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UC · Unidade de Competência · UC02026

Atuar em situações de emergência no treino desportivo (UC02026)

Do plano de contingência ao SBV com DAE, da pessoa adulta à criança, e dos primeiros socorros às lesões desportivas
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Desporto ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

Quem treina pessoas é muitas vezes a primeira pessoa com formação a chegar quando alguém cai ou se magoa a sério. Esta sebenta ensina a atuar em situações de emergência no treino desportivo, com o rigor de um procedimento que se repete sempre igual.

O percurso segue a ordem em que as coisas acontecem. Começamos pelo enquadramento: limites de atuação, ética, sigilo e planeamento de contingência. Segue-se o sistema integrado de emergência médica e a cadeia de sobrevivência, que explicam a quem se pede ajuda e porque cada minuto conta. Depois entramos no coração da UC, o Suporte Básico de Vida (SBV) no adulto, com Desfibrilhador Automático Externo (DAE), a posição lateral de segurança e o SBV pediátrico, e a obstrução da via aérea. Fechamos com a comunicação em emergência, o socorrismo em acidente e trauma (feridas, hemorragias, queimaduras, fraturas, articulações, olhos, objetos empalados), as lesões desportivas e outras emergências médicas (dor no peito, AVC, epilepsia, glicemia, intoxicações, choque, traumatismos da cabeça e da coluna, golpe de calor).

Objetivos de aprendizagem (referencial): aplicar o código de conduta profissional; efetuar os procedimentos vitais da cadeia de sobrevivência; assegurar as condições de segurança para o reanimador e para a pessoa; executar o algoritmo de SBV com DAE; efetuar técnicas de socorrismo em situação de acidente e trauma; identificar as lesões desportivas no âmbito da prevenção e dos primeiros socorros.

Nota importante. Esta sebenta apoia a formação, mas não substitui um curso prático de SBV e DAE com manequim e avaliação de um formador acreditado. As técnicas aprendem-se com as mãos, repetindo-as, e as recomendações são revistas periodicamente. Usa sempre a versão em vigor das recomendações do European Resuscitation Council (ERC) e do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), que este conteúdo segue, e as instruções que o 112 der em direto.

1. Primeiros socorros: limites de atuação, ética e código de conduta

O que são primeiros socorros e quem os presta

Primeiros socorros são os cuidados imediatos, simples e não especializados, prestados a uma pessoa doente ou acidentada até à chegada de ajuda diferenciada (equipa de emergência médica). O técnico de desporto não é médico nem enfermeiro: o seu papel é reconhecer a gravidade, proteger, pedir ajuda e manter a pessoa viva e estável com técnicas que aprendeu e treinou. Por outras palavras, é o primeiro elo de uma corrente que continua com a equipa do INEM e o hospital.

Limites de atuação

Atuar bem inclui saber onde parar. Os limites do técnico são:

Pode fazer Não deve fazer
Avaliar a segurança, a consciência e a respiração Fazer diagnósticos ou dizer à pessoa «não é nada de grave»
Pedir ajuda ao 112 e seguir as instruções Dar medicação por iniciativa própria (nem analgésicos)
Iniciar SBV e usar o DAE Dar comida ou bebida a uma pessoa com alteração de consciência ou que possa precisar de cirurgia
Controlar uma hemorragia, imobilizar, arrefecer uma queimadura Remover objetos empalados, reduzir fraturas, «meter o osso no sítio»
Manter a pessoa confortável, aquecida e vigiada Mover uma vítima de trauma sem necessidade, ou transportá-la no carro próprio quando há gravidade
Colaborar com os agentes de emergência quando chegam Recusar-se a entregar a vítima ou a informação à equipa de emergência

Cada decisão deve respeitar a formação que se tem (um técnico com SBV/DAE não faz o que é de um enfermeiro) e o princípio da não maleficência: na dúvida, não agravar. Quando a pessoa está consciente e capaz, pede-se o seu consentimento antes de a tocar («Posso ajudá-lo?»). Quando está inconsciente e em perigo, presume-se o consentimento implícito: qualquer pessoa razoável quereria ser socorrida.

Ética, sigilo e privacidade

O técnico de desporto lida com dados sensíveis: sabe de doenças, lesões, medicação. Em emergência, aplicam-se estes princípios:

Código de conduta profissional

Aplicar o código de conduta profissional em emergência significa: cumprir os protocolos internos da instalação; respeitar os limites de atuação, o sigilo e a privacidade; manter o controlo emocional e promover a calma entre os presentes; comunicar de forma clara e assertiva; agir com responsabilidade pelas suas ações; e prevenir em vez de apenas reagir. Inclui ainda a apresentação pessoal cuidada, a disciplina de seguir o protocolo mesmo sob pressão, a flexibilidade e adaptabilidade para ajustar a resposta ao espaço e aos meios disponíveis e a sustentabilidade no uso e na reposição do material de socorro. A formação é para ser mantida: as recomendações de reanimação são revistas, e a competência perde-se se não for treinada. Um técnico que faz reciclagem regular responde melhor e com menos hesitação.

Planeamento de contingência e prevenção de acidentes

Os acidentes previnem-se, e a resposta prepara-se antes de haver um problema. O plano de contingência (ou plano de emergência) de uma instalação desportiva, seja um ginásio, uma piscina, um complexo desportivo ou uma escola, deve responder a perguntas simples:

  1. Quem faz o quê? Quem liga ao 112, quem busca o DAE, quem recebe a ambulância à porta, quem afasta o público, quem acompanha a família.
  2. Onde está o material? Localização e sinalização do DAE, da mala de primeiros socorros e das saídas de emergência; telefone sempre acessível.
  3. Qual é o endereço exato e o melhor acesso para a ambulância (que se escreve junto ao telefone, com pontos de referência)?
  4. Como se treina? Simulacros periódicos, para que ninguém descubra no dia que não sabe onde está o DAE.
  5. O que se verifica? Estado e validade do material, verificação do DAE (indicador de funcionamento, elétrodos e baterias dentro do prazo), reposição da mala.

A prevenção ativa passa por: preparar o local e o evento (pavimento seco e sem obstáculos, material arrumado, equipamentos revistos); conhecer a saúde dos praticantes através de questionários de aptidão e anamnese; adequar a carga ao nível de cada um; respeitar aquecimento e retorno à calma; hidratar e vigiar o calor; e ter sempre a lotação e o rácio de vigilância adequados, sobretudo em piscinas e com crianças.

Exemplo resolvido · reagir em modo plano

Numa aula de grupo num ginásio, um praticante de 52 anos senta-se de repente e diz que tem «um aperto no peito». O técnico aplica o plano de contingência.

  1. Parar a atividade e acalmar o grupo: pede a todos que se afastem e aguardem na sala ao lado.
  2. Dar tarefas claras a dois praticantes: «Maria, ligue já ao 112 em alta voz e diga a morada. Rui, traga o DAE da receção e abra a porta da rua.»
  3. Posicionar a pessoa sentada, em repouso, confortável, sem esforço, e vigiá-la sem a deixar sozinha.
  4. Falar com ela de forma calma, sem dizer que não é nada.
  5. Preparar-se para o pior: se a pessoa ficar inconsciente e não respirar normalmente, iniciar SBV e DAE.
  6. Registar depois o episódio, sem comentar com terceiros.

Os limites foram respeitados: não se deu medicação por iniciativa própria, não se fez diagnóstico, pediu-se ajuda e preparou-se o DAE.

2. O sistema integrado de emergência médica e o número 112

O SIEM

O Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM) é o conjunto de entidades, meios e procedimentos que, em Portugal, garantem a assistência à pessoa em situação de doença súbita ou acidente, desde o local da ocorrência até ao hospital adequado. É coordenado pelo INEM e organiza-se em fases e intervenientes encadeados:

Fase O que acontece Quem intervém
Deteção alguém reconhece a emergência testemunha, técnico, praticante
Alerta chamada para o 112 testemunha; agentes do centro operacional 112
Triagem e orientação avaliação da chamada e decisão do meio a enviar técnicos do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) do INEM
Socorro no local primeiros socorros, SBV, DAE e, depois, assistência diferenciada testemunhas, técnico de desporto, bombeiros, ambulâncias, equipas do INEM
Transporte transporte assistido da vítima ambulância de emergência, viatura médica, helicóptero
Tratamento hospitalar receção na urgência e cuidados definitivos hospital de destino

Os meios disponíveis variam com a gravidade: ambulâncias de socorro, motas de emergência, ambulâncias de suporte imediato de vida, viaturas médicas de emergência e reanimação, helicópteros de emergência médica. Quem decide é o CODU, com base nas informações que o interlocutor dá. Por isso a qualidade da chamada tem impacto direto na rapidez e na adequação do socorro.

O número europeu de emergência, 112

Em Portugal, o 112 é o número único de emergência, gratuito e disponível todo o dia. A chamada é atendida por agentes de autoridade nos centros operacionais 112 que, tratando-se de uma situação de saúde, transferem a chamada para o CODU do INEM. O CODU é crucial no reconhecimento da paragem cardiorrespiratória e no acompanhamento das manobras de reanimação: o técnico ajuda quem está ao telefone a identificar a ausência de respiração normal, indica o início das compressões e acompanha o processo até à chegada dos meios.

O 112 é para emergências, quando há risco de vida. Para uma situação de saúde que não é emergente (uma entorse ligeira, uma dúvida sobre um sintoma que não piora), a linha SNS 24 (808 24 24 24) dá aconselhamento e encaminhamento. Na dúvida entre as duas, liga-se ao 112. Para intoxicações, o CIAV (800 250 250).

Como fazer uma boa chamada

As regras do INEM para quem liga são simples:

Colaborar com os agentes de emergência

Quando a equipa de emergência chega, o técnico torna-se colaborador: faz uma passagem curta e organizada do que se passou (o que viu, a que horas, o que fez, quantos choques o DAE deu), entrega o DAE ou os seus dados se a equipa os pedir, apoia a vítima e a família, e não interrompe nem contraria as decisões da equipa. Se estava a fazer SBV, só pára quando a equipa o indicar.

Exemplo resolvido · a chamada para o 112

Uma nadadora desmaia e fica sem reação junto à piscina de um complexo desportivo. Quem faz a chamada?

  1. Quem a vê fica com ela e grita por ajuda; um segundo técnico liga ao 112 em alta voz.
  2. Diz: «Preciso de ajuda para uma pessoa inconsciente na piscina do complexo desportivo, na rua e freguesia indicadas, junto à entrada principal, ao lado da rotunda. É uma mulher de cerca de 30 anos, não responde. O meu nome é João e o meu telefone é este.»
  3. Responde às perguntas do técnico do CODU (respira? está de costas?) e segue as instruções.
  4. Alguém vai à entrada esperar a ambulância; outra pessoa traz o DAE.
  5. Só desliga quando o técnico disser.

A mensagem foi curta, com onde, o quê, quem e como, e a pessoa ficou com as mãos livres.

3. A cadeia de sobrevivência

Conceito

A cadeia de sobrevivência é a sequência de ações que, executadas em tempo útil e sem falhas, maximiza a hipótese de sobreviver a uma paragem cardiorrespiratória. É uma cadeia porque a força do conjunto é a do elo mais fraco: se um elo falha, os outros perdem eficácia. No adulto, na versão do INEM, que segue o ERC, tem quatro elos de igual importância:

Elo Significado Quem o faz
1. Reconhecimento precoce e pedido de ajuda reconhecer a pessoa em risco (ou já em paragem) e ligar 112 sem demora testemunha, técnico
2. Início precoce de SBV compressões e insuflações imediatas testemunha, técnico
3. Desfibrilhação precoce usar o DAE o mais cedo possível testemunha, técnico
4. Cuidados avançados pós-reanimação e recuperação suporte avançado, hospital, reabilitação, regresso à vida equipas de emergência, hospital, comunidade

Os três primeiros elos passam, em larga medida, pelas mãos de quem está no local. É por isso que um técnico de desporto, presente onde se faz esforço físico, tem um papel decisivo.

No manual de SBV mais recente, o INEM junta o SBV e a desfibrilhação num só elo («início precoce de SBV e desfibrilhação») e dá um elo próprio à sobrevivência e recuperação, que inclui a reabilitação e o regresso à vida na comunidade. Os gestos pedidos a quem está no local não mudam.

Porque é que o tempo manda

Numa paragem cardíaca súbita, o ritmo mais frequente é a fibrilhação ventricular: o coração treme e deixa de bombear sangue. O único tratamento eficaz é o choque elétrico. A probabilidade de sucesso cai rapidamente com o passar do tempo: cada minuto de atraso na desfibrilhação reduz a hipótese de sobrevivência em cerca de 10 a 12 %; quando alguém está a fazer SBV, a descida é mais lenta, cerca de 3 a 4 % por minuto. Cada minuto ganho conta.

Cadeia pediátrica

Nas crianças a paragem cardíaca é, em regra, consequência de falta de oxigénio (asfixia, afogamento, doença respiratória) e não de arritmia súbita. No manual de SBV pediátrico mais recente, o INEM usa para a criança a mesma cadeia de quatro elos do adulto: reconhecimento precoce e pedido de ajuda, início precoce de SBV e desfibrilhação, cuidados avançados pós-reanimação, sobrevivência e recuperação. No primeiro elo dá-se especial atenção à identificação precoce da criança gravemente doente, para agir antes de a paragem acontecer. Na criança pesam mais a prevenção (acidentes, afogamento, engasgamento) e a oxigenação, razão pela qual o protocolo pediátrico começa por cinco insuflações.

4. Segurança, avaliação da cena e equipamento de proteção individual

A segurança em primeiro lugar

A primeira regra de qualquer socorro é: não se tornar uma segunda vítima. Ajudar sem avaliar o perigo pode matar o socorrista, a vítima e quem estiver por perto. A segurança avalia-se antes de abordar a pessoa e mantém-se ao longo de toda a intervenção, incluindo durante o uso do DAE. Há três perguntas: estou seguro? a pessoa está segura? os outros estão seguros?

Perigo Exemplos em contexto desportivo Como atuar
Elétrico cabos soltos, equipamento avariado, humidade cortar a energia no quadro; não tocar
Mecânico barras e pesos instáveis, máquinas em movimento, bolas, tráfego em corridas de rua parar a atividade; sinalizar; afastar
Estruturas instáveis ou metálicas bancadas, andaimes, estruturas metálicas ponderar remover a vítima; atenção ao uso do DAE sobre metal
Químico e tóxico produtos de limpeza da piscina, gás, fumo arejar, não inalar, contactar o CIAV (800 250 250) ou o 112
Biológico sangue, secreções luvas, máscara, higiene das mãos
Ambiente calor, frio, chuva, água abrigar, proteger, remover do perigo
Terceiros público, praticantes agitados, trânsito afastar, atribuir tarefas, pedir apoio

Se o local for perigoso e não puderes corrigir o perigo, não entres: liga ao 112 e espera pela equipa. Se o perigo puder ser corrigido (desligar o disjuntor, fechar a atividade, afastar o público), retifica as condições de segurança e só depois abordas. Se for indispensável deslocar a vítima por perigo iminente, faz-se uma deslocação rápida para um local seguro, com o menor movimento possível.

Equipamento de proteção individual (EPI)

O EPI protege quem socorre de contacto com sangue, secreções e substâncias perigosas. Faz parte do kit do técnico:

Regras de utilização: usar sempre que disponível; verificar o prazo e a integridade; colocar antes de tocar na pessoa; não reutilizar o que é descartável; deitar fora no contentor adequado; lavar as mãos depois. Mas atenção: o INEM sublinha que o EPI não deve causar atrasos desnecessários no início das compressões torácicas. A possibilidade de transmissão de doenças durante a reanimação é muito baixa; se não tiveres luvas na paragem, começa na mesma as compressões.

Exemplo resolvido · avaliar a cena no ginásio

Um praticante cai numa sala de musculação e fica imóvel, sob uma barra mal apoiada no suporte, com água do chão a escorrer de um bebedouro com fuga junto a uma tomada.

  1. Estou seguro? Há risco elétrico (água junto à tomada) e mecânico (barra instável).
  2. Retificar: pedir a alguém para desligar o disjuntor da sala e ajudar a apoiar a barra de forma segura; sinalizar o chão molhado; afastar os restantes praticantes.
  3. Só depois aproximar-se, calçar luvas, abordar a pessoa e verificar se reage.
  4. Liga-se de imediato ao 112 se não reage.

Se não fosse possível cortar a corrente nem afastar o perigo, a atitude correta seria não tocar e esperar pelos meios.

5. Suporte Básico de Vida no adulto: reconhecer a paragem

Objetivo e limitações do SBV

O Suporte Básico de Vida (SBV) é o conjunto de manobras que mantém a circulação de sangue e a entrada de oxigénio de uma pessoa em paragem cardiorrespiratória, sem equipamento especializado, até à chegada de ajuda diferenciada. O seu objetivo é ganhar tempo: manter oxigenado o cérebro e o coração e preparar o choque do DAE. As limitações devem ser conhecidas: o SBV sozinho raramente recupera o coração (o que o recupera é o choque, quando o ritmo é desfibrilhável, e os cuidados avançados); as compressões são fisicamente cansativas e podem causar lesões, como costelas partidas, que são aceitáveis face ao risco de morte; e a eficácia depende da qualidade e da rapidez.

Os três passos para salvar uma vida

O INEM resume o algoritmo em três passos, válidos para qualquer reanimador:

  1. Verificar a segurança e a reatividade.
  2. Ligar 112 e verificar se respira.
  3. Iniciar SBV com DAE (compressões, insuflações, DAE).

Passo 1 · segurança e reatividade

Verificada a segurança (capítulo 4), aproxima-te e confirma se a pessoa reage: coloca-te ao lado, abana suavemente os ombros (estímulo tátil) e pergunta em voz alta: «Está a ouvir-me?» (estímulo verbal), de ambos os lados. Estímulo forte e doloroso não é necessário nem recomendado.

Passo 2 · ligar 112 e verificar se respira

Se a pessoa não reage, ativa de imediato o 112, em alta voz, e enquanto a chamada não é atendida verifica se respira. Se estiveres sozinho e sem telemóvel, grita por ajuda e continua a avaliar; se achares que ninguém virá, deixa a vítima o mais rapidamente possível para pedir ajuda. Quando há duas ou mais pessoas, uma liga ao 112 e a outra avalia, e deve ainda antecipar o DAE e garantir o acesso rápido ao equipamento.

Permeabilizar a via aérea. Numa pessoa inconsciente, os músculos da garganta relaxam e a língua pode obstruir a via aérea. Para a abrir:

  1. Coloca a pessoa deitada de costas.
  2. Pousa uma mão na testa e dois dedos da outra no queixo.
  3. Faz a extensão da cabeça (inclina a cabeça para trás) e eleva o queixo.

Verificar a respiração: VOS durante 10 segundos. Com a via aérea aberta, Ver os movimentos do tórax, Ouvir os sons respiratórios da boca e do nariz, Sentir o ar expirado na tua face. Não se procura pulso: o pulso é de difícil avaliação para quem não é profissional, e perde-se tempo valioso.

Respiração agónica

Nos primeiros minutos de uma paragem cardíaca podem existir movimentos de abertura da boca e respiração lenta, ruidosa ou em «suspiros» pouco frequentes, sem expansão eficaz do tórax. É a respiração agónica. Não é respiração normal e deve ser tratada como paragem: assume que a pessoa está em paragem cardiorrespiratória e inicia SBV. Em desportistas, no início da paragem a respiração pode parecer quase normal ou ofegante: se a pessoa não reage e a respiração não é normal, trata como paragem. Também pode ocorrer uma convulsão curta no início da paragem; terminada a contração dos músculos, reavalia: se não respirar ou respirar de forma anormal, é paragem.

Respiração Como se apresenta Decisão
Normal regular, tórax sobe e desce, sem esforço pessoa inconsciente: PLS e vigilância
Ausente nada se vê, ouve ou sente paragem: SBV
Agónica poucas vezes, lenta ou ruidosa, suspiros, sem expansão do tórax tratar como paragem: SBV

Regra de ouro: na dúvida entre respiração normal e anormal, é paragem: começa. O risco de fazer compressões a quem não precisa é pequeno; o de não fazer a quem precisa é a morte.

Exemplo resolvido · decidir: respira ou não respira?

Um praticante de 58 anos colapsa numa aula de ciclismo indoor. Não reage ao abanar nem à voz. O técnico liga ao 112 em alta voz, abre a via aérea e faz o VOS durante 10 segundos: vê o peito a mexer uma vez, ouve um ronco forte, e só volta a ver outro movimento seis segundos depois.

  1. Reage? Não.
  2. Liga 112 em alta voz: feito.
  3. Via aérea aberta: testa e queixo, cabeça para trás.
  4. VOS 10 s: uma respiração ruidosa a cada seis segundos, sem elevar o tórax de forma normal.
  5. Interpretação: a respiração é agónica, logo não é normal.
  6. Decisão: paragem cardiorrespiratória. Pede o DAE e inicia compressões.

O técnico não perdeu tempo a procurar pulso nem esperou «ver se piora».

6. Compressões torácicas e insuflações

Compressões torácicas de qualidade

As compressões mantêm o sangue a circular para o cérebro e o coração, por isso são a prioridade do SBV. A técnica no adulto é:

  1. Posiciona-te ao lado da vítima, com ela deitada de costas numa superfície firme; descobre o tórax se for possível.
  2. Coloca a base de uma mão no centro do tórax (metade inferior do esterno) e a outra mão por cima, entrelaçando os dedos.
  3. Mantém os braços e cotovelos esticados, com os ombros na vertical sobre as mãos; o peso do tronco faz a força.
  4. Comprime o esterno 5 a 6 cm de profundidade.
  5. A uma frequência de 100 a 120 compressões por minuto (ritmo de uma música conhecida; contar em voz alta ajuda).
  6. No fim de cada compressão, deixa o tórax voltar totalmente (descompressão completa), sem tirar as mãos do peito.
  7. Minimiza as interrupções: só pares para as insuflações ou para seguir o DAE. Sem compressões, o sangue não circula.

Numa cama ou colchão mole, não percas tempo a passar a pessoa para o chão: inicia na cama e comprime mais fundo para compensar; quando conseguires, passa para uma superfície rígida. Compressões superficiais não produzem fluxo adequado.

Insuflações

Após 30 compressões, fazem-se 2 insuflações. O rácio é 30:2.

Quando parar e afogamento

Mantém as manobras até chegar ajuda diferenciada que indique para parar ou trocar, até a vítima mostrar sinais de vida (acorda, mexe-se, respira normalmente) ou até à exaustão. Com várias pessoas, troca quem comprime a cada 2 minutos, na análise do DAE. Se recuperar respiração normal mas continuar inconsciente, PLS e vigilância.

Afogamento (piscinas):

Em vítimas de afogamento (relevante em piscinas), a causa é a falta de oxigénio. Depois de a retirar da água em segurança, se não respira normalmente, o procedimento começa com 5 insuflações iniciais antes das compressões e, a seguir, mantém-se o ciclo 30:2. Pede ajuda cedo e usa o DAE depois de secar o tórax.

Exemplo resolvido · contar um ciclo e uma troca

Dois técnicos fazem SBV a um praticante em paragem. O técnico A começa a comprimir ao ritmo de 110 por minuto.

  1. Tempo das 30 compressões: 30 ÷ 110 = 0,27 min ≈ 16 segundos.
  2. Insuflações: 2 × 1 s, com pausa total menor que 10 s.
  3. Ciclo completo ≈ 16 + 6 = cerca de 22 segundos na prática.
  4. Em 2 minutos fazem-se cerca de 5 ciclos, ou seja, 150 compressões; aí o DAE analisa e o técnico B toma o lugar de A em menos de 5 segundos.
  5. Verificação de qualidade: profundidade 5 a 6 cm, tórax a voltar totalmente, mãos sem sair do peito.

A troca nos 2 minutos mantém a qualidade e usa a pausa natural da análise.

7. O Desfibrilhador Automático Externo (DAE)

O que é e para que serve

O DAE é um aparelho computorizado que se liga ao tórax da vítima por elétrodos adesivos, analisa a atividade elétrica do coração e recomenda, se for necessário, um choque capaz de repor um ritmo eficaz. É extremamente seguro e fiável quando usado adequadamente: os erros ocorrem mais por falhas na interação do reanimador com o aparelho do que por mau funcionamento. É um aparelho para leigos: fala, mostra imagens e diz o que fazer. O DAE nunca dá um choque a quem não precisa: se o ritmo não é desfibrilhável, não recomenda choque.

O DAE é usado com SBV, não em vez dele. O INEM recomenda a utilização do DAE por qualquer reanimador, porque o risco de lesões é baixo e o benefício é grande. A prática do DAE por pessoal não médico está enquadrada pelo Decreto-Lei n.º 188/2009, na redação do Decreto-Lei n.º 184/2012, que prevê o Programa Nacional de DAE (PNDAE), aprovado e coordenado pelo INEM: a instalação em locais de acesso público e a formação dos operadores obedecem ao diploma em vigor, que deves consultar na redação atual. O equipamento é identificado pelo símbolo internacional do coração com raio.

Sequência de utilização

  1. Liga o DAE assim que o tiveres (botão de ligar, ou abre a tampa em alguns modelos) e segue as instruções visuais e sonoras. Se estiveres sozinho, vai buscá-lo apenas se o tiveres a cerca de um minuto; caso contrário, começa já o SBV.
  2. Descobre o tórax e prepara a pele: se necessário seca-a (suor, água) e remove o excesso de pelos com a lâmina que acompanha o DAE. O soutien não impede a colocação; só se retira ou corta se atrapalhar.
  3. Cola os elétrodos em pele seca, bem aderentes, conforme a figura. Posição recomendada: um à direita do esterno, abaixo da clavícula direita; o outro na linha média da axila esquerda. Evita o mamilo e, se houver pacemaker ou desfibrilhador implantado (volume sob a pele no peito), cola a mais de 8 cm do aparelho.
  4. Liga os cabos ao DAE, se não estiverem já ligados.
  5. Análise do ritmo: o DAE inicia a análise sozinho. Diz «Afastar!» e garante que ninguém toca na vítima, nos cabos ou no aparelho: qualquer interferência pode impedir o reconhecimento de um ritmo desfibrilhável.
  6. Choque, se recomendado: continua a comprimir durante a pré-carga se o aparelho o permitir; depois garante o afastamento de todos, verifica que o oxigénio está a pelo menos um metro da zona, localiza o botão e carrega (os modelos totalmente automáticos dão o choque sozinhos).
  7. Retoma de imediato o SBV, 30:2, sem verificar nada, por 2 minutos.
  8. O DAE volta a analisar de 2 em 2 minutos e o ciclo repete-se. Não desligues nem retires os elétrodos.

Se a mensagem do DAE for «choque não recomendado», retoma as compressões logo. Isto não significa que a pessoa esteja bem, mas que o ritmo não responde a choque: continua o SBV.

Segurança com o DAE

Exemplo resolvido · primeiro minuto com DAE

Num pavilhão, uma árbitra cai inanimada. O técnico confirma segurança, a pessoa não reage e não respira normalmente (respiração agónica). Há mais duas pessoas e um DAE na parede.

  1. Distribuição de tarefas: «Ana, ligue 112 em alta voz. Pedro, traga o DAE.» O técnico começa compressões imediatamente.
  2. DAE chega: liga-o, o aparelho diz «Cole os elétrodos». O técnico continua a comprimir enquanto Pedro descobre o tórax e cola os elétrodos (um à direita do esterno, outro na axila esquerda).
  3. Análise: «Afastar!» Todos levantam as mãos; o aparelho analisa.
  4. Resultado: «Choque recomendado». O técnico confirma que ninguém toca e carrega o botão.
  5. Retoma de imediato 30:2 durante 2 minutos, trocando o reanimador na próxima análise.
  6. Quando chega a equipa do INEM, o técnico informa: «Paragem presenciada, SBV iniciado de imediato, um choque dado, sem sinais de vida.»

8. A posição lateral de segurança

Quando se usa

A posição lateral de segurança (PLS), também chamada posição de recuperação, usa-se em adultos e crianças inconscientes que respiram normalmente, e quando se restabelecem sinais de vida após reanimação. Mantém a via aérea aberta, evita que a língua a obstrua, e permite o escoamento de vómito e secreções. Não há riscos demonstrados na sua utilização.

Contraindicada em trauma: se há trauma ou suspeita de lesão da coluna, a vítima que respira não deve ser mobilizada até à chegada das equipas, salvo se for indispensável para manter a via aérea permeável ou se o local não for seguro.

Princípios

A PLS deve ser o mais lateral possível (a boca drena para fora), estável, sem pressão no tórax, com acesso fácil à via aérea, fácil de desfazer, sem agravar lesões e mudada de lado a cada 30 minutos para evitar pontos de pressão.

Técnica

  1. Ajoelha-te ao lado da vítima e retira objetos que a possam magoar (óculos, canetas).
  2. Garante que o corpo está alinhado. Coloca o braço mais próximo em ângulo reto com o corpo, cotovelo dobrado e palma voltada para cima.
  3. Pega na mão do braço mais afastado e traz o dorso dessa mão para junto da face do teu lado, mantendo-o (protege a cara e ajuda a rolar).
  4. Com a outra mão, dobra a perna oposta acima do joelho, com o pé no chão.
  5. Puxa essa perna na tua direção, rolando a vítima para o teu lado, enquanto apoias a cabeça com a mão.
  6. Estabiliza a perna de modo que a anca e o joelho fiquem em ângulos retos.
  7. Com uma mão na testa e dois dedos no queixo, faz a extensão da cabeça para manter a via aérea aberta.
  8. Liga ou confirma a chamada ao 112 e reavalia regularmente a respiração. Na dúvida, desfaz a PLS, abre a via aérea e faz o VOS durante 10 s.

Exemplo resolvido · colocar em PLS um praticante que recupera

Após um episódio de desmaio num treino de corrida, um praticante fica inconsciente mas respira de forma normal.

  1. Segurança verificada; não reage; 112 chamado.
  2. VOS durante 10 s: respiração normal. Não há suspeita de trauma (caiu de joelhos, não bateu na cabeça nem no pescoço).
  3. Executa a PLS nos oito passos acima, começando com o braço mais próximo a 90°.
  4. Vigia continuamente a respiração; se parar, deita-o de costas e inicia SBV.
  5. Cobre-o para o manter quente. Muda de lado aos 30 minutos se a equipa ainda não tiver chegado.
  6. Não lhe dá água nem comida.

Se existisse qualquer suspeita de queda com pancada no pescoço, a PLS não seria feita, mantendo-se a pessoa na posição encontrada com a cabeça apoiada.

9. Suporte Básico de Vida pediátrico

Quem é «pediátrico» e porque difere do adulto

Para efeitos de SBV, lactente é a criança com menos de 1 ano e criança a que tem de 1 ano até à adolescência (na prática, avalia-se pelo aspeto: se parece uma criança, aplica-se o protocolo pediátrico). A diferença de método decorre da causa: no adulto a paragem é sobretudo cardíaca (arritmia); na criança é, quase sempre, respiratória (asfixia, afogamento, engasgamento, doença respiratória) e o coração pára por falta de oxigénio. Por isso a criança precisa de oxigénio cedo: o protocolo começa com 5 insuflações iniciais.

Sequência pediátrica

  1. Segurança (para ti, para a criança e para terceiros).
  2. Reatividade: estimula com suavidade (abana os ombros da criança; no lactente, bate-lhe levemente nos pés ou nas mãos) e fala em voz alta. Grita por ajuda.
  3. Via aérea: coloca a criança de costas. Na criança, extensão ligeira da cabeça e elevação do queixo. No lactente, cabeça em posição neutra (sem inclinar para trás, para não dobrar a via aérea).
  4. Respira? Verifica durante 10 segundos com o VOS (ver, ouvir, sentir). Se respira normalmente, coloca em PLS e liga ao 112.
  5. Se não respira normalmente, faz 5 insuflações iniciais: na criança, tapando o nariz e selando a boca; no lactente, com a tua boca a cobrir a boca e o nariz. Sopra devagar, cerca de 1 segundo cada, com volume menor do que no adulto, apenas o que eleve o tórax.
  6. Sinais de vida? Após as insuflações, verifica durante não mais de 10 segundos se há movimento, tosse ou respiração normal.
  7. Sem sinais de vida: inicia compressões, no rácio 15 compressões para 2 insuflações (15:2). O minuto de SBV conta-se depois das 5 insuflações.
  8. Chamada ao 112: se estás só e sem telefone à mão, faz cerca de 1 minuto de SBV e só depois liga (se o telefone estiver contigo, liga em alta voz de imediato, sem interromper). Se estás acompanhado, uma pessoa liga logo ao 112.
  9. DAE: num colapso súbito presenciado, pede a alguém que vá buscar o DAE em simultâneo; assim que chegar, liga-o e segue as instruções (ver abaixo).

Compressões pediátricas

Lactente (< 1 ano) Criança (≥ 1 ano)
Local metade inferior do esterno metade inferior do esterno
Técnica técnica do abraço: as duas mãos a envolver o tórax e os polegares, um sobre o outro, no esterno base de uma mão (ou duas, em crianças maiores)
Profundidade pelo menos 1/3 do diâmetro do tórax (cerca de 4 cm) pelo menos 1/3 (cerca de 5 cm)
Ritmo 100 a 120 por minuto 100 a 120 por minuto
Descompressão total total
Rácio inicial 5 insuflações, depois 15:2 5 insuflações, depois 15:2

Quando há um só reanimador, 15:2; quando há dois reanimadores com formação, o rácio mantém-se 15:2 e quem comprime troca a cada 2 minutos. Em quem só aprendeu o adulto, usar 30:2 numa criança é preferível a não fazer nada.

DAE na criança

O DAE pode ser usado em crianças e lactentes. Se existirem elétrodos pediátricos ou um atenuador de energia, usam-se até aos 8 anos (cerca de 25 kg); se não existirem, usam-se elétrodos de adulto (melhor um choque do que nenhum). Com elétrodos de adulto num lactente ou numa criança abaixo de 25 kg, coloca-se um na frente do tórax e outro nas costas, para não se tocarem. Os elétrodos pediátricos nunca se usam em adultos (energia insuficiente).

Exemplo resolvido · criança que não respira na piscina

Uma criança de 7 anos é retirada da piscina inconsciente por um nadador-salvador. O técnico de apoio chega e assume com o colega, com o DAE a caminho.

  1. Segurança: a criança está fora da água, no bordo; chão molhado, atenção ao deslizar.
  2. Reage? Não. Grita por ajuda; um colega liga ao 112 em alta voz.
  3. Via aérea: extensão ligeira da cabeça. VOS 10 s: sem respiração normal.
  4. 5 insuflações iniciais, tapando o nariz e selando a boca; o tórax eleva-se.
  5. Sinais de vida? Nenhum em 10 s.
  6. Compressões no centro do tórax, com uma mão, cerca de 5 cm, a 100 a 120 por minuto; 15 compressões e 2 insuflações.
  7. Quando o DAE chega, seca o tórax, cola os elétrodos pediátricos (um à frente e um atrás se estiverem a tocar), e segue as instruções.
  8. Mantém o SBV até chegar a equipa.

10. Obstrução da via aérea por corpo estranho (OVA)

O que é e porque importa

A obstrução da via aérea por corpo estranho (alimento, objeto pequeno, brinquedo) é uma causa de paragem acidental potencialmente reversível. Está muitas vezes ligada à alimentação e é mais frequente em crianças e idosos. A vítima está inicialmente consciente e reativa, o que dá oportunidade de intervir cedo. O risco é maior com redução da consciência, álcool ou drogas, alterações neurológicas, demência e dentição inexistente. Em contexto desportivo, pode acontecer com goma de mascar, protetores bucais, barras energéticas, comida em eventos e festas.

Tipos de obstrução e sintomas

Obstrução ligeira Obstrução grave
Consciência reativa reativa, depois pode perder-se
Fala consegue falar incapaz de falar
Tosse eficaz, forte fraca, ineficaz ou ausente
Respiração consegue respirar, por vezes ruído na inspiração esforço, ruído agudo ou silêncio; cianose (cor azulada); pode levar as mãos ao pescoço (sinal universal de asfixia)

Atuação no adulto (OVA grave, consciente)

  1. Obstrução ligeira: encoraja a tossir, não bates nas costas nem fazes manobras, vigia.
  2. Obstrução grave, consciente, sem tosse eficaz: liga ao 112 se houver alguém para o fazer, e aplica:
  3. Até 5 pancadas interescapulares: colocas-te ao lado e ligeiramente atrás, passas um braço por baixo da axila e seguras o tórax inclinado para a frente, para que o objeto saia pela boca; dás pancadas com a base da mão entre as omoplatas; verificas após cada pancada se resolveu.
  4. Se não resolveu, até 5 compressões abdominais (manobra de Heimlich): colocas-te atrás, rodeias o abdómen com os braços, inclinas a pessoa para a frente, fechas o punho acima do umbigo (polegar contra o abdómen), sobrepões a outra mão e comprimes para dentro e para cima, em movimentos distintos, verificando após cada um.
  5. Alterna pancadas e compressões abdominais até o objeto sair ou a vítima ficar inconsciente.
  6. Em grávidas e em pessoas muito obesas, substituem-se as compressões abdominais por compressões torácicas.
  7. Vítima inconsciente: amparas até ao chão de costas, ligas 112 (se ainda não tinhas), e inicias compressões torácicas e insuflações (30:2). As compressões também aumentam a pressão na via aérea e podem expulsar o objeto. Só tentas remover um corpo estranho com os dedos quando está bem visível na boca; nunca «às cegas».
  8. Depois do sucesso, observação médica é recomendada em tosse persistente, dificuldade em engolir ou sensação de corpo estranho, e também depois de compressões abdominais ou torácicas, que podem causar lesões internas.

Atuação na criança e no lactente

Lactente (< 1 ano) Criança (≥ 1 ano)
Passo 1 5 pancadas nas costas, com o lactente de bruços ao longo do teu antebraço, cabeça mais baixa que o corpo, apoiando o maxilar 5 pancadas nas costas, com a criança inclinada para a frente
Passo 2 5 compressões torácicas (técnica do abraço, polegares na metade inferior do esterno, mais lentas e vigorosas, com o lactente de costas, cabeça baixa) 5 compressões abdominais (como no adulto)
Nunca compressões abdominais no lactente

Se a criança fica inconsciente, abre a via aérea, vê se há corpo visível, faz 5 insuflações e prossegue com compressões (15:2), ligando ao 112 se ainda não ligaste.

Exemplo resolvido · engasgamento num evento

Num torneio escolar, um adolescente deixa de falar, leva as mãos ao pescoço, fica azulado e faz um ruído agudo ao inspirar. Não tosse.

  1. Classificação: obstrução grave (não fala, tosse ausente, cianose).
  2. Alguém liga ao 112.
  3. Pancadas: o técnico coloca-se ao lado e ligeiramente atrás, apoia o tórax, inclina-o para a frente e dá até 5 pancadas entre as omoplatas, verificando após cada uma.
  4. Não resolveu: coloca-se por trás, compressões abdominais (punho acima do umbigo, para dentro e para cima), até 5, verificando cada uma.
  5. Alterna 5 pancadas e 5 compressões até sair o objeto.
  6. Se ficar inconsciente, amparar até ao chão e iniciar SBV 30:2.
  7. Se resolveu, observação médica mesmo assim.

11. Comunicação de suporte, controlo emocional e liderança em emergência

Porque a comunicação é uma técnica de socorro

Numa emergência, as pessoas ficam em pânico, falam todas ao mesmo tempo, ou paralisam. O técnico de desporto tem de liderar sem se impor: dar ordens claras, falar com a pessoa, comunicar com o 112 e com a equipa que chega. A comunicação é parte do SBV.

Com a vítima consciente

Com os presentes

Atribui tarefas concretas a pessoas concretas, olhando para elas e dizendo o nome ou apontando: «A pessoa de camisola azul: ligue ao 112 e diga que é uma paragem, aqui na rua tal». Uma ordem genérica («alguém ligue!») fica sem dono. Dá também uma tarefa a quem está em pânico, que o acalma: segurar um casaco, abrir a porta, contar as compressões em voz alta. Promove a calma: a tua atitude contagia.

Com os agentes de emergência

Usa uma estrutura curta, por exemplo o que aconteceu, quando, o que encontrei, o que fiz, o estado atual. Ex.: «Praticante de 45 anos, colapsou às 18h10, não respondia e não respirava normalmente; iniciámos compressões às 18h11; o DAE deu um choque às 18h14; sem sinais de vida.» É objetivo, completo e curto.

Controlo emocional e autorregulação

Ao ver uma pessoa em paragem, o corpo acelera: coração a bater, mãos a tremer, vontade de fugir. Estratégias para manter o controlo:

Exemplo resolvido · liderar o grupo

Num treino de grupo numa piscina coberta, uma praticante desmaia dentro de água e é retirada. O pânico instala-se e gritam todos.

  1. Voz firme e curta: «Vamos todos sair da zona da piscina, por favor.»
  2. Tarefas nominais: «Marta, ligue 112 em alta voz; Rui, vá buscar o DAE e a mala; Sofia, abra a porta da rua e espere a ambulância.»
  3. Com a vítima, ao verificar a consciência, diz o nome dela e explica o que faz.
  4. Voz de comando para si: conta as compressões em voz alta, mantendo o ritmo.
  5. Na chegada da equipa, a passagem faz-se em 5 frases objetivas.
  6. Depois, registo da ocorrência e uma conversa com o grupo e com o responsável.

12. Feridas, hemorragias e choque

Feridas

Uma ferida é uma rotura da pele ou das mucosas. Os cuidados dependem da gravidade, mas há regras gerais:

  1. Protege-te: luvas.
  2. Controla a hemorragia se existir (ver abaixo).
  3. Lava com água corrente e soro fisiológico ou água potável, afastando a sujidade, a partir do centro para fora, com compressas limpas; não uses algodão (deixa fios); não uses álcool diretamente na ferida.
  4. Desinfeta a pele em redor com antissético e cobre com compressa esterilizada e adesivo ou ligadura.
  5. Vigia sinais de infeção (vermelhidão, calor, pus, febre) e recomenda avaliação médica em feridas profundas, sujas, por mordedura, em articulações, na face, ou se a vacinação contra o tétano não estiver em dia.

Hemorragias

Tipo Aspeto Gravidade
Capilar sangra por toda a superfície, pouco ligeira
Venosa fluxo contínuo, sangue vermelho-escuro moderada a grave
Arterial jato pulsátil, vermelho-vivo grave, risco de vida

Hemorragia externa, controlo em escada:

  1. Pressão direta sobre a ferida com compressa ou pano limpo, com a mão (de luva), durante pelo menos 10 minutos, sem levantar para espreitar.
  2. Se continua, penso compressivo: mantém a compressa e envolve com ligadura firme (sem cortar a circulação), acrescentando mais compressas por cima, sem retirar as primeiras.
  3. Eleva o membro se não houver fratura.
  4. Se uma hemorragia de membro, com risco de vida, não é controlada pela pressão direta, aplica-se um garrote (ou penso hemostático), 5 a 7 cm acima da ferida, apertando até a hemorragia parar, e anota a hora; é uma técnica para ser usada só com treino e quando a pressão direta falha.
  5. Liga 112 em hemorragias graves, e mantém a pessoa deitada, aquecida, em repouso.

Epistaxe (sangue pelo nariz): sentar, cabeça ligeiramente inclinada para a frente, apertar a parte mole do nariz durante cerca de 10 minutos, respirar pela boca. Se não pára ou se foi um traumatismo, pedir avaliação.

Hemorragia interna: suspeita-se por mecanismo violento, dor, hematoma crescente, palidez, suores, pulso rápido, sede. Liga ao 112 e trata como choque.

Choque

O choque é a falha de circulação eficaz de sangue pelos órgãos, e é uma emergência. Pode ser por hemorragia, desidratação, dor intensa, reação alérgica, problema cardíaco. Sinais: palidez, pele fria e húmida (suores frios), pulso rápido e fraco, respiração rápida, sede, ansiedade, tonturas, confusão e, por fim, perda de consciência.

Atuação: liga ao 112; trata a causa (controla a hemorragia); deita a pessoa e eleva-lhe as pernas cerca de 30 cm (se não houver suspeita de fratura de pernas, coluna ou lesão da cabeça); cobre-a para a manter quente; não dês comida nem bebida; vigia consciência e respiração; fala com ela. Se perder a consciência e respirar, PLS; se parar de respirar, SBV.

Exemplo resolvido · corte profundo na perna

Um praticante de ténis de mesa cai sobre uma estrutura metálica e sofre um corte profundo na perna, com sangue a sair em jato.

  1. Segurança e luvas; afastar o material cortante.
  2. Pressão direta com compressas e a palma da mão, de imediato; liga 112 (outro presente).
  3. Mantém a pressão 10 minutos; as compressas ficam encharcadas, acrescenta mais por cima, sem as retirar.
  4. Penso compressivo com ligadura firme; eleva a perna (sem fratura).
  5. Sinais de choque? Pele fria e pálida: deita-o, cobre-o, eleva as pernas, não lhe dá de beber.
  6. Se mesmo assim a hemorragia não pára, aplica garrote acima da ferida, anota a hora e informa a equipa.
  7. Entrega à equipa: hora, local, tempo de pressão, se foi usado garrote.

13. Traumatologia: queimaduras, olhos, objetos empalados, articulações e fraturas

Queimaduras

Grau Aspeto Dor
1.º (superficial) vermelhidão, sem bolhas dolorosa
2.º (espessura parcial) bolhas, pele húmida e rosada muito dolorosa
3.º (espessura total) branca, acastanhada ou carbonizada, seca pouca dor (nervos destruídos)

Atuação:

  1. Afasta a vítima da fonte (fogo, líquido quente, eletricidade desligada, produto químico).
  2. Arrefece a queimadura com água corrente fresca (não gelada) durante cerca de 20 minutos; quanto mais cedo, melhor. Numa criança ou numa queimadura extensa, vigia o frio do resto do corpo e mantém-no tapado. Em queimaduras químicas, irriga abundantemente com água, retirando as roupas contaminadas.
  3. Retira anéis, relógios e roupas que não estejam aderidas, antes de inchar.
  4. Cobre com um penso não aderente ou película de cozinha, em tira, sem apertar.
  5. Não rebentes bolhas, não apliques gelo, pasta de dentes, manteiga, óleo, cremes, nem retires roupa colada.
  6. Mantém a pessoa quente (o resto do corpo) e liga 112 em queimaduras extensas, de face, mãos, pés, genitais, de 3.º grau, químicas, elétricas, nas vias respiratórias, ou em crianças se forem extensas ou com bolhas amplas (nas restantes queimaduras de crianças, procura avaliação médica urgente).

Traumatismos oculares

Objetos empalados

Nunca retires um objeto empalado (vareta, lâmina, estaca): ele pode estar a tamponar um vaso. Imobiliza-o com compressas e ligaduras volumosas em torno, controla a hemorragia à volta, sem comprimir o objeto, mantém a pessoa quieta e liga 112. Se for um objeto que impede o SBV (no tórax) e a pessoa está em paragem, a equipa decide; pede instruções ao CODU.

Traumatismo das articulações

Atuação (princípios de PRICE adaptados): Proteger (parar o exercício) e repouso; frio protegido por um pano, 10 a 20 minutos; compressão com ligadura elástica sem apertar; elevar o membro. Imobiliza em caso de dor intensa, deformidade ou incapacidade, e encaminha para avaliação médica; as lesões desportivas mal tratadas voltam, e o regresso ao treino deve ser gradual e sob orientação.

Fraturas

Uma fratura é a rotura de um osso. Fechada (pele intacta) ou aberta/exposta (osso visível ou ferida por onde o osso saiu). Sinais: dor intensa e localizada, deformidade, edema, hematoma, impotência funcional, crepitação, ferida com osso à vista.

Atuação:

  1. Segurança e luvas; liga 112 se grave (coxa, bacia, coluna, aberta, vários ossos, crianças com dúvidas).
  2. Não mexas na pessoa nem tentes endireitar o membro.
  3. Imobiliza o membro na posição em que está, incluindo a articulação acima e abaixo, com talas (ou material improvisado) acolchoadas e ligaduras, ou com lenço triangular como funda no braço.
  4. Verifica cor, temperatura e sensibilidade da ponta do membro antes e depois.
  5. Fratura aberta: controla a hemorragia à volta, cobre com compressas esterilizadas, não empurres o osso.
  6. Aplica frio protegido, mantém a pessoa aquecida e sem comer nem beber (pode precisar de cirurgia).

Exemplo resolvido · braço fraturado num torneio

Num treino de basquetebol, uma jovem cai sobre o braço e fica com o antebraço deformado e dor muito forte.

  1. Segurança: parar o jogo, afastar os restantes.
  2. Avaliação: consciente, respira; dor intensa, deformidade, edema; suspeita de fratura.
  3. Não endireita; apoia o braço na posição encontrada.
  4. Tala: acolchoa com uma toalha, coloca uma tala curta no antebraço, inclui punho e cotovelo, fixa com ligadura sem apertar; confirma que os dedos estão quentes, com cor normal e sensibilidade.
  5. Funda com lenço triangular.
  6. Frio protegido; liga ao 112 ou combina o transporte assistido consoante a gravidade.
  7. Informa a família e regista a ocorrência.

14. Lesões desportivas, prevenção e primeiros socorros

O que são lesões desportivas

As lesões desportivas resultam da prática de exercício: por trauma agudo (queda, colisão, torção) ou por sobrecarga (uso repetido, tendinite). Conhecer as mais frequentes ajuda a reconhecer e a prevenir.

Lesão O que é Sinais Primeiros socorros
Contusão pancada sem ferida, com hematoma dor, inchaço, mancha frio protegido, repouso
Entorse lesão de ligamento dor, edema, hematoma, instabilidade repouso, frio, compressão, elevação
Distensão / rotura muscular músculo esticado ou rasgado dor súbita, falha, por vezes depressão palpável parar, frio, compressão, avaliação médica
Luxação osso fora da articulação deformidade, dor intensa imobilizar, não reduzir, 112
Fratura osso partido dor, deformidade imobilizar na posição, 112 se grave
Feridas e escoriações pele cortada ou raspada dor, sangue lavar, cobrir

Prevenção das lesões

Concussão no desporto

A concussão é uma lesão cerebral causada por pancada na cabeça ou noutra parte do corpo que transmite força à cabeça. Não é preciso perder a consciência: a maioria das pessoas com concussão não desmaia. Sinais e sintomas: dor de cabeça, tonturas, confusão, olhar «vazio», perda de memória do acontecimento, lentidão a responder, náuseas, sensibilidade à luz, alterações de equilíbrio, irritabilidade, sonolência.

Atuação:

  1. Retirar de imediato do treino ou jogo, sem exceção: «na dúvida, fica de fora».
  2. Não deixar sozinho; vigiar nas primeiras horas.
  3. Não regressar à atividade nesse dia, e só depois de avaliação médica e seguindo um regresso gradual.
  4. Ligar 112 perante sinais de alarme: perda de consciência, agravamento da dor de cabeça, vómitos repetidos, confusão crescente ou sonolência extrema, convulsão, fraqueza ou dormência, pupilas desiguais (verifica com uma lanterna se reagem à luz e se têm o mesmo tamanho), fala arrastada, dor no pescoço, perda de líquido ou sangue pelo nariz ou ouvido.
  5. Não dar medicação por iniciativa própria.

Em crianças e adolescentes a vigilância é mais exigente, e a decisão de regresso à escola e ao desporto deve ser clínica.

Traumatismo da coluna vertebromedular

Suspeita-se perante: queda de altura, mergulho em águas pouco profundas, colisão violenta, pancada na cabeça com perda de consciência, dor no pescoço ou costas, formigueiro, dormência, fraqueza ou incapacidade de mover membros.

Atuação: não movas a pessoa (a não ser que haja perigo iminente ou paragem respiratória); pede-lhe que não se mexa e estabiliza a cabeça em posição neutra com as mãos, apoiando-a; liga 112; vigia respiração e consciência; não removas o capacete (apenas se for indispensável para a via aérea ou o SBV). Se não respira, a via aérea e o SBV têm prioridade sobre a coluna: abre-se a via aérea com o mínimo de movimento e inicia-se SBV.

Golpe de calor e doenças do calor

O exercício intenso no calor aumenta a temperatura do corpo e pode ser perigoso.

Exaustão pelo calor Golpe de calor
Sinais suor intenso, cansaço, cefaleia, náuseas, tonturas, cãibras, pele fresca ou pegajosa temperatura do corpo acima de 40 °C, confusão, comportamento estranho, desmaio, convulsão; pele quente
Gravidade moderada emergência de risco de vida
Atuação parar, sombra, arrefecer, hidratar aos poucos liga 112; arrefecimento imediato

Golpe de calor, atuação: parar o exercício, levar para sombra, tirar roupa, e arrefecer o mais depressa possível: o melhor é imersão em água fria (cobrindo o corpo, mantendo a cabeça fora), ou, se não for possível, toalhas molhadas, ventilação, gelo ou compressas frias no pescoço, axilas e virilhas. Não dar de beber a quem está confuso. Monitorizar respiração e consciência. Prevenção: aclimatização progressiva, evitar as horas de maior calor, água e pausas, roupa leve, vigiar sinais.

Exemplo resolvido · concussão num jogo de formação

Numa partida de andebol de iniciados, uma jogadora choca de cabeça com uma colega, levanta-se, mas pergunta duas vezes em que parte do jogo estão e queixa-se de dor de cabeça e enjoo.

  1. Reconhecer: pancada na cabeça + confusão + dor de cabeça + náusea = suspeita de concussão, ainda que não tenha desmaiado.
  2. Retirar do jogo, sem discussão, e não a deixar sozinha.
  3. Observar sinais de alarme: se vomita repetidamente, fica sonolenta, confusa, tem dor no pescoço, convulsão ou pupilas diferentes, liga 112.
  4. Contactar os pais (é menor) e recomendar avaliação médica.
  5. Regra: não volta a jogar nesse dia; regresso gradual só após autorização clínica.
  6. Registo factual da ocorrência.

15. Outras emergências médicas

Em todas estas situações, a base é a mesma: segurança, avaliação (consciente? respira?), pedido de ajuda ao 112, apoio calmo, vigilância, e SBV se a pessoa ficar inconsciente e sem respiração normal.

Emergência Sinais O que fazer O que não fazer
Dor precordial (suspeita de enfarte) dor ou aperto no peito, que pode irradiar para braço, mandíbula ou costas; suores, náuseas, falta de ar, palidez parar tudo, sentar confortavelmente, 112, acalmar, preparar o DAE; seguir as instruções do CODU; medicação (por exemplo, ácido acetilsalicílico mastigável) só por indicação do CODU deixar a pessoa «andar para passar», dar comida ou bebida, conduzir até ao hospital
AVC face descaída, braço sem força, fala alterada, perda súbita de visão ou equilíbrio, dor de cabeça súbita e intensa 112 de imediato (tempo é cérebro), anotar a hora de início, deitar com a cabeça ligeiramente elevada, PLS se inconsciente dar comida, bebida ou medicação; esperar que passe
Epilepsia (crise convulsiva) perda de consciência, convulsões, mordedura da língua, incontinência proteger a cabeça, afastar objetos, cronometrar, soltar roupa apertada; no fim, PLS e vigiar; 112 se dura mais de 5 minutos, se é a primeira, se há ferimentos, se repete ou não recupera segurar à força, pôr algo na boca, dar água, abanar
Hipoglicemia suor frio, tremor, fome, irritação, confusão, visão turva; glicemia baixa (cerca de 70 mg/dL ou menos) se consciente e capaz de engolir: açúcar de ação rápida (cerca de 15 a 20 g, por exemplo 3 a 4 pacotes de açúcar em água ou um copo de sumo), repetir se não melhorar em 15 min; 112 se não melhora dar por via oral a quem está inconsciente; adiar
Hiperglicemia sede intensa, urinar muito, cansaço, hálito frutado, náuseas, confusão repouso, água, avaliar com o BM-Teste, contactar o 112 se vómitos, respiração acelerada ou sonolência dar insulina ou açúcar
Intoxicação / envenenamento náuseas, vómitos, confusão, queimaduras na boca, cheiro, embalagem vazia identificar o produto, quantidade e hora; CIAV 800 250 250 ou 112; ventilar o local se for gás; guardar a embalagem provocar o vómito, dar leite ou antídotos caseiros
Choque pele pálida e suada, pulso rápido e fraco, ansiedade ver capítulo 12 dar de beber
Traumatismo craniano pancada, dor, náusea, confusão ver capítulo 14 deixar sozinho, deixar regressar
Traumatismo vertebromedular dor no pescoço, formigueiro, perda de força ver capítulo 14 mover sem necessidade

Exemplo resolvido · praticante diabético com confusão

Uma praticante com diabetes tipo 1 treina há uma hora e fica de repente suada, trémula e confusa. Diz que não almoçou.

  1. Segurança ok; consciente, responde com lentidão.
  2. Suspeita: hipoglicemia. Se a instalação tem BM-Teste e há treino na sua utilização, mede a glicemia: 58 mg/dL.
  3. Como está consciente e consegue engolir: dá-lhe cerca de 15 a 20 g de açúcar de ação rápida (sumo ou açúcar dissolvido em água).
  4. Reavalia em 15 minutos; se ainda tem sintomas, repete a dose; se não melhora, liga 112.
  5. Se ficar inconsciente: não lhe dá nada pela boca, PLS, 112 de imediato.
  6. Depois de melhorar, dá hidratos de carbono de ação lenta e recomenda avaliação pelo médico assistente.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Atuar numa emergência é seguir uma sequência. Primeiro, proteger: avaliar a segurança, usar EPI sem atrasar as compressões, respeitar os limites de atuação, o sigilo e o plano de contingência. Depois reconhecer e pedir ajuda: se a pessoa não reage, liga-se ao 112 em alta voz e verifica-se a respiração em 10 segundos (VOS); respiração ausente ou agónica é paragem. No adulto, a cadeia de sobrevivência tem quatro elos: reconhecimento e pedido de ajuda, SBV precoce, desfibrilhação precoce, cuidados avançados e recuperação. No adulto, o SBV faz-se com 30 compressões (5 a 6 cm, 100 a 120 por minuto) e 2 insuflações, usa-se o DAE logo que disponível e mantém-se até chegar ajuda, haver sinais de vida ou exaustão. Na criança começa-se por 5 insuflações, seguidas de 15:2, com compressões de cerca de um terço do tórax. A PLS protege a via aérea de quem respira normalmente mas está inconsciente, exceto em suspeita de trauma da coluna. A OVA trata-se com tosse, até 5 pancadas interescapulares e até 5 compressões abdominais (no lactente, compressões torácicas), e SBV se ficar inconsciente. No trauma, controlam-se hemorragias com pressão direta, arrefecem-se queimaduras, imobilizam-se fraturas na posição encontrada e nunca se retiram objetos empalados. Nas lesões desportivas, previne-se, reconhece-se a concussão e o golpe de calor, e nas outras emergências médicas pede-se ajuda cedo e não se dá comida, bebida nem medicação.

Exercícios resolvidos

1. Uma pessoa não reage, não respira normalmente e o 112 já foi chamado. Qual é o ritmo das compressões e a profundidade no adulto?

Resolução: 100 a 120 compressões por minuto, 5 a 6 cm de profundidade, descompressão total, rácio 30:2.

2. A 110 compressões por minuto, quanto tempo demoram 30 compressões?

Resolução: 30 ÷ 110 = 0,27 min, cerca de 16 segundos.

3. Quantos ciclos 30:2 cabem em 2 minutos e quantas compressões são?

Resolução: cerca de 5 ciclos, isto é, 5 × 30 = 150 compressões; é o intervalo habitual entre análises do DAE.

4. Uma criança de 6 anos está inconsciente e não respira. Qual é o primeiro gesto de SBV e depois?

Resolução: abrir a via aérea e fazer 5 insuflações iniciais; depois verificar sinais de vida (até 10 s) e, se não os houver, 15 compressões e 2 insuflações, ligando ao 112 (de imediato, se houver alguém, ou após cerca de 1 minuto, se estiver só).

5. Uma pessoa respira lentamente com suspiros, cerca de uma vez cada 6 segundos, e não reage. É respiração normal?

Resolução: não: é respiração agónica; assume-se paragem e iniciam-se compressões e DAE.

6. Um adulto engasgado não tosse, não fala e leva as mãos ao pescoço. O que se faz?

Resolução: obstrução grave: 112; até 5 pancadas interescapulares; se não resolver, até 5 compressões abdominais; alternar; se inconsciente, SBV.

7. Uma queimadura de água a ferver na mão, com bolhas. O que se faz?

Resolução: arrefecer com água corrente fresca durante cerca de 20 minutos, retirar anéis, cobrir com penso não aderente, não rebentar bolhas, não pôr gelo; avaliação médica.

8. Um jovem sofre pancada na cabeça, não desmaia, mas está confuso e com dor de cabeça. Pode voltar ao jogo?

Resolução: não: suspeita de concussão; retirar de imediato, vigiar, avaliação médica, regresso gradual; 112 se sinais de alarme.

9. Numa sala quente, uma praticante tem 41 °C, está confusa e a pele está quente. Que situação é e qual é a prioridade?

Resolução: golpe de calor; chamar o 112 e arrefecer de imediato (imersão em água fria, ou toalhas molhadas e ventilação).

10. Que elos da cadeia de sobrevivência estão ao alcance de quem está no local?

Resolução: reconhecimento e pedido de ajuda, SBV precoce e desfibrilhação precoce.