Sebenta · Avaliar e controlar os custos de obra (UC02015)
- Introdução
- 1. Controlar custos de obra: o ciclo do orçamento
- 2. A estrutura de custos de uma empreitada
- 3. Custos diretos: mão de obra
- 4. Custos diretos: materiais e fichas de preços simples
- 5. Fichas de preços compostos
- 6. Custos de equipamentos
- 7. Custos de estaleiro
- 8. Custos indiretos: estrutura, custos gerais, lucro e risco
- 9. Preços de venda unitários e o preço total da empreitada
- 10. Consulta ao mercado e análise comparativa de propostas
- 11. Autos de medição e faturação de obra
- 12. Controlo orçamental: identificar desvios de custos
- 13. Valor ganho: medir o desempenho de custo e de prazo em conjunto
- 14. Revisão de preços em contratos públicos
- 15. Segurança, ambiente e qualidade em obra
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Uma obra pode estar tecnicamente perfeita e, ainda assim, arruinar a empresa que a construiu. O que decide se uma empreitada dá lucro ou prejuízo não é só a qualidade da execução, é o controlo de custos: saber quanto cada trabalho custa mesmo, comparar com o que estava previsto, e agir a tempo quando algo se desvia.
Esta sebenta prepara-te para essa função, comum aos gabinetes de projeto, às empresas de construção, às autarquias e ao próprio estaleiro. No fim, deves ser capaz de controlar o orçamento de obra, monitorizar os custos de materiais e mão de obra, calcular custos diretos, indiretos e de estaleiro, e elaborar fichas de preços simples e compostos, que são as quatro realizações centrais do referencial desta unidade curricular.
O percurso segue a lógica de uma obra real: primeiro entendemos como se estrutura um orçamento, depois desdobramos cada família de custos (mão de obra, materiais, equipamentos, estaleiro, custos indiretos), aprendemos a calcular preços de venda, e por fim tratamos do controlo em obra: autos de medição, desvios, valor ganho e revisão de preços. Fechamos com as normas de segurança, ambiente e qualidade que atravessam todo o processo.
1. Controlar custos de obra: o ciclo do orçamento
Uma empreitada de construção passa por três orçamentos diferentes, e confundi-los é o primeiro erro de quem começa:
- Orçamento de proposta: o preço que a empresa apresenta ao dono de obra em concurso, calculado a partir de um mapa de quantidades e preços unitários.
- Orçamento de execução (interno): o custo que a empresa prevê realmente gastar para cumprir o contrato, com a margem de lucro já descontada. É este orçamento que se controla mês a mês.
- Custo real: o que a obra efetivamente consumiu, apurado a partir de faturas, folhas de ponto e requisições.
Controlar custos é comparar continuamente o orçamento de execução com o custo real, obra a obra e rubrica a rubrica, para agir enquanto ainda há tempo de corrigir o rumo. Uma empresa que só descobre o prejuízo no fecho da obra já não pode fazer nada.
O ciclo típico de controlo é mensal: medir o trabalho executado, apurar o custo real do mês, comparar com o previsto, identificar desvios, corrigir. Este ciclo repete-se do início ao fim da empreitada e é a espinha dorsal desta unidade curricular.
Uma obra sem controlo de custos não é uma obra descuidada, é uma obra às cegas. O lucro decide-se na gestão diária, não só no preço que se cobrou ao cliente.
2. A estrutura de custos de uma empreitada
Todo o preço de venda de uma empreitada resulta de somar quatro grandes blocos:
| Bloco | O que inclui |
|---|---|
| Custos diretos | mão de obra, materiais, equipamentos e subempreitadas afetos diretamente ao trabalho |
| Custos de estaleiro | instalações, vedação, segurança, direção de obra, energia e água do estaleiro |
| Custos indiretos | estrutura da empresa, custos industriais, custos gerais imputáveis à obra |
| Lucro e risco | a margem que remunera o capital e cobre a incerteza do negócio |
Vamos seguir um caso concreto ao longo da sebenta: uma empreitada de construção de um pavilhão industrial, com orçamento total de 250.000 € e prazo de execução de 5 meses.
Exemplo resolvido · orçamento por blocos
O orçamento de execução da obra reparte-se assim:
| Rubrica | Valor | % do orçamento |
|---|---|---|
| Mão de obra | 70.000 € | 28,0% |
| Materiais | 90.000 € | 36,0% |
| Equipamentos | 20.000 € | 8,0% |
| Subempreitadas | 10.000 € | 4,0% |
| Total custos diretos | 190.000 € | 76,0% |
| Estaleiro | 15.000 € | 6,0% |
| Custos indiretos | 25.000 € | 10,0% |
| Lucro e risco | 20.000 € | 8,0% |
| Total do orçamento | 250.000 € | 100% |
Cálculo da percentagem de cada rubrica: valor da rubrica a dividir pelo orçamento total (250.000 €), a multiplicar por 100. Por exemplo, a mão de obra: 70.000 / 250.000 × 100 = 28,0%. Repara que os custos diretos, sozinhos, já representam três quartos do orçamento: é aí que se ganha ou perde a maior parte da margem.
3. Custos diretos: mão de obra
O custo de mão de obra não é só o salário. Inclui os encargos sociais (segurança social, seguro de acidentes de trabalho, subsídios) que a empresa paga por cima do salário base, e o rendimento de cada trabalhador (quanto produz por hora).
Para calcular o custo de mão de obra de um trabalho:
- Determinar o custo horário de cada categoria profissional (salário + encargos sociais, a dividir pelas horas úteis do ano).
- Determinar o rendimento (tempo necessário para produzir uma unidade do trabalho, em horas por unidade).
- Multiplicar custo horário pelo rendimento, para obter o custo de mão de obra por unidade.
Exemplo resolvido · custo de mão de obra por m³ de betão armado
Uma equipa de betonagem produz 1 m³ de betão armado em 2 horas de trabalho, a um custo horário médio de 11 €/hora (já com encargos sociais incluídos):
Custo de mão de obra por m³ = 2 h × 11 €/h = 22 €/m³
Este valor entra depois na ficha de preço composto do betão armado, que vemos na secção 5.
4. Custos diretos: materiais e fichas de preços simples
Uma ficha de preço simples regista o custo unitário de um único material, já com as perdas normais de manuseamento e colocação:
Custo do material = preço de compra × (1 + coeficiente de perdas)
Exemplo resolvido · ficha de preço simples do betão pronto
Betão pronto C25/30 comprado a 95 €/m³, com 5% de perdas previstas (desperdício, transporte, ajustes de cofragem):
Custo por m³ colocado = 95 × (1 + 0,05) = 95 × 1,05 = 99,75 €/m³
O mesmo raciocínio aplica-se a qualquer material: aço, cimento, tijolo, tinta. A ficha de preço simples é o "tijolo" de todas as fichas compostas seguintes.
5. Fichas de preços compostos
Uma ficha de preço composto junta todos os recursos necessários para uma unidade de trabalho completo (mão de obra, materiais, equipamentos), dando o custo direto unitário desse trabalho. É a ferramenta central desta unidade curricular: sem fichas de preços corretas, não há orçamento fiável.
Exemplo resolvido · ficha de preço composto: betão armado em sapatas C25/30 (por m³)
| Recurso | Cálculo | Custo (€/m³) |
|---|---|---|
| Betão pronto C25/30 (com 5% perdas) | 95 × 1,05 | 99,75 |
| Aço A500 (armaduras) | 80 kg × 1,15 €/kg | 92,00 |
| Cofragem | 2 m² × 12 €/m² | 24,00 |
| Mão de obra (equipa, 2 h) | 2 × 11 €/h | 22,00 |
| Equipamento (vibrador + grua rateada) | 8,00 | |
| Custo direto unitário | 245,75 |
O custo direto unitário soma-se: 99,75 + 92,00 + 24,00 + 22,00 + 8,00 = 245,75 €/m³. Este é o valor que entra no cálculo do preço de venda, na secção 9.
Uma ficha de preço composto errada propaga-se para todo o orçamento: se o custo unitário de um trabalho está mal calculado, todas as quantidades que o multiplicam herdam o erro. Confere sempre as unidades (€/m³, €/m², €/ml) antes de somar.
6. Custos de equipamentos
Uma das decisões mais importantes de uma obra é adquirir ou alugar o equipamento. Isso depende de quantas horas de utilização se preveem ao longo do ano.
Critérios gerais para selecionar equipamentos:
- Proveniência: equipamento próprio, alugado ou de subempreiteiro.
- Produtividade face à tarefa (quanto produz por hora).
- Custo médio por unidade de tempo de uso (€/hora), incluindo depreciação, manutenção, combustível e operador.
- Incidência dos encargos com o equipamento no orçamento total da obra.
Custo horário de um equipamento próprio
Custo horário = depreciação por hora + manutenção por hora + combustível por hora + custo do operador por hora
A depreciação anual calcula-se assim:
Depreciação anual = (valor de aquisição − valor residual) / vida útil em anos
Exemplo resolvido · comprar ou alugar uma retroescavadora
Aluguer: 2.500 €/mês, para 160 horas de utilização mensal, mais 6,50 €/h de combustível e 9,00 €/h de operador.
Custo só da máquina alugada = 2.500 / 160 = 15,62 €/h Custo horário total do aluguer = 15,62 + 6,50 + 9,00 = 31,12 €/h
Compra: equipamento de 65.000 €, vida útil de 8 anos, valor residual de 5.000 €, uso previsto de 1.600 h/ano, manutenção de 3,00 €/h.
Depreciação anual = (65.000 − 5.000) / 8 = 60.000 / 8 = 7.500 €/ano Depreciação por hora = 7.500 / 1.600 = 4,69 €/h Custo horário total da compra = 4,69 + 3,00 + 6,50 + 9,00 = 23,19 €/h
Ponto de equilíbrio: acima de quantas horas por ano compensa comprar? Igualando os dois custos anuais e isolando as horas, obtém-se aproximadamente 594 horas por ano. Abaixo desse valor, alugar é mais barato; acima, compensa comprar. Uma empresa que só usa a retroescavadora 300 h/ano deve continuar a alugar.
Selecionar equipamento pelo custo por unidade produzida, não pelo custo por hora
O erro mais comum na seleção de equipamentos é escolher o mais barato à hora, ignorando a produtividade.
Exemplo resolvido · o equipamento mais caro à hora pode ser o mais barato por m³
Equipamento A: 31,12 €/h, produz 18 m³/h de escavação. Equipamento B: 40,00 €/h, produz 30 m³/h de escavação.
Custo por m³ de A = 31,12 / 18 = 1,73 €/m³ Custo por m³ de B = 40,00 / 30 = 1,33 €/m³
Para escavar 500 m³: - Com A: 500 / 18 = 27,8 h, custo total = 27,8 × 31,12 ≈ 864,44 € - Com B: 500 / 30 = 16,7 h, custo total = 16,7 × 40,00 ≈ 666,67 €
Apesar de custar mais por hora, o equipamento B poupa cerca de 198 € nesta escavação, porque a maior produtividade compensa largamente o custo horário mais alto. Debitar custos de equipamentos às verbas da empreitada exige sempre este raciocínio de custo por unidade produzida.
7. Custos de estaleiro
O estaleiro é a estrutura de apoio à obra: instalações, vedação, energia, direção técnica. Os seus custos calculam-se por soma dos componentes previstos para toda a duração da obra.
Exemplo resolvido · cálculo do custo de estaleiro
Obra de 5 meses, estaleiro orçamentado em:
| Componente | Valor | % do estaleiro |
|---|---|---|
| Instalações sociais do estaleiro | 4.000 € | 26,7% |
| Vedação e sinalização de segurança | 2.500 € | 16,7% |
| Energia e água do estaleiro | 1.500 € | 10,0% |
| Direção e fiscalização de obra | 5.500 € | 36,7% |
| Limpeza e gestão de resíduos | 1.500 € | 10,0% |
| Total do estaleiro | 15.000 € | 100% |
Custo médio de estaleiro por mês = 15.000 / 5 = 3.000 €/mês. Este valor serve para orçamentar obras semelhantes: se uma nova obra durar 8 meses em vez de 5, a rubrica de direção e fiscalização (que é sobretudo tempo, não material) tende a crescer proporcionalmente ao prazo.
8. Custos indiretos: estrutura, custos gerais, lucro e risco
Os custos indiretos não se atribuem a nenhum trabalho específico da obra, mas têm de ser cobertos por todas as obras da empresa em conjunto:
- Custos de estrutura da empresa: escritório central, administração, contabilidade.
- Custos industriais: equipamento de apoio partilhado entre obras, oficinas.
- Custos gerais imputáveis a cada obra: uma quota-parte da estrutura, atribuída proporcionalmente ao volume de cada empreitada.
- Lucro e risco: a margem que remunera o capital investido e cobre imprevistos.
Na prática, os custos indiretos e a margem aplicam-se ao custo direto através de uma percentagem, definida pela empresa a partir da sua estrutura de custos histórica.
Uma empresa que ignora os custos indiretos ao orçamentar está, na prática, a subsidiar cada obra com o dinheiro da estrutura central. É um dos erros mais frequentes em pequenas empresas de construção.
9. Preços de venda unitários e o preço total da empreitada
O preço de venda unitário de um trabalho é o custo direto acrescido da percentagem de custos indiretos e margem:
Preço de venda unitário = custo direto unitário × (1 + percentagem de indiretos e margem)
Exemplo resolvido · preço de venda do betão armado em sapatas
Retomando a ficha de preço composto da secção 5, com custo direto unitário de 245,75 €/m³, e aplicando uma percentagem de custos indiretos e lucro de 25% (política desta empresa):
Custos indiretos e margem = 245,75 × 0,25 = 61,44 €/m³ Preço de venda unitário = 245,75 + 61,44 = 307,19 €/m³
Para um mapa de quantidades com 40 m³ desta rubrica:
Preço total da rubrica = 307,19 × 40 = 12.287,60 €
O preço total da empreitada é a soma dos preços totais de todas as rubricas do mapa de quantidades, cada uma calculada da mesma forma.
10. Consulta ao mercado e análise comparativa de propostas
Antes de fechar uma ficha de preço, é boa prática consultar o mercado: pedir orçamentos a vários fornecedores ou subempreiteiros para o mesmo trabalho, e comparar.
Uma consulta ao mercado deve garantir que:
- As propostas descrevem exatamente o mesmo âmbito (materiais, prazos, garantias), senão a comparação não é justa.
- O preço mais baixo nem sempre é o melhor: confere prazos de entrega, qualidade e condições de pagamento.
- Os resultados atualizam as fichas de preços simples com valores reais de mercado, em vez de estimativas.
Exemplo resolvido · comparação de propostas de subempreitada
Três subempreiteiros propõem a instalação elétrica do pavilhão:
| Subempreiteiro | Preço | Prazo | Garantia |
|---|---|---|---|
| A | 9.200 € | 3 semanas | 2 anos |
| B | 8.600 € | 5 semanas | 1 ano |
| C | 9.800 € | 3 semanas | 3 anos |
O preço B é o mais baixo, mas o prazo mais longo pode atrasar a obra e gerar custos de estaleiro adicionais (mais semanas de direção de obra). Uma análise correta pesa preço, prazo e garantia em conjunto, não escolhe só pelo número mais baixo.
11. Autos de medição e faturação de obra
O auto de medição é o documento mensal que regista os trabalhos efetivamente executados, com as respetivas quantidades, e calcula o valor a faturar ao dono de obra.
Valor do auto = soma, para cada rubrica, de quantidade executada × preço unitário contratual
Ao valor do auto aplicam-se normalmente duas deduções:
- Retenção de garantia: uma percentagem retida pelo dono de obra até à receção da obra, para cobrir eventuais defeitos.
- Amortização do adiantamento: se a empresa recebeu um adiantamento no início da obra, uma parte de cada auto amortiza esse valor.
Exemplo resolvido · auto de medição nº 3
Trabalhos executados no mês, com os preços unitários contratuais:
| Trabalho | Quantidade | Preço unitário | Valor |
|---|---|---|---|
| Betão armado em sapatas | 40 m³ | 307,19 €/m³ | 12.287,60 € |
| Alvenaria de tijolo | 250 m² | 28,50 €/m² | 7.125,00 € |
| Revestimentos | 180 m² | 22,00 €/m² | 3.960,00 € |
| Total do auto | 23.372,60 € |
Retenção de garantia contratual de 5%: 23.372,60 × 0,05 = 1.168,63 € Amortização do adiantamento (8% definido no contrato): 23.372,60 × 0,08 = 1.869,81 €
Valor líquido a pagar = 23.372,60 − 1.168,63 − 1.869,81 = 20.334,16 €
12. Controlo orçamental: identificar desvios de custos
O desvio de custos compara, para cada rubrica, o custo previsto para o avanço físico já atingido com o custo real incorrido:
Desvio = custo real − custo previsto para o avanço atingido Desvio (%) = desvio / custo previsto para o avanço atingido × 100
Exemplo resolvido · desvios ao fim do mês 3, com 60% da obra fisicamente executada
| Rubrica | Previsto para 60% | Real | Desvio | Desvio % |
|---|---|---|---|---|
| Mão de obra | 42.000 € | 46.000 € | +4.000 € | +9,5% |
| Materiais | 54.000 € | 61.000 € | +7.000 € | +13,0% |
| Equipamentos | 12.000 € | 11.000 € | −1.000 € | −8,3% |
| Subempreitadas | 6.000 € | 6.000 € | +0 € | +0,0% |
| Estaleiro | 9.000 € | 10.500 € | +1.500 € | +16,7% |
| Total | 123.000 € | 134.500 € | +11.500 € | +9,3% |
Cálculo do previsto para 60%: cada rubrica do orçamento (mão de obra 70.000 €, materiais 90.000 €, etc.) multiplicada por 0,60. Por exemplo, materiais: 90.000 × 0,60 = 54.000 €. O desvio de materiais é 61.000 − 54.000 = +7.000 €, ou seja, +13,0% acima do previsto para este ponto da obra: a rubrica mais crítica a corrigir.
Só os equipamentos apresentam um desvio favorável (−8,3%), o que pode significar boa negociação do aluguer ou menor utilização do que a planeada. No total, a obra está 9,3% acima do orçamentado para o avanço atingido, um sinal de alerta que exige ação imediata sobre materiais e mão de obra.
Um desvio de 0% numa rubrica não significa que essa rubrica seja lucrativa. Se o preço de venda dessa rubrica já tinha sido calculado abaixo do custo real, executar exatamente como previsto continua a dar prejuízo, o problema nasceu no orçamento de proposta, não na execução. Ver o exemplo seguinte.
Exemplo resolvido · o prejuízo pode já vir do orçamento, não da execução
A subempreitada elétrica foi vendida ao cliente por 8.000 €, mas o custo interno orçamentado para esse trabalho era de 10.000 € (a empresa calculou mal o preço de proposta, ou o mercado subiu entretanto).
Durante a obra, o custo real da subempreitada foi exatamente 10.000 €, ou seja, desvio de execução de 0%: a equipa cumpriu o orçamento interno à letra.
Mesmo assim, o resultado desta rubrica é 8.000 − 10.000 = −2.000 €, um prejuízo. A causa não é um desvio de custos em obra, é uma margem estrutural negativa definida na proposta. Corrigir isto exige rever os preços de venda no próximo concurso, não pressionar a equipa de obra a "poupar mais", porque não há desvio nenhum para corrigir.
13. Valor ganho: medir o desempenho de custo e de prazo em conjunto
O valor ganho (earned value) cruza três valores para dizer, em qualquer momento da obra, se se está a gastar mais do que devia e se se está atrasado:
- PV (valor planeado): o que devia ter sido gasto até agora, segundo o planeamento.
- EV (valor ganho): o valor do trabalho realmente executado até agora, medido pelo orçamento.
- AC (custo real): o que foi efetivamente gasto até agora.
A partir destes três valores calculam-se dois indicadores:
Desvio de custo (CV) = EV − AC Desvio de prazo (SV) = EV − PV Índice de desempenho de custo (CPI) = EV / AC Índice de desempenho de prazo (SPI) = EV / PV
Um CPI abaixo de 1 significa que se está a gastar mais do que o valor do trabalho feito. Um SPI abaixo de 1 significa atraso face ao planeado.
Exemplo resolvido · valor ganho ao fim do mês 3
Orçamento total da obra: 250.000 €. Ao fim do mês 3, o planeamento previa 55% de avanço, mas foi medido em obra apenas 50% de avanço físico real. O custo real incorrido até esta data foi de 134.500 €.
PV = 250.000 × 0,55 = 137.500 € EV = 250.000 × 0,50 = 125.000 € AC = 134.500 € (dado do controlo de custos)
CV = 125.000 − 134.500 = −9.500 € (a obra gastou 9.500 € a mais do que vale o trabalho feito) SV = 125.000 − 137.500 = −12.500 € (a obra está atrasada face ao planeado) CPI = 125.000 / 134.500 ≈ 0,929 (por cada euro gasto, só se produziu 0,929 € de trabalho) SPI = 125.000 / 137.500 ≈ 0,909 (a obra avança a cerca de 91% do ritmo planeado)
Ambos os índices estão abaixo de 1: a obra está simultaneamente acima do custo e atrasada. Se este ritmo de custo se mantiver, a estimativa do custo final (orçamento total dividido pelo CPI) sobe para 250.000 / 0,929 ≈ 269.000 €, cerca de 19.000 € acima do orçamento inicial. É este tipo de projeção que justifica agir já no mês 3, e não esperar pelo fecho da obra.
14. Revisão de preços em contratos públicos
Em empreitadas públicas de duração mais longa, os preços contratuais podem ficar desatualizados pela inflação dos materiais e da mão de obra ao longo da obra. A revisão de preços existe para corrigir esse efeito.
O regime legal da revisão de preços nos contratos públicos de empreitadas de obras está previsto no Decreto-Lei n.º 6/2004, articulado com o Código dos Contratos Públicos. O princípio geral, sem entrar em fórmulas nem coeficientes concretos (que variam de contrato para contrato e constam sempre do caderno de encargos):
- A revisão aplica-se com base em índices de custos de construção publicados periodicamente por entidades oficiais.
- Cada contrato define, no caderno de encargos, a fórmula de revisão e os coeficientes de ponderação para cada parcela do custo (mão de obra, materiais, equipamentos).
- A revisão calcula-se sobre os trabalhos executados em cada período, comparando o índice do mês de referência com o índice do mês da proposta.
Nunca inventes uma fórmula de revisão de preços nem os coeficientes de um contrato: eles constam do caderno de encargos de cada empreitada e da legislação aplicável. Se precisares de aplicar uma revisão real, consulta sempre o contrato e os índices oficiais publicados, nunca uma fórmula genérica de memória.
15. Segurança, ambiente e qualidade em obra
O controlo de custos não pode ignorar as atitudes e normas que atravessam toda a obra, também elas parte do referencial desta unidade curricular:
- Normas de segurança e saúde no trabalho: cumprimento obrigatório em qualquer estaleiro.
- Equipamentos de proteção individual (EPI): capacete, botas, luvas, arnês, conforme a tarefa.
- Normas de gestão de resíduos: separação e destino adequado de entulho, embalagens e resíduos perigosos.
- Normas de proteção ambiental: controlo de ruído, poeiras e efluentes do estaleiro.
- Normas da qualidade: cumprimento das especificações técnicas do projeto e dos materiais aplicados.
Ignorar estas normas gera custos escondidos: coimas, acidentes, retrabalho e reclamações que nunca aparecem numa ficha de preços mas que corroem a margem tanto ou mais do que um desvio de materiais. Rigor, autonomia, sentido de organização e respeito pelas normas definidas são atitudes tão avaliadas nesta UC como a exatidão dos cálculos.
Erros comuns
- Confundir orçamento de proposta com orçamento de execução: o primeiro é o preço ao cliente, o segundo é o custo interno a controlar.
- Ignorar os custos indiretos ao calcular preços de venda, subsidiando a obra com dinheiro da estrutura central.
- Comparar custo real com o orçamento total, em vez do previsto para o avanço físico já atingido: um desvio só faz sentido comparando o mesmo ponto da obra.
- Selecionar equipamento pelo custo por hora, ignorando a produtividade e o custo real por unidade produzida.
- Atribuir a um "desvio" um prejuízo que já nasceu no orçamento de proposta, quando a execução cumpriu exatamente o previsto.
- Inventar fórmulas ou coeficientes de revisão de preços em vez de consultar o caderno de encargos e os índices oficiais.
- Esquecer a retenção de garantia e a amortização do adiantamento ao calcular o valor líquido de um auto de medição.
Glossário
- Orçamento de proposta: preço apresentado ao dono de obra em concurso.
- Orçamento de execução: custo interno previsto pela empresa, com a margem já descontada.
- Custo direto: mão de obra, materiais, equipamentos e subempreitadas afetos diretamente a um trabalho.
- Custo de estaleiro: instalações, vedação, energia e direção de obra que servem toda a empreitada.
- Custo indireto: estrutura da empresa, custos industriais e gerais, imputados proporcionalmente às obras.
- Ficha de preço simples: custo unitário de um único material, com perdas incluídas.
- Ficha de preço composto: custo unitário de um trabalho completo, somando mão de obra, materiais e equipamentos.
- Preço de venda unitário: custo direto unitário acrescido de custos indiretos e margem.
- Mapa de quantidades: lista de trabalhos e respetivas quantidades de uma empreitada.
- Auto de medição: documento mensal que regista o trabalho executado e o valor a faturar.
- Retenção de garantia: percentagem retida pelo dono de obra até à receção da obra.
- Desvio de custos: diferença entre o custo real e o custo previsto para o mesmo avanço físico.
- Valor ganho (EV): valor do trabalho realmente executado, medido pelo orçamento.
- Valor planeado (PV): o que devia ter sido gasto segundo o planeamento, num dado momento.
- CPI/SPI: índices de desempenho de custo e de prazo, calculados a partir do valor ganho.
- Revisão de preços: atualização dos preços contratuais em função de índices oficiais de custos de construção.
- EPI: equipamento de proteção individual.
Síntese
O controlo de custos de obra segue sempre a mesma lógica: estruturar o orçamento (diretos, estaleiro, indiretos, margem) → calcular fichas de preços (simples e compostas) para chegar ao preço de venda unitário → medir o executado com autos de medição → comparar com o previsto através de desvios e do valor ganho → corrigir a tempo. Selecionar equipamentos e materiais exige olhar para o custo por unidade produzida, não para o custo por hora ou pelo preço mais baixo isolado. Um desvio de execução de 0% não garante lucro se o orçamento de proposta já nascer deficitário. Em obras públicas de longa duração, a revisão de preços protege os preços contratuais da inflação, sempre segundo a fórmula e os índices definidos no contrato, nunca inventados. Tudo isto acontece sob normas de segurança, ambiente e qualidade que são parte do trabalho, não um extra.
Exercícios resolvidos
1. Uma equipa de betonagem produz 1 m³ de betão armado em 2,5 horas, a um custo horário de 12 €/hora. Qual o custo de mão de obra por m³?
Resolução: custo = 2,5 × 12 = 30 €/m³.
2. Um material custa 60 €/unidade ao fornecedor e tem 8% de perdas previstas. Qual o custo por unidade colocada?
Resolução: custo = 60 × (1 + 0,08) = 60 × 1,08 = 64,80 €/unidade.
3. Um equipamento tem custo direto de aluguer de 35 €/h e produz 20 m² por hora. Outro custa 45 €/h e produz 32 m²/hora. Qual é mais barato por m²?
Resolução: equipamento 1: 35/20 = 1,75 €/m². Equipamento 2: 45/32 ≈ 1,41 €/m². O equipamento 2 é mais barato por m², apesar de custar mais por hora, porque a produtividade compensa.
4. Um trabalho tem custo direto unitário de 180 €/m² e a empresa aplica uma percentagem de custos indiretos e margem de 20%. Qual o preço de venda unitário?
Resolução: preço de venda = 180 × 1,20 = 216 €/m².
5. Ao fim de um mês, o previsto para o avanço atingido era 50.000 € e o custo real foi 54.500 €. Calcula o desvio em euros e em percentagem, e diz se é favorável ou desfavorável.
Resolução: desvio = 54.500 − 50.000 = +4.500 €; desvio % = 4.500 / 50.000 × 100 = +9%. É desfavorável: a obra gastou mais do que o previsto para este ponto de avanço.
6. Numa obra de 200.000 €, o valor planeado (PV) ao mês 2 é 60.000 €, o valor ganho (EV) é 54.000 € e o custo real (AC) é 58.000 €. Calcula o CPI e o SPI, e interpreta.
Resolução: CPI = 54.000 / 58.000 ≈ 0,931; SPI = 54.000 / 60.000 = 0,900. Ambos abaixo de 1: a obra está a gastar mais do que o trabalho vale e está atrasada face ao planeamento.