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UC · Unidade de Competência · UC02076

Sebenta · Programar e operar seccionadoras e software de otimização de corte (UC02076)

Lista e plano de corte, seccionadoras automáticas, otimização de corte, etiquetagem, sobras e manutenção de serras
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. CNC em Madeira e Mobili ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta cobre o corte de painéis para mobiliário e carpintaria: da placa de derivado de madeira, tal como sai do armazém, até aos componentes cortados, etiquetados e prontos para a orladora e para a furação CNC. É o primeiro elo de uma linha de fabrico de mobiliário em série, e é também aquele onde mais material se pode ganhar ou perder: um plano de corte mal pensado deita fora, em cada placa, material que já foi pago.

O título da unidade diz exatamente o que vais aprender a fazer, e a sebenta segue-o à letra:

Objetivos de aprendizagem (referencial): elaborar o plano de corte dos componentes de um produto de mobiliário ou carpintaria; configurar uma seccionadora para o corte de componentes em painel; e executar, em seccionadora automática programável, o corte de painéis em madeira, derivados e outros materiais, obtendo a precisão definida, minimizando o desperdício e maximizando o reaproveitamento das sobras.

Como estudar com esta sebenta. Cada capítulo termina com exemplos resolvidos. Refaz as contas tu próprio, com calculadora, antes de ler a resolução. Nas contas de corte, a regra de ouro é: escreve sempre as unidades (mm, mm², m²) e nunca te esqueças da espessura da serra.

1. Da placa ao móvel: mobiliário e carpintaria em painel

A maioria do mobiliário moderno (armários, estantes, cozinhas, roupeiros, mobiliário de escritório) e muita da carpintaria de interiores (portas interiores, forros, mobiliário à medida) nasce de placas planas de grande formato, cortadas nas dimensões exatas de cada componente. Esta operação faz-se em seccionadoras: máquinas dedicadas a cortes retos, em esquadria e repetíveis, em placa, muitas vezes em pilhas de várias placas de uma vez.

O corte de painel é a primeira operação de fabrico numa linha de mobiliário em série. A sequência típica numa fábrica é:

  1. Corte na seccionadora (esta UC).
  2. Orlagem dos topos à vista, na orladora.
  3. Furação e fresagem em centro de maquinagem CNC ou em furadora.
  4. Montagem, embalagem ou expedição em kit.

Um componente cortado com erro de dimensão, de esquadria ou de orientação do decorativo propaga esse erro para todas as operações seguintes: a orla fica desalinhada, a furação não bate com a peça vizinha, a porta não fecha. Refazer a peça custa o material, o tempo de máquina de todas as operações já feitas e, muitas vezes, o atraso da encomenda inteira.

Quem opera a seccionadora trabalha tipicamente em:

O fluxo de trabalho desta sebenta, do início ao fim, é:

lista de corte → plano de corte → software de otimização → programa da seccionadora → configuração e corte de teste → execução automática → etiquetagem e registo → sobras e stocks → limpeza e manutenção das serras.

2. Materiais em painel: madeira, derivados e outros materiais

Derivados de madeira mais comuns

Material Constituição Uso típico
Aglomerado de partículas (PB) partículas de madeira coladas com resina e prensadas, normalmente em três camadas (finas por fora, grossas no meio) corpos de móveis, prateleiras, base de melamínicos
MDF fibras de madeira coladas e prensadas, densidade média e homogénea frentes lacadas, peças fresadas e moldadas
Contraplacado folhas finas de madeira (folheado) coladas com o fio cruzado, em número ímpar de camadas estruturas, peças curvas; em exterior só as classes próprias para isso
OSB partículas longas e finas (lamelas) orientadas, em camadas peças estruturais, embalagem, construção
Lamelado ou painel de madeira maciça réguas de madeira maciça coladas de canto tampos, prateleiras de madeira à vista

Painéis revestidos

A maior parte do painel que passa numa seccionadora de mobiliário é revestido:

Nos painéis revestidos o decorativo lasca com facilidade na saída dos dentes da serra; é por isso que as seccionadoras têm serra incisora (capítulo 6).

Formatos e espessuras

As placas chegam em formatos comerciais que variam com o fabricante e com o material. Em Portugal são muito comuns, entre outros, 2750 × 1830 mm e 2800 × 2070 mm no aglomerado e no melamínico, e 2440 × 1220 mm em muitos contraplacados. As espessuras mais usadas em mobiliário andam entre os 8 e os 38 mm, sendo 16 e 19 mm (e 18 mm em alguns fabricantes) as mais frequentes em corpos e prateleiras.

O formato exato da placa em armazém é um dado de entrada obrigatório do plano de corte: cortar "a pensar" em 2750 × 1830 quando a placa real tem 2800 × 2070 dá um plano errado.

Sentido do fio e do decorativo

Como o material condiciona o corte

Material Cuidados no corte
PB e MDF crus pouco sensíveis ao lascamento; muito pó (o MDF produz pó fino)
Melamínico e folheado lascamento na face inferior; incisora bem acertada; serra afiada
Lacado idem, com proteção da face; manuseamento cuidadoso
HPL e compacto muito abrasivos e duros: serras de diamante (PCD) ou dentes próprios, avanço mais lento
OSB e contraplacado fibras arrancadas no topo; serra com geometria adequada

Cada material condiciona a escolha da serra (capítulo 6) e as especificações de corte (capítulo 11).

Exemplo resolvido: ler a etiqueta de uma placa

Uma placa em armazém tem a etiqueta "PB melamina Carvalho Natural · 2800 × 2070 × 19 · veio no sentido dos 2800".

3. A seccionadora: tipos e elementos

Tipos de máquina

Elementos de uma seccionadora horizontal de viga

Elemento Função
Mesa de carga (ou mesa elevatória) recebe a placa ou a pilha antes do corte
Mesa traseira com rolos suporta a placa e deixa-a deslizar para a linha de corte
Empurrador (carro empurrador) desloca a placa para a frente, com precisão, até à cota programada; é o "eixo" que define as medidas
Pinças do empurrador agarram a placa pelo bordo de trás e mantêm-na presa durante o posicionamento
Alinhador lateral encosta a placa ao esquadro lateral, garantindo a esquadria da referência
Viga de pressão desce e aperta a placa ou a pilha junto da linha de corte, impedindo que se mexa durante o corte
Carro porta-serra desloca-se por baixo da mesa, ao longo da linha de corte, com a serra principal e a serra incisora
Serra principal faz o corte de toda a espessura da pilha
Serra incisora pequena serra que corta primeiro, pouco profunda, a face inferior, para evitar lascamento
Mesas de ar frontais mesas com sopro de ar que deixam as faixas cortadas "flutuar", facilitando o manuseamento de placas pesadas sem riscar o decorativo
Captação de pó bocas de aspiração no carro porta-serra e na viga de pressão, ligadas ao sistema de aspiração

Como estes elementos trabalham juntos

  1. A placa (ou a pilha) é carregada e encostada ao alinhador lateral.
  2. As pinças agarram a placa e o empurrador avança até à cota do primeiro corte.
  3. A viga de pressão desce e aperta.
  4. O carro porta-serra sobe as serras, percorre a linha de corte (a incisora risca a face de baixo, a principal corta tudo), desce as serras e regressa.
  5. A viga sobe, o empurrador avança para a cota seguinte, e o ciclo repete-se.

A precisão da medida depende sobretudo do empurrador (posicionamento) e da viga de pressão (a placa não se pode mexer). A esquadria depende do alinhador lateral e do perpendicularismo da linha de corte.

4. O comando de uma seccionadora automática

Numa seccionadora automática programável, o operador trabalha sobretudo a partir do comando (um computador industrial com ecrã, muitas vezes tátil) e intervém fisicamente na carga, na rotação e na descarga das peças.

Elementos do comando

Elemento Para que serve
Ecrã e teclado ou ecrã tátil introduzir e editar programas, ver a simulação do plano, consultar alarmes
Gestão de programas lista de planos de corte recebidos do software de otimização ou criados na máquina
Tabela de materiais parâmetros por material e espessura: velocidade de avanço, saliência da serra, pressão da viga, uso da incisora
Simulação gráfica mostra o plano, a peça seguinte e a posição da placa na sequência
Botões de arranque e paragem de ciclo iniciar, interromper e retomar o ciclo
Botões de paragem de emergência em vários pontos da máquina; param todos os movimentos
Seletor de modos manual, semiautomático e automático
Indicadores e sinalizadores máquina pronta, em ciclo, em falha; mensagens de alarme com código
Impressora de etiquetas imprime a etiqueta de cada peça no momento em que é cortada
Ligação à rede recebe os programas do escritório técnico e devolve os registos de produção

Modos de funcionamento

Exemplo resolvido: ler um alarme

Durante o ciclo, o ecrã mostra "Pinça 3 não fechada". O que fazer?

  1. Parar o ciclo (não é preciso a emergência se nada está em perigo; basta a paragem de ciclo).
  2. Ver no ecrã e na máquina o que se passa: a placa pode estar mal encostada, curta, ou a pinça pode ter aparas acumuladas.
  3. Corrigir a causa (reposicionar a placa, limpar a pinça com a máquina parada e em segurança).
  4. Retomar o ciclo e confirmar a cota da peça seguinte.
  5. Registar o alarme se se repetir: pode ser sinal de manutenção necessária.

Conhecer bem os elementos mecânicos (capítulo 3) e os do comando é condição prévia para configurar e operar a máquina com segurança e precisão.

5. Segurança na seccionadora: perigos, sistemas de segurança e EPI

Perigos principais

Perigo Onde e como acontece
Corte contacto com a serra, sobretudo em intervenções na linha de corte ou na troca de serras
Esmagamento e entalamento debaixo da viga de pressão, entre as pinças e a placa, entre o empurrador e a mesa
Projeção de material lascas, aparas ou pequenas peças lançadas pela serra, sobretudo quando a placa não está bem apertada
Movimentação de cargas placas pesadas (uma placa de 2800 × 2070 × 19 mm de aglomerado pesa várias dezenas de quilos), quedas de pilhas, esforços na coluna
Pó de madeira inalação de pó fino, em particular de MDF e de madeiras duras; também risco de incêndio e de explosão quando acumulado
Ruído serra em vazio e em corte, aspiração, ar comprimido
Elétrico e pneumático intervenções em quadros e em circuitos de ar comprimido sem consignação

A automação da máquina não elimina estes perigos, apenas muda a forma como o operador se expõe a eles. Os acidentes graves acontecem quase sempre fora do ciclo normal: a tirar uma apara presa, a desencravar uma pinça, a trocar a serra, a medir uma peça ainda na máquina.

Sistemas de segurança da máquina

Regra de ouro: nenhum sistema de segurança se desliga, se ata ou se contorna "para ganhar tempo". Se um sistema impede o trabalho, a causa resolve-se com a manutenção, não com um arame.

Consignação (bloqueio de energias)

Qualquer intervenção com as mãos dentro da máquina (troca de serras, limpeza da linha de corte, desencravamento) faz-se com a máquina consignada:

  1. Parar a máquina pelo comando.
  2. Desligar o interruptor geral e bloqueá-lo com cadeado pessoal, com etiqueta de aviso.
  3. Descarregar ou isolar o ar comprimido, se a intervenção o exigir.
  4. Confirmar que a serra está parada (sem rotação por inércia) e que nada se move ao tentar o arranque.
  5. Só então intervir. No fim, retirar ferramentas, fechar resguardos, retirar o cadeado e fazer um ciclo de teste.

Equipamentos de proteção individual (EPI)

EPI Porquê
Óculos de proteção projeção de lascas e aparas
Proteção auditiva (tampões ou abafadores) ruído da serra e da aspiração
Proteção respiratória (máscara FFP2 ou FFP3) quando a captação na origem não chega, na limpeza e nas intervenções
Calçado de segurança com biqueira queda de placas e peças
Luvas só no manuseamento de placas e na troca de serras com a máquina consignada; nunca junto de ferramentas em rotação
Roupa ajustada, cabelo apanhado, sem adornos tudo o que é solto pode ser agarrado por partes em movimento

Pó de madeira: agente cancerígeno

O pó de madeiras duras é reconhecido como agente cancerígeno (sobretudo cancro das fossas nasais). A Diretiva (UE) 2017/2398, transposta em Portugal pelo Decreto-Lei n.º 35/2020, fixou para ele um valor-limite de exposição de 2 mg/m³ (média de 8 horas), que se aplica desde janeiro de 2023. Na prática, para quem opera uma seccionadora:

Ruído

O Decreto-Lei n.º 182/2006 fixa, para a exposição diária ao ruído, um valor de ação inferior de 80 dB(A), um valor de ação superior de 85 dB(A) e um valor-limite de 87 dB(A) (este último tendo em conta a proteção auditiva usada). A partir do valor de ação superior, o uso de proteção auditiva é obrigatório e a zona deve estar sinalizada.

Exemplo resolvido: avaliar uma situação

Um operador vê uma apara presa entre a viga de pressão e a placa, a meio de um ciclo automático, e prepara-se para a tirar com a mão "rapidamente, entre dois cortes".

6. Ferramentas: serras circulares para seccionadoras

Constituição da serra

A ferramenta de corte é a serra circular: um disco (corpo) de aço, tensionado para trabalhar plano a alta rotação, com dentes de material de corte soldados na periferia.

Material do dente Características Uso
Metal duro (HM), conhecido também por "widia" duro e resistente ao desgaste, afiável várias vezes uso geral: PB, MDF, melamínicos, contraplacado
Diamante policristalino (PCD) muito mais duro, dura muito mais entre afiamentos, custo elevado materiais abrasivos: HPL, compactos, grandes séries de melamínico

Características e definições

Característica O que é Efeito no corte
Diâmetro (D) medida exterior do disco define, com a máquina, a altura máxima de corte; as seccionadoras usam o diâmetro indicado pelo fabricante
Largura de corte (kerf) largura dos dentes, maior que a do corpo é o material que se transforma em serradura em cada corte; nas serras principais de seccionadora anda tipicamente pelos 4 a 5 mm (4,4 mm é uma medida muito comum)
Espessura do corpo espessura do disco de aço menor que o kerf, para o corpo não roçar no material
Furo diâmetro do furo central tem de corresponder ao veio da máquina
Número de dentes (Z) quantos dentes tem a serra mais dentes, corte mais fino e mais carga por rotação; menos dentes, melhor evacuação da serradura em pilhas altas
Geometria do dente forma do gume vista de frente define o acabamento e o material ideal
Ângulo de ataque inclinação da face do dente influencia a agressividade e o acabamento
Sentido de rotação seta gravada no corpo tem de coincidir com o da máquina

A marcação da serra. Cada serra traz gravados os seus dados, por exemplo "400 × 4,4 × 75 · Z 60 · TR-F · HM · n máx. ...". Lê-se: diâmetro 400 mm, largura de corte 4,4 mm, furo 75 mm, 60 dentes, geometria trapezoidal-plano, dentes de metal duro, e a rotação máxima permitida. Nunca se monta uma serra numa máquina cuja rotação exceda a rotação máxima gravada.

Geometrias de dente mais comuns

A serra incisora

A incisora é uma serra pequena, montada à frente da serra principal no carro porta-serra. Corta primeiro, pouco profunda, e roda em sentido contrário ao da principal. Assim, risca a face inferior da placa no sentido em que os dentes entram no material, e quando a serra principal passa já não há revestimento para arrancar: a aresta de baixo sai limpa.

Para funcionar, a incisora tem de estar:

Se estiver desalinhada ou estreita, forma-se um pequeno degrau na aresta inferior da peça, ou o revestimento lasca de um dos lados.

Escolher a serra: tabela de decisão

Situação Escolha
Pilha de melamínico de 19 mm, série normal serra principal HM, TR-F, com incisora
Grandes séries de melamínico, pouca troca serra principal PCD, se a empresa a tiver
HPL ou compacto serra PCD ou HM com geometria específica; avanço reduzido
MDF cru a lacar depois HM, TR-F; atenção ao pó fino
Contraplacado com face à vista HM, dentes adequados; incisora para não arrancar fibras

Ferramentas de troca e aparelhagem de medição

Para trocar e acertar as serras usam-se as ferramentas da própria máquina: chaves de aperto do veio, travão ou bloqueio do veio, e as flanges (anilhas de aperto) que têm de estar limpas e sem mossas. Uma ferramenta genérica pode danificar o veio ou deixar a serra mal apertada.

A aparelhagem de medição do operador inclui:

Exemplo resolvido: ler a marcação e verificar a montagem

Na máquina está indicado: veio de 75 mm, rotação da serra principal 4000 rpm. Em armazém há uma serra "400 × 4,4 × 80 · Z 72 · n máx. 6000".

7. O carro porta-serra e os métodos de corte

Operar o carro porta-serra

O carro porta-serra é o conjunto que leva a serra principal, a serra incisora, os respetivos motores e as bocas de aspiração. Numa seccionadora horizontal de viga, desloca-se sobre guias por baixo da mesa, ao longo da linha de corte.

Em cada corte, o carro:

  1. Sobe as serras até à altura programada (a saliência da serra acima da pilha).
  2. Avança ao longo da linha de corte, à velocidade de avanço programada para o material.
  3. Desce as serras no fim do corte.
  4. Regressa à posição inicial, em marcha rápida, com as serras em baixo.

O que o operador controla e verifica no carro:

O corte guilhotinado e as fases de corte

A seccionadora faz cortes guilhotinados: cada corte atravessa a placa ou a faixa de um lado ao outro, em linha reta. Não é possível "parar a meio" de uma placa para contornar uma peça. Por isso o plano de corte organiza-se em fases:

Fase O que se faz Resultado
Refilamento corte de limpeza dos bordos da placa, que podem vir danificados ou fora de esquadria placa com bordos limpos e esquadriados
1.ª fase (cortes longitudinais ou de faixa) corta a placa em faixas faixas com a largura (ou o comprimento) das peças
2.ª fase (cortes transversais) corta cada faixa em peças ou em sub-faixas peças acabadas ou blocos
3.ª fase (recortes) corta as sub-faixas nas peças finais peças acabadas

Quantas mais fases, mais flexível é o plano, mas mais manuseamento e tempo de máquina. As seccionadoras com uma só linha de corte fazem as fases rodando as faixas à mão (ou com rodador automático) e voltando a introduzi-las.

Métodos de corte

Esquadria

Uma peça está em esquadria quando os lados adjacentes fazem 90°. Na seccionadora, a esquadria é garantida pelo alinhador lateral, pelo refilamento e pela perpendicularidade da linha de corte ao empurrador. Verifica-se medindo as duas diagonais da peça: se forem iguais, a peça está em esquadria.

Exemplo resolvido: altura da pilha

Uma seccionadora tem, segundo o fabricante, uma altura máxima de corte de 95 mm. Queremos cortar melamínico de 19 mm em pilha.

A escolha mais segura é uma pilha de 4 placas: trabalhar sempre no limite da altura de corte aumenta o esforço da serra e piora o acabamento da placa de baixo. Se o plano exigir 20 placas iguais: 20 ÷ 4 = 5 ciclos do mesmo padrão.

Exemplo resolvido: verificar a esquadria pelas diagonais

Uma peça deve medir 1000 × 600 mm. A diagonal teórica é:

√(1000² + 600²) = √(1 000 000 + 360 000) = √1 360 000 ≈ 1166,2 mm

Medem-se as duas diagonais da peça cortada: 1166,5 mm e 1164,1 mm. A diferença é 1166,5 - 1164,1 = 2,4 mm. As diagonais não são iguais: a peça não está em esquadria. A diferença admissível é a que a empresa definir para aquele produto; uma diferença desta ordem numa peça de móvel costuma ser visível na montagem. Verifica-se o alinhador lateral e o refilamento antes de continuar.

8. A lista de corte

O que é e o que contém

A lista de corte enumera todos os componentes em painel de um produto de mobiliário ou carpintaria, com a informação necessária para os cortar. É o documento de partida de todo o processo: se a lista estiver errada, o melhor software do mundo otimiza peças erradas.

Campo Exemplo Porquê
Referência da encomenda e do produto Enc. 2417 · Estante E80 rastreabilidade
Designação Lateral, Tampo, Prateleira identificar a peça na montagem
Material e decorativo PB melamina branco escolher a placa
Espessura 19 mm escolher a placa e a altura da pilha
Comprimento × largura de corte 1796 × 300 mm a medida que a máquina corta
Medida final 1800 × 300 mm a medida depois de orlada
Sentido do veio comprimento no sentido do veio / rodar livre condiciona o plano
Orlas 2 mm nos dois topos de 300 condiciona a medida de corte e a orladora
Quantidade 2 peças iguais agrupadas numa só linha

Comprimento, largura e sentido do veio

Por convenção, a primeira medida é o comprimento, no sentido do veio ou do decorativo; a segunda é a largura. Em painéis lisos pode indicar-se "rodar livre" (a peça pode ser rodada 90° no plano de corte). Em painéis com veio, a peça não pode rodar, e a ordem das medidas passa a ser uma instrução para o software.

Medida final e medida de corte: o desconto das orlas

Quando a peça leva orla aplicada depois do corte, a medida de corte tem de descontar a espessura das orlas nesse sentido, para que a peça orlada fique com a medida final.

Medida de corte = medida final - soma das espessuras das orlas nesse sentido

A esta conta, cada empresa soma ou não uma pequena sobremedida, conforme a sua orladora: as orladoras com pré-fresagem retiram um pouco de material ao topo antes de colar a orla, para ficar limpo e reto, e essa quantidade tem de ser acrescentada à medida de corte. O valor da sobremedida é uma regra da empresa e da máquina, e tem de estar definido por escrito; nunca se inventa na hora.

Exemplo resolvido: descontar as orlas

Uma prateleira tem medida final 600 × 300 mm e leva orla de 2 mm nos dois topos de 300 mm (as extremidades do comprimento). Nos lados de 600 mm não leva orla.

Se a mesma peça levasse também orla de 1 mm num dos lados compridos (a frente), a largura passaria a 300 - 1 = 299 mm, e a medida de corte seria 596 × 299 mm.

Se a orladora da empresa tiver pré-fresagem e a regra interna for, por exemplo, acrescentar 1 mm por cada topo pré-fresado, as medidas de corte passam a 596 + 2 = 598 mm no comprimento (dois topos) e 299 + 1 = 300 mm na largura. O que muda de empresa para empresa é a sobremedida; o princípio é sempre o mesmo.

Elaborar a lista de corte, passo a passo

  1. Analisar o desenho técnico e a especificação do produto (dimensões exteriores, espessuras, tipo de montagem, orlas).
  2. Decompor o produto em componentes em painel.
  3. Calcular a medida final de cada componente a partir das dimensões exteriores e das espessuras.
  4. Aplicar o desconto das orlas (e a sobremedida da empresa) para obter a medida de corte.
  5. Definir o sentido do veio de cada peça.
  6. Agrupar peças iguais e multiplicar pela quantidade de produtos da encomenda.
  7. Rever material, espessura e quantidades, de preferência por outra pessoa.

Exemplo resolvido: lista de corte de uma estante

Produto: estante com largura exterior de 800 mm, altura de 1836 mm e profundidade de 300 mm, em PB melamina branco de 18 mm. O tampo e a base cobrem as laterais (assentam por cima e por baixo delas). Tem 3 prateleiras fixas, recuadas 20 mm para deixar a frente livre. Para simplificar, neste exemplo as peças não levam orla.

Cálculos:

Designação Corte (mm) Espessura Material Veio Qtd.
Lateral 1800 × 300 18 mm PB melamina branco rodar livre 2
Tampo/Base 800 × 300 18 mm PB melamina branco rodar livre 2
Prateleira 764 × 280 18 mm PB melamina branco rodar livre 3

Área de peças por estante: 2 × (1,800 × 0,300) + 2 × (0,800 × 0,300) + 3 × (0,764 × 0,280) = 1,080 + 0,480 + 0,642 = 2,202 m².

Repara que a medida da prateleira não é "mais pequena para ter folga": é exatamente o vão interior, porque é uma prateleira fixa. Uma prateleira móvel, apoiada em suportes, leva normalmente uma pequena folga em relação ao vão, definida pela empresa, para entrar e sair sem riscar as laterais.

Exemplo resolvido: a mesma estante com orlas

A empresa decide orlar com orla de 2 mm: a frente das laterais, a frente e os dois topos do tampo e da base, e a frente das prateleiras. Sem sobremedida de pré-fresagem.

As dimensões exteriores da estante mantêm-se: é a orla que "repõe" a medida.

9. O plano de corte

O que é o plano de corte

O plano de corte mostra como as peças da lista de corte se distribuem dentro de cada placa (ou sobra) disponível, e em que sequência se cortam. Tem quatro objetivos, pela ordem em que costumam pesar:

  1. Cortar todas as peças certas, com o veio certo.
  2. Minimizar o desperdício e o número de placas usadas.
  3. Maximizar o reaproveitamento das sobras: o que sobra deve, sempre que possível, sair num retângulo com dimensão útil, em vez de várias tiras estreitas.
  4. Manter o tempo de corte e o manuseamento razoáveis (menos ciclos, menos rotações de faixas).

Os dados que entram nas contas

Área útil da placa = (comprimento - 2 × refilamento) × (largura - 2 × refilamento)

Espaço ocupado por n peças numa faixa = n × medida da peça + (n - 1) × kerf

Aproveitamento (%) = área das peças ÷ área das placas usadas × 100

Quando uma parte da placa volta ao armazém como sobra reaproveitável, pode também calcular-se o aproveitamento sobre a área efetivamente consumida (a área da placa menos a da sobra devolvida). Um relatório sério indica sempre qual das duas contas está a usar.

Exemplo resolvido 1: quatro peças numa placa

Placa de PB melamina branco 2750 × 1830 mm. Peças: 4 × 800 × 400 mm (rodar livre). Kerf 4,4 mm; refilamento de 10 mm por bordo (valor deste exemplo).

Passo 1 · área útil. (2750 - 2 × 10) × (1830 - 2 × 10) = 2730 × 1810 mm.

Passo 2 · onde cabem as peças. Pôr as 4 peças "lado a lado" pelo comprimento de 800 mm não dá: 4 × 800 + 3 × 4,4 = 3213,2 mm, mais do que os 2730 mm úteis. Pô-las umas por baixo das outras, pela largura de 400 mm, dá:

4 × 400 + 3 × 4,4 = 1600 + 13,2 = 1613,2 mm ≤ 1810 mm ✓

Passo 3 · sequência.

  1. Refilar os bordos.
  2. 1.ª fase: cortar uma faixa de 800 mm (sentido do comprimento da placa). Resto: 2730 - 800 - 4,4 = 1925,6 mm × 1810 mm.
  3. 2.ª fase: cortar a faixa de 800 em 4 peças de 400 mm. Resto da faixa: 1810 - 1613,2 - 4,4 = 192,4 mm × 800 mm.

Passo 4 · aproveitamento.

Passo 5 · olhar para a sobra. O resto da placa (1925,6 × 1810 mm, cerca de 3,49 m²) é uma sobra grande e útil. Se voltar ao armazém registada:

Os 25,4 % não são, por isso, um "mau plano": são o retrato de uma encomenda pequena. O que tornaria o plano mau seria cortar as peças no meio da placa e deixar duas sobras estreitas em vez de uma grande.

Exemplo resolvido 2: quatro estantes em duas placas

Encomenda: 4 estantes do capítulo 8 (sem orlas). Peças: 8 laterais 1800 × 300, 8 tampos/bases 800 × 300, 12 prateleiras 764 × 280. Placa 2750 × 1830, kerf 4,4 mm, refilamento 10 mm por bordo, área útil 2730 × 1810 mm.

Passo 1 · número mínimo de placas. Área das peças: 4 × 2,202 = 8,807 m² (com mais casas: 8,80704 m²). Área útil de uma placa: 2,730 × 1,810 = 4,941 m². 8,807 ÷ 4,941 ≈ 1,78, portanto são precisas pelo menos 2 placas.

Passo 2 · placa 1.

Passo 3 · placa 2.

Passo 4 · conferir. Laterais 5 + 3 = 8 ✓; tampos/bases 5 + 3 = 8 ✓; prateleiras 3 + 9 = 12 ✓.

Passo 5 · aproveitamento. 8,807 m² ÷ (2 × 5,0325 m²) × 100 = 8,807 ÷ 10,065 × 100 ≈ 87,5 %.

Passo 6 · sobras. As sobras deste plano são tiras estreitas (por exemplo 1800 - 1532,4 - 4,4 = 263,2 mm de comprimento nas faixas de prateleiras) e os 43,6 mm que restam na largura da placa 2 (1810 - 1762 - 4,4). São pequenas demais para stock na maior parte das empresas: vão para resíduo.

Regras práticas para um bom plano manual

10. Software para otimização de corte de painel

Para que serve

Fazer o plano de corte à mão é lento e raramente ótimo quando há dezenas de peças diferentes e vários materiais. O software de otimização de corte recebe a lista de corte e as placas disponíveis (novas e sobras) e procura, entre milhares de combinações, a que cumpre os objetivos definidos. Para seccionadoras chama-se otimização de corte guilhotinado (ou otimização de corte de painel), porque só gera cortes de lado a lado. Não confundir com nesting, que é a distribuição de peças de forma livre numa placa para corte em centro de maquinagem CNC com fresa, onde as peças podem encaixar umas nas outras.

Existem programas dos próprios fabricantes de seccionadoras e programas independentes, alguns integrados com o software de desenho de mobiliário e com o sistema de gestão da empresa. As funções essenciais são as mesmas em todos.

Dados de entrada

Dado Exemplo Nota
Lista de peças designação, medidas de corte, quantidade, material, veio, orlas importada da lista de corte ou do software de desenho
Placas em stock formato, material, espessura, quantidade disponível o formato real, não o do catálogo
Sobras em stock medidas e código de cada sobra só funciona se o stock estiver atualizado
Parâmetros da máquina kerf, refilamento, altura máxima de pilha, número de fases, dimensões mínimas de faixa vêm da máquina e das serras montadas
Parâmetros de otimização sobra mínima reaproveitável, peso dado ao aproveitamento e ao tempo definidos pela empresa

Critérios de otimização

O software não tem um só "melhor" plano: depende do que se lhe pede.

A empresa escolhe os pesos destes critérios; o técnico tem de saber o que está escolhido para interpretar o resultado.

Fluxo de utilização

  1. Importar ou introduzir a lista de corte: medidas, material, espessura, quantidade, veio, orlas.
  2. Confirmar as placas e as sobras disponíveis em stock.
  3. Confirmar os parâmetros: kerf da serra montada, refilamento, altura da pilha, sobra mínima.
  4. Otimizar e analisar o relatório de aproveitamento: número de placas, % de aproveitamento, sobras geradas, tempo estimado.
  5. Rever os padrões: veio respeitado, quantidades certas, sobras úteis, cortes exequíveis.
  6. Exportar o programa para o comando da seccionadora (pela rede ou por ficheiro), o plano em papel ou em ecrã para o operador, e as etiquetas das peças.
  7. Depois do corte, registar as sobras novas e dar baixa das placas e sobras usadas.

Ler um relatório de otimização

Um relatório típico mostra, por material:

Exemplo resolvido: comparar duas otimizações

Duas otimizações para a mesma encomenda, em PB melamina branco 2750 × 1830 (5,0325 m² por placa). Área total das peças: 40,20 m².

Otimização A Otimização B
Placas usadas 9 10
Sobras geradas nenhuma útil 2 sobras de 1200 × 1810 mm
Tempo estimado 58 min 44 min

Conclusão: A gasta menos uma placa e é a escolha certa quando o material é caro ou escasso e as sobras daquele material raramente se usam. B é mais rápida e devolve sobras úteis; compensa se houver encomendas regulares que usem essas sobras e se o tempo de máquina for o gargalo. A decisão não é do software: é da empresa, com os dados que o software dá.

O operador confirma sempre

O software otimiza segundo os dados que recebeu. Um kerf mal configurado (por exemplo, 3,2 mm no software quando a serra montada tem 4,4 mm) faz com que cada faixa com várias peças saia mais curta do que o previsto e a última peça fique fora de medida. Uma sobra que não está em stock (ou que está registada mas já foi usada) faz o plano falhar a meio. Antes de cortar, confere-se o plano com a realidade.

Exemplo resolvido: o erro do kerf

O software foi configurado com kerf de 3,2 mm, mas a serra montada tem 4,4 mm. Numa faixa com 1810 mm úteis, o software colocou 5 peças de 359 mm.

A correção é pôr no software o kerf da serra efetivamente montada.

11. Especificações de corte: marcação, velocidades de avanço e alturas de corte

As especificações de corte dizem como a máquina executa fisicamente cada corte. Uma parte vem do plano de corte (cotas, sequência, pilha), outra da tabela de materiais do comando (velocidades, alturas, pressões), e uma parte da experiência e do registo da empresa.

Marcação

A marcação é tudo o que permite saber, sem dúvida, que peça é qual e como está orientada:

Velocidade de avanço

A velocidade de avanço (vf) é a velocidade a que o carro porta-serra percorre a linha de corte, em metros por minuto (m/min).

Situação Tendência
Pilha baixa, material macio, PB cru avanço mais alto
Pilha alta avanço mais baixo
Melamínico, lacado, folheado avanço moderado, para arestas limpas
HPL, compacto avanço baixo
Serra gasta o acabamento piora; a solução é afiar, não "compensar" com avanço

Os valores concretos vêm do manual da máquina, das recomendações do fabricante da serra e da tabela de materiais validada pela empresa.

Avanço por dente e velocidade de corte

Duas contas ajudam a perceber o que se está a pedir à serra.

Avanço por dente: fz (mm) = vf (mm/min) ÷ [n (rpm) × Z]

Velocidade de corte: vc (m/s) = π × D (mm) × n (rpm) ÷ 60 000

Exemplo resolvido: avanço por dente

Serra principal com Z = 60 dentes, a n = 4500 rpm; avanço vf = 30 m/min.

Se o operador baixasse o avanço para 10 m/min: fz = 10 000 ÷ 270 000 ≈ 0,037 mm. Cada dente tiraria uma apara três vezes mais fina: mais fricção, mais aquecimento, risco de queimar a aresta. Se subisse para 60 m/min: fz ≈ 0,22 mm, o dobro da carga por dente, com risco de lascar. O intervalo certo para cada material é o do fabricante da serra; a conta serve para perceber o efeito de mexer no avanço.

Exemplo resolvido: velocidade de corte

A mesma serra com D = 400 mm, a n = 4500 rpm:

vc = π × 400 × 4500 ÷ 60 000 = 3,1416 × 400 × 4500 ÷ 60 000 ≈ 5 654 867 ÷ 60 000 ≈ 94 m/s

É uma velocidade periférica muito alta (mais de 300 km/h na ponta dos dentes): é por isso que uma serra mal apertada, com fissuras ou com dentes em falta é tão perigosa.

Altura de corte

Precisão e verificação

A precisão confirma-se sempre com aparelhagem de medição:

  1. Medir a primeira peça de cada padrão (ou do lote) com fita de boa classe e paquímetro.
  2. Verificar a esquadria pelas diagonais nas peças grandes.
  3. Ver as arestas: lascas, degrau da incisora, queimado.
  4. Comparar com a cota do plano e com a tolerância definida pela empresa ou pelo cliente.
  5. Se houver um desvio sistemático (igual em todas as peças), corrigir na origem: calibração do empurrador, kerf no programa, alinhador, e não "à mão" peça a peça.
  6. Registar a verificação.

12. Configurar a seccionadora

Configurar é deixar a máquina pronta para cortar aquele material, com aquele plano, com a precisão pedida. Faz-se no início do turno, a cada mudança de material ou de serra, e sempre que houver dúvida sobre as cotas.

Checklist de configuração

  1. Segurança: resguardos no lugar e fechados, barreiras e paragens de emergência a funcionar (testar no início do turno), aspiração ligada, EPI colocado, área livre de peças e ferramentas.
  2. Serra: confirmar que a serra montada é a adequada ao material (capítulo 6) e que está em bom estado; se for preciso trocar, fazer a troca com a máquina consignada (capítulo 16).
  3. Material: selecionar no comando o material e a espessura certos na tabela de materiais (velocidades, saliência, pressão da viga, incisora ligada ou não).
  4. Programa: carregar o plano de corte certo e confirmar que o kerf e o refilamento do programa correspondem à serra montada.
  5. Pilha: confirmar a altura da pilha e o número de placas.
  6. Referência: da primeira placa, encostar o canto de referência ao alinhador lateral.
  7. Corte de teste: cortar a primeira faixa ou peça, medir a cota, a esquadria e as arestas (incisora).
  8. Registar e só então avançar para a série.

Acertar a incisora no corte de teste

Depois de montar ou trocar serras, olha-se para a aresta de baixo da peça de teste:

O que se vê Causa provável Correção
Lascas dos dois lados da aresta de baixo incisora demasiado estreita ou pouco profunda abrir a incisora ou aumentar a profundidade
Degrau ou lasca só de um lado incisora desalinhada lateralmente deslocar lateralmente a incisora até ficar no plano da principal, como indica o manual
Degrau dos dois lados incisora mais larga que a principal fechar a incisora
Aresta limpa incisora bem acertada registar e seguir

Exemplo resolvido: corrigir um desvio sistemático

No corte de teste, uma faixa programada a 600,0 mm mede 601,5 mm; a segunda faixa programada também a 600,0 mm mede 601,4 mm.

  1. Confirmar a medição com outro instrumento (paquímetro, outra fita): 601,5 e 601,4 mm confirmados.
  2. O desvio repete-se (cerca de +1,5 mm nas duas): é sistemático, não um acaso.
  3. Procurar a causa: o empurrador pode precisar de calibração, a placa pode não estar encostada, ou pode haver aparas entre a placa e a referência.
  4. Limpar e reencostar; repetir o teste. Se o desvio se mantiver, é a calibração do eixo do empurrador: comunicar à manutenção ou fazer a calibração de acordo com o manual, se o operador estiver autorizado.
  5. Novo corte de teste: 600,1 mm. Dentro da tolerância: registar e continuar.

Nunca se "compensa" o erro alterando as cotas do programa (programar 598,5 para obter 600): o programa fica errado para quem vier a seguir e o erro reaparece quando a máquina for calibrada.

13. Programar o plano de corte e executar o corte automático

Três maneiras de programar

  1. Programa vindo do software de otimização: é o caso normal na indústria. O escritório técnico otimiza e envia o programa pela rede; o operador escolhe-o na lista e confirma.
  2. Programação no comando da máquina: para peças avulsas ou reparações, o operador introduz os padrões no próprio comando. Muitos comandos têm otimização simples incorporada.
  3. Modo manual ou semiautomático: introduz-se uma cota e corta-se, peça a peça. Só para acertos, cortes de teste e peças únicas.

Como se descreve um padrão de corte

Seja qual for o comando, um padrão guilhotinado descreve-se por fases: primeiro as faixas, depois o que se corta em cada faixa. O padrão da placa 1 do exemplo 2 do capítulo 9, escrito como sequência:

Fase Corte Repetições Resultado
0 refilamento 1 bordos limpos
1 faixa de 1800 1 zona A (1800 × 1810); resto 925,6 = zona B
2 (zona A) faixa de 300 5 5 laterais 1800 × 300
2 (zona A) faixa de 280 1 faixa 1800 × 280
3 (faixa 280 da zona A) 764 2 2 prateleiras
2 (zona B) faixa de 300 5 5 faixas 925,6 × 300
3 (faixas 300 da zona B) 800 1 em cada 5 tampos/bases
2 (zona B) faixa de 280 1 faixa 925,6 × 280
3 (faixa 280 da zona B) 764 1 1 prateleira

O comando traduz isto em movimentos: onde o empurrador para, quando a viga desce, quando o operador tem de rodar uma faixa.

Antes do arranque

Durante o ciclo automático

Executar em automático não dispensa a vigilância: o operador continua responsável pelo resultado de cada peça.

Exemplo resolvido: ciclos e placas

Uma encomenda precisa de 20 placas cortadas com o mesmo padrão; a pilha máxima escolhida é de 4 placas de 19 mm.

14. Identificação e registo dos painéis seccionados, sobras e stocks

Etiquetas de identificação e rastreamento

Depois de cortadas, as peças de dezenas de encomendas misturam-se nas mesas e nos carros. Sem identificação, uma peça bem cortada acaba no móvel errado. Por isso cada peça leva uma etiqueta, normalmente impressa pela impressora ligada ao comando no momento em que a peça é cortada.

Conteúdo típico de uma etiqueta:

O código de barras permite ler a peça nas máquinas seguintes: a orladora ou o centro CNC leem a etiqueta e carregam automaticamente o programa certo. É também a base da rastreabilidade: saber, para cada peça, de que placa veio, quando foi cortada, em que máquina e por quem.

Onde e como se cola

Registo dos painéis seccionados

O registo, cada vez mais feito automaticamente pelo comando e pelo software, contém:

Sobras reaproveitáveis

Uma sobra reaproveitável é um retângulo de placa, cortado a partir de um plano, com dimensões acima do mínimo definido pela empresa. Não é desperdício: é stock.

Para uma sobra ser mesmo reaproveitada tem de estar:

  1. Identificada com etiqueta própria: código, material, decorativo, espessura, medidas e sentido do veio.
  2. Registada no stock de sobras do software (entrada).
  3. Arrumada num local definido (estante de sobras), de pé ou deitada sem empenar, com a etiqueta visível.
  4. Abatida ao stock quando for usada (saída).

Atualização de stocks

Cada ciclo de corte mexe em dois stocks:

Se o registo falhar, o software passa a "ver" placas e sobras que não existem (e o plano falha a meio) ou a ignorar sobras que estão na estante (e abre placas novas sem necessidade).

Exemplo resolvido: usar uma sobra

Em stock há a sobra S-0418: PB melamina branco 18 mm, 900 × 500 mm. Uma nova encomenda tem uma prateleira de 764 × 280 mm no mesmo material (rodar livre). Kerf 4,4 mm; a empresa refila 5 mm em dois lados das sobras antes de as usar (valor deste exemplo).

Registo: saída da S-0418; eventual entrada de nova sobra; a prateleira sai com etiqueta da encomenda nova.

Exemplo resolvido: atualizar o stock

Início do turno: 14 placas de PB branco 2750 × 1830 × 18 e 6 sobras desse material. O turno cortou 5 placas e usou 2 sobras, e gerou 3 sobras novas acima do mínimo.

Se o operador esquecer de registar as 3 sobras novas, o software conta 4 em vez de 7, e três retângulos úteis ficam "invisíveis" na estante.

15. Limpeza de resíduos e proteção ambiental

Limpeza de resíduos

A limpeza não é um extra de fim de dia: faz parte da operação.

Resíduos e ambiente

Resíduo Destino adequado
Serradura e pó captados pela aspiração silo ou contentor da aspiração; valorização (por exemplo energética ou como matéria-prima) por operador licenciado
Retalhos e tiras de derivados contentor próprio, separado; valorização ou reciclagem
Embalagens das placas (plástico, cartão, paletes) separação por tipo, para reciclagem; paletes reutilizáveis
Serras usadas e sucata metálica sucateiro licenciado; as serras gastas vão ao afiador enquanto forem recuperáveis
Panos e absorventes com óleo, embalagens de lubrificantes resíduo perigoso, recolha por operador licenciado

A serradura, as aparas e os aglomerados não contaminados têm código próprio na Lista Europeia de Resíduos (LER 03 01 05). O essencial para o operador é: separar na origem, não misturar resíduos perigosos (óleos, colas, solventes) com a serradura, e cumprir as regras de separação afixadas na oficina.

A melhor forma de proteger o ambiente nesta operação é, antes de tudo, gastar menos placa: um plano com melhor aproveitamento e sobras bem geridas reduz o abate de madeira, a energia e o transporte associados a cada móvel.

16. Manutenção das serras e gestão do ciclo de afiamento

Monitorizar o estado das serras

A serra perde o fio com o uso. Os sinais de desgaste que o operador deve reconhecer:

O ciclo de afiamento

Uma serra de metal duro pode ser afiada várias vezes, até o dente ficar pequeno demais. Gerir o ciclo de afiamento é decidir quando tirar a serra, antes de o desgaste estragar peças ou partir dentes, e registar a sua vida.

Exemplo resolvido: planear o afiamento

A ficha da serra principal S-P02 indica que, com PB melamina em pilhas de 3 placas, o acabamento começa a degradar-se por volta dos 12 000 m de corte (valor do histórico desta empresa). Um padrão típico tem cerca de 20 cortes de 1,8 m e 10 cortes de 2,75 m por ciclo.

Planeamento: trocar a serra ao fim do 3.º turno, sem esperar que o acabamento se degrade, e ter uma serra afiada pronta nessa altura. Se o material mudar para HPL, o critério tem de ser revisto: materiais abrasivos gastam a serra muito mais depressa.

Procedimento de substituição das serras

  1. Preparar: serra nova (ou afiada) certa para o material, com o furo e o kerf previstos; ferramentas próprias da máquina; luvas para manusear a serra.
  2. Parar e consignar a máquina (capítulo 5): interruptor geral bloqueado, serra parada.
  3. Aceder ao carro porta-serra pela porta ou abertura prevista para a troca.
  4. Bloquear o veio com o sistema próprio e desapertar a porca ou o aperto rápido com a ferramenta da máquina (atenção ao sentido de desaperto indicado).
  5. Retirar a serra com cuidado, segurando-a pelo corpo, sem tocar nos dentes.
  6. Limpar as flanges e o veio: uma apara entre a flange e a serra faz a serra trabalhar torta.
  7. Montar a serra nova com a seta de rotação no sentido da máquina, encostada à flange.
  8. Apertar com a ferramenta própria, sem extensões improvisadas; retirar o bloqueio do veio.
  9. Fechar as proteções, retirar ferramentas, retirar o cadeado.
  10. Atualizar o comando: se o diâmetro ou o kerf mudaram, introduzir os novos valores.
  11. Corte de teste: verificar cota, esquadria e o acerto da incisora (capítulo 12).
  12. Registar a troca na ficha da serra: data, operador, serra retirada (para afiar ou abater), serra montada.

Porque é que isto importa

Uma serra gasta obriga a reduzir o avanço, lasca mais, aquece, gasta mais energia e sobrecarrega o motor. Uma serra afiada a tempo é afiada com menos desbaste e dura mais afiamentos. Gerir o ciclo de afiamento é, ao mesmo tempo, qualidade, segurança e economia.

17. Normas de segurança e saúde, de proteção ambiental e da qualidade

Segurança e saúde no trabalho

As normas aplicadas nesta operação (capítulo 5): utilização de EPI; resguardos e dispositivos de segurança sempre ativos; consignação nas intervenções; procedimentos de emergência conhecidos por todos; captação de pó e limpeza por aspiração; movimentação de placas pesadas a dois ou com meios mecânicos (ventosas, mesas elevatórias, empilhadores).

Proteção ambiental

Separação de resíduos na origem, encaminhamento por operadores licenciados, aspiração com filtros em bom estado, redução do desperdício de placa (capítulo 15).

Normas da qualidade

A qualidade no corte de painel mede-se em quatro pontos:

Ponto Como se verifica
Medida medição da primeira peça e de amostras, com instrumento adequado, contra a tolerância definida
Esquadria diagonais iguais dentro da tolerância
Aresta sem lascas, degraus da incisora ou queimados visíveis
Identificação etiqueta certa, na peça certa, na posição certa

Muitas empresas do setor têm um sistema de gestão da qualidade certificado pela norma ISO 9001. Para o operador, isso traduz-se em: instruções de trabalho escritas, registos de verificação, tratamento de não conformidades (registar, separar a peça, identificar a causa, corrigir), calibração dos instrumentos de medição e rastreabilidade das peças.

Exemplo resolvido: tratar uma não conformidade

Numa série de 40 laterais, a peça 23 aparece com o revestimento riscado.

  1. Separar a peça e identificá-la como não conforme.
  2. Verificar as peças anteriores e seguintes: o risco repete-se?
  3. Procurar a causa: a placa já vinha riscada (defeito de material) ou foi riscada na mesa (apara presa, mesa de ar sem ar)?
  4. Corrigir a causa e repor a peça (cortar uma nova a partir de sobra ou de nova placa, pelo software, para manter a rastreabilidade).
  5. Registar a não conformidade com o motivo: se for do material, informa-se o fornecedor com o lote da placa.

Erros comuns

Glossário

Síntese

O corte de painel segue sempre a mesma ordem:

  1. Conhecer o material e a máquina (capítulos 2 a 4): derivados, formatos reais, veio; tipos e elementos da seccionadora; comando.
  2. Trabalhar em segurança (capítulo 5): perigos, sistemas de segurança, consignação, EPI, pó e ruído.
  3. Escolher e conhecer as ferramentas (capítulos 6 e 7): serras, incisora, carro porta-serra, métodos de corte.
  4. Elaborar a lista de corte com as medidas de corte certas (capítulo 8).
  5. Elaborar o plano de corte com kerf, refilamento e aproveitamento (capítulo 9), com a ajuda do software de otimização (capítulo 10).
  6. Definir as especificações de corte e configurar a máquina, terminando no corte de teste (capítulos 11 e 12).
  7. Programar e executar em automático, com vigilância (capítulo 13).
  8. Etiquetar, registar, gerir sobras e stocks (capítulo 14).
  9. Limpar, separar resíduos e manter as serras (capítulos 15 e 16), dentro das normas de segurança, ambiente e qualidade (capítulo 17).

Dominar este fluxo, da lista de corte à peça etiquetada, é a competência central desta unidade.

Exercícios resolvidos

1. Uma encomenda tem 30 armários com a mesma lateral em melamínico de 19 mm. A máquina corta, com qualidade, pilhas até 4 placas. Que método de corte escolher e quantos ciclos são precisos se cada placa dá 5 laterais?

Resolução: 30 armários × 2 laterais = 60 laterais. 60 ÷ 5 = 12 placas. Corte em pilha, 12 ÷ 4 = 3 ciclos de 4 placas iguais, todas do mesmo material, espessura e formato, alinhadas pelo mesmo canto.

2. Uma peça tem medida final 720 × 560 mm, com orla de 2 mm nos dois lados de 560 e orla de 0,8 mm num dos lados de 720. Qual é a medida de corte (sem sobremedida)?

Resolução: comprimento 720 - 2 - 2 = 716 mm; largura 560 - 0,8 = 559,2 mm. Medida de corte: 716 × 559,2 mm.

3. Numa faixa com 1810 mm úteis, quantas peças de 350 mm cabem com kerf de 4,4 mm?

Resolução: 5 peças: 5 × 350 + 4 × 4,4 = 1750 + 17,6 = 1767,6 mm ≤ 1810 ✓. 6 peças: 2100 + 22 = 2122 mm ✗. Cabem 5, e sobram 1810 - 1767,6 - 4,4 = 38 mm.

4. Um plano usa 6 placas de 2800 × 2070 mm para 30,10 m² de peças. Qual é o aproveitamento?

Resolução: área de uma placa: 2,800 × 2,070 = 5,796 m². Área usada: 6 × 5,796 = 34,776 m². Aproveitamento: 30,10 ÷ 34,776 × 100 ≈ 86,6 %.

5. Uma sobra de 1200 × 600 × 18 mm está em stock. Uma nova encomenda precisa de prateleiras de 900 × 280 × 18 mm no mesmo material. Quantas se tiram da sobra, com kerf de 4,4 mm e sem refilamento?

Resolução: na largura: 2 × 280 + 4,4 = 564,4 ≤ 600 ✓; 3 × 280 + 2 × 4,4 = 848,8 ✗. No comprimento: 900 ≤ 1200 ✓, mas 2 × 900 ✗. Tiram-se 2 prateleiras, e o software deve usar a sobra antes de abrir uma placa nova.

6. Serra com Z = 72, a 4000 rpm, e avanço de 36 m/min. Qual é o avanço por dente?

Resolução: fz = 36 000 ÷ (4000 × 72) = 36 000 ÷ 288 000 = 0,125 mm.

7. Durante um ciclo automático soa um alarme. Qual é a reação correta?

Resolução: parar o ciclo, ler a mensagem, verificar a causa e só retomar quando estiver resolvida; se for preciso intervir com as mãos na máquina, consignar. Nunca se continua "para não perder tempo".

8. Explica porque é que a serra incisora corta antes da principal, e o que se vê numa peça quando está desalinhada.

Resolução: a incisora risca primeiro, pouco profunda e em sentido contrário, a face de baixo; quando a principal passa, o revestimento já está cortado e não lasca. Se estiver desalinhada, aparecem lascas ou um degrau de um dos lados da aresta de baixo.