
| Material a maquinar | O que desgasta ou estraga | Escolha habitual |
|---|---|---|
| Madeira maciça macia (pinho) | fibras levantadas, resina que empasta | HSS ou HM afiado, ângulo de saída grande |
| Madeira maciça dura (carvalho, faia) | desgaste maior, risco de queimar em avanços baixos | HM |
| MDF | fibras e cola abrasivas, pó muito fino | HM ou PCD |
| Aglomerado | partículas e cola abrasivas, por vezes areia ou impurezas | HM ou PCD |
| Melamínico | revestimento duro e frágil, lasca nas bordas | HM ou PCD, hélice de compressão |
| Contraplacado | camadas com fio cruzado e cola, lasca à saída | HM, hélice adequada à face visível |
Verificar este comportamento é um dos critérios de desempenho da UC. Os sinais a observar são sempre os mesmos:
| Sinal | Causa provável | Primeira verificação |
|---|---|---|
| Madeira queimada, cheiro a queimado | avanço por dente muito baixo, ferramenta gasta | avanço por dente; estado do gume |
| Lascas na face de cima ou de baixo | hélice errada, gume gasto, avanço alto | tipo de hélice; gume |
| Superfície ondulada, marcas regulares | batimento (ferramenta descentrada), aperto fraco | batimento com comparador |
| Vibração e ruído anormal | aperto fraco, ferramenta desequilibrada, ferramenta demasiado saliente | aperto e comprimento em balanço |
| Fibras arrancadas | gume gasto, corte contra o fio, avanço por dente alto | gume; sentido de passagem |
Exemplo resolvido · escolher o material do cortante
Produção: 500 painéis melamínicos por semana, com contorno e ranhura.
- O revestimento melamínico e a cola do aglomerado são abrasivos: o HSS gastava-se depressa e obrigava a paragens frequentes para trocar e afiar.
- O metal duro aguenta bem este trabalho e é a escolha mínima.
- Se a produção for contínua, em vários turnos, compensa comparar com PCD: custa mais à compra, mas dura muito mais entre afiações. A decisão faz-se com o custo por metro cortado, a partir dos dados do fornecedor, e não pelo preço da ferramenta.
6. Selecionar e encomendar ferramentas
Selecionar a ferramenta certa é o primeiro critério de desempenho da UC: fazê-lo de acordo com os materiais a maquinar e o acabamento requerido.
O catálogo de ferramentas
O catálogo de ferramentas de um fabricante organiza a oferta por família (brocas, fresas, discos, serras, porta-lâminas), diâmetro, comprimento útil, tipo de encabadouro, material do cortante e aplicação recomendada. Cada ferramenta tem uma referência única. Os catálogos trazem, em regra, pictogramas dos materiais recomendados, a rotação máxima e uma tabela de parâmetros de corte recomendados.
Para selecionar corretamente, cruzam-se sempre estas informações:
| Informação | Onde se obtém |
|---|---|
| Operação pedida (furo, contorno, ranhura, perfil) | desenho técnico da peça |
| Material a maquinar | especificação da peça (maciço, MDF, aglomerado, melamínico) |
| Acabamento requerido | desenho técnico ou caderno de encargos (face visível, orla a orlar, peça oculta) |
| Dimensões (diâmetro, profundidade, raios) | cotas do desenho |
| Máquina disponível | manual da máquina: encabadouro aceite, rotação máxima da árvore, potência, cabeça de furação |
Critérios de decisão
- A operação define a família (capítulo 2).
- As cotas definem o diâmetro e o comprimento útil. Para uma ranhura de 8 mm usa-se uma fresa de 8 mm (ou menor, em várias passagens); para um canto interior com raio de 6 mm, uma fresa de diâmetro igual ou inferior a 12 mm.
- O material define o material do cortante e a hélice.
- O acabamento define se basta uma passagem ou se é preciso desbaste mais acabamento.
- A máquina confirma se a ferramenta pode ser montada: haste compatível com as pinças, rotação da árvore dentro da n max da ferramenta, espaço no magazine.
Exemplo resolvido · selecionar para uma porta de armário em MDF. Peça: porta em MDF de 19 mm, a lacar, com furos de copa de dobradiça de 35 mm, contorno exterior e bordo arredondado com raio de 3 mm.
- Furos de copa: furação de fundo plano; seleciona-se uma broca de dobradiça de 35 mm em metal duro, adequada a derivados.
- Contorno: corte passante em MDF; seleciona-se uma fresa helicoidal de metal duro, com comprimento útil superior a 19 mm.
- Bordo arredondado: seleciona-se uma fresa de perfil de raio 3 mm, com rolamento-guia ou programada pelo contorno.
- Confirma-se no catálogo que todas as referências são recomendadas para MDF e que a rotação máxima de cada uma é compatível com a da máquina.
Elaborar a encomenda de ferramentas
Quando uma ferramenta não está disponível, elabora-se a encomenda com rigor. Uma encomenda que só diz "uma fresa de 8" pode chegar com a haste errada, o material errado ou a hélice errada.
| Campo da encomenda | Exemplo |
|---|---|
| Fornecedor e referência do catálogo | referência exata, copiada do catálogo em vigor |
| Designação | fresa helicoidal de compressão, metal duro inteiriço |
| Diâmetro de corte × comprimento útil × comprimento total | 12 × 42 × 100 mm |
| Encabadouro | haste cilíndrica de 12 mm |
| Número de cortantes e sentido de rotação | Z = 2 + 2, rotação à direita |
| Material a maquinar | aglomerado melamínico de duas faces, 18 a 25 mm |
| Quantidade | 2 (uma em uso e uma suplementar) |
| Prazo necessário | data a partir da qual a produção precisa dela |
| Máquina e posição de destino | centro de trabalho X, posição do magazine |
Uma encomenda com a referência errada atrasa a produção e pode obrigar a refazer peças já iniciadas. Antes de enviar, confirma-se com o responsável e guarda-se cópia no registo de ferramentas.
7. Avanços e rotações das ferramentas
As grandezas
Três grandezas definem como a ferramenta trabalha:
- Rotação (n): velocidade a que a árvore roda, em rotações por minuto (rpm). Em linguagem ISO, programa-se com a letra S.
- Velocidade de avanço (Vf): velocidade a que a ferramenta se desloca pela peça. Em madeira dá-se muitas vezes em m/min; o comando ISO recebe-a normalmente em mm/min, com a letra F.
- Velocidade de corte (vc): velocidade da aresta de corte. Em madeira dá-se normalmente em m/s.
Valores nominais e recomendados
- Valores nominais: os valores de referência do fabricante. O mais importante é a rotação máxima admissível (n max), gravada na própria ferramenta, como exigem as normas europeias de segurança das ferramentas para madeira (família EN 847). A n max nunca se excede, seja qual for a rotação que a máquina permita.
- Valores recomendados: a gama de rotação, velocidade de corte e avanço por dente que o catálogo aconselha para cada material. Dentro dessa gama ajusta-se ao caso real (tipo de peça, fixação, acabamento pretendido).
As fórmulas
Velocidade de corte, com D em mm e n em rpm:
vc (m/s) = π × D × n / 60 000
vc (m/min) = π × D × n / 1000
Rotação necessária para uma dada velocidade de corte:
n = vc (m/s) × 60 000 / (π × D)
Avanço por dente (ou por cortante), com Vf em mm/min:
fz (mm) = Vf / (n × Z)
Vf (mm/min) = fz × n × Z
Exemplos resolvidos · velocidade de corte
a) Fresa de 12 mm a 18 000 rpm.
vc = π × 12 × 18 000 / 60 000 ≈ 11,3 m/s (≈ 679 m/min)
b) Fresa de 10 mm a 18 000 rpm.
vc = π × 10 × 18 000 / 60 000 ≈ 9,4 m/s (≈ 565 m/min)
c) Disco de ranhurar de 120 mm a 6000 rpm.
vc = π × 120 × 6000 / 60 000 ≈ 37,7 m/s
Repara: o disco roda três vezes mais devagar do que a fresa e, mesmo assim, tem uma velocidade de corte três a quatro vezes maior. A velocidade de corte cresce com o diâmetro. É por isso que as ferramentas de grande diâmetro têm uma rotação máxima muito mais baixa.
d) Que rotação dá 20 m/s com uma fresa de 20 mm?
n = 20 × 60 000 / (π × 20) ≈ 19 100 rpm
Antes de programar, confirma-se que 19 100 rpm está abaixo do n max gravado na fresa e da rotação máxima da árvore.
A relação entre avanço e rotação
O que determina a qualidade do corte não é a rotação nem o avanço isoladamente, mas o avanço por dente (fz): a espessura de apara que cada cortante tira em cada volta.
- fz demasiado baixo (rotação alta com avanço lento): o cortante raspa em vez de cortar, aquece, queima a madeira e gasta-se depressa.
- fz demasiado alto (avanço rápido com rotação baixa): apara grossa, arranca fibras, lasca bordos, força a ferramenta e pode parti-la.
- Com o mesmo avanço e a mesma rotação, mais cortantes dão um fz menor em cada cortante: marcas de corte mais pequenas e mais próximas. Para manter o mesmo fz com mais cortantes, aumenta-se o avanço, e a produtividade sobe.
Exemplo resolvido · calcular o avanço por dente. Uma fresa de 2 cortantes roda a 18 000 rpm e avança a 10 m/min (10 000 mm/min).
fz = 10 000 / (18 000 × 2) ≈ 0,28 mm por dente
Com a mesma fresa a 5 m/min, o fz cai para metade:
fz = 5000 / (18 000 × 2) ≈ 0,14 mm por dente
Se a fresa tivesse 3 cortantes, a 5 m/min, o fz descia para 5000 / (18 000 × 3) ≈ 0,09 mm. Para voltar aos 0,14 mm por dente seria preciso subir o avanço para 0,14 × 18 000 × 3 ≈ 7560 mm/min, cerca de 7,6 m/min.
Exemplo resolvido · definir o avanço a partir do catálogo. O catálogo de uma fresa de 2 cortantes para aglomerado melamínico indica, como exemplo de trabalho, fz entre 0,20 e 0,30 mm e rotação de 18 000 rpm. Que avanço programar?
Vf mínimo = 0,20 × 18 000 × 2 = 7200 mm/min (7,2 m/min)
Vf máximo = 0,30 × 18 000 × 2 = 10 800 mm/min (10,8 m/min)
Começa-se no meio da gama (por exemplo 9 m/min, que dá fz = 0,25 mm), observa-se a peça e o comportamento da ferramenta, e ajusta-se. Se a máquina não consegue manter o avanço nos cantos, o fz real desce e pode aparecer queimado nessa zona.
Tabela de diagnóstico rápido
| Sintoma | Ajuste provável |
|---|---|
| Queimado, gume a aquecer | subir o avanço ou descer a rotação (subir o fz); verificar o gume |
| Fibras arrancadas, bordos lascados | descer o avanço ou subir a rotação (baixar o fz); verificar a hélice e o gume |
| Marcas onduladas regulares | verificar batimento e aperto antes de mexer nos parâmetros |
| Máquina não atinge o avanço programado | rever a potência disponível e a profundidade de passagem |
8. Sistemas de aperto e porta-pinças de precisão
A ferramenta não trabalha sozinha: precisa de um sistema de aperto que a prenda com rigidez e concentricidade à árvore da máquina. O conjunto tem duas partes:
- A interface com a árvore (o cone do porta-ferramentas), que tem de ser igual à da máquina.
- O aperto da ferramenta dentro do porta-ferramentas (pinça, mandril hidráulico, aperto térmico, flange).
Interfaces com a árvore
| Interface | Como funciona | Onde aparece |
|---|---|---|
| HSK (em madeira, muito usada a versão HSK-F63) | cone oco curto; a árvore puxa-o por dentro e ele encosta no cone e na face ao mesmo tempo | centros de trabalho de mobiliário com troca automática; boa rigidez e boa repetibilidade a rotações altas |
| ISO 30 | cone longo, preso por um tirante (pino de retenção) aparafusado na cauda | máquinas mais antigas e muitas fresadoras de gama média |
| Aperto direto da árvore | a árvore recebe diretamente uma pinça ou a haste da broca | eletromandris de fresadoras simples; mandris da cabeça de furação |
O manual da máquina diz qual é a interface. Um cone de outra norma ou de outro tamanho não monta, e nunca se força.
Sistemas de aperto da ferramenta
- Porta-pinças com pinça ER: a pinça, com rasgos, fecha-se sobre a haste quando se aperta a porca. Cada pinça cobre uma gama de aperto pequena, gravada no próprio corpo. É o sistema mais comum em fresadoras de madeira.
- Porta-ferramentas hidráulico: um parafuso pressuriza óleo que deforma uma camisa fina contra a haste. Aperto muito concêntrico e com bom amortecimento de vibração.
- Porta-ferramentas de aperto térmico: o furo do porta-ferramentas é aquecido (normalmente por indução), dilata, recebe a haste e, ao arrefecer, aperta-a. Muito concêntrico, exige aparelho de aquecimento próprio.
- Mandril com flange ou veio: para discos de ranhurar, serras e porta-lâminas, que montam pelo furo central, com anilhas e porca.
- Mandris da cabeça de furação: recebem brocas de haste curta, presas por parafuso de aperto lateral, com um batente que define a saliência da broca.
Porta-pinças de precisão
Os porta-pinças de precisão garantem que a ferramenta fica centrada com erro mínimo (batimento baixo), o que é essencial em acabamentos finos e em ferramentas pequenas. Um batimento alto faz com que só um dos cortantes trabalhe de verdade: o acabamento piora, o furo ou a ranhura saem mais largos e a ferramenta gasta-se de um lado só.
Cuidados que se repetem sempre:
- Limpar o cone, o interior do porta-ferramentas, a pinça e a haste. Uma apara no cone introduz batimento em todas as peças da série.
- Pinça do diâmetro certo para a haste. Nunca apertar uma haste de 10 mm numa pinça de 12 mm "porque estava ali".
- Inserir a haste no comprimento mínimo indicado pelo fabricante do porta-pinças e da ferramenta. Pouca haste presa dá vibração e risco de a ferramenta sair; muita saliência dá flexão.
- Apertar com o binário indicado pelo fabricante do porta-pinças, com chave dinamométrica. Nem mais (danifica a pinça e a porca), nem menos (a ferramenta escorrega).
- Substituir pinças com marcas, rebarbas ou deformadas: uma pinça gasta já não centra.
Exemplo resolvido · escolher o aperto certo. Ferramenta: fresa de acabamento com haste cilíndrica de 8 mm, para perfil numa face visível. Máquina: centro de trabalho com árvore HSK-F63.
- Seleciona-se um porta-pinças HSK-F63 com porca ER compatível.
- Escolhe-se uma pinça de 8 mm, limpa, sem marcas de desgaste.
- Insere-se a haste até ao comprimento mínimo indicado e aperta-se com a chave dinamométrica ao binário do fabricante.
- Verifica-se o batimento com o comparador: se passar a tolerância definida para o trabalho, desmonta-se, limpa-se de novo e, se persistir, troca-se a pinça antes de iniciar a produção.
9. Medir as ferramentas
Instrumentos de medição
A bancada de montagem e medição reúne os instrumentos que confirmam as medidas de uma ferramenta antes de esta ir para a máquina:
| Instrumento | Mede | Cuidados |
|---|---|---|
| Paquímetro | diâmetros, comprimentos, profundidades | medir sobre cortantes opostos; com número ímpar de cortantes não dá o diâmetro diretamente |
| Graminho (de alturas) | alturas e comprimentos a partir de uma superfície de referência | usar sobre o desempeno, com a ferramenta montada em suporte |
| Comparador | pequenos desvios: batimento radial e axial | apoiar em suporte magnético; rodar a ferramenta devagar, à mão |
| Banco de pré-afinação (quando existe) | comprimento e diâmetro da ferramenta já montada no porta-ferramentas | mede fora da máquina e pode enviar os valores para o comando |
Juntam-se ainda as ferramentas manuais de apoio (chaves de porca, chave dinamométrica, suporte de aperto para o porta-ferramentas) e o manual da máquina, com os procedimentos específicos de cada modelo. Muitas máquinas têm também um sensor de medição de ferramenta (de contacto ou laser) que mede o comprimento na própria máquina; nesse caso segue-se o procedimento do manual.
O que se mede, e com quê
| Medida | Instrumento | Porque interessa |
|---|---|---|
| Diâmetro de corte | paquímetro (ou pré-afinador) | entra na compensação do raio; define a largura da ranhura |
| Comprimento útil | paquímetro | limita a profundidade de passagem |
| Comprimento da ferramenta montada | graminho, pré-afinador ou sensor da máquina | é o valor que o comando usa para saber onde está a ponta em Z |
| Batimento | comparador | define a qualidade do corte e a vida da ferramenta |
| Diâmetro da haste | paquímetro | escolha da pinça |
| Estado dos gumes | inspeção visual, lupa | gumes lascados ou gastos não se montam |
Exemplo resolvido · medir e registar uma fresa.
- Limpar a ferramenta, o porta-ferramentas e os instrumentos.
- Medir o diâmetro de corte com o paquímetro, sobre cortantes opostos, em dois pontos ao longo do comprimento útil. Resultado: 11,96 mm (catálogo: 12 mm).
- Medir o comprimento útil: 42 mm.
- Montar no porta-ferramentas e medir o comprimento da ferramenta montada, da face de referência do cone até à ponta: 118,4 mm.
- Verificar o batimento com o comparador, rodando devagar: variação total de 0,01 mm, dentro da tolerância de 0,02 mm definida na ficha de trabalho.
- Registar: D = 11,96 mm; L = 118,4 mm. São estes valores, e não os do catálogo, que vão para a tabela de ferramentas.
Exemplo resolvido · medir o comprimento com o graminho. O porta-ferramentas está num suporte, com a face de referência do cone encostada a um bloco de 50,0 mm de altura sobre o desempeno. O graminho, levado à ponta da fresa, marca 168,4 mm a partir do desempeno.
comprimento da ferramenta = 168,4 - 50,0 = 118,4 mm
O resultado bate com o do exemplo anterior. Se não batesse, repetia-se a medição antes de registar.
10. Sistema 32 de multifuração CNC
O que é
O Sistema 32 é o padrão de furação mais usado no mobiliário de painel: os furos de montagem ficam alinhados em filas, com 32 mm de distância entre centros. A medida vem das primeiras máquinas de furação em linha, em que 32 mm era a distância mínima possível entre brocas vizinhas, acionadas por engrenagens. Com o tempo, as ferragens (dobradiças, calhas, suportes de prateleira, uniões) passaram a ser desenhadas para esta grelha, e a compatibilidade entre painéis, ferragens e máquinas de fabricantes diferentes tornou-se a grande vantagem do sistema.
Valores habituais (confirmar sempre no desenho e no catálogo das ferragens):
- furos de sistema com 5 mm de diâmetro;
- distância de 32 mm entre centros ao longo da fila, e múltiplos de 32 mm entre filas e entre posições de ferragens;
- a fila da frente é tradicionalmente colocada a 37 mm da orla da frente da lateral.
A cabeça de furação
As multifuradoras e os centros de trabalho de mobiliário têm uma cabeça de furação com vários mandris independentes, afastados de 32 mm:
- Mandris verticais: furam a face do painel (suportes de prateleira, calhas, copas de dobradiça quando existe mandril próprio).
- Mandris horizontais: furam as orlas, nas direções X e Y (cavilhas, uniões excêntricas).
- Serra ou disco de ranhurar: unidade própria, para ranhuras de fundos e costas.
Em muitas cabeças, os mandris são acionados por engrenagens e mandris vizinhos rodam em sentidos opostos. Por isso existem brocas de rotação direita e de rotação esquerda, com a marcação indicada pelo fabricante (muitas vezes por cor ou por letra). Uma broca de rotação direita montada num mandril que roda à esquerda não corta: aquece, queima o furo e estraga-se. Montar a broca no mandril com o sentido certo é parte essencial da configuração.
Montar brocas, escareadores e discos de ranhurar
- Ler o plano de furação e a configuração da cabeça no manual (que mandril roda em que sentido, que comprimento de broca aceita).
- Escolher as brocas pelo diâmetro, pelo tipo (furo cego ou passante) e pelo sentido de rotação de cada mandril.
- Montar cada broca até ao batente do mandril e apertar o parafuso de fixação.
- Se o furo leva escareador, montá-lo na broca à cota indicada (define a profundidade do cone de entrada).
- Montar o disco de ranhurar no seu veio, com o sentido de rotação e a espessura do disco confirmados, e apertar a porca.
- Registar na configuração da cabeça (no comando) o diâmetro, o tipo e o comprimento de cada broca, mandril a mandril.
- Fazer uma peça de ensaio e medir a posição, o diâmetro e a profundidade dos furos.
Exemplo resolvido · contar os furos de uma fila. Uma lateral de armário leva uma fila de furos de 5 mm para suportes de prateleira, do primeiro furo a 64 mm do topo até ao último a 640 mm do topo, com passo de 32 mm.
número de intervalos = (640 - 64) / 32 = 18
número de furos = 18 + 1 = 19
Se a cabeça tiver, por exemplo, 9 mandris verticais em linha a 32 mm, a fila de 19 furos faz-se em três descidas (9 + 9 + 1), com o programa a deslocar a cabeça entre elas. Com os mandris certos ativos, as três descidas fazem os 19 furos sem repetir nenhum.
Exemplo resolvido · preparar a cabeça para um plano de furação. Lateral de móvel com: furos de cavilha de 8 mm nos topos, fila de furos de 5 mm na face e ranhura para as costas.
- Mandris horizontais destinados aos topos: brocas de furo cego de 8 mm, cada uma com o sentido de rotação do seu mandril.
- Mandris verticais da fila: brocas de furo cego de 5 mm, alternando direita e esquerda conforme o mandril.
- Unidade de ranhurar: disco com a espessura da ranhura das costas.
- No comando, confirma-se que cada mandril tem registada a broca certa (diâmetro, tipo, comprimento) antes de correr o programa.
11. Ferramentas internas e externas, em magazine e suplementares
Ferramentas internas e externas
Nas fresadoras e multifuradoras CNC, distingue-se entre:
- Ferramentas internas: as que estão instaladas na máquina e prontas a ser chamadas pelo programa: as da árvore principal, as do magazine e as brocas montadas na cabeça de furação.
- Ferramentas externas: as que estão fora da máquina (armário de ferramentas, bancada de montagem) e só são montadas quando a operação as exige.
A gestão eficiente de um centro de trabalho passa por decidir que ferramentas devem estar sempre internas (uso frequente) e quais ficam externas (uso pontual). A designação exata pode variar de fabricante para fabricante; confirma sempre no manual da máquina.
O magazine
O magazine (ou armazém de ferramentas) guarda as ferramentas já montadas nos porta-ferramentas, para que a máquina as troque automaticamente durante o programa. Os tipos mais comuns são:
| Tipo | Como funciona |
|---|---|
| Revólver ou carrossel | disco com posições, que roda até levar a ferramenta pedida ao ponto de troca; muitas vezes acompanha a cabeça |
| Linear | posições em fila, geralmente na lateral ou na traseira da mesa; a árvore vai lá buscar a ferramenta |
| De cadeia | muitas posições numa corrente, para máquinas com grande número de ferramentas |
Cada posição do magazine tem um número. A tabela de ferramentas liga o número da ferramenta à posição onde ela está. Se a ferramenta for trocada de posição à mão e a tabela não for corrigida, a máquina vai buscar a ferramenta errada.
Ferramentas suplementares
Ferramentas suplementares são as de reserva: um segundo exemplar, medido e pronto, de uma ferramenta crítica, para repor uma posição gasta ou partida sem parar a produção. Boas práticas:
- Ter suplementares das ferramentas de maior uso ou de maior risco de quebra (fresas de pequeno diâmetro, fresas de contorno de melamínico).
- Guardá-las já montadas e medidas, com o registo das medidas junto.
- Repor o stock sempre que uma suplementar entra em uso.
Exemplo resolvido · organizar um magazine de 8 posições. Produção semanal de cozinhas em melamínico. Ferramentas usadas todos os dias: fresa de compressão de 12 mm (contorno), fresa de 8 mm (ranhuras e esvaziamentos), broca de dobradiça de 35 mm. Uso semanal: fresa de perfil de raio 3 mm. Uso ocasional: fresa de gravar em V, porta-lâminas de aplanar.
- Internas (magazine): compressão de 12 mm, fresa de 8 mm, broca de 35 mm, fresa de raio 3 mm, e uma segunda fresa de compressão como suplementar interna, porque é a mais crítica.
- Externas: fresa em V e porta-lâminas, no armário, montados só quando há encomenda que os peça.
- Ficam posições livres para as ferramentas externas quando forem precisas, sem ter de desmontar as de uso diário.
12. A tabela de ferramentas do centro de trabalho CNC
Para que serve
A tabela de ferramentas é o registo no comando da máquina que liga cada ferramenta (e a sua posição física, na árvore, no magazine ou na cabeça de furação) aos seus dados reais. O programa diz "ferramenta 5, contornar esta geometria"; é a tabela que diz ao comando qual é o diâmetro e o comprimento da ferramenta 5, a que rotação pode rodar e em que sentido.
Muitos centros de trabalho de mobiliário (de fabricantes como Biesse, SCM ou Homag) programam-se em software próprio do fabricante e não em código ISO puro. Os nomes dos campos e dos menus mudam de máquina para máquina, mas a informação é a mesma. Aprende a lê-la no manual da tua máquina.
Campos habituais
| Campo | Conteúdo | Se estiver errado |
|---|---|---|
| Número da ferramenta (T) | identificação usada pelo programa | a máquina chama outra ferramenta |
| Posição | lugar no magazine ou mandril da cabeça | vai buscar a ferramenta ao sítio errado |
| Tipo | fresa, broca (cega ou passante), disco, serra, porta-lâminas | o comando pode recusar ou usar a ferramenta numa operação para que não serve |
| Diâmetro | diâmetro de corte real, medido | peças maiores ou menores (compensação do raio errada) |
| Comprimento | comprimento da ferramenta montada, medido desde a referência do cone até à ponta | profundidade errada, corte em vazio ou colisão |
| Comprimento útil | profundidade máxima de corte | o comando não avisa se a passagem for mais funda do que a ferramenta aguenta |
| Sentido de rotação | direita ou esquerda | a ferramenta não corta, queima e pode partir |
| Rotação máxima | n max da ferramenta | a máquina pode rodar acima do admissível |
| Rotação e avanço de trabalho | valores recomendados para o material | queimado ou arranque de fibras |
| Desgaste / correções | pequenas correções de diâmetro e comprimento após afiação | acumula erro de peça para peça |
| Vida útil | metros de corte ou tempo entre afiações | a ferramenta é usada gasta |
Porque é que o diâmetro conta: compensação do raio
Quando o programa manda contornar uma peça, o comando desloca o centro da fresa, afastado do contorno de metade do diâmetro registado na tabela (em ISO, com G41 ou G42). Se o diâmetro da tabela não for o diâmetro real, a peça sai errada.
Exemplo resolvido · diâmetro desatualizado. Uma fresa de acabamento foi afiada e passou de 10,00 mm para 9,92 mm, mas a tabela continua com 10,00 mm. Contorno exterior de uma peça de 400 × 300 mm.
- O comando afasta o centro da fresa 10,00 / 2 = 5,00 mm do contorno.
- O raio real da fresa é 9,92 / 2 = 4,96 mm.
- A aresta de corte fica 5,00 - 4,96 = 0,04 mm para fora do contorno, em cada lado.
- A peça sai com 400 + 2 × 0,04 = 400,08 mm por 300 + 2 × 0,04 = 300,08 mm.
Correção: medir, gravar 9,92 mm na tabela e fazer uma peça de ensaio. Num contorno interior (um recorte), o erro seria o contrário: o recorte sairia 0,08 mm mais pequeno.
Porque é que o comprimento conta
O comando usa o comprimento para saber onde está a ponta da ferramenta em Z. Um comprimento mal registado dá colisão (ferramenta mais comprida do que a tabela diz) ou corte em vazio / profundidade insuficiente (ferramenta mais curta do que a tabela diz).
Exemplo resolvido · comprimento errado. A tabela diz L = 120,0 mm; a fresa, remontada na pinça, mede afinal 118,5 mm. O programa pede um rebaixo de 8,0 mm de profundidade.
- A ferramenta real é 120,0 - 118,5 = 1,5 mm mais curta do que o comando pensa.
- A ponta fica 1,5 mm acima do previsto: o rebaixo sai com 8,0 - 1,5 = 6,5 mm.
- Num contorno passante de um painel de 19 mm, a fresa não atravessa: a peça fica presa ao painel por uma película de 1,5 mm.
Ao contrário, se a ferramenta fosse 1,5 mm mais comprida do que a tabela diz, desceria 1,5 mm mais: num corte passante isso é absorvido pelo painel de sacrifício, mas num rebaixo estraga a peça e, perto de ventosas ou de fixações, pode dar colisão.
Preencher a tabela: procedimento
- Medir a ferramenta montada (capítulo 9).
- Abrir a tabela de ferramentas no ecrã do comando, com a máquina em modo seguro.
- Criar ou abrir a ferramenta com o número (T) previsto no programa.
- Preencher tipo, diâmetro, comprimento, comprimento útil, sentido de rotação, rotação máxima e parâmetros de trabalho.
- Associar a ferramenta à posição do magazine onde foi colocada.
- Gravar e, se o comando permitir, fazer cópia da tabela.
- Correr o programa em simulação ou em vazio, se o procedimento da oficina o prever, e depois uma peça de ensaio.
13. Montar, carregar e descarregar ferramentas na árvore
A realização "montar as ferramentas nos centros de trabalho CNC" segue sempre a mesma sequência, com a máquina parada e em segurança.
Passo a passo da montagem no porta-ferramentas
- Confirmar que a ferramenta foi medida e está aprovada (gumes, diâmetro, batimento).
- Colocar o porta-ferramentas no suporte de aperto da bancada (nunca apertar com o cone preso na árvore da máquina, se o manual não o prever).
- Limpar o cone, o interior do porta-ferramentas, a pinça e a haste.
- Encaixar a pinça na porca e a porca no porta-pinças, como indica o fabricante.
- Inserir a haste até ao comprimento mínimo de aperto, sem encostar os cortantes à pinça.
- Apertar com a chave dinamométrica ao binário indicado pelo fabricante do porta-pinças.
- Medir o comprimento e o batimento, e registar.
Carga e descarga na árvore principal
A carga e descarga da ferramenta na árvore principal pode ser:
- Manual: com a máquina em modo de operação manual ou de troca de ferramenta, o operador segura o porta-ferramentas, aciona o comando de desaperto da árvore (botão ou pedal, conforme a máquina), retira o cone, introduz o novo cone limpo e alinhado e aciona o aperto. Confirma que ficou preso antes de largar.
- Automática: o programa pede a ferramenta (em ISO, com T e M06) e a máquina troca-a a partir do magazine. O operador só intervém para carregar o magazine, sempre segundo o procedimento do manual e com a máquina num estado que o permita.
Nunca se carrega nem se descarrega uma ferramenta com a árvore em rotação, nem com a máquina em ciclo automático. Espera-se a paragem completa: as árvores de alta rotação continuam a rodar por inércia depois de desligadas. Mãos fora da área de trabalho enquanto a máquina estiver em ciclo.
Depois de carregar
- Confirmar no ecrã que a ferramenta na árvore é a que a tabela indica.
- Rodar a árvore em vazio, a baixa rotação e com as proteções fechadas, para ouvir se há vibração anormal.
- Fazer a peça de ensaio antes da série.
Exemplo resolvido · montar e carregar uma fresa depois de medida. Fresa medida: D = 11,96 mm; haste de 12 mm; L montada = 118,4 mm. Máquina com HSK-F63 e magazine linear.
- Porta-pinças HSK-F63 limpo, no suporte de aperto; pinça de 12 mm limpa.
- Haste inserida ao comprimento mínimo de aperto, porca apertada com a chave dinamométrica ao binário do fabricante.
- Batimento verificado: dentro da tolerância.
- Tabela: ferramenta T5, fresa, D = 11,96, L = 118,4, rotação à direita, n max da ferramenta.
- Cone colocado na posição 5 do magazine, com a máquina no modo de carga previsto no manual.
- Primeira chamada da T5: confirmação no ecrã, rotação em vazio, peça de ensaio medida.
14. Segurança e saúde no trabalho, EPI
Riscos principais
| Risco | Onde aparece | Prevenção |
|---|---|---|
| Corte | manuseamento de ferramentas afiadas na bancada | luvas de proteção contra corte só com a máquina parada; segurar pelo porta-ferramentas, não pelos gumes |
| Arrastamento e entalamento | árvore em rotação, cabeça em movimento | proteções fechadas, nunca entrar na área de trabalho em ciclo; sem luvas, adornos, roupa larga ou cabelo solto junto de ferramentas em rotação |
| Projeção | ferramenta partida ou mal apertada, peça que se solta | aperto correto, n max respeitada, proteções e cortinas no lugar, óculos de proteção |
| Ruído | fresagem e corte de painéis | proteção auditiva |
| Pó de madeira | toda a maquinagem, sobretudo MDF e madeiras duras | aspiração na origem ligada e a funcionar; máscara FFP2 ou FFP3 quando a aspiração não chega |
O que diz a lei (os pontos essenciais)
- O Decreto-Lei n.º 50/2005 fixa os requisitos mínimos de segurança e saúde para a utilização de equipamentos de trabalho: a máquina tem de ter proteções, comandos de paragem e de emergência adequados, e só pode ser usada por quem recebeu formação.
- As máquinas novas são colocadas no mercado segundo a Diretiva Máquinas, transposta pelo Decreto-Lei n.º 103/2008 (marcação CE, declaração de conformidade, manual de instruções em português). O novo Regulamento (UE) 2023/1230 substitui a diretiva e aplica-se a partir de 20 de janeiro de 2027.
- O pó de madeira dura está classificado como agente cancerígeno. A Diretiva (UE) 2017/2398 fixou para ele um valor-limite de exposição profissional de 2 mg/m³ a partir de 18 de janeiro de 2023 (antes era de 3 mg/m³).
- A Lei n.º 102/2009 estabelece o regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho: o empregador avalia os riscos e fornece os EPI; o trabalhador usa-os e cumpre as instruções.
- A exposição ao ruído rege-se pelo Decreto-Lei n.º 182/2006: a partir de 80 dB(A) de exposição diária o empregador disponibiliza protetores auditivos, e a partir de 85 dB(A) o seu uso é obrigatório.
- As ferramentas para madeira trazem gravada a rotação máxima admissível, segundo as normas europeias da família EN 847.
Regras da UC, na prática
- Máquina parada, e em modo seguro, antes de qualquer montagem, medição, limpeza ou troca.
- Esperar a paragem completa da árvore.
- Nunca desativar proteções, tapetes sensíveis, barreiras ou cortinas de luz "só por um bocadinho".
- Conhecer a localização dos botões de emergência antes de começar.
- Usar os EPI indicados para cada tarefa: óculos, proteção auditiva, calçado de segurança, máscara quando necessário, luvas contra corte apenas no manuseamento de ferramentas com a máquina parada.
- Nunca exceder a n max da ferramenta nem a do porta-ferramentas.
- Ferramentas partidas, lascadas ou fissuradas não se montam: separam-se e identificam-se.
15. Normas da qualidade
O ciclo de trabalho só está completo quando se aplicam as normas da qualidade. Nas empresas certificadas segundo a NP EN ISO 9001, isto aparece em procedimentos escritos; nas outras, é boa prática de oficina. Os pontos-chave:
- Peça de ensaio: antes de cada série, e depois de cada troca ou afiação de ferramenta, produz-se uma peça e mede-se contra o desenho técnico.
- Medição com os instrumentos certos: paquímetro para cotas e diâmetros, comparador para desvios, esquadro e fita métrica para medidas grandes.
- Registo: medidas da ferramenta, valores da tabela, resultado da peça de ensaio, desvios encontrados e a sua causa (ferramenta, aperto ou configuração).
- Verificação periódica ao longo da série (por exemplo, uma peça em cada lote), porque a ferramenta vai-se gastando.
- Rastreabilidade: saber que ferramenta fez que peças, para localizar o problema se aparecer uma peça não conforme.
- Tabela documentada: guardar a tabela de ferramentas final para repetir o trabalho com garantia.
Exemplo resolvido · um furo que sai 0,2 mm maior. Numa série de laterais, os furos de cavilha de 8 mm saem com 8,2 mm.
- O diâmetro de um furo feito por broca depende da própria broca, não da compensação de raio da tabela. Por isso, verifica-se primeiro a broca: diâmetro real e estado dos gumes.
- Se a broca mede 8,00 mm, verifica-se o batimento da broca no mandril: uma broca descentrada ou empenada abre o furo.
- Se a broca e o batimento estão bem, verifica-se se a peça está bem fixa (uma peça que se move durante a furação ovaliza o furo).
- Só se o furo for feito por fresa, em interpolação (a fresa descreve o círculo), é que o diâmetro na tabela entra no resultado.
Erros comuns
- Selecionar pela referência habitual, sem confirmar no catálogo se serve para o material da peça.
- Montar sem medir antes: uma ferramenta gasta ou danificada só se deteta com o instrumento certo.
- Registar o comprimento útil no campo do comprimento da ferramenta: dá profundidade errada ou colisão.
- Montar uma broca com o sentido de rotação trocado na cabeça de furação: a broca não corta, aquece, queima o furo e estraga-se.
- Usar a fresa de compressão com uma passagem demasiado baixa, lascando a face de cima do melamínico.
- Mergulhar a direito com uma fresa que não corta ao centro.
- Não limpar o cone e a pinça antes de montar, introduzindo batimento.
- Apertar "à força" sem chave dinamométrica, danificando a pinça, a porca ou a haste.
- Programar acima da n max gravada na ferramenta.
- Alterar a ferramenta física sem atualizar a tabela (diâmetro, comprimento, posição).
- Ignorar sinais de alerta (vibração, queimado, som irregular) só para não parar a produção.
- Carregar ou descarregar a ferramenta com a árvore em rotação.
- Usar luvas junto de uma ferramenta em rotação.
- Dar a série por boa só porque a primeira peça saiu certa, sem verificações periódicas.
Glossário
- Agregado: cabeçote montado na árvore que reenvia o movimento para outro ângulo ou direção (furação horizontal, corte com serra, trabalho inclinado).
- Árvore (principal): eixo motorizado da máquina que faz rodar a ferramenta.
- Avanço por dente (fz): espessura de apara que cada cortante retira em cada volta; fz = Vf / (n × Z).
- Batimento: desvio de rotação da ferramenta em relação ao seu eixo; mede-se com o comparador.
- Binário de aperto: força de rotação com que se aperta a porca ou o parafuso, medida com chave dinamométrica.
- Broca de dobradiça: broca de grande diâmetro e fundo plano para a copa das dobradiças.
- Cabeça de furação: conjunto de mandris verticais e horizontais, afastados de 32 mm, de uma multifuradora ou centro de trabalho.
- Catálogo de ferramentas: documento do fabricante que organiza as ferramentas por família, dimensões, material do cortante e aplicação recomendada.
- Centro de trabalho CNC: fresadora, multifuradora ou máquina multifunções comandada por computador.
- Comprimento da ferramenta: distância da referência do cone à ponta da ferramenta montada; é o valor que o comando usa em Z.
- Comprimento útil: comprimento da zona de corte; limita a profundidade de passagem.
- Compensação do raio: deslocação automática do centro da fresa em relação ao contorno programado, com base no diâmetro da tabela.
- Cone porta-ferramentas: peça que encaixa na árvore (HSK-F63, ISO 30) e recebe a pinça ou a ferramenta.
- Cortante: aresta da ferramenta que retira material da peça.
- Encabadouro: parte da ferramenta que fica presa no porta-ferramentas (haste cilíndrica ou furo de montagem).
- Escareador: ferramenta que abre o cone de entrada para a cabeça de um parafuso escareado.
- Ferramenta interna / externa: instalada na máquina, pronta a ser chamada; ou guardada fora da máquina até ser necessária.
- Ferramenta suplementar: exemplar de reserva, medido e pronto, para substituir uma ferramenta gasta ou partida.
- Fresa de compressão: fresa helicoidal com hélice ascendente em baixo e descendente em cima, para painéis de duas faces.
- HM (metal duro): material de cortante à base de carboneto de tungsténio; na oficina chama-se muitas vezes "widia".
- HSS (aço rápido): material de cortante tenaz e fácil de afiar, com menor resistência ao desgaste.
- Magazine: armazém de ferramentas da máquina, para troca automática.
- n max: rotação máxima admissível, gravada na ferramenta.
- PCD (diamante policristalino): material de cortante de dureza muito elevada, para produção em grande volume em derivados.
- Pinça de aperto (ER): casquilho com rasgos que aperta a haste da ferramenta quando se aperta a porca.
- Pré-afinação (banco de): aparelho que mede o comprimento e o diâmetro da ferramenta montada, fora da máquina.
- Sistema 32: padrão de furação do mobiliário, com furos de sistema a 32 mm entre centros.
- Tabela de ferramentas: registo no comando com os dados reais de cada ferramenta e a sua posição.
- Velocidade de avanço (Vf): velocidade de deslocação da ferramenta na peça, em m/min ou mm/min.
- Velocidade de corte (vc): velocidade da aresta de corte, em m/s (madeira) ou m/min.
- EPI: equipamentos de proteção individual.
Síntese
O trabalho com ferramentas de centros de trabalho CNC para mobiliário e carpintaria segue sempre a mesma ordem:
- Selecionar no catálogo, cruzando a operação, o material, o acabamento e a máquina; escolher família, diâmetro, comprimento útil, hélice e material do cortante (HSS, HM, PCD); encomendar com a referência exata e todos os dados quando falta uma ferramenta.
- Definir avanços e rotações: vc = π × D × n / 60 000 (m/s), fz = Vf / (n × Z), sempre abaixo da n max e dentro da gama recomendada.
- Medir com paquímetro, graminho, comparador ou pré-afinador: diâmetro real, comprimento montado, comprimento útil, batimento.
- Montar com o cone e a pinça certos, limpos, ao binário do fabricante; carregar e descarregar a árvore só com ela parada e segundo o manual.
- Configurar a máquina: tabela de ferramentas com os valores medidos, posições do magazine, internas e externas, suplementares, e a cabeça de furação do Sistema 32 com cada broca no mandril do seu sentido.
- Verificar: peça de ensaio, registo, verificação periódica, sob as normas de segurança e saúde no trabalho e as normas da qualidade.
Exercícios resolvidos
1. Uma lateral em aglomerado melamínico precisa de furos de cavilha de 8 mm no topo. Que ferramenta, que mandril e que material de cortante?
Resolução: uma broca de furo cego de 8 mm, montada num mandril horizontal da cabeça de furação (o furo é na orla), com o sentido de rotação desse mandril. Como o aglomerado melamínico é abrasivo, o cortante é, no mínimo, de metal duro.
2. Uma fresa de 3 cortantes roda a 18 000 rpm e avança a 6 m/min. Calcula o avanço por dente.
Resolução: fz = 6000 / (18 000 × 3) ≈ 0,11 mm por dente. Compara-se com a gama recomendada no catálogo para o material: se ficar abaixo, o risco é queimar; sobe-se o avanço ou desce-se a rotação.
3. Calcula a velocidade de corte, em m/s, de uma fresa de 16 mm a 18 000 rpm.
Resolução: vc = π × 16 × 18 000 / 60 000 ≈ 15,1 m/s (cerca de 905 m/min).
4. Que avanço programar para uma fresa de 2 cortantes a 20 000 rpm, se queres fz = 0,25 mm?
Resolução: Vf = 0,25 × 20 000 × 2 = 10 000 mm/min = 10 m/min.
5. Uma fresa de contorno foi afiada de 12,00 para 11,90 mm e a tabela não foi atualizada. Uma prateleira de 800 × 300 mm é contornada por fora. Com que medidas sai?
Resolução: o comando afasta o centro 6,00 mm; o raio real é 5,95 mm. Sobram 0,05 mm por lado: a prateleira sai com 800,10 × 300,10 mm. Corrige-se o diâmetro na tabela para 11,90 mm e faz-se peça de ensaio.
6. A tabela diz que a fresa tem 125,0 mm de comprimento; o pré-afinador mede 126,2 mm. O que acontece num rebaixo de 6 mm?
Resolução: a ferramenta é 1,2 mm mais comprida do que o comando pensa, por isso desce 1,2 mm a mais: o rebaixo sai com 7,2 mm. Corrige-se o comprimento para 126,2 mm antes de continuar.
7. Uma broca de 8 mm foi afiada. Que dados mudam e o que se faz?
Resolução: a afiação da ponta encurta a broca, por isso muda sobretudo o comprimento: os furos cegos saem menos fundos se a tabela (ou o batente do mandril) não for corrigida. Mede-se o comprimento e o diâmetro, corrige-se a configuração e faz-se peça de ensaio. Se o diâmetro tiver ficado fora da tolerância da cavilha, a broca é substituída, porque o diâmetro do furo é o da própria broca.
8. Uma fila de furos de 5 mm vai de 96 mm a 704 mm do topo, com passo de 32 mm. Quantos furos tem?
Resolução: (704 - 96) / 32 = 19 intervalos, logo 20 furos.
9. Um disco de ranhurar de 125 mm tem gravado n max = 8000 rpm. A máquina propõe 9000 rpm. Que fazes?
Resolução: nunca se excede a n max: programa-se 8000 rpm ou menos. A 8000 rpm, vc = π × 125 × 8000 / 60 000 ≈ 52,4 m/s, e ajusta-se o avanço para manter o avanço por dente recomendado.
10. Um colega quer usar luvas para trocar a fresa "mais depressa", com a árvore ainda a rodar devagar. O que lhe dizes?
Resolução: duas regras violadas: nunca se toca na ferramenta com a árvore em rotação (espera-se a paragem completa, em modo seguro) e nunca se usam luvas junto de ferramentas em rotação, porque podem ser agarradas. As luvas contra corte usam-se só a manusear a ferramenta com a máquina parada.